BRASA DORMIDA: Grupo Vissungo, o Revival!

•Novembro 13, 2009 • Deixe um comentário

Bas filipeta Vissungo 2
(Black banda ‘jurássica’ – dos anos 70 – em fase de ressuscitação)

Em 1975 foi criado no Rio de Janeiro um grupo musical chamado Grupo Vissungo. O quarteto era formado pelos irmãos Spírito Santo e Lula Espírito Santo e Carlos ‘Codó’ Brito, filho do grande violonista Clodoaldo Brito, o ‘Codó’ – professor emérito de muita gente boa, tal como João Gilberto, Caetano Veloso, Egberto Gismonti e Gilberto Gil.

A proposta do Vissungo era a de construir uma música negra brasileira moderna, a partir da similaridade evidente existente entre a cultura negra tradicional do Brasil e o que, em termos musicais, ocorria na África contemporânea, principalmente na Nigéria, terra de Fela Kuti, mas também em Angola, e Moçambique, onde florescia uma música também moderna, de intenções políticas libertárias, no contexto das lutas contra o colonialismo.

Aprofundando sua pesquisa de campo o grupo passou a exercer a difusão da música africana, tanto em seus aspectos originais quanto em sua expressão chamada de afro-brasileira se ligando a figuras essenciais desta corrente como Clementina de Jesus e João do Valle, ícones da década anterior lançados nos shows ‘Opinião’ e ‘Rosa de Ouro’ e nesta ocasião amargando o ostracismo) e um pouco mais tarde, a Aniceto ‘do Império Serrano‘, figura histórica do samba carioca mais profundo e um dos maiores especialistas em Partido Alto.

Em meados da década de 80, o Vissungo entra enfim no mercado fonográfico, a partir da autoria, junto com Wagner Tiso, da premiada trilha sonora do filme Chico Rei de Walter Lima Júnior (veja nota abaixo), único disco na trajetória do grupo que participou também nesta época como convidado especial nos discos de carreira de Milton Nascimento (‘Encontros e despedidas)’; Wagner Tiso (‘Branco & Preto/Preto & Branco’) e Tetê Espíndola (‘Gaiola’).

..”O épico Chico Rei deu continuidade ao projeto de um cinema histórico mais atento às elaborações mitológicas que ao rigor das versões acabadas. Lima Jr. usa a história do primeiro escravo a se tornar dono de ouro no Brasil para investigar as suas próprias raízes negras.

O Grupo Vissungo, em sua fusão de arte e militância, teve papel decisivo na formatação sonora do filme, que ainda mobilizou ícones da música negra brasileira como Milton Nascimento, Clementina de Jesus, Naná Vasconcelos e Geraldo Filme. “

Trecho do artigo “um cinema que quer ser música”
de Carlos Alberto Mattos Publicado na revista Veredas (CCBB/Rio,

É nesta ocasião que o grupo decide se radicar em Viena, Austria, se recompondo com músicos locais, entre os quais o guitarrista vienense Claudius Jelinek, o baixista uruguaio Pablo Solanas e o percussionista senegalês Jimmy Wolof.

O dia 5 de Novembro de 1995, num espetáculo na Sala Cecília Meirelles, em comemoração ao mês de Zumbi de Palmares marca o retorno ao Brasil. Para sua nova formação, o grupo recorreu a uma incrível fonte musical, impensável nos anos 70/80: um núcleo de jovens músicos negros, o Centro Cultural Donana, na Baixada Fluminense. De lá vieram Lauro ‘Biko’ Farias, baixo (depois no ‘O Rappa’), Reinaldo Amancio (ex- ‘Cabeça de Nego’), além do fabuloso batera Jahir Soares, decano do ‘reggae raiz’ carioca. Integraram também o Vissungo, neste seu ‘último’ espetáculo, Welington Coelho (Farofa Carioca) e Paulão Menezes (Bia Bedran). Na época de sua última tentativa de ressurgimento, antes da aposentadoria em 1996, o grupo ensaiava um novo baixista muito talentoso (e famoso hoje dia) chamado ‘Seu’ Jorge.

É incrível que agora, novamente em Novembro, exatamente no Dia Nacional da Consciência Negra, o Vissungo esteja renascendo das cinzas, e ainda recebendo seus convidados: Irinéa Maria Ribeiro, Marko Andrade e o percussionista uruguaio, Fabrício Magnone além de músicos ex-alunos do projeto Musikfabrik da Uerj.

O Grupo Vissungo 2009 é:

SPIRITO SANTO – Vocal solo, marimba, kalimba e percussão
LULA ESPIRITO SANTO – Violão e vocal
SAMUKA de JESUS – Percussão e vocal
JAHIR SOARES – Batera
LERI MACHADO- Baixo
REINALDO AMANCIO- Guitarra
RODRIGO ‘DREADS” ALCÂNTARA – Percussão geral
CARLOS CODÓ (In memorian)

Direção Técnica (Som e Luz)– Felipe Cavalieri
Direção Artística – Irinéa Maria Ribeiro
Assistente de direção – Rodrigo ‘Dreads’

Vale Negro: Festa, Folia e Festim #03/Epílogo

•Novembro 1, 2009 • 2 Comentários


Creative Commons License
cortejobm_246

Foto Marcus V. Garcia / 2009

(Será que espetáculo pode parar para o almoço?)

“Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz. “

Ao que parece, embora os ‘moderninhos da vez’ ainda não tenham se dado conta, a espetacularização de manifestações culturais– razão de nossa conversa – talvez seja um fenômeno bem mais recorrente do que se pensa, se poderia dizer até que ele é intrínseco ao desenvolvimento cultural de qualquer sociedade. Ou seja, um conceito objeto de teses e teorias que…’ chovem no molhado’.

Já pensaram nisto?

A este respeito, apenas por ironia – ou só para apimentar a discussão – eu poderia chamar a atenção dos leitores para o seguinte:

Acho que existem, grosso modo, duas correntes de pensamento embasando o discurso daqueles que pregam uma atitude menos fundamentalista em relação à preservação da cultura tradicional no Brasil.

Uma se aferra à discutível crença de que o que chamamos de Tradição, como tal, na verdade nem existiria já que, sendo mera representação simbólica de certo momento histórico, as tradições poderiam ser aleatoriamente forjadas, segundo os interesses mais diversos de grupos sociais em aliança ou em conflito, segundo fatores os mais imponderáveis e imprevisíveis.

Pode ser verdade sim, mas… E daí?

A outra corrente, ‘antiessencialista’, um pouco mais sofisticada – e, por sua perniciosidade mais discutível ainda – é aquela que preconiza que em tempos pós-modernos, não haveria mais um fator original, seminal, uma tendencia, uma vocação enfim, alimentando e dando sentido às manifestações culturais em geral o que, por extensão, anularia a possibilidade de existirem características específicas, ‘peculiaridades em suma, na cultura de um grupo social ou étnico em relação a outros.

Tudo se resumiria a uma espécie de ‘Geléia Geral’ do Gilberto Gil. Em vez da festa, o ‘Fuzuê’, a mestiçagem existencial, enfim.

Confuso, né? Sei lá. São posições que também, para mim, não fazem o menor sentido (será que por estar ultimamente lendo apenas orelhas e resenhas de livros acabei entendendo tudo às avessas? Se for isto, não se omitam. Me corrijam logo, por favor.)

O que importa é que acabei concluindo que o conceito invenção de tradições – uma obviedade em termos, vamos combinar – não deveria ser visto assim como uma prática social ‘inventada’ pelo Eric Hobsbawm, por exemplo, do mesmo modo que certas complexas minúcias e mumunhas ocorridas nas trocas e relações socioculturais na sociedade atual não foram ‘inventadas’ pelo Nèstor Canclini.

Logo, se é que existe pós modernidade – com o perdão da ‘heresia’ – ela, neste caso, não teria rigorosamente nada a ver com isto.

Quem quiser que aponte outros, mas o que estes emblemáticos pensadores, ao que tudo indica, fizeram foi apenas descobrir – e tentar explicar para simples mortais como nós – fenômenos velhos de guerra, que marcam nossos humanos jeitos de ser desde… Sei lá… Desde as cavernas.

(Desculpem a aparente erudição numa hora destas, mas acho que andam fazendo das teorias destes doutos mestres, meras ‘teses-pretextos’)

(Ai! Como estas falsas gambiarras e bandeirinhas de pós modernidades cansam a beleza dos festeiros mais cascudos.)

Querem ver só uma prova de como a idéia de se espetacularizar cultura é uma moda antiga, que não tem nada a ver com pós modernidade?

Vocês se lembram daqueles autos teatrais encenados pelos jesuítas nas colônias da África – e aqui mesmo no Brasil – no século 16? E do Padre José de Anchieta, aquele frei meio metido a santo que, pelo que disseram, rabiscava quadrinhas à Virgem Maria nas areias de uma praia dessas aí, perto de Paraty, sei lá. Lembram?

Pois ele já espetacularizava a cultura indígena escrevendo peças de teatro de rua – com música e dança – algo inspiradas, aliás, no trabalho de outro Gil (Vicente) um teatrólogo mui afamado na metrópole lusitana. No ‘Auto de São Lourenço’, inventado’ por ele já se podia entrever claramente alguma fusão dramatúrgica de elementos artísticos, das tradições culturais dos ameríndios e dos europeus, num ‘mix’ que devia ser interessantíssimo.

Este modelo de festa de rua, ideologicamente voltado para a engambelação de índios e africanos, a sua submissão à fé cristã,  ao domínio do Branco enfim, é até hoje o modelo mais bem sucedido de espetacularização conhecido entre nós. Ora, e o que era aquilo senão, nada mais nada menos, do que uma tradição inventada?

“Na natureza nada se cria tudo se transforma”:_ Olha o Lavoisier, aí gente!

Perceberam? Já estava tudo ali, na mais velhusca das filosofias (E desconfio até que era isto mesmo que os Hobsbawms e os Canclinis da vida estavam tentando nos dizer.)

Pois foi nesta constatação óbvia, nesta fonte bem ‘feijão-com-arroz’, que este autor, na qualidade de palpiteiro convidado do Cortejo das Tradições de Vassouras foi beber, no ensejo de apresentar a sua proposta.

Fui sim, mas fui com barbas de molho, pois não estava suficientemente claro porque diabos não foram logo montando a festa no formato já consagrado, tão à vista de todos? Porque teriam se exposto ao mico de inventar, justamente a tradição errada?

Afinal de contas, as referências insinuadas pelo modelito fracassado anterior sempre foram, descaradamente sucessoras deste formato afro-indígena-luso-jesuítico inventado pelo Anchieta (sem dúvida alguma, pelo menos neste aspecto, o primeiro carnavalesco deste nosso Pindorama).

Bastava, portanto transformar. Ou seja: A questão não era bem ter ou não ter um… carnavalesco. A questão era estar ou não estar antenado na cultura local, sem prepotencia sabichona.

Pois foi assim que, desviando dos poucos percalços aqui e ali que a tal reformatação da festa aqui descrita foi posta à prova (e nisto não vos irei enganar: Existiram sim fortes – embora sutis e veladas – pressões para o formato antigo perdurar).

Que deu frio na espinha deu.

————–

A Estrutura para o ‘novo ‘Cortejo das Tradições’ de Vassouras em 2009:

(Tal como foi proposto ao coletivo de grupos e à direção do Cecult/USS)

“Os grupos, em tempo determinado, se encaminharão para a praça em separado, cada grupo definindo o seu figurino e a maneira como se conduzirá (se andando, se dançando) segundo seus próprios hábitos corriqueiros ou tradicionais, até irem se encontrando e se juntando a um cortejo simples (sem o conteúdo carnavalizado) se encaminhando para a praça onde as apresentações se darão concomitantemente, segundo uma organização discreta (o telão é que as separará no ato de exibi-las, ou seja, a assistência é que vai circular entre os eventos, livremente enquanto o telão seleciona uma ordem de exibição qualquer, bem dinâmica)… .

Bem, até aí foi, exatamente assim, que as coisas rolaram. Como um relógio. Segundo os prognósticos do Cecult USS, um público recorde de cerca de 5000 pessoas assistiu a festança na praça.

A partir daí sim, foi só foguetório, cachaça e alívio. Ufa!

——————-

Os grupos e manifestações participantes:

(Segundo trechos do texto usado na locução do evento)

“Vindas de muito longe, das ruas da Corte Imperial… as Folias de Reis de hoje em dia muito mais incrementadas que as de ontem, são como dizia Mário de Andrade, uma Dança Dramática na acepção da palavra… Com mais tambores ainda, sanfona, impressionantes palhaços e muita cantoria, elas contam de porta em porta a emocionante saga do nascimento do Menino Jesus.

“…Tudo indica que a Caninha Verde veio da antiga ‘Dança de Paus’ européia ou, no nosso caso, de Portugal. O nome também sugere que a dança vem do tempo do ciclo da cana de açúcar aqui na região. …

“… Uma Ata da câmara Municipal de Vassouras de 5 de fevereiro de 1893 dava conta de ter sido banida, varrida da freguesia, a praga das hordas de desordeiros conhecidos como capoeiras. Hoje a Capoeira não é de Vassouras, não é do Rio de Janeiro e muito menos da Bahia. A Capoeira agora é do mundo inteiro.

“…Calango é música de roça, cantada nos fundos das fazendas por peões e campeiros, de improviso… Dois desafiantes … terçando versos, sempre satirizando um ao outro, como num combate verbal  mesmo, no qual o mais ridicularizado é o perdedor. Fora isto pouco se escreveu sobre o Calango…

————-

Foi isto. Os mais atentos devem ter percebido que, entre grupos confirmados para participar do evento, a maioria era formada por aqueles que praticavam manifestações que – inventadas ou desinventadas- já estavam carecas de saber como atuar em espetáculos, em grandes festas de rua.

Este era o caso flagrante das Folias de Reis, por exemplo, entre todas, a única manifestação da região realmente ambulante, apta para desfiles (cortejos, no caso), excelente para animar e eletrizar uma cidade.

Com exceção da ênfase e da prioridade que, por razões óbvias, se deu a este tipo de manifestação não havia realmente nada a se reinventar neste aspecto.

(Eu sei. Eu sei. Ficou faltando falar do Jongo, mas – se me permitem a ressalva – Jongo, em se tratando de espetacularização, é mesmo um capítulo à parte)

————–

Jongo de ponto amarrado

A ‘Morte Matada’ das tradições.

“Tínhamos a justiça codificação da vingança. A ciência codificação da Magia. Antropofagia.

A transformação permanente do Tabu em totem.”

Atentem para este fato (não tem nada de engraçado, mas garanto que tem tudo a ver):

Dos cinco grupos de Jongo participantes da festa de Vassouras neste ano de 2009 (Jongo de Arrozal, Jongo de Pinheiral, Jongo de Barra do Piraí, Caxambu Renascer de Vassouras e Jongo do Quilombo São José) todos são ou estão em vias de virar instituições legalizadas (Pontos de Cultura ou ONGs), habilitados, portanto para a captação de recursos no campo do MinC (alguns com efeito até já conseguiram este o benefício, estando hoje às voltas com a inusitada experiência de gerí-lo)

Parece bacana, não?

Mas não. É que se anunciou como um problema o fato de os grupos não possuírem nenhuma experiência de gestão jurídico financeira anterior, o que os tornava de um modo ou de outro, dependentes de agentes e intermediários ‘de fora ‘ de seu contexto social.

(É bom se destacar logo de saída – e com a devida ênfase – que entre todos os bons aspectos propostos pela equipe de formuladores da reformatação do Cortejo das Tradições para 2009, o reconhecimento destes direitos dos grupos foi reafirmado como prioritário em todos os encontros. Há inclusive uma interessante experiência de incubação e capacitação de gestores no âmbito do grupo de caxambu local, por iniciativa do Cecult USS /Vassouras.)

Barra limpa para alguns intermediários, mas, contudo aí também moram outros candentes perigos.

Como único efeito positivo de um controvertido processo de ‘tombamento’ ou ‘registro’ de bens culturais imateriais no Brasil, o certo é que se abriram inúmeros mecanismos de captação de recursos oriundos da Renúncia Fiscal.

O efeito negativo é que isto gerou uma espécie de corrida do ouro, iniciada ali por volta do ano 2000 por jovens intermediários de classe média – uns ‘interessados abnegados’ outros ‘interesseiros, aventureiros’ – atraídos pela abertura destes canais, a princípio ligados a políticas de preservação do patrimônio cultural imaterial do país, a partir de iniciativas do Iphan (como já se disse por injunção ou inspiração da UNESCO).

Em suma, é correto se considerar, portanto que por impulsão do Estado brasileiro, fonte única, exclusiva e direta destes recursos, as manifestações culturais de ascendência africana, da região por nós observada, antes contidas em guetos bem remotos e baseadas na intimidade de preceitos e hábitos simbólicos ou sócio familiares bem estabelecidos pela (ops!) tradição, passaram a estar diante de um ainda incompreendido paradigma, representado pela irrecorrível opção de ’ser ou não ser’.

(Ou, o que talvez seja bem pior: ‘Mudar’ ou… morrer’.)

A agudização deste paradigma, na falta de uma ética especial para a mediação dos diversos interesses envolvidos, representando um incremento da distribuição de recursos de patrocínio e a proliferação de iniciativas de Turismo Cultural na região com certeza vai gerar imprevisíveis consequencias (não necessariamente positivas).

(Conhecem a prática social da ‘Gafanhotagem’? Claro que não, pois acabo de inventar o conceito.)

Tendo as performances destes grupos tradicionais como base de sustentação artística, tende a ocorrer em eventos como o de Vassouras um inevitável e controverso processo de adaptação (ou resignificação) estética das manifestações culturais ‘tradicionais’, em direção ao gosto especialmente mundano – e inculto – das platéias de turistas de classe média (como já ocorre no caso flagrante da repaginação ‘kitsch’ de figurinos de alguns grupos da região) e aos interesses comerciais gerais dos citados (com exceções, é claro) ‘aventureiros interesseiros’, ‘intermediários’, ‘produtores culturais’, ‘diretores artísticos’, ‘etc.

É aí que os ‘moderninhos’, sempre ponderando, argumentam:

_ “Bem, se todos ganham com isto, ainda assim continua a parecer bacana, não é não? “-

Vamos com calma com este andor, contudo que o santo continua a ser de barro.

É imperativo que se avalie – e com toda profundidade possível – as eventuais benesses advindas de iniciativas turístico culturais como esta, do ponto de vista dos interesses de todos os envolvidos (e falamos aqui de interesses sociais amplos, abrangentes).

Já que se banalizou a questão nivelando-a meros fins justificando os meios, seria bom que nos dissessem na ponta do lápis enfim, usando aquela mesma velha metáfora:

_ Afinal, quem corteja quem?

É necessário, por exemplo, muito cuidado quando se sugere a existência cabal de benefícios a serem reivindicados por certas comunidades rurais (remanescentes de quilombos), a partir da simples associação direta que se estabeleceria entre a existência na área de eventuais ’sobrevivências folclóricas’ relacionadas à ‘cultura negra’ (a prática do Jongo, no caso) e direitos garantidos à posse das terras onde a suposta comunidade quilombola residiria.

É preciso, portanto ter em conta que existem muitas controvérsias ainda, muitas implicações éticas e morais – além das jurídicas – no âmbito deste assunto, entre as quais a mais grave é a virtual inexistencia de parâmetros antropológicos – ou historiográficos – válidos para se definir a legitimidade destas reivindicações.

Não é leviano por isto mesmo se afirmar neste sentido, que em alguns casos (por este entre outros interesses até piores) grupos de Jongo inexistentes foram simplesmente inventados – ou, supostamente recriados – a partir destas demandas, infelizmente tratadas de maneira muitas vezes irresponsável por parte dos órgãos incumbidos de cuidar das políticas públicas deste campo.

Observe-se também que estas políticas – tão elogiáveis em suas alegadas intenções – são quase sempre inócuas na prática, dadas as suas motivações reais, na maior parte das vezes, meramente populistas – ou clientelistas – em sua precariedade legal, mas… quem liga?.

(Cá entre nós, deve haver uma forma mais efetiva e direta de se fazer reforma agrária, de verdade no país).

O chato da história é que, no tedioso rol destes problemas já se pode vislumbrar a possibilidade de diluição e a posterior extinção das manifestações culturais mais frágeis (caso inequívoco do Jongo), tanto do ponto de vista estético quanto no que diz respeito aos frágeis laços morais que unem os integrantes de comunidades ainda excluídas de amparo social efetivo, desprovidas que são de tudo, quase do mesmo modo em que se encontravam no tempo da escravidão.

Ética e Estética. Cultura e Sociedade: Conceitos indissociáveis (é preciso não se esquecer)

—————

Tava durumino. Ngoma me chamou

A ‘Morte Morrida’ do Jongo real

 

“Só me interessa o que não é meu.Lei do homem. Lei do antropófago.”

Por ocasião dos preparativos da festa de Vassouras, numa reunião do autor deste post e a equipe do Cecult USS com líderes jongueiros da região do Vale do Paraíba do Sul, uma importante figura entre os líderes presentes, surpreendentemente reconheceu que desconhecia o significado da maioria das palavras africanas contidas nos pontos de Jongo que cantava.

_” Eu queria muito saber é o quer dizer Angoma, por exemplo. A gente canta canta e não sabe o que tá dizendo “ – disse a venerável figura, mais ou menos com estas palavras.

Incrível, mas ninguém entre os mestres presentes, do mesmo modo, sabia dizer a tradução daquela que talvez fosse a mais simbólica e característica palavra do Jongo.

Todos ficaram muito emocionados, surpresos mesmo, quando lhes disse que ‘Ngoma’ significava, simplesmente, ‘Tambor’ numa das línguas de Angola. Quando, complementando, afirmei que a origem da maioria de todos nós ali presentes (tanto quanto a da encantada palavra) estava historicamente estabelecida como sendo Angola, a informação causou nos presentes surpresa mais absoluta ainda.

Foi daí que me chamou fortemente a atenção o fato da referida palavra ser por demais conhecida nos meios acadêmicos mais relacionados a esta área de estudo, já estando de algum modo contida e, às vezes, até mesmo corretamente traduzida em dezenas de livros, teses e artigos sobre o tema hoje existentes.

_ Claro. Jongueiros não lêem livros… Muito menos teses acadêmicas – pensei comigo.

Mas esperem aí… Afinal de contas, se muitos destes mestres jongueiros, tão solicitados que sempre foram para participar de editais de programas, institucionais, de Pontos de Cultura espalhados pelo estado, muitas vezes na qualidade de abalizados informantes de suas tradições orais (‘objetos de estudo’, no dizer distanciado predominante nestas abordagens acadêmicas) como explicar a quase total ausência de um feedback qualquer (da parte dos pesquisadores) de uma contrapartida educativa, capacitadora, no âmbito destas relações que deveriam ser de troca de saberes?

(Foi neste momento que me ocorreu a imagem dos gafanhotos, numa alusão a espertos predadores sociais.

Vocês se lembram do H.G.Welles, daquela citação alegre do início do post #01 desta série? Não? Não importa. É dele também a fábula de horror dos alienígenas civilizadíssmos que invadem a Terra só para chupar o nosso sangue em ‘Guerra dos Mundos’, aquele filme do Spielberg)

Fazer o que? O que se poderia esperar num contexto contraditório onde os sábios verdadeiros são iletrados funcionais, incapacitados para a difusão ágil de seus saberes e práticas e no qual, do mesmo modo contraditório, os letrados- apesar de sua arrogante habilidade na difusão de saberes alheios – são completamente ignorantes do conteúdo ético das práticas as quais foram instados a definir, discernir e legislar?

Aberta a Caixa de Pandora da espetacularização oportunista, pouco nos resta a fazer senão lamentar ou exultar, dependendo do nosso ponto de vista. Talvez tivesse sido melhor ‘deixar quieto’, não ter tombado nada, não ter interferido naquilo que estava vivo e pulsante por sua própria conta e risco.

Sei lá. Como saber? Agora já foi, passou. Quem comeu se regalou.

Como bem dizia o Oswald de Andrade aí de cima – e de baixo – (nas citações em negrito) é típico da natureza cínica de nossas relações sociais devorar a cultura dos ‘ outros’ como antropófagos do ethos alheio.

Osmose gustativa: ‘Comer’ o inimigo civilizado nos tornaria, segundo a utopia modernista de Oswald, civilizados maiúsculos por vias tortas. Oh, engano terrível! Oh, irônica farsa!

Comemo-nos uns aos outros, isto sim.

Mais ou menos por aí – ou muito pelo contrário, já nem sei – eu diria que, na desfaçatez sem vergonha, na rapidez com que vamos nos transformando nesta cultura ‘assim assada’, nos exacerbando em nossa desculturação oportunista, atingimos enfim a antropafagia máxima, a antropofagia pop do ‘come-quieto’ ou do afobado que ‘come cru ‘.

É sim e agora… já era.

Na velocidade cinco da bunda da mulher-fruta do Funk de favela, piramos de vez, passando a devorar também – Oh, Zambi! Oh, Tupã! – a cultura de nós mesmos, e nesta ‘badtrip’ vamos ficando assim cada vez mais sem brio, sem prumo, sem ethos algum, desmascarados e o que é pior, descarados.

“… Chegamos ao aviltamento. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados de catecismo – a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato.

Peste dos chamados povos cultos e cristianizados, é contra ela que estamos agindo. “Antropófagos.”

Pós macunaímas assumidos já somos. Será que povo original um dia seremos? Pelo andar da carruagem no epílogo desta história o normal serão as falsas festanças pra inglês ver, cada vez mais festim e menos folia.

`Tupi, or not tupi that is the question”.

(E a esta altura da vernissage, velho gourmet empanzinado de ‘ comes e bebes’ que estou… só me resta mesmo sair da festa de fininho… à francesa. )

Spírito Santo

Setembro 2009

Nota: Os trechos não creditados, entre aspas, são do ‘Manifesto antropófago’ de Oswald de Andrade em “Piratininga ano 374 da deglutição do bispo Sardinha.” (revista de antropofagia, ano 1, no. 1, maio de 1928

Grande sacada Musikfabrik #01

•Outubro 26, 2009 • Deixe um comentário

Musikfabrik divulga para vocês sensacional catálogo de instrumentos musicais e otras cositas mas sobre etnomusicologia na página da Academia de Ciências da Áustria. Está em alemão, mas sabem como é… agora existem os tradutores on line.

No mesmo embalo você pode achar uma lista enorme de pesquisas e registros (Candomblé, Umbanda, Bumba-meu-boi, Vissungos, etc.) feitos no Brasil por antropólogos e etnomusicólogos da Áustria e da Alemanha.

Incrível, mas tem mais coisa nossa registrada lá do que nós mesmos temos aqui.

Nego Beijo fugido enfim veio à luz

•Outubro 15, 2009 • 2 Comentários


Creative Commons License
Benjamim de Oliveira e o drama do circo-teatro no Brasil

Cartaz Benjamim Spinelli copy

'Prospecto' de divulgação do Circo Spinelli. A legenda abaixo da foto é um texto inserido por José Ramos Tinhorão de cujo livro "Cultura Popular: Temas e Questões" a ilustração foi extraída

Benjamim de Oliveira e o drama do circo-teatro no Brasil

Você talvez nunca tenha ouvido falar do cara. Se é um garoto ou uma garota posmoderna então, hum…nem pensar.

Para você – no caso de ainda ser um garoto e na Internet ao que parece, quase todo mundo é ou pensa ser garotão – Circo é uma coisa bem remota, uma forma de entrenimento arcaica que você pouco frequentou, assistiu duas ou três vezes, se muito, por aí.

Você se lembra até de alguns nomes, mas pouca coisa: Orlando Orfei, Beto Carrero World, Circo Garcia, Circo de Moscou, Bozo…. (espera aí. Bozo não, né? Não vale. Bozo é coisa de televisão)… em suma, evocações um tanto ou quanto bregas sim, com certo cheiro de mofo, mas daquele mofo bom, como cheiro de roupa velha com naftalina, um clima assim do tempo da vovó ou – para os mais taludinhos de idade – da mamãe, do papai, do titio…

Circo. Aquela coisa mágica e vaga meio ‘Luzes da Ribalta’, da qual a gente se lembra só de relance, uma musiquinha de charanga ao longe, peidos, arrotos e estrepolias de palhaços mímicos, pombinhas de prestidigitador voando para não sei onde, a trapezista gostosa, a pipoca, além daquela sensação um tanto ou quanto triste, que marcou o enredo de uma história mítica, trágica, soando de relance nas memórias de infância dos mais velhos como eu (já sabe qual é? Já ouviu também? quem foi que te contou? Um tio suburbano, com certeza, alguém assim, das antigas, de quem você nem se lembra mais).

É gente, Circo também é tabu e mistério. Sabiam que tem gente que nunca foi ao Circo quando criança por que a mãe ganhou pavor da possibilidade do Circo ser consumido pelas chamas. Sim, sim! É esta a história mítica. Pode deixar que eu conto:

Foi tudo por causa daquele acidente no Gran Circus Norte-americano em 1961 em Niterói, aquele que pegou fogo e no qual foram ceifadas muitas vidas, entre as quais, segundo algumas fontes, toda a família do maluco-beleza mais famoso do Rio de Janeiro (quiçá do Brasil), o velho e bom mendigo-riponga Profeta Gentileza, que teria enlouquecido no lance do incêndio do Circo.

Espera aí…Você sabe quem é o Profeta gentileza, não sabe? É. este mesmo. O cara que escreveu esta máxima escrita aí na sua camiseta (ou na de algum amigo teu):

“GENTILEZA GERA GENTILEZA”

As letras carinhosamente grafadas à mão, coloridas, com cuidadosas serifas estampadas em pilares de viadutos e muros, como pichações do bem, feitas por um cara do século passado, carregando tábuas da lei com sábios mandamentos (na verdade até que meio piradões), um personagem com um que de Che Guevara pacifista ou de um Bin Laden às avessas, que já se encaminha para virar um ícone de um boapracismo improvável que – para os mais ingênuos – estaria embutido na moderna – e quiçá olímpica - alma do Brasil.

Pois sim…

Mas é isto mesmo, todos nós temos o nosso remoto circo íntimo, cheio de artistas fantásticos, um circo de vícios infantis que nos evoca as mais remotas lembranças, mas que também lança a gente para uma dimensão sem beira, sem rede, na qual o tempo pode ser qualquer coisa em qualquer ocasião, até mesmo um futuro longínquo, bem a frente de nós.

Viu só o que é o que é? Circo e Teatro. Tudo junto e misturado: Drama.

Agora a ficha caiu. Certo?

Então vamos em frente: O nome do Cara de quem eu falava lá em cima é, pois, como vocês já sabem, Benjamim de Oliveira que foi – garanto sem nenhum exagero – como ator, encenador e dramaturgo, um dos principais criadores do teatro popular do Brasil.

Está certo. Você é ainda daqueles que acha que o Cirque de Soleil é o suprassumo da modernidade circense e nada há que se acrescentar a respeito. Circo-Teatro! Diria até você, com pompa e circunstancia.

Eu também acho, mas conhecendo a história de Benjamim você vai descobrir já já que sem ele – também um dos principais inventores deste lance de Circo-Teatro – o Cirque de Soleil, de vero de vero, nem existiria. Sim, sim. Benjamim de Oliveira, no início do século 20, já era O cara nesta praia.

(O que você não esperava mesmo é que depois deste preambulo cheio de salamaleques eu informasse que desta história não conto mais nadica, pois, vou ter que deixar o resto para contar bem depois).

Foi mal, mas também não há nada de mais nisto. É até bom porque assim você pode partir logo, avidamente para a busca do google, atrás de mais e mais informações sobre esta história d’O Cara.

Emocionante não é? E, melhor ainda: a linkagem é livre rapeize e a rede, por enquanto, é nossa.

É que o ensejo deste post é apenas informar só de leve que a Funarte acaba de divulgar os vencedores do Prêmio Myrian Muniz de Teatro iniciativa que viabiliza projetos de pesquisa teatral em todo o país (86 projetos foram desta vez premiados no Brasil).

Pois é isto: No conjunto de premiados está o projeto… tcham, tcham, tcham, tcham!.. “Benjamim de Oliveira e o drama do circo-teatro brasileiro” da Cia Richard Riguetti / Grupo OffSina – dos caríssimos Richard Riguetti e Líliam Moraes.

O que é que eu tenho a ver com isto? Fácil explicar: Com o Richard – que como Benjamim é um ator-palhaço da pesada – trabalhei na Obra Social da Cidade do Rio de Janeiro, atendendo crianças do chamado Complexo do Lins (‘complexo’ como vocês sabem, é o eufemístico coletivo de favelas).

Ocorre que o Richard leu (aqui mesmo no Overmundo se não me engano) aquela peça jamais encenada deste autor que vos fala denominada Exu Chibata que tenta mesclar assim, ainda por alto, a estética do CircoTeatro de Benjamim de Oliveira, no embalo de contar a história de João Cândido, o herói da Revolta da Chibata (de quem Benjamim foi contemporâneo).

————–

Ligando o nome à pessoa

Benjamim de OLiveira Moliére

Benjamim de Oliveira caracterizado como 'francês' em encenação em peça de Molière

Imagine você que nos dias da revolta do Almirante Negro, Benjamim – O ‘Nego Beijo’ como era chamado quando guri – encenava no Circo Spinelli uma peça chamada “A Vingança Operária‘ (que eu, não sei bem porque, sempre achei que tinha algum fundo anarquista, proto comunista, essas coisas libertárias próprias daquela época, por aí).

Não deu outra: orgulhosamente (e aí, neste caso, me perdoem a imodéstia, por favor) o que ocorreu foi que, por conta destas oportunidades, acabei fazendo parte da alentada e premiada equipe do referido projeto, na qualidade de responsável pela dramaturgia do futuro espetáculo, que será baseada, principalmente, no excelente livrotese de Ermínia SilvaBenjamim de Oliveira e a Teatralidade Circense no Brasil” (veja nota abaixo).

Bacana demais, não é não?

Além de Ermínia Silva alguns poucos abnegados já se dedicaram ao resgate da obra de Benjamim, invariavelmente subestimado pela crítica e a imprensa mais ligeira como um reles palhaço que, por acaso era ‘negão’.

O diretor catarinense João Siqueira, saudoso amigo falecido na década de 90, especialista em teatro de rua e seguidor apaixonado do teatro de Benjamim, fez um maravilhoso trabalho – para variar pouco difundido, quase inédito até hoje – sobre o ‘Palhaço Negro‘, estimulado por uma bolsa para pesquisa fornecida pela Rioarte.

Em boa hora se volta a falar de Benjamim, portanto, em todos os sentidos, até porque em 2010 fazem 140 anos do seu nascimento. O tema vai dar, é claro, panos para muitas outras mangas e posts.

Dito isto peço então mil perdões por deixá-los chupando dedo desta vez, mas é que tudo começa mesmo a ser construído agora, como sempre foi e sempre será com as companhias de circo reais: Trabalho de equipe.

Contudo, para não perder mais do que já perdi da minha reserva de amigos leitores, deixo como tiragosto para a rapaziada o texto que escrevi para servir de justificativa do projeto tal como foi enviado para o concurso, e o qual pretendo seguir, na medida do possível, à risca na construção da dramaturgia e em tudo que me competir:

O bom é que enfim, da escuridão do mortiço panteão de nossos heróis da invisibilidade, Nego Beijo está vindo devagarinho à luz. Esvaziem o picadeiro, por favor, porque, assomando às coxias frias da vida de menino fugido e exquaseescravo, vindo, vindo, com vocês, o inquestionável… o inigualável… o espetacular ator e clown…

Benjamim de Oliveira!

———————

(Texto-Justificativa do projeto “Benjamim de Oliveira e o drama do circo-teatro brasileiro” – Prêmio Myrian Muniz de Teatro 2009)

“E o palhaço Benjamim, o que é?

No ensejo de abordar a interessantíssima linguagem dramatúrgica desenvolvida no Brasil sob a quase redundante denominação de Circo-Teatro (peculiar movimento artístico cujo auge se deu nas primeiras décadas do século 20) esta proposta – não mais ainda que uma alentada pesquisa – em linhas muito gerais pode enveredar por sinuosos e interessantes caminhos.

Entre estes, podemos destacar – já propondo um caminho em especial – a existência de um conflito básico, nuclear mesmo, que poderia ser o ponto de partida, o ’start’ desta dramaturgia sugerida.

Este caminho é o das diversas dicotomias perceptíveis na relação entre o Circo (o seu contexto, visto como um micro-cosmo, uma célula social) com a sociedade real, vista como um sistema de valores e realidades que este Circo contextualizado, ainda que simbolicamente, visa questionar.

O Circo como espaço delimitado, restrito no qual a sociedade convencional ‘dramatizada’, será ‘ridicularizada’ ‘ criticada’, vilipendiada’ questionada enfim, sempre de forma lúdica e sutil (e, de modo algum, maniqueísta), como farsa, drama ou comédia.

No bojo destas dicotomias (contradições no sentido dramático do termo) pode ser inserido também o conflito social latente ocorrido entre as inúmeras e estratificadas relações historicamente estabelecidas entre artistas emigrantes e platéia nacional, artistas nômades e platéia sedentária, em oposição à utopia da sociedade ideal simbolizada pela circunscrição – o território do Circo romântico-, o espaço de íntima felicidade sonhado por todos nós, sem grandes hierarquias, sem distinções raciais, uma comunidade-família aparentemente libertária e feliz.

Pelo lado assim mais técnico da proposta, observando-se ainda grosso modo a natureza da linguagem do gênero em especial, se poderia acentuar também a existência no Circo-Teatro de certo grau de ‘antropofagia’, certo diálogo estético e dramatúrgico que o gênero estabelece com algumas das linguagens e mídias mais em voga na época em que se dá o auge do fenômeno (início do século 20) época de grande efervescência cultural e artística, contrapontuada por grandes conflitos sociais, elementos que as artes cênicas de maneira geral – e o Circo-Teatro de maneira concreta – muito soube aproveitar.

É importante inclusive se ressaltar que este caráter antropofágico, sendo a chave mais evidente da bem sucedida vocação do gênero Circo-Teatro para se expressar, por meio da utilização integrada de técnicas e estéticas francamente ligadas à contemporaneidade daquela época, continua a ser a regra principal a ser seguida hoje, quando – de forma talvez mais intensa ainda do que na virada do século 19 para o 20 – o conceito Diversidade, em todos os sentidos, é um valor claramente predominante.

Pode-se sugerir assim a associação de todos estes ganchos dramatúrgicos atemporais aos elementos estéticos mais aparentes da chamada Belle Époque, do Cinema Mudo, da Mímica e da Pantomima, linguagens seminais do Circo-Teatro que encaminham o eventual espetáculo resultante desta pesquisa, no âmbito de um teatro essencialmente imagético no qual, por exemplo, as falas não serão exatamente fundamentais, ampliando as possibilidades de se ocupar diversos tipos de espaços cênicos, com muita movimentação cenotécnica.

O eixo dramático principal da proposta envolveria incidentes da vida do famoso ator-palhaço Benjamim de Oliveira, figura por muitas razões emblemática no âmbito de todas estas dicotomias citadas.

Descendente de negros da África – quase um estrangeiro – Benjamim é um ex-escravo que se torna inteiramente livre ao fugir para um circo, para se tornar mais tarde, um famoso ator especializado na representação de folhetins do branco europeu Molière, um dos responsáveis, portanto pela afirmação de um modo aculturado de representar e encenar Teatro muito peculiar no Brasil.

Neste mesmo sentido primordialmente imagético, a proposta sugerida aqui visa, portanto ressaltar certas formas e maneirismos não só do Circo-teatro (implantado no Brasil por artistas geniais como o citado Benjamim de Oliveira, Spinelli e Eduardo das Neves), mas também do teatro atual, referência talvez fundamental para que se abra também o leque da proposta para elementos dramatúrgicos mais modernos, próprios desta contemporaneidade almejada.

——————

Notas finais:

- Ermínia Silva é mestra em História pela Universidade Estadual de Campinas (1996) e doutora em História da Cultura pela Universidade Estadual de Campinas (2003). É autora de “Circo-teatro: Benjamim de Oliveira e a teatralidade circense no Brasil”, editado em 2007, pela Editora Altana.

-O livro de José Ramos Tinhorão do qual a ilustração principal deste post foi extraída, chama-se ‘Cultura Popular: Temas e Questões’ publicado pela Editora 34, São Paulo em 2001.

- A foto do ator caracterizado de índio reproduzida acima é de 1908. Nela vemos Benjamim de Oliveira tal qual foi foi filmado no Circo Spinelli pela Photo-Cinematographica Brasileira de Antonio Leal e José Labanca. Essa foi a primeira filmagem de adaptação de um romance brasileiro com câmara móvel: “Os Guarups” , pantomima inspirada em ‘O Guarani” de José de Alencar, adaptada por Benjamim, na qual ele fazia o papel de Peri.

Spírito Santo

Outubro 2009

GRUPO VISSUNGO – Música Preta nos anos 70

•Outubro 4, 2009 • 8 Comentários


Creative Commons License
grupo-vissungo_viena_1989
Da esquerda para a direita, Lula Espírito Santo (baixo), Braz (guitarra), Carlos Codó (violão), Samuka (agachado, percussão), José Maria Flores (bateria) e Spirito Santo (vocal e marimba) - foto:arquivo Grupo Vissungo

MÚSICA POPULAR PRETA E MPB BRANCA

Em 1975, em plenos anos de chumbo, foi criado no Rio de Janeiro um conjunto musical chamado Grupo Vissungo.

Em 1974, ainda sem nome definido, o grupo teve como antecedentes o trabalho do trio formado por Antônio José do Espírito Santo (vocais, violão e percussão), seu irmão Luiz Antônio – Lula – (contrabaixo, bandolim, cavaquinho e vocal) e Roosevelt da Silva (Violão).

É já desta fase a adoção do principal elemento da proposta do grupo, aquele que o caracteriza definitivamente: a pesquisa da cultura negra do Brasil, e a tentativa de construir, a partir desta pesquisa, um conceito de música negra brasileira moderna, coisa impensável naquela época contraditória, onde a onda vanguardista da MPB não chegava até a cozinha da tradicionalíssima música negra, espécie de ‘reserva técnica’ do folclore nacional.

A idéia ‘contraculturalista’ de uma música negra ‘pop’, era eletrizante para o clima de resistência cultural contra a ditadura, que impulsionava a juventude artística, muito criativa e atuante da época, rumo ao mergulho de cabeça na experiência pop-vanguardista-nacionalista que foi o ‘Tropicalismo’.

Mas havia também a não menos profunda busca da sutil modernidade contida na música do ‘Brasil profundo’, pesquisa inaugurada pelo fabuloso Quinteto Violado, que fazia uma interessante fusão entre a música tradicional nordestina (como a rica escala afro-ibérica de Asa Branca, de Luiz Gonzaga) com certos aspectos, digamos assim, mais avançados da chamada moderna música popular brasileira (expressos na obra de Edu Lobo , por exemplo), com elementos de jazz e música semi-erudita, num caldeirão de muita inventividade e desprendimento.

O nome do Grupo Vissungo, no contexto desta proposta, foi extraído então da expressão ‘Vissungo’ (‘Ocisungo’, hino ou canção no idioma Umbundo de Angola) que denominava cantos de trabalho da região do garimpo de ouro e diamantes em Diamantina, Minas Gerais, no tempo da escravidão.

Esta característica ‘antropológica’ da proposta, em particular, acabou por revelar, de maneira fortuita, uma ligação direta entre os dois irmãos fundadores (Antônio e Lula Espírito Santo) e seu mais remoto passado. Descobriu-se assim, no transcorrer da pesquisa que a família dos dois, pela linha paterna, muito provavelmente, havia sido iniciada por um antepassado vindo de Angola, que havia sido escravo exatamente naquela região e, como tal, poderia ter um dia cantado vissungos.

Coisa do destino talvez, gravado como memória genética.

Ainda em 1974, já com esta mística proposta definida, o grupo adota, durante um curto espaço de tempo, o nome de ‘Sararamiôlo’, agora formado também, além dos irmãos Espírito Santo (Antônio e Lula), pelos também irmãos Carlos ‘Codó’ Brito (que substitue Roosevelt) e Lena ‘Codó’ Brito (filhos do grande violonista bahiano Clodoaldo Brito, o ‘Codó’). É assim que, agora como um quarteto, durante ensaios do recém construído prédio do DCE da UFF, nasce oficialmente com este nome em 1975, o Grupo Vissungo.

É desta fase a criação das bases estético-musicais do trabalho do grupo, representadas pelo casamento entre a pesquisa de campo em comunidades negras do interior do país, e o aprofundamento dos ricos elementos de modernidade eventualmente contidos nas inusitadas escalas desta música tradicional. Este aprofundamento nascia, principalmente, do senso harmônico de Carlos Codó, herdeiro da erudição do violão de Codó pai, professor emérito, desde a Bahia, de muita gente boa, tal como João Gilberto, Caetano Veloso, Egberto Gismonti e Gilberto Gil (com quem o autor chegou a cruzar, entre uma aula e outra, na casa de Codó, no bairro do Estácio, no Rio).

Esta fase é inspirada também nas sugestões apaixonadas do historiador e acadêmico José Maria Nunes Pereira, um especialista em cultura angolana que, já na fase anterior (Sararamiôlo), chamava a atenção do grupo para a enorme beleza da música africana real. Esta fase seminal, culmina com a descoberta, por parte do grupo, da grande similaridade existente entre a cultura negra tradicional do Brasil e o que, em termos musicais, ocorria na África contemporânea – notadamente Angola e Moçambique.

A grande questão neste momento é que, apesar de se estar vivendo uma época (1978 ) de grande efervescência cultural, musical principalmente, havia muita restrição – e até um certo desprezo- por parte do meio musical em geral (e do mercado fonográfico em particular), por abordagens artísticas voltadas, diretamente e de forma mais aprofundada, para a cultura negra. Tolerava-se o Samba convencional e algumas poucas propostas de forma genérica denominadas ‘Música Afro’, geralmente adaptações de pontos religiosos tradicionais, extraídos do Candomblé e da Umbanda.

No âmbito da música essencialmente afro-brasileira, dominada por um purismo exacerbado, a modernidade era, portanto, rigorosamente, um conceito tabu. A releitura criativa, a experimentação e, principalmente, a utilização livre de instrumentos ‘acústicos’, convencionais, misturados com instrumentos eletrônicos, como contrabaixo e guitarra por exemplo – marcas essenciais da proposta do Vissungo – já inseridos em outros gêneros musicais desde o final da década de 60 (onde pontificou o ícone “Alegria, alegria”, com Caetano Velloso e o grupo de Rock argentino ‘Beat Boys’) não eram, estranhamente, bem tolerados nas poucas bandas e grupos de música negra existentes.

Este comportamento conservador do meio musical, de certo modo, forçou o Grupo Vissungo a participar, de forma militante, no chamado Movimento Negro, tornando-se uma espécie de símbolo musical da luta antiracista carioca naquele momento.

No entanto, do ponto de vista de suas preferências culturais, havia uma curiosa contradição se instalando no seio deste movimento negro emergente que, embora firmemente interessado na erradicação do racismo no Brasil, passava a subestimar – ou mesmo ignorar – em suas estratégias e políticas, as eventuais lições advindas da luta anti-colonialista, ainda em curso em Angola e Moçambique, para exercer no âmbito externo, uma atração política, de certo modo exagerada, imitativa e acrítica, pela cultura negra norte americana, notadamente, a chamada Black Music, trilha sonora essencial da luta dos Panteras Negras e do neo islamismo de Malcom X.

Neste mesmo sentido, no plano interno, tornando suas opções culturais desta vez francamente elitistas, este Movimento Negro passou também a privilegiar uma cultura negra idealizada e, de certo modo oficializada já que, referendada por teses de mestrado de eminentes etnólogos, privilegiava muito mais o Candomblé bahiano e produtos sucedâneos, em detrimento da música negra de Minas Gerais, São Paulo e do próprio Rio de Janeiro (para ficar só nos exemplos da região Sudeste) música oriunda das colônias e ex-colônias de língua portuguesa que mandaram escravos em maior número para o Brasil, exatamente a vertente para a qual, por coerência artística, o Grupo Vissungo se voltava nesta época.

São estas contradições culturais que, afetando o mercado musical de um lado e o Movimento Negro de outro, introduzem o Grupo Vissungo numa crise de identidade que o leva a se afastar um pouco de sua proposta artística original, de vanguarda, interessado em contribuir na superação desta contradição que ameaçava afastar – como por fim afastou- o Movimento Negro brasileiro de suas bases populares mais evidentes.

—————–

Aniceto e Clementina, cadê vocês?

É ainda na tentativa de superar estas limitações ‘de mercado’ que o Vissungo radicaliza seu mergulho nos meandros da música negra tradicional, se ligando á figuras essenciais como Clementina de Jesus (por impulsão da Fundação Cultural de Curitiba, dirigida á época por Jaime Lerner, que nos une à Clementina num show antológico no Teatro Paiol) e João do Valle, ícones da década anterior, lançados nos shows ‘Opinião’ e ‘Rosa de Ouro’, mas, de novo caídos no limbo do esquecimento, fora do mercado.

Uma das histórias mais engraçadas (e curiosas) desta fase foi a de um fanático seguidor que havendo achado um pandeiro num ônibus de Niterói, seguia o Vissungo por toda parte, praticamente implorando para ingressar no grupo, mesmo não sabendo tocar rigorosamente nada e, sob o risco – totalmente infundado, pode perceber depois – de ser recusado e execrado pelo grupo por ser completamente branco.

Ilton Mendes, o personagem desta história, começou assim a sua carreira de herói do Samba, estreando no show com Clementina em Curitiba, para anos depois criar, no final dos anos 80 um dos principais ‘templos’ do Samba autêntico e popular do Rio de Janeiro: O Bar Candongueiro, em Niterói.

Neste mesmo sentido, um pouco mais tarde, o grupo se liga profundamente a Aniceto do Império Serrano, figura histórica do samba carioca mais profundo (um dos maiores especialistas em Partido Alto), relegado ao total ostracismo na ocasião e grande influência no trabalho do grupo a partir de então.

A fase se caracteriza também pelo aprofundamento, por parte do grupo, de sua pesquisa de campo, exercendo de forma militante a difusão da música africana, principalmente angolana, não só em seus aspectos originais, como também em sua expressão afro-brasileira, principalmente, o Jongo e a Congada. A experiência, flagrada pela revista Cadernos do Terceiro Mundo, editada por asilados brasileiros no México e distribuída mundialmente, deu ao Grupo o status de boa referência neste campo, não só em seu viés, francamente, antropológico, como em sua opção pela difusão de aspectos da cultura popular do interior do Brasil que viviam, solenemente, esquecidos nos grotões.

O radicalismo desta fase, acentuando a crise de identidade, provocou um racha no grupo e a posterior dispersão de alguns de seus membros originais – entre os quais Lula Espírito Santo – que decidiram tentar penetrar no mercado sob a forma de grupo de Samba convencional.

Sobrevém uma fase de muito engajamento e alguma incerteza artística, com a adesão de músicos de diversas procedências, compondo formações apenas adequadas, a um repertório onde predominava a música negra tradicional do interior da região sudeste do Brasil. As fusões mais recorrentes eram entre a música tradicional de Minas Gerais, e canções revolucionárias de colônias, como Angola, Guiné Bissau e Moçambique, que promoviam uma sangrenta guerra de libertação contra a metrópole portuguesa. Pontificavam no repertório, letras do poeta Agostinho Neto, musicadas por Rui Mingas, ambos angolanos e de José Carlos Schwartz, compositor e guerrilheiro guineense, gravado em disco produzido por Miriam Makeba.

Por vias transversas no entanto, esta fase (meados da década de 80) foi muito bem sucedida pois representou enfim, o ingresso do Vissungo no mercado fonográfico, a partir da autoria, junto com Wagner Tiso (e a voz de Milton Nascimento) da premiada trilha sonora do filme Chico Rei de Walter Lima Júnior. O disco citado, gravado pela Som Livre – único da carreira do Grupo Vissungo até hoje- contém entre outras pérolas, o último registro em estúdio da voz de Clementina de Jesus, cantando a introdução da música Xico Reyna (de Espírito Santo e Samuka).

São integrantes desta fase, entre outros, os violonistas Laercio Lino e o multiinstrumentista Antônio Naval, acordeonista Tonico Pereira e o cavaquinista Adão Hilton, cada um a seu modo contribuindo para a concepção do trabalho que acabou sendo registrado, em parte, no vinil de ‘Chico Rei’.


…”O épico Chico Rei deu continuidade ao projeto de um cinema histórico mais atento às elaborações mitológicas que ao rigor das versões acabadas. Lima Jr. usa a história do primeiro escravo a se tornar dono de ouro no Brasil para investigar as suas próprias raízes negras.

O Grupo Vissungo, em sua fusão de arte e militância, teve papel decisivo na formatação sonora do filme, que ainda mobilizou ícones da música negra brasileira como Milton Nascimento, Clementina de Jesus, Naná Vasconcelos e Geraldo Filme. “

Trecho do artigo “um cinema que quer ser música”
de Carlos Alberto Mattos Publicado na revista Veredas (CCBB/Rio, Nov-2000)

Seguiram-se a participação do grupo nos discos de carreira de Milton Nascimento (‘Encontros e despedidas’), Wagner Tiso (‘Branco & Preto/Preto & Branco’) e Tetê Espíndola (‘Gaiola’).

A crise de identidade do Vissungo, no entanto, prossegue pois, a vocação original do grupo na busca da modernidade artística (interrompida no início da década), só poderia ser retomada, se contasse com novos músicos com talento, experiência e vontade para encarar os novos desafios musicais que, desta feita, seriam marcados pela busca de um formato, ao mesmo tempo, moderno e popular, de preferência dançante, tendência que passava a predominar na música urbana do mundo inteiro naquela época (época do boom da indefectível ‘Lambada’).

O grupo é por fim muito bem sucedido nesta fase, encontrando com sua nova formação, composta por Espírito Santo (vocal solo e percussão), os retornados Lula Espírito Santo (baixo e vocal) e Carlos Codó (violão), além de Samuka, José Maria Flores (bateria) e Braz Oliveira (Guitarra) uma sonoridade muito aproximada do que buscava desde sua origem.

————-

Dançando no ONU Center Wien

Em 1989, com esta nova formação, o Vissungo faz então sua primeira viagem á Europa, realizando uma das melhores experiências de sua carreira no show na sede européia da ONU em Viena, em benefício da Unicef para uma platéia totalmente composta por africanos, de todas as partes do continente, que dançavam, cada qual ao jeito de seu país, aquela mistura de música brasileira, guineense e moçambicana que o Vissungo apresentava.

A forte energia produzida pela curta, porém, intensa primeira experiência do Vissungo na Europa, não encontra, no entanto, grande respaldo com o retorno do Grupo ao Brasil. Envolvido em mais um de seus equívocos eleitorais o povo brasileiro acabara de eleger para presidente, o aventureiro populista Fernando Collor de Mello que, após uma série de ameaças ás ‘elites’, interrompia a maioria das iniciativas governamentais voltadas para o fomento da cultura. O intempestivo ato do ‘caçador de Marajás’, inviabilizava o trabalho de vários artistas e, praticamente, determinou a interrupção das atividades do Grupo Vissungo, que negociava com contatos da Funarte da época, a gravação de seu primeiro disco solo.

É quando surge o irrecusável convite do sociólogo italiano Tulio Aymone, da Facoltá de Economia de Modena, para que o Vissungo, a princípio representado por apenas dois de seus membros, Espírito Santo e Samuka, se apresentasse no Festival Internacional de Cultura do jornal do Partido Comunista italiano L’Unitá”, em Bologna. Foi assim que o Grupo Vissungo, cansado de guerra, decidiu, numa espécie de exílio voluntário, transferir-se de mala e cuia para a Europa.

A carreira européia do Vissungo se reinicia em julho de 1990, com a ida da dupla para Modena, Itália, afim de cumprir um contato para uma tournée de um espetáculo de música negra e dança afro-brasileira tradicional, cuja renda seria, em parte, revertida para a vinda do restante da banda.

Artisticamente muito bem sucedida, a tournée pelo norte da Itália – Modena, Bologna, Reggio Emília, Corregio, Carpi, Ímola, etc.- área na qual as tropas brasileiras combateram na 2a Guerra Mundial (o soldado José Cyrilo, pai dos irmãos Espírito Santo, entre elas), infelizmente, não teve uma renda suficiente para bancar o sonhado resgate dos membros da banda que ficaram no Brasil.

Transferindo-se para Viena, Áustria, após os quatro meses em que durou a experiência italiana, o Vissungo foi enfim recomposto com músicos locais, entre os quais o excelente guitarrista vienense Claudius Jelinek, o baixista uruguaio Pablo Solanas, o percussionista senegalês Jimmy Wolof e os brasileiros Ita Moreno (violonista) e Tatá Cavalcanti (baterista).

—————–

Vissungo afro beat

Durando cerca de três anos, a carreira européia do Vissungo, representou, como o fim de um ciclo, a realização do sonho original contido na proposta inicial do grupo, por uma música negra brasileira moderna, na qual não se abrisse mão daquelas raízes africanas mais profundas, proposta tão penosamente buscada no Brasil e enfim encontrada viva e pujante no mercado musical europeu, no qual o conceito mais moderno de música popular é aquele realizado pela maravilhosa fusão de ritmos africanos das colônias (Guiné, Senegal, Nigéria, Gana, etc.), com a música negra norte americana (Soul, Funk), conceito fundado pelo grande músico nigeriano Fela Kuti, e conhecido na África e na Europa genericamente como ‘Afro-beat’.

O resultado deste feliz, embora tardio, encontro do Grupo Vissungo com os sons africanos que lhe eram similares ou irmãos, pode ser felizmente mostrado em seu retorno definitivo ao Brasil em 5 de Novembro de 1995, num inesquecível espetáculo na Sala Cecília Meirelles, em comemoração ao mês de Zumbi de Palmares.

Para a nova formação do grupo, os dois únicos remanescentes da formação original (os irmãos Antônio e Lula) recorreram a uma incrível fonte musical, de existência impensável na década anterior: Um núcleo de jovens músicos negros, com experiência em música pop adquirida em sua dedicação militante à reggae Music, congregados no Centro Cultural Donana, em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, inegável foco da posterior ascenção do reggae no mercado pop brasileiro, com o KMD5 (banda depois rebatizada como Negril) e o Cidade Negra (antes liderada pelo polêmico Ras Bernardo).

Desta fonte maravilhosa e revigorante, foram arregimentados Lauro ‘Biko’ Farias, baixo (logo em seguida ‘roubado’ pelo O Rappa), Reinaldo Amancio (logo em seguida integrando o ‘Cabeça de Nego’), além do fabuloso batera Jahir Soares, decano do reggae raiz carioca até os dias de hoje. Integraram também o Vissungo, neste seu último espetáculo, Welington Coelho (depois do Farofa Carioca) e Paulão Menezes (ainda hoje percussionista da banda de Bia Bedran)

Ali, diante de uma platéia entre surpresa e extasiada com a diferença gritante entre o som que o grupo trouxe da Europa e os sons da comedida música negra em voga no Brasil (onde o Reggae começava a pontificar), o Grupo Vissungo decidiu se recolher a sua significância, sabe-se lá até quando.

—————-

Esta matéria, sendo sobre música, deveria conter um arquivo de áudio com o som do Vissungo.
Falha da época: Além do LP do disco com a trilha sonora do filme Chico Rey (talvez ainda não lançado em CD) e de faixas há pouco tempo inseridas num remix (este sim, em CD) do disco de Clementina de Jesus ‘Canto dos Escravos’, existe muito material gravado pelo Grupo Vissungo, espalhado por aí, em mídias diversas (a maioria deste material, está em suportes considerados hoje obsoletos, tais como fitas K7 e fitas VHS).

O acervo do grupo (centenas de horas de registros de áudio em fitas K7, negativos P&B e slides fotográficos) fruto de suas pesquisas de campo, até hoje razoavelmente conservado, contém também interessantes registros de shows e ensaios, no Brasil e no exterior, aguardando digitalização, missão sobre a qual, alguém terá que se debruçar um dia.

Legítimo produto artístico da inesquecível década de 70 do século 20, o Grupo Vissungo pode ser visto hoje, distanciadamente, como uma espécie de símbolo natural da privação de acesso ao mercado – e aos meios de produção e registro mais elementares – sofrida por determinados artistas e grupos musicais brasileiros, antes do formidável advento desta atordoante revolução das mídias modernas, e seus meios e suportes democratizados (ou banalizados) como nunca o foram na história.

Empávido, umas vezes aos trancos e barrancos, outras gloriosamente, o Vissungo durou 20 anos. Sobreviveu muito bem aos desafios de seu tempo. Na verdade, tendo sido de algum modo registrado, gravado, nem mesmo pode ser declarado clinicamente morto, ainda.

Como vinho envelhecido, ele está ainda adormecido numa adega destas da vida, num quintal destes do mundo onde, brasa dormida, até hoje pulsam suas emoções, passíveis de serem digitalizadas, eternizadas, se tornando, portanto, imortais.

Eu pelo menos, um dos Espírito Santo desta história, continuo vivinho da Silva.

—————-

‘A véia preta tem cinco fio
os cinco fio
do mesmo pai
na meia noite
o pai tá sumido
véia pregunta pros cinco fio:
menino preto, cadê teu pai?’

Jongo do Vissungo

Spirito Santo
Setembro 2007

Vale Negro: Festa, Folia e Festim #02

•Setembro 12, 2009 • 2 Comentários


Creative Commons License
CortejoBM 077
(Foto Spírito Santo/Arquivo Cecult USS)

Espetacularização da cultura tradicional no Vale do Rio Paraíba do Sul

…”Em uma ação de valorização às raízes culturais, o Cortejo de Tradições se destaca pela beleza e encantamento das manifestações de cultura popular da região, considerada o berço da diversidade cultural brasileira.

O Café fez com que essa região fosse a mais importante do Brasil durante o século XIX. Ele deixou de herança essa belíssima Praça, esses casarões ao seu redor e algumas enormes fazendas no entorno da cidade. Mas muito mais do que isso, o café deixou para o Vale o que hoje ele tem de mais rico.

Foi atrás dele que veio para o Vale, um caldeirão de gente de diversos ofícios, classes sociais e culturas, oriundos dos mais diversos lugares.

E também africanos de diversas origens foram trazidos à força pra cá como mão-de-obra escrava.”

————

Estas foram as palavras muito bem ditas pelo pessoal do Centro Cultural da USS nos folders do Festival do Vale do Café acerca da história, dos atores e do cenário da futura grande festa (veja o post#01 desta série).

O vale é negro, pois. Como duvidar? Sua energia, mola da economia brasileira – quiçá do mundo- no século 19, fundava-se na negritude simbólica do café e do escravo.

De grande relevancia para a compreensão das idiosincrasias e complexidades da cultura do Brasil, cabe bem aqui neste preâmbulo uma palinha a mais sobre a história local.

Aliás – chato que sou, não resisto – onde o texto do Centro Cultural da USS diz ‘africanos de diversas origens’, um reparo importante que vai nos ajudar a entender bem melhor a natureza específica das tradições e manifestações culturais existentes ainda hoje no Vale:

Posso afirmar enfaticamente que não vieram para o Vale do Paraíba do Sul, como o texto afirma, ‘escravos de várias origens’ – e este é um erro crasso da historiografia sobre os africanos vindos para o Brasil – não houve, como oficialmente se apregoa e a despeito do que insistem os adeptos da tese conhecida como ‘Elogio à mestiçagem’ - diluição, pulverização alguma da cultura negra chegada ao Brasil.

(Ai, ai! E aqui – entre a cruz e a caldeirinha – são os cruéis adeptos do ‘anti-essencialismo’, redondamente enganados, achando que defendo cegamente tradicionalismos vãos e outros arcaísmos – é que me enforcarão)

Ora, ora, basta a qualquer leigo cruzar os dados mais elementares do fluxo de escravos vindos para cá com incidentes sobejamente conhecidos da história do colonialismo português na África, para matar a charada:

Não foram bandos, sacos de gatos, hordas de gente bárbara que nos vieram da África. Que se saiba, veio gente normal sequestrada (e jamais resgatada) – igual a mim e a você – gente culta a seu modo, com idiomas, práticas culturais, história (muito mais antiga que a nossa) e até – com o perdão da palavra-…tradições, além do que é mais importante – gente oriunda de uma determinada e perfeitamente identificável região do continente.

Isto é tão óbvio e evidente que, para mim em muitos aspectos, este descuido acadêmico - com todo respeito – pode se assemelhar até a uma espécie de farsa historiográfica. Não é não?

Combinemos então: No caso do Vale do Paraíba do Sul, praticamente vieram apenas escravos de duas únicas regiões africanas: Angola e Moçambique. Pode-se afirmar também que a vinda de angolanos foi, sobre todos os pontos de vista, em levas maciças sendo a de moçambicanos em número bem menor.

Por estas mesmas circunstancias (que, como já disse, são meramente históricas) muitos dos que reconhecemos como sendo angolanos eram conhecidos na época também como negros ‘do Congo‘, por serem de uma vasta área conhecida na época como Reino do Kongo que se configura hoje na chamada República Popular de Angola.

Os moçambicanos, mesmo vindo em menor número (embarcados num porto moçambicano denominado Inhambane), embora marcando apenas de leve a cultura do Vale – pelo menos pelo que se sabe até agora – tiveram um papel muito significativo na frustrada afirmação política dos escravos da região, já que muitos dos líderes das insurreições de escravos ocorridas nas fazendas do Vale eram moçambicanos)

A integridade e a coerencia intrínseca à cultura destes africanos, (como se viu já portada por eles quando chegaram por aqui, resultado do fato de pertencerem ao mesmo grupo étnico-linguístico conhecido como Bantu) foi decisiva na caracterização e na afirmação de seus traços culturais mais evidentes apresentados aqui no Brasil e ainda hoje, perfeitamente reconhecíveis (principalmente no Jongo praticado na região do Vale)

Só não vê quem não quer.

(Perdoem as delongas do véio, mas este papo me lembrou o trecho de uma canção angolana que eu mesmo cantava emocionado nos anos 70, bem adequada à ocasião):

“Naquela roça grande, não tem chuva
o suor do meu rosto que rega as plantações
Naquela roça grande tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue
feitas seiva.

O café vai ser torrado, pisado, torturado,
vai ficar negro, negro da cor do ‘contratado’*
Perguntem as aves que cantam
e ao regato de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:
Quem se levanta cedo?
Quem vai à tonga?
Quem traz pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de dendê?
Quem capina e em paga recebe desdém?
fubá podre, peixe podre,
panos ruins, cinquenta ‘angolares’
Porrada se refilares…

E as aves que cantam
e os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:
_ Monangambê!”*

(A canção – que se chama ‘Monangambê’ – é de Agostinho Neto e Rui Mingas, destacados líderes da revolução angolana na década de 70 – Agostinho foi o primeiro presidente)

Viajei? Divaguei? Ando assim ultimamente. Deve ser a idade.

Pronto: Finda a longa ressalva podemos seguir então com a nossa palinha historiográfica:

————–

A festança e a gastança do Rei
A possível – e dramática – origem remota das festas de rua na Vila de Nsa Senhora da Conceição de Vassouras.

Uma coisa é certa: Não havia, de jeito nenhum, festas de rua verdadeiramente populares no Vale do ciclo do Café, local também conhecido como Vale do Paraíba do Sul onde vicejavam as maiores fortunas do mundo na época, ali pelos meados do século 19.

(Afinal, convenhamos, como haveria de haver festa popular se, a rigor, quase nem povo havia?)

Tanto é assim que a festa mais de arromba de que se tem notícia por ali foi uma mega-paparicação promovida – e bancada – pela aristocracia local, barões, baronesas e escassos viscondes e viscondessas, em honra de D. Pedro II, cujo ápice foi à recepção para o beija-mão na qual afoitos e quase histéricos bem-nascidos da cidade fizeram fila para beijar as alvas luvas do jovem imperador.

Historiando esta visita de D.Pedro II à cidade de Vassouras, em 18 de Março de 1848, Ignácio Raposo (em ‘História de Vassouras’ 1978) cita uma ata da Câmara Municipal da cidade, datada de 20 de Março daquele ano, que dizia:

…”Sua majestade fez sua entrada às 8 horas da manhã em Vassouras encontrando no portão da casa preparada para hospedá-lo grande concurso de cidadãos decentemente vestidos e a guarda nacional no número de 230 e tantos de uma e outra arma, donde igualmente de novo deram vivas ao som do repinicado dos sinos e das salvas das duas fortalezas que para este fim se haviam construído.”

…”Várias comissões enviadas pelas diferentes agremiações da Vila se encontravam ali compostas dos mais altos figurões da época, ricamente trajados, em atitude nobre e respeitosa”.

“Mil girândolas de foguetes estrondavam no ar, mil bandeiras nacionais, estrangeiras e fantásticas tremiam sobre os mastros, quando Sua Majestade, radiante de alegria, saltou do seu ginete para firmar-se pela primeira vez no solo Vassourense solo tão verde e tão brilhante que até relembra a mais gentil das cores que reluzem no pavilhão brasileiro.”

Muita espetaculosidade sim, como se vê, exibições equestres (com o Imperador fazendo feio por ser mal cavaleiro), música de câmara e perfume francês, no entanto tudo muito exagerado, afetado pelo gosto pretensamente europeu, nos modos de ser e conviver daquela gente meio chucra, de um aventureirismo meio lusitano ainda, nobres-novos naquele ‘nem-te-ligo’ dos poderosos da vez embriagados de pompa e de si mesmos.

Novos-ricos puxando o saco de quem está no poder, aristocratas em suma como os de qualquer época, nem de longe desconfiando que as novas circunstancias logo seriam a irrecorrível abolição da escravatura, que iria fazer com que todos eles dessem de vez com os burros d’água.

Festas de pura dicotomia, portanto: Escravos oriundos de uma África notadamente festeira, enclausurados em senzalas fétidas enquanto nobres pálidos, no dia a dia circunspectos e carrancudos, festejavam baboseiras bajulatórias, com foguetórios e ambrosias, fausto e desperdício. Contradições expostas como naturezas mortas.

…” Muito depois do almoço oferecido a Sua Majestade, já cerca de 2 horas da tarde, vieram todos os vereadores incorporados e seguidos de imenso número de cidadãos buscar o Imperador em sua residência para assumir a uma solenidade que se realizava na sede da paróquia.

Formado o préstito, como em procissão do Santíssimo colocou-se o Imperador debaixo de reluzente pálio conduzido pelas mais altas autoridades de Vassouras, e assim partiu para a Matriz onde foi celebrado, conforme o ritual romano, esplêndido Te-déum por entre boa música e grossas nuvens de incenso. Subindo ao púlpito alguns momentos antes, o padre Dr. João Joaquim Ferreira de Aguiar, Pregador Imperial, produziu com todo o vigor de sua eloquencia, um desses vôos de oratória que assombram a multidão.”

(O mesmo Ignácio Raposo em ‘História de Vassouras’ 1978)

Mas como o tema, o assunto desta série de posts é farra e festa, alguns inconvenientes dirão, entre risinhos sarcásticos que os escravos – obviamente ausentes à recepção ao Imperador – não estavam lá tão apartados ou contidos assim.

Certo. Muita notícia se tinha de autorizadas rodas de Jongo ou Caxambu nos terreiros das fazendas da região. A negraiada de branco, rodopiando com cara de feliz da vida.

Impertinente que sou, contudo replicaria meio irritado até:

Conversa fiada! Mesmo através da rala bibliografia existente sobre o tema, dá para se perceber claramente, que as rodas de Jongo de que tratam estas notícias, isto sim, era um hábito insidioso dos senhores de escravos, sórdido mesmo, consistindo que era em induzir, intimar os negros a se exibir saltitantes, dançando um Jongo compulsório para alegrar as visitas.

(Você já viu elefantes, tigres e macacos se exibindo num picadeiro de circo para uma platéia de risonhos seres humanos?

Pois era, sem nenhum exagero, mais ou menos isto o que acontecia nos terreiros das fazendas de café no século 19. A diferença nada sutil era que quem se exibia era tão gente quanto quem assistia -embora uns fossem bem mais humanos que os outros, se é que vocês me entendem.)

- “Veja como são felizes estes meus negros! Veja como eu os trato bem!”- Gritava o fazendeiro, cuspindo a gosma do charuto no terreiro.

(Desculpem se deixo escapar a pontinha de asco. É que a vocação da humanidade para a iniquidade é mesmo uma coisa impressionante.)

Vamos ficar acertados então que os escravos do Vale do Paraíba do Sul, de certo modo, até se compraziam da obrigação de dançar sim, claro, gente normal costuma agir assim. Você mesmo já viu isto no cinema e sabe que qualquer um de nós dançaria, de bom grado mesmo e até cantaria emocionadas cantigas numa pequena roda de alívios, se vivesse naquela rotina estressante de campo de concentração tropical.

Existem, pois, repito – para o bem e para o mal – espetáculos e ‘espetáculos‘. A cultura do Vale do Paraíba do Sul, para todos os efeitos deve ser vista então pelo menos sob dois ângulos bem distintos, a saber:

Um é o Jongo espetáculo compulsório, restrito à compungida assistência das brancas visitas do fazendeiro.

O outro talvez tenha sido o Jongo anti-espetáculo, das brasas comidas e das fantásticas bananeiras, das catárticas rodas íntimas, mágico-propicitórias, feiticeiras, pragas metafóricas cantadas por velhos escravos contritos nos recônditos e clandestinos cafundós do Judas.

_Jinongonongo!

Na hora de espetacularizar é preciso, pois, se decidir de que Jongo estamos falando.

Inútil buscar hibridismos fugidios, mediações e ponderações para a barra pesada que foi a escravidão sofrida pelos negros do Vale do Paraíba do Sul. Foi assim, deu no que deu e é preciso ter muito cuidado para que a emenda que virá não seja pior que soneto que se foi.

—————

(Por favor, de novo perdoem a franqueza, mas é que acho incomprensível a recorrente tentativa que alguns setores intelectuais fazem em teses e dissertações historiográficas ou antropológicas, de desqualificar opiniões como estas que aqui expresso, confinando-as em escaninhos estreitos, associando generalizadamente – e de forma quase irresponsável – os conceitos ‘tradição‘ ou tradicionalidade a ‘conservadorismo‘, a ‘atraso‘ e a‘anacronismo’.

É entediante perceber como estas teses insistem, de forma renitente, em subestimar qualquer discurso que evoque a existencia de alguma relação de causa e efeito, a ser conhecida e respeitada na dinâmica evolutiva da cultura de um grupo social ou de uma comunidade, no decorrer do tempo e do espaço.

Uma lógica – e, em consequencia,uma ética-, uma moral qualquer que ligue e dê sentido de vida transcorrida a uma manifestação cultural, por exemplo: Passado=presente=futuro, um ethos histórico enfim).

O mais curioso é que este comportamento, esta relação descuidada, desleixada mesmo, para com um conceito tão evidentemente ligado ao que se convencionou chamar de Cultura Popular ocorre muito mais em elementos da cultura brasileira relacionados à herança cultural africana do que nos da herança indígena, por exemplo, na qual ‘tradição’ tem sido sempre um elemento tratado com total rigor, quase reverencia, por estudiosos de todas as áreas e tendencias.

(E aqui me cabe enfatizar que mesmo que o conceito ‘herança cultural’ também já não esteja mais…na moda eu bato pé firme no argumento)

É possível identificar em que teorias estas teses, mesmo rasamente, se baseiam. Difícil de identificar são as suas reais finalidades, sua ideologia. Se alguém souber – e puder – que me esclareça o mistério.

————–

De resto, ficamos sabendo que contradição é dicotomia. Festa pode ser Farsa. No passado teve o foguetório da festa sim (e toda farsa, bem o sabemos, tem um que de festim), mas teve também – e ainda está latente – o tempo do foguetório das carabinas, da morte nas forcas da insurreição.

Verdade seja dita então – e ainda bem que o texto do Cortejo 2009, enfim coloca estas coisas no lugar-: Estas coisas não se apagam assim, da noite para o dia.

A cultura popular, a ‘cultura local’ do Vale do Paraíba do Sul pelas insidiosas razões que aqui, só de leve esboçamos, acabou sendo pelo dito e pelo não dito, quase que exclusivamente a cultura do negro africano (angolano como vimos, para sermos mais exatos).

Como se tratava de uma população majoritariamente escrava, num regime de trabalho rígido e controlado, circunscrito a vigiadas fazendas mais ou menos isoladas entre si, esta cultura não se configurou jamais em grandes festas de rua (como as havidas nas cidades do Serro e Diamantina em Minas Gerais, por exemplo, onde documentos dão conta da existência de momentosas festas de rua promovidas por irmandades católicas integradas por negros livres ou escravos desde o século 18.)

Triste ter que dizer isto, mas as manifestações ‘populares‘ de rua mais concorridas em Vassouras e adjacências, os grandes espetáculos que tiveram negros como protagonistas, foram os enforcamentos de escravos condenados pelo crime de aquilombamento e insurreição.

O melhor é assumir logo que a escravidão precisa acabar – de verdade – um dia para se poder, enfim programar a tal festa de arromba real.

(Pensando bem, talvez tenha sido por isto que as críticas mais agudas dirigidas ao formato do ‘Cortejo das Tradições’ de Vassouras, com ironia insuspeitada questionavam o velho ‘Cortejo’ pegando pelo aspecto semântico do nome):

Lembram-se da pergunta?

_Afinal, quem devia cortejar quem?

Tratando-se de uma festa de muitas mumunhas, prato cheio de ’saias justas’ sociais, contradições latentes e panos quentes antigos, históricos, o convite enfático do jovem leitor vassourense citado no post#01 desta série, como se pode ver, não era uma deferência assim tão cômoda, simples de aceitar, fácil de se lidar.

(Só posso adiantar por enquanto que a nova festa teve para todos os participantes, – salvo engano – um final bastante supimpa e assaz feliz)

—————

No mais, contada assim de relance os antecedentes mais remotos desta história, quem viver verá no próximo e último episódio desta aventura como e no que isto tudo deu e do que se tratou.

Spírito Santo
Setembro 2009

* (Nota) – “Contratado‘ é a expressão oficialmente usada pelo Apartheid da Angola colonial (Lei do Indigenato) durante as fases mais cruéis do colonialismo português. Pela lei, inspirada nas teses do nosso Gilberto Freire (que, a serviço do governo Salazar, foi seu principal ideólogo) era uma espécie de sistema de trabalho escravo re-significado, no qual um indivíduo poderia ser levado para qualquer parte do país, em frentes de trabalho forçado, evidentemente sem remuneração alguma.
Monangambê’ (em kimbundo o mesmo que carregador de bagagens ou moço de recados), por extensão o mesmo que indivíduo que ocupa o menor status da sociedade, passível de ser capturado, a qualquer momento, para o trabalho no ‘Contrato’

Vale Negro: Festa, Folia e Festim # 01

•Setembro 5, 2009 • 1 Comentário


Creative Commons License
CortejoBM 167
Espetacularização da cultura tradicional no Vale do Rio Paraíba do Sul

Trafegando no Tempo
(Antes um feliz intróito pertinente e necessário).

É sem mais delongas que digo, antes de mais nada: Não tive como recuar, desistir. A chance era, mais uma vez, absolutamente irresistível.

Para usar um termo moderninho, que vem bem a calhar, quem já é ‘follower‘ deste seu criado que aqui vos fala, sabe que esta coisa de esbarrar com ‘chances irresistíveis’ na internet está virando para mim quase que uma profissão… tá, tá exagerei, uma prática rotineira, assim, melhor dizendo.

Sei que a imagem a seguir é batida, mas ela me ocorre bem fortemente agora, na hora de contar para vocês mais esta história:

Isto aqui, a Internet, é mesmo uma Máquina do tempo, sim senhor, sem tirar nem por. Tudo aqui é irreal, virtual como se diz, imaginado, sugerido – às vezes até mesmo inventado – exagerado, superestimado enfim, mas, mesmo assim, por isto ou por aquilo, acaba nos levando a algum lugar misteriosamente verdadeiro onde podemos meio assustados ou ressabiados, desembarcar, aterrisar, aportar num mundo – aí sim – real enfim.

(Sabe naquele filme baseado no livro do H.G. Wells, quando o reloginho da máquina do tempo ‘travava’ num ano remoto qualquer e o tripulante – com aquela bem transada ‘ropitcha‘ do século 19 – desembarcava? Pois é. Contraditoriamente, o interior da máquina, tão cheio de concretude era um espaço transitório – o virtual – enquanto o chão que ele pisava – o seu destino eventual – é que passava a ser o mundo real, de verdade.)

É por estas e outras que para quem, como eu, adora a pura e limpa adrenalina das aventuras, a Internet é um prato feito, cheiroso e bem quentinho, daqueles dos melhores restaurantes de estrada.

O certo é que no inusitado ensejo de viver esta minha viciante saga internáutica já me vi, lá para as tantas, rodando barrentas estradas vicinais – reais – com uma dupla de desconhecidos garotos cineastas filmando as entranhas de uma gruta de garimpeiros quilombolas nos cafundós de Diamantina, MG, iniciando um alentado filme etnográfico (veja ficha técnica em matéria sobre filme piloto aqui) sobre um tema que havia abandonado há…28 anos.

Mobilizado por outros, nem tão garotos assim, mas do mesmo modo animados com as iscas-notícias contidas nos meus posts, me vejo agora mesmo recriando um grupo musical afro-cult cuja carreira havia sido encerrada há… sei lá, 13 anos atrás.

Por conta deste mesmo mergulho nesta rede infinita de bons peixes, cheguei mesmo a voltar a lecionar minhas doidices linguístico-musicais numa universidade, de onde havia sido defenestrado sem dó nem piedade por alguns estúpidos gestores. Voltei também a escrever para teatro, cantar, compor sambas, sei lá tantas coisas…

…Tantas que, mesmo assim já irreversivelmente coroa, me sinto mesmo rejuvenescendo, evoluindo às avessas, numa volta para o que há de melhor do passado (ou do futuro, como saber?), pela mão de, quase sempre amáveis e desinteressados amigos ’seguidores’, surgidos como que por mágica, das entranhas mais ofuscantes desta enigmática máquina de fazer doido que é Nossa Senhora da Internet.

Tenho achado bem bacana, emocionante mesmo ter conseguido atrair tantos interessados ‘followers‘com este frágil chamariz de textos desabusados, porém sinceros – muitas vezes meio incongruentes – espalhados pela internet, a ponto de ser convidado para viver eletrizantes – e às vezes até indianajônicas - aventuras tão reais.

(Você mesmo deve ser assim ou ter um amigo ou conhecido igual a mim, com um pé pintado no virtual e o outro plantado no real)

Sortudo, retribuo os net-amigos contando mais e mais histórias. Viver para Contar, este é o jogo e o trato.

Meninos, eu vi!

—————

(Agora sim, a mais nova aventura):

Vale Negro: Festa, Folia e Festim # 01
Espetacularização da cultura tradicional no Vale do Rio Paraíba do Sul

Mobilizado por um jovem leitor de alguns comentários e ressalvas, um tanto impertinentes que fiz, aqui mesmo neste Overmundo, sobre uma experiência de espetacularização de manifestações culturais tradicionais na cidade de Vassouras (descrita no post Cortejo das Tradições – O fio da navalha’ de Egeu Laus, publicado também aqui neste site) me vi rapidamente tomado pela oportunidade de viver in loco, ao vivo e a cores uma experiência arriscada (cá entre nós… muito doida mesmo):

Ser o diretor artístico de uma reformatação do tão criticado ‘Cortejo” que assim repaginado passaria a ser o ponto alto de um tradicional Festival de turismo cultural.

Já pensou que doideira?

Como não poderia deixar de ser, o processo de repaginação do evento foi complicado e controvertido – Aquilo sempre fora uma ‘festa tradicional inventada’ (vocês que sacam o Hobsbawm, ajudem os colegas aí do lado, por favor) já que por razões históricas ligadas à escravidão, não eram comuns as festas populares de rua na região.

Cultura é política o tempo inteiro, concordam alguns, eu entre eles.

Neste processo, já contando com a organização do Centro Cultural da Universidade Severino Sombra recentemente criado, ocorreu uma detalhada avaliação dos problemas apresentados pelo modelo anterior, a elaboração de uma proposta mais aproximada da realidade cultural local (tarefa muito difícil porque não se podia perder o apelo de espetaculosidade compatível às dimensões, digamos assim, comerciais do festival)

Por uma contingencia óbvia e irrecorrível, se contou também com uma série de encontros com líderes dos grupos tradicionais locais, chamados pela primeira vez a participar das decisões e da aprovação da nova proposta, em todos os aspectos (na verdade esta foi uma das condições sine qua non que considerei antes de aceitar o tal convite)

Esta série de artigos visa resenhar nos seus mínimos detalhes – e de forma absolutamente independente como convém à relevancia do tema – as opiniões pessoais deste autor que, devoto de São Tomé que sempre foi, viveu a experiência desta vez, na prática e na teoria (tudo junto e misturado como se diz).

É bom informar também a esta altura do relato que, afortunadamente consegui convencer os garotos de Vassouras a me autorizar o convite, na qualidade de consultores-testemunhas desta mui sagaz aventura, dois dos meus ‘followers‘ amigos internáuticos mais queridos, o antropólogo Marcus Vinicius Garcia, de Brasília, ligado diretamente a estas coisas de Jongo e quejandos e a queridíssima professora doutora e educadora Maria Luiza Oswald, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), interessada como todos nós nas relações estreitas que se deve estabelecer entre a Cultura de todos e Educação para todos.

(Relevante se faz ressaltar que a porta pela qual os dois me foram apresentados foi este Overmundo)

E assim, como seria o que Deus quisesse, realmente foi. Fui e vi (pelo menos a chance não perdi) e timtim por timtim começo a vos contar tudo aqui.

————–

(Aos turistas novatos no tema, algumas dicas e lembretes úteis):

A festa aqui comentada, parte integrante do ‘Festival do Vale do Caf锑, que ocorre na cidade de Vassouras, RJ desde 2003, foi batizada com o pomposo e arcaico nome de “Cortejo das Tradições‘‘, uma denominação algo imprópria (lusitana talvez) que suscitou nos observadores mais argutos a sarcástica e enigmática pergunta:

_ Afinal, quem corteja quem?

(O Festival para quem ainda não sabe, é um projeto de turismo cultural idealizado pela harpista Cristina Braga e o violonista Turibio Santos, gerido desde 2006 pela empresa promotora de eventos Backstage comandada pelos eficientes produtores Nelson Drucker e Roberta Kelab, firma responsável entre outros grandes eventos, pela espetacular árvore de Natal da lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro).

Alguns observadores do festival de Vassouras desde o seu início asseguram que as manifestações de cultura tradicional da região (Jongo, Folias de Reis, Calango, Capoeira, etc.) foram inseridas na programação desde o início no festival, como forma de legitimá-lo enquanto evento que reconhece o valor da cultura tradicional local.

Algumas antigas críticas entre as mais razoáveis, contudo alegam que as referidas manifestações entraram na grande festa como um sub-evento, menor, bem modesto até, quase uma concessão que se fazia às humildes tradições culturais locais antes subestimadas ou ausentes da programação, o que seria de todo condenável em se tratando de um evento bancado com recursos da renúncia fiscal, dinheiro público, portanto.

A sutil controvérsia, embutida subliminarmente em todos os debates que ocorrem sobre o assunto terá importancia transcendental no futuro, quando as eventuais consequencias do impacto que intervenções deste porte costumam provocar na cultura tradicional de uma região, se fizerem sentir.

A hora da porca torcer o rabo será portanto quando a enigmática pergunta voltar a ser formulada:

_ Afinal, quem cortejou quem?

O que se pode afirmar com certeza é que o evento – talvez o de maior porte e relevancia em seu estilo em nosso estado – tem ocorrido todo ano no mês de Julho em Vassouras com grandes espetáculos ao ar livre na exuberante Praça Barão de Campo Belo e eventos paralelos, tais como visitas guiadas às bem conservadas fazendas da região.

Mesmo se constatarmos que Turismo Cultural é um conceito relativamente novo no Brasil, avaliando mais atentamente, alguns festivais de inverno por aqui talvez estejam sendo excessivamente calcados naqueles festivais de inverno clássicos, de matriz européia, cujo simpático modelito envolve invariavelmente uma sequencia de eventos ligados à cultura popular regional – ao sabor local, por assim dizer – o que dito assim literalmente não tem nada de errado ou condenável, muito pelo contrário.

Como se sabe no caso dos europeus, ‘cultura popular local’ significa espetáculos de música clássica ou erudita ao ar livre, simpáticas e improvisadas feirinhas de artesanato e tralhas usadas, além da degustação de comidas típicas e vinhos da região. O problema é que o pessoal daqui, em seus modos tão colonizados de ser, às vezes se esquece de fazer a adaptação da idéia às chamadas ‘coisas nossas’.

Para começar, as nossas tão peculiares cidades– leia-se: suas instancias culturais mais mobilizadas e atuantes – marcadas por tanta diversidade, costumam às vezes se ressentir da impropriedade do conceito ‘cultura popular’ quando este é aplicado em desacordo com o gosto realmente local, principalmente quando a música erudita ou clássica – o toque europeu mais recorrente do conceito – é tornada prioridade absoluta.

Além do mais, sendo a notável – e histórica – tradição musical de uma cidade como Vassouras, por exemplo, um valor a ser fortemente considerado, há que se considerar também que este valor sempre esteve no caso, por demais associado ao certo ranço elitista da aristocracia local no passado imperial, o que daria a um festival de inverno convencional, porventura promovido na cidade, um caráter de evento pedante, VIP, pouco recomendável, até mesmo do ponto de vista comercial.

O certo é que no caso do Festival do Vale do Café, em algum momento este aspecto problemático do projeto parece ter sido detectado encontrando-se uma solução recorrente, porém bem pensada, que foi a promoção de grandes shows com artistas da MPB, tentando dar ao evento uma feição mais popular (em versão recente do festival o músico Almir Sater teria mobilizado uma platéia de mais de 12 mil pessoas.)

Faltava, contudo algo mais para que o conceito ‘Cultura popular local’ estivesse plenamente contemplado. O modelito europeu precisava ser adaptado às circunstancias regionais de forma ainda mais radical.

É que a contradição persistia principalmente talvez no formato um tanto elitista dos eventos paralelos, ainda diretamente copiados do tal modelito europeu, gerando uma série de críticas francas ou veladas que, com o decorrer das várias versões do festival, parece que se tornaram incomodamente insistentes.

A contradição básica nascia então da clássica – e surda – dicotomia ainda existente no Brasil entre cultura popular e cultura de elite, dicotomia esta que numa região onde a distancia entre ‘senhores‘ brancos e ‘escravos‘ negros pouco se alterou, transformava o problema numa questão política muito relevante (embora apenas subjacente dita à boca pequena, como sol tapado com peneira.)

(Eu sei, eu sei que muitos chegam, inclusive, a considerar esta, digamos, contradição sugerida, um conceito arcaico, já ultrapassado, coisa de marxistas tardios, mas relevem a ranhetice do véio e reflitam: Não se abolem dicotomias reais apenas desqualificando, em tese, as teorias anteriores que as colocaram em discussão. Poderação e paciência são as melhores táticas para esta parte do jogo)

Junto com as eventuais contradições existentes entre a produção do festival e as tais instancias intelectuais atuantes na cidade (agravadas talvez pelo questionamento que se passou a fazer acerca das vantagens que a cidade estaria tendo como sede do festival) algumas pendengas mais intrincadas ainda poderiam ser aventadas.

É provável que tenha sido aí, em meio a esta sinuca de bico – ‘Fio da navalha’* no dizer do arguto radialista local João Henrique Barbosa – que a idéia de se abrir algum espaço para a rica cultura tradicional da região tenha sido pensada pelos criadores do festival.

Existindo então como já se disse – para o bem ou para o mal – espetáculos e ‘espetáculos‘, fica fácil de se entender então que destas históricas contradições não poderia deixar de padecer o aqui citado ‘Cortejo de Tradições‘.

Talvez tenha sido por isto que em 2009, após ter sido criada sabe-se lá por quem como uma festa de arromba no mal sentido, depois de sofrer um processo de carnavalização um tanto equivocado, tirado, ao que parece de uma exótica mistura entre desfiles de Escola de Samba e bloco de Maracatu de Olinda, foi por tudo isto enfim que acabou chegando para os envolvidos e interessados diretamente no ‘Cortejo das Tradições‘, o momento de reconfigurar a festa que se transformara (com o perdão para o infame trocadilho) num verdadeiro cortejo de… contradições‘.

Diz-se que no auge destas experiências pós-culturalistas, chegou-se a importar uma dupla de carnavalescos do Rio, incumbida de repaginar os integrantes dos grupos tradicionais com um novo figurino, baseado em chavões estéticos supostamente ‘afro-descendentes’, looks de baianas ou yaôs de Candomblé e bonezinhos nigerianos (afro-muçulmanos) estilizados, entre outras fashionices, tudo a remeter a uma africanidade fake, completamente estranha à cultura local.

(Aliás – e este é, para variar, o tema desta série de artigos – é sobremodo preocupante o desamparo sofrido por manifestações culturais ditas tradicionais do Brasil diante de invasivas aventuras re-significadoras, ancoradas em teses e argumentos antropológicos de caráter assaz duvidosos e interesses mais duvidosos ainda.)

A exibição dos grupos tradicionais segundo as determinações também impostas por este enredo do Cortejo anterior consistiria num desfile cerimonioso, quase religioso (um cortejo, na acepção da palavra), com todos os grupos organizados em fila, portando estandartes e cantando uma mesma cantiga-enredo pretensamente folclórica, composta de boa vontade pela harpista Cristina Braga (como se viu acima uma das criadoras do Festival do Café) e pelo músico Ricardo Medeiros.

(A utilização da referida canção num desfile de grupos tradicionais essencialmente musicais, todos com vasto repertório mais adequado e disponível para a ocasião, é um mistério do mesmo modo insondável).

Consta também que os grupos ao final do cortejo faziam exibições em pontos determinados da praça, mas curiosamente esta parte do espetáculo nunca era considerada relevante ou lembrada em detalhes pelas pessoas consultadas.

A verdade é que o problema, pelo menos do ponto de vista artístico – ou estético, como no exemplo acima – não era de todo fácil sendo, isto sim, espinhoso a mais não poder, pois tocava em questões antropológicas muito complexas e ambíguas.

Afinal se estava lidando com cultura tradicional, manifestações de traço artístico já há muito determinado, informadas que eram por práticas simbólicas (a maioria africanas sim), tradições e implicações sociais muito antigas, ancestrais até, as quais os criadores do formato talvez nem tivessem tido a oportunidade de conhecer suficientemente.

O fato é que, seja lá quem tenham sido os criadores do Cortejo original (a este respeito leia maiores detalhes na matéria de Egeu Laus citada acima), não se tinha muita notícia de experiências de espetacularização anteriores. Não havia, portanto muita chance de se acertar por este caminho.

E foi deste modo e quiçá por estas razões – e por cargas d’água que tentaremos desvendar em artigos a seguir – que de festa subalterna, nos anos anteriores ocorrendo no domingo, dia seguinte ao término oficial do Festival, o mui falado ‘Cortejo das Tradições’ foi proposto em 2009, pela própria empresa produtora do evento, para ser alçado à condição de atração de gala, passando a ocupar a praça da cidade no sábado, em horário nobre, como espetáculo de encerramento oficial do festival.

Começou então a ser urdido, com consequencias impossíveis de serem previstas por enquanto, a história de uma nova festa, um novo ‘Cortejo das Tradições‘.

É nesta parte da história que o autor que vos fala recebeu de um dos ‘garotos de Vassouras’ o email a seguir, o inusitado convite-desafio do qual divulgo as partes essenciais:

“Fala professor,

Pasme (ou não) e veja só como são as coisas.

A produção do Cortejo de Tradições pediu que o Centro Cultural da USS elabore uma proposta que tente resolver grande parte dos problemas que o cortejo tem. E depois disso, que execute a proposta.
(…)A aceitação ou não dessa proposta tem desdobramentos diversos que devem ser pensados e conversados com muita calma… Enfim, pra que aceitemos ou não esta proposta, algumas condições têm que ser ( …) satisfeitas, entre as quais principalmente:

- Aceitação (…) de nossa proposta (…)

- Que você aceite ser o Diretor / Consultor com liberdade e autonomia total, inclusive para formular a proposta junto conosco…”

—————–

Muita calma nesta hora. Desenrolemos o longo fio desta meada por partes, já que muito pano para mangas (muitas versões, no caso) promete conter esta nossa festiva história.

(Toda história que já teve começo e meio, anda a procura de um fim.)

Follow me. Siga-me você também até post #2 desta série

Spírito Santo

Julho 2009
* (Boa parte das informações sobre o ‘Cortejo’ anterior a 2009 são de Egeu Laus, em matéria linkada logo no início deste texto)

Documentário ‘Vissungos’ é exibido em Gramado

•Setembro 5, 2009 • Deixe um comentário
Matéria sobre o filme
(Por Mauro Utida)

‘Vissungos’ foi incluído na categoria independente do “Gramado Cine Vídeo” que vai até dia 15

Após ser selecionado para o “Festival Internacional de Cinema de Portugal”, o documentário ‘Vissungos: Fragmentos da Tradição Oral’, produzido pela Contra Filmes, do diretor varzino, Cássio Gusson, será exibido no “Gramado Cine Vídeo”, festival paralelo ao famoso “Festival de Cinema de Gramado”, que ocorre durante esta semana, de 9 a 15 de agosto. ‘Vissungos’ foi incluído na categoria independente entre mais nove documentários.

O documentário ‘Vissungos’ foi finalizado no começo deste ano por cinco integrantes da produtora Contra Filmes: o diretor e pesquisador Cássio Gusson, o pesquisador e músico Spirito Santo, o cinegrafista e diretor de fotografia Felipe Mantovan, o jornalista Fábio Chauh e o fotógrafo Lucas Terra.

Durante o primeiro semestre deste ano, ‘Vissungos’ foi selecionado em sete festivais de cinema. Só neste mês de agosto, o documentário será exibido em Gramado e na “9ª Mostra Taguatinga – Festival de Cinema e Vídeo de Tocantis”, que começou no dia 11 e termina no próximo domingo. “Esta sendo uma surpresa para nós a repercussão que ‘Vissungos’ está tendo nos festivais de cinema. Não esperávamos ser selecionados em Gramado, pois nosso filme é etnográfico e a tendência hoje é de documentários com temas urbanos”, falou o diretor.

Este é o terceiro trabalho da Contra Filmes, que já havia lançado o documentário ‘Alforria da Percepção’, em 2007, e o filme de ficção ‘Sem Título’, em 2008, que ganhou o prêmio de júri popular no “Festival de Mogi Guaçu”.

O diretor Cássio Gusson explica que a ideia de produzir o documentário ‘Vissungos’ surgiu na época em que o grupo trabalhava no primeiro documentário e no meio dos materiais coletados foram encontrados alguns cantos que chamaram a atenção do grupo, eram os vissungos.

O objetivo agora da Contra Filmes é organizar o material coletado nas pesquisas do documentário ‘Vissungos’ e transformá-lo em um livro. “São poucas pesquisas existentes sobre este assunto e nossa intenção é fazer um trabalho mais a fundo”, disse Gusson.

Sobre o filme
Vissungos: Fragmentos da Tradição Oral’ mostra os cantos de origem africana dos escravos de Angola trazidos ao Brasil para trabalhar na extração de diamantes em Minas Gerais no século XVII. Os cantos mesclam palavras da Língua Portuguesa com o idioma africano e por diversos fatores foram considerados extintos em 1928.

O diretor Cássio Gusson compara os cantos vissungos com os cantos spirituals que deram origem ao Blues nos Estados Unidos, ambos são de origem africana e eram cantados por escravos como canções de trabalho. “Para os escravos os cantos vissungos estão envolvidos com funções sociais”, explicou.

Crioulize-se já! Somos todos negões

•Agosto 29, 2009 • 1 Comentário


Creative Commons License
racismo imagem boa

Crioulize-se já!

Você ainda não notou? Somos todos vira-latas, crioulos, ‘crilouros‘, nativos, silvícolas trazidos ou vindos para cá, misturados com uns gatos pingados degredados, bandidos, inimigos do rei de Portugal, de algum rei títere do Kongo, de algum desses reis aí, de ocasião, personas não gratas, estorvos despachados de alguma escura paragem remota da terra como párias, sem-terras, renegados, ‘dalits’ que almejam voltar um dia a ser gente ‘normal’.

Simbolicamente portanto – mal comparando – somos todos negões.

Sendo assim, que história é esta de sermos contra o que nos redime, o que nos integra num mundo decente de igualdade e de justiça social?

Que papo é este de sermos contra o que pode vir a nos tornar (posto está que, infelizmente ainda não somos), gente uma igualzinha à outra, sem distinção, todos no mesmo quadrado, sem tirar nem por?

Se duvidar, faça você mesmo junto comigo, a comparação com os conceitos Racismo, Segregação, Apartheid, etc.:

O apartheid, que quer dizer separação na língua africâner dos imigrantes europeus, atingia a habitação, o emprego, a educação e os serviços públicos, pois os negros não podiam ser proprietários de terras, não tinham direito de participação na política e eram obrigados a viver em zonas residenciais separadas das dos brancos
(aqui as mesmas limitações são impostas por meio da severa restrição de acesso à educação e ao emprego)
.

Os casamentos e relações sexuais entre pessoas de raças diferentes eram ilegais (aqui são reprimidos ou desistimulados por meio de sutis mecanismos sociais). Os negros geralmente trabalhavam nas minas, comandados por capatazes brancos e viviam em guetos miseráveis e superpovoados
(aqui as condições nestes aspectos são, praticamente as mesmas, com o agravante de que, para a maioria, quase sempre não há trabalho, nem mesmo em minas)

_”Ah…mas há o Bolsa-família!” _ Diria um engraçadinho ao que eu responderia:

_Ah…Fala sério!”

Afinal, vamos combinar: Aqui a farinha NÃO é pouca e não há direito algum na terra que justifique que o pirão de uns tem que vir primeiro que o do outros.

Ih! Ai, ai, ai…Racismo de novo? Porque falo nisto ainda?

É que o tema veio de novo bater na minha cabeça, martelado pelos mesmos agentes do mesmo ramerrão terrorista, a mesma conversa fiada, a mesma tecla gasta de que, ao se falar de racismo, cotas raciais e ações afirmativas em geral, estaríamos criando a cizania, a dissolução dos costumes, levantando do túmulo a praga transilvanica do racismo que sociedade sem castas e raças que seríamos, entre nós nunca teria existido (ahan, ahan, ah…sei…sei…), evocá-lo nos levaria a danação eterna do fraticídio e da dissolução social, o fim de nossa mui meiga e fraterna civilização, tão justa, tão igualitária, patati patatá (ahan, ahan, ah…sei…sei…).

Menos. Primeiro pare para pensar.

(Mas também, num país onde basta uma cara inventar um igreja e se autointitular bispo para todo mundo sair dando dinheiro, carros e propriedades para o sabichão, vocês queriam o que? Haja paciência e compreensão. Deus, perdoai-os. Eles não sabem o que fazem.)

E não é não? Veja, por exemplo a incrível discussão sobre o Racismo à Brasileira e a pertinência – ou a impertinencia – das políticas de ação afirmativa no Brasil. Veja como ela confunde analistas e especialistas dos mais abalizados.

Existem discursos anti cotas para todos os gostos: Dos sofismáticos, fundamentalistas de direita, quase racistas como os do jornalista Ali Kamel (este mesmo, aquele que afirma:”Não somos racistas”) e seu parceiro Demétrio Magnoli (este por mais estranho que pareça, um doutor em sociologia e demógrafo) até os messianicos supostamente epistemológicos dos antropólogos (doutores especialistas em…Cultura Negra do Brasil) Ivone Maggie e Peter Fry.

Bem, voltando à vaca fria então: O aspecto que vamos abordar hoje é emblemático e só volto ao tema por isto (não sei vocês, mas eu achei absolutamente incrível, fiquei pasmo mesmo quando constatei que o agente do presente ‘alerta vermelho’, era um historiador brilhante como o José Murilo de Carvalho.

O mesmo muito curioso como a questão embanana o pensamento de gente das mais preparadas e modernas.

Até aqueles que se dizem progressistas, ‘de esquerda’ mesmo, no que tange esta questão espinhosa incrivelmente acabam, clara ou subrepticiamente cerrando fileiras com posições quase fascistas, como as levantadas por gente como a família Bolsonaro, por exemplo, parlamentares militaristas, com origem ideológica alinhada com a vetusta ditadura militar, a qual pertence o vereador Flavio Bolsonaro, autor da lei que tenta abolir as cotas nas universidades públicas do Rio de janeiro.

Relendo e analisando o que disse o renomado historiador aqui citado acerca dos controversos métodos de classificação ‘racial’ de nossa população, insatisfeito (ele) com a insistência dos adeptos das ‘cotas para negros’ que exigem que no cômputo para o cálculo de quantos são os negros do Brasil, devem ser incluídos todos os indivíduos denominados ‘pardos’, encontramos o que nos pareceu ser uma série inusitada de incongruências, a saber:

Para José Murilo – partidário de uma tese muito recorrente entre os intelectuais contrários às políticas de afirmação racial – o grau de miscigenação no Brasil seria tão elevado, mas tão elevado que não faria nenhum sentido propor ações deste tipo baseadas na raça ou na cor dos indivíduos.

É o velho sofisma de negar a existência óbvia do Racismo por intermédio da inexistência cientificamente provada de raças humanas. Confundem alhos com bugalhos, sem demonstrar as intenções.

A tese é simples (ou simplista, sei lá): Existiria um número muito maior de ‘cores’ na população brasileira para que apenas ‘negros’ e ‘brancos’ sejam considerados.

Lembram muito o ‘consiglieri’ Nicolau dando dicas para o príncipe: Divide et impera”, não é não?

(O mais estranho desta tese é que, com finalidades aparentemente opostas, ela se baseia na mesmíssima maquiavélica conclusão a que chegaram os formuladores das leis do Apartheid sul africano, que lá para as tantas, constatando que para manter o poder não bastava mais apenas separar negros de brancos, conceberam uma espécie de arco-íris racial, de modo que uma pirâmide social rigidamente hierarquizada fosse institucionalizada – brancos, negros, mulatos, indianos, etc. – com o os brancos sempre no ápice, é claro.)

Você já tinha se tocado deste sutil detalhe da ‘involução’ do Apartheid?)

É com esta tese capiciosa e, a nosso ver baseada em meros sofismas (quando não em equívocos sociológicos) que José Murilo – com certo sarcasmo até – escreve num artigo na Internet (custo a crer que tenha sido a sério):

“Sugiro, para início de conversa , que os atuais brasileiros sejam classificados assim”, diz ele no artigo:

(Enumero as categorias criadas ou sugeridas por ele e logo a seguir as comento, sempre ressaltando que, por mais estranho que possa parecer, quem as formula, ipsis leteris, é mesmo o grande historiador José Murilo de Carvalho)

…Aliás, ué! Se a diluição dos biotipos e das ‘raças’ por aqui desautoriza qualquer tipo de categorização ‘racialista’, porque diabos ele mesmo propõe esta revisionista categorização? Ficamos sem entender. Vamos a ela então, lembrando que é essencial que você leia o artigo do José Murilo no original também, certo?

—————-

“Categoria A – Nativo-brasileiros (Índio)”

Para início de conversa, a denominação ‘nativo-brasileiro’ é imprópria porque envolve alguns problemas epistemológicos importantes quais sejam:

O conceito ‘nacionalidade’ (ou ‘natividade’, tal como José Murilo formula), no caso do índio – aquele que ocupava o território ‘descoberto’ pelos europeus – só faz sentido do ponto de vista do europeu.

Do ponto de vista do índio, um ser nômade por excelência (pelo menos no caso do Brasil) o conceito ‘nação’ era (e ainda é) circunstancial e bem menos abrangente, significando apenas um jeito do indivíduo pertencer a um contexto específico, pertencer à tribo (à ‘nação’) a uma cultura enfim.

Por esta mesma razão, para o índio, originalmente ‘indivíduo de outra nação’ (‘estrangeiro‘) não era um conceito racializado em si. Estrangeiro poderia ser também um indivíduo de biotipo (aparência, ‘raça’) igual aos indivíduos de sua nação. ‘Estrangeiro’ era, pois o indivíduo ‘de fora’ de seu território, a despeito de seu biotipo ou aparência.

Por esta razão a classificação biotípica, a suposta diferença ‘racial’ existente entre o europeu e o índio só se configurava no âmbito de uma divergência política e cultural radical, no contexto das relações entre invasores (reconhecidos pelos índios como sendo, aparentemente ‘brancos’) e invadidos (identificados pelos europeus por sua vez – e também aparentemente – como ‘negros’ ou ‘índios’).

É preciso se considerar também que todo racismo parte de preconceitos intencionalmente inventados. Logo, no Brasil, mais até que as outras ‘categorias raciais’, este ‘indigenismo’ enquanto categoria classificatória com finalidades sociológicas, não passa também de uma entidade meramente cultural.

A classificação ‘índio’, fora de seu contexto e sentido originais (um limite territorial específico, uma reserva, um ‘território’ enfim), não faz, portanto sentido algum.

Há que se considerar fortemente neste caso que a expressão ‘índio’ tem, antes de mais nada este conteúdo de entidade, evidentemente classificatória, com o fim de marcar, diferenciar os indivíduos de uma cultura em relação (ou em oposição) à outra.

Ora, se um ‘índio’ só é índio, portanto, no âmbito de sua cultura, considerando-se que é reduzidíssima a nossa população realmente indígena, o ‘nativo-brasileiro’ de José Murilo não é uma categoria… ‘racial’ válida e precisa ser enquadrada, na maioria dos casos, em outras categorias, certo?

Entre estas categorias (quando o indivíduo ‘indígena’ aceita ser um indivíduo ‘assimilado’ pela ‘civilização’ do outro) as mais comuns são as de ‘caboclo’, ‘pardo’ ou, simplesmente ‘nordestino’.

Além do mais, do ponto de vista europeu, desde as Cruzadas, ‘negros’ sempre foram os ‘não brancos’ em geral, o ‘outro‘, o ‘estranho’ a ser conquistado, qualquer povo que não fosse europeu.

‘Negros’ podiam (e até hoje podem) ser mexicanos, indianos, vietnamitas, árabes, polinésios, aborígenes, sempre classificados assim nos momentos mais agudos do embate entre a cultura deles e a dos europeus (como no caso das guerras de conquista, por exemplo).

Um exemplo candente disto é que a secular expressão alemã ‘Mohr’ (‘mouros’), com efeito, até hoje é utilizada na Europa central, pejorativamente para classificar ‘negro’.

É, portanto o Europeu (o branco, por suposto) que ‘racializa’ os conceitos ‘índio’ e ‘negro’, etc. com as finalidades sobejamente conhecidas.

Ressalte-se também que a expressão ‘negro’, historicamente só foi usada para se referir exclusivamente a africanos, circunstancialmente.

Os africanos e os indígenas (de todos os biotipos, inclusive os africanos pretos) passaram a ser classificados, simbolicamente como ‘negros’ no âmbito dos conflitos violentos que caracterizaram a invasão, a subjugação e a colonização dos territórios fora da Europa. Os europeus foram por sua vez tratados de ‘brancos’, por todos os outros povos e etnias por conta uma óbvia analogia.

Repetindo: É o ‘branco’, a classe dominante (para usar uma expressão vulgar porém eficiente), que racializa a sociedade e institui o racismo. Ponto.

‘Negro’ e ‘branco’ são, portanto instituições meramente políticas, inventadas neste contexto das relações desiguais entre os povos da Europa com os demais e para esta exclusiva razão.

(Parece-nos, aliás, que por este ponto de vista se pode entender bem melhor as circunstâncias sutis que consubstanciam e justificam o racismo à brasileira e a necessidade de se combatê-lo por meio de ações, do mesmo modo, políticas).

“Categorias B- Euro-brasileiros” (brancos, categoria beneficiária do racismo no Brasil), “Afro-brasileiros – pretos, Asiático-brasileiros- amarelos” (categorias consideradas passíveis de sofrer racismo no Brasil).

É preciso também neste caso relativizar e contextualizar estas classificações no tempo e no espaço. Para começar, estas categorias só fazem sentido ao se referirem realmente à cidadãos rigorosamente europeus, africanos ou asiáticos, apenas nascidos no Brasil (ou filhos de estrangeiros nesta mesma situação).

É preciso, portanto se definir – o que José Murilo não faz – se o critério é o da naturalidade ou o da suposta ‘raça‘, já que os critérios são excludentes entre si.

Se o critério for a naturalidade, não cabe nesta discussão já que o contexto dela é, basicamente ‘racial’.

Do mesmo modo as sub categorias (Afro-brasileiros – pretos, Asiático-brasileiros) não se encaixariam muito bem no debate porque não esta sendo posto em dúvida se europeus, africanos ou asiáticos, nascidos ou não no Brasil sejam, respectivamente brancos, negros e amarelos. Lógico que são. A constatação é por demais óbvia.

De qualquer maneira e neste mesmo sentido, é ínfima a proporção de indivíduos destas categorias nas estatísticas o que as retira, de certo modo, do âmbito da discussão sobre cotas.

“Categorias C – Nativo-euro-brasileiros (caboclos- Índio com branco) e Euro-afro-brasileiros (pardos – ‘branco’ com ‘preto’ )” Maioria esmagadora da população.

Categorias também consideradas passíveis de sofrer racismo no Brasil e que se confundem entre si, impossíveis de serem definidas em separado.

Os indivíduos nelas enquadrados, dependendo das circunstancias, são considerados no Brasil ora ‘negros’, ora ‘pardos’ ora ‘morenos’, dada a extrema semelhança entre muitos pardos (fruto da mistura ‘negro com branco’), com a vaga categoria dos ‘morenos’ (mistura de ‘branco com índio’) dependendo da predominancia desta ou daquela característica biotípica (cabelos lisos por exemplo).

“Nativo-afro-brasileiros (cafusos)” : Do mesmo modo que os anteriores os indivíduos desta categoria são considerados no Brasil como ‘negros’ ‘morenos’ ou ‘pardos’ (ou mesmo índios, em certos casos, notadamente quando possuírem cabelos lisos).

Um saco de gatos em suma. É como se fosse possível atribuir pedigree a vira-latas (com todo respeito aos ditos).

Para que, gente?

Ao que tudo indica, a natureza ambígua do racismo á brasileira se vale da indefinição destas categorias para usá-las como massa de manobra e se perpetuar.

“Categoria D – Mestiço-brasileiros (o ‘Resto das Cores’)”

Aliás, a incrível utilização por José Murilo da expressão ‘Resto das cores’ (imprecisa, vaga, ainda mais quando usada por um historiador) não serve de parâmetro considerável para categorizar coisa alguma.

Por outro lado, há que se admitir que, mesmo se fôssemos aceitar a definição como algo mensurável ou um valor em si, a ‘categoria’ já estaria certamente englobada por alguma das anteriores.

Há que se ressaltar finalmente que esta ambígua categoria ‘Resto das Cores’ engloba o universo das pessoas que se consideram – ou se declaram – para todos os efeitos, ‘brancas’ no Brasil, coincidentemente a maior beneficiária, a parte mais interessada na manutenção do racismo no país.

Por esta límpida razão, nada nos impede de concluir enfim que, ao que tudo indica, talvez resida aí, nesta atitude ‘João-sem-braço’ (aquele que não fez nada, não viu nada, não sabe de nada, mas usufrui da situação), talvez esteja aí nesta espécie de esperta baixa-aristocracia (chamada, sub-repticiamente por José Murilo de…‘Resto das Cores’) a raiz do mal, o fio da meada das espertas más intenções deste pessoal.

Talvez esteja escrito aí o ‘xis’ da questão, o nó ideológico que atravanca todos os debates sobre este tema no Brasil, com esta ‘corrente-pra-trás’ que alimenta esta terrorista campanha contra as cotas e as ações afirmativas tentando mascarar as atuais consequencias de nossa evidente, embora sutil e mal explicada, segregação racial.

Este muro da negação do racismo, esta edificação já tão ruinosa, erigida sobre esta velha montanha de eufemismos, tergiversações e sofismas tão descarados precisa ser demolida.

Não deve ser à toa que os urubus e as harpias da direita brasileira véia de guerra, estão por aí à espreita, empoleiradas neste muro de falsas lamentações, chafurdando pretextos criados lamentavelmente por pessoas tão bem articuladas.

Se você já entendeu que não existem raças, nem brancos nem negros, mas que, para todos os efeitos e vantagens de alguns espertinhos, uns são classificados como sendo mais pretos que os outros (ou seja: existe racismo sim), faça como eu: deixe de ser branco para ser franco:

Crioulize-se você também, brother! Logo, antes que – imitando o terrorismo deles – seja mesmo tarde demais.

Spírito Santo
Agosto 2009

Centro Cultural Pequena África

•Agosto 28, 2009 • Deixe um comentário

PedraDoSal_02 Ivo Korytowski

(Só como introdução um papinho de nada: Ruben Confeti é quem comanda a casa, a roda de samba que rola por lá e mais o que estiver no contexto. É coisa mesmo para se espalhar aos quatro cantos, com o melhor dos incensos)
Leiam, por favor, com a alma livre:

(Extraido do site do CCPA)

A Pequena África

Nome dado por Heitor dos Prazeres a uma região compreendida pela Zona Portuária do Rio de Janeiro, Gamboa, Saúde onde se encontra a Comunidade Remanescente de Quilombos da Pedra do Sal, Santo Cristo, e outros locais habitada por escravos alforriados e que de 1850 até 1920 foram conhecidos por Pequena África.

No final da década de 1770 o Marquês de Lavradio transferiu o porto e o tráfico Africano para o Valongo, para evitar o espetáculo da chegada de milhares de seres humanos quase nus, com mulheres e crianças impressionando pelo seu alvoroço e quizumba no centro de uma cidade que deveria ser uma colônia européia no meio dos trópicos.

Muitos escravos chegavam com graves doenças, decorrentes muitas vezes das péssimas condições dos navios negreiros e eram enterrados ao largo de qualquer terreno na freguesia de Santa Rita. Há vários assentos de óbitos desta freguesia em que centenas de africanos recebiam apenas marcas geométricas como identificação. Caminhamos sobre ossos africanos em muitas áreas da freguesia de Santa Rita. Somos estes ossos e esta carne.

Os nossos irmãos africanos que eram trazidos nos porões de navios negreiros como escravos para o Brasil, desde o período colonial, tinham como primeiro contato com as terras do Estado do Rio de Janeiro, o que é hoje a chamada Zona Portuária. Os navios negreiros aportavam na Gamboa. Na altura da Pedra do Sal, perto do Largo da Prainha, onde funcionava o mercado de escravos (Valongo), onde os negros africanos eram comercializados e de lá saíam direto para o trabalho escravo nas lavouras. Calcula-se que 12 milhões de africanos foram trazidos para o Brasil, retirados à força de suas nações, e um número bastante significativo, não resistiam aos suplícios da viagem e chegavam desnutridos ou com feridas infectadas pêlos castigos das chibatas ou pelos cortes dos instrumentos de ferros que os prendiam nos pulsos, pescoços e tornozelos, o que invariavelmente os levavam à morte. Eram colocados em valas comuns e depois queimados.

Em 1996, durante as obras de reforma da casa de número 34 da Rua Pedro Ernesto, na Saúde, foi descoberto um cemitério de escravos. O espaço passou a ser conhecido como Cemitério dos Pretos Novos.

A situação do negro no século XIX sofreu várias mudanças no Brasil – a Lei do Ventre Livre, a Lei do Sexagenário, a própria Abolição, tudo fruto da luta pelo fim da escravidão -, de modo que, contraditoriamente, havia grupos de negros livres e grupos de negros escravos. A Pedra do Sal, aos poucos, foi também mudando. Antes, a área que servia de palco para a comercialização dos escravos passou a ser ponto de espera dos navios que traziam negros libertos, amigos e familiares de ex-escravos, a maioria vinda da Bahia, que, no final do século XIX, amargava uma forte decadência nas plantações de cacau e café. Vieram também para o Rio de Janeiro: escravos que participaram do levante dos Malês, singular acontecimento que teve lugar na Bahia em 1835, instalou-se na atual Barão de São Felix, um grande contingente de negros que participaram da Guerra do Paraguai, encerrada em 1870, e egressos do massacre de Canudos que se estabeleceram no Morro da Favela, hoje Providência.

A região portuária do Rio entrou num intenso processo de transformação social e cultural. Os negros que aqui chegavam reconstituíram seus valores culturais, misturando-os. Estávamos diante da consolidação da Pequena África. Seus moradores tiveram participação importante em episódios históricos como a Abolição da Escravatura, a Revolta da Armada, as greves operárias contra os maus tratos e pela redução da jornada de trabalho, a Revolta da Chibata, a Revolta da Vacina, entre outros. São momentos da história do Brasil em que se destacaram figuras como João Cândido, o Almirante Negro – Dom Obá II, Prata Preta e diversos líderes dos trabalhadores da orla portuária. A concentração de negros na região permitiu a retomada de uma cultura própria ou o que alguns pesquisadores preferiram chamar de cultura negra carioca.

A Sociedade dos Moços Pretos, fundada por Cândido Manoel Rodrigues, por volta de 1867, que se transformou no ano de 1905 em dois poderosos Sindicatos, que tiveram como homens fortes: Elói Antero Dias (Macaé) – Sindicato dos Arrumadores – e Ézio Cruz – Sindicato dos Estivadores – foi uma medida que deu impulso econômico a milhares de famílias negras. Foi no entorno da Pedra do Sal que Donga, João da Baiana, Heitor dos Prazeres, Aniceto do Império e Pixinguinha, entre outros, se reuniam para cantar e compor sambas. Na Gamboa, década de 30 do século XX, foi fundada a Agremiação Recreativa Escola de Samba Vizinha Faladeira que se tornou famosa por ser considerada a mais rica e inovadora escola de samba da época. A Pedra do Sal era ponto de encontro também de capoeiristas. Vale lembrar: a Escola de Samba Império Serrano surgiu basicamente do trabalho coletivo dos estivadores que circulavam pela região portuária e que alguns deles passaram a morar nas adjacências de Madureira.

O Candomblé, implantado no Rio de Janeiro pelo pai de santo Baiaco vindo da Bahia, em seus terreiros, na virada dos séculos XIX e XX, simbolizavam um espaço dos negros com as suas raízes religiosas. A elite branca proibia o batuque e perseguia os sambistas, considerados marginais. A casa da região mais famosa e freqüentada na época era da Tia Ciata, a baiana Hilária Batista de Almeida, que, em 1876, com 22 anos de idade, veio para o Rio de Janeiro em busca de uma vida melhor, para fugir da perseguição policial contra os terreiros em Salvador. Sua casa, que ficava na altura da atual Praça Onze, atraía os iniciadores do samba. E não sofria mais perseguições. E há explicação para isso: certa vez, o presidente da República Wenceslau Braz ficou com uma ferida na perna que nenhum dos seus médicos conseguia curar. Então, um policial que freqüentava a casa de Tia Ciata lhe pediu que tratasse do presidente. Ela recomendou uma pasta feita de ervas e, três dias depois, Wenceslau estava curado. A casa de Tia Ciata passou a ser respeitada pelas autoridades.

Esse é apenas um breve relato do que era a Pequena África.

O Centro Cultural Pequena África tem como seu objetivo principal resgatar e preservar os valores históricos e culturais e celebrar algumas personalidades que foram vitais nas questões da ancestralidade, solidariedade e cidadania da antiga Pequena África, como ficou conhecida a região que hoje abriga os bairros da Saúde, Gamboa, Santo Cristo e parte do Centro, primeira morada dos africanos e seus descendentes que chegaram ao Rio de Janeiro.

Nesta sua fase embrionária o Centro Cultural Pequena África vem realizando encontros periódicos, exaltando as lideranças acima citadas, através de rodas de samba, filmes de curta-metragem, depoimentos de pessoas que circulavam e se beneficiaram das ações dos nossos celebrados, num processo de resgate para a valorização da história e da cultura do Rio de Janeiro e do Brasil.

Trata-se de um trabalho de resistência, que precisa do seu apoio.

Como objetivos o Centro Cultural Pequena África tem:

1- Entidade sem fins lucrativos com o objetivo de pesquisar, registrar, promover a história e movimentos sócio culturais dos afro-descendentes que se estabeleceram na região da zona portuária do Rio de Janeiro.

2- Implantar um centro de convivência para recuperar a auto-estima da população local com atividades de arte-educação, de lazer, de saúde preventiva e de qualificação profissional.

3- O prédio abrigará: Teatro multiuso, salas de aula, centro de informática e internet (em convênio do CDI – Comitê de Democratização da Informática), cine clube, galeria de arte, restaurante e cafeteria, centro de documentação, pesquisa e ponto de cultura.

4- Programas de qualificação profissional para jovens e adultos, cursos de atualização para terceira idade, cursos de arte-educação com oficinas de teatro, dança e música, oficinas de vídeo e audiovisual.

5- Estabelecer convênios com os sindicatos dos trabalhadores e ex-trabalhadores do Porto do Rio, Organismos Nacionais e Internacionais, Governos Federal, Estadual e Municipal, Universidades, Escolas Técnicas, Centros Culturais.

6- Produzir livros, trabalhos acadêmicos, discos e vídeos que registrem a história dos afro-descendentes desta região do Rio de Janeiro até os dias atuais.

7- Promover ação de saúde para jovens e idosos da região.