“Abandonada e traída Vanessa denuncia Rodrigo!” Não percam o último capítulo da novela da Globo…plim, plim!

•01/08/2014 • 1 comentário

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Rodrigo e vanessa

(Vocês não sabem da missa o terço.)

Ainda sobre O Rodrigo Bethlem e secretários de Estado corruptos, esta coisa tão corriqueira no Brasil e as muitas mumunhas ocultas da história.

(Para você fanzoca vibrador do Bolsa Família, em especial, alguns detalhes do esquema. Quem me informa é uma fonte fidedigna, conhecedora da armação. O personagem exemplar da trama pode ser Rodriguinho Bethlem, ex-secretário de Governo e de Assistência Social da Prefeitura do Rio, o nosso corrupto bola da vez, outrora conhecido como o ‘Xerife do Rio”.)

Cadê meu CadÚnico?
Rodriguinho confessou que ganhava uma mesada tirada desta grana aí.

São vários os benefícios geridos pelo CadÚnico, cadastro nacional que lista os pobres miseráveis do Brasil que precisam da mão do Estado para não morrer de fome ou de outra mazela qualquer. O principal é o famoso Bolsa Família, mas tem também o custo per capita de vagas em abrigos de crianças de rua, mendigos, lanches para todos os beneficiários envolvidos em atividades sócio educacionais diversas, cestas básicas, bolsas para jovens carentes, aluguel social de gente desabrigada por desabamentos, tratamento de viciados em crack, o escambau.

O que chamamos de CadÚnico é então, na prática a lista geral destes beneficiários, o rol das pessoas que se inscreveram num ou vários destes programas de auxílio. Quem controla isto é o governo federal, que é quem escolhe, sob contrato, as instituições governamentais (prefeituras ou governos estaduais) que terão o direito de fazer os cadastros, listar os beneficiários de uma região. O governo federal PAGA a estes governos credenciados, per capita um valor por estas listas.

Sacaram? Não se trata ainda do benefício em si, a ser pago a indivíduos, mas de um serviço prestado pela instituição governamental contratada para realizar a localização e a inscrição de beneficiários, serviço que é remunerado pelo Tesouro Nacional.

Bem, maravilha até aqui, alguém teria mesmo que fazer este serviço, mas logo aparece o primeiro problema: O Governo Federal só credencia como cadastradores, governos e prefeituras de sua base eleitoral aliada. A razão é óbvia: Ter o CadÚnico significa ter uma grana preta para gerir e, eventualmente desviar. O governo – o partido no governo, no caso – tem então bala na agulha para, literalmente comprar apoio no senado e na câmara.

São inúmeras as manobras e falcatruas que se pode fazer com uma lista de pobres coitados mortos de fome. São filas, milhões de desesperados doidos para entrar nestes programas (não esqueçam que eles são também, milhões de eleitores agradecidos). Como disse acima, o governo paga pelo total de nomes da lista e pronto.

Como a relação e os interesses que ligam o Governo Federal aos governos cadastradores é meramente clientelista, pouco importa se as listas são criteriosas ou não. Vale é o brinde, o objeto de barganha oferecido pelo Governo Federal aos seus aliados. Grana preta, bufunfa, quem não quer?

Outro detalhe sórdido:Com toda certeza, o número de beneficiários cadastrados como se recebessem o Bolsa Família, por exemplo (e vejam: isto vale para qualquer outro programa do CadÚnico) é inflado, muito maior do que os que realmente recebem o benefício. As estatísticas eleitoreiras na propaganda governamental, contudo, cravam o número maior possível, falso, exagerado, iludindo os trouxas e ingênuos.

Quanto mais cadastrados um governo ou prefeitura enviar para Brasília, mais grana receberá pelo serviço e mais cadastrados aparecerão nas estatísticas da propaganda do governo e seu partido.

Perceberam? O dinheiro que sai do tesouro para pagar as listas não é controlado, não interessa ser. Quanto mais se pagar aos aliados, melhor, mais garantido é o apoio eleitoral. O que é controlado sim, na ponta do lápis, contudo, é o pagamento efetivo ao indivíduo beneficiário. Quanto menos se pagar ao pobre da ponta da corda, melhor. Mais grana dos programas sobra para ser distribuído aos aliados.

Senão vamos lá, chegando a parte mais suja da história:

Não sei se é coisa da lei da responsabilidade fiscal ou outra lei qualquer (estou sem saco para pesquisar isto aí agora), mas o fato é que a partir dos anos 90, por aí, instituições governamentais começaram a utilizar, de forma sistemática, escandalosa e irresponsável até, o instituto da “Terceirização”. Sabem o que é isto?

Alguns setores e tarefas da administração pública, criteriosamente definidos, com autorização legal, passam a ter sua gestão transferida para instituições privadas, geralmente ongs (ou seja entidades “sem fins lucrativos” isentas de muitos impostos). Ah…Quem não sabe o sentido ambíguo e escorregadio que este tipo de instituição foi assumindo no Brasil, com este amplo amparo legal.

Rouba-se por aqui de todas as maneiras, nas rouba-se principalmente dos mais pobres, os mais desamparados. A rigor, ao que parece, os governos criam programas de renda mínima, na verdade para desviar dinheiro público. Criam-se também programas de obras chamadas “públicas”, hospitais, escolas, pontes, estradas, obras da responsabilidade dos governos, a serem construídas com grana do tesouro, mas efetivamente a serem tocadas por empresas privadas.

Grana do tesouro. É este o grande chamariz da corrupção no Brasil.

Querem um exemplo? O PAC. Ele é um programa planejado para concentrar tudo que o governo diz querer fazer neste campo (obras públicas). Neste caso terceiriza-se o serviço contratando empreiteiras, empresas de engenharia, etc.

Tudo é incrivelmente sujo neste campo. Um câncer. A começar pela seleção das ongs ou empresas a serem credenciadas, um processo sempre de cartas marcadas. O quadro é tão viciado, mas tão viciado que, desde o início, pelo menos no âmbito das muitas ongs credenciadas pela prefeitura do Rio (num processo que pude acompanhar pessoalmente, como eterno contratado de ongs) os próprios secretários ou assessores prepostos, montavam suas ongs pessoais com o concurso de presidentes testas de ferro.

A história é longa. A primeira Ong de assistência Social da Prefeitura do Rio, todas as boas e más línguas disseram, tinha o (a) secretário (a) municipal como dono (a) fantasma. A tal ong foi a falência e deu calote, não só na prefeitura como em todos os seus funcionários que, até hoje, mais de 20 anos passados aguardam as indenizações que viraram precatórios.

Não conheço uma gestão de secretarias de assistência social no Rio sobre o qual não pairaram fortes boatos do secretário ser dono enrustido das ongs que contratava. Não conheci também, em todos os anos em que trabalhei contratado por entidades deste tipo, NENHUMA ong que fosse totalmente idônea, honesta e que não tivesse nenhum envolvimento com as falcatruas mais recorrentes.

Quanto mais eficiente na captação de recursos, quanto mais badalado e elogiado for o trabalho de uma Ong, mais envolvida ela estará em algum tipo de falcatrua. As  Ongs mais eficientes são, com efeito as bancadas por grandes estatais como a Petrobras e o BNDEs, ou grandes bancos. É uma regra evidente do que se transformou num negócio muito rendoso no Brasil, já que trata-se de um sistema complexo  de gestão fraudulenta de recursos públicos.

Ninguém entra e permanece neste negócio se não for cúmplice. Sei por experiência própria, pois tentei, anos a fio sem sucesso, manter uma Ong. Nunca fizemos o jogo do sistema. Fomos alijados do meio e tivemos que passar a “contratar” pessoas jurídicas de aluguel para prosseguir nosso trabalho.

Rodrigo e anessa

E quem disse que a situação não podia ser pior?

No início, aí pelos anos 1990 até o início de 2000, as Ongs eram instituições de perfil – pelo menos de fachada – limpo, gente de esquerda com ideais, artistas ligados ao movimento social enfim, bem na linha da militância anti ditadura. Este pessoal, em sua maioria, infelizmente corrompeu-se, como vimos, instalando as bases do corrupto sistema atual.

A partir daí, a coisa se degradou mais rapidamente ainda. Sabedoras das facilidades maravilhosas do sistema, o esquema “entidades sem fins lucrativos” foi descoberto como um excelente modus operandis para ladrões de todos os tipos. Um propinoduto excelente.  É esta a fase atual, na qual escroques e bandidos de qualquer laia se organizam em Ongs, habilitando-se a vender sua personalidade jurídica, para autoridades governamentais corruptas.

São igrejas, em geral supostamente evangélicas (mas também católicas) montando entidades filantrópicas fajutas, são grupos de milicianos (geralmente ex policiais expulsos por serem corruptos e assassinos), representados ou apoiados por parlamentares testas de ferro, que montam ongs que simulam prestar serviços de “Ação Social”, uma mixórdia, um saco de lixo contendo o que de pior um ser humano pode ser.

Como se vê, território e espaço aéreo de urubus, o problema está concentrado de forma explosiva no âmbito dos programas nacionais, estaduais e municipais de assistência social (notadamente nos de renda mínima como o Bolsa Família, conforme afirmamos acima).

Escroto, não? Mas não é tudo ainda (e é agora que aparece o nosso Rodriguinho. É esta praia do nosso herói. Ele mesmo confessou).

Rodrigo Bethlem, parlamentar do PMDB, nosso exemplo de ladrão falsamente paradigmático (como se esta história fosse alguma novidade), é o agente secretário da Prefeitura do Rio, aliada do partido que exerce o Governo Federal. Rodrigo Bethlem é, portanto, por méritos desconhecidos, o incumbido de gerir o CadÚnico (entre outras incumbências).

Óbvio, portanto que o dito, caído em desgraça, flagrado de modo prosaico num telefonema ex-conjugal, foi escolhido pelo grupo da prefeitura a dedo, depois de demonstrar o dom para o cargo, por sua capacidade de manobrar neste contexto, habilidade para nadar nesta lama.

Conhecendo como vocês conhecem agora as características menos aparentes do esquema, Reflitam: Ter sido escolhido para gerir o CadÚnico indica ou não indica que Rodriguinho é homem de confiança da Prefeitura? Como o esquema é podre, ele é, portanto o homem de confiança no pior sentido que esta condição pode ter.

Concluam então com o Titio que o esquema protagonizado por Rodriguinho, uma gota no oceano da corrupção no Brasil, simplesmente É um Sistema, não sendo, de modo algum um evento inusitado, isolado. Desde cima, da formulação e regulamentação das leis no congresso, passando pela atuação pusilânime (para não dizer também cúmplice) do judiciário, culminando na ponta suja da realização e gestão das políticas públicas, o Brasil é uma nação, essencialmente, talvez irremediavelmente corrupta.

(Assustado com o escândalo, observem que o normalmente omisso TCM, Tribunal de Contas do Município danou de denunciar Ongs para a imprensa. O nome de muitas Ongs que insinuei aqui aparecem na lista. Me engana, TCM, me engana que eu gosto)

Antes de um the end provisório, a novela ex-conjugal de Rodriguinho e Vanessa ganha também uma trama adicional, capítulos adicionais. Fica evidente agora que Vanessa, a mocinha traída, já sabia tudo que o ex marido vilão ganhava da Tesloo. Ora, a Tesloo, simplesmente pertence à Vanessa e seu pai Jorge Felippe, o sogrão. O telefonema seria apenas uma arapuca na qual o trouxa do Ricardinho entrou de gaiato.

Soube de ler na imprensa agora mesmo que o CadÚnico controlado por Rodriguinho não tinha apenas a Tesloo como controladora conveniada. Seriam, pelo menos quatro áreas loteadas no município para outras três Ongs fajutas.

Sendo o testa de ferro não unicamente da Tesloo, mas da Prefeitura como um todo (só os tolos mais ingênuos acreditam que Eduardo Paes e Pezão nada sabiam), Rodrigo Bethlem receberia então propinas quatro vezes maiores do que recebia da Ong do sogrão (e isto sem falar da suposta grana dos ônibus de Jacob Barata).

É parte desta outra grana preta (a grana total) que a ex esposa santinha do pau oco, se sentindo lesada, almeja em sua falsa sanha de abandonada e traída (aliás, seria até recomendável a moça daqui em diante ter mais cuidado com a saúde)

Rodriguinho, como é de praxe nas regras pétreas de toda máfia, segurará o trem caladinho. É o “bucha” da história (bode expiatório voluntário, no dizer da malandragem) já sabia desta sua condição desde o início e terá a sua conta na Suíça protegida, para quando sair da cadeiazinha de um ou dois anos, se é que será mesmo processado e condenado (duvido). Multipliquem por milhares os Rodriguinhos espalhados pelo país e me digam: Tem jeito isto?

E assim acaba a novelinha de Rodriguinho e Vanessa. A nossa novela, este drama de audiência nacional bombada no ibope, contudo, parece que não acabará jamais.

Talvez a gente tenha que explodir este Brasil para fazer um outro novo, não é não? Alguém aí vê outra saída?

Spirito Santo
Agosto 2014, mês e ano 67 do Titio

“Rote Schild”: A Casa do Escudo Vermelho em Gaza

•18/07/2014 • Deixe um comentário

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Estado judeu, Barão de Rothschild e nazismo sionista na Faixa de Gaza.

Palestina e Rothschild

 “O primeiro membro da família que ficou conhecido por usar o nome “Rothschild” foi Izaak Elchman Rothschild, nascido em 1557. O nome significa “Escudo Vermelho” em alemão.

A ascensão da família Rothschild para a proeminência internacional iniciou-se em 1744, com o nascimento de Mayer Amschel em Frankfurt am Main, Alemanha. Nascido no gueto judaico (chamado “Judengasse”) , estabelecido pela Igreja em Frankfurt, Mayer construiu uma casa de finanças e espalhou seu império por instalar cada um de seus cinco filhos nos principais centros financeiros europeus, para conduzir negócios.”

(Wikipedia)

Confesso que entendo quase nada de política internacional. Mas palpito, futrico e especulo sempre que me vejo diante de histórias para mim mal contadas.

Talvez algum sabichão do assunto já tenha tocado neste ponto, para mim chave da questão palestina. O fato é que nasci exatamente no ano em que a questão explodiu no colo do mundo (1947) e passei, literalmente a vida inteira observando, atônito a evolução do que para mim nunca passou muito de uma farsa estúpida, um engodo de roteiro de filme de James Bond com toques épicos, bíblicos de um Cecil B. de Mille.

É o seguinte: Nunca entendi – daí fui ler pra saber – porque ao fim da segunda guerra mundial, os refugiados judeus, gente europeia, há tanto tempo integrada nos países ocupados por Adolf Hitler, não regressou simplesmente a seus lares ou optou por permanecer nos países onde haviam se refugiado, normalmente como faz qualquer população desalojada de seus países por alguma guerra ou perseguição étnica ou religiosa.

Sim, sei que grande parte destas pessoas de crença ou ascendência judaica fez isto depois da guerra, mas me refiro a estranha e mal explicada razão para a ONU criar um Estado exclusivo para judeus na Palestina, um lugar para onde todos os judeus deveriam se concentrar, supostamente atendendo a uma dívida histórica da humanidade para com a “raça” judia e sua “tribo errante”.

Muito mal alinhavada esta história, sempre desconfiei.

(Já pensaram na hipótese da ONU criar um Estado Afro-descendente na África para o qual se deslocariam todos os descendentes de escravos das Américas? Loucura, não é não? Mas é mais ou menos por aí que planejaram esta coisa da “Pátria judia”)

“…Em 1917, o governo britânico, através da Declaração Balfour (uma carta de Arthur Balfour, secretário britânico dos Assuntos Estrangeiros, ao Barão Rothschild, líder da comunidade judaica do Reino Unido), manifestou seu apoio ao plano sionista de colonizar a Palestina e lá estabelecer o “lar nacional judeu”. Poucos anos depois, em 1922, a Liga das Nações aprovou o Mandato Britânico da Palestina.

O mandato previa que a mandatária se responsabilizaria por colocar em prática a Declaração Balfour, isto é, favorecer o estabelecimento, na Palestina, de um lar nacional para povo judeu.”

Vejam. Desde sempre, no início do século 20 que judeus de qualquer lugar, notadamente da Europa ocidental e até do norte da África emigram para a Palestina onde um grupo de judeus originais já se encontravam, desde tempos bíblicos. Não se têm notícia de nenhum conflito étnico importante entre árabes, palestinos e judeus na região nesta ocasião. Óbvio que finda a guerra, muitos judeus que assim o desejassem poderiam se instalar na região, sem nenhum empecilho aparente.

Os judeus que eventualmente desejassem se fixar na Palestina poderiam sim estar perfeitamente integrados aos demais grupos étnicos ou religiosos locais hoje, sem nenhum problema senão os conflitos étnicos mais comezinhos.

“Os judeus, que são algo como nômades, nunca até agora criaram uma forma cultural por si mesmos, e até onde eu posso ver, nunca o farão, uma vez que todos os seus instintos e talentos requerem uma nação mais ou menos civilizada como hospedeira para o seu desenvolvimento.”

(C. G. Jung / The State of Psychotherapy Today, Collected Works (Routledge), vol. 10 (1934)

Reflitam comigo: O que poderia justificar a criação em 1947 deste estado judeu que passou a ocupar partes consideráveis da Palestina, deslocando dali, geralmente por meio da força, os habitantes originais? As remotas razões históricas, por mais emocionais e candentes que possam ser (esta coisa da “tribo errante”, cá entre nós é de uma pieguice de doer) não justificam este apelo extremo á criação de um território judeu exclusivo encravado na velha Palestina.

“…Após a Segunda Guerra Mundial, a criação do lar nacional judeu passou a ser vista pela opinião pública como uma forma de reparação pelo Holocausto. Em julho de 1947, forças britânicas interceptaram o navio posteriormente denominado “Exodus 1947″, que levava ilegalmente 4.500 refugiados judeus para a área do Mandato, violando as restrições à imigração judia, estabelecidas pelo chamado Livro Branco de 1939.

A viagem fora custeada por um grupo de judeus americanos. O caso obteve grande repercussão na mídia, provocando comoção internacional e fortalecendo a posição das organizações sionistas, que lutavam pela criação de um Estado judeu.”

(Wikipedia)

Esta viagem do navio “Exodus” ao que tudo indica, também se caracterizaria como uma fase do mesmo plano, paga que foi por um grupo de ricos judeus norte americanos, sugerindo o seguimento do mesmo projeto de natureza capitalista, urdido ainda no Reino Unido em 1917.

Pois é, soube de ler agora mesmo, que o tal Barão de Rothschild, baluarte da economia colonialista do século 19 e paradigma do capitalismo nascente no século 20, foi quem começou tudo isto, lá no Reino Unido, nos tempos da Inglaterra ainda pontificando como a maior potência econômica mundial (ressalto que, não coincidentemente, o mando territorial da Palestina andava nas mãos do Reino Unido por esta mesma ocasião, já que o eixo do capitalismo mundial só se deslocaria para os EUA com o fim da segunda guerra mundial.)

“Já donos de uma fortuna incalculável obtida com os empréstimos a todos os países europeus, os Rothschild se envolveram vigorosamente nos financiamentos ao governo inglês para as colônias da América, acabando por indiretamente causar a independência americana quando restringiram o crédito e aumentaram salgadamente as taxas cobradas aos pilgrims.”

(“A maior fraude da história”- Nehemias Gueiros Jr.)

Em tudo por tudo, o quadro desta mal explicada criação de um Estado judeu na Palestina em 1947, a imediata voracidade deste expansionismo logo logo demonstrada, rumo à conquista e à dominação de mais e mais territórios, a vergonhosa sujeição da comunidade internacional – da ONU notadamente desde sempre – a este expansionismo (observem a transformação do mapa da Palestina de 1947 até hoje) me parece um xis muito evidente para os problemas da região hoje.

Para mim isto se parece muito com um projeto capitalista (neo colonialista) de um grupo de astutos oportunistas, que se valeu como propaganda e pretexto, da comovente história bíblica da busca dos judeus pela Terra Prometida e da comoção provocada pela insanidade do holocausto nazista, com os fins, claramente imorais de se transformar, eles mesmos, no mal que tinham o dever de combater: Um Estado capitalista, de perfil policial-militar, implantado na região da Palestina para garantir a expoliação de recursos naturais – notadamente o petróleo – por parte de um grupo capitalista, a Casa Rothschild à frente que está no cerne da expoliação de milhões de seres humanos há séculos.

A insídia, pura, crua, mostrando a sua cara.

“…Em toda sua longa história, os Rothschilds esforçaram-se para criar uma impressão de que operam dentro da estrutura da ‘democracia’. Essa postura é planejada para enganar e levar as pessoas para longe do fato que o objetivo real deles é a eliminação de toda a concorrência e a criação de um monopólio em escala mundial. Escondendo-se atrás de inúmeras ‘frentes’, eles fazem um trabalho genial de dissimulação.”

(Des Griffin, “Descent Into Slavery”)

Tanto é assim que o quadro da ocupação israelense hoje, é o da completa pulverização das populações e nações que ocupavam a Palestina em 1947, com a sujeição absoluta destas populações e nações a interesses capitalistas de inspiração – oh, contradição dantesca! – claramente nazista, culminando com a transformação de toda a região num estado judeu capitalista hegemônico.

Quem banca este Estado judeu? Alguém aí pode me responder? Dei uma lida por alto nos números de sua economia. Não me convenceram. Não cabem neles tamanho custo militar. O que, por Deus financia esta máquina militar invencível e avassaladora, em termos relativos talvez o Exército mais bem equipado e armado do mundo? Quem, dentro ou fora da linha dos Rothschild do passado, bancaria hoje isto tudo? Porque banca?

Que interesses estratégicos essenciais à sobrevivência do capitalismo internacional estão sendo defendidos a ferro e fogo pelo Estado de Israel a ponto de desalojar, quase exterminar todos os seus vizinhos? A serviço de que ou de quem o Estado de Israel assume esta sua feição nazista, mascarando seu expansionismo com pretextos esfarrapados de autodefesa e direito histórico à posse do território.

“…Os Rothschilds alegam que são judeus, quando na verdade são khazares. Eles são de um país chamado Khazaria, que ocupava a terra encravada entre o Mar Negro e o Mar Cáspio, que agora é predominantemente ocupada pela Georgia. A razão pela qual os Rothschilds alegam serem judeus é que os khazares se encontravam no âmbito da instrução do Rei, convertido à fé judaica em 740 dC, mas é claro que isto não incluiu a conversão de seus genes mongóis asiáticos para os genes do povo judeu.

Você vai descobrir que cerca de 90% das pessoas no mundo de hoje que se dizem judias são realmente khazares, ou como eles gostam de serem conhecidos, judeus Ashkenazi. Essas pessoas com conhecimento de causa mentem para o mundo com as suas alegações de que a terra de Israel é deles por direito de nascença, quando, na realidade, sua terra natal real é mais de 800 quilômetros de distância, na Geórgia.”

(Andrew Hitchcok, “A história da Casa Rothschild”)

E me digam por outro lado: Quem banca estas ditaduras árabes títeres de primaveras sempre frustradas (Sadat, Saddam, Assad, Kazai, Bin Laden, Mubarak, Kadhafi, etc) a maioria comandadas por colaboracionistas descarados, alguns claramente identificados como ex-agentes da CIA promovidos a ditadores, que se omitiram – antes de serem arquivos mortos e queimados – ou se omitem ainda – no caso dos ainda vivos – não menos vergonhosamente diante da destruição total da identidade moral, cultural, nacional e territorial da Palestina?

O mundo vai pagar caro – na verdade já paga – por sua omissão diante de perguntas tão simples, de respostas tão óbvias.

Não são os Rothschilds, não são os milionários avarentos e oportunistas, não são os judeus, entendam, meros signos da besta fera capitalista que são, escudo heráldico da iniquidade e da avareza. É a consciência afinal que nos falta de que a tragédia de Gaza esconde uma farsa política inominável, uma intriga internacional, um conluio cometido em 1947, um limite moral que não poderia ter sido ultrapassado, tolerado mesmo sob a ótica do lucro desmedido que caracteriza o sistema capitalista internacional.

O problema crucial é a comunidade internacional se negar a entender que a criação do Estado de Israel em 1947 – uma farsa oportunista como disse acima – obedeceu a um projeto capitalista equivocado, que só se mantêm de pé a custa da sujeição da população da Palestina pela força das armas, da violência desmedida e das incontáveis mortes de inocentes. Um projeto que se mantêm vivo apenas pela manutenção de toda região árabe em um estado de guerra latente e constante.

(Lembra muito a África pré descolonização do início do século 20. Colonialismo requentado e agonizante, como se vê.)

A Palestina invadida nunca se renderá. É justo que não se renda e neste sentido a reação tresloucada e quixotesca do Hamas é até justa. É histórica a não rendição das populações de qualquer lugar diante deste tipo de afronta. Afinal, se até Roma caiu, este Israel de estupidez imperial também cairá.

“…Meses depois, em 14 de maio de 1948, poucas horas antes de se extinguir o Mandato Britânico e já em meio a uma guerra civil entre árabes e judeus, foi declarada a Independência do Estado de Israel, no dia 14 de maio de 1948. Os Estados árabes reagiram imediatamente.

Começava a primeira guerra árabe-israelense.”

(Wikipedia)

Dá para se sentir o cheiro de gasolina e sangue desta que poderá ser a última guerra colonial. Sim, este arcaísmo pré capitalista escroto, estúpido, pilar desta ordem econômica mudial vigente, inaugurado por um bando de banqueiros – judeus por pura conveniência – seguido fielmente pelos gestores do sistema, judeus ou não, até hoje, pode uma hora destas nos afundar a todos no inferno mais incandescente e explosivo.

Antes mesmo do petróleo da região se esgotar esta fogueira santa arderá.

Spirito Santo
2014

Télérama.fr, Especial Brasil: “Spírito Santo. Da luta armada à luteria étnica”

•14/06/2014 • Deixe um comentário

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Télérama.fr, Especial Brasil: “Spírito Santo. Da luta armada à luteria étnica”

Um músico de 67 anos, ativista anti-racista, que se tornou luthier por convicção, tem tentado, constantemente ajudar a mover uma sociedade brasileira que considera paralizada.

Hélène Marzolf

12/06/2014

 spirito-santo,M153965                    Spirito Santo- Foto Vincent Rosenblatt

Hélène Marzolf
Para Télérama, Paris, França – 2014/06/12

Da Luta armada à luteria étnica.

A música sempre foi um terreno fértil para o seu compromisso. Aos 67 anos Spirito Santo encarna uma forma radical de inconformismo. Pesquisador, músico, arte educador, ele faz campanha desde a juventude contra o racismo e pelo reconhecimento e a afirmação da identidade afro-brasileira.É sua a observação de que “a cultura negra é uma área no Brasil muito carente de documentação, de uma bibliografia confiável” nasceu assim a sua vocação, explica ele  sentado, de boné, em uma lanchonete do bairro da Praça Seca (Zona Oeste do Rio), onde vive.
Descendente, por parte de seu pai, de escravos angolanos de Minas Gerais, manifestou muito cedo o desejo de retomar as raízes de sua cultura familiar.”Eu queria retomar a música africana cantada por meus pais e avós e que não tocava no rádio, não era gravada nos discos e não penetrava nos meios de comunicação. Era também quase impossível reproduzir esta música com os instrumentos existentes. Isto levou-me a buscar os meus próprios sons.Atelier de Spirito Santo

Atelier de Spirito Santo na UERJ

Formado em luteria (fabricação de instrumentos musicais), Spirito Santo realiza nos últimos vinte anos na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) um projeto especial de pesquisa e criação musical, o Musikfabrik, no qual inicia alunos em etnomusicologia, por meio da fabricação de instrumentos musicais com cabaças e outros materiais, tais  como banjos, caixas percussivas, xilofones, marimbas, tambores feitos de materiais reciclados, máquinas de sons futuristas feitas com objetos inusitados descobrindo possibilidades as mais improváveis.

“Eu gosto de incentivar os alunos a recriar instrumentos tradicionais, ou até mesmo a inventar objetos sonoros incomuns que nunca existiram. A idéia é repassar-lhes os fundamentos da fisiologia do som – ou seja, a forma como o som é produzido de acordo com os materiais que são utilizados, trabalhando eu mesmo com eles o resultado estético final, depois de desenvolver nos instrumentos as suas características acústicas. Um dos meus alunos, por exemplo, criou um alaúde de três cordas, feito a partir de material orgânico, um fruto seco (neste caso, uma cabaça) inspirado em instrumentos tradicionalmente usados na China e na África”

Ao misturar a experimentação e a análise da linguagem musical, a oficina reviveu a riqueza e a alma da música afro-brasileira, enquanto enveredava por um campo de investigação cultural e social bem amplo. “A música pode ser uma poderosa ferramenta para a transformação social, uma excelente maneira de dar aos jovens uma visão do mundo, permitindo-lhes compreender o contexto em que vivem.”

Durante muitos anos Spirito Santo acolheu em sua oficina adolescentes de favelas, com o intuito de…”trabalhar a sua autoestima e dar-lhes fé na possibilidade de escapar da armadilha do gueto. Os projetos sociais no Brasil só acontecem dentro das favelas. Mas eu sempre optei por retirar os jovens de seu ambiente tradicional, levando-os para dentro da universidade, tentando criar alguma interação entre eles e os outros jovens da burguesia branca “.

Ativista da igualdade, Spirito Santo também experimentou as dificuldades de viver numa comunidade carente. Criado no suburbano bairro de Padre Miguel, ele forjou ali o seu espírito de luta em contato com a ditadura. “No fim dos anos 60, início dos 70, estive envolvido com uma organização armada.” Preso logo depois de poucos meses de atuação , no grupo, esteve encarcerado numa prisão da antiga polícia política no Rio (DOPS) e na prisão de segurança máxima da Ilha Grande (uma ilha ao largo da costa do Rio). Ao todo passou dois anos atrás das grades.

“A prisão é uma experiência muito boa de vida”, diz ele um pouco provocativo. Eu pude ter uma formação política na base, com os outros detentos. Isso me permitiu adquirir algumas ferramentas de análise da sociedade”. “A saída da prisão foi muito difícil. Eu precisei  de uns quatro ou cinco anos para me recuperar. Tudo havia mudado durante a minha detenção. Minha mãe era viúva, não tínhamos dinheiro.”

Em 1975, enquanto estudava desenho de arquitetura, criou o grupo Vissungo (cujo nome retoma o de canções de língua Bantu relacionadas ao trabalho escravo), misturando o pop Africano, o afro-beat, soul, funk e música tradicional. Com palavras usadas como canções de protesto o grupo tornou-se uma das pontas de lança do movimento pela democratização  na época (anos 70) e também como uma forma de afirmação do orgulho negro.

Nos últimos anos, Santo Spirito retomou o trabalho com seu grupo, que continua a existir, voltado para difundir sua mensagem à sociedade brasileira, uma mensagem mais do que nunca necessária em um país ainda muito dividido.

“Para mim, o racismo no Brasil é” sistêmico”, disse.

Spirito Santo escreve intensa e extensivamente sobre este assunto que no Brasil se tende a omitir, negando a existência do problema, fingindo que ele não existe. “É uma experiência terrível. Você não pode dizer ao outro que ele é racista, porque ele irá se recusar a reconhecê-lo. No mês passado, por exemplo, recebi na UERJ uma delegação de uma universidade de São Paulo. Eles visitaram o meu atelier e ao se deparar com os belos instrumentos, um professor me perguntou: você é o zelador aqui? Eu tive que responder-lhe: “Não. Eu sou o professor … É sempre assim … “.

Para ele, o fenômeno tem se agravado nos últimos anos com a introdução das cotas raciais “O racismo aqui estava difuso, à espreita e se tornou muito mais agudo e visível agora. Aconteceram muitas reações na imprensa, as políticas anti racistas estão na linha de frente e muitas pessoas se manifestam contra as Cotas. No entanto, os inimigos das Cotas estão apenas pretendendo manter os altos níveis de desigualdade na Educação que no país é um dos pilares do sistema. Se você der ao povo trabalho e educação o racismo será derrubado”.

Á sua maneira, Spirito Santo continua a trabalhar para esse fim, se dizendo um tanto cansado de conviver com a inércia do governo, mas continuando a tentar introduzir a diversidade no sistema universitário e em seu pequeno contexto.

Spirito Santo mantêm um blog muito rico e informativo (spiritosanto.wordpress.com) sobre a cultura e a música brasileira. Incansavelmente denuncia a ilusão de uma sociedade multicultural cheia de rachaduras.

Sem ilusões, mas ainda na luta.

(Hélène Marzolf para Télérama, Paris, França)

Tradução livre de Spirito Santo (leia matéria original neste link)

Para Frei David com a saída do Ministro Barbosa, os protestos, as revoltas irão crescer mais. Os políticos e os magistrados precisam refundar o Brasil.

•14/06/2014 • Deixe um comentário

Postado originalmente em Mamapress:

por Frei davida

Joaquim-BarbosaA Família EDUCAFRO agradece ao Ministro Joaquim Barbosa pelos excelentes serviços prestados à nação.

Ser autoridade do Judiciário e ter postura isenta custa caro a qualquer cidadão corajoso e o nosso irmão NEGRO, Joaquim Barbosa, não quis continuar pagando este alto preço, prejudicando sua vida e sua saúde.

Ele foi ao limite de doação pela ética na Política e na Justiça! Cabe a nós sociedade dar continuidade!

Com a saída do Ministro, os protestos, as revoltas irão crescer mais ainda, especialmente se os políticos e os Magistrados não refundarem urgentemente o BRASIL. Temos que sair de uma nação afundada em corrupção e favores. O povo brasileiro acreditou muito em mudanças e não merece ser decepcionado. Queremos urgente reforma politica e na justiça!

Joaquim foi uma das poucas autoridades que o povo sentia nos seus olhos o desejo de mudança sincera, sem estar preocupado em agradar à direita…

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Vissungos do Tijuco hoje. Você sabe o que é isto?

•02/06/2014 • Deixe um comentário

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(Foto Spírito Santo em viagem de campo ao local)

Paulo (irmão de Pedro de Alessília), com espingarda no ombro e Pedro de Alessília ( irmão de Maria Miúda) dois habitantes de Quartel de Indaiá, vissungueiros notórios entre os últimos do lugar em 1981 . (Foto Spírito Santo em viagem de campo ao local)

Recontextualizando um must da etnologia do Brasil

Em janeiro de 2009, Titio Spírito Santo partiu para o alto da Serra do Espinhaço, na região do antigo Serro Frio (Diamantina e adjacências). Voltei lá depois de 27 anos, a convite de um documentarista paulista, para assessorá-lo numa pesquisa que subsidiaria um eventual filme longa-metragem sobre os ‘Vissungos do Tijuco’, protagonizado por seus cantadores remanescentes, todos descendentes de escravos mineradores de diamante e ouro.

Está se tornando um fato corriqueiro. Vez por outra sou acesado por alguém interessado em fazer filmes sobre este tema tão caro para mim.

As minhas conclusões preliminares sobre o tema, complementando emocionados estudos iniciados em 1975 (meu pai era descendente de escravos daquela região) e interrompidos em 1981 são, garanto muito interessantes e inusitadas até, mesmo para aqueles já familiarizados com o assunto.

O que seriam estes chamados ‘vissungos do Tijuco’, curiosa prática de origem africana, muito discutida no Brasil desde a década de 1940?

(Após esta viagem ao campo de 2009 reuni minhas novas conclusões até então, num artigo bem mais completo que a presente resenha. Voce pode lê-lo neste link:

Muito provavelmente, se me animar a escrever um novo livro, ele será com certeza, baseado neste já volumoso material recolhido e analisado de 1981 aré aqui. É – fazer o que? – o grande tema, o carro-chefe entre todas as minhas bissextas pesquisas de escarunfunchador leigo, o tema da minha vida

O eterno garimpo e sua jornada

Ao que nos consta, por tudo que podemos reunir do assunto (e a despeito de ser esta uma afirmação ainda hoje discutível) Vissungo é uma prática musical, rigorosamente, africana.
No que diz respeito à cultura africana introduzida no Brasil, talvez eles, os vissungos, sejam o único elemento com tal grau de integridade no âmbito das manifestações de inspiração africana no Brasil (inclusive o Candomblé), podendo representar, do ponto de vista etnomusicológico, sem nenhum exagero, um verdadeiro elo perdido entre as estruturas da música tradicional de certa região da África mais remota (notadamente aquela praticada nos séculos 18 e 19 ) e suas referências ou ocorrências atuais, tanto em Angola quanto no Brasil.

Por conta destas especiais circunstâncias históricas (que enumeraremos, mais detidamente, no decorrer desta explanação) considerando-se, obviamente, que não havia ainda na época e a rigor, nada sequer parecido com o que hoje conhecemos como música tradicional brasileira, sabe-se hoje, com alguma certeza, que não houve, praticamente nenhuma simbiose deste gênero musical com qualquer outra influência, mesmo portuguesa, durante todo o longo processo de sua existência.

Circunscritos – pelo menos com esta denominação – à região do Serro, em Minas Gerais, havendo sido praticados desde tempos idos (desde o início do século 18, presumo, com o incremento da mineração em larga escala na região) e ainda relembrados, até o final da segunda década do século 20, por várias razões entre as quais algumas discorremos aqui, os vissungos permaneceram, portanto, sob todos os aspectos, legitimamente, africanos.

Afora esta surpreendente longevidade, há que se considerar, contudo que, sendo música ‘socialmente interessada’ (no dizer exato de Mário de Andrade) ou seja, com motivações, diretamente, relacionadas às condições especiais do tipo de trabalho praticado por aquelas pessoas naquela região (garimpo, lavra de ouro e diamante sob regime de escravidão), embora estejam relacionados à práticas culturais ainda hoje ocorrentes na África, os vissungos podem ser considerados como estando, praticamente, extintos no Brasil.

Devemos observar também que, neste processo de extinção (hoje em seu curso final) enquanto cantos específicos, aparentemente, os elementos mais característicos dos vissungos foram se diluindo ao longo do tempo, num processo muito similar e paralelo ao desaparecimento daqueles modos e meios de produção do regime de trabalho escravo que os caracterizava.

Por outro lado, as raízes destas práticas de garimpo, do ponto de vista tecnológico, apropriadas que foram, pragmaticamente, pelos portugueses, podem ter sido algo similar àquelas, muito antigas, utilizadas na África remota, pelo menos a partir do século 12, época indicada como sendo a da fixação dos bakongo no delta do Rio Kongo, povo bantu, que descendo da região do Camarões, se tornou a matriz étnica de todos os reinos da região do antigo Kongo (entre os quais o reino do Benguela).  Este fator (a integridade ancestral da cultura destes povos) também pode ter contribuído bastante para a longevidade, quase perenidade, da manifestação dos vissungos entre nós.

É bastante provável enfim, que o formidável estado de preservação destes cantos, ouvidos ainda hoje, tanto tempo após a extinção do trabalho escravo e a interrupção do fluxo de escravos angolanos para a região, esteja relacionado à manutenção, mais ou menos inalterada, de certas condições sociais e culturais por parte dos negros fixados naquela região mineira.

Entre estas condições, podem figurar certos modos de organização sócio-familiar ancestrais, favoráveis à perpetuação de núcleos ou agrupamentos populacionais em estado de relativo isolamento (cuja natureza mais provável, pode ter sido a de povoados originados de antigos quilombos, formados por escravos fugidos) grupos estes que, posteriormente, passaram a se dedicar à prática do garimpo clandestino ou qualquer outra forma de economia de subsistência ou sobrevivência, independente da economia convencional da área, mantendo-se, culturalmente arredios até uma ocasião bem próxima aos nossos dias.

Mesmo a ocorrência de gírias, expressões idiomáticas e vocábulos extraídos de um português castiço (uma espécie de ‘crioulo são joanense’ como bem definiu Aires da Matta Machado) nas letras de muitos vissungos, não pode ser, com segurança, atribuídos à experiência linguística destes escravos no Brasil, pela simples razão de que esta mesma experiência, já se dava ainda na África, desde de época bem remota (só como exemplo, devemos considerar que o catolicismo português já havia sido introduzido em Angola desde o século 15, notadamente em regiões no entorno dos centros administrativos de então tais como Luanda e, posteriormente, Benguela)

Kilombo, Vissungos e nação

Tudo isto considerado, podemos avançar deduzindo que, outras razões não menos determinantes podem ter contribuído também para a configuração daquelas ‘especiais circunstâncias’ acima referidas como decisivas para a preservação dos chamados ‘vissungos do Tijuco’.

Entre estas razões devemos considerar fortemente os espaços de liberdade cultural, eventualmente criados pelos escravos mineradores, entre eles, com toda ênfase, os chamados quilombos que, ao que tudo indica, foram muito mais numerosos e perenes nesta região do que em qualquer outro ponto do país.

É notório que, pela própria injunção de um atavismo recorrente, o ser humano escravizado quando restabelece suas condições de liberdade plena ou mesmo furtiva, busca, imediatamente, reconstituir a sua humanidade perdida, recuperando a prática de hábitos e costumes mais peculiares ao grupo, antes controlados ou mesmo proibidos, por conta de sua natureza, evidentemente subversiva, refazendo a sua condição de membro de um grupo específico, integrante de uma ‘pátria’ ou ‘nação’.

Entre as condições prioritárias a serem, urgentemente restabelecidas é, com toda certeza a língua, código de comunicação interpessoal indispensável para o ressurgimento seguro da identidade cultural e emocional do grupo que, em muitos casos – especialmente quando durou tempo demais a sujeição a uma cultura opressora – é reconstruída, recriada a partir da lembrança dos mais velhos e dos outros dispositivos de memória contidos na literatura oral ou, até mesmo inventada, a partir de diversos expedientes, entre os quais a própria desconstrução semântica da língua estranha que lhe foi imposta, associada a resíduos fragmentários de vocábulos da língua ancestral, porventura sobreviventes na memória de alguns, no que convencionalmente se convencionou chamar de idiomas “crioulos”.

Nossa pátria é a nossa língua’, já dizia 0 caolho Camões.

mais surpreendente no caso dos ‘vissungos’ é que, por conta do alto poder de preservação cultural dos escravos da região (talvez uma característica própria, ainda pouco estudada das culturas negro-africanas em geral), a língua ancestral (o embundo) pôde ser magnificamente preservada no texto das canções, podendo serem observados nelas, praticamente todos os elementos constitutivos de sua origem remota, sua gramática, sua semântica, elementos claramente identificados como sendo de uma língua desta região de Angola, perfeitamente sistematizada e dicionarizada e, portanto ainda hoje viva, ativa em seu local de origem (onde inclusive, um vasto material de literatura oral se encontra, do mesmo modo, preservado), material este que, por meio de comparações e reinterpretações, poderá talvez, com alguma certeza, restabelecer o fugidio sentido, os ‘fundamentos’ enfim dos textos dos ‘vissungos’ originais registrados.

São ainda hoje bastante raros os registros em áudio (única mídia capaz de corresponder a verdade, neste caso). Não se tem informação alguma sobre a existência de gravações fonomecânicas que poderiam ter sido utilizadas por Araújo Sobrinho, o prestimoso assistente de Aires da Matta que transcreveu, no fim da década de 1920, cerca de 65 ‘pontos’ de vissungo. A este respeito, a informação mais conclusiva é a de que um ‘conhecedor’ dos ‘vissungos’, ‘bom amigo’ de Aires, chamado João Tameirão foi quem se dispôs a aprender as cantigas, supondo-se que os ‘registros’ aos quais Araújo Sobrinho se valeu para realizar as transcrições já na década de 1930, teriam sido aqueles contidos na memória solícita, porém quem sabe, humanamente imprecisa de Tameirão.

(Na verdade em seu prolongamento já em 2009, a minha pesquisa particular confirmou que foi sim, João Tameirão o principal informante dos cantos, na verdade apenas copiados por Araújo Sobrinho, pois – surpreendentemente – João Tameirão além de negro e garimpeiro, era músico, maestro da banda local de São João da Chapada, sabendo sim os cantos de memória, mas também perfeitamente habilitado para grafá-los na partituras.

A propósito, eu mesmo encontrei em 2010 em São João da Chapada, a pista de um outro João Tameirão, descendente deste Tameirão que informou Aires (neto, talvez), o segundo também maestro de banda, no momento emigrado para algum lugar na periferia de São Paulo.)

Só 14 anos depois (1942) da pesquisa de Aires, acontece aquele que foi o melhor de todos os registros sobre o tema – realizado fonomecanicamente, com os melhores equipamentos disponíveis na ocasião, por técnicos norte americanos no âmbito de pesquisa coordenada pelo etnomusicólogo Luiz Heitor Correa de Azevedo, a serviço da Biblioteca do Congresso Americano, que gravou música tradicional do mundo inteiro, antes da segunda Guerra Mundial (no contexto da Política de Boa Vizinhança no governo Getúlio Vargas). É provável mesmo que o trabalho dos norte americanos tenha estimulado a publicação do livro de Aires, cuja primeira edição só é lançada em 1944, 18 anos depois de sua alentada pesquisa, datada de 1928.

Desta época para cá, apenas no fim da década de 1970, talvez só dois outros registros tenham sido realizados: O do etnólogo austríaco Gerhard Kubik (de cujo material em áudio, efetivamente recolhido, já localizamos o paradeiro) e os breves registros realizados por este próprio autor, cujas fitas k7 recolhidas em Quartel de Indaiá em 1981 estão, milagrosamente em bom estado e seguras.

Já em época mais recente, entre os anos de 2001 e 2005, foram realizadas também algumas gravações, a maioria nos municípios de Milho Verde, Baú e Ausente, na região do Serro entre elas as interessantes conclusões do pesquisador suíço Marc-Antoine Camp e pesquisadores da UFMG, entre eles Lúcia Valeria do Nascimento (que fez um interessante estudo fonológico sobre o tema) e Sonia Queiroz (que coordenou um interessantíssimo suplemento sobre o assunto, com o concurso de diversos outros estudiosos locais (Minas Gerais).

A principal qualidade destas esparsas gravações é servirem de constatação cabal de que, infelizmente, a maioria dos variados elementos da prática dos vissungos (cantigas ‘de multa’, cantigas ‘de mofa ou insulto’, cantigas de ‘secar água’- ou ‘cantos de trabalho’ em si, etc.) se extinguiu, completamente, sobrevivendo na memória de dois ou três cantadores remanescentes, apenas aquelas cantigas ligadas aos rituais de sepultamento, as chamadas ‘cantigas de carregar defunto’.

Estas gravações mais recentes, tão inestimáveis quanto todas as anteriores, expressam também, de forma bem clara e elucidativa, o processo de extinção da manifestação do ponto de vista da sua diluição etnolinguística, da descaracterização ou da desconstrução etimológica dos textos das canções que, à medida que os cantadores remanescentes foram perdendo as referências vernaculares (semânticas, gramaticais, em suma) da língua original, foram sobrevivendo apenas no seu aspecto, meramente fonético, contexto no qual apenas alguns vocábulos esparsos e desconexos podem ainda ser traduzidos e no qual muito do sentido, do conteúdo ou ‘fundamento’ dos textos ou ‘pontos’ (notadamente por sua essência, fortemente metafórica) se perderam, quase que inteiramente.

Reino do Benguela: A batalha de Mbwíla e suas consequências

Como compensação, no entanto, pode-se deduzir também que vissungos não seriam – como a maioria dos pesquisadores tem suposto – cantos de trabalho praticados ‘exclusivamente’ por escravos mineradores de certa região de Minas Gerais.

Esta singela constatação – tão óbvia depois que se recorre à prosaica ajuda de um bom dicionário – pode ser a chave para se decifrar muitos enigmas que mistificam o tema desde 1944, quando o precursor dos estudos sobre o assunto lançou as suas, reconhecidamente, preliminares conclusões no clássico livro ‘O negro no garimpo em Minas Gerais’.

A palavra ‘vissungo’, plural de ‘ocisungo’ significando, literalmente (e talvez não especificamente)‘, ‘hino’, pode ter servido de forma genérica (por injunção do conceito estabelecido para a palavra por Aires da Mata Machado Filho) para denominar, portanto toda e qualquer prática musical, vocal, característica de um determinado grupo etnolinguístico conhecido como Ovimbundos, vindos como escravos para o Brasil em determinada época, notadamente, a partir do início século 18.  Esta prática, em seu sentido etnomusicológico mais genérico (ou em seu sentido lato), com relativa segurança, pode ter se disseminado por todas as regiões brasileiras onde foram utilizados escravos do mesmo traço etnolinguístico.

A única razão que justificaria a interpretação que se dá ao vocábulo, como sendo o nome de uma prática cultural específica, é o fato de ele ter sido usado, pelo que se pode averiguar até agora, com esta denominação, apenas naquela remota região.

Nesta linha de raciocínio, genericamente, seriam também ‘vissungos’ alguns tipos de pontos de jongo, de congada, de candombes e moçambiques, assim como de catupés e diversos outros gêneros de música tradicional de inspiração angolana existentes no Brasil, principalmente, em Minas Gerais.
Já tivemos, pessoalmente a oportunidade de observar, inclusive em muitas destas manifestações, notadamente ‘Catupés’ e ‘Moçambiques’ (sem falar nos ‘Candombes’ mineiros originais mais antigos, dos quais tivemos notícia) da insistente ocorrência de ‘pontos’ e canções com a mesma estrutura musical dos ‘vissungos’ (inclusive no seu aspecto linguístico).

Do ponto de vista etnomusicológico a importância dos ‘vissungos do Tijuco’ seria por esta hipótese, maior ainda do que se imaginava, abrindo novas possibilidades para uma melhor compreensão das especificidades de toda a música africana de inspiração angolana praticada no Brasil, além das reiterações e dos lugares comuns ainda em voga.

É importante se ressaltar, contudo que a palavra ‘ovisungo’ pode estar relacionada sim, diretamente, a um tipo especial de canção tradicional de caráter religioso, música sacra por assim dizer, já que a palavra tem servido em Angola até hoje em dia, para designar hinos religiosos especiais (como ‘benditos’ e ‘ladainhas’ portugueses) utilizados em missões tanto católicas quanto protestantes, notadamente, na região do Benguela, local onde a disseminação deste tipo de missionarismo ocorre, com alguma regularidade, desde meados do século 18.

Este fenômeno da eventual pré-catolicização de boa parte dos escravos angolanos chegados ao país, (a despeito da repressão contra as missões católicas e protestantes empreendida pelas autoridades coloniais portuguesas do período, logo após a expulsão, por razões políticas, da Ordem dos jesuítas) é um tema que, apesar de pouco estudado ainda no Brasil, parece ter muita relevância neste caso.
Logo, pela curiosa hipótese da palavra ‘ovisungo/vissungo’ já ter vindo para o Brasil com este sentido especial (de hino religioso) que a diferencia de outras práticas musicais digamos assim, profanas, já incorporado (quiçá até com elementos sincréticos da liturgia católica já inseridos) é uma forte – e irônica – indagação a ser inserida na pesquisa.

Enfim, o que teria ocorrido na região do entorno de Diamantina, Minas Gerais teria sido, nada mais nada menos, que o acaso de especiais circunstâncias ensejarem a preservação de práticas culturais, principalmente, musicais, muito específicas de uma determinada região africana mantendo-as, maravilhosamente íntegras até a década de 1940, quando Aires da Matta Machado Filho e Araujo Sobrinho, seu informante, as ‘descobriram’.

A natureza tão especial destas circunstâncias como vimos está, por ordem de importância, ligada, muito provavelmente, ás opções estratégicas adotadas pelas autoridades coloniais portuguesas, no sentido de transferir para as minas de ouro (e, posteriormente, diamantes) descobertas na região do Arraial do Tijuco no início do século 18, escravos oriundos de certa região de Angola onde a mineração já era praticada pelos locais, de forma especializada e sistematizada, de maneira mais intensa na época do que no resto do território sob o jugo de Portugal.

Esta escolha pragmática teria recaído sobre indivíduos sequestrados na área relacionada, histórica e geograficamente, ao porto de Benguela, ao sul de Luanda (que fora o porto preferencial em épocas anteriores) na parte centro-oeste do que é hoje a República Popular de Angola.

Entre as demais razões para que o porto de Benguela passasse a ser o ponto principal de embarque de mercadorias e escravos, é provável que razões de natureza militar também tenham sido decisivas já que, em época, imediatamente anterior ao incremento em larga escala da mineração de ouro e diamantes em Minas Gerais (1712), a área sob influência militar de Portugal (Luanda), estava por demais conflagrada ainda pela cruenta guerra travada pela Rainha Nzinga Mbandi e seu clã (kanda) , integrado pelos supremos mandatários dos mais poderosos reinos da região (ela soba dos reinos do Ndongo e de Matamba, seu irmão rei do Kongo e seu tio, soba do Reino do Nsoyo).

Havendo sido bem sucedidos apenas em 1665 (batalha de Mbwila) os esforços portugueses para subjugar os angolanos comandados por Nzinga  e seus parentes, Portugal acaba por descobrir que as lendárias minas e ouro que julgava existirem na região do Kongo (e que foram o principal móvel de seus esforços de invasão, além do comércio de escravos), não passavam de depósitos de cassiterita e outros metais inferiores, estimulando a transferência de seus interesses mais para o sul, precisamente, a região próxima ao Reino do Benguela – reino inventado pelos próprios portugueses, a partir da artificial união de sobados títeres – onde já ecoavam, inclusive,  notícias da descoberta de riquíssimas minas de ouro e diamantes na África do Sul.

Estas históricas circunstâncias, ao que tudo indicam, foram determinantes para que tenham sido exatamente, indivíduos oriundos da região relacionada ao Reino do Benguela (aqui conhecidos, vulgarmente como ‘benguelas’) os chegados em considerável maioria para a região do Serro, Diamantina e adjacências.

A constatação, indicando a necessidade, premente de se aprofundar e cruzar dados (geo-linguísticos, etnológicos, etc.) brasileiros e angolanos, no intuito de, por fim, se compreender fenômeno cultural de tão especiais características é, portanto decisiva para o prosseguimento das pesquisas especializadas sobre todo e qualquer assunto ligado à formação da cultura brasileira.

Ou seja, a questão crucial que se impõe às pesquisas atuais sobre o assunto, talvez seja esclarecer como e porque a prática de se cantar vissungos teria, excepcionalmente, durado tanto tempo, a ponto de ainda ser lembrada, na maioria dos seus muitos detalhes, por praticantes (informantes) ainda em 1928, havendo permanecido, estranhamente, íntegra, imune às naturais influências do seu meio brasileiro, por mais de 120 anos depois de ter sido iniciada por aqui.

Parece evidente também neste caso, que o foco destas pesquisas deva ser ajustado para dois pontos, ainda muito negligenciados da questão, a saber:

1-Muito mais do que na cultura urbana e sub-urbana (rural) acessível e visível nas manifestações culturais mais comuns e recorrentes, como terreiros de candomblé e umbanda e festas periódicas (como Congadas e Marujadas, por exemplo) as chaves mais elucidativas, do ponto de vista etnológico, no que diz respeito á cultura brasileira de origem africana, parecem estar naquelas manifestações mais recônditas e obscuras, como aquelas praticadas em lugarejos (como o Jongo mais ‘primitivo’), ainda existentes no interior dos estados do Rio de Janeiro e São Paulo, além de certos lugares remotos que ainda se conhece vissungos (antigos quilombos ou lugarejos surgidos em torno de lavras clandestinas, principalmente).

2-As propriedades mais importantes à perfeita compreensão dos fundamentos essenciais destas manifestações não podem ser, de modo algum, decifradas se não se realizar um estudo comparativo delas em seu contexto original africano. No caso específico dos vissungos (e da cultura negra do sudeste do Brasil como um todo) nada será efetivamente compreendido se não se estudar, detidamente, a cultura angolana, notadamente naqueles aspectos relacionados à cultura (a linguística, a cosmologia, a história enfim) dos povos relacionados à cultura ancestral bakongo, com ênfase na sua expansão pela região abrangida pela invasão e influência militar portuguesa, região esta compreendida pelo antigo reino do Kongo (século 15 e 16), das adjacências do porto de Luanda e da cidade de Mbaka ou Ambaça (até o século 18) e às adjacências do Porto de Benguela (do século 18 até os anos mais próximos à abolição da escravatura).

Pode estar aí – e é por esta caminho que a nossa pesquisa envereda agora – a chave para a elucidação de diversas outras ainda mal traçadas linhas de nossa pujante – e ainda tão pouco reconhecida – diversidade cultural brasileira.

Spírito Santo
Dezembro 2008

 

MPB de Ngoma puíta e Caxambu: O Tambu muderno

•21/05/2014 • Deixe um comentário

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foto 2Saudades do Jongo com cheiro de café

“Mota da Mota – suposto – creador do jongo africano”

Uma pista rara.

Podem ser as raízes do jongo paulista assim escancaradas em discos de 78 rotações de 1930/31. O sotaque melódico e rítmico (em relação ao jongo que hoje conhecemos, algo diferente no groove dos tambores) a prosódia das letras, as escalas e o esquema estrofe-refrão, além de um lúgrube e eletrizante “ngoma puíta” (enorme, pelo som cavo que produz) tudo a indicar o legítimo Jongo ou Caxambu, glória cultural mais legítima do Vale do Paraíba do Sul.

“Mota da Mota era um cantor de São Paulo famoso no rádio e conhecido como “o creador do jongo africano”. Fazendo a fama, no fim de 1930 gravou para a Victor dois 78s, jongos-batuques com o que Mário (de Andrade) chama (com certa impropriedade), de “adaptação admirável dos processos musicais de Maracatus”.

“Noite de São João” com fala de preto veio, refrão “dendê-dandá / dandá-dendê”, som de cuíca grave, todas com percussão pesada, vocal chamada e resposta com o coro. Em pouco tempo, “São Benedito é ôro só” seria hit nas apresentações do Conjunto Tupi na voz da cantora Índia do Brasil.

Obviamente não são composições de Mota da Mota, assim exatamente como as resenhas dizem. São, presumo, pontos de autoria desconhecida ou, se conhecida, mesmo havendo sido puxados em alguma roda da roça pelo próprio, eram isto sim de “domínio público” como se passou dizer algum tempo depois.

Afinal, Jongo, à vera, naquela época, ainda era um gênero musical caracterizado por pontos puxados de improviso, ali, na hora, num jogo de desafio de metáforas a serem decifradas, “desamarradas”, por um oponente, instigado pelo coro, que repete um verso-conceito, que faz a liga, o link entre o que o jongueiro disse e o que o oponente tem que responder, também cantando, matando a charada com outra mais cabulosa ainda.

Música sem dono, exatamente como a música de jazzistas que não assinam os improvisos que fazem entre as repetições do tema. Música africana, enfim.

Ocorre que a época, virada dos anos 20 para os 30 (no caso das gravações de Mota, já com os 30 começando) com a avançada popularização do instituto do direito autoral, quando passou a ser moda (iniciada talvez por Donga, que assina em 1917 o tal do “Pelo Telephone“) era o tempo em que os lançadores de música folclórica em disco, assumiam, tranquilamente a autoria da dita, passando a ganhar os seus caraminguás de “compositor”.

É que isto passou a ser uma moda na ocasião. “Urubu Malandro“, “Batuque na cozinha” e tantos outros hits do período eram na verdade temas folclóricos super conhecidos, apropriados por alguém (como passarinhos), com versos modificados ou acrescentados, normalmente por quem cismasse de gravar.

A discografia deste período no Brasil (década de 1930) está por isto mesmo marcada profundamente por gravações de música ‘da roça’, com um acento rústico, folclórico, sendo adaptada ao sotaque e meneios de formatos comerciais ainda em experimentação, música genuinamente brasileira (afro brasileira, melhor dizendo)

Muito a se levantar e escrever ainda sobre estes ainda desconhecidos gênios fundadores, inegáveis fundadores de nossa música popular mais moderna.

Vejam nos links algumas curiosas gravações de Mota da Mota:

https://soundcloud.com/afrogomas/sets/mota-da-mota

“São Benedito é ôro só. Jongo interpretado por Mota da Mota, discos Victor Nº33380, de autoria de Mota da Mota, gravado em 1930 [Arquivo IEB-USP / IMS].”

Mota da Mota com acompanhamento de coro e instrumentos típicos – São Benedito é ôro só / Vou Girá (78 rpm Victor 33.380, g.09/1930, l.12/1930) – Jongo

Mota da Mota com acompanhamento de coro e instrumentos típicos – Noite de São João / Dentro da Toca (Mota da Mota) (78 rpm Victor 33.421, 1931) – Jongo-Batuque

 

foto 1

Daí o Titio foi seguindo:

Pinçando aqui e ali mais algumas informações, muito esparsas ainda sobre o tema, me ocorreram algumas pistas.

O nome de Mota da Mota, reconhecidamente paulista e experimentado jongueiro, o coloca na cena jongueira clássica do lado paulista do Vale do Paraíba do Sul e outros rios da região como o Tietê, o Piracicaba, o Pirapora e outros.

O texto a seguir pode sugerir até mesmo a origem geográfica exata de Mota da Mota:

“O citado Bairro dos Motta é importante, pois àquele lugar é atribuída a origem do jongo no Tamandaré que, na narrativa dos jongueiros, se deu através de negros migrantes. O casal de negros libertos Henrique Martins e Angelina Martins é tido na memória dos moradores do bairro como o casal que trouxe o jongo para Guaratinguetá há quase 150 anos atrás. Suas netas, Dona Mazé e Dona Fia, são quem contam a história . Versão que é endossada por outros moradores no bairro.

Contando a origem do jongo em Guaratinguetá, Dona Mazé diz que:

“Eles (seus avós) depois de libertados vieram e ganharam (uma imagem de) (…) São Pedro e meu avô comprou um sítio lá no Bairro dos Motta. Aí ele começou a fazer a festinha do jongo lá no sítio dele. Ele vinha aqui na Boa Vista, pegava todo mundo e levava pro sitio dele.

Daí ele fazia a festinha lá, todo mundo ia, bebia lá, comia lá, ficavam lá. No outro dia é que vinham embora. Daí eles ficaram demais velhinhos né, vieram embora pra casa da minha mãe e do meu pai (na Rua Tamandaré) e faziam o jongo. Daí eles pediram, ‘_ Ah! Não deixa a festa morrer!’, né! ‘_ Enquanto existir uma pessoa da família, não deixa a festa morrer, nem que seja só a reza vocês fazem!’. Então nós pegamos e continuamos. Por enquanto, enquanto a gente tiver força e saúde nós vamos continuar com o jongo”.

A fala de Dona Mazé aponta o bairro dos Motta, a roça, como um espaço privilegiado da festa de jongo no passado. “

Seria o jongueiro Mota um renomado habitante do (a) Motta?

A conferir.

Spirito Santo
Maio 2014

————

Leia a seguir então o excelente e elucidativo texto de Ronaldo Evangelista:

“O rádio ainda não havia completado dez anos no Brasil, o cinema começava a ser falado, o samba prestes a se cristalizar como o gênero nacional por excelência. Em 1926 a Odeon assumiria sua fábrica brasileira das mãos da Casa Edison e em 1929 chegavam ao país as gravadoras multinacionais Victor e Columbia.

Naquele fim de anos 20 as gravações eletromagnéticas sobrepunham-se definitivamente sobre as mecânicas e o microfone abria um mundo de possibilidades. Com a popularização das vitrolas, os registros musicais comerciais encontravam o formato que seria seu padrão por décadas: chapas de dez polegadas, feitas de cera de carnaúba e goma-laca, girando a 78 rotações por minuto.

Pixinguinha tornaria-se artista e arranjador da Victor em 1929 e lançaria “Carinhoso” em 1930, mesmo ano em que Noel Rosa e Carmen Miranda teriam seus primeiros hits, “Com que roupa?” e “Taí”, e em que famosamente Almirante pela primeira vez levava ao estúdio de gravação uma batucada de escola de samba, para a gravação de “Na pavuna”, com tamborins, cuícas, surdo, reco-reco. A partir daí, samba, choro, marcha e o mercado brasileiro de discos tomavam impulsos definitivos e definidores.

Enquanto isso, ao longo de um longo processo sincrético, a influência africana permeava-se por diversos ritmos além do samba, como lundu, maxixe, embolada, cateretê, chula, samba de roda, maracatu, coco e batuques em geral.

Na região da Praça Onze, no centro do Rio de Janeiro, ficava a casa da baiana Tia Ciata (falecida em 1924) e a área que Heitor dos Prazeres chamou de “Pequena África”, frequentada por compositores e músicos como Heitor, Pixinguinha, Donga, Sinhô, João da Baiana. Entre saraus e batuques, choros e pontos, nascia lá o que se convencionou chamar de primeiro samba gravado, em 1917, “Pelo telefone”, assinado por Donga – embora fale-se até em um “Samba africano” gravado em 1915.

Ou seja: de alguma maneira, os ritmos ancestrais vindos do continente onde nasceu o homem já estavam imbuídos na música brasileira desde sempre. No ano da abolição, 1888, Chiquinha Gonzaga havia composto o “jongo-dança” “Candomblé”, para coro e piano, com anotação para “instrumentação no estilo africano”.

Silvio Romero desde século XIX recolhia cantos populares que mostravam a influência. Villa-Lobos já fazia harmonizações de temas folclóricos negros, pra não falar em Hekel Tavares. Mas os ritmos africanos eram mais estudados antropologicamente do que musicalmente, mais estilização que ritualização.

Mas a essa altura, pelos anos 20, o imaginário da cultura afrobrasileira já se infiltrava intensamente na música popular, e os ritmos tornavam-se mais foco de atenção. Vários sambas falavam em “macumba” e/ou assimilivam modos, termos, imaginário dos rituais afrobrasileiros. Pode-se falar no samba (quase de roda) “Cangerê” de Chico da Baiana, com Bahiano e Izaltina, gravado em 1920, que fala em “figa”, “benzê” e “feiticeiro” (e “meu Deus”).

“Macumba gêge” de Sinhô, samba meio maxixado cantado por Bahiano em 1923, dizia “Ê gegê meu encanto / Eu tinha medo se não tivesse bom santo”. O samba “Dona Clara”, de Donga, gravada por Patricio Teixeira em 1927, cita vários orixás, falando em Exu, Xangô, Ogum, Oxalá, “macumba”, “feitiço” (e “Deus”). Em “Sete flexas”, samba de Freitas Guimarães gravado em 1928 pelo maior cantor da época, Francisco Alves, ele cantava que “até meu nome já botaram na macumba”, mas “o meu corpo é fechado, o meu santo é muito forte”.

“Na Pavuna” falava que lá “tem macumba, tem mandinga e candomblé”. “Nego bamba”, samba cantado por Otília Amorim, fala em “mandei fazer um despacho” e ainda tem paradinha com batuque marcado à moda de “Na pavuna” de Almirante e outras músicas de 1930, como “Vou girá” com Mota da Mota e “Vou te abandonar” com Paulo Oliveira, ou Paulo da Portela.

Esta, aliás, com o Grupo Prazeres, de Heitor, outras das primeiras gravações com batuque em estúdio e ainda com a fama de ser uma das primeiras com o vocal principal chamando o coro pro recomeço: “agora eu vivo…” Do outro lado do mesmo disco de Paulo Oliveira e Grupo Prazeres, a embolada “Tia Chimba”: “Macumbe-bê Macumbê Macumbá-bá / Macumba é bom mas eu não vou lá”. Havia ainda “Na macumba” samba de Ernesto Pimentel de 1925, “Macumba de Antonica” samba cantado por Artur Castro em 1926, e diversos outros exemplos similares, pra não citar faixas como “Pemberê” e “Sarambá”.

Era inevitável, próximo passo, começar a querer registrar com mais fidelidade o que se ouvia em terreiros, pela primeira vez pelo menos em gravações comerciais, naquele momento de boom do disco que acontecia na virada dos anos 20 para 30.

Entre os cerca de sete mil discos lançados no Brasil no período mecânico, entre 1902 e 1927, ou entre os praticamente inexistentes recolhimentos sonoros (a famosa Missão de Pesquisas Folclóricas só aconteceria em 1938), talvez hajam registros próximos ou incidentais afrobrasileiros, mas foi na aurora da fase de gravação elétrica que se tentou recriar a música ritual (ou se criar especificamente inspirada por ela) em estúdio e catalogar no selo como ritmo literalmente genérico “Macumba”.

No primeiro momento do período elétrico, ali entre 1929-1932, os primeiros e principais a se inspirar a levar pro estudio algo mais próximo dos terreiros, estilística ou literalmente, foram Amor, J.B. de Carvalho e Pixinguinha com Donga e Gastão Viana, com momentos de Josué de Barros, Gusmão Lobo e Benedito Lacerda, adaptações de Stefana de Macedo e Elsie Houston e o inacreditável 78 dos Filhos de Nagô, entre outras proximidades.

Em 4 de outubro de 1933 Mário de Andrade proferia a conferência “Música de Feitiçaria no Brasil” na Escola Nacional de Música do Rio de Janeiro. Para compor o texto, mesclou análises que já havia anotado de discos de sua coleção de teor afrobrasileiro lançados até 1932. Entre seus 78 rotações, Mário tinha doze discos do que a pesquisadora Flavia Toni (no livro “A Música Popular Brasileira Na Vitrola de Mário de Andrade”) chama de “Feitiçaria Carioca” (a maioria  que você pode ouvir no play acima): Mano Elói e Amor com “Macumba” (Canto de Ogum e Exu), Gusmão Lobo com “Orobô”, Antonio Moreira da Silva Mulatinho com “Aurê de Ganga”, “Cafioto”, “Ererê”, “Rei de Umbanda”, “Na Mata Virgem” e “Auê”, Francisco Sena com “Quem tá de ronda” e “Meus Orixás” e o Conjuncto Tupy com “No terreiro de Alibibi” e “Mironga de moça branca”. Além da leitura do texto (e de um recital de piano e voz), Mário promoveu a audição de dois do que chamou de “cantos de macumba” em disco: “No terreiro de Alibibi”, do Conjunto Tupi e “Canto de Ogum”, de Eloy Anthero Dias e Getúlio Marinho – que chamou de “cientificamente perfeito”.

O que floresceu no Brasil foi resultado de séculos de sincretismo entre povos de diferentes origens do continente africano com as culturas que dividiam no Brasil – portuguesa, indígena, francesa. Sincretismo que já vinha se desencadeando de lá, com a presença do Império Português no continente, e desenvolveu-se a seu tempo na saída da África com a intensa mistura de diferentes povos, costumes, saberes, sons, seres humanos. Hoje já discute-se termos como “jêje” e “nagô” serem intrinsecamente metaétnicos e entende-se que essencialmente os conceitos de nação, etnia, modos da língua, registros da memória, uso da própria história já eram geralmente diferentes entre si pela enorme África e definitivamente diferentes dos que nos acostumamos na América colonizada pela Europa. Muito do samba veio d’Angola e do Congo e muito da música ritual afrobrasileira veio da tradição iorubana, mas indubitavelmente muito desenvolveu-se aqui, com todas as adversidades e particularidades sincréticas. O processo continou e se infiltrou nos modos da música popular e na indústria do disco. Purismo é um mito.”

As informações são do site “Goma-Laca”,  investigação musical profunda, com artigo, playlist, recortes listando as mais antigas gravações brasileiras classificadas como “macumba”, “batuque”, “ponto”, “jongo africano” ou similares, com primeiros registros que temos notícia de candomblé, umbanda, sincretismos, inspirações, adaptações, interpretações de temas brasileiros com clara influência africana, principalmente por fins dos anos 1920 e comecinho dos 1930, lançados em 78 rotações de cera e goma.

Ronaldo Evangelista

 

Protegido: “Os pretos na festa de Nª Srª do Rosário”: Raízes ignoradas de um teatro popular brasileiro

•17/04/2014 • Digite sua senha para ver os comentários.

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