Cultura P&B part 03. Seguindo Dança Afro em questão

•26/08/2014 • Deixe um comentário

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Quem de vocês ouviu falar de Eros Volúsia?

Eros VolúsiaProvavelmente poucos. Eu mesmo nunca havia ouvido falar dela até esbarrar com seu nome na pesquisa deste tema.

Pois quem haveria de supor que na década de 1930 esta mulher branca (belíssima por sinal. Vamos combinar) que devia causar furor de sex symbol em sua época, foi a desconhecida precursora do que chamamos de dança popular no Brasil?

E porque desconhecida? Omitida por ser branca?

Quem haveria de supor que Mercedes Batista e toda uma geração de bailarinos negros conseguiram a chance de entrar no mundo da dança profissional  – a princípio em cassinos, cabarés e boates – além de seu próprio esforço, por honra e graça do trabalho desta figura tão improvável, a primeira estimuladora do que se passou a chamar na década seguinte de “Dança Afro”.

E de Katherine Dunham, professora norte americana (negra) de Mercedes Batista, quem já ouviu falar?

Não acredita em nada disso? Pensa que a chamada “Dança Afro” (esta mesma, a “dos Orixás“) veio prontinha da África e se desenvolveu aqui nos morros e terreiros dos mais remotos guetos do Brasil? Pois sim. Vai nessa.

Saiba desta controvérsia e muito mais na segunda parte do programa do Titio (produção Uerj/Decult/Coart) Cultura P&B, parte 03 (a penúltima) que está sensacional.

Só vai nêgo que é gente boa- Decupando um clássico seminal do nosso Samba

•23/08/2014 • 1 comentário

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1920- Os “8 Batutas” (sem Donga). Pixinguinha em pé num banquinho, aponta o trombonista

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1920- “Era do Jazz” nos EUA ( e no mundo) Mamie Smith and his band

Decupando “Samba de Fato“, suposto partido alto composto por Pixinguinha e Cícero de Almeida

(Cantado por Patrício Teixeira – veja na foto abaixo – e os Oito Batutas.)

Apenas 44 anos após a abolição da escravatura. Um tempinho de nada. Um sujeito com 50 anos nesta época, poderia até ter sido escravo.

Daria sim uma tese e tanto sobre os diversos artifícios e idiossincrasias do processo de assimilação, ascensão social e adaptação do negro no que Florestan Fernandes chamou de o “Mundo dos brancos“. Um processo sem heroísmo épico algum, como é normal acontecer com seres humanos comuns, sem as cores mistificadas do pobre “negro sofredor” e sua arte primitiva, baseada no “banzo” de suas reminiscências étnicas, etc. e tal, interpostas por um grupo de estudiosos brancos interesseiros – cada vez se nota mais – manda chuvas espertos, forjando uma história de nós outros muito cheia de nós cegos e mistificações.

Adoro estas elucubrações semióticas! Chutar estas portas mal fechadas, amarrar a história mal amarrada. O que parecia líquido e certo, de repente se esvaindo assim pelas frestas de alguma janela semi aberta e – eureka! – se mostra outra coisa bem diversa do que nos contaram, quem diria?

Cantem junto. Leiam com o Titio as entrelinhas do samba:

Samba de fato

(Pixinguinha/Cícero de Almeida)
com Patrício Teixeira e os 8 batutas – Gravação Victor de 6 de julho de 1932, lançada em agosto seguinte, disco 33585-B, matriz 65534.

Ouça o áudio:

“Samba do partido-alto
Só vai cabrocha que samba de fato
Samba do partido-alto
Só vai cabrocha que samba de fato

Só vai mulato filho de baiana
E a gente rica de Copacabana
Dotô formado de ané de oro
Branca cheirosa de cabelo louro, olé

(refrão)

Também vai nêgo que é gente boa
Crioula prosa, gente da coroa
Porque no samba nêgo tem patente
Tem melodia que maltrata a gente, olé

(refrão)

Ronca o pandeiro, chora o violão
Até levanta poeira do chão
Partido-alto é samba de arrelia
Vai na cadência até raiar o dia, olé

(refrão)

E quando o samba tá mesmo enfezado
A gente fica com os óio virado
Se por acaso tem desarmonia
Vai todo mundo pra delegacia, olé

(refrão)

De madrugada quando acaba o samba
A gente fica com as perna bamba
Corpo moido só pedindo cama
A noite toda só cortando grama, olé

A boca fica com um gosto mau

de cabo velho de colher de pau

porque no samba que não tem cachaça

Fico zangado fazendo pirraça, olé”

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Patrício Ferreira, o cantor de “Samba de fato” acompanhado pelos “8 Batutas”

Leram? Sacaram as pontas soltas pelas beiradas?

A letra da música, pela qual a gente sempre passou batido, quando se presta mais atenção, curiosamente parece retratar, muito mais que uma festa de crioulos alegres e suados, com detalhes impressionantes o esforço de um grupo de negros, artistas, músicos em sua maioria, do Rio de Janeiro ansiosos para serem assimilados no “mundo dos brancos”.

Que coisa! Ela, a letra, está sugerindo que “Partido Alto” (como, aliás, proponho no meu livro) não era um reles sambinha de esquina, no fundo de um quintal da Praça Onze, mas uma prática cultural “diferenciada“, de negros finos, de uma elite que, por conta desta sua condição “superior“, podia, estava autorizada a conviver no mundo dos brancos ricos. Of course.

Vão lendo aí:

Cabrocha, só vai se  for daquelas que sambam…”de fato”, senão, fica de fora. Os que vão com certeza e sem restrições estão listados: Mulato “filho de baiana” vai, pois, esta parece que era uma categoria social importante na ocasião (classe média, algo assim, como disse também no livro, me referindo ao remediado pessoal da Tia Ciata) tanto que o tal “filho de baiana“, está listado junto com “gente rica de Copacabana“, doutores de “ané de oro” e mulheres brancas “cheirosas e de cabelo louro“, que têm presença garantida no “Partido Alto“, mesmo sem saber dar, um passo de “miudinho “que seja de samba (vem de longe isto aí, não é não)

Nêgo também vai, mas só os que forem “gente boa” (pois no samba, “o nego tem patente“). Também vai “crioula prosa“, “gente da coroa” (negras elegantes, de classe média também)

Enfim, vão vendo aí como era a vida desta negadinha fina, descrita pela letra deste “samba”, quando atentamos para as entrelinhas. De certo modo, escravizados ainda naquela época a modos e maneiras subrreptícias de ascender socialmente, os negros eleitos pela historiografia oficial como os “negros” precursores, geniais inventores da cultura negra do Brasil, eram na verdade prepostos, os aceitos pela “sociedade“, aqueles que passavam no crivo dos “ricos”, dos brancos enfim, aqueles mais adaptados aos modos “civilizados” de ser. Negros que “sabiam o seu lugar”, como não?

(Bem como ainda hoje são muitos negros no Brasil, principalmente estes mais janotas, do movimento negro oficial, “filhos de baiana”, devem ser)

E para acabar de endireitar – reparem bem vocês, amigos músicos – esta peça musical, de Samba mesmo só tem a base rítmica, pois, a melodia tem um claro e inusitado acento em 4/4 e uma divisão e escala que são típicas do jazz da época – décadas de 1920 e 1930, em plena chamada “Era do Jazz“- ou seja, na prática “Samba de Fato” não é bem um “partido alto” assim tradicional e folclórico como todo mundo pensava que fosse, uma peça “seminal” do nosso “Samba mais autêntico” e “puro”, etc. e tal, como os mais ingênuos puristas até hoje apregoam.

Pois sim. Que nada! Não era não.

Viram só que coisa? O “Samba de Fato” não era samba de fato coisíssima nenhuma (e daí, certo? Tanto melhor) pois, era um jazz lascado, muito ao gosto de Pixinguinha e Donga, enquadrado numa levada 2/4 básica, um pandeiro aqui, um ganzá ali. Música solta dessas amarras estranguladores do purismo nacionalista e das mistificações subalternizantes dos doutores de ané de ouro.

Música de chutar pau de barraca, compreenderam? Música popular!

Também não era para menos. Os Oito Batutas, o grupo de Pixinguinha e Donga, entre outros, era mesmo ainda nos anos 1930, uma autêntica banda de jazz, responsável genial pela fusion de Samba-Jazz (negra) que a Bossa Nova (branca) de Tom Jobim e João Gilberto, espertamente tentou se apropriar como se fosse uma invenção sua, nos anos 1960, quase 40 anos depois.

(Integrantes dos “8 batutas” – além de Pixinguinha e Donga – em várias formações de 1919 a 1927: Raul Palmieri, Nelson Alves, José Alves, Jacó Palmieri, Luís de Oliveira, J. Tomás, China (irmão de Pixinguina), José Monteiro, Feniano, J. Ribas, João Pernambuco, Luiz Americano, Moleque Diabo, Esmerino Cardoso, Bonfiglio de Oliveira, Mozart Correia, João Batista, Augusto Amaral.

(Mamie Smith – Mamie Robinson – cantora americana de vaudeville, dançarina, pianista e atriz, apareceu em vários filmes no final de sua carreira. Como cantora de vaudeville praticou uma série de estilos, incluindo o jazz e blues. Entrou para a história de blues por ser a primeira artista afro-americana a fazer gravações de vocais de blues em 1920.)

Viram só? Nem tudo é verdade. Como aqueles pretos LPs de vinil, tudo tem dois lados…as vezes até três, quatro, vai saber.

Spirito Santo
Agosto 2014

Cultura P&B, part 02

•21/08/2014 • 1 comentário

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Cultura P&B: A chapa esquentando

(Abra o link do Piloto part 01 aqui)

A chapa esquentando. Quem não se toca, dança.

O perigo escorregadio do conceito “pureza étnica” imiscuído na chamada ” Dança dos Orixás” em debate. Papo esquentando a chapa.

Segunda parte do piloto de Cultura P&B. Ciclo de debates sobre cultura afrobrasileira e temas afins produzido pela Uerj/Decult/Coart. Neste segmento discutiu-se a dança afro e o papel que desempenhou Mercedes Baptista – primeira bailarina negra do Teatro Municipal, recentemente falecida – no seu desenvolvimento. Programa resultado de trabalho de pesquisa de Spírito Santo.

 

Cultura P&B part 01 – Enfim no ar!

•15/08/2014 • 2 Comentários

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 Cultura P&B: O Preto no Branco

(Abra o link do programa aqui ou abaixo)

Enfim, NO AR o programa pilôto da série “Cultura P&B“, criação e apresentação do Titio que vos fala, numa produção e realização da UERJ/Decult/COART.

Acho cada vez mais prazerosa e gratificante a experiência de pesquisar cultura & sociedade e escrever posts-reportagens aqui no facebook e no blog que mantenho na rede, testando maneiras de ser o mais claro possível, instigando debates, muito enriquecedores para mim, na maioria das vezes.

É que sempre me incomodou, pessoalmente, como leitor, que temas densos, profundos sobre cultura só fossem acessíveis ás pessoas comuns, em carrancudas e pomposas teses de mestrado e doutorado, ou ensaios antropológicos pesadões, escritos por supostos sabichões naquela linguagem arrogante do jargão doutoral que eu nunca entendi porque é usado, de tão ilegível que é.

Anti linguagem, ruínas de torre de babel.

Sempre me recordo dos livros e revistas de cultura e ideologia política que lia nos anos 1970- sempre com um livro no sovaco suado, metido a garotão intelectual que eu era –  que hoje o mofo e as traças roem em minhas estantes. Incrível como seus conteúdos, por conta do apelo excessivo ao jargão, se tornaram velhos, caquéticos, completamente esotéricos, incompreensíveis, lixo conceitual mesmo, papel velho.

A questão da linguagem e da fruição e democratização do conhecimento é um problema moderno com certeza e a Internet traz excelentes oportunidades de se chutar este balde.

Porque esta conversa de “cerca lourenço”? É que satisfeitíssimo ideia de levantar lebres novas e escrever por aí, que aceitando um convite da UERJ/Decult/COART, na qual tenho sido Artista Visitante por muitos anos, resolvi fazer uma versão para vídeo-TV dos mais instigantes posts escritos pelo Titio aqui no face e no blog do dito.

Um exercício de linguagem, portanto, com a missão essencial de, como sempre, sacudir o bambuzal do marasmo inconsequente, provocando o debate de temas cruciais para a cultura do negro do Brasil e temas afins.

É isto enfim que se pretende com este piloto de Cultura P&B que vocês vão começar a assistir agora. O programa – sem, o formato escolhido é o de um programa de TV – está dividido em quatro partes de 15 minutos e pretendo exibi-las uma vez por semana.

A série prosseguirá com temas que podem, inclusive serem propostos pelos espectadores. As linhas emstras são apenas, ser cultura, dar ênfase à cultura negra e instigar debates de verdade, discussões acaloradas, mas profundas.

Cultura P&B, preto no branco, debate então o tema “Mercedes Batista e a desconstrução da modernidade na dança afro no Brasil” ou seja, “ A dança Afro é puramente afro mesmo?”.

EM tempo: A produção agradece pelos feed backs.

 Spirito Santo

Agosto de 2014 (ano e mês do 67 – quase 70 – do Titio.)

 

 

“Bidimbo!” – Sistemas de escrita africanos. Já ouviu falar disto?

•11/08/2014 • Deixe um comentário

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Foto: ” L’initié Bruly Bouabré qui a popularisé l’écriture Bété. O iniciado Bruly Bouabré que popularizou a escrita Bété.

Não? Então descolonize-se antes que seja tarde demais

“…Nós sabemos que a África não foi a única origem da escrita, mas a sobrevivência desta prática depois do fim das civilizações do Vale do Nilo manteve-se forte no continente. A lista certamente incompleta de sistemas de escrita africanos já descobertas é muito forte e importante, não há dúvida de que existiram outros sistemas de escrita que desapareceram durante os 500 anos de destruição do continente.

Além disso, é interessante observar o que esses sistemas de escrita estão ainda muito enraizados no vale do Nilo, o que reforça a noção de unidade e identidade negra na região. Assim, sem querer ofender os ideólogos ocidentais, a África não teria apenas uma tradição oral, mas igualmente uma tradição escrita.”

Titio, ainda apenas beliscando o assunto, instigado pela descoberta recente da existência de dezenas de ideogramas denominados “Ve-ves” e as belíssimas bandeirolas de paetês ambos sistemas de signos do vudu haitiano entre outras instigações irresistíveis, acrescentaria algumas pimentas neste tempero.

Logo de início ressaltaria que os processos de expansão no tempo e no espaço das culturas africanas originais – como é o caso do Egito – por força de migrações motivadas por guerras, razões climáticas extemporâneas e motivações as mais diversas e em todas as direções do continente, era óbvio se supor que sistemas de escrita ancestrais se espalhariam pela África, como todos os outras sistemas gráficos se espalharam em outras partes do mundo.

Logo, supor uma África negra inteiramente ágrafa ou, por outro lado, superestimar o papel da escrita como parâmetro de superioridade no âmbito das civilizações humanas, inferiorizando aquelas culturas onde, além da escrita, a oralidade é também considerada um sistema de comunicação e transmissão de conhecimento eficiente, não passa de rematada tolice, pura babaquice intelectual.

Assim, avançando seja rumo ao norte (com a formação da civilização grega, segundo Heródoto) ou para o sul (com a suposta criação do império de Monomopata com suas grandes e enigmáticas muralhas), para o centro-oeste, com a grande civilização desenvolvida no que é hoje os Camarões, origem remota da cultura Bakongo, berço da Angola atual (origem da chamada escrita kongo, estudada pelo cubano Bárbaro Martinez-Ruiz), ou seja para o oeste remoto, próximo ao Atlântico (com, por exemplo as culturas do Benin, da Nigéria e do Gabão atuais) os sistemas de escrita tradicionais jamais desapareceram da África, não tendo sido esta linguagem, absolutamente inventada ou mesmo introduzida no continente pelos colonialistas europeus.

Ao contrário, foi comum na África colonial até o pós escravidão (fim do século 19, até as décadas de 40 e 50 do século 20) a invenção de dezenas de novos sistemas de escrita originais, baseados em experiências ancestrais associadas.

“O silabário ou escrita Bamum (Camarões) foi inventado pelo rei Ibrahim Njoya, do povo bamum em 1896. Esse rei também coletou muitos manuscritos que continham a história de seu povo e usou sua escrita para compilar uma ‘’farmacopéia’’, para criar um calendário e para guardar registros de leis. Ele também construiu escolas, bibliotecas e uma gráfica.”

(Importante se ressaltar neste caso que as origens remotas da cultura Kongo – BaKongo – num processo de migrações contínuas ocorrido entre os séculos 10 e 12 de nossa era – se localizam, exatamente no sul do Camarões.)

“A primeira versão dessa escrita Bamoun incluía 465 símbolos. O rei Njoya simplificou essa escrita muitas vezes até que chegou ao silabário A-Ka-U-Ku que é escrito da esquerda para a direita. Essa escrita apresenta 73 sílabas, mais 42 combinações, 10 numerais, 5 pontuações. Os tons são indicados quando necessários por sinais adequados.”

Escrevo, logo leio

Swahili: ler = kusoma; escrever = Kwandika

Lingala: Leia = kotanga; escrever = kokoma

Bambara (língua mandinga): Leia = kalan; escrever = Sebe

Hausa: Leia = karatou; escrever = rouboutou

Fulani: Leia = djangougol; escrever = windougol

Logo surge a pergunta que não quer calar: Como cinco entre as línguas negro africanas mais importantes do continente, definiram em vocábulos originais os atos da leitura e da escrita sem fazerem uso de ideogramas ou palavras árabes ou europeias?

Como, afinal estes povos conseguiriam definir o que significa ler e escrever se não lessem e escrevessem? Este simples detalhe da evolução da linguagem humana parece provar, quase sem sombra de dúvida, o óbvio: a leitura e a escrita eram sim havidas e sabidas na África negra bem antes das invasões europeias.

Os estudos sobre este tema, muito complexos, estão bem avançados no exterior, notadamente pelo esforço de etnólogos, antropólogos, filólogos e linguistas africanos e europeus como o congolês Fu Kiau Benseki (veja no trabalho dele o impressionante cosmograma bakongo decifrado) a zairense Clémentine Faïk-Nzunji Madyia, o belga Jan Vansina, o norte americano Robert Farris Thompson (um precursor), entre tantos outros.

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História em quadrinhos com legendas em escrita Bamoun, feita por ordem do estudioso de Bamoun (dito o criador deste sistema de escrita em 1896) Johanes Yerima, também conhecido como Rei Ibrahim Njoia, na década de 1910.



Estes estudos, contudo, estão bastante atrasados no Brasil por causa, entre outros motivos dos renitentes e arcaicos preconceitos que ainda predominam nas ciências sociais do país (o rançoso racismo acadêmico para os íntimos) que considera as memórias africanas para cá trazidas pelos escravos, hibridismo impuro, sincretismo reles, subproduto cultural de povos inferiores, primitivos e incivilizados.

“De acordo com a historiografia ocidental, o sábio Bruly Bouabré (na foto que ilustra este post) que se juntou a seus ancestrais, em janeiro de 2014, seria o inventor da escrita Bété da Costa do Marfim. Ele teria criado, sozinho em 1948, 448 sinais silábicos desta linguagem a ponto de ser possível escrever histórias com eles. A escrita Bété é pictográfica, ou seja, contém desenhos como na escrita egípcia e a escrita Mende, de Serra Leoa.

Um estudo mais aprofundado demonstra, sem dúvida nenhuma que existem sinais comuns nos sistemas de escrita da África negra. Bruly Bouabré, obviamente, não era um inventor da escrita Bété, mas sim um iniciado, que aprendeu a dominar esta escrita com seus antepassados.”

Uma excelente referência – esta já mais próxima de nós, brasileiros – é o especialista cubano em história da arte (com especialização em África e Centro América) Bárbaro Martinez-Ruiz que estuda o tema dos sistemas de escrita africanos, a partir de fragmentos do sistema tradicional de escrita Bakongo (bidimbo) sobrevivente na cultura cubana e caribenha (“firmas“) principal ligação entre a cultura africana na diáspora centro americana, e suas prováveis origens na região do antigo Reino do Kongo, com eixo centrado em Mbanza Kongo, antiga e histórica capital do reino, circunscrito, quase que inteiramente no que conhecemos hoje como República de Angola, além de partes do Zaire e da República do Congo atuais.

O Titio generoso recomenda também – com insistência – muita atenção para o complexo sistema filosófico e de escrita afro-haitiano conhecido como “Ve-ve” (busque na rede por “Ve-Ve”, interessantíssimo livro do franco-haitiano Milo Rigaud, o maior especialista no tema) com sua provável ligação com o sistema de escrita bakongo (entre outras misteriosas e mui antigas ligações), principalmente pelo fato surpreendente de alguns de seus signos esotéricos, estarem misteriosamente contidos no âmbito da Kimbanda do Brasil (aquela umbanda bastarda, “do mal”) , sob o nome de “pontos riscados” (no Haiti como aqui, cada ponto é riscado, desenhado no chão do terreiro com um pó específico).

Há sim, tudo indica, uma ligação fortuita entre estes sistemas de signos africanos todos, ligação menosprezada por aqui por conta dos preconceitos acadêmicos citados.

Existe, aliás, acabo de perceber assim de garimpar imagens – e me surpreendendo cada vez mais – uma intimidade gráfica, imagética inquietante entre o Vudu do Haiti, chegado nas Américas, em parte via Benin e a desprezada Kimbanda, para os tolos um ramo impuro da Umbanda, ambas (Umbanda e Kimbanda) com fortes raízes angolanas, remotas origens bakongo, por suposto.

Muito ainda a ser estudado para se encontrar a lógica desta história de tantas ramificações, embaralhada que foi pela escravidão, pela diáspora. O pó soprado desta magia da escrita africana, contudo, se espalhou por ai, mas não se dissipou. Escrita que é não se dissipará jamais.

Bem, enfim são estes, por enquanto os amplos sinais bibliográficos, meio areia movediça, meio saco sem fundo, que a intuição do Titio tem seguido. Você pode seguí-los também, pinçando links, associando ideias, queimando pestanas. O jogo das descobertas está posto, o chicotinho, quente-frio está queimando.

(Para quem sabe ler, um pingo é letra).

Spirito Santo

Agosto 2014

(Fonte parcial: http://africanhistory-histoireafricaine.com)

“Abandonada e traída Vanessa denuncia Rodrigo!” Não percam o último capítulo da novela da Globo…plim, plim!

•01/08/2014 • 2 Comentários

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Rodrigo e vanessa

(Vocês não sabem da missa o terço.)

Ainda sobre O Rodrigo Bethlem e secretários de Estado corruptos, esta coisa tão corriqueira no Brasil e as muitas mumunhas ocultas da história.

(Para você fanzoca vibrador do Bolsa Família, em especial, alguns detalhes do esquema. Quem me informa é uma fonte fidedigna, conhecedora da armação. O personagem exemplar da trama pode ser Rodriguinho Bethlem, ex-secretário de Governo e de Assistência Social da Prefeitura do Rio, o nosso corrupto bola da vez, outrora conhecido como o ‘Xerife do Rio”.)

Cadê meu CadÚnico?
Rodriguinho confessou que ganhava uma mesada tirada desta grana aí.

São vários os benefícios geridos pelo CadÚnico, cadastro nacional que lista os pobres miseráveis do Brasil que precisam da mão do Estado para não morrer de fome ou de outra mazela qualquer. O principal é o famoso Bolsa Família, mas tem também o custo per capita de vagas em abrigos de crianças de rua, mendigos, lanches para todos os beneficiários envolvidos em atividades sócio educacionais diversas, cestas básicas, bolsas para jovens carentes, aluguel social de gente desabrigada por desabamentos, tratamento de viciados em crack, o escambau.

O que chamamos de CadÚnico é então, na prática a lista geral destes beneficiários, o rol das pessoas que se inscreveram num ou vários destes programas de auxílio. Quem controla isto é o governo federal, que é quem escolhe, sob contrato, as instituições governamentais (prefeituras ou governos estaduais) que terão o direito de fazer os cadastros, listar os beneficiários de uma região. O governo federal PAGA a estes governos credenciados, per capita um valor por estas listas.

Sacaram? Não se trata ainda do benefício em si, a ser pago a indivíduos, mas de um serviço prestado pela instituição governamental contratada para realizar a localização e a inscrição de beneficiários, serviço que é remunerado pelo Tesouro Nacional.

Bem, maravilha até aqui, alguém teria mesmo que fazer este serviço, mas logo aparece o primeiro problema: O Governo Federal só credencia como cadastradores, governos e prefeituras de sua base eleitoral aliada. A razão é óbvia: Ter o CadÚnico significa ter uma grana preta para gerir e, eventualmente desviar. O governo – o partido no governo, no caso – tem então bala na agulha para, literalmente comprar apoio no senado e na câmara.

São inúmeras as manobras e falcatruas que se pode fazer com uma lista de pobres coitados mortos de fome. São filas, milhões de desesperados doidos para entrar nestes programas (não esqueçam que eles são também, milhões de eleitores agradecidos). Como disse acima, o governo paga pelo total de nomes da lista e pronto.

Como a relação e os interesses que ligam o Governo Federal aos governos cadastradores é meramente clientelista, pouco importa se as listas são criteriosas ou não. Vale é o brinde, o objeto de barganha oferecido pelo Governo Federal aos seus aliados. Grana preta, bufunfa, quem não quer?

Outro detalhe sórdido:Com toda certeza, o número de beneficiários cadastrados como se recebessem o Bolsa Família, por exemplo (e vejam: isto vale para qualquer outro programa do CadÚnico) é inflado, muito maior do que os que realmente recebem o benefício. As estatísticas eleitoreiras na propaganda governamental, contudo, cravam o número maior possível, falso, exagerado, iludindo os trouxas e ingênuos.

Quanto mais cadastrados um governo ou prefeitura enviar para Brasília, mais grana receberá pelo serviço e mais cadastrados aparecerão nas estatísticas da propaganda do governo e seu partido.

Perceberam? O dinheiro que sai do tesouro para pagar as listas não é controlado, não interessa ser. Quanto mais se pagar aos aliados, melhor, mais garantido é o apoio eleitoral. O que é controlado sim, na ponta do lápis, contudo, é o pagamento efetivo ao indivíduo beneficiário. Quanto menos se pagar ao pobre da ponta da corda, melhor. Mais grana dos programas sobra para ser distribuído aos aliados.

Senão vamos lá, chegando a parte mais suja da história:

Não sei se é coisa da lei da responsabilidade fiscal ou outra lei qualquer (estou sem saco para pesquisar isto aí agora), mas o fato é que a partir dos anos 90, por aí, instituições governamentais começaram a utilizar, de forma sistemática, escandalosa e irresponsável até, o instituto da “Terceirização”. Sabem o que é isto?

Alguns setores e tarefas da administração pública, criteriosamente definidos, com autorização legal, passam a ter sua gestão transferida para instituições privadas, geralmente ongs (ou seja entidades “sem fins lucrativos” isentas de muitos impostos). Ah…Quem não sabe o sentido ambíguo e escorregadio que este tipo de instituição foi assumindo no Brasil, com este amplo amparo legal.

Rouba-se por aqui de todas as maneiras, nas rouba-se principalmente dos mais pobres, os mais desamparados. A rigor, ao que parece, os governos criam programas de renda mínima, na verdade para desviar dinheiro público. Criam-se também programas de obras chamadas “públicas”, hospitais, escolas, pontes, estradas, obras da responsabilidade dos governos, a serem construídas com grana do tesouro, mas efetivamente a serem tocadas por empresas privadas.

Grana do tesouro. É este o grande chamariz da corrupção no Brasil.

Querem um exemplo? O PAC. Ele é um programa planejado para concentrar tudo que o governo diz querer fazer neste campo (obras públicas). Neste caso terceiriza-se o serviço contratando empreiteiras, empresas de engenharia, etc.

Tudo é incrivelmente sujo neste campo. Um câncer. A começar pela seleção das ongs ou empresas a serem credenciadas, um processo sempre de cartas marcadas. O quadro é tão viciado, mas tão viciado que, desde o início, pelo menos no âmbito das muitas ongs credenciadas pela prefeitura do Rio (num processo que pude acompanhar pessoalmente, como eterno contratado de ongs) os próprios secretários ou assessores prepostos, montavam suas ongs pessoais com o concurso de presidentes testas de ferro.

A história é longa. A primeira Ong de assistência Social da Prefeitura do Rio, todas as boas e más línguas disseram, tinha o (a) secretário (a) municipal como dono (a) fantasma. A tal ong foi a falência e deu calote, não só na prefeitura como em todos os seus funcionários que, até hoje, mais de 20 anos passados aguardam as indenizações que viraram precatórios.

Não conheço uma gestão de secretarias de assistência social no Rio sobre o qual não pairaram fortes boatos do secretário ser dono enrustido das ongs que contratava. Não conheci também, em todos os anos em que trabalhei contratado por entidades deste tipo, NENHUMA ong que fosse totalmente idônea, honesta e que não tivesse nenhum envolvimento com as falcatruas mais recorrentes.

Quanto mais eficiente na captação de recursos, quanto mais badalado e elogiado for o trabalho de uma Ong, mais envolvida ela estará em algum tipo de falcatrua. As  Ongs mais eficientes são, com efeito as bancadas por grandes estatais como a Petrobras e o BNDEs, ou grandes bancos. É uma regra evidente do que se transformou num negócio muito rendoso no Brasil, já que trata-se de um sistema complexo  de gestão fraudulenta de recursos públicos.

Ninguém entra e permanece neste negócio se não for cúmplice. Sei por experiência própria, pois tentei, anos a fio sem sucesso, manter uma Ong. Nunca fizemos o jogo do sistema. Fomos alijados do meio e tivemos que passar a “contratar” pessoas jurídicas de aluguel para prosseguir nosso trabalho.

Rodrigo e anessa

E quem disse que a situação não podia ser pior?

No início, aí pelos anos 1990 até o início de 2000, as Ongs eram instituições de perfil – pelo menos de fachada – limpo, gente de esquerda com ideais, artistas ligados ao movimento social enfim, bem na linha da militância anti ditadura. Este pessoal, em sua maioria, infelizmente corrompeu-se, como vimos, instalando as bases do corrupto sistema atual.

A partir daí, a coisa se degradou mais rapidamente ainda. Sabedoras das facilidades maravilhosas do sistema, o esquema “entidades sem fins lucrativos” foi descoberto como um excelente modus operandis para ladrões de todos os tipos. Um propinoduto excelente.  É esta a fase atual, na qual escroques e bandidos de qualquer laia se organizam em Ongs, habilitando-se a vender sua personalidade jurídica, para autoridades governamentais corruptas.

São igrejas, em geral supostamente evangélicas (mas também católicas) montando entidades filantrópicas fajutas, são grupos de milicianos (geralmente ex policiais expulsos por serem corruptos e assassinos), representados ou apoiados por parlamentares testas de ferro, que montam ongs que simulam prestar serviços de “Ação Social”, uma mixórdia, um saco de lixo contendo o que de pior um ser humano pode ser.

Como se vê, território e espaço aéreo de urubus, o problema está concentrado de forma explosiva no âmbito dos programas nacionais, estaduais e municipais de assistência social (notadamente nos de renda mínima como o Bolsa Família, conforme afirmamos acima).

Escroto, não? Mas não é tudo ainda (e é agora que aparece o nosso Rodriguinho. É esta praia do nosso herói. Ele mesmo confessou).

Rodrigo Bethlem, parlamentar do PMDB, nosso exemplo de ladrão falsamente paradigmático (como se esta história fosse alguma novidade), é o agente secretário da Prefeitura do Rio, aliada do partido que exerce o Governo Federal. Rodrigo Bethlem é, portanto, por méritos desconhecidos, o incumbido de gerir o CadÚnico (entre outras incumbências).

Óbvio, portanto que o dito, caído em desgraça, flagrado de modo prosaico num telefonema ex-conjugal, foi escolhido pelo grupo da prefeitura a dedo, depois de demonstrar o dom para o cargo, por sua capacidade de manobrar neste contexto, habilidade para nadar nesta lama.

Conhecendo como vocês conhecem agora as características menos aparentes do esquema, Reflitam: Ter sido escolhido para gerir o CadÚnico indica ou não indica que Rodriguinho é homem de confiança da Prefeitura? Como o esquema é podre, ele é, portanto o homem de confiança no pior sentido que esta condição pode ter.

Concluam então com o Titio que o esquema protagonizado por Rodriguinho, uma gota no oceano da corrupção no Brasil, simplesmente É um Sistema, não sendo, de modo algum um evento inusitado, isolado. Desde cima, da formulação e regulamentação das leis no congresso, passando pela atuação pusilânime (para não dizer também cúmplice) do judiciário, culminando na ponta suja da realização e gestão das políticas públicas, o Brasil é uma nação, essencialmente, talvez irremediavelmente corrupta.

(Assustado com o escândalo, observem que o normalmente omisso TCM, Tribunal de Contas do Município danou de denunciar Ongs para a imprensa. O nome de muitas Ongs que insinuei aqui aparecem na lista. Me engana, TCM, me engana que eu gosto)

Antes de um the end provisório, a novela ex-conjugal de Rodriguinho e Vanessa ganha também uma trama adicional, capítulos adicionais. Fica evidente agora que Vanessa, a mocinha traída, já sabia tudo que o ex marido vilão ganhava da Tesloo. Ora, a Tesloo, simplesmente pertence à Vanessa e seu pai Jorge Felippe, o sogrão. O telefonema seria apenas uma arapuca na qual o trouxa do Ricardinho entrou de gaiato.

Soube de ler na imprensa agora mesmo que o CadÚnico controlado por Rodriguinho não tinha apenas a Tesloo como controladora conveniada. Seriam, pelo menos quatro áreas loteadas no município para outras três Ongs fajutas.

Sendo o testa de ferro não unicamente da Tesloo, mas da Prefeitura como um todo (só os tolos mais ingênuos acreditam que Eduardo Paes e Pezão nada sabiam), Rodrigo Bethlem receberia então propinas quatro vezes maiores do que recebia da Ong do sogrão (e isto sem falar da suposta grana dos ônibus de Jacob Barata).

É parte desta outra grana preta (a grana total) que a ex esposa santinha do pau oco, se sentindo lesada, almeja em sua falsa sanha de abandonada e traída (aliás, seria até recomendável a moça daqui em diante ter mais cuidado com a saúde)

Rodriguinho, como é de praxe nas regras pétreas de toda máfia, segurará o trem caladinho. É o “bucha” da história (bode expiatório voluntário, no dizer da malandragem) já sabia desta sua condição desde o início e terá a sua conta na Suíça protegida, para quando sair da cadeiazinha de um ou dois anos, se é que será mesmo processado e condenado (duvido). Multipliquem por milhares os Rodriguinhos espalhados pelo país e me digam: Tem jeito isto?

E assim acaba a novelinha de Rodriguinho e Vanessa. A nossa novela, este drama de audiência nacional bombada no ibope, contudo, parece que não acabará jamais.

Talvez a gente tenha que explodir este Brasil para fazer um outro novo, não é não? Alguém aí vê outra saída?

Spirito Santo
Agosto 2014, mês e ano 67 do Titio

“Rote Schild”: A Casa do Escudo Vermelho em Gaza

•18/07/2014 • Deixe um comentário

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Estado judeu, Barão de Rothschild e nazismo sionista na Faixa de Gaza.

Palestina e Rothschild

 “O primeiro membro da família que ficou conhecido por usar o nome “Rothschild” foi Izaak Elchman Rothschild, nascido em 1557. O nome significa “Escudo Vermelho” em alemão.

A ascensão da família Rothschild para a proeminência internacional iniciou-se em 1744, com o nascimento de Mayer Amschel em Frankfurt am Main, Alemanha. Nascido no gueto judaico (chamado “Judengasse”) , estabelecido pela Igreja em Frankfurt, Mayer construiu uma casa de finanças e espalhou seu império por instalar cada um de seus cinco filhos nos principais centros financeiros europeus, para conduzir negócios.”

(Wikipedia)

Confesso que entendo quase nada de política internacional. Mas palpito, futrico e especulo sempre que me vejo diante de histórias para mim mal contadas.

Talvez algum sabichão do assunto já tenha tocado neste ponto, para mim chave da questão palestina. O fato é que nasci exatamente no ano em que a questão explodiu no colo do mundo (1947) e passei, literalmente a vida inteira observando, atônito a evolução do que para mim nunca passou muito de uma farsa estúpida, um engodo de roteiro de filme de James Bond com toques épicos, bíblicos de um Cecil B. de Mille.

É o seguinte: Nunca entendi – daí fui ler pra saber – porque ao fim da segunda guerra mundial, os refugiados judeus, gente europeia, há tanto tempo integrada nos países ocupados por Adolf Hitler, não regressou simplesmente a seus lares ou optou por permanecer nos países onde haviam se refugiado, normalmente como faz qualquer população desalojada de seus países por alguma guerra ou perseguição étnica ou religiosa.

Sim, sei que grande parte destas pessoas de crença ou ascendência judaica fez isto depois da guerra, mas me refiro a estranha e mal explicada razão para a ONU criar um Estado exclusivo para judeus na Palestina, um lugar para onde todos os judeus deveriam se concentrar, supostamente atendendo a uma dívida histórica da humanidade para com a “raça” judia e sua “tribo errante”.

Muito mal alinhavada esta história, sempre desconfiei.

(Já pensaram na hipótese da ONU criar um Estado Afro-descendente na África para o qual se deslocariam todos os descendentes de escravos das Américas? Loucura, não é não? Mas é mais ou menos por aí que planejaram esta coisa da “Pátria judia”)

“…Em 1917, o governo britânico, através da Declaração Balfour (uma carta de Arthur Balfour, secretário britânico dos Assuntos Estrangeiros, ao Barão Rothschild, líder da comunidade judaica do Reino Unido), manifestou seu apoio ao plano sionista de colonizar a Palestina e lá estabelecer o “lar nacional judeu”. Poucos anos depois, em 1922, a Liga das Nações aprovou o Mandato Britânico da Palestina.

O mandato previa que a mandatária se responsabilizaria por colocar em prática a Declaração Balfour, isto é, favorecer o estabelecimento, na Palestina, de um lar nacional para povo judeu.”

Vejam. Desde sempre, no início do século 20 que judeus de qualquer lugar, notadamente da Europa ocidental e até do norte da África emigram para a Palestina onde um grupo de judeus originais já se encontravam, desde tempos bíblicos. Não se têm notícia de nenhum conflito étnico importante entre árabes, palestinos e judeus na região nesta ocasião. Óbvio que finda a guerra, muitos judeus que assim o desejassem poderiam se instalar na região, sem nenhum empecilho aparente.

Os judeus que eventualmente desejassem se fixar na Palestina poderiam sim estar perfeitamente integrados aos demais grupos étnicos ou religiosos locais hoje, sem nenhum problema senão os conflitos étnicos mais comezinhos.

“Os judeus, que são algo como nômades, nunca até agora criaram uma forma cultural por si mesmos, e até onde eu posso ver, nunca o farão, uma vez que todos os seus instintos e talentos requerem uma nação mais ou menos civilizada como hospedeira para o seu desenvolvimento.”

(C. G. Jung / The State of Psychotherapy Today, Collected Works (Routledge), vol. 10 (1934)

Reflitam comigo: O que poderia justificar a criação em 1947 deste estado judeu que passou a ocupar partes consideráveis da Palestina, deslocando dali, geralmente por meio da força, os habitantes originais? As remotas razões históricas, por mais emocionais e candentes que possam ser (esta coisa da “tribo errante”, cá entre nós é de uma pieguice de doer) não justificam este apelo extremo á criação de um território judeu exclusivo encravado na velha Palestina.

“…Após a Segunda Guerra Mundial, a criação do lar nacional judeu passou a ser vista pela opinião pública como uma forma de reparação pelo Holocausto. Em julho de 1947, forças britânicas interceptaram o navio posteriormente denominado “Exodus 1947″, que levava ilegalmente 4.500 refugiados judeus para a área do Mandato, violando as restrições à imigração judia, estabelecidas pelo chamado Livro Branco de 1939.

A viagem fora custeada por um grupo de judeus americanos. O caso obteve grande repercussão na mídia, provocando comoção internacional e fortalecendo a posição das organizações sionistas, que lutavam pela criação de um Estado judeu.”

(Wikipedia)

Esta viagem do navio “Exodus” ao que tudo indica, também se caracterizaria como uma fase do mesmo plano, paga que foi por um grupo de ricos judeus norte americanos, sugerindo o seguimento do mesmo projeto de natureza capitalista, urdido ainda no Reino Unido em 1917.

Pois é, soube de ler agora mesmo, que o tal Barão de Rothschild, baluarte da economia colonialista do século 19 e paradigma do capitalismo nascente no século 20, foi quem começou tudo isto, lá no Reino Unido, nos tempos da Inglaterra ainda pontificando como a maior potência econômica mundial (ressalto que, não coincidentemente, o mando territorial da Palestina andava nas mãos do Reino Unido por esta mesma ocasião, já que o eixo do capitalismo mundial só se deslocaria para os EUA com o fim da segunda guerra mundial.)

“Já donos de uma fortuna incalculável obtida com os empréstimos a todos os países europeus, os Rothschild se envolveram vigorosamente nos financiamentos ao governo inglês para as colônias da América, acabando por indiretamente causar a independência americana quando restringiram o crédito e aumentaram salgadamente as taxas cobradas aos pilgrims.”

(“A maior fraude da história”- Nehemias Gueiros Jr.)

Em tudo por tudo, o quadro desta mal explicada criação de um Estado judeu na Palestina em 1947, a imediata voracidade deste expansionismo logo logo demonstrada, rumo à conquista e à dominação de mais e mais territórios, a vergonhosa sujeição da comunidade internacional – da ONU notadamente desde sempre – a este expansionismo (observem a transformação do mapa da Palestina de 1947 até hoje) me parece um xis muito evidente para os problemas da região hoje.

Para mim isto se parece muito com um projeto capitalista (neo colonialista) de um grupo de astutos oportunistas, que se valeu como propaganda e pretexto, da comovente história bíblica da busca dos judeus pela Terra Prometida e da comoção provocada pela insanidade do holocausto nazista, com os fins, claramente imorais de se transformar, eles mesmos, no mal que tinham o dever de combater: Um Estado capitalista, de perfil policial-militar, implantado na região da Palestina para garantir a expoliação de recursos naturais – notadamente o petróleo – por parte de um grupo capitalista, a Casa Rothschild à frente que está no cerne da expoliação de milhões de seres humanos há séculos.

A insídia, pura, crua, mostrando a sua cara.

“…Em toda sua longa história, os Rothschilds esforçaram-se para criar uma impressão de que operam dentro da estrutura da ‘democracia’. Essa postura é planejada para enganar e levar as pessoas para longe do fato que o objetivo real deles é a eliminação de toda a concorrência e a criação de um monopólio em escala mundial. Escondendo-se atrás de inúmeras ‘frentes’, eles fazem um trabalho genial de dissimulação.”

(Des Griffin, “Descent Into Slavery”)

Tanto é assim que o quadro da ocupação israelense hoje, é o da completa pulverização das populações e nações que ocupavam a Palestina em 1947, com a sujeição absoluta destas populações e nações a interesses capitalistas de inspiração – oh, contradição dantesca! – claramente nazista, culminando com a transformação de toda a região num estado judeu capitalista hegemônico.

Quem banca este Estado judeu? Alguém aí pode me responder? Dei uma lida por alto nos números de sua economia. Não me convenceram. Não cabem neles tamanho custo militar. O que, por Deus financia esta máquina militar invencível e avassaladora, em termos relativos talvez o Exército mais bem equipado e armado do mundo? Quem, dentro ou fora da linha dos Rothschild do passado, bancaria hoje isto tudo? Porque banca?

Que interesses estratégicos essenciais à sobrevivência do capitalismo internacional estão sendo defendidos a ferro e fogo pelo Estado de Israel a ponto de desalojar, quase exterminar todos os seus vizinhos? A serviço de que ou de quem o Estado de Israel assume esta sua feição nazista, mascarando seu expansionismo com pretextos esfarrapados de autodefesa e direito histórico à posse do território.

“…Os Rothschilds alegam que são judeus, quando na verdade são khazares. Eles são de um país chamado Khazaria, que ocupava a terra encravada entre o Mar Negro e o Mar Cáspio, que agora é predominantemente ocupada pela Georgia. A razão pela qual os Rothschilds alegam serem judeus é que os khazares se encontravam no âmbito da instrução do Rei, convertido à fé judaica em 740 dC, mas é claro que isto não incluiu a conversão de seus genes mongóis asiáticos para os genes do povo judeu.

Você vai descobrir que cerca de 90% das pessoas no mundo de hoje que se dizem judias são realmente khazares, ou como eles gostam de serem conhecidos, judeus Ashkenazi. Essas pessoas com conhecimento de causa mentem para o mundo com as suas alegações de que a terra de Israel é deles por direito de nascença, quando, na realidade, sua terra natal real é mais de 800 quilômetros de distância, na Geórgia.”

(Andrew Hitchcok, “A história da Casa Rothschild”)

E me digam por outro lado: Quem banca estas ditaduras árabes títeres de primaveras sempre frustradas (Sadat, Saddam, Assad, Kazai, Bin Laden, Mubarak, Kadhafi, etc) a maioria comandadas por colaboracionistas descarados, alguns claramente identificados como ex-agentes da CIA promovidos a ditadores, que se omitiram – antes de serem arquivos mortos e queimados – ou se omitem ainda – no caso dos ainda vivos – não menos vergonhosamente diante da destruição total da identidade moral, cultural, nacional e territorial da Palestina?

O mundo vai pagar caro – na verdade já paga – por sua omissão diante de perguntas tão simples, de respostas tão óbvias.

Não são os Rothschilds, não são os milionários avarentos e oportunistas, não são os judeus, entendam, meros signos da besta fera capitalista que são, escudo heráldico da iniquidade e da avareza. É a consciência afinal que nos falta de que a tragédia de Gaza esconde uma farsa política inominável, uma intriga internacional, um conluio cometido em 1947, um limite moral que não poderia ter sido ultrapassado, tolerado mesmo sob a ótica do lucro desmedido que caracteriza o sistema capitalista internacional.

O problema crucial é a comunidade internacional se negar a entender que a criação do Estado de Israel em 1947 – uma farsa oportunista como disse acima – obedeceu a um projeto capitalista equivocado, que só se mantêm de pé a custa da sujeição da população da Palestina pela força das armas, da violência desmedida e das incontáveis mortes de inocentes. Um projeto que se mantêm vivo apenas pela manutenção de toda região árabe em um estado de guerra latente e constante.

(Lembra muito a África pré descolonização do início do século 20. Colonialismo requentado e agonizante, como se vê.)

A Palestina invadida nunca se renderá. É justo que não se renda e neste sentido a reação tresloucada e quixotesca do Hamas é até justa. É histórica a não rendição das populações de qualquer lugar diante deste tipo de afronta. Afinal, se até Roma caiu, este Israel de estupidez imperial também cairá.

“…Meses depois, em 14 de maio de 1948, poucas horas antes de se extinguir o Mandato Britânico e já em meio a uma guerra civil entre árabes e judeus, foi declarada a Independência do Estado de Israel, no dia 14 de maio de 1948. Os Estados árabes reagiram imediatamente.

Começava a primeira guerra árabe-israelense.”

(Wikipedia)

Dá para se sentir o cheiro de gasolina e sangue desta que poderá ser a última guerra colonial. Sim, este arcaísmo pré capitalista escroto, estúpido, pilar desta ordem econômica mudial vigente, inaugurado por um bando de banqueiros – judeus por pura conveniência – seguido fielmente pelos gestores do sistema, judeus ou não, até hoje, pode uma hora destas nos afundar a todos no inferno mais incandescente e explosivo.

Antes mesmo do petróleo da região se esgotar esta fogueira santa arderá.

Spirito Santo
2014

 
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