EXU CHIBATA – qual cisne branco em noite de lua

•dezembro 17, 2009 • Deixe um comentário


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(Na foto João Cândido é conduzido preso por um oficial da polícia – atentem para o sorriso orgulhoso de João diante da atenção dos populares em torno, expressando abertamente a sua admiração para com o ‘Almirante Negro’)

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Em 2010 se comemorará 100 anos de um dos incidente mais importantes de nossa história: A Revolta da Chibata, rebelião de marinheiros ocorrida em 1910, liderada, entre outros por João Cândido Felisberto, timoneiro do maior navio de guerra do Brasil na época e conhecido popularmente como o ‘Almirante Negro‘.

É bastante provável que as comemorações deste fato tão empolgante – e tão significativo para a afirmação da nossa democracia -  empolguem o país inteiro, de norte a sul, marcando o reconhecimento definitivo e inquestionável de João Cândido Felisberto como um dos mais importantes heróis da nossa pátria Brasil.

A montagem da peça Teatral resenhada abaixo por seu próprio autor, inspirada neste empolgante acontecimento histórico bem que poderia ser um destes eventos.

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Exu Chibata é uma peça teatral escrita em 1994 que tem como proposta principal o estabelecimento de um diálogo estético e dramatúrgico entre algumas das linguagens e mídias mais em voga na época em que se passa a ação do espetáculo (início do século 20, entre 1904 e 1910) época de grande efervescência cultural e artística contrapontuada por grandes conflitos sociais.

O eixo dramático principal da peça envolve os incidentes ligados a chamada Revolta da Chibata, comandada por João Cândido Felisberto (o ‘Almirante Negro’) contextualizada neste conturbado período no qual, enquanto no Brasil se tentava afirmar a ferro e fogo o regime republicano recém proclamado, o mundo europeu começava a se agitar com as graves divergências que culminariam com a sangrenta primeira guerra mundial.

A epoca é também marcada fortemente pelo doloroso processo de transição das relações sociais na cidade do Rio de Janeiro, na qual uma imensa massa populacional negra, ainda mal refeita da escravidão abolida há apenas uma década, começava já a experimentar as insidiosas restrições do recém inventado racismo.

Os aspectos principais, referentes a proposta estética sugerida para o espetáculo, estão ligados também aos elementos mais aparentes da chamada Belle Époque, do Cinema Mudo, da Mímica e da Pantomima (linguagens que inserem o espetáculo no âmbito de um teatro essencialmente imagético, no qual as falas não são exatamente fundamentais).

Neste mesmo sentido primordialmente imagético, a proposta tenta se associar também a certas formas e maneirismos do Circo convencional e do popularíssimo Circo-teatro (forma implantada no Brasil por atores e palhaços geniais como Benjamim de Oliveira e Eduardo das Neves). São importantes também a utilização de certas soluções cênicas baseadas nas estéticas mais evidentes do carnaval de rua do Rio de Janeiro, nos rituais do Candomblé e na obra do artista plástico e ex-marujo Arthur Bispo do Rosário.

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EXU CHIBATA – Qual cisne Branco em noite de lua (leia texto integral neste link)

Peça Teatral de Spirito Santo

Registro Biblioteca Nacional 2349087 / 1994

Rio de Janeiro 1994

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(Leia a íntegra no DOWNLOAD em www.overmundo.com.br)

TÁ NA REDE ou TÁ FRITO?

•dezembro 14, 2009 • 4 Comentários


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Foto de Ponto e Vírgula/Frickr
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Mídias versus Conteúdos: Existirão direitos de autor na Internet?

Relaxe. Não se desespere. O futuro chegou difuso, mas não é nenhuma sangria desatada. Além do mais, sabe como é… futuro é algo muito improvável e relativo, mera suposição de iluminados (ou alucinados), virtual que só vendo, tanto que só mesmo quem viver o verá.

O papo é sobre Internet e Comunicação nos tempos modernos. No contexto, a reflexão, ultimamente muito em voga, sobre a suposta legitimação da pirataria que grassa a rede, esta invisível esfinge devoradora de todos os conceitos de comunicação disponíveis, desde conteúdos, privacidades, éticas, direitos autorais, tudo a ser, aparentemente revisto, rediscutido, reavaliado, subvertido, revolucionado enfim.

Sei lá. É confuso de entender, mas, pode também não ser isto tudo aí de complexidade. Pode ser até mais fácil debulhar este milho – prestes a virar fubá – do que colocar um ovo em pé.

Pra começo de papo, todo mundo sabe que a Comunicação humana é uma contingência irrefreável. Não há como escapar dela porque a bruta nos é inerente, está grudada em nós (de certo modo, parece até que ela é o único sentido de nossa própria vida.)

Se formos reparar bem somos mesmo hedonistas por natureza. Fazer o que? Tanto é que, desmedidamente viciados em prazer, estamos derretendo o planeta de tanto sugá-lo, chupá-lo, fazendo dele o nosso pirulito de hortelã.

Acho que é por esta ânsia de prazer que, ao nos comunicarmos, em vez de irmos logo aos conformes, na base do pão-pão queijo-queijo, fazemos isto por meio de complexos procedimentos interativos, todos caracterizados pela desesperada busca de emoções e realizações pessoais, uns extraindo por baixo das ritualizadas filigranas do ‘bom tom’, tudo que se puder extrair, de tudo e de todos, sem exceção. Pura antropofagia, já disseram alguns.

É ou não é verdade que a gente só consegue aprender as coisas, entender o mundo que nos cerca, gravar memórias que nos serão úteis à nossa sobrevivência enfim, apenas vendo, ouvindo e sentindo as coisas tocarem em nós?

Se for mesmo isto – e se alguém puder me desmentir que me desminta agora – restritos, praticamente ao uso de três sentidos muito elementares, somos capazes de fazer apenas uma leitura limitada do mundo. Quase debilóides, é o que somos.

Se a comunicação humana não fosse todo este grande ‘barato’ que é, muitos de nós iriam mesmo preferir ficar ignorantes de tudo, apáticos, catatônicos. Afinal, se tudo é enfadonho.. “quem lê tanta notícia?”

Esfomeados por informação como somos, não é, portanto surpresa nenhuma que tudo o que exprimimos, uns para os outros, acabe virando mesmo este conjunto de signos decorativos, estéticos, assumindo aspectos do que chamamos, meio vagamente talvez, de Arte, Ciência ou Cultura, lugares-comuns, meras simbologias, às vezes mui loucas, impregnadas de beleza – ou feiúra – que nos embriagando das tais endorfinas, serotoninas (drogas benignas fornecidas de graça pelo nosso traficante mais íntimo) nos emocionam.

(Preste muita atenção, contudo porque, pode ser que tenha sido desta nossa imperativa fissura por prazer comunicativo que os aventureiros tiraram a idéia de que este nosso vício intercomunicativo podia ser vendido e até render um dinheirinho)

Deu no que deu.

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Os Mídia-Griots e os Mídia-Troubadours
Músicos e Contadores de histórias

E chegamos então assim ao que é o núcleo duro do nosso papo: O tal do I.Commerce, a Internet mercantilizada e suas mazelas benfazejas (o tal vício reconfigurado) e tudo aquilo que ela, agora mesmo, está parecendo que vai tumultuar e subverter.

(Vamos então ao que eu mesmo, palpiteiro como que, assumindo a identidade de futurólogo de botequim, comentei dia destes) :

“… Não existe outra alternativa para a difusão de conteúdos (obras) que não seja a Internet… O que se comercializa (o objeto do direito do autor) é o ‘suporte físico’…”

Traduzindo então para leigos de pedra:

‘Suporte físico’ é o objeto, a Mídia (a fita, o disco, o CD, etc.) legível por algum tipo de dispositivo decodificador (os chamados ‘tocadores’ ou ‘players’) que contêm uma cópia do produto (do ‘conteúdo’) artístico, cultural ou científico. Em suma: Aquela coisa que a gente comprava na loja, e levava pra casa, às vezes embrulhadinho para presente, lembra?)

Você conhece aqueles sujeitos que andam pelas aldeias contando – e cantando – as novidades ou ensinando a história dos antepassados, ‘homens-biblioteca’ como se diz, mais precisamente?

Na África eles se chamam ‘Griots’ (na Europa Troubadours, saltimbancos estas coisas). No popular, eles são aqueles indivíduos que retêm na memória algum tipo de… ‘conteúdo’ e saem por aí o disseminando. Suportes físicos, portanto e, mais do que isto, suportes móveis, ambulantes.

Está bem, concordo que como ’suporte físico’ estes caras têm lá suas limitações. Não podem ser, por exemplo, replicados em clones, reproduzidos em várias cópias de modo a serem distribuídos, vendidos por aí, a rodo. Sem contar que custa caro torná-los famosos, a ponto de um número razoável de pessoas se interessar em pagar para assisti-los.

(Se bem que o Griots e os Troubadours antigos não tinham este problema: Suas performances eram gratuitas. Bastava hospedá-los e dar-lhes algo para comer.)

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Players humanos, ‘Tocadores’ biônicos
Homo mecanicus et cum spiritu tuo

Depois destes ‘tocadores humanos’, vêm os ‘tocadores mecânicos’ (ou seriam biônicos?), players, propriamente ditos, como o piano e o violão, por exemplo. Sacaram a relação?

Eles são também espécies de ‘suportes de mídia’ primitivos ainda, mas ’suportes’ sim, na acepção do termo, certo? Um pouquinho mais modernos que os Griots, na verdade.

Mais precisamente, são dispositivos de reprodução mecânica (decodificadores, melhor dizendo), só que ainda não automáticos como os de hoje em dia, já que não dispõem de capacidade de armazenagem e registro, não são acumuladores do que chamamos de ‘memória virtual’, dependendo ainda da memória de um ser humano qualquer para funcionar.

Vamos chamá-los aqui então (tantos os players humanos quanto os players biônicos) de ‘players primitivos’, está combinado assim?

Este conjunto de ‘players primitivos’, como se viu, foi baseado na criação de códigos visuais ou gráficos (como a escrita musical, por exemplo), que passaram a ser impressos em algum tipo de superfície (a partitura no papel), a partir da qual, por meio da leitura, se transformava, por exemplo, linguagem acústica em visual e vice versa.

Esta superfície podia, portanto ser traduzida (decodificada por assim dizer) por intermédio de um leitor (que neste primeiro momento, é ainda um ser humano normal) auxiliado ou não de um instrumento mecânico (biônico) qualquer, que servia de acessório para a decodificação (exemplo: a tal partitura decodificada por um músico tocando o que lê ao piano ou mesmo um filme exibido por um projecionista numa tela iluminada por um projetor)

Em miúdos:

Do mesmo modo que ocorreu com os outros suportes de conteúdos primitivos, como a placa de pedra da escrita cuneiforme dos fenícios e o papiro de junco dos egípcios e depois (de forma sensacional) com a invenção de carimbos para gravação em série da escrita no papel (o livro do Gutenberg), os dispositivos de mídia desembestaram a tornar cada vez mais eficiente, sofisticada e rápida a comunicação humana.

Avançando neste conceito (players) podemos evidentemente inserir na conversa todos os dispositivos conhecidos, num processo que vai desde a criação do giz do homem das cavernas (a caverna é o suporte), passando pelo primeiro dos tambores, até os instrumentos mecânicos que, já no século 19, redundaram nos fonógrafos, que passaram por sua vez, a possuir também a capacidade de decodificar informações contidas num objeto-suporte qualquer (uma bobina de metal, um cilindro dentado enfim), um ‘dispositivo de mídia’, como se diz.

Ou seja, players que chamaremos aqui de ‘modernos’, por conta de já serem capazes de acessar memórias virtuais impressas em algo (olha o Bit aí, gente!).

É, pois na invenção dos players, ou seja, dessas muitas maneiras de se transferir conteúdos contidos na memória de um indivíduo para uma série de cópias-objeto, clones impressos num código gráfico qualquer, legível por qualquer outra pessoa, além autor, que começa toda esta problemática, pretensamente confusa, que o leigo confesso aqui está tentando explicar.

Tá ligado?

É que foi delas, das cópias-objetos da sua obra ou criação (e não a idéia em si, contida na sua cabeça) engravidadas de ‘conteúdos’, que os espertinhos da vez tiveram o insight de distribuir e – quem sabe – comercializar idéias por aí.

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Se não existe almoço grátis, quem paga a conta?
O prato-feito self-service dos ‘acumuladores de conteúdos’

Os ‘suportes físicos’ são, portanto a mercadoria sobre a qual você, o cara genial que teve a idéia, tem algum direito a reclamar, se assim o quiser.

“… Samba é como passarinho-“ Dizia Donga, suposto autor do primeiro suposto Samba _ ” É de quem pegar primeiro!”

Pois não é que no caso da Internet, é quase tudo igualzinho?

Uma diferença a ser considerada é que, como o volume de informações aumentou de forma explosiva, um novo elemento teve que surgir na equação: Os ‘acumuladores de conteúdos’.

Eles são sites e blogs, intermediários entre você e os ‘consumidores. Eles fazem o registro competente de sua obra, afim de garantir a você a autoria da mesma e editam o seu material de forma profissional. Em troca exigem o direito de ‘disponibilizar‘ (distribuir) na rede a sua obra, gratuitamente.

E reconheça: Eles podem – e devem – fazer isto. Este é o lado mais bacana da Internet, até segunda ordem. Todo mundo que guardava criações na gaveta, agora tem o mundo inteiro para divulgar a sua obra. Não é legal demais isto?

Contudo – o que é muito importante, como você verá mais adiante – Os ‘acumuladores de conteúdos’ não têm a função de impedir que outros façam cópias de sua obra. Como estes ‘outros’ são muito mais que a torcida do Flamengo (na verdade eles são o conjunto de habitantes de todo o planeta!), você não tem a menor condição de saber a quem cobrar eventuais direitos, caso desconfie que alguém desta cadeia está obtendo lucro evidente sobre a divulgação de sua obra.

Seria o fim do direito autoral, tal como o conhecemos? Será que, conforme aconteceu até meados do século 19, toda obra de arte agora voltaria a ser de domínio público. Do que viveriam os artistas profissionais, músicos, fotógrafos, escritores?

As instituições ‘intermediário’, ‘agente’, ‘empresário’, aquelas figuras que ficavam entre você e o consumidor (e as quais você odiava de paixão), desapareceram do pedaço, não existem mais, não é mesmo? …Pior sem elas, deve estar pensando você agora.

Será?

Sei não. Afinal os dispositivos de mídia – tanto os primitivos quanto os modernos – têm que estar materializados em algum lugar e, mesmo que estejam agora meio ocultos, estão sendo controlados (distribuídos) por alguém.

A rede é basicamente, um sistema de distribuição de conteúdos, não é não? Você está confuso porque não sabe a forma que as suas obras assumiram? Se não são mais livros, não são fitas nem discos de vinil, não são mais CDs, elas são o que agora? Pois então pense, descubra que forma é esta que logo você descobrirá, exatamente, quem está distribuindo conteúdos e, quiçá, os vendendo por aí.

O Griot, o criador de conteúdos enfim, continua bem vivo e é dono de suas criações (sua obra gravada na sua memória ou guardada na sua gaveta), mas, depende hoje, visceralmente, de um dispositivo codificador qualquer (um estúdio, uma gráfica, um site acumulador de conteúdos) que possibilitará a feitura de cópias de sua obra, cópias estas que serão distribuídas, comercialmente ou não.

Dependerá também que os seus consumidores, possuam um dispositivo decodificador, um ‘player’, melhor dizendo (um PC, um I.Phone, um I.Pod, etc.), para poderem ter acesso às suas obras que estão contidas (a não ser que você ou alguém as apague) num dispositivo decodificador destes, pois são os players que ‘carregam’ a sua obra por aí e eles, todos nós sabemos muito bem, não são distribuídos de graça. Logo a questão crucial é:

Quem comercializa estes dispositivos codificadores e decodificadores?

Fica evidente assim que, nesta rede, nesta cadeia de produção na qual estamos incluindo agora o ‘criador de conteúdos’, ele (você no caso) é o único elemento que não está sendo – do ponto de vista do lucro eventual gerado pelo sistema – remunerado.

Isto é líquido e certo, não é não?

Viram como sempre é só parar para pensar? Se você é criador de qualquer obra que julga transcendental para a raça humana (além de você e seus amigos mais chegados, claro) não se esqueça, portanto de que ela terá sempre algum valor comercial (gerando os tais direitos), mas, só depois de ser copiada e replicada num destes formatos de dispositivos de mídia em voga.

Logo, se alguém (além de você mesmo) está interessado em disponibilizar o acesso às cópias desta sua criação por aí, registre a sua autoria (biblioteca Nacional ou sistema Criative Commons) para que se saiba que ela é realmente sua e relaxe. Se houver qualquer tipo de exploração comercial, direta ou indireta envolvendo a sua obra, seus direitos estarão plenamente assegurados.

Se, por outro lado, você não quer disponibilizar sua criação de graça, ou depois de fazê-lo descobriu que o distribuidor de conteúdos ‘gratuitos’ está tendo algum lucro fortuito com a distribuição desta sua criação (sem que esta possibilidade tenha sido comunicada e aceita por você), procure um meio de cobrar a sua parte.

O que? Ah, sei. Você continua a não saber a quem você vai se dirigir para reivindicar supostos direitos porque, simplesmente não consegue entender onde é que suas obras estão fixadas. Nem eu. Só estou, usando o meu direito civil de especular.

Não esquente. É difícil mesmo entender esta história. Eu mesmo estou aqui fazendo força. Mas eu acho que já sugeri a resposta: Suas obras devem estar nos computadores de algum provedor, seguramente, gravadas neles em bits.

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Saudades da minha vitrola ‘Grundig’
O formidável mundo novo da comunicação ‘Tudo-Em-Um’

Os românticos mais empedernidos dirão: Mas que nada! A história da comunicação humana está cheia de exemplos de grandes inovações que micaram. E mais ainda: Prognósticos anunciando a morte por anacronismo de mídias ‘velhas’ vivem não se confirmando por ai. A TV acabou com o cinema? A fotografia acabou com pintura? Nem mesmo o dourado e charmosinho CD conseguiu acabar com velho e preto vinil!

Certo, está certo, mas, atente para o detalhe de que, no caso presente, a questão é bem mais complicada.

Trata-se de uma unificação dos suportes. Cada vez vale menos à pena imprimir imagens e sons em fitas de celulóide ou mesmo disquinhos eletrônicos. Até mesmo a impressão de caracteres gráficos em papel (livros, jornais e revistas) está começando a virar uma técnica caduca. Estamos no limiar da novidade das novidades e ela pode ser a gota d’água.

Andam dizendo por aí que a internet ‘volatizou’ os dispositivos de mídia e que, por isto, não se tem como saber de quem você vai cobrar os eventuais direitos sobre suas criações, não é mesmo? Mas, raciocine usando este conceito dos velhos ‘dispositivos de mídia’:

Um computador, por exemplo, é ou não é, simplesmente, um destes ‘tocadores de conteúdos’, um ‘player’ como qualquer outro, por se assim dizer? (como um piano que tocasse sozinho, por exemplo) Aliás, pensando bem, o PC não é só um como vários players, diria eu. Elementar!

Um computador é um console de suportes de mídia, não muito diferente daqueles aparelhos ‘três-em-um’ de quando eu era um jovem garotão: Vitrola-Rádio-gravador, para ser exato (e vejam só a confusão do futuro já se anunciando ali naquele meu elegante – e já semi-portátil- aparelho Grundig).

Grosso modo, o que é um PC? Acho que parece, sem tirar nem por, com uma máquina tudo em um, que ‘faz de um, tudo’.

Tudo em Um: Grande sacada dos inventores da civilização digital (pois foi aí que porca torceu o rabo).

Ou seja, você tanto recebe conteúdos e informações como pode gravá-las ou repassá-las para quem você bem entender (repare, pois que é aí, nesta distraída malandragem de permitir que qualquer um repasse conteúdos de autoria de quem quer que seja para quem bem entender que os espertinhos da vez estão lucrando.)

Onde eu quero chegar com isto? É simples: As empresas que vendem os tais ‘dispositivos de mídia’, desde os PCs-consoles até os Palms e ‘mini players’ como os I.pods e I.phones, não importa o que, são parte importante da cadeia de distribuição de conteúdos e, como vimos, ganham dinheiro com isto tendo sim, efetivamente lucro com o negócio.

Afinal, o código que ‘lê’ os bits em que os conteúdos estão convertidos, são parte inseparável dos players que eles vendem que, por este simples raciocínio, são objetos-cópias dos conteúdos que distribuem, tanto quanto qualquer disco de vinil ou Cd (na verdade são mídia /suportes e player/ drivers ao mesmo tempo).

Caracterizado este fator e existindo (como existe) uma jurisprudência a respeito, a princípio, parte dos direitos autorais – e aí está o grande nó da questão – de TODOS os autores de conteúdos, poderiam eventualmente, ser cobrados mais dia menos dia, sobre o lucro destas empresas que – como pode ser atestado – vendem suportes de mídia com conteúdos de terceiros (exatamente como faz o pirata de Cds da esquina) sem pagar eventuais direitos autorais destes terceiros.

Este é o lado democrático da Internet, mas é também a essência da malandragem da indústria que alimenta o setor com os essenciais dispositivos de gravação e distribuição de conteúdos.

Deus e Diabo, mãe e madrasta, Dr. Jekyll e Mr. Hyde, um conflito de caráter ainda difuso que habita o âmago da Internet que, mais cedo ou mais tarde terá que ser resolvido.

O que eu quero dizer é que, em tese, à luz das leis de direito autoral em vigor (notadamente as brasileiras), do mesmo modo em que não há como discernir, exatamente, quem é o responsável pela distribuição dos conteúdos e quem lucra com isto nesta matrix gigantesca, lucro, efetivamente, há.

É claro que ninguém vai querer pagar pelo que está disponível de graça, como ocorre atualmente, mas, considere o seguinte: do volume espetacular de conteúdos disponíveis na Internet, do ponto de vista da qualidade e da pertinência sócio cultural, cerca de 90% é puro lixo. Não acha não?

É mais ou menos evidente que, mais cedo ou mais tarde, a obra artística ou científica autêntica, o produto cultural de excelência, publicado e distribuído na rede, vai recuperar o seu valor original, inclusive financeiro, como bem de consumo, mercadoria mesmo.

Neste caso então, convenhamos: Se os suportes de mídia convencionais (aqueles que você podia comprar na loja como livros, CDs, etc.) estão desaparecendo onde será que os seus conteúdos foram parar? No ar? Na rede da blogsfera? Que nada. Pense: ‘Tudo que é humano não nos é estranho’.

Por esta simples razão também – a possibilidade de haver lucro incidindo sobre os conteúdos- as licenças do tipo Criative Commons podem não garantir, totalmente a isenção do pagamento de direitos pela distribuição destes conteúdos, caso fique caracterizado que alguém no sistema (que funciona em rede) está auferindo lucros relacionados, mesmo que indiretamente, com esta disponibilização desregrada.

É mais provável, por esta hipótese, que a batata quente poderá cair nas mãos dos sites que eu chamei acima de ‘acumuladores de conteúdos’. Ou não.

Diretamente ligados aos autores (com os quais as licenças CC são firmadas), estes ‘acumuladores de conteúdos’ seriam a instancia que, no caso de uma onda de ações por direitos autorais inundar a rede, teriam que negociar com os fabricantes de Pcs e players o pagamento de parte destes direitos.

Por outro lado, teriam que reduzir o seu cadastro de colaboradores, passando a filtrar e selecionar autores pela qualidade ou potencial comercial de seus posts, assumindo o papel algo parecido, com o das antigas editoras de conteúdos (editoras de livros, gravadoras) da era pré internet. Será?

Estes ‘acumuladores de conteúdos’ poderiam também optar pela criação de um programa com filtros que inviabilizassem a obtenção de downloads dos conteúdos, porventura autorizados sem cobrança de direitos (hipótese mais remota ainda, dada a complexidade e o custo destes filtros, totalmente em desacordo com filosofia de liberdade de acesso dominante na rede).

Seja lá qual for, a solução deste maravilhoso embróglio em que a questão da produção de conhecimento e o futuro do direito autoral no mundo se transformou, com o advento da Internet, a solução disto tudo talvez venha como uma formidável ‘bola de neve’, um grande ‘jogo de empurra’ universal que, doa a quem doer, tal e qual um ‘freio de arrumação’, poderia criar as bases das relações gerais – principalmente comerciais – da Blogsfera do futuro.

Acredita nisto tudo que especulei ou acha que eu de leigo assumido, virei, de vez, um pirado daqueles mais doidões?

Não ria do leigo. Pense um pouco mais e diga alguma coisa nova sobre isto.

Caia na rede e seja peixe dentro d’água. Os de fora, com certeza, morrerão afogados e serão fritos.

(Ou não. Como saber?)

Spírito Santo

2185 – O ano inesquecível

•dezembro 6, 2009 • 6 Comentários

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(Agora é mesmo tarde. Não precisamos mais de Jules Verne, Isaac Asimov ou Arthur C. Clark para prever o nosso inevitável futuro. Acabo de receber, por meios que, honestamente, desconheço, uma mensagem alarmante, vinda do futuro. Veio de alguém que presumo ser meu descendente. Não posso me furtar a responsabilidade de partilhar esta mensagem com vocês. Chamei-a de O Diário de ‘O Turvo‘)

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Dizia ele:

“O Airtrain passou pela minha janela agora, fazendo a vidraça trepidar levemente, num frêmito. Aquela mancha súbita, incômoda, era pior ainda à noite, quando a luz do letreiro da boate em frente tremeluzia, trôpego, me assustando como um fantasma fugidio.

Bobagem ainda acreditar em fantasmas a esta altura da vida, mas, fazer o que? Sou do tempo do crack tecnológico de 2098, a época em que o mundo parou por quase 3 anos, travado pela crise provocada pelo esgotamento súbito das reservas de biocombustíveis, que culminou com a desertificação parcial das terras do sul do planeta, levadas a beira da esterilidade total pela monocultura energética, e pelos efeitos catastróficos da Grande Enchente, no Norte. Evento há muito tempo esperado, como resultado irremediável do aquecimento global, esta inundação catastrófica só ocorreu mesmo, subitamente, no ano novo de 2095.

A maior entre todas as tragédias da humanidade, na qual milhões de pessoas desapareceram, a Grande Enchente foi como se retornássemos ao dilúvio bíblico. Ao fim do processo, o refluxo das águas, incompleto, formou no centro da Europa, uma região aprazível, denominada Grandes lagos do Norte, onde os milionários do mundo e as grandes instituições que governam o planeta se fixaram. Tornada, no entanto a última opção de combustível abundante, capaz de dar vazão a grande demanda de consumo energético do modo nababesco de vida dos povos do Norte, a água dos Grandes Lagos, logo secou.

Ao Downtime, como ficou conhecido o apagão energético do mundo, se seguiu então a chamada Guerra da Água, conflito ocorrido nas Américas, com milhares de mortos e envolvendo os Estados Unidos e o México (associados às potências européias), contra os aliados Brasil, Venezuela, Colômbia e Bolívia, pela posse da bacia hidrográfica do Amazonas. A Guerra da Água foi de um barbarismo sem precedentes. Nela, pela primeira vez na história, foram usados combatentes zumbis, soldados induzidos á lutar até morte, com as mentes controladas por computadores.

Derrotadas, as nações do Sul passaram a ser obrigadas a comprar a sua própria água que, desviada pelo Aqueduto internacional para as terras do Norte, é vendida hoje em tonéis, cujo preço exorbitante torna o abastecimento de água para as populações dos desertos do Sul, um problema dramático.

A Guerra e o Downtime tiveram, contudo, alguns poucos resultados benéficos. Um deles foi volta de muitas de nossas crenças mais primitivas, hábitos culturais antigos – tais como este, de acreditar em fantasmas, em Deus ou mesmo na redenção do ser humano, esta coisa patética em que nos transformamos.

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Este incômodo com a mancha instantânea do Airtrain só me ocorre assim, nas noites de insônia. Quando mergulho nestes tristes e melancólicos pensamentos de saudade dos velhos e bons tempos que se foram, para sempre. Ah, quanto não daria para ter um copo de leite morno nestas horas. Deus do céu, entre todas, esta é uma das maiores e mais insuportáveis provações. Não existe mais leite na Terra. As vacas há muito se foram deste mundo. Meu bisneto viu uma delas num holograma do VirtualZoo de sua escola. Teve pesadelos durante três dias. Disse que foi do nojo que sentiu, ao ver que as pessoas bebiam aquele líquido infecto, que saía das entranhas de um animal tão gordo e asqueroso.

Ah, uma gota, um sorvo só que fosse, deste líquido precioso e abençoado, que não provo há mais de quarenta anos. Acho que, como um elixir da juventude, este sorvo me remoçaria.

Parece mesmo loucura lembrar como as coisas eram antigamente. Quem poderia imaginar que não criaríamos mais animais para matar a nossa fome? Quem suspeitaria, há 100 anos que fosse, que esta história de cadeia alimentar seria, um dia, apenas mais uma das remotas lembranças de nosso passado biológico? E que, mesmo assim, o tardio da decisão de preservar a vida animal na Terra, nos tivesse privado da maioria das espécies que havia? Estas milhares de coisas exóticas que vemos agora nestes tristes e melancólicos hologramas dos VirtualZoos escolares.

Sim. Estamos quase sós no planeta, nossa velha natureza é agora mais pobre e medíocre do que jamais foi. Com força de vontade, se poderiam enumerar, no máximo, umas seis espécies de animais ainda não extintas, e isto, contando conosco, é claro. Não é preciso nem pensar muito: Sobreviveram os Cães, os Pombos, os Corvos, os Ratos e as Baratas.

Vi na Hologram-Tv outro dia que há num certo canto remoto do Brasil, uma tribo que come os seus próprios cães e domesticam seus ratos, segundo eles, excelentes farejadores de dejetos orgânicos, outro hábito cultural surgido na época do Downtime e praticado pelos endinheirados do Norte, pobres de espírito, que pagam caríssimo pelo produto, cuja venda é controlada por um grande cartel de traficantes denominado ‘The Monopol’.

Os dejetos, conhecidos pelo estranho nome de Cocablood, distribuídos sob a forma líquida ou pastosa, são considerados uma iguaria afrodisíaca. Era de se esperar uma reação como esta diante do insípido hábito que adquirimos de ingerir pílulas. Asco. É por estas e outras que tenho desprezo profundo por estes tempos modernos. Principalmente por sua fauna.

Ontem saí de casa depois de seis meses de reclusão. A idade avançada reduziu bastante o meu apego pelos passeios, mesmo os noturnos. Não estou mais tão benevolente para aceitar ficar sendo observado, fotografado, quase tocado por estes inconvenientes jovens Seestrangers, que ficam postados em frente a minha janela; gente que nunca viu, assim de perto, um ser humano real, como éramos antes do Downtime. Definitivamente não me agrada ser este tipo de celebridade.

Na verdade sou mesmo quase um bicho raro. Como caminhamos para o ponto onde não existirão mais as antigas diferenças estéticas, biotípicas entre as pessoas, o aspecto que os seres humanos mais novos (‘normais’ como já se diz, com certo desprezo pelos mais velhos) adquiriram, é tão diferente de mim, que sou conhecido aqui no meu bairro como ‘O Turvo’ (uma alusão ao tom pardo e baço da minha pele, bem diferente do tom claro e brilhante da pele dos mais jovens), sofrendo, todas as vezes que saio às ruas, os constrangimentos mais absurdos que se possa imaginar.

Meu bisneto tentou me convencer um dia destes a aceitar a proposta que um professor de sua escola lhe fez, para que eu, em troca de algum dinheiro – uma verdadeira fortuna, na verdade – posasse como modelo, para imagens holográficas a serem disponibilizadas aos alunos no VirtualZoo local.

_” Como as imagens da vaca?” – Indaguei, para que ele se lembrasse do que sentiu pelo bicho que dava leite e que tanta má impressão lhe causara. Ele não compreendeu a sutileza. Tive que rejeitar a idéia, veementemente, com argumentos bem mais diretos.

Não temo afirmar que a extinção total da diferença entre as raças, ocorrida em 2099, foi de um pragmatismo por demais cruel, (atributo que, infelizmente, se tornou corriqueiro entre nós). Determinados a abolir um componente de nossa humanidade, considerado então prejudicial á boa convivência entre os povos e as nações, os procedimentos científicos que iniciaram, ao fim de longo debate, a extinção das diferenças raciais foi, em quase cem anos, a decisão mais polêmica tomada pela Cúpula Planetária, instituição criada em substituição da ONU, um pouco antes do Downtime.

(Como se pode observar em qualquer VirtualBook, desmoralizada por um formidável esquema de corrupção, liderado por proeminentes membros do antigo Conselho de Segurança, envolvendo tráfico de armas e negociatas com mercenários, a ONU foi extinta em 2097).

Segundo os especialistas consultados, sociólogos e antropólogos em sua maioria, a diversidade étnica, entre outros inconvenientes (como a inevitabilidade do racismo, por exemplo) seria um recurso já totalmente ultrapassado, do tempo em que a humanidade, do ponto de vista de sua evolução biológica, apenas engatinhava.

O principal impulso a esta decisão, foram os avanços da engenharia genética no século 21, a partir da descoberta das células tronco, o que tornou viável a maravilhosa esperança que será o ser humano homogeneizado, o Homem Mestiço, sem qualquer traço de diferenciação racial. Segundo a minha modesta e suspeita opinião, mais uma aberração, entre tantas, que o homem criou depois que passou a se julgar o Deus de si mesmo.

O processo, no entanto, se prevê, poderá incorrer em diversos inconvenientes e muitas conseqüências indesejáveis, como, por exemplo, já ocorre com o crescente surgimento de movimentos que preconizam a expulsão de pessoas contrárias á homogeneização para os distantes desertos do Sul.

Chamadas pela imprensa de Racialistas, estes grupos contrários á homogeneização, foram criados por clérigos progressistas do Norte, que fundaram o Movimento Racialista da Humanidade (conhecido como a última fronteira da religiosidade humana) que prega a manutenção da diversidade étnica e racial, afirmando que a homogeneização irá produzir uma praga genética pandêmica, que dizimará mais gente do que a Grande Enchente.

Logo após o Downtime, com a explosão dos movimentos migratórios para o Norte, a medida que boa parte do sul do planeta se desertificava, as pressões da Cúpula Planetária acabaram forçando ainda mais a expulsão em massa de racialistas para as áreas desérticas, onde já viviam as populações originais, largadas á própria sorte pelas potências do Norte.

Regredindo, com o decorrer dos anos, a um estágio de civilização primitivo, bem semelhante aos modos de vida dos humanos do início do século 21, a população destas terras do sul, atualmente são governadas pela irmandade dos clérigos racialistas e uma casta aristocrática de emigrados recentes, fugidos ou banidos do Norte, que pregam uma guerra violenta contra os povos do Norte.

As áreas desertificadas da Amazonia e do Sudeste asiático são os habitats mais característicos destes povos, entre os quais os Mulatos do Brasil e os PanChinos da Tailândia se destacam pela selvageria.

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A maioria dos seres humanos, muito em breve, será ‘Flex’. Não existirão os gêneros humanos, homem, mulher, tais quais os conhecíamos. Serei um dos poucos exemplares vivos dos homens convencionais, Proto-hetero, como a ciência já nos classifica hoje. Mais um constrangimento que me faz pretender, para mais breve ainda, a minha partida deste mundo.

Os ‘Flex’ não serão homens nem mulheres. A evolução dos seres humanos para o estado ‘Flex’ se tornou um imperativo, na medida em que o intercurso sexual, com fins de procriação, se tornou uma prática totalmente desnecessária entre os humanos. A formidável evolução científica nesta área, possibilitou a implantação definitiva da gestação por meio da inseminação artificial de células tronco, permitindo que qualquer indivíduo, homem ou mulher, passasse a poder gerar e gestar filhos, naturalmente.

A revolucionária inovação, no entanto, não conseguiu abolir, absolutamente, o prazer que, desvinculado da necessidade de haver intercurso sexual, mesmo que simbólico, entre seres de gêneros diferentes, passou a ter exacerbados os seus aspectos mais primitivos,ancestrais, como vício mesmo, ou necessidade atávica cuja saciedade, apesar de transgredir regras sociais atualmente vigentes, precisa ser conseguida, irresistivelmente, a qualquer custo.

Foi assim que o sexo acabou se transformando em droga proibida, cuja comercialização assumiu proporções avassaladoras quando se descriminalizou a prática da pedofilia (outrora tolerada apenas quando praticada por ricos) para fins sexuais amplos, desde que normais e controlados.

A decisão, que causou grande polêmica entre a população, só foi decidida por intermédio de um disputadíssimo referendo mundial. A vitória dos adeptos da Pedofilia Controlada, como não podia deixar de ser, provocou o surgimento de um mercado clandestino, dominado por traficantes e voltado para o atendimento á clientes viciados naquelas aberrações anteriormente toleradas, tais como a mutilação e/ou assassinato de crianças pra fins de canibalismo.

É comum aqui, por esta razão, a apreensão, quase diária, de comboios de Airtrains, carregados de jovens, meninos e meninas, criados nos desertos do Sul (principalmente no Brasil) exclusivamente, para alimentar este mercado abjeto do Norte.

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Mais um Airtrain passou agora mas não me animei ainda em pegar um. A hora está chegando, mas o esforço mental para pegar um veículo destes, mesmo com o confortável procedimento da Teletransportation, é tão grande – ainda mais na minha idade – que quase desfaleço, só de pensar.

O fato é que morro em breve. Posso saber disto, assim, com tanta convicção, porque as mortes perderam a inevitabilidade natural que tinham antigamente e precisam ser programadas hoje em dia. Como sempre foi com tudo na vida, vivem mais os que possuem dinheiro. Para os pobres a morte é líquida e certa.

Sempre achei este procedimento, chamado popularmente de Morte Legal, um total absurdo, mas, o departamento do governo que cuida do controle populacional já me comunicou: meu tempo se encerra daqui à três meses e exatamente às 16 horas de dia 5 de setembro de 2185 serei declarado oficialmente morto e terei que ser fisicamente apagado. Vivo ou morto, no entanto, 2185 será, com certeza, o meu ano inesquecível.

Por isto pegarei o Airtrain pela última vez ainda hoje. O processo é simples e indolor, posso garantir. Você mentaliza o seu desejo de embarcar no momento em que algum sinal da vinda do Airtrain se processa. Uma tremida da vidraça, o trepidar do assoalho, qualquer indício é o sinal. Assim que veículo passa pela sua janela, o embarque é instantâneo. Num átimo você está dentro do veículo rumo ao destino que mentalizou.

Sem que os funcionários da LifeDelete saibam, partirei. Os traficantes de matéria são facilmente encontrados no interior do Airtrain. Eles me teletransportarão para as terras do sul sem problemas, a um custo bem em conta, se julgarmos a enorme alegria que terei. Estou decidido a passar meus últimos dias numa tribo do Brasil, minha origem genética, perto de pessoas iguais á mim. Morrer naturalmente, definhando, é o que eu desejo.

Chego até a sonhar com alguém que reze por mim aquelas velhas rezas do passado. Velas acesas, flores. Gurufim com tambores. Talvez um velho Samba na voz da Clementina de Jesus. Incelenças, ladainhas. Pontos de Jongo ou de Macumba. Velhos rituais ancestrais do tempo em que tínhamos ainda resquícios de humanidade.

A vidraça tremeu. Não sei por que, no meio dos pensamentos de embarque, surgiu o rosto dela, daquela que foi a minha última mulher, exatamente como estava no dia em que nos conhecemos. O vestido estampado, as pequenas flores de flamboyant no cabelo. Linda. Ah! Como é doce esta felicidade. Aos meus sonhos mais antigos, portanto, satisfeito e conformado eu vou.”

KUDURO. AfroHipHop de periferia

•dezembro 3, 2009 • 9 Comentários


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kuduro_bunda_angolana
Foto:José Silva Pinto(tonspi)

Aldeia de todas as tribos

Existe uma polêmica bizantina no âmbito da musicologia acadêmica que divide, de um lado os ‘Tonalistas’ (os que afirmam que existe um sistema musical moderno e avançado, criado por sumidades burguesas européias, entre os séculos 17 e 19, supostamente, superior à uma música ‘primitiva’ praticada pelo resto do mundo) e, de outro lado, os ‘Modalistas’, aqueles que acreditam que a música, surgindo de um fenômeno físico elementar, está subordinada apenas à determinadas leis da natureza, condição a qual estão expostos todos os seres humanos, sem qualquer distinção.

Realmente, se na natureza nada se cria, tudo se transforma, enquadrando a musica neste contexto, poderíamos compreendê-la sim, como um fenômeno caracterizado pela relatividade, num âmbito onde, a rigor, não existiria qualquer possibilidade de haver modernidade, primitivismo, ou qualquer outra instância de temporalidade, nenhum certificado de superioridade para quem (ou para o que) quer que seja.

Como música é também sinônimo de ritmo, movimento (tudo que ouvimos se move e nos move), obviamente, o mesmo raciocínio poderia ser utilizado para se definir Dança.

Música e Dança, seriam assim, fenômenos circulares, como galáxias, nas quais tudo circularia em torno de um eixo (elemento que os tonalistas odeiam de paixão) no caso, uma freqüência, uma nota (ou um gesto) agregadora de outras, como um sol agregando planetas, numa lógica sistêmica, quântica, harmônica enfim.

Toda esta conversa fiada – e, aparentemente, maniqueísta – é apenas para introduzir o tema que o blogueiro e Dj Lucio K, chamou de Ritmos de Periferia, Kuduro, Kwaito, Grime, e outras elétricas bossas afro-pops, hoje muito recorrentes e prestes a se tornar fenômenos universais.

Estamos propondo também, neste mesmo sentido, que o tema Kuduro e afins, seja discutido aqui, despido de todas as suas máscaras modernistas ou do esperto – com o perdão do trocadilho – bunda-molismo fashion daqueles argutos formadores de opinião, que ficam esperando de plantão, alguma nova onda surgir, para dela se tornarem os pais descobridores.

Em terra de cego…

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O vírus na maçã.

A chamada Cultura Pop sempre foi gerada no caldeirão fervente das periferias. Obvio ululante. Mesmo a cultura HipHop, este emaranhado de atitudes sócio culturais atribuído à juventude desvalida das grandes metrópoles norte americanas, pode ser descrita, coerentemente, como o ovo do futuro, gerado no mais remoto e desprezado dos passados. Pura relatividade, portanto.

Sejamos francos: Não há ‘modernidade’, ‘novidade’ possível (pelo menos em se tratando de música e dança populares) fora do contexto efervescente das periferias. Fora dos guetos e favelas nada se cria. Tudo se copia. Sempre foi assim e, talvez sempre será. O eixo irradiador de toda esta fervura é o mesmo eixo de um centro econômico de cada época, cada ocasião, no caso, em nossos dias, Nova York, onde vicejaram o Rap, o Street Dance, o Grafitti, manifestações criadas nas periferias da grande maçã podre, a Big Apple sem Beatles, sem MacIntosh, sem nada.

Cultura popular orgânica, com potência de vírus (benigno?), estas manifestações são, em ultima análise, o antídoto humanizador para o veneno intrínseco a um sistema arcaico e carcomido (pelo menos do ponto de vista cultural), totalmente ‘out’ e ‘nada a ver’.

Se duvidam, experimentem traçar uma linha de tempo e enxerguem (em preto & branco, é claro), lá longe, nos idos dos anos 50, um grupo de negros marcando o tempo com o estalar dos dedos, criando vocais em contraponto, nas esquinas de conjuntos habitacionais infectos ou cantos de quadras de basqueteball suburbanas. Soul e Funk básicos (e ainda o velho Rock and Roll), rolando já ali naquelas manifestações atávicas, quase ancestrais.

Firmem a vista e vejam o que se dança nestas esquinas. Andem para trás, um pouco mais, e vejam o som das plaquetas metálicas do sapateado ecoando no paralelepípedos das ruas. Isto mesmo! É aquele mesmo sapateado do Gregory Heynes, do Sammy Davis Junior, antes mal assimilado pelos Fred Astaires de ocasião, usufruidores dos lucros do mainstream, este ambiente insípido, onde tudo que uns criam os outros copiam.

Saiam da Broadway, rápido, e vejam mais longe ainda o som vibrante do bate-enxadas e do baticum ritmado das botas dos trabalhadores das estradas de ferro que cruzaram os States de leste á oeste, unificando as distancias, antes, sofridamente, percorridas à cavalo ou pelas empoeiradas diligências que conhecemos nos filmes de Far West (e bota Far nisto). Escutem o que eles cantam.

Há work songs, Gospels, Spirituals, Rhytm’n’ Blues, Soul e Funk ainda rolando por ali. Querem regredir um pouco mais? Não? Ok. Já sabemos muito bem onde isto vai dar.

Mas, vejam bem, são cruzamentos entre vias as mais diversas, os mais inusitados caminhos. Não importa muito se são negros ou brancos os criadores dos elementos básicos desta cultura urbanopop, que nos apaixona a todos. Afinal, são meros seres humanos os criadores desta força emocional que nos mantém, a todos, unidos, vivos e felizes.

Os criadores são o que são – ocorre que, no caso deste nosso estranho mundo ‘moderno’, eles têm sido negros (ou não brancos, tanto faz) desde há muito tempo – É que o universo capitalista é mesmo este insano criador de periferias, pústulas urbanas, lixo debaixo do tapete, encruzilhadas e guerras. Mundo extremista, cruel (e que – cá entre nós – ainda morre disto um dia).

Mas, e o Kuduro? Brasileiros que somos, se focarmos mais ainda a nossa lente, vamos encontrar no Kuduro, a mais pura essência (os tonalistas também odeiam este conceito) de nossa tão ambígua e fugidia brasilidade. Duvidam?

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Saudades da Ala dos Malandrinhos

Em minha já quase remota adolescência, ali por volta de 1960, exposto como todo mundo de meu bairro, à arte de nossa escola de Samba, me vi, certa feita, irremediavelmente, tomado pelo prazer de assistir a um ensaio de um grupo de jovens passistas, homens e mulheres, a maioria meus amigos de rua ou de esquina.

Por sermos pobres, mesmo sendo sábado, nos vestíamos, modestamente, com roupas de domingo. Aquele ensaio era muito especial. Eles, os amigos, haviam me dito que no dia do desfile arrasariam, vestindo calças e sapatos brancos, camisetas listadas e chapéus duros, de palhinha, evocando malandros de antigamente. Me contaram tudo em detalhes porque queriam que eu também fizesse parte do novo grupo que, a exemplo do que ocorria em outras escolas de Samba da região (Portela, Império Serrano e Mocidade Independente de Padre Miguel) se transformava num grande fenômeno suburbano, atendendo pelo curioso nome de Ala dos Malandrinhos.

Não tive jamais coragem de entrar naquela dança, deste rito de passagem eu sobrei (até hoje não consigo dançar melhor do que um ganso manco). O fato é que as Alas dos Malandrinhos, eram uma coisa realmente inusitada no âmbito tradicionalista das escolas de Samba e, por isto mesmo atraíam a parcela da juventude tida como a mais ‘moderninha’ do bairro.

Nas Alas dos malandrinhos não se dançava, convencionalmente, como nosso pais e avós dançavam. Ali, podíamos inventar intrincados passos, um pouco parecidos com passos de Samba, tirados, sabe-se lá de onde, de que memória ancestral. Ali se dançava, simplesmente, em conjunto, como um grupo de bailarinos disciplinados que, vez por outra partiam para solos endiabrados, como se dizia na época: ‘Ditos no pé’.

Os mais velhos torciam o nariz enojados, chamando aquilo, depreciativamente, de… ‘coreografia’, acusando-nos de reles imitadores de crioulos americanos (não sabia como eles conseguiam enxergar influência estrangeira naquele samba estilizado que meus amigos faziam).

Mas hoje vejo que era mesmo Funk e Soul, Blackdance em suma, o que vasava daquela complexa fraseologia de passos ‘marcados’, que rolava ali na quadra, que fazia as vezes de uma esquina de um Harlen desconhecido e improvável.

Agora mesmo diria mais: Era a África possível pulsando no corpo da gente. Atavismo na medida certa para a nossa desmedida juventude.

Ontem assisti à dezenas de vídeos de jovens angolanos dançando o Kuduro. A grande coqueluche das periferias africanas, sobretudo os mussekes de Luanda, Angola, onde dizem, o Kuduro começou. A seção de vídeos me paralizou. Me chamou, particularmente a atenção, o trio de meninos que se intitulam ‘os Pupilos do Kuduro’ Incrível! Minha memória se acendeu, imediatamente, iluminando tudo.

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O Kuduro e nós. Teria mesmo algo a ver?

Ku, palavra e não palavrão, parece vir do mais puro vernáculo do Kimbundo (MataKu=nádegas, assento plural de ritaku), principal língua falada em Luanda, Angola (da qual falamos centenas de vocábulos, sem saber – inclusive Ku, certo?) O sentido figurado da palavra é, exatamente, o mesmo que usamos no Brasil: Bunda (palavra aliás, oriunda também do mesmo Kimbundo), literalmente traduzida para o portugês também como nádegas.

O sentido da expressão Kuduro poderá ser melhor explicado por um Angolano, mas, ao que tudo indica, significa o que parece: Kuduro= Bunda imóvel, sem rebolar, o que, considerando-se que um dos movimentos fundamentais da dança angolana é o sofisticado rebolado (dos homens inclusive), é muito significativo. Algo como uma dança diferente , supostamente ‘moderna’, no âmbito das danças tradicionais que, como já disse são, extremamente, rebolativas.

Contudo, dança livre que é, no Kuduro também se pode rebolar, é claro, basta querer.

Dito isto, o Kuduro, inserido no âmbito da cultura Hip Hop, é uma dança de rua (ou uma street dance, para quem curte americanismos) Como todos os outros gêneros assemelhados, o Funk carioca e o Kwaito (da África do Sul) é a resposta africana a avassaladora influência da indústria cultural de massa capitalista, cujo eixo como se sabe, localiza-se, desde o fim da segunda guerra mundial, na América do Norte.

Mas o Kuduro também é um símbolo dos mais fortes, neste momento, da enorme capacidade da resistência cultural das populações não-brancas, do outrora chamado Terceiro Mundo, diante da pressão globalizante, sinônimo evidente de aculturação.

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Kuduro Checkup

No Kuduro angolano – e vejam vocês mesmos que coisa curiosa! – os passos do mix, da fusão com o break, são o mais puro e carioca dos Sambas. Incrível!

Acreditem, mas, os Pupilos do Kuduro, e outros kuduristas , quando em conjunto, dançam, quase exatamente, o que a nossa Ala dos Malandrinhos dançava lá naqueles bem passados anos 60. Os braços e as mãos dançam break, mas, da cintura para baixo, bundas e pernas dançam o mais desbragado dos Sambas. Pode?

Teria sido aquela minha saudosa rapaziada de Padre Miguel a inventora do Kuduro?

Alguns pesquisadores tentam explicar a estrutura da base rítmica, da batida (beat) do Kuduro por meio de teorias moderninhas ou simplificações que insistem em preconizar a importância, ao nosso ver, exagerada, das tecnologias na criação e na evolução destas danças e gêneros musicais. Os reis da parada seriam portanto os equipamentos eletrônicos (como o já velho Sampler, por exemplo).

Apenas uma opinião, mas, é preciso cuidado porque assim, por extensão, o papel do Mocinho poderia ser atribuído a sociedade neoliberal globalizada, ao Capitalismo em suma, e ao estupendo grau de desenvolvimento tecnológico que ele propicia.

Besteira. Baita injustiça, sobretudo. Não há nada de novo nesta praia deserta, neste giro do prato de velha vitrola hi fi.

O Sampler e sucedâneos são, neste contexto, apenas instrumentos musicais, meios, facilitadores de registro, meros suportes. Se disponíveis estiverem, ferramentas de cultura serão. Se não estiverem, outras ferramentas se inventarão.

Aliás, o que um Sampler faz mesmo? Não muda nada. Copia. E haja periferia e miséria para samplear.

A grande sacação (e isto vem desde que o mundo é mundo) é , portanto, a capacidade do homem de tirar leite das pedras, resistir sem esmorecer jamais, reinventando linguagens, recriando sempre a partir de dados do cotidiano, subvertendo referências e sentidos comunicativos, extraídos de seu passado mais remoto, cimentando os degraus do presente, sem ilusões de modernidades vãs ou de futuro radiante.

Vírus no sistema. O Mocinho verdadeiro desta história– o anti herói – não é a sociedade,mas sim o homem.

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Inside the Kuduro
(em português não ficaria melhor não)

Senão vejamos: Em todos os gêneros citados (entre outros), a alma do negócio é um som de caixa e contratempo. É esta a célula rítmica base, a matriz, o DNA, sobre o qual se criará os sons que bem entendermos. Poderia ser um humano baterista lá no fundo, marcando a batida, mas, fica bem mais econômico usar um som gravado.

No caso do Kuduro clássico (como ocorre com toda coqueluche pop, as distorções e deformações aparecem rapidamente), a batida copiada (sampleada) parece ser o que se chamava nos anos 70, 80 de Kabetula, um ritmo muito popular em Luanda, semelhante ao Semba, do qual talvez seja uma variação (uma outra corrente afirma, contudo, que o Kuduro é uma variação do Kuzukuta, ritmo popular do carnaval angolano).

Ficou tudo em casa, no entanto, porque ambos os ritmos (como a maior parte das danças de negro do Brasil, desde, pelo menos, o século 19), tipicamente urbanos que são, vieram, provavelmente, do Kaduke, espécie de Kuduro surgido na cidade de Ambaça (Mbaka), grande centro urbano e comercial (!) lá pelos idos de 1880 (veja Capello e Ivens), no tempo da colonização portuguesa em Angola

Este Kaduke, talvez tenha gerado, a partir do mesmo processo, no Brasil colonial, o Kalundu que, mesclado à danças européias como a Polka e a Mazurka (espécies de danças de periferia brancas, populares na Europa central), deram numa dança popularíssima na Corte brasileira (um Kuduro colonial) chamada de Lundu.

Pois não é que o Kaduke, o Kalundu e talvez até mesmo o Jongo formaram talvez, a base principal – coreográfica e musical- do que conhecemos vulgarmente hoje no Brasil como Samba?

Viram só? Kuduro e Samba: Tudo a ver.

Fenômeno recorrente, efetivamente, existem manifestações como o Kuduro em todas as periferias do mundo. Decupando a estrutura de todas elas, especialmente no que diz respeito à coreografia, encontraremos, quase que invariavelmente, a seguinte composição: Passos e gestos de Break Dance, fundidos a movimentos de uma ou mais danças tradicionais, tribais mesmo em muitos casos, existentes na cultura local.

Alguém já parou para pensar que na violenta e exuberante expressão coreográfica de uma multidão de jovens favelados do Rio, muitos deles portando fuzis automáticos como se fossem lanças, existem passos completamente estranhos ao novaiorquino repertório de movimentos de break original, de, entre outros, James Brown e Michael Jackson? Há break sim, mas, um pouquinho só. Há desconjuntamento de braços e punhos, movimentos robóticos, como imagens de luz negra intermitente, mas, o que será que significam os outros passos?

Ora, é evidente que, olhando detidamente os movimentos de dança deste Funk Carioca, iremos encontrar a mesma filosofia coreográfica do Kuduro, em nosso caso, representada por passos de umbanda e candomblé (ritmos aliás, hoje banidos de algumas favelas cariocas, dominadas pela cultura ditatorial-evangélica das milícias).

Assim como na África e no Brasil, na Índia, no Afeganistão, na Indonésia, a fórmula beat futurista somado à tradição, se repetirá. Uma lógica planetária, uma espécie de cultura global periférica se estabelecerá. Para nós brasileiros, por exemplo, o Kuduro pode vir a representar a feliz descoberta de que, embora alguns anseiem, desesperadamente, pelo nosso ingresso no clube dos brancos países desenvolvidos, fazemos parte sim – e disto muito devemos nos orgulhar- do universo paralelo da mais complexa, viva, diversificada e pujante Periferia.

Como, facilmente, se pode notar, o mundo roda enquanto a cultura das periferias gira, circula, como um bambolê. Somos do Overmundo, o pá! O Bicho, o vírus da maçã. Y love you Angola!

(Em tempo: Em terra de cego, quem tem um olho, infelizmente é… caolho.)

Spirito Santo
Outubro 2007

Nei Lopes: “Consciencia Negra, modo de usar”

•dezembro 1, 2009 • Deixe um comentário

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Neo racistas do Brasil! Desuni-vos!

O artifício da ignorancia sabida tem sido a grande trincheira defendida pelos neo racistas brasileiros um grupo bem articulado de pessoas (cujos nomes nem vale mais a pena declinar), com muito transito na grande imprensa e que, no ensejo de combater as relativamente bem sucedidas campanhas por ações afirmativas para a população preta do nosso país – no âmbito desta ainda tão jovem democracia brasileira – enche jornais, revistas e livros de capciosas e requentadas teorias tergiversativas, mal alinhavadas sobre velhuscas idéias de sociologos (como Gilberto Freire, por exemplo), martelando a maquiavélica e improvável tese da inexistencia do racismo no Brasil.

Ignorancia sabida é aquela esperta estratégia do ‘João-sem-braço’ que, assim como quem não quer nada, vai envenenando, minando a resistencia dos mais influenciáveis, como um diabinho que buzinando o ‘Mal’ no nosso ouvido, tenta vender o peixe de que, o que parece ser o ‘Bem‘ não é lá tão bem assim.

Todo jovem excluído, segregado, apartado de seus direitos – e ainda sem saber exatamente porque – está sujeito à influencia nefasta deste tipo de intelectual do atraso, advogado do Diabo no pior dos sentidos.

Acho que foi para este jovem que nosso amigo Nei Lopes escreveu esta bula que reproduzo abaixo por sua aguda pertinencia:

————
Consciencia negra, modo de usar
(publicado originalmente em Nei Lopes/Meu lote)

(Fechando a tampa das discussões do mês)

Quando te disserem que você quer dividir o Brasil em “pretos” e “brancos”, mostre que essa divisão sempre existiu. Se insistirem na acusação, mostre que, neste país, 121 anos após a Abolição, em todas as instâncias, o Poder é sempre branco. E que até mesmo como técnicos de futebol ou carnavalescos de escolas de samba, os negros só aparecem como exceção.

Quando, ainda batendo nessa tecla, te disserem que o Brasil é um país mestiço, concorde. Mas ressalve que essa mestiçagem só ocorre, com naturalidade, na base da pirâmide social, e nunca nas altas esferas do Poder. E que o argumento da “mestiçagem brasileira” tem legitimado a expropriação de muitas das criações do povo negro, do samba ao candomblé.

Quando te jogarem na cara a afirmação de que a África também teve escravidão, ensine a eles a diferença entre “servidão” e “cativeiro”. Mostre que a escravidão tradicional africana tinha as mesmas características da constituição em outras partes do mundo, principalmente numa época em que essa era a forma usual de exploração da força de trabalho. Lembre que, no escravismo tradicional africano, que separava os mais poderosos dos que nasciam sem poder, o bom escravo podia casar na família do seu senhor, e até tornar-se herdeiro. E assim, se, por exemplo, no século XVII, Zumbi dos Palmares teve escravos, como parece certo, foi exatamente dentro desse contexto histórico e social.

Diga, mais, a eles que, na África, foram primeiro levantinos e, depois, europeus que transformaram a escravidão em um negócio de altas proporções. Chegando, os europeus, ao ponto de fomentarem guerras para, com isso, fazerem mais cativos e lucrarem com a venda de armas e seres humanos.

Diga, ainda, na cara deles que, embora africanos também tenham vendido africanos como escravos, a África não ganhou nada com o escravismo, muito pelo contrário. Mas a Europa, esta sim, deu o seu grande salto, assumindo o protagonismo mundial, graças ao capital que acumulou com a escravidão africana. Da mesma que forma que a Ásia Menor, com o tráfico pelo Oceano Índico, desde tempos remotos.

Quando te enervarem dizendo que “movimento negro” é imitação de americano, esclareça que já em 1833, no Rio, o negro Francisco de Paula Brito (cujo bicentenário estamos comemorando) liderava a publicação de um jornal chamado O Homem de Cor, veiculando, mesmo com as limitações de sua época, reivindicações do povo negro. Que daí, em diante, a mobilização dos negros em busca de seus direitos, nunca deixou de existir. E isto, na publicação de jornais e revistas, na criação de clubes e associações, nas irmandades católicas, nas casas de candomblé… Etc.etc.etc.

Aí, pergunte a eles se já ouviram falar no clube Floresta Aurora, fundado em 1872 em Porto Alegre e ativo até hoje; se têm idéia do que foi a Frente Negra Brasileira, a partir de 1931, e o Teatro Experimental do Negro, de 1944. Mostre a eles que movimento negro não é um modismo brasileiro. Que a insatisfação contra a exclusão é geral. Desde a fundação do “Partido Independiente de Color”, em Cuba, 1908, passando pelo movimento “Nuestra Tercera Raíz” dos afro-mexicanos, em 1991; pela eleição do afro-venezuelano Aristúbolo Isturiz como prefeito de Caracas, em 1993; pelo esforço de se incluírem conteúdos afro-originados no currículo escolar oficial colombiano no final dos 1990; e chegando à atual mobilização dos afrodescendentes nas províncias argentinas de Corrientes, Entre Rios e Missiones, para só ficar nesses exemplos.

Quando, de dedo em riste, te jogarem na cara que os negros do Brasil não são africanos e, sim, brasileiros; e que muitos brasileiros pretos (como a atleta Fulana de Tal, a atriz Beltrana, e o sambista Sicraninho da Escola Tal) têm em seu DNA mais genes europeus do que africanos, concorde. Mas diga a eles que a Biologia não é uma ciência humana; e, assim, ela não explica o porquê de os afrobrasileiros notórios serem quase que
invariavelmente, e apenas, profissionais da área esportiva e do entretenimento. E depois lembre que a Constituição Brasileira protege os bens imateriais portadores de referência à identidade, à ação e à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira e suas respectivas formas de expressão. E que a Consciência Negra é um desses bens intangíveis.

Consciência Negra – repita bem alto pra eles, parafraseando Leopold Senghor – não é racismo ou complexo de inferioridade e, sim, um anseio legitimo de expansão e crescimento. Não é separatismo, segregacionismo, ressentimento, ódio ou desprezo pelos outros grupos que constituem a Nação brasileira.

Consciência Negra somos nós, em nossa real dimensão de seres humanos, sabendo claramente o que somos, de onde viemos e para onde vamos, interagindo, de igual pra igual, com todos os outros seres humanos, em busca de um futuro de força, paz, estabilidade e desenvolvimento.

Nei Lopes

Meu umbigo em festa: Nei Lopes falou e disse!

•novembro 30, 2009 • 2 Comentários

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Em algum momento ali pelo ano de 2002 e 2003 comentei com o Nei Lopes que não sabia o que fazer com um calhamaço de cerca de 50 páginas que havia escrito sobre a formação das baterias de Escolas de Samba do Rio de Janeiro.

Me intrigava a falta de um estudo meticuloso sobre o tema e eu mesmo já havia me envolvido numa pendenga com a Liga Independente das Escolas de Samba (eu era jurado dos desfiles da Sapucaí no quesito Bateria) por conta de meus pontos de vista a respeito do tema, incompatíveis com os interesses de uns e outros.

Mordido por ter sido defenestrado do júri da LIESA por conta destes pontos de vista, digamos… politicamente incorretos para aquela vetusta galera da cúpula do Samba, escrevi mais e mais, seguindo o conselho que Nei me dera, de pronto, naquela ocasião:

_”Faz um livro, ora!”

O livro está pronto desde 2004. Nei é o luxuoso prefaciador. Agora estou sabendo que ele é fã. Nem sei o que dizer de tão orgulhoso. Afinal ele sempre foi o principal incentivador e ‘padrinho’ do livro que, quem sabe agora sai.

Tá aí em baixo o que ele disse agora:

————–

“Consciência Negra:
A TEMPESTADE QUE ABALOU O SAMBA

Antônio Espírito Santo, músico e pesquisador da pesada, fundador do fundamental grupo Vissungo, que, nesta Semana da Consciência Negra retoma sua importante trajetória, é autor de um livro ainda inédito. Nesse livro, ele analisa, com visão de etnomusicólogo, mas de dentro, o que vem acontecendo com o samba das escolas.

A certa altura do livro (“O samba e o funk do Jorjão”, 2004), o nosso “Espírito” registra uma informação do sambista Marimbondo, figuraça de Rocha Miranda, que, juntamente com seu inesquecível parceiro J. Canseira, marcou época no nosso ambiente, na década de 1970.

Na informação, Marimbondo conta que “por volta de 1937/38 [sic], por conta do enorme sucesso de um filme musical hollywoodiano (…) no qual, talvez pela primeira vez no Brasil, negros reais (e não brancos pintados) foram vistos dançando ‘swing’, este gênero virou coqueluche entre os jovens cariocas. Concursos de dança do ‘swing’ eram organizados nas favelas e subúrbios, com prêmios inusitados, tais como frangos e leitões assados para os primeiros colocados”.

Lendo isso no grande livro inédito do nosso “Espírito”, não pudemos conter o grito do índio do Gonçalves Dias: “— Meninos, eu vi !”.E vimos, mesmo.

Vimos no Irajá, na década de 1950, os negões bacanas da Vila Rangel e adjacências, no sábado de carnaval, às vésperas de envergarem os vistosos jaquetões tipo saco, calças boquinha, chapéus copa-norte e sapatos de couro de cobra com que desfilavam nas alas dos Impossíveis, dos Nobres, da Corte, na Portela e no Império, dançando, suando, abastecidos por um suculento angu à baiana, dançando… Sabem o quê? Suíngue (abrasileiramos a escrita, pra evitar más interpretações).

Tudo isso por conta do filme citado pelo Marimbondo. Filme esse chamado “Stormy Wheater” (no Brasil, “Tempestade de Ritmos”), lançado em 1943, e que – pelas razões apontadas lá em cima – foi o formatador do figurino e da aparência do samba e dos sambistas das escolas em seus tempos áureos. Inclusive nas gafieiras. E nos cabelos esticados no salão do Jaime, na Avenida Mem de Sá.

Lembramos disso, nesta Semana da Consciência Negra para afirmar que a absorção do suíngue (dança) e do “boogie-woogie” (estilo jazzístico) pelo universo do samba deu-se por um fenômeno espontâneo de identificação dos sambistas daquele tempo com um universo paralelo ao seu, e, ainda por cima, glamurizado pelo cinema.

No filme, viam-se pela primeira vez, como escreveu o brilhante Espírito Santo, “negros reais e não brancos pintados de preto”, tocando, dançando e cantando alegremente. E isso tudo era muito diferente do que ocorre hoje, quando o universo “black” é imposto em escala planetária, mas apenas para vender tênis, jaquetas, bonés, camisetas… E até armas.

Mas é assim mesmo. Capitalismo é isso aí! Tanto que “Boogie-Woogie” hoje é apenas nome de favela. “Swing” é só sacanagem. E até o nome do “Espírito Santo” é usado pra se lavar dinheiro.”

Mia Couto:Uma história contra o medo

•novembro 28, 2009 • 3 Comentários

Uma resenha de Terezinha Pereira

Medo, pavor, temor, horror. Quem nunca pelou-se de medo meio a uma situação verdadeira de perigo ou mesmo imaginária? Ter medo do escuro, de almas penadas, da própria sombra…. Ui! Ui! Quem já sentiu tais ou outros medos? Ou não sentiu…….. Começo assim por causa de um livro que li nesses dias. Li. Reli. Tresli. A história está catalogada como literatura infantil, infanto-juvenil. Mas, sei não….

O autor, Mia Couto, nasceu num país do lado de lá da África, em Moçambique, numa terra pequena chamada Beira, que fica à beira do Oceano Índico. Diz ele que lá, aprendeu a ser menino por toda a vida. Que lá, a maior parte dos habitantes não sabe ler, não sabe escrever. Porém… porém… eles sabem contar histórias. Melhor ainda. Sabem ouvir. Que as gentes de lá guardam a meninice dentro de si e têm a crença de que o olhar de criança é importante para ser feliz e produzir felicidade para os outros. Por causa desse seu pensar, escreveu para os mais pequenos uma história contra o medo. Como personagem escolheu um gato de cor, ora uma, ora outra e o pôs no escuro. À história, deu o nome de “O gato e o escuro”.

“O gato e o escuro” foi publicado em Portugal em 2001. Ao Brasil, esse presente chegou neste ano de 2008. Um mimo para os meninos pequenos e também os de mais tamanho e tempo de vida, os que conservam em seu interior a meninice, nem que seja um tiquinho só. Graças ao bom senso da editora “Companhia das Letrinhas”, o livro foi editado com a grafia do português de Moçambique.

Um deslumbramento de escrita recontada nos desenhos da premiada ilustradora mineira Marilda Castanha. Para Marilda, ilustrar as várias imagens poéticas do livro de Mia Couto, desvendar os medos escuros _ com suas luzes e suas sombras e ilustrar as várias imagens poéticas foi delicioso. Para o leitor…. sei não. Sei não, se teria eu palavras para explicar o que fiquei pensando desse conto. Delicioso? É pouco.

Contar ao leitor a história “O gato e o escuro”, isso não vou. Mas, vou deixar-lhe algumas dessas imagens poéticas que a ilustradora captou no texto, para que faça a sua imagem da história. Mais. Caso o legente ainda não tenha sido surrupiado de toda a sua curiosidade e ainda tenha intenção de saber o que há além do horizonte, correrá o risco de, ligeiro, sair em busca de “O gato e o escuro”.

Prepare-se para viajar pela poesia que vem enxertada na narrativa. Para começar, vou-lhe dar uma imagem. Mas só do comecinho. O tal gato personagem, que traspassa de uma cor para outra e para outra, aparece preto-escuro, sentado no cimo do livro da própria história. E as imagens poéticas? Acontecem:

“… o gatinho gostava passear-se nessa linha onde o dia faz fronteira com a noite. Faz de conta o pôr-do-sol fosse um muro. Faz mais de conta ainda os pés felpudos pisassem o poente.” Consegue imaginar uma cena assim?

Lá vão outras:

“Namoriscando o proibido, seus olhos pirilampiscavam.” “À medida que avançava, seu coração tiquetaqueava.” “Só quando desaguou na outra margem do tempo ele ousou despersianar os olhos.” “Nada sobrava de sua anterior gateza. E o escuro, triste, desabou em lágrimas.” “E os olhos do escuro se amarelaram. E se viram escorrer, enxofrinhas, duas lagriminhas amarelas em fundo preto.” “Dentro de cada um há o seu escuro. E nesse escuro mora quem lá inventamos.” “_ … Somos nós que enchemos o escuro com nossos medos.” “ Metade de seu corpo brilhava, arco-iriscando.” “Quando a mãe olhava o escuro, a mãe ficava com os olhos pretos. Pareciam cheios de escuro. Como se engravidassem de breu, a abarrotar de pupilas.”

E aí? Pode imaginar a história? Pode ver um gato preto, enroscado do outro lado do mundo? (E…. qual seria o outro lado do mundo? )

Diz o autor que, “se fizermos como o gato desta história, o Mundo inteiro se transforma num brinquedo. E nós poderemos, então, perder o medo de sermos felizes.”

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*Terezinha Pereira é graduada em Letras pela UFMG, pós-graduada em EAD-Educação a Distância pelo SENAC/MG, faz parte da ALPM _ Academia de Letras de Pará de Minas

“Beija-me!”: Pará de Minas evoca seu filho Benjamim

•novembro 26, 2009 • 2 Comentários

 

“O carro-chefe do Projeto Afro-atitude 2009 é a peça “Beija-me” montada pelo Grupo Cênico Tatu Bola com texto de Terezinha Pereira e do grupo. A direção e a produção são de Rony Morais. O espetáculo vem sendo trabalhado pelos atores e diretor desde o mês de julho deste ano. O grupo recebeu seis premiações em dois festivais de teatro que participou este ano, sendo o último em nível nacional. No FETO – Festival Estudantil de Teatro, a peça conquistou, dia 20 de Novembro último, três prêmios: Melhor Ator, Melhor Diretor e Melhor Conjunto de Atores. Também foi indicado como Melhor Texto e Melhor Espetáculo. A peça vem sendo apresentada com o objetivo de mostrar a toda população da cidade a história do primeiro palhaço negro do Brasil. Benjamin de Oliveira, personagem marcante da cena cultural brasileira, nascido na cidade e, portanto, um de seus filhos mais ilustres. Ele foi um lutador que, de salto em salto, se mostrou fenomenal numa época que, sem dúvida, ser negro jamais seria sinônimo de sucesso.”

Kátia Honório

Ulelelé! Grupo Vissungo no Youtube

•novembro 14, 2009 • Deixe um comentário

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In July 1988, with an invitation to travel to Europe, the Group Vissungo ’starred’ this interesting video that marked its strong position to follow the vocation ‘Brazilian afrobeat’, a musical trend completely unknown – and unthinkable – for the too americanized brazilian musical scene of the occasion.

O’afro-beat ‘was a trend considered ‘european’ by the Brazilian phonographic market and its’ Majors’ in their close view of the market reserve for the’ black music ‘Motow post (not to mention that in our tough and systemic racism who preferred a black Brazilian music more…domesticated)

Managed fairly creative for that time by Flavio Razemblat, the film, a dusty VHS tape was left in a cardboard box for all these years.

The moovment implemented on the Internet about the desired ‘revival’ of the band, gave more life to this old document.

Ulelele!

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Em julho de 1988, já com um convite para viajar para a Europa, o Grupo Vissungo ‘estrelou’ este interessante vídeoclip que marcava a sua firme posição de seguir a vocação ‘Brazilian afrobeat’, uma tendência musical totalmente desconhecida – e impensável – para a excessivamente americanizada cena musical brasileira da ocasião.

O‘afro-beat’ era uma tendência considerada ‘européia’ pelo mercado fonográfico brasileiro e suas ‘majors’ gringas, em sua estreita visão de reserva de mercado para a ‘black music’ pós Motow (isto sem falar em nosso sistêmico e renitente racismo que preferia uma música negra brasileira mais..domesticada).

Dirigido de forma bastante criativa para a época por Flavio Razemblat, o filme, uma fita VHS empoeirada, estava esquecido numa caixa de papelão por todos estes anos.

O agito implementado na Internet acerca do ansiado ‘revival’ da banda, resuscitou mais este alfarrábio.

Ulelelé!

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Orfeu Negro- Marcel Camus

•novembro 13, 2009 • 3 Comentários

Assisti o filme Orfeu Negro do Marcel Camus ainda criança. Revi agora e chorei feito criança, de novo. Saudosismo sim. Saudade de como éramos crianças felizes naquela pobreza mansa dos anos 50/60, na otimista virada do pós guerra.

Só pelo jeito diferente, leve, livre e solto – quase a voar como passarinhos – como a gente sambava dá pra ver como éramos felizes e não sabíamos.

Se você não se emocionar é porque já embruteceu de vez, neste Brasil estúpido em que nos tornamos, deixando crianças morrerem pelas ruas como pardais doentes.