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Hans Staden (o branco de barba) assiste a um esquartejamento ritual

Em época de se discutir a barbárie nossa de cada dia, que tal mudarmos um pouco o rumo da prosa para um enfoque, digamos assim, menos baixo astral? Humor, por favor (mesmo que seja ‘negro’).
O tema que propomos é assaz conhecido de nós todos, brasileiros, desde que os primeiros contadores de histórias europeus estiveram por aqui (os que não foram comidos, é claro): A Antropofagia.
Chamamos a atenção do leitor apenas para um transcendental detalhe: a história abaixo narrada, por mais incrível que possa parecer, é rigorosamente verdadeira.
De insofismável conteúdo cultural e, por que não dizer profundamente antropológica (já que não trata apenas de ‘canibalismozinhos’, comezinhos e suburbanos), a história fala daquela antropofagia de alto nível, ritual, tradicional, contida nas curiosas e meticulosas maneiras de se destrinchar fibras, carnes e ossos de indigitados inimigos humanos, com intenções altamente simbólicas (logo, de modo algum meramente alimentícias). Antropofagia artística, poderíamos dizer em suma.
O tema (ainda muito mais relevante se considerarmos os animados dias de hoje) pode servir também para muitas elucidativas, e sobretudo divertidas, reflexões acerca da natureza da alma brasileira, notadamente naqueles pontos que tentam explicar por que vivemos ainda, mais de quatrocentos anos depois da história narrada haver transcorrido, a nos comermos uns aos outros, assim, de forma tão… tão sem cerimônia, sem pompa, sem circunstância.
É com esta dignificante intenção que lançamos aqui o primeiro capítulo da série…(“tchan, tchan, tchan, tchan” de Villa Lobos, por favor):
“BARBÁRIE TAMBÉM É CULTURA”:
Hoje apresentando o sensacional episódio:
“ O MOTIM DO MONTE CALVÁRIO”
(Uma história que só poderia ter acontecido no Brasil.)
(Descrita no livreto do padre Carlos Bresciani Sj “ A primeira evangelização das aldeias em redor de São Salvador, Bahia1549-1569” publicado pela Fundação Gregório de Matos da Prefeitura Municipal de Salvador, 2000).
Em suas primeiras cartas em 1549, logo assim que chegou ao Brasil, chefiando uma missão jesuíta composta por quatro frades que desembarcaram com o primeiro governador geral Tomé de Souza, na barra da Bahia de Todos os Santos, o Padre Manoel de Nóbrega revelava sincero otimismo com relação a possibilidade de converter nossos índios à fé cristã:
“_ Todos estes que tenham conosco, dizem que querem ser como nós…se ouvem tanger a missa, já acodem, e quanto nos vêem fazer, tudo fazem; assentam-se de joelhos, batem nos peitos, alevantam as mãos aos céus…”
Contudo, esta missão de catequese do gentio local não era de modo algum desprovida de dificuldades como as cartas dos missionários as vezes demonstravam. Conta-se que certa vez, a despeito da não recomendação do governador geral preocupado com os riscos da empreitada, padre Nóbrega decidiu que se construísse uma casa, ‘a modos de ermida’ dentro de uma aldeia de índios, próxima à Salvador a qual eles, os padres, haviam dado o nome de Aldeia do Monte Calvário.
Escalado para nela morar, um dos missionários, o padre espanhol João Azpilcueta Navarro contou em suas cartas que ali catequizou vários índios, entre os quais muitos, ‘todos os que quiseram’, foram batizados. A ermida foi passada para o substituto do padre Navarro chamado Irmão Vicente Rodrigues, que em carta de maio de 1552 narra a história seguinte.
” Conta-nos que, numa guerra contra índios adversários, a Bastian Teles, filho do principal da Aldeia do Monte Calvário, foi adjudicado, como troféu da vitória, um preso para ser morto e comido numa grande festa. Mas Bastian e o pai, principal da aldeia, eram cristãos e não consentiram. Porém não eram cristãos os parentes da mulher de Bastiam e estes, como muitos outros, insistiram para que se aceitasse o preso e fosse comido em grande festa, segundo seu costume.
Quando chegou o corpo do preso já morto, Bastian se opôs, apesar das ameaças que lhe faziam de lhe tirar a mulher. Diante da fúria dos portadores do corpo, preferiu mudar-se para outra aldeia. Entrementes, foram avisados do caso o Pe. Paiva e o Ir. Vicente, que na ocasião estavam juntos na aldeia. Intervieram repreendendo fortemente, e, com força, conseguiram arrebatar-lhes o corpo, que, de noite, às escondidas, enterraram na horta da própria casa. Mas os parentes, que viviam em outra aldeia, ao saberem desta desonra sofrida, vieram armados de frechas e arcos, para desenterrar o corpo. Opuseram-se novamente os dois Missionários. “Acudimos – narra Ir. Vicente – e grande coisa foi não nos frecharem; fugiram.
Às duas horas daquela noite, os dois missionários conseguiram sepultá-lo perto da cerca da cidade, à revelia dos índios, que, naquela hora, jaziam todos embriagados pelas bebedeiras da festa. Ao amanhecer, os índios escavaram todo o terreno em redor da casa dos padres, inutilmente. Ficaram revoltados.
O fato se deu entre abril de 1550 e junho de 1551. Os padres, sob estas ameaças, se retiraram a morar dentro da cidade, continuando porém a cuidar da aldeia com freqüentes visitas.
A aldeia continuou por muitos anos. Pe. Luis de Grã, em Dezembro de 1554, nos diz que muitos de seus habitantes se mudaram, até mudou-se a aldeia toda. “Andam pela aldeia muitos que eram cristãos e moravam numa aldeia situada aqui perto da cidade (a do Calvário), na qual, os padres, que estiveram no princípio, tinham casa e ermida, e ali os ensinavam a grandes e pequenos, a homens e mulheres e, como seu costume é mudar-se freqüentemente, por qualquer capricho queimam a sua choupana em que moram; ninguém lhes impede, ainda que queimam toda a aldeia. Mudaram-se e, finalmente, se mudou toda a aldeia. Para eles eu trabalhava, mas porém seus costumes estão sem nenhum sinal de cristão…esqueceram-se tudo”.
“Sim, esquecemo-nos de tudo”, poderíamos confirmar hoje mesmo nós outros (com os arcaísmos, por favor!). ‘Caranguejamos’, Andamos para trás, poderíamos afirmar também.
Dizem que naqueles banquetes de antanho, nossos silvícolas antepassados (talvez os inventores do ‘churrasco’, tal qual o conhecemos) assavam as vítimas com ervas aromáticas. Hoje em dia nós outros, apesar de sermos orgulhosos urbanóides com freezers e microondas ultramodernos, nem as assamos mais.
E isto é o fim da picada.
Que nos sobrem ao menos alguns guerreiros vivos, para levantarmos, em algum lugar, a nossa nova aldeia. É só o que desejamos. |
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