LÍNGUA DE FOGO

Peça Teatral de
Spírito Santo

Story line

Homem e prostituta são surpreendidos por um incêndio num prédio abandonado. Bombeiro que consegue penetrar no imóvel, tenta em vão salvar o casal e um velho moribundo, Informações que circulam na rua, no entanto, são utilizadas por uma repórter de TV para montar sua própria versão sobre o incidente.

Espaço Cênico
O espaço cênico proposto para o espetáculo, é um pequeno prédio em ruínas, com marcas de ter sido atingido por um incêndio. O autor sugere a utilização de um imóvel real, com as condições especificadas.
O texto do espetáculo descreve também situações que estariam ocorrendo no exterior do prédio em chamas, durante o trabalho dos bombeiros. Estas situações devem ser previamente gravadas em vídeo para serem projetadas num aparelho de TV ou telão, em ponto visível à platéia, de forma que pareçam estar ocorrendo em frente ao prédio, em tempo real.

Público será convidado a entrar no espaço, com a cena inteiramente montada e a ação já em processo. A área principal desta cena deverá ser composta de um piso ao rés do chão, ocupado pelas cadeiras ou bancos da platéia, com um pequeno trecho livre para a circulação dos atores.

Neste mesmo piso, no limite da cena com o seu exterior simbólico (a rua), existirá uma porta cenográfica obstruída por escombros. Atrás desta porta ou em local mais apropriado, deve existir um espaço que possa servir de coxia, inclusive para falas para as falas em off. A cena deve conter também uma escada de acesso para um jirau ou laje que, por sua vez, deve conter uma janela que pareça dar para o exterior. No último degrau, o acesso para a laje estará, da mesma forma, obstruído por móveis velhos e queimados.

Durante o espetáculo, diversos recursos cenotécnicos tais como fumaça, reflexos de labaredas, etc. podem ser utilizados, de forma que a platéia possa se sentir envolvida por um incêndio mais ou menos realista.

Personagens
1- EDUARDO
Negro, perto dos quarenta anos, artista plástico.
2- OLGA
Negra, cerca de 25 anos, prostituta.
3- JACOB
Branco, cerca de 60 anos. Imigrante.
4- DONATO
Nordestino, cerca de 30 anos. Cabo do Corpo de Bombeiros.
5- MARIANNA TOLENTINO (em imagens gravadas em vídeo)
Branca, jovem, repórter de TV.
6- FIGURANTES. (ao vivo, em off, ou nas imagens gravadas em vídeo)
Bombeiros, Capitão bombeiro, Capitão PM, Testemunhas 1 e 2.

CENA 1
O Motel

(Platéia entrando. Sobre a laje da cena, ainda no escuro, casal seminu, dorme numa cama coberta de trapos. Ação explode quando a platéia estiver totalmente acomodada.
Luz na cena plena, vermelha. Ruídos de incêndio. Mulher acordando num salto, assustada, sacode o homem que está ao seu lado e os dois correm, apavorados, para pegar as roupas que estão dependuradas perto da cama.)

OLGA: (Se vestindo, calçando sandálias de solas bem grossas.)
_Ai, minha virgem Maria! O que é isso? Mas …É fogo?.. É fogo sim, ai meu Cristo!

(Luz trêmula simula labaredas na parede. Lufadas de fumaça vazam pelo acesso da escada que está obstruído por destroços.)

EDUARDO: (Descalço, em pânico, procurando algo no chão)
_A vela! Foi a desgraçada da vela!…(pulando no chão: )…Ai! Meu Deus! Vambora! Isso aqui tá um braseiro!

OLGA: (Também procurando a vela no chão)
_ Ai, meu Cristo! Cadê? A vela sumiu!?…(Fazendo menção de correr até a janela, olhando para o acesso da escada: )…Eu quero sair daqui! Me tira daqui! Socorro! Socorro!

(Eduardo, vestindo a calça, corre na ponta dos pés até o acesso da escada. Tenta desobstruí-lo. Se afasta da fumaça que escapa pelas frestas do acesso.)

EDUARDO:
_ Não dá! Não dá! Ai!..(socando os destroços sem conseguir movê-los, tossindo)…Tá foda! Tá demais! A gente vai morrer assado!..(tossindo: ) Grita socorro! Na janela, vai!.. (Ele mesmo, gritando: )…Socorro! Socorro!

OLGA e EDUARDO: ( Gritando juntos na janela, para a rua, acenando)
_Socorro! Alguém acuda! Pelo amor de Deus!
_Acode aqui, gente! Socorro!

(Ruídos do incêndio aumentam. Reflexo do fogo toma todas as paredes da cena.)

OLGA: (Gritando)
_Eu não agüento isso! Ai, meu pai!

(Olga corre em direção à janela. Eduardo corre atrás dela agarra-a pelas costas e os dois
caem no chão. Olga continua a gritar)

OLGA : (Ficando de pé)
_ Socorro! Me deixa sair! Me deixa sair daqui!

EDUARDO: (No chão, agarrado as pernas de Olga)
_ Não! Não! Sai daí! Tá maluca?

OLGA: (Com parte do corpo para fora da janela)
_Eu quero me jogar! Me larga! Me larga!

EDUARDO: (Em pé, abraçado à Olga, tentando puxá-la para dentro)
_Pára! Pára, pelo amor de Deus!

OLGA: (Gritando para a rua, insistindo em se atirar da janela)
_Ai! Socorro! Eu não quero morrer assim! Eu não quero morrer assim!

EDUARDO: ( Puxando Olga de novo para o chão)
_Sai! Sai daí !

OLGA: ( No chão)
_Me solta! Me solta!

(Ruídos do incêndio diminuem um pouco. Olga desiste. Os dois continuam no chão, ofegantes)

EDUARDO: (Sem soltar Olga)
_Puta que pariu! Viu só? Você ia se esborrachar lá em baixo, sua doida?

(Chamas projetadas nas paredes vão diminuindo também).

(Continua num Download perto de você)

~ por Spirito em Janeiro 6, 2008.

2 Respostas to “LÍNGUA DE FOGO”

  1. Gosto muito desses teus roteiros. Tô até ficando com vontade de ir para o Rio para filmar. Vô vê, mas como virei funcionária pública, tenho que cumprir horário. Só dá nas férias. Vamos conversar?
    Abração!

  2. O texto é duka. Muito bem escrito, estiloso e com rítmo, o que é o mais importante. Numa linguagem popular, cotidiana. Dá tesão de ler.
    Abração

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