A ‘verdadeira’ história do Samba ainda mal contada

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Digo e repito: No Mito da criação do Samba há um pecado original

O filme aqui resenhado – e linkado abaixo – é ducacete. Não sei ainda ao certo se o título dele é este mesmo: “A verdadeira história do Samba“. Se for esta a intenção, então sugiro um pouquinho de ‘pé atrás’ com a pretensão descabida, que andemos devagar com o andor neste sentido, já que para mim os problemas do filme residem exatamente aí, em partes de seu conteúdo.

É que o Tio escreveu um livro inteiro sobre este mesmo tema – a história do Samba – e tropeçou numa série impressionante de mistificações e abobrinhas etnológicas. Aliás, o livro só virou livro – no volume – por conta da quantidade enorme de teses e hipóteses, provavelmente infundadas que tive encarar, esmiuçar e – pisando em muitos ovos – tentar desconstruir.

As informações historiográficas de Joel Rufino sobre as origens do Samba contidas neste excelente documentário são, infelizmente um tanto imprecisas, meramente conjecturais, capciosas mesmo em alguns de seus aspectos cruciais. São a mera repetição de equívocos clássicos e improbabilidades flagrantes. E olha…Joel Rufino é uma unanimidade como intelectual e historiador negro.

Mas, sejamos francos: Esta não é, com certeza a ‘verdadeira’ história do Samba. É apenas a versão ‘oficial’ , a mais recorrente, o ‘chavão’, a versão ‘chapa branca’, digamos assim de uma complexa linha de tempo que se quer encaixotar numa versão simplista e condensada.

Neste sentido, o memorialismo das falas de Grande Otelo no filme é muito mais preciso correto até, pois as incongruências recaem muito mais sobre a fala dos entrevistados do que sobre opiniões dele, Grande Otelo. Acredite nos depoentes quem quiser.

Como incongruência exemplar, por exemplo, posso apontar que é visível na fala de Tia Carmem, a anciã baiana – entrevistada, obviamente para dar legitimidade à tese – que ela declama um discurso oficial, o que todo mundo quer ouvir porque foi sacramentado como verdade oficial, a ‘verdade‘ confortável porque dá projeção ao seu grupo, a sua comunidade específica, Pai Alabá, Tia Ciata, a colônia baiana de sua meninice.

Esta versão pretensamente historiográfica que Joel coloca – e o filme, de certo modo corrobora – olhada mais meticulosamente está marcada, infelizmente por preconceitos sutis, ardilosamente construídos ao longo do tempo, equívocos antropológicos e etnológicos à vezes crassos, concepções apressadas, descuidadas que se acumularam em camadas sucessivas em dois sentidos:

Um na realização dos anseios de ascensão social desta elite baiana que aqui se estabeleceu no final do século 19. Outro pela conciliação destes interesses com os da elite branca, principalmente a intelectual, acadêmica a quem interessava sobremaneira a interlocução, a intermediação desta elite negra como anteparo, salvaguarda nas conflituosas relações com a nossa imensa população negra, excluída de direitos, alijada do acesso á ‘farinha pouca‘ de nossa estratificação social.

História oral artificialmente intelectualizada, carente ainda de fundamentos, se aprofundarmos este assunto – mesmo que apenas do ponto de vista cultural- com dados e documentos mais cabais, a maior parte desta versão historiográfica – o mito da invenção do Samba por baianos na casa da Tia Ciata – provavelmente desmoronará.

Quando Joel diz, por exemplo, “Invenção carioca decorrente do batuque baiano” é fácil se perceber a incongruência da afirmação. Para começar, o tal ‘Batuque’, é um gênero musical de ascendência antes de tudo africana, angolana que se espalhou de forma genérica pelo Brasil inteiro – Rio de Janeiro inclusive – e não exclusivamente, ou privilegiadamente, na Bahia.

Para terminar não existe uma lógica bairrista, regionalista possível,  na evolução ou disseminação de valores étnicos, culturais que extrapolam, em sua origem os limites  geográficos do Brasil.

Ora, além do mais – e eu digo e repito isto no meu livro “Do Samba ao Funk do Jorjão- já havia milhares de escravos negros no Rio de Janeiro desde sempre, mais de dois séculos antes de 1870 (época provável da chegada, por várias razões, das primeiras levas de baianos que se alojaram como uma colônia nas imediações da Praça Onze).

Supor que estes milhares de negros que já estavam no Rio de Janeiro, pelo menos desde 1600 – e que, diga-se de passagem, não vinham absolutamente da Bahia, porque, entre outros motivos, seria economicamente inviável baldear cargas de escravos na indireta via Luanda-Salvador-Rio de Janeiro – supor que estes negros todos, oriundos, em sua maioria da região hoje conhecida como República de Angola – não tinham condições de criar uma manifestação musical própria, por si sós, só o fazendo com a chegada dos tais baianos, é sobre qualquer ponto de vista de uma implausibilidade absoluta, um preconceito estranho que divide africanos escravos numa espécie de hierarquia bem maquiavélica, com uns (a maioria) sendo tratados como intelectualmente inferiores aos outros (uma minoria)

(Acho impressionante que a maioria dos intelectuais do Brasil ainda dê crédito a tamanho disparate antropológico.)

Claro que a influencia baiana no Samba carioca – se é que ela pode ser em alguma medida aferida – foi apenas circunstancial, irrisória. Totalmente improvável, portanto esta ascendência privilegiada dos baianos do Candomblé (gêje-nagô) e do Rancho (lusitano) na fundação do Samba carioca, do Samba Nacional, do Samba hegemônico, enfim.

Tudo isto – a ideia de uma elite negro-baiana, superior e intelectualmente mais capaz do que o resto da escravaria – é fruto de um mito clássico (aliás, para mim execrável) arraigado na história ‘oficial ‘da cultura negra brasileira: A supremacia nagô-baiana, uma concepção muito propícia à manutenção do status quo, do racismo brasileiro generalizado que se baseia, exatamente, em procedimentos de exclusão da maioria em privilégio de elites, grupos minoritários ‘diferenciados’.

Tal é para mim o tal mistério da história ‘verdadeira’ do Samba, carente de muita – e urgente – revisão.

Assistindo ao emocionante filme sem estas preocupações ranhetas e impertinentes, ouvindo, enlevados apenas pela graça crua das canções, ganhamos muito mais.

O conhecimento, a construção imponderável do saber sobre estas coisas tão etéreas e ambíguas do lado africano de nossa cultura é que é mesmo o mais insondável dos mistérios.

Pelo menos por enquanto.

Spírito Santo

Janeiro 2012

~ por Spirito Santo em 08/01/2012.

2 Respostas to “A ‘verdadeira’ história do Samba ainda mal contada”

  1. De longe, muito, muito longe, desse centro em disputa do cetro da primazia e da verdade, requeiro, como piauiense no Rio Grande do Sul desde quase sempre, um ente planetário, portanto, o olhar e o ouvido e os pezinhos e ancas para os tambores das charqueadas e do batuque, em que os alabês soam e ressoam mais tardiamente, por certo em razão da chegada posterior do próprio português e da gente africana escravizada lá pra cá, mas inda assim, também diferente das que pelas barra das baías de Salvador e Guanabara tiveram entrada. Também aqui a roda se fazia e também na roda aqui se dançava… Então a verdadeira verdade, Spírito, penso, continuará sendo: o gato preto na sala escura em que o gato lá não está, embora ainda não tenho lido teu livro.

  2. Afora a delícia do texto do amigo, a intenção do livro – que espero um dia leias – é que ‘igual’ (no caso de ‘asiático’) não é simplesmente, de modo algum, um ‘caminhão cheio de japoneses’

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