O Balanço do Tio na Rede – Post #01
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Notebook com vela- Foto Spírito Santo
É que você nem sabe a falta que um Tio véio faz.
‘Sekulo’ – “Tio’ em umbundo, língua de parte de Angola. Mais precisamente ‘irmão da mãe’, pessoa proeminente, venerável no seio de uma família, muitas vezes com mais autoridade sobre os filhos da irmã do que o próprio pai.
A prática – que presumo ser usada ainda em comunidades tradicionais de toda a Angola – segundo dizem alguns especialistas remonta as regras de protocolo social estabelecidas entre o grupo dos que chegaram vindos do Camarões e os que já estavam no estuário do rio Kongo no século 12, no ato da união que marca a fundação do povo bakongo e seu Reino do Kongo.
A regra surge porque se estabelece aí as normas de sucessão no Reino que determinam a linha matrilinear, a linha de sangue ou ‘kanda’ ou seja, o sucessor o rei ou soba (ou do chefe da família, por extensão) será sempre o filho da irmã deste ‘cabeça’ da aldeia (ou da família), com o tio – irmão da irmã do rei – tendo poderes de tutor, ou mesmo substituto.
Estas conclusões, extraídas de opúsculos e relatórios portugueses de autoridades coloniais das Juntas de Investigação do Ultramar Português, são da pesquisa do tio aqui que vos fala. Achei inclusive resquícios desta prática aqui no Brasil, por meio, exatamente da palavra ‘sekulo’ pinçada, fortuitamente de uma canção ou outra de escravos mineradores em Diamantina, Minas Gerais, como esta aqui abaixo:
“…_Otê…Pádi nosso cum ave Maria
Seculo, tamera, nta ngana nzambi …
Ê calunga qui tom’ossemá
Ê calunga qui nta ngana nzambi!
Aiô!”
(Ponto de Vissungo. Século 19 para o 20 – São João da Chapada, MG, Brasil)
Aliás, falando nisto, um leitor do facebook (Eurico Henrique), provavelmente angolano, outro dia me mandou esta saudação que muito me envaideceu:
“Sekulu yietu!!O sr.tem lindos filhos, parabens,,tuapandula!!
Viram só? Não subestimem. O papo do tio então não é um chute bola fora ou dentro por acaso, um pênalti de leigo. O papo aqui não é de todo veraz, mas é dez.
E velho‘por definição’, eu disse. Notaram aí na epígrafe? Viram como até nesta conversa de se intitular ‘Tio’, assim parecendo jocoso, o que se busca é fincar um pezinho lá atrás em alguma história algo fundamentada. Bem, haverá aqui um pouco de divertida zoação aos críticos também, sim, claro, nestes uns e outros ressentidos que – sabe-se lá porque mágoas movidos – chamaram o tio de ‘velho’ com intenções ofensivas.
Enganam-se, portanto todos os leitores amigos ou quase amigos que veem intempestividade e sofreguidão nos posts do Tio na Rede. Escrevinhador compulsivo, de caso pensado o que o Tio tenta ser, modestamente é uma espécie de griot pós moderno (coisa que, cá entre nós, todo velho tenta – ou mesmo deveria tentar – ser, por definição).
Cabeça cheia de memórias transbordantes das quais desesperadamente os tios todos tentam se livrar, o que se balançará daqui pra ali nos escritos aqui em retrospectiva, será apenas uma alma antiga e vadia, doida pra afirmar que está viva e tem algo a contar aos mais novos ou interessados em geral.
Mas pelo sim pelo não, devo dizer que bem antes de pesquisar o tema, aprendi isto aí de ‘sekulo’ primeiro circulando em favelas. Sério. Juro por Deus. Afinal nem tudo está nos livros e do que nos livros está nem tudo é verdade, Vocês, os mais moleques agora, quando forem tios com certeza disto hão de saber.
É que desde que meus cabelos embranqueceram que os moleques mais garotos destes lugares me chamam de ‘Tio’. Não como é agora, quando isto é normal. Neste tempo aí do qual falo – e que é bem recente até – só os crioulinhos de favela tratavam - e tratam – os velhos assim, como uma pessoa merecedora de respeito, como um irmão da mãe.
Nunca viram não?
Os garotos mais escolados, pós adolescentes ou quase adultos, marrentos, metidos alguns já com o tráfico ou outras bandidagens, são até mais precisos: chamam a gente de ‘Mais velho’ mesmo , assim como se fosse um estranhamente venerável título (e ser chamado assim de ‘Mais Velho’ com tanta reverencia por um sujeito garotão com um fuzil de guerra cruzado à tiracolo enche mesmo de moral a alma de qualquer sujeito)
Bisbilhoteiro que sou desde criancinha – posto que garotos de favela quase sempre são crioulos – não custei muito a descobrir que aquilo era coisa de cultura negra vinda de longe, de fora dos livros, mas Cultura negra sim, coisa de pretos isolados ruminando os hábitos e as práticas sociais dos avós, memórias recicladas. Tradição.
E atentem para o detalhe crucial: velhos brancos, já que brancos são raros em favelas, nunca eram – ou são – tratados assim. Você devem saber: velho branco em favela é chamado quase sempre – com um certo cinismo até – de… ‘doutor’.
É, portanto este conceito de Tio que estará em tela aqui no nosso papo, correto?
Simplismo, conversê e papo raso não precisa ser regra em redes sociais. O ‘book’ virtual de cada um de nós não precisa ser um ‘caô caô’ deslavado e cínico. Nem simplista. Nem muito menos malcriado e grosso. A ‘face’ fake dos orkutistas e fofoqueiros ofendidos de plantão que se lixe, mas o balanço aqui do tio nunca será virtual.
O papo aqui será o Papo Reto, morou?
Dito isto vamos balançando de um lado para outro e em frente que atrás vem gente.
A Estratégia da Aranha
Tenho um histórico bem curioso e pragmático desta minha entrada, desta minha queda fragorosa na rede, no mundo fundo das ideias virtuais. Planejei tudo, podem crer. Tanto que posso agora mesmo fazer esta incrementada retrospectiva das aventuras do Tio neste mundão véio sem porteira que é a Internet.
A modernidade – podem crer – é sempre um amontoado de bobagens fortuitas, manjadas e questionáveis. Nós a inventamos tirando a bruta – como não podia deixar de ser – de nossa própria natureza e condição humana. Dela, desta nossa natureza, na qual nada se cria, tudo se transforma (ou se copia) já se disse certo dia (um sabichão destes aí): Nada do que é humano nos é estranho.
É que escrevinhador viciado que já me assumi ser, mantinha em casa uma ‘gaveta’ larga e funda de alfarrábios, papel A4 de escritório, formulários contínuos de velhos computadores jurássicos, folhas de papel almaço e até guardanapos de bar, babados, manchados de velhos chops, tudo rabiscado ou datilografado com ideias esparsas, imperdíveis, naquele fugaz momento de insight, aqueles pensamentos em flashs piscando na alma, brain storms elétricas, aos quais a gente se apega e com sofreguidão quase mística registra, rabisca, anota, porque sabe muito bem que toda memória é fraca e finita, descartável, se esmaece e se esvai com o tempo que tudo moe e rói como as traças vorazes.
Caixas e caixas de papelão contendo pastas e mais pastas de amarfanhados e amarelados textos, poemas bisextos, letras de canções, textos teatrais, contos, roteiros de cinema e muitas e muitas páginas manuscritas com anotações das pesquisas de campo – e as suas ainda embrionárias conclusões, espécie de teses de mestrado de leigo abusado – que fiz com o grupo Vissungo nas décadas de 70 e 80 do século passado, zanzando pela região sudeste do país, principalmente pela terra do meu pai, Minas Gerais.
A descoberta da Internet para mim, portanto, desta coisa de poder transformar aquela transbordante e empoeirada gaveta física, íntima em escancarada gaveta virtual e pública, este prazer inenarrável de poder partilhar os meus textos, milhões e milhões de caracteres, com leitores reais, retroalimentar o meu prazer de escrever com o feedback do bem querer -ou mesmo do mal querer – de gente de todo tipo, gatos e sapatos, cobras e lagartos, gregos e baianos, me fascinou absolutamente.
Foi mesmo a fome com a vontade de comer.
Eu sei. Me empolgo, mas sei que é coisa pouca. Quem não tem lá a sua história de enrabichamento internético, o seu ‘orkustismo’ íntimo, a nostalgia do dia em que caiu na rede, o mergulho ciberemocional nos sites que amou ou odiou, toda uma vida virtual transcorrida, vivida como cachoeira escorrendo para um rio, quem não tem?
No entanto – é bom frisar- não comecei a minha vida nas redes sociais pelo Orkut como a maioria. Aquela coisa de montar grupinhos para entabular conversas sobre bobagens e trivialidades infanto-juvenis nunca apeteceu o véio. Abri sim o meu perfil no Orkut já muito tempo depois de estar caidinho pela rede, apenas para estabelecer algum contato virtual com os muitos alunos adolescentes que passei a ter ali por volta do ano 2000.
Foi lá, no Orkut, que aprendi a rir desbragadamente teclando KKKKK! Ou sarcasticamente teclando he, he he he! Não é nada não é nada…não é nada.
Estreei sim, logo logo e com intenções mais sérias, ali por volta de 2001, bem besta até, quase arrogante, escrevendo para um site jornalístico chamado ‘Observatório da Imprensa’, abrindo de saída a minha até hoje solitária briga com o neo-racista Ali Kamel.
Ele , o super super editor-chefe do jornalão mais jornalão do país (O ‘Grobo’) nem ligou, claro. Eu blogueiro formiguinha, não faço nem cosquinha nos monstros sagrados de nosso jornalismo marron. Mas, rato que ruje, esbravejo com eles. Mando-os ao inferno ou a puta que os pariu com todo o direito que a rede mundial de computadores me faculta.
O passo seguinte foi me cadastrar no site colaborativo Overmundo, a minha grande escola em redes sociais – vivo dizendo isto por aí – no aprendizado e nas experiências do traquejo de como escrever para a Internet. O conceito ‘site colaborativo’, o do feedback dos leitores sendo repassado para o autor ali, quase em tempo real, para quem não sabe, está na raiz do Facebook, a mais bem sucedida experiência neste formato. Pois é. O Overmundo era um Facebook assim, mais miudinho, um Overmundinho virtual.
Armei então neste passo a passo, munido destas experiências todas a minha rede no Facebook do Zucka, usando o que eu chamo de ‘estratégia da aranha’. E cá entre nós, sou do tempo em que ao se cadastrar no Facebook, o próprio Zucka nos recepcionava numa mensagem bem baba ovo, se oferecendo como ‘primeiro amigo’ nosso, como os donos de quitanda de antigamente, namorando clientes. Pode?
Prospectei assim (como um Zucka do bem), meticulosamente os interesses da minha rede de amigos – díspare e dicotomica com bem apetece ao Tio – separando-os por grupos ou páginas. Abri assim as seguintes panelinhas virtuais, umas lacradas para estranhos, outras escancaradas ao que der e vier.
A constatação mais inquietante que fiz, manobrando, administrando grupos e páginas no Facebook (já rolava isto no Overmundo), foi perceber o quanto os nós da rede são cegos, o quanto os grupos de amigos em redes sociais são inconciliáveis entre si. A intolerancia entre grupos talvez seja o traço mais claro da Internet. Seria uma coisa atávica de nossa humanidade? Sei lá. Bem. Os grupos e páginas criados – abro aqui em primeira mão- foram:
- Das GröBe Kulture Seminar – Uma maravilhosa galera de artistas, ligada á antropologia e temas afins. Maioria branca.
- Racismo ao Contrário- Eletrizante – e desgastante- experiência quase esquizofrênica, digna de um Franz Fanon. Maioria negra (os brancos se mandaram)
- Bantu Society – Uma não menos maravilhosa galera interessada no debate da herança bantu na Diáspora negra. Maioria negra.
- Grupo Vissungo – Uma página específica grupo musical, mas completamente invadida por ativistas do Movimento negro e suas idossincrasias. Maioria negra
- Luanda beira Bahia- Gentileza para com a amiga Cibele Verani, antropóloga com enorme experiência em Angola, que fazia comentários tão longos nos posts que lia do Tio, que me fez sugerir – e abrir para ela – uma página exclusiva. Esta é, aliás, a página mais mista entre todas que cometi.
Seguindo em frente em nossa retrospectiva então, o nosso papo ciberimagético, como chicotinho queimado será ora quente ora frio. No quente os segredinhos típicos da peraltice do Tio: O must é a franqueza ácida e provocativa que como papel ‘pega moscas’ captura os incautos falastrões em toscas armadilhas inseridas nos comentários. Depois é só tocar nas feridas certas, mais abertas de cada um, pegos todos pela palavra.
Segredo revelado, é delas – destas teias virtuais urdidas com a cumplicidade dos melhores e adorados amigos que amealhei na rede que, malandramente, o Tio rumina, pesquisa, amadurece e extrai seus temas mais pertinentes ou mesmos polêmicos, como um fofoqueiro meticuloso extrai os seus babados…quer dizer… as suas franchas, já que rede que é rede não tem babados nem firulas.
É já caído assim, dependurado, agarrado nestas franchas frouxas, porém embaraçadas neste ‘Tamo Junto’ viciante, que o Tio voltará no próximo capítulo desta curta série , cada panelinha virtual revelada numa mumunha, numa ultrasonografia das inteligências e imbecilidades todas – e as muitas intolerâncias – que a rede inocentemente, coitada, anda espargindo por aí.
É aquela história: A Rede é virgem, mas vive ainda na selva mais anárquica deste mundo. O Tio tenta apenas ser um bom garimpeiro-caçador.
Mas isto é papo para encher o post #02.
Spírito Santo
Janeiro 2012

Reblogged this on Mamapress.
mamapress disse isso em 10/02/2012 às 18:12
Valeu, Parceirão!
Spirito Santo disse isso em 10/02/2012 às 18:30