Bota Abaixo século 21: Pereira Passos e sua herança maldita

Creative Commons LicenseATENÇÃO:Todo o conteúdo deste blog está assegurado sob uma licença Criative Commons.

Foto Spirito Santo- 27 Janeiro 2012

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O Pereira Passos, prefeito da cidade do Rio de Janeiro, capital federal em 1904, aquele que decidiu que o centro colonial da cidade deveria ser demolido, deve ter dito para os críticos e desafetos mais impertinentes (como escritor Lima Barreto), dando os ombros:

_”Não se faz omeletes sem quebrar ovos!”

(É que os ovos não eram os dele.)

Para fazer o carro chefe de sua ‘Reforma Urbana’, o boulevard parisiense da Av. Central (hoje Av. Rio Branco) como se sabe o alcaide escorraçou a população que morava no local (por culpa é claro da falta de um plano diretor, uma reforma sim, mas num sentido social do termo, um sentido humanista completamente diverso daquele que ele adotou).

O seu slogan era: “O Rio civiliza-se!”. Só que apenas para alguns.

Pois sim. Se civilização era isto, o que seria barbárie? Vejam bem. A remoção da população do Pinheirinho em São José dos Campos neste 2012 foi bem parecida com o ‘Bota Abaixo’ dele. As razões também foram bem parecidas e tão execráveis quanto.

Como o Alckmin o Pereira Passos devia ter sido preso num Bangu Um destes aí. Depois de muito apanhar na cara.

Já contei aqui como foi esta história e quem mais quis se informar já está careca de saber. O centro colonial, antigo perímetro urbano da velha Corte do Rio de Janeiro, tinha o seu coração cultural e emocional cravado num emaranhado de habitações coletivas, precárias, imagino eu que assim como uma antiga Bombaim, uma Marakesh muvucada. Pois bem: nesta muvuca moravam algumas centenas, talvez milhares de pessoas.

Era a selvagem urbe insalubre, única opção possível àquelas pessoas, ex – ainda – quase escravas largadas ao Deus dará, uma urbe de miseráveis embaralhada, modelito urbanístico provável das intrincadas malhas de vielas e cubículos de nossas favelas atuais que, com a reforma dele, o alcaide do mal, aí sim explodiram de vez, se expandindo como uma cidade cancerosa no ápice de sua metástase. Violenta, nervosa, uma urbe que os sucessores de Passos sonham agora – tolinhos! – ‘pacificar’.

Quem pariu Mateus? quem começou a guerra? A culpa foi deles, ora!

‘Reforma urbana’? Deviam ter dado outro nome. Urbe é lugar organizado, planejado para todo tipo de gente morar bem e em harmonia. ‘Urbe privê’, só para alguns devia ter outro nome.

Basta olhar para os cintilantes arabescos de ouro que bordam a fachada do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, hoje reformado para voltar a ser tal qual era no tempo da inauguração da afrancesada Avenida. Olhem para o alto e vejam aquela águia dourada gigantesca, imponente encimando tudo e reflitam: É ou não uma demonstração exacerbada e cruel de uma quase infame ostentação colonial?

Mereciam porrada.

Varreram para o lixo da periferia os pobres e desvalidos (negros, muitos negros ex-escravos e uns gatos pingados brancos desvalidos) para o que são os favelões de hoje em dia e puseram no lugar os infames monumentos de sua empáfia burguesa.

Espantaram os habitantes da urbe desurbanizada à tiros pauladas, chutes e pontapés. Passaram o trator nas casas deles, demoliram os morros do Castelo e de Santo Antônio (onde também moravam os pobres) e gritaram;

_”Ponham-se na rua! Escafedam-se! Morram!”

Os ovos eram os pobres e  no que deu isto tudo vocês podem ver aí, com os complexos de favelas a exigirem esta pacificação improvável, nesta guerra sem fim.

E olhem que disto eu sabia. O pior de tudo ainda estava ainda por saber.

Este centro do Rio reformado por Pereira Passos desmorona a olhos vistos como num filme de terror.

Bem…leiam a matéria aí em baixo e se apavorem também como eu. Brrr!Lembrei daquele filme Poltergeist, no qual um cemitério indígena aterrado para a construção de um loteamento de classe média se dissolveu em lama, sugando tudo que sobre si foi erigido.

Bondes virados, mortos, favelas que desmoronam, mortos, prédios que se esfarinham como castelos de areia e mais mortos. Temo pelo Rio de Janeiro. Juro. Já contei aqui este meu pesadelo: E se já estiver em curso a temida vingança das forças do desconhecido e o céu-kalunga dos ex escravos mortos insepultos desabar sobre nossas cabeças, nos sugando a todos para o inferno?

E se for mesmo verdade que a ‘Reforma Urbana‘ de Pereira Passos tiver sido mesmo amaldiçoada, espraguejada por uma bruxa quimbandista de santo extra forte?

Brrr!

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“Avenida Treze de Maio: região de lagoas e mangues no passado

“Por O Globo (granderio@oglobo.com.br) | Agência O Globo

RIO – Por baixo do solo aparentemente estável da Cinelândia corre a história de uma cidade repleta de opções erradas de ocupação, com aterros que engoliram ossadas de gados inteiros e, no caso do Teatro Municipal, até vestígios de barcos. A Avenida Treze de Maio é uma das que escondem um passeio mais úmido. Parte dela era uma estreita faixa de terra que ligava o Centro à Lapa. Outra fração estava embaixo d’água e atendia por Lagoa de Santo Antônio.

O desabamento dos três edifícios da avenida, na noite de quarta-feira, pode não ter relação alguma com suas bases. Ainda assim, para o historiador Nireu Cavalcanti, professor da pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFF, serve como reflexão de como se deu a expansão da cidade.

Seria mais lógico que o Rio, localizado numa região muito baixa, fosse uma cidade de canais, como Amsterdã – compara. – Em vez disso, optamos por cobrir todas as lagoas e mangues, o que ocorreu, por exemplo, na Cinelândia.

Na década de 1970, durante a construção do metrô, os engenheiros responsáveis pela obra encontraram carcaças de barcos que seriam do século XVII, quando as chuvas faziam os lagos da região receberem água e objetos da Baía de Guanabara. Sob a estação da Glória, outra descoberta digna de nota: a ossada completa de uma baleia. O regime militar, porém, proibiu a divulgação dos achados, sob o temor de que o empreendimento fosse convertido em sítio arqueológico.

Heranças do tempo em que o Centro era um complexo lacustre, de solo frágil e pantanoso. A região coberta por escombros hoje, há três séculos margeava a Lagoa de Santo Antônio. Seguir aquele caminho levava até uma outra lagoa, a do Boqueirão, que se esparramava por uma região hoje dividida entre o Passeio Público e a Praça dos Arcos da Lapa.
- O Boqueirão recebia água da chuva que escoava dos morros de Santo Antônio e do Castelo, enchendo até se unir à Lagoa de Santo Antônio – lembra Nireu.

Na região surgiu a expressão “Cidade Maravilhosa”.

No século XVIII, as lagoas foram aterradas e sua água escoada para a Rua da Uruguaiana – cujo nome original, muito apropriadamente, era Rua da Vala. Surgiam, assim, dois largos, o da Carioca e a atual Cinelândia. A estrada responsável por sua ligação é, hoje, a Treze de Maio.

A primeira edificação de grande porte construída nos arredores foi o Teatro Municipal. Para sustentar uma estrutura tão pesada, foi necessário o uso de estacas de madeiras, que afundavam além do aterro e da lama, até encontrarem um terreno firme.

Arranha-céus como o Edifício Liberdade, de 20 andares, vieram na primeira metade do século passado. Mesma época em que as escavações do metrô descobriram, entre resquícios de barcos e baleias, bois mortos, jogados ali pelo antigo matadouro da cidade, instalado na Rua Santa Luzia até por volta de 1740.

A herança arqueológica e seu mau cheiro, porém, não foram o principal legado daquela região do Centro. Vale lembrar que foi por ali que nasceu o apelido Cidade Maravilhosa. Quando, exatamente, ninguém arrisca dizer. Mas foi provocado pelas reformas de Pereira Passos, cuja vitrine foi a criação da Avenida Central – hoje Rio Branco – e o ápice, a demolição do Morro do Castelo, encerrada em 1922.”

(Abaixo, demolição do prédio da Ordem  3ª da Penitência durante a Reforma Urbana de Pereira Passos em novembro de 1906.)

~ por Spirito Santo em 27/01/2012.

3 Respostas to “Bota Abaixo século 21: Pereira Passos e sua herança maldita”

  1. pois é, sempre que eu descubro algo revelador e compartilho com meu velho, ele diz: “isso sempre foi assim, meu filho.” a história se repete como se fosse um roteiro daqueles filmes de terror em sequência.
    essas denúncias têm que abrir os olhos de alguém. não é possível que ninguém perceba isso! abraço

  2. rua 13 de maio prédio n°13 liberdade, um sobrevivente sem um aranhão um negro nascido no dia 13 de fevereiro,7 corpos não foram encontrados!

  3. ESpero que a maldição do Pereira Passos aconteça. A natureza em mais força que os. Leve o tempo que for ela é implacável!

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