A Lama do Valongo e a antropologia do Caô / Post #02

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(Leia post anterior da série neste link)

Toni Malau século 18 - Metropolitan Museun New York

Afinal, arqueologia de que, de quem e para quem?

Post “freio de arrumação”(antes de falar, conheça um pouco mais o Porto do Valongo – e sua arqueologia – sem nenhum caco de maravilha.)

…Nos fundos da rua nova de São Joaquim e fundos das casas novamente edificadas nos cajueiros há um pântano que além de nocivo a saúde pública ainda de mais a mais é cemitério de cadáveres de negros novos, pela ambição dos homens de Valongo que para ali os lançam a fim de se forrarem a despesa de pagar cemitério.

[Desses] males vem da existência do dito [lago], um a perda do terreno, outro a facilidade de ali se conservarem cadáveres, e imundícies com que se [imputa] o bairro, e dele toda a cidade. “

(Paulo Fernandes Vianna, Desembargador e ouvidor da Corte, nomeado intendente geral de Polícia da Corte pelo alvará de 10 de maio de 1808. Leia texto completo aqui)

(Leia aqui o post #01 da série)

O documento do desembargador Paulo Fernandes Vianna é muito claro no que se propõe: ser a letra fria da lei: a expressão ‘cemitério‘ era utilizada naquela época de forma quase que eufemística. É bastante provável que nunca tenha existido por ali naquela área, na verdade, apenas um ‘cemitério dos pretos novos‘ (o do Largo de Santa Rita, depois transferido par a Rua Pedro Ernesto no que é hoje a Gamboa).

O que ocorreu – e o funcionário da Corte afirma cabalmente – foi que, pelo menos um lixão de carne humana, a céu aberto surgiu, insidiosamente, da prática, presumo, tornada comum na Corte do Rio dos senhores de escravos acharem mui natural e civilizado lançar cadáveres de escravos mortos por ali, num pântano, ao deus-dará.

A desconstrução da verdade acerca das reais circunstâncias em que se dava o sepultamento destes cadáveres, a adoção de panos quentes semânticos – uma prática brasileira por excelência – foi sendo paulatinamente criada por historiadores, cronistas e pesquisadores, negros e brancos, que acabaram por montar uma versão atual, mais palatável (argh!) de que aqueles teriam sido ‘campos santos” reais.

Ali era, isto sim, o sítio da desarqueologia do que foi o negro desembarcado aqui. A desumanização, o apagão total e final dele (como o de Ngonzo Dia Kimbangu, meu guru fantasma) desprovido até das fraldas esfarrapadas de sua alma, a qual agora querem atribuir a alma de outro. Tal é a “política” dos que querem me fazer aceitar o borrão oportunista como verdade histórica.

Aceito não.

…Em primeiro lugar, há falta de informação e de educação formal sobre o tema. Indígenas, africanos e pobres são raramente mencionados nas lições de História e, na maioria das vezes, as poucas referências são negativas, ao serem representados como preguiçosos, uma massa de servos atrasados incapazes de alcançar a civilização. “

(”Os desafios da destruição e conservação do patrimônio cultural no Brasil – Pedro Paulo A. Funari )

Outro aspecto crucial nesta discussão – cujo tema é aquele que mais mobiliza as pesquisas do Tio – é a necessidade de se estudar, profundamente a etnicidade destes escravos mortos e seus ossos, referencia importante para se desmontar um conceito chave deste racismo acadêmico institucional a que o Tio tanto se refere: O desconstrutivismo racista nas ciências sociais do Brasil, a falsa ideia de que houve uma diluição da cultura africana desembarcada no Brasil por culpa de uma improvável pulverização das zonas de captura de escravos, que estariam espalhadas por uma imprecisa e vasta costa atlântica africana.

Ora, nem me preocupo mais em gastar lábia e tempo com argumentos mais definitivos sobre isto com esta gente. Esta conversa de espertos doutos e espertinhos militantes do atraso é farsa velha e sabida. Sem pé nem cabeça. Não engana mais ninguém. Uns seguem o dinheiro, correndo atrás do que é modismo recorrente em editais que financiam pesquisas acadêmicas em geral. Outros são mesmo ignorantes racistas de plantão. Crias todos eles – por interação ou osmose – desta universidade excludente que se edificou no Brasil sobre os ossos dos mais vulneráveis.

…O grande problema é (como mostra a formação dessa arqueologia): não existe no Brasil a especialidade “Arquelogia de sítios afro-brasileiros’, ou algo do gênero. isto deveria estar dentro de arqueologia Histórica, mas o fato é que eles só sabem juntar caquinho de cerâmica portuguesa, inglesa, chinesa, etc. não existe nenhuma preparação para lidar com cultura material afro-brasileira.

(Maria Paula Adinolfi – antropóloga, pelo facebook)

Sempre foram, exatamente estas as minhas ponderações. Acrescentaria que a arqueologia do Brasil – numa dedicação excessiva, quase escapista – se fixa muito também na prospecção de sítios pré colombianos, estas coisas ligadas às nossas populações indígenas mais remotas. As razões disto, destas impropriedades técnicas ocorrerem com sítios afro brasileiros são diversas, mas o descaso e a subestimação por estas culturas (com exceção das de matrizes afro ocidentais, yoruba), basicamente é o que fica mais evidente.

“As tradições de Angola claramente predominaram (no sítio arqueológico de Palmares) . …O ki-lombo, uma sociedade a qual qualquer homem podia pertencer por meio do treinamento e iniciação, servia àquele propósito. Encontra-se, pois, uma instituição designada para a guerra, a qual podia incorporar grande número de estranhos desprovidos de ancestrais comuns a um poderoso culto guerreiro…Uma figura fundamental no ki-lombo era o nganga a zumba, um sacerdote cuja responsabilidade era tratar com o espírito dos mortos .

O ganga zumba de Palmares era provavelmente o detentor desse cargo (E o tio já explanou isto, minuciosamente aqui, neste link)….Devemos considerar os aspectos africanos de Palmares não como “sobreviventes” desincorporados de seu meio cultural original, mas como um uso muito mais dinâmico e talvez intencional de uma instituição africana na forma especificamente designada para criar uma comunhão entre povos de origens díspares e fornecer uma organização militar eficiente. Certamente os escravos fugidos do Brasil adequam-se a essa descrição”

(A República de Palmares e a arqueologia da Serra da Barriga”- Pedro Paulo A. Funari)

“…Apesar da sofisticação dos modelos empregados para discutir a arqueologia de Palmares, tem sido mais recentemente reconhecido que a escassez dos dados empíricos recuperados nas duas estações de campo (duas semanas em 1992 e uma semana em 1993), que consistiram no total de 2488 artefatos recuperados de 14 sítios (Funari 1999), incluindo sítios que apresentaram somente cerâmica pré-colonial e outros somente material do século XIX, anacrônicos, portanto, com o período de conformação e ocupação do quilombo (cerca de 1605 a 1694), torna essas interpretações muito frágeis.

(“Arqueologia histórica no Brasil. Uma revisão dos últimos 20 anos” – Luís Cláudio Pereira Symanski)

O caso da Serra da Barriga é, pois, emblemático. Imaginem o quanto de resquícios e vestígios materiais não ficaram por lá enterrados nos quase cem anos de ocupação daquelas terras por gente bakongo.

…Desde a década de 1970, começou-se a suspeitar que o famoso quilombo, que resistiu por quase um século ao sistema escravista, se localizava no interior do Estado de Alagoas, na Serra da Barriga. Ativistas negros encontraram restos de superfície na colina e conseguiram, depois de uma campanha sem precedentes, fazer com que as autoridades declarassem a área património nacional, em 1985.

Contudo, devido ao pouco caso do establishment arqueológico,controlado por forças conservadoras ligados ao regime militar (Funari 1995b: 238-245), o sítio ficou nas mãos das autoridades locais. O resultado foi o uso de tractores para nivelar uma parte importante do sítio, o que permitiu que as autoridades promovessem festas e, desta forma, conseguissem o apoio eleitoral.

(”Os desafios da destruição e conservação do patrimônio cultural no Brasil - Pedro Paulo A. Funari ) 

O trabalho de arqueólogos “do bem” como Pedro Paulo A. Funari, Luís Cláudio P. Symanski e Scott Allen, no entanto, por culpa deste mesmo descaso geral (que, como se vê agora, se perpetuou muito além do tempo da ditadura militar) será bem menos bem sucedido do que poderia ser.

Em termos mais diretos, Pedro Paulo Funari – vale repetir – afirma textualmente que, em certa época (presumo que tenha sido ali por volta de 1988), o Governo Federal e prefeituras da área da Serra da Barriga, sob a coordenação do MinC e da Fundação Palmares mandaram (ou autorizaram) terraplanar, afim de que se instalassem palanques de discursos e barracas de bugigangas cívicas, a área central do futuro sítio arqueológico, onde supostamente teria estado localizada a chamada Cerca Real do Macaco”, quartel general do Kilombo.

Os tratores e escavadeiras, pois, desgraçadamente revolveram e destruíram a maior parte dos vestígios do Kilombo de Palmares, que devem ter servido de aterro para sabe-se lá que obras das prefeituras locais. Sobraram os vestígios de camadas inferiores, de épocas anteriores ao século 18, em geral sítios de índios parentes dos tupinambás, de época pré colombiana até.

Estatuinha (Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri)

…Se a mão livre do negro
Tocar na argila
O que é que vai nascer?
Vai nascer pote pra gente beber
Nasce panela pra gente comer
Nasce vasilha, nasce parede
Nasce estatuinha bonita de se ver..
.

Vocês sabiam, por exemplo que entre os poucos vestígios que restaram na terra revolvida de Palmares pelas escavadeiras foram achadas estranhas estatuetas de Santo Antônio? E vejam: não encontrei esta evidencia em citações ou textos de ninguém não, nem mesmo em Funari ou Symanski. Os mais atentos seguidores sabem que o Tio, modéstia à parte, já andou pesquisando – e falando por aqui – disto aí.

O fato é que em Angola, ao tempo da sacerdotisa ‘antonionistaKimpa Nvita (1702, mesma época dos tempos finais do Kilombo de Palmares) foram encontradas, no norte de Angola estatuinhas, exatamente como estas aí de Palmares, que lá em Angola se chamavam Toni Malau“? Pois é. Fato cabal e quase inquestionável. Tenho uma coleção de fotos destes amuletos em alguns lugar do meu HD (um deles – da coleção do The Metropolitam Museun of Art –  ilustra esta matéria).

Considero, por conta desta simples evidência, completamente impossível entender a história do Kilombo de Palmares – e outras histórias do negro do Brasil até mais recentes –  sem esta interface com a história angolana dos século 17 e 18, tendo as guerras anti colonialistas de Nzinga Mbandi e do seu parente Rei do Kongo D.Antônio Nkanga Nvita – além da posterior rebelião ‘afro antonionista‘ de Kimpa Nvita, como eixo central.

Estas ‘estatuinhas‘ de ‘Toni Malau’ aliás (coincidentemente remetendo a gente àquela música do Edu Lobo e do Guarnieri para a peça teatral ‘Ganga Zumba’) são – afirmo! – o elo perdido entre o acima citado  Antonionismo (‘afro catolicismo’) em voga no Reino do Kongo, à época de Kimpae a dinastia de Nkanga a Nzumbi (“Zumbis‘) que governava Palmares à época do Zumbi clássico, o mais recorrente que morreu decapitado em Recife 1695 (exatamente como morreu 30 anos antes o seu conterrâneo  D. Antônio Nkanga Nvita na batalha de Mbwíla, Angolaem 1665) .

África daqui que ninguém quer ver nem pintada.

Pois é. Nenhum machado de Xangô. O único machado encontrado na área de Palmares, se soube logo depois, era um vestígio de práticas agrícolas dos índios tupinambás que também habitaram aquelas terras, deixados numa camada de terra abaixo daquelas arrasadas pelos tratores das comemorações oficiais por Zumbi.

…Para o caso de Chapada dos Guimarães, a mais clara evidência da manutenção de sistemas de crenças de base africana são os signos cruciformes incisos em apliques circulares presentes nos vasilhames cerâmicos (figura 4). Essa representação de uma cruz, ou de um asterisco, dentro de um círculo tem sido associada com um cosmograma Bacongo (veja matéria do Tio a respeito neste link) por diversos arqueólogos que trabalham em contextos afro-americanos (Ferguson, 1992:110-116, 1999; Sanford, 1996:104-106; Russel, 1997:64; Wilkie, 1999:274, 2000:20-21; Young, 1997:22).

…Os Bacongo são um povo que habita o norte de Angola e o sul da República Popular do Congo, sendo incluídos, no Brasil, na nação de escravos africanos denominada Congo (Karasch, 2000:54). De acordo com Thompson (1983:109), entre os Bacongo esse signo representa os quatro momentos do sol, no qual a divindade suprema, Nzambi Mpungu, é referenciada no topo, o mundo dos mortos, Kalunga, na base, enquanto o traço horizontal representa a água, vista como a divisão entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. A circunferência em volta da cruz, por sua vez, representa a reencarnação. Para o caso dos sítios de Chapada dos Guimarães, vasilhames cerâmicos contendo apliques com esse signo aparecem em contextos com datação média iniciando em 1836, o que tem uma forte correlação com o período em que os escravos Congo estavam se tornando o grupo africano majoritário na região, a partir de 1830…”

(“O domínio da tática – Práticas religiosas de origem africana nos engenhos de Chapada dos Guimarães (MT) Vestígios – Luís Cláudio P. Symanski )

Eu não disse? Eu não disse? Eu não disse?

Quase um bidu sem querer sê-lo o Tio já havia cantado também em seu livro e em posts espalhados por aí , a pedra desta relação entre a cruz dos africanos no Brasil e a cosmologia dos bakongo, do Reino do Kongo no século 18. A este propósito – citando inclusive a fonte original de todos os acadêmicos mais atentos que é o filósofo congolês (bakongo) Fu Kiau Bunseki - o Tio intuiu bem o espírito da coisa (e lembrem-se. Titio é um douto laico, um leigo orgulhoso e assumido, como se diz por aí).

Mesmo assim e contudo, achar esta referencia, saber que esta linha de pensamento já tinha, embora mínimo, algum respaldo acadêmico no Brasil, bem antes do Tio isto aí intuir, é luz no meio do túnel, um fato bastante animador.

Nesta mesma linha de raciocínio – que vai se tornando cada vez mais pertinente – numa conversa franca e densa com o diligente Cláudio Honorato, historiador coordenador de pesquisa histórica do Memorial dos Pretos Novos, chamei a atenção para o significado candente da lista no livro de óbitos da Freguesia de Santa Rita (a antiga paróquia daquelas imediações do Valongo), impressa ali mesmo, num grande mural na sede do memorial, bem em frente aos ossos, com os nomes de escravos que constavam como enterrados no cemitério da paróquia. Os nomes estavam ali, enormes, gritando de onde vieram afinal:

Albina de nação Conga”

Antonio cabinada” (de Cabinda)

Antonio Sacanhema”

Domingos Bengo”

Felipe Angola

Francisca Benama”

Francisco Calabar”

Francisco Camundongo”

João Congo”

Joaquim Congo”

José Congo”

José de Benguela”

Gabriel Mixicongo” (de ‘muxicongo’)

Manoel Congo”

Manoel de nação Mojolo” (de ‘Monjolo’)

Maria da nação Moçambique”

Maximilano de nação Benguela”

Tomás de nação Cabinda”

Numa rápida olhada na lista total de 52 nomes, pude constatar que estes 18 citados eram os únicos africanos (identificados, como de praxe pela citação do local de origem). Há na lista, contudo mais 33 nomes sem nação definida, que eram em sua esmagadora maioria, como se pode facilmente supor, ‘crioulos‘ de ascendência relacionada às nações da maioria dos africanos nominalmente citados, entre um ou outro ‘pardo‘, com a ascendência provável também do mesmo modo relacionada – como sempre insistimos em ressaltar – às etnias do antigo Reino do Kongo (mais ou menos o território da Angola atual) e a costa de Moçambique.

Nenhum africano nagô ou jêje, ou mesmo muçulmano para contar qualquer história remotamente ligada ao candomblé (que aliás nem existia ainda como tal nesta época, início do século 19) . Que um ou outro ‘sudanês‘ pudesse haver por ali é lícito se supor, mas apenas no campo das raras exceções à regra, fora da lógica do fluxo do tráfico de escravos da época, localizado em áreas africanas de cultura predominantemente bantu.

Mesmo nos termos das modernas e precisas técnicas estatísticas atuais, considerando-se esta amostragem bem significativa (a Freguesia de Santa Rita, área de intenso trânsito comercial na época, era bem propícia a este tipo de pesquisa por amostragem), considerando-se também em conjunto os demais cemitérios da Corte (citados pelo mesmo Cláudio Honorato em sua excelente tese que pincei na internet), se poderia dizer, com alguma certeza que a proporção de indivíduos de etnia bantu era quase de 100% por esta ocasião, situação que só se altera, assim mesmo irrisoriamente depois de 1835 (após a segunda Revolta dos Malês) pelo menos, com a chegada de um pequeno grupo de baianos ex-escravos (libertos) ou nascidos livres (a maioria de ascendência yoruba e ‘jêje‘), que só se concentraram por ali, na área da Freguesia de Sant’anna (Campo de Sant’anna e Praça Onze atuais, até as imediações da também atual Praça da Bandeira) já na segunda metade do 19.

É muito fácil se intuir, portanto e depois de constada a impropriedade desta tese, que nunca houve aqui no Brasil, como afirma, insinua ou sugere certa academia (quase toda ela, na verdade) um ‘melt pot do crioulo doido’, um caldeirão de micro culturas primitivas ‘todas juntas e misturadas’, entre as quais uma de suprema…‘pureza negro africana’ e de “maior grau de civilização” teria se sobressaído.

Me engana que eu gosto”. Não gosto. Nunca gostei. Nada mais falso e, considerando-se que eles sabem o que fazem, mentiroso. Não gosto mesmo desta negritude de fancaria, cheia de ‘caôs, caôs’.

Os ossos foram misturados, mas as culturas não. A cultura bantu daquelas pessoas se manteve íntegra por aqui.

Ora, basta pensar – e ler – a vasta bibliografia existente sobre o assunto com um pouco mais de senso critico ou menos preguiça. Na verdade – como o Tio demonstrou facilmente, ‘lendo‘ as letras garrafais daquele mural com aqueles poucos nomes de mortos enterrados da área do Valongo - basta apenas concluir o óbvio. Esta mistificação tão mal maquiada nas teses dos doutos é, no fundo no fundo (e nem tão fundo assim) a essência maquiavélica do mito da “Supremacia Nagô”, cujas funções ou finalidades ideológicas execráveis, jamais deveriam ser tomadas como palavra de fé pelos negros realmente conscientes de si e os anti racistas em geral.

Não é à toa que estas premissas falsas e recorrentes sobre as origens do negro do Brasil tanto agradam ao sistema que nos aparta entre negros ‘assim‘ e negros ‘assados‘ com ‘brancos‘ mandando – tanto que o mito da supremacia de uns virou a versão oficial da cultura do negro do Brasil.

Esta posição ‘supremacista‘, a adoção desta cultura carnavalizada, espetacularizada, de pompas de gibi, sacerdotisas de branco rodando baianas para a ‘branca‘ autoridade e o inglês verem, defendida por alguns falsos ingênuos como sendo uma tática de afirmação… ‘política‘ dos negros do Brasil, já deu o que tinha que dar. É que ela – desculpem repetir – nos atravanca o caminho, trava a nossa evolução, nos exclui da modernidade, nos acorrenta a um passado tão indesejável quanto anacrônico.

Mantêm o cais de nossa chegada soterrado pelo cais da dondoca imperatriz.

Afinal um passado de deuses inventados, de história em quadrinhos e mistificações religiosas fantásticas interessa, exatamente a quem?

As mães de santo de candomblé estão certas em sua santa ingenuidade antropológica. Os santos é que são outros…ou estes dizem que são estão errados.

E não se arvorem os mais tolos em me atacar com pedrinhas, ‘otás‘ genéricos e amuletos de plástico do Mercadão de Madureira: Não me atingem. Digo isto com todo respeito que tenho à religião tanto de uns quanto de outros, cariocas e troianos, gregos e baianos. Digo por que posso dizer, sou livre para falar, escrever e pensar. Não sou pago para mentir e iludir.

Religião – quem quiser que reflita a respeito – nunca deu boa política. Nas mãos dos pastores errados levam as ovelhas todas para o buraco dos quintos dos infernos. Vivo dizendo isto por aí.

Do mesmo modo – frisemos – qualquer arqueologia – ou antropologia, ou historiografia, por suposto – que se preze que se queira digna do nome, precisa trabalhar melhor com os dados desta etnicidade real e evidente dos negros do Brasil que são, sob qualquer ponto de vista, tecnicamente cabais.

Senão, Arqueologia para quê?

(Bem, podemos retornar então, mais adiante às controversas cavucações do Valongo. Vou ali ler mais e volto já.)

Spirito Santo

maio 2012

Siga a série  neste link  e neste outro)

Spirito Santo

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~ por Spirito Santo em 27/05/2012.

9 Respostas to “A Lama do Valongo e a antropologia do Caô / Post #02”

  1. Spirito Santo, creio que você já deve conhecer o livro “À Flor da Terra: o cemitério dos pretos novos no Rio de Janeiro”, do Júlio César Medeiros da Silva Pereira (logo abaixo, o link com acesso gratuito). De qualquer forma , deixo a referência para, se for o caso, uma eventual pequena contribuição às suas leituras e aos demais leitores do blog. Sigo te acompanhando!

    http://www0.rio.rj.gov.br/arquivo/pdf/obras_premiadas_pdf/livro_cemiterio.pdf

    Abração,

    Pablo

  2. Pablo,

    Na verdade conheço o livro, trechos dele pinçados aqui e ali na rápida pesquisa que fiz sobre o tema agora mesmo. Não tinha o livro inteiro (vou linká-lo na próxima matéria na qual pretendo, exatamente esmiuçar as escavações antropológicas em si)e te agradeço muito disponibilizá-lo)

    O livro é muito elucidativo. Por ele dá para se verificar que a análise que fizeram dos ossos da casa da Merced foi bem superficial e rasa de conteúdo, com referencias genéricas sobre a etnicidade daquelas pessoas. Vou utilizar – e chamo a atenção para isto – este trecho aqui do livro do Júlio que dá bem a medida do descaso arqueológico a que me refiro nesta segunda matéria:

    “…Estive no IAB e lá entrevistei os responsáveis pela pesquisa arqueológica, com o intuito de buscar estas informações, mas o que obtive foram as de que não fora feita uma pesquisa aprofundada e sim um “salvamento” e que, por conta disto, não havia mais nada a acrescentar ao que já fora publicado no folder da exposição dos Pretos Novos, já citado neste livro. Disseram precisar de verbas e recursos para esta finalidade. Entretanto, enquanto nada mais se faz neste sentido, ao fim e ao cabo, somos obrigados a agradecer à musa Clio, que não pretende ser rainha, mas também não é mais serva. É livre e escolhe os seus companheiros livremente 88 e, mais, é capaz de continuar atuante quer tenha parceria ou não.”

    Abs

  3. O Museu dedicado ao cemiterio dos pretos novos esta praticamente abandonado,de acordo com documentos da bibliocteca nacional foram enterrados cerca de 53.000 pretos novos na regiao.

  4. Daniel,

    Importantíssimo este dado. Segundo os relatos que eu li e ouvi, não passavam de poucos milhares, entre 2.000 e 6.000. Impressionante.

  5. É. Eu estive lá. Como disse na matéria #01 da série, conheço a dona da casa e acompanhei a descoberta em 1996 pois trabalhava num centro cultural ao lado. Estive lá na semana passada e a própria dona me falou que as pesquisas nunca avançaram e estão paradas há mais de 20 anos. Contudo ela e um equipe de voluntários mantêm o museu aberto e funcionando. Esperam que as obras do ‘Porto Maravilha’ e as novas escavações estimulem alguma coisa.

  6. Prezados Amigos,
    Boa noite, cabe salientar que em 2011 as pesquisas foram reiniciadas após 12 anos de abandono. Convido a todos para uma nova visita ao Instituto Pretos Novos para conhecerem os novos dados das pesquisas. Realmente, até então muito pouco tinha sido revelado, mas hoje há um pouco mais de informação, inclusive o tamanho da necrópole e como os corpos eram inumados. Terei o maior prazer de receber vocês e juntos vamos contruir esse conhecimento. Sobre a religião, apesar das poucas fontes disponíveis ainda não sabemos quais as religiões realmente eram praticadas pelos escravos, já que religiões são mutáveis por serem fruto de interações sociais. Além do mais, não há como saber de qual parte da África cada indivíduo veio e qual religião familiar era praticada. Só há a indicação do porto de saída. Cremos que podemos identificar algumas estruturas presentes nas religiões ainda praticadas, mas não será a religião original. A arqueologia da Diáspora Africana, nascida nos Estados Unidos ainda está engatinhando no Brasil, pela falta de um modelo próprio para o Brasil. Mas graças às últimas pesquisas, nos últimos anos, temos avançado. Gostaríamos inclusive de realizar mais pesquisas, mas ainda é bastante caro fazer arqueologia no Brasil. Estamos caminhando e gostaríamos de ter o apoio de todos, pois não é só a história dos afrodescedentes que estamos falando, mas sim de todos nós.
    Reinaldo Tavares – Arqueólogo do Instituto Pretos Novos

  7. Reinaldo,

    Bem vindo ao debate! Na verdade estive bem recentemente no IPN, conversei com o Cláudio Honorato e com a Merced que conheço desde o tempo da descoberta fortuita dos ossos.

    Reconheço e admiro muito o empenho da equipe aí do IPN (na verdade esta minha motivação para propor o debate desta questão tão pouco abordada por aí, foi exatamente a impressão de abandono (do poder público, não de vocês) a que me pareceu relegado o sítio, às vésperas de se descobrir mais alguns vestígios da mesma história soterrada no Valongo.

    Só discordaria de você no que diz respeito à suposta falta de elementos cabais, historiológicos, antropológicos, etc. acerca da cultura Brasil dos africanos desembarcados no Brasil (notadamente estes, aqui no Valongo). E note que friso Cultura, na intenção de esvaziar a importância excessiva que se dá à religião quando se trata de assuntos de negro no Brasil.

    A alegação desta ‘falta de elementos’ – assim como a antigamente alegada ‘diluição das culturas africanas ‘ na escravidão – não são mais alegações pertinentes nas ciências sociais. Isto é coisa de Brasil.

    Existem sim – só que fora daqui- dados especializadíssimos sobre a cultura – a religião inclusa – destas pessoas. Se nos atermos aos egressos da Angola atual, inquestionavelmente a esmagadora maioria entre os chegados ao Valongo, gente de cultura geral bakongo (Reino de Kongo e suas áreas de influencia) nos primeiros séculos do tráfico e ovimbundo (das imediações do antigo – e suposto- Reino do Benguela e suas adjacências) nos últimos séculos (a época crucial arqueologicamente associada aos ossos do ‘cemitério’ dos pretos novos), se nos atermos a ela os dados são incomensuráveis. Há muita bibliografia portuguesa, holandesa, angolana, francesa, inglesa, muita coisa mesmo. Basta fuçar e juntar os pontinhos.

    Existe sim, repito, material histórico, antropológico – e até arqueológico – em profusão na Europa, na África e também no Brasil (em menor quantidade, é certo) especificando com toda a convicção possível, a origem provável dos africanos que vieram, não só para o Brasil como para as Américas como um todo.

    Na verdade, Reinaldo o problema me parece que é muito mais um reflexo da baixa qualidade acadêmica e geral de nossas ciências sociais (a antropologia e arqueologia inclusas) do que um problema generalizado .

    Aliás, estas suas afirmações sugerindo a inexistência de dados e informações acerca destes temas, quando estes dados efetivamente existem e estão disponíveis a qualquer estudioso mais curioso ou interessado, considerando a sua especialíssima formação e o papel central que você representa nesta pesquisa, pode sugerir que estamos tendo sim problemas graves na formação de nossos doutores.

    Acho que este debate vai acabar mesmo é ajudando a esclarecer estes pontos ‘cabeludos’ – e controvertidos porque são ‘saia justa’ para doutores em geral – de nossa ainda corporativista e elitista relação com Educação e Cultura.

    Reconheço, pois, Reinaldo, o seu inestimável e meritório esforço profissional como arqueólogo responsável pelo IPN, mas acho que a seu relativo desconhecimento – que não é só seu, pois é problema recorrente em nossas universidades – sobre a profusão de estudos, teses e trabalhos científicos existentes fora do Brasil sobre o tema cultura africana – e religião – nas Américas, é uma evidência importante de que o renitente descaso de nossas ciências sociais, motivo principal e nosso presente debate, fez muitas vítimas.
    Não que eu também não seja uma delas.

    Abs

  8. Spirito Santo,
    Estou adorando esse papo, por isso desculpe-me se me alongo muito.
    Você tem razão, há muita coisa fora do Brasil sobre as religiões praticadas na África. Os etnólogos ( nome figurado de velhos antropólogos) fizeram descrições densas no século XX sobre algumas religiões africanas) No Brasil ficamos restritos a Bastide e Verge que preferiram estudar a religião dos povos do oeste africano. Investigar as religiões centro africanas que influenciam diretamente as práticas religiosas brasileiras é inclusive o meu projeto de pesquisa para o doutorado. O acervo que você viu no IPN não está abandonado, por mais que esteja meio vazio, ainda não há segurança suficiente para mostrar ainda muita coisa.Precisamos melhorar as condições de exposição do acervo. Estamos levantando verbas para a instalação de proteções mecânicas nas janelas de sondagens. Que só tem quatro meses de abertas. Creio que este mês já teremos uma boa notícia sobre esse assunto, já que o município sinalizou o interesse em custiar os “vidros”. Cabe salientar que o IPN sobrevive com poucos recursos advindos de voluntários e atualmente do ponto de cultura. A Merced insiste em não cobrar nada pela manutenção do espaço, tanto é que tudo lá é de graça (até o cafezinho). Não há sequer uma taxa mínima de R$ 1,00 para poder entrar no recinto, tomar água gelada, café, visitar a exposição – mesmo que precária – e assistir as oficinas, com direito a certificado.
    Voltando a falar sobre cultura africana acho muito pertinente o seu comentário, todos só falam em religião. Não tratam de questões sociais, políticas e econômicas. A África só tem interesse para aqueles que se interessam pelo passado da escravidão, só falam da África ancestral. Novos debates precisam ser travados. Venha para cá e nos ajude nestas questões. Vamos tratar do neo-colonialismo, do Pan-africanismo e dentro desse viés, quem sabe não sobra um espaço para antropologia e a arqueologia.
    Por favor, não temos o intuito de enganar ninguém, estamos aprendedo a cada dia e não cansamos de compartilhar aquilo que aprendemos, inclusive possíveis bobagens.
    Abraços,
    Reinaldo Tavares

  9. Reinaldo,

    Bacana o ensejo de poder debater e esclarecer alguma coisa. Vamos nos entendendo assim no passo a passo. Pena que a questão seja cabulosa demais, com os os agentes mais responsáveis e poderosos, para o bem ou para o mal, assim sempre encobertos pela penumbra da complexidade do tema.

    Nosso esforço conjunto, por menor que seja é mesmo uma boa chance de se salvar alguma coisa, mas penso que uma pressãozinha sobre os que podem fazer a coisa toda andar e se resolver, é uma missão também urgente. Depois será tarde demais.

    Aprendendo sobre isto neste ensejo de escrever estes posts vou percebendo que arqueologia é uma ciência que estuda vestígios efêmeros que, depois de descobertos (como coisas escritas na areia), se o vento os apaga, nunca mais se saberá o que estava escrito.

    Vamos seguindo.

    Abs

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