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	<title>Spirito Santo &#187; Literatura/Prosa</title>
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		<title>Spirito Santo &#187; Literatura/Prosa</title>
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		<title>2185 &#8211; O ano inesquecível</title>
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		<pubDate>Sun, 06 Dec 2009 15:26:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Spirito Santo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura/Prosa]]></category>
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(Agora é mesmo tarde. Não precisamos mais de Jules Verne, Isaac Asimov ou Arthur C. Clark para prever o nosso inevitável futuro. Acabo de receber, por meios que, honestamente, desconheço, uma mensagem alarmante, vinda do futuro. Veio de alguém que presumo ser meu descendente. Não posso me furtar a responsabilidade de partilhar esta [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=spiritosanto.wordpress.com&blog=858935&post=37&subd=spiritosanto&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><a rel="license" href="http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/2.5/br/"></a><a rel="license" href="http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/2.5/br/"></a></p>
<p><a rel="license" href="http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/2.5/br/"> <img style="border-width:0;" src="http://i.creativecommons.org/l/by-nc-nd/2.5/br/88x31.png" alt="Creative Commons License" /></a></p>
<p><a rel="license" href="http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/2.5/br/"> </a><a href="http://spiritosanto.files.wordpress.com/2009/12/aquecimento20global2.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-2758" title="aquecimento20global" src="http://spiritosanto.files.wordpress.com/2009/12/aquecimento20global2.jpg?w=497&#038;h=415" alt="" width="497" height="415" /></a></p>
<p>(Agora é mesmo tarde. Não precisamos mais de <a href="http://jverneportugal.no.sapo.pt/index.htm">Jules Verne</a>, <a href="http://www.asimovonline.com/">Isaac Asimov </a>ou <a href="http://www.clarkefoundation.org/">Arthur C. Clark </a>para prever o nosso inevitável futuro. Acabo de receber, por meios que, honestamente, desconheço, uma mensagem alarmante, vinda do futuro. Veio de alguém que presumo ser meu descendente. Não posso me furtar a responsabilidade de partilhar esta mensagem com vocês. Chamei-a de <strong>O Diário de &#8216;O Turvo</strong>&#8216;)</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-</p>
<p>Dizia ele:</p>
<p><em>“O </em><em>Airtrain passou pela minha janela agora, fazendo a vidraça trepidar levemente, num frêmito. Aquela mancha súbita, incômoda, era pior ainda à noite, quando a luz do letreiro da boate em frente tremeluzia, trôpego, me assustando como um fantasma fugidio.</em></p>
<p><em>Bobagem ainda acreditar em fantasmas a esta altura da vida, mas, fazer o que? Sou do tempo do </em><em>crack tecnológico de 2098, a época em que o mundo parou por quase 3 anos, travado pela crise provocada pelo esgotamento súbito das reservas de <a href="http://www.biologo.com.br/ecologia/ecologia8.htm">biocombustíveis</a>, que culminou com a desertificação parcial das terras do sul do planeta, levadas a beira da esterilidade total pela monocultura energética, e pelos efeitos catastróficos da </em><em>Grande Enchente, no Norte. Evento há muito tempo esperado, como resultado irremediável do aquecimento global, esta inundação catastrófica só ocorreu mesmo, subitamente, no ano novo de 2095.</em></p>
<p><em>A maior entre todas as tragédias da humanidade, na qual milhões de pessoas desapareceram, a </em><em>Grande Enchente foi como se retornássemos ao dilúvio bíblico. Ao fim do processo, o refluxo das águas, incompleto, formou no centro da Europa, uma região aprazível, denominada </em><em>Grandes lagos do Norte, onde os milionários do mundo e as grandes instituições que governam o planeta se fixaram. Tornada, no entanto a última opção de combustível abundante, capaz de dar vazão a grande demanda de consumo energético do modo nababesco de vida dos povos do Norte, a água dos Grandes Lagos, logo secou.</em></p>
<p><em>Ao </em><em>Downtime, como ficou conhecido o apagão energético do mundo, se seguiu então a chamada </em><em>Guerra da Água, conflito ocorrido nas Américas, com milhares de mortos e envolvendo os Estados Unidos e o México (associados às potências européias), contra os aliados Brasil, Venezuela, Colômbia e Bolívia, pela posse da <a href="http://www.frigoletto.com.br/GeoFis/Amazonia/baciaamazonica">bacia hidrográfica do Amazonas</a>. A </em><em>Guerra da Água foi de um barbarismo sem precedentes. Nela, pela primeira vez na história, foram usados </em><em>combatentes zumbis, soldados induzidos á lutar até morte, com as mentes controladas por computadores.</em></p>
<p><em>Derrotadas, as nações do Sul passaram a ser obrigadas a  comprar a sua própria água que, desviada pelo </em><em>Aqueduto internacional para as terras do Norte, é vendida hoje em tonéis, cujo preço exorbitante torna o abastecimento de água para as populações dos desertos do Sul, um problema dramático.</em></p>
<p><em>A </em><em>Guerra e o </em><em>Downtime tiveram, contudo, alguns poucos resultados benéficos. Um deles foi volta de muitas de nossas crenças mais primitivas, hábitos culturais antigos &#8211; tais como este, de acreditar em fantasmas, em Deus ou mesmo na redenção do ser humano, esta coisa patética em que nos transformamos.</em></p>
<p><em>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;</em></p>
<p><em>Este incômodo com a mancha instantânea do </em><em>Airtrain só me ocorre assim, nas noites de insônia. Quando mergulho nestes tristes e melancólicos pensamentos de saudade dos velhos e bons tempos que se foram, para sempre. Ah, quanto não daria para ter um copo de leite morno nestas horas. Deus do céu, entre todas, esta é uma das maiores e mais insuportáveis provações. Não existe mais leite na Terra. As vacas há muito se foram deste mundo. Meu bisneto viu uma delas num holograma do </em><em>VirtualZoo de sua escola. Teve pesadelos durante três dias. Disse que foi do nojo que sentiu, ao ver que as pessoas bebiam aquele líquido infecto, que saía das entranhas de um animal tão gordo e asqueroso.</em></p>
<p><em>Ah, uma gota, um sorvo só que fosse, deste líquido precioso e abençoado, que não provo há mais de quarenta anos. Acho que, como um elixir da juventude, este sorvo me remoçaria.</em></p>
<p><em>Parece mesmo loucura lembrar como as coisas eram antigamente. Quem poderia imaginar que não criaríamos mais animais para matar a nossa fome? Quem suspeitaria, há 100 anos que fosse, que esta história de <a href="http://www.ambientebrasil.com.br/composer.php3?base=./educacao/index.php3&amp;conteudo=./educacao/artigos/cadeiatrofica.html">cadeia alimentar </a>seria, um dia, apenas mais uma das remotas lembranças de nosso passado biológico? E que, mesmo assim, o tardio da decisão de preservar a vida animal na Terra, nos tivesse privado da maioria das espécies que havia? Estas milhares de coisas exóticas que vemos agora nestes tristes e melancólicos hologramas dos </em><em>VirtualZoos escolares.</em></p>
<p><em>Sim. Estamos quase sós no planeta, nossa velha natureza é agora mais pobre e medíocre do que jamais foi. Com força de vontade, se poderiam enumerar, no máximo, umas seis espécies de animais ainda não extintas, e isto, contando conosco, é claro. Não é preciso nem pensar muito: Sobreviveram os Cães, os Pombos, os Corvos, os Ratos e as Baratas.</em></p>
<p><em>Vi na </em><em>Hologram-Tv outro dia que há num certo canto remoto do Brasil, uma tribo que come os seus próprios cães e domesticam seus ratos, segundo eles, excelentes farejadores de dejetos orgânicos, outro hábito cultural surgido na época do </em><em>Downtime e praticado pelos endinheirados do Norte, pobres de espírito, que pagam caríssimo pelo produto, cuja venda é controlada por um grande cartel de traficantes denominado &#8216;</em><em>The Monopol&#8217;.</em></p>
<p><em>Os dejetos, conhecidos pelo estranho nome de </em><em>Cocablood, distribuídos sob a forma líquida ou pastosa, são considerados uma iguaria afrodisíaca. Era de se esperar uma reação como esta diante do insípido hábito que adquirimos de ingerir pílulas. Asco. É por estas e outras que tenho desprezo profundo por estes tempos modernos. Principalmente por sua fauna.</em></p>
<p><em>Ontem saí de casa depois de seis meses de reclusão. A idade avançada reduziu bastante o meu apego pelos passeios, mesmo os noturnos. Não estou mais tão benevolente para aceitar ficar sendo observado, fotografado, quase tocado por estes inconvenientes jovens </em><em>Seestrangers, que ficam postados em frente a minha janela; gente que nunca viu, assim de perto, um ser humano real, como éramos antes do </em><em>Downtime. Definitivamente não me agrada ser este tipo de celebridade.</em></p>
<p><em>Na verdade sou mesmo quase um bicho raro. Como caminhamos para o ponto onde não existirão mais as antigas diferenças estéticas, biotípicas entre as pessoas, o aspecto que os seres humanos mais novos (&#8216;normais&#8217; como já se diz, com certo desprezo pelos mais velhos) adquiriram, é tão diferente de mim, que sou conhecido aqui no meu bairro como &#8216;</em><em>O Turvo&#8217; (uma alusão ao tom pardo e baço da minha pele, bem diferente do tom claro e brilhante da pele dos mais jovens), sofrendo, todas as vezes que saio às ruas, os constrangimentos mais absurdos que se possa imaginar.</em></p>
<p><em>Meu bisneto tentou me convencer um dia destes a aceitar a proposta que um professor de sua escola lhe fez, para que eu, em troca de algum dinheiro &#8211; uma verdadeira fortuna, na verdade &#8211; posasse como modelo, para imagens holográficas a serem disponibilizadas aos alunos no </em><em>VirtualZoo local.</em></p>
<p><em>_” Como as imagens da vaca?” &#8211; Indaguei, para que ele se lembrasse do que sentiu pelo bicho que dava leite e que tanta má impressão lhe causara. Ele não compreendeu a sutileza. Tive que rejeitar a idéia, veementemente, com argumentos bem mais diretos.</em></p>
<p><em>Não temo afirmar que a extinção total da diferença entre as raças, ocorrida em 2099, foi de um pragmatismo por demais cruel, (atributo que, infelizmente, se tornou corriqueiro entre nós). Determinados a abolir um componente de nossa humanidade, considerado então prejudicial á boa convivência entre os povos e as nações, os procedimentos científicos que iniciaram, ao fim de longo debate, a extinção das diferenças raciais foi, em quase cem anos, a decisão mais polêmica tomada pela </em><em>Cúpula Planetária, instituição criada em substituição da <a href="http://www.un.org/">ONU</a>, um pouco antes do </em><em>Downtime.</em></p>
<p><em>(Como se pode observar em qualquer </em><em>VirtualBook, desmoralizada por um formidável esquema de corrupção, liderado por proeminentes membros do antigo </em><em>Conselho de Segurança, envolvendo tráfico de armas e negociatas com mercenários, a </em><em>ONU foi extinta em 2097).</em></p>
<p><em>Segundo os especialistas consultados, sociólogos e antropólogos em sua maioria, a diversidade étnica, entre outros inconvenientes (como a inevitabilidade do racismo, por exemplo) seria um recurso já totalmente ultrapassado, do tempo em que a humanidade, do ponto de vista de sua evolução biológica, apenas engatinhava.</em></p>
<p><em>O principal impulso a esta decisão, foram os avanços da engenharia genética no século 21, a partir da descoberta das </em><em>células tronco, o que tornou viável a maravilhosa esperança que será o ser humano homogeneizado, o </em><em><a href="http://www.overmundo.com.br/overblog/salada-mista">Homem Mestiço</a>, sem qualquer traço de diferenciação racial. Segundo a minha modesta e suspeita opinião, mais uma aberração, entre tantas, que o homem criou depois que passou a se julgar o Deus de si mesmo.</em></p>
<p><em>O processo, no entanto, se prevê, poderá incorrer em diversos inconvenientes e muitas conseqüências indesejáveis, como, por exemplo, já ocorre com o crescente surgimento de movimentos que preconizam a expulsão de pessoas contrárias á homogeneização para os distantes desertos do Sul.</em></p>
<p><em>Chamadas pela imprensa de </em><em><a href="http://gladio.blogspot.com/2005/07/nacionalidade-s-pode-ser-transmitida.html">Racialistas</a>, estes grupos contrários á homogeneização, foram criados por clérigos progressistas do Norte, que fundaram o </em><em>Movimento Racialista da Humanidade (conhecido como a última fronteira da religiosidade humana) que prega a manutenção da diversidade étnica e racial, afirmando que a homogeneização irá produzir uma praga genética pandêmica, que dizimará mais gente do que a </em><em>Grande Enchente.</em></p>
<p><em>Logo após o </em><em>Downtime, com a explosão dos movimentos migratórios para o Norte, a medida que boa parte do sul do planeta se desertificava, as pressões da </em><em>Cúpula Planetária acabaram forçando ainda mais a expulsão em massa de racialistas para as áreas desérticas, onde já viviam as populações originais, largadas á própria sorte pelas potências do Norte.</em></p>
<p><em>Regredindo, com o decorrer dos anos, a um estágio de civilização primitivo, bem semelhante aos modos de vida dos humanos do início do século 21, a população destas terras do sul, atualmente são governadas pela irmandade dos clérigos racialistas e uma casta aristocrática de emigrados recentes, fugidos ou banidos do Norte, que pregam uma guerra violenta contra os povos do Norte.</em></p>
<p><em>As áreas desertificadas da <a href="http://www.amazonia.org.br/">Amazonia </a>e do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Sueste_asi%C3%A1tico">Sudeste asiático</a> são os habitats mais característicos destes povos, entre os quais os </em><em>Mulatos do Brasil e os </em><em>PanChinos da Tailândia se destacam pela selvageria.</em></p>
<p><em>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-</em></p>
<p><em>A maioria dos seres humanos, muito em breve, será &#8216;</em><em>Flex&#8217;. Não existirão os gêneros humanos, homem, mulher, tais quais os conhecíamos. Serei um dos poucos exemplares vivos dos homens convencionais, </em><em>Proto-hetero, como a ciência já nos classifica hoje. Mais um constrangimento que me faz pretender, para mais breve ainda, a minha partida deste mundo.</em></p>
<p><em>Os &#8216;</em><em>Flex&#8217; não serão homens nem mulheres. A evolução dos seres humanos para o estado &#8216;</em><em>Flex&#8217; se tornou um imperativo, na medida em que o intercurso sexual, com fins de procriação, se tornou uma prática totalmente desnecessária entre os humanos. A formidável evolução científica nesta área, possibilitou a implantação definitiva da gestação por meio da inseminação artificial de células tronco, permitindo que qualquer indivíduo, homem ou mulher, passasse a poder gerar e gestar filhos, naturalmente.</em></p>
<p><em>A revolucionária inovação, no entanto, não conseguiu abolir, absolutamente, o prazer que, desvinculado da necessidade de haver intercurso sexual, mesmo que simbólico, entre seres de gêneros diferentes, passou a ter exacerbados os seus aspectos mais primitivos,ancestrais, como vício mesmo, ou necessidade atávica cuja saciedade, apesar de transgredir regras sociais atualmente vigentes, precisa ser conseguida, irresistivelmente, a qualquer custo.</em></p>
<p><em>Foi assim que o sexo acabou se transformando em droga proibida, cuja comercialização assumiu proporções avassaladoras quando se descriminalizou a prática da </em><em><a href="http://www.abcdocorposalutar.com.br/artigo.php?codArt=97">pedofilia </a>(outrora tolerada apenas quando praticada por ricos) para fins sexuais amplos, desde que normais e controlados.</em></p>
<p><em>A decisão, que causou grande polêmica entre a população, só foi decidida por intermédio de um disputadíssimo referendo mundial. A vitória dos adeptos da </em><em>Pedofilia Controlada, como não podia deixar de ser, provocou o surgimento de um mercado clandestino, dominado por traficantes e voltado para o atendimento á clientes viciados naquelas aberrações anteriormente toleradas, tais como a mutilação e/ou assassinato de crianças pra fins de </em><em><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Canibalismo">canibalismo</a>.</em></p>
<p><em>É comum aqui, por esta razão, a apreensão, quase diária, de comboios de </em><em>Airtrains, carregados de jovens, meninos e meninas, criados nos desertos do Sul (principalmente no Brasil) exclusivamente, para alimentar este mercado abjeto do Norte.</em></p>
<p><em>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;</em></p>
<p><em>Mais um </em><em>Airtrain passou agora mas não me animei ainda em pegar um. A hora está chegando, mas o esforço mental para pegar um veículo destes, mesmo com o confortável procedimento da </em><em>Teletransportation, é tão grande &#8211; ainda mais na minha idade &#8211; que quase desfaleço, só de pensar.</em></p>
<p><em>O fato é que morro em breve. Posso saber disto, assim, com tanta convicção, porque as mortes perderam a inevitabilidade natural que tinham antigamente e precisam ser programadas hoje em dia. Como sempre foi com tudo na vida, vivem mais os que possuem dinheiro. Para os pobres a morte é líquida e certa.</em></p>
<p><em>Sempre achei este procedimento, chamado popularmente de </em><em>Morte Legal, um total absurdo, mas, o departamento do governo que cuida do controle populacional já me comunicou: meu tempo se encerra daqui à três meses e exatamente às 16 horas de dia 5 de setembro de 2185 serei declarado oficialmente morto e terei que ser fisicamente apagado. Vivo ou morto, no entanto, 2185 será, com certeza, o meu ano inesquecível.</em></p>
<p><em>Por isto pegarei o Airtrain pela última vez ainda hoje. O processo é simples e indolor, posso garantir. Você mentaliza o seu desejo de embarcar no momento em que algum sinal da vinda do Airtrain se processa. Uma tremida da vidraça, o trepidar do assoalho, qualquer indício é o sinal. Assim que veículo passa pela sua janela, o embarque é instantâneo. Num átimo você está dentro do veículo rumo ao destino que mentalizou.</em></p>
<p><em>Sem que os funcionários da </em><em>LifeDelete saibam, partirei. Os traficantes de matéria são facilmente encontrados no interior do </em><em>Airtrain. Eles me teletransportarão para as terras do sul sem problemas, a um custo bem em conta, se julgarmos a enorme alegria que terei. Estou decidido a passar meus últimos dias numa tribo do Brasil, minha origem genética, perto de pessoas iguais á mim. Morrer naturalmente, definhando, é o que eu desejo.</em></p>
<p><em>Chego até a sonhar com alguém que reze por mim aquelas velhas rezas do passado. Velas acesas, flores. <a href="http://www.favelatemmemoria.com.br/publique/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=13&amp;tpl=printerview&amp;sid=7">Gurufim </a>com tambores. Talvez um velho Samba na voz da </em><em><a href="http://www.samba-choro.com.br/s-c/clementina.html">Clementina de Jesus</a>.</em> <em>Incelenças, </em><em>ladainhas. </em><em>Pontos de Jongo ou de </em><em>Macumba. Velhos rituais ancestrais do tempo em que tínhamos ainda resquícios de humanidade.</em></p>
<p><em>A vidraça tremeu. Não sei por que, no meio dos pensamentos de embarque, surgiu o rosto dela, daquela que foi a minha última mulher, exatamente como estava no dia em que nos conhecemos. O vestido estampado, as pequenas flores de flamboyant no cabelo. Linda. Ah! Como é doce esta felicidade. Aos meus sonhos mais antigos, portanto, satisfeito e conformado eu vou.”</em></p>
Posted in Literatura/Prosa Tagged: Al Gore, Amazonia, Aquecimento Global, Arthur C. Clarke, Biocombustíveis, cadeia alimentar, Camada de Ozonio, Clementina de Jesus, Conto, Convenção de Copenhage, Convenção do Clima, Eco 92, Educação ambiental, Efeito Estufa, Elogio-à-mestiçagem, Fim do Mundo, Floresta Tropical, Isaac Asimov, Jules Verne, Literatura/Prosa, mesticagem, ONU, Pedolfilia, Regen Forest, Regen Wald, Sudeste asiático, UNO <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/spiritosanto.wordpress.com/37/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/spiritosanto.wordpress.com/37/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/spiritosanto.wordpress.com/37/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/spiritosanto.wordpress.com/37/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/spiritosanto.wordpress.com/37/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/spiritosanto.wordpress.com/37/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/spiritosanto.wordpress.com/37/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/spiritosanto.wordpress.com/37/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/spiritosanto.wordpress.com/37/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/spiritosanto.wordpress.com/37/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=spiritosanto.wordpress.com&blog=858935&post=37&subd=spiritosanto&ref=&feed=1" /></div>]]></content:encoded>
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		<title>THE ALZHEIMER DAY</title>
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		<pubDate>Thu, 14 May 2009 01:52:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Spirito Santo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura/Prosa]]></category>

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Il Grande Dimenticare
Acordei no que parecia ser uma cidadezinha do interior. Havia um sol morno fazendo brilhar a grama cor de verde-novo, chovera a pouco e era de tardezinha. Estranho&#8230; Não conseguia atinar como é que eu havia ido parar ali?
Ouvia bem longe um relincho de um cavalo afoito, histérico. Um relincho incomum demais para [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=spiritosanto.wordpress.com&blog=858935&post=1926&subd=spiritosanto&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><img class="aligncenter size-full wp-image-1983" title="1243291302_the_alzeheimer_day_copy" src="http://spiritosanto.files.wordpress.com/2009/05/1243291302_the_alzeheimer_day_copy.jpg?w=420&#038;h=315" alt="1243291302_the_alzeheimer_day_copy" width="420" height="315" /><br />
Il Grande Dimenticare</p>
<p>Acordei no que parecia ser uma cidadezinha do interior. Havia um sol morno fazendo brilhar a grama cor de verde-novo, chovera a pouco e era de tardezinha. Estranho&#8230; Não conseguia atinar como é que eu havia ido parar ali?</p>
<p>Ouvia bem longe um relincho de um cavalo afoito, histérico. Um relincho incomum demais para um cavalo ao sol. Seguindo o relincho logo divisei já na risca do horizonte, um homem magricela, se abaixando e levantando do chão, ocupado na faina de plantar ou colher algo. Não dava bem para saber ao certo o que. Olhando melhor a cena, percebi que vez por outra, o homem espantava o cavalo de perto de si, como se o animal estivesse querendo também, ardentemente, aquilo que ele plantava&#8230; ou colhia, não conseguia ainda perceber o que.</p>
<p>Foi quando o vento, mudando de direção me trouxe aquele cheiro nauseabundo de coisa morta, um cheiro insuportável de carne podre ou algo assim. O homem cavava e enterrava algo, era isto. Um bicho morto, concluí ainda intrigado. Com repulsa saí dali, tapando as narinas, afastando os olhos da cena e olhando para trás.</p>
<p>Atrás havia logo adiante uma casinha modesta, toda de adobe mal socado, com jeito de bem antigo. A casa estava um pouco destelhada e com um ar de abandonada há anos. Porta esbodegada, tombada para um lado, presa por uma única dobradiça, como um baú velho saqueado e abandonado por um ladrão decepcionado com o nada que havia dentro para ele roubar.</p>
<p>Incrível. Não conseguia mesmo atinar. Como é que eu havia ido parar ali? O pior é que isto eu jamais saberia por que, de repente acordei, completamente e me dei conta de que toda a bucólica paisagem da roça havia desaparecido, se desvanecido como por encanto, como se alguém tivesse mudado o canal da TV.</p>
<p>E foi daí que, aparvalhando-me mais ainda com a nova cena, ouvi aquele som sujo, um ruído, um chiado intermitente, um barulho familiar enfim. Incomodado, me dispus a acordar pulando da cama.</p>
<p>O que aconteceu? Onde estou? Quem sou eu? Que barulho seria este?</p>
<p>Olhos embaçados e um calafrio esquisito cortando o corpo, feito um choque elétrico fraquinho.</p>
<p>Claro! É que chovia muito. Dava pra ouvir aquilo que, mesmo sendo ainda indefinível para mim, evocava uma sensação assim-assim de coisa úmida, molhada, que logo associei à chuva. Sim, claro! Ainda sabia o que era aquilo. Uma enxurrada fustigando as paredes do prédio, uma lata velha largada sob uma grossa goteira, ou um teto de zinco chicoteado pelo vento. Isto! Feito uma cachoeirinha, um som de leve tempestade, isto! O zinco oxidado batido por lufadas de chuva. Ai que alívio! Ainda conseguia saber claramente o que era aquilo. Quase podia ver.</p>
<p>Um aliviozinho qualquer como estas furtivas lembranças valia ouro naquela altura dos acontecimentos. Tempos estranhos aqueles: A era do <strong>Alzheimer Day</strong>, o apagão geral das mentes, sensação igualzinha à daquelas vezes em que meu <em>Dispositivo Pessoal de Raciocínio Virtual</em> &#8211; a bem da verdade já meio superado – rateou rateou até pifar de vez.</p>
<p>Desesperador. Fiquei catatônico por vários dias. Sonado, abestalhado como um boxer que teve o cérebro sacudido na caixa craniana a vida inteira por milhares de upercuts, sparring do tempo e de si mesmo, se abobalhando. Fiz uma atualização do surrado <em>DPRV</em> sim, claro, mas sabem como é: Estas coisas recauchutadas&#8230;Ele voltou meio barro meio tijolo, como se diz, <em>meia bomba</em>.</p>
<p>Vez por outra eu não conseguia nem mesmo saber direito o que estava ouvindo, vendo, sentindo. Uma sensação terrível de desamparo, um desassossego só.</p>
<p>O terapeuta me disse na ocasião que o que eu sentia era idêntico ao que uma velhinha com mal de Alzheimer sofria, os neurônios se apagando um a um, num blackout seletivo, um córtex de cada vez. Sabem como é? Uma Las Vegas noturna sobrevoada por discos voadores, as luzes se apagando cassino a cassino, como naqueles filmes de Sci Fi de séculos atrás</p>
<p>(Discos voadores? Como assim, discos voando? Às vezes custo a me lembrar o que isto quer dizer).</p>
<p>Isto mesmo. A mente rateava da mesma forma como a das velhinhas só que, desta vez, não era só comigo. Viráramos todos velhinhas com Alzheimer numa pandemia de esquecimentos. Pelo menos era isto que diziam os mais <em>safos</em>, os que ainda conseguiam se lembrar do sentido de coisas assim tão complexas, conceitos tão abrangentes, descritivos deste sofrimento tão surpreendemente coletivo que era aquele apagão das mentes.</p>
<p>O que ocorreu só fomos entender mais de 10 anos depois, quando tudo se normalizou e assumimos a forma de inteligência que temos hoje, nem de longe parecida com a aguda perspicácia elétrica que tínhamos no passado, em meados do século 22 por aí, antes do <em>Alzheimer Day</em>.</p>
<p>Maravilhosos. Ultra civilizados. Super poderosos. Seres geniais e perfeitos o que éramos todos nós antes do acidente. As limitações intelectuais de alguns, dos mal educados, haviam sido suprimidas, quase que completamente banidas da população.</p>
<p>Inacreditável, mas, foi assim:</p>
<p>O estupendo grau de evolução tecnológica que atingimos permitiu que todo o conhecimento humano fosse transferido, gradualmente, para espaços virtuais de compartilhamento de dados, espécies de sites <em>&#8216;de relacionamento</em>&#8216;, como se dizia antigamente. Não era de modo algum uma opção, meramente hedonista de nossa civilização. Era uma condição compulsória e imperativa de nossa evolução. O <em>artificialismo total</em>, a automatização absoluta de nossas maneiras de ser e viver em nome do bem estar, da felicidade geral da nação, de todas as nações: <em>&#8220;It&#8217;s wonderful world&#8221;</em>.</p>
<p>E esta era a mais pura das verdades &#8211; por mais absurda que pudesse parecer.</p>
<p>Estes espaços virtuais de compartilhamento de dados, estes sites antes ditos&#8230; &#8216;<em>colaborativos</em>&#8216;, atraentes chamarizes de perfis e personalidades reais ou inventadas, passaram a acumular e guardar toda espécie de conteúdo (tudo que antes guardávamos em nossos cérebros primitivos), anseios, desejos, taras inconfessáveis, disponibilizando, a quem quer que seja rigorosamente tudo de bom ou de ruim que uma mente humana pudesse conter.  A <em>Droga Final</em>, disseram os céticos apocalípticos.</p>
<p>Guardávamos aí, nestes espaços virtuais um pouco buracos negros, meio  que armários guarda-volumes de aeroporto, inclusive os mais simples comandos e mecanismos de inteligência necessários a algumas de nossas ações mais triviais e cotidianas, tais como pensar e até mesmo amar, por exemplo.</p>
<p>Acumulávamos aí e assim – e intercambiávamos uns com os outros &#8211; até mesmo as mais falsas projeções que fazíamos de nós mesmos, personas mentidas, meras pavoneações de nossa alma ideal, projeções viciantes de como gostaríamos de ser vistos, que após certo tempo, confundiam-se com aquilo que realmente éramos, criando agora em muitos de nós, problemas de identidade muito próximos de uma psicopatia não diagnosticável, uma espécie de <em>esquizofrenia virtual</em>, absurda, irreal, que era como os psicólogos da época descreviam estas nossas novas maneiras de ser.</p>
<p>Rigorosamente toda a nossa memória enfim (exceto aquela utilizada para atos mecânicos como andar e comer), passou a ficar hospedada em <em>HDs</em> de supercomputadores gigantescos, depois que todas as mídias físicas foram sendo abandonadas por se tornarem antiquadas, anacrônicas e obsoletas e, principalmente, descartáveis em sua precária confiabilidade.</p>
<p>A fantástica evolução que representou passarmos a ter, rigorosamente tudo de nossas frágeis mentes guardado nestes supercomputadores, por sua vez, numa evolução natural da virtualidade quase total em que se transformou a vida humana, logo nos encaminhou para a criação de uma só grande máquina, capaz de centralizar os dados de todas as mentes do mundo</p>
<p>Praticamente todo o pensamento humano passou a estar, umbelicalmente armazenado num gigantesco computador <em>Provedor Universal</em>, instalado na superfície da Lua, após a lenta maturação de um projeto multinacional que durou quase 50 anos para ser enfim, concluído no ano de 2398.</p>
<p>O lúgubre Deus virtual, batizado por seu inventor <em>Joseph Von Spitzheim-Siegl </em>com o nome de <em>&#8216;<strong>Home Welt Herzzentrum</strong>&#8216; (HWH)</em>, foi talvez o passo mais fabuloso – tanto quanto o mais estúpido – dado pela humanidade em todos os tempos, em prol de sua exclusiva e egoísta evolução.</p>
<p><em>HWH</em>: Cabeça da grande rede da velha <em>WWW</em> que, acéfala como uma hidra mitológica no século 21, assumia agora a forma de um grande polvo adormecido, sabe-se lá por que razões ou intenções sugerindo perigos, como um perverso vilão enrustido.</p>
<p>E foi assim que, neste dia o mal também projetado sobreveio enfim.</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;</p>
<p>Um risco cadente cortando o negror do espaço. Um clarão de estilhaços brancos, como um espirro de cacos explodidos de um bloco de gelo golpeado por um furador. Foi assim que alguns poucos descreveram o que viram naquela noite. Eles, os mesmos vadios de sempre que, sabe-se lá porque arcaicos instintos estavam, sentimentalmente com os olhos voltados para a Lua naquele instante.</p>
<p>Eu não. Coisa alguma vi naquele torpor em que me encontrava, pobre de mim, com o meu <em>DPRV </em>rateando. Só senti mesmo o susto de um pensamento bom que se apagou de súbito. No visor lateral dos meus óculos de grau a tela azul piscava o aviso de uma <em>failure </em>desconhecida, antes da janela secundária da tela se abrir com a notícia alarmante:</p>
<p><strong><em>&#8220;FATAL ERROR!&#8221;</em></strong></p>
<p><strong><em>Provedor HWH inoperante. Por favor, teclar F7 para acessar provedor alternativo de emergência de sua região ou teclar ESC para sair&#8221;</em> </strong></p>
<p>O <em>Provedor Alternativo</em> era um sistema de emergência online com mensagens de ajuda e notícias curtas, que ficava disponível por algumas poucas horas, até se esgotar sua limitada capacidade de processamento o que, logo pudemos perceber, no caso de um crash universal como aquele, significaria a duração de uns poucos minutos, antes do apagão total se estabelecer. Foi neste serviço de ajuda online (último vínculo que teríamos com algo parecido com uma realidade) que assisti a uma simulação do que ocorreu:</p>
<p>Um asteróide errante, de trajetória não totalmente prevista, havia entrado na órbita da Terra e se chocado com a Lua. O pessoal da base do <em>HWH</em> teve tempo de se afastar da área sinalizada para o choque que foi, em cheio, a central do <em>HWH</em>, O grande domo de aço onde o <em>dispositivo-mãe</em>, núcleo duro da grande máquina, havia sido hermeticamente acondicionado.</p>
<p>Foi assim:</p>
<p>A &#8216;alma&#8217; do <em>HWH</em>, o local onde o <em>Provedor Universal </em>fora instalado, na vã expectativa de que ali fosse o lugar mais seguro do universo, foi instantaneamente pulverizada pelo impacto.</p>
<p>Conta-se que o prof. <em>Spitzheim-Siegl</em> chorou, copiosamente, durante uma entrevista, como se tivesse perdido o filho mais querido.</p>
<p>As alarmistas notícias repassadas pelo provedor alternativo descreveram o acidente como sendo uma espécie de <em>Alzheimer Day</em>, o dia fatal do apagamento das melhores lembranças da humanidade, bem como aquele terapeuta me havia dito.</p>
<p>O filósofo marx-holista <em>Vitorio Doro Scazambone</em>, crítico contumaz das idéias de <em>Spitzheim-Siegl </em>nos alertara poucos anos antes do que ele chamou de <strong><em>Il Grande Dimenticare</em></strong>, em seu arcaico blog sobre os riscos de não se ter mais nossos cérebros primitivos ativos e bem treinados, sempre disponíveis para esta eventualidade tão previsível quanto inevitável.</p>
<p><em>&#8220;Lo dico e lo dico, con enfasi che molti millenni di formazione primitiva forme di ragionamento, in base alla lenta assimilazione dei concetti stabiliti dalla ripetizione degli errori e successi, i nostri cervelli hanno accumulato un livello di esperienza per la gestione e la cura dell &#8216;universo, insostituibile. Anche l&#8217;imprevedibilità del nostro comportamento, suscettibile di diverse influenze dell&#8217;ambiente &#8211; che per gli appassionati di virtualità totali è stata la nostra grande colpa &#8211; a me, Vitorio Scazanbone sembra essere una ragione divina e insormontabili. &#8220;</em></p>
<p><strong>(Vitorio Doro Scazanbone no artigo &#8220;Sotto il rischio di un blackout di mente&#8221; publicado em seu blog pessoal em 11 de abril de 2395)</strong></p>
<p>Inútil. Nada do que <em>Scazambone </em>alertara adiantou. Ninguém lhe dera mesmo ouvidos até porque as nossas mentes em poucos decênios de escravidão voluntária, haviam embotado quase por completo, irremediavelmente dependentes que ficaram dos eflúvios do <em>HWH</em> lunar, expressos por periódicas tempestades lunares carregadas de <em>downloads oníricos</em>.</p>
<p>Os <em>ABs (alternativs braims)</em>, cérebros humanos alternativos (espécie de PCs minúsculos como chips pós modernos) de altíssima capacidade de armazenamento, passaram a ser implantados então, diretamente em nossas próprias cabeças. &#8216;Espetados&#8217; como aqueles <em>pendrivers </em>do século 21 em nosso sistema nervoso central, muitas vezes tinham que ser confiscados dos filhos adolescentes por mães briosas, para que estes não se viciassem na rodagem de programas-barbitúricos ou anabolizantes, baixados, facilmente de sites de prazer virtual online.</p>
<p>O fato mais dramático é que estes <em>ABs </em>acabaram por assumir o controle de tudo, inclusive da nossa individualidade. Nossas vontades mais íntimas por conta desta evolução, a partir de certa época passaram a estar, totalmente dependentes de um programa de <em>inteligência artificial</em> denominado <em>Onirix </em>(1.09 em sua versão da época), periódica e automaticamente, atualizado, por meio daqueles longos downloads que rodavam durante o nosso sono, descaradamente disfarçados de sonhos chamados de &#8216;<em>Marés de barato&#8217;</em>.</p>
<p>(Estes sonhos virtuais eram tão lúbricos e eróticos que, não raro, produziam poluções noturnas intensas, tanto em homens quanto em mulheres e eram por esta simples razão, ansiosamente esperados, estimulando o comercio desenfreado – e inutilmente proibido &#8211; de drogas voltadas para tornar o mais profundo – e prazeiroso &#8211; possível o sono das pessoas.)</p>
<p>Sim, claro. Sabemos que sobraram na Terra, como remotas possibilidades de recuper algo de nossa inteligência original, as velhas mídias do passado. Livros empoeirados, discos de vinil de vetustos colecionadores, CDs meio descascados, pilhas de Ipods danificados, HDs enferrujados, tudo jazendo em velhas oficinas de sucata de material de informática, a maioria amontoada em úmidas salas de museus de mídia, prédios que ninguém visitava mais.</p>
<p>A causa era o alto estágio alcançado pelas avançadíssimas condições que a vida virtual atingira, com tudo, literalmente tudo podendo ser acessado e realizado, vivido mesmo. Esta <em>Vida Virtual</em> podia ser facilmente acessível por meio de algumas rápidas piscadelas de olho (ação que substituiu os clicks de mouse do passado) dirigidas ao nosso <em>Cérebro Total Alternativo</em>, fisicamente separado de nós e guardado num armário remoto qualquer, como uma alma superpoderosa, eternamente jovem, eternamente online.</p>
<p>Como consequência do <em>Apagão </em>o pânico. Ocorria que os poucos técnicos remanescentes que se lembravam ainda de como funcionavam as máquinas pré históricas, capazes de ler aqueles dados remotos, debatiam-se sem sucesso com a incompatibilidade absoluta estabelecida entre elas, as mídias arcaicas, os dados disponíveis, dispersos em suportes incompatíveis, não conseguiam se configurar num sistema operacional que servisse para alguma coisa que não fosse processar informações, absolutamente banais, como ler um romance, por exemplo.</p>
<p>E para que nos serviria afinal <em>ler um romance</em> se nossa inteligência não se desenvolvia mais por meio do impacto e da forte impressão que nos causavam as emoções banais?</p>
<p>Nos transformáramos em seres de aspecto apoplético tanto que, se fôssemos observados por pessoas comuns das eras passadas, não seríamos reconhecidos como humanos, de modo algum, por causa do ar de insanos pálidos, obesos e abestalhados, olhando o nada dentro de nós mesmos como falsos cegos não querendo ver o que, mais cedo ou mais tarde haveria de conosco acontecer. Como de fato aconteceu.</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;</p>
<p>Era por isto que a evocação daquele sonho estranho com o cavalo me angustiava. Um pesadelo aterrorizante era o que parecia. De onde viera aquela cena tão rudimentar e arquetípica?</p>
<p>Se eu, como todos os demais habitantes do planeta não tinha mais memórias a evocar, angústia alguma para sofrer e remoer em pesadelos, se não podia mais acessar a mais prosaica das lembranças tristes ou felizes de meu passado após a explosão lunar que destruiu o <em>HWH</em>, de onde vinham aqueles lapsos de consciencia, aquelas angustiantes mentalizações tão realistas?</p>
<p>De onde vinha o cheiro nauseabundo de carne podre? Como eu poderia reconhecê-lo se o registro dos vapores dele não mais estava em mim?</p>
<p>Naquela mesma noite, ao dormir o que seria mais uma noite sem bons sonhos, trêmulo com a expectativa de sofrer angústia do que julgava ser outro pior pesadelo, me vi novamente dentro da casinha tosca, que agora aquecida pelo fogão de lenha, me parecia, acolhedoramente familiar.</p>
<p>Um chá ralo, muito quente me foi posto á boca e as narinas se arregalaram: Hortelã!</p>
<p>Como assim? Onde estou? Quem sou eu?</p>
<p>O homem magricela &#8211; que agora eu percebia ser louro como uma espiga de milho &#8211; ainda impregnado daquele cheiro de morte que trouxera lá de fora, me tranquilizou com um olhar sereno, enquanto apontava uma lua que aparecia branca no céu ainda azul:</p>
<p><em>_&#8221; Nada de pioggia domani! </em></p>
<p>E foi com aquele seu sotaque italiano que ele me contou que a febre me pegara de jeito logo que chegamos ao local. As alucinações tinham sido tão intensas que nos delírios, eu havia molhado várias vezes o lençol estrapeado que ele me dera.</p>
<p>No mesmo dia em que eu adoecera daquela gripe braba, um raio matara um potro bem novinho. A chuvarada durou uns três dias e só agora ele pudera enterrar o bichinho. Como? Quer dizer que aquilo tudo não havia sido sonho nem pesadelo. Uma égua desesperada, achando incompreensível a morte de seu potrinho, fora o que eu vira naquela tarde.</p>
<p>Com a febre indo embora fui me lembrando, lentamente da viagem à roça. O pessoal da equipe tinha ido à cidade comprar querosene e cachaça. Antes de voltar, deram um tempo na venda do local e aproveitaram para dar uma carga nas baterias da câmera já que, mal havia luz elétrica por ali. Voltaram já meio tocados de pinga.</p>
<p>O hortelã do chá que o magricela me dera, aos litros, estava ainda impregnado no meu bigode e eu ansiei também por uns bons goles de pinga com limão.  O Hortelã mais a pinga me deram um baita de um suadouro. Ai que alívio!</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<p>Pois foi mesmo assim, mais calado do que de costume, que fiquei ouvindo a entrevista que o magricela continuou a nos conceder, falando sobre seu avô, um anarquista italiano que se escondera por aquelas bandas e construíra aquela casinha no início do século 20, depois de matar um soldado do exército na Revolta da Vacina no Rio de Janeiro. Nome do anarquista carcamano: <em>Vitorio Doro Scazambone</em>.</p>
<p>Mama mia! Pesadelo invertido é fogo.</p>
<p>Só continuo não conseguindo atinar como é que aquelas histórias desvairadas foram parar dentro de minha tão febril cabeça. <em>Malato di mente </em>como diria o magricela, preciso me curar logo deste vício de computador, dar um tempo da internet, esfriar a cabeça, apagar. esquecer.</p>
<p>Una piccola dimenticanza.</p>
<p><strong>Spírito Santo</strong><br />
Maio 2009</p>
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		<title>Arapuca de Nfofó</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Oct 2008 21:48:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Spirito Santo</dc:creator>
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 Minha bisavó era praticamente uma criança quando veio para o Brasil. Era uma negrinha magricela, mas, tão magricela que, quando os brancos chegaram, tremia tanto de medo que não conseguiu nem correr.
Ela dizia que eles chegavam de mansinho, como quem não quer nada, como que cercando uma caça mansa qualquer e ficavam acenando [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=spiritosanto.wordpress.com&blog=858935&post=751&subd=spiritosanto&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p> <img src="http://spiritosanto.files.wordpress.com/2008/10/1176238614_galinha_dangola.jpg?w=455&#038;h=375" alt="1176238614_galinha_dangola" title="1176238614_galinha_dangola" width="455" height="375" class="alignleft size-full wp-image-1271" /><br />
 <br />Minha bisavó era praticamente uma criança quando veio para o Brasil. Era uma negrinha magricela, mas, tão magricela que, quando os brancos chegaram, tremia tanto de medo que não conseguiu nem correr.</p>
<p>Ela dizia que eles chegavam de mansinho, como quem não quer nada, como que cercando uma caça mansa qualquer e ficavam acenando lenços encarnados, escondidos no meio do capinzal.   </p>
<p>Quando os <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Umbundu">benguela </a>mais curiosos (ô gente curiosa estes benguela! Chegavam a perder os dentes de tanto morder as coisas que não conheciam, só para sentir o gosto que elas tinham) iam ver do que se tratava&#8230; Pou! O laço caía, o benguela trupicava, esperneava, até que, amarrado com os outros numa fila, ia seguindo por uma trilha da selva, até chegar na praia, até chegar no navio que, depois da eternidade mais comprida deste mundo, chegava aqui no Brasil.</p>
<p>Esta história que conto pra vocês agora (como gostava de contar história a velhinha de quem eu tive o que puxar) é uma história que ela contou pro meu avô que contou pro meu pai que contou pra mim e que eu, repassador de histórias que sou, conto pra todo mundo que quiser ler o que escrevo aqui. </p>
<p>(Até ontem isto era segredo de família, mas deixa pra lá. Isso <em>era uma vez </em>e segredo de três o diabo fez).</p>
<p><strong>A incrível história da arapuca Nfofó </strong></p>
<p>Vocês conhecem o Nfofó? Não? Pois o Nfofó (<em>numidasimilus meleagris</em>) era uma espécie de galináceo vistoso, primo-irmão da <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Galinha-d%27angola">galinha d’angola</a> (<em>numida meleagris</em>) &#8211; vocês conhecem a galinha d’angola?- pois o nfofó era um pouco maior, com a penugem mais escura, com umas pintas amarronzadas como ferrugem ou pinta de leopardo. Uma belezura de bicho, se poderia dizer. Dizem que era uma ave arisca a mais não poder, cismada. Quando assustada tentava, mas, não voava mais que meio metro, coitada. Não se acostumava em viver perto de gente de jeito nenhum e por esta razão era considerado um bicho chucro, selvagem (não que fosse bicho brabo não, muito pelo contrário). O certo é que os Nfofós viviam em bandos, escondidos no meio do mato. </p>
<p>Um detalhe importantíssimo, interessante mesmo para os meus parentes benguelas (cuja vasta consciência ecológica não chegava ao ponto de se descuidar de sua prioridade absoluta: a própria sobrevivência) era, sem dúvida nenhuma, a saborosa carne do Nfofó. </p>
<p>Foi por esta prosaica razão, entre outras, que os Nfofós foram rareando, rareando, até se tornarem apenas uma deliciosa lembrança gustativa nos sonhos senis de minha bisavó. </p>
<p> Mas, a culpa da extinção dos Nfofós não foi de forma alguma &#8211; é preciso ressalvar &#8211; só dos benguela ou de qualquer outro ser humano que um dia teve o glorioso prazer de comer aquela iguaria. </p>
<p>Foi o que minha bisavó defendeu até à morte.</p>
<p>O cronista austríaco Kurt Böhler <a href="http://profil.lide.cz/profile.fcgi?akce=profile&amp;user=hoffenbauer&amp;auth=">Hoffenbauer </a>que visitou o território benguela em fevereiro de 1883, a serviço do Kaiser <a href="http://www.deutsche-schutzgebiete.de/kuk_franz_joseph_1.htm">Franz Josef</a>, nos conta, cabalmente, que o cheiro dos ovos do Nfofó era muito forte, insuportável mesmo, porém, na mesma medida, irresistível aos homens, provocando neles uma estranha sensação afrodisíaca.</p>
<p>A lenda dizia no, entanto, que este odor característico ficava impregnado no corpo de<br />
quem comesse os ovos por dias e dias, á fio, semanas talvez. Depois de dissipado do corpo, o<br />
cheiro maldito continuava, para sempre na mente das parceiras de quem comeu os ovos, impossibilitando qualquer contato íntimo para o resto da vida. Era, obviamente, um castigo atroz<br />
para os benguela, fornicadores contumazes e notórios que eram (ou ainda são até hoje, quem<br />
sabe). Hoffenbauer observou nas notas de seu relato que:</p>
<p><em>“&#8230; Der kraft schmertz die manner hunger anreidzend, über unwiderstehlicht form, aber die  gegessen später, in der schweiB unbeweglich eine grosse abneigung in der frauen mache&#8230;” na tradução livre:&#8230;”O forte odor dos ovos estimulava, de forma irresistível, a gula dos machos humanos mas, após a sua ingestão, impregnado no suor de que os comeu, provocava uma aversão maior ainda nas fêmeas&#8230;”</em> </p>
<p>(in ‘Das Angolanisches ganze leben’, Hoffenabuer, K.B.<br />
GanzeWelt Verlag &#8211; Köln, Deustschland 1883)</p>
<p>Aquele talvez fosse um inteligente e caprichoso artifício da natureza para a preservação dos Nfofós: Salvavam-se os ovos ou o hábito de comê-los extinguiria de vez com raça dos benguela. No entanto, do jeito que os humanos gostam de tudo que é proibido (como se sabe, em nós a inteligência e estupidez são atributos gêmeos) a solução da natureza era um frágil artifício.</p>
<p>É o que veremos á seguir.</p>
<p>Minha bisavó dizia que, embora os mais jovens fugissem dos ovos de Nfofó com sabedoria digna dos mais velhos (a quem eles deixavam o castigo de comê-los) muitos benguela se lixavam para a lenda. Com o tempo então, a maldição dos ovos teve que ser repassada também para a carne do Nfofó, ou seja, para o Nfofó como um todo. Hoffenbauer chega a reproduzir em seu livro, uma gravura benguela da época, retratando o Nfofó como uma espécie de entidade maligna e assustadora. Nada disso,  contudo, adiantaria por que, entre todos os nossos tolos instintos, o da sobrevivência sempre foi o mais estúpido: mesmo sabendo que podemos morrer disso, se é só isto que temos para comer, na ânsia de sobreviver, é exatamente isto que comeremos e é, fatalmente, disto que morreremos.</p>
<p>Ficava o dito pela lenda como não dito então.</p>
<p>O fato é que se comia muito fartamente Nfofós naquele tempo. Para comê-los, tínhamos que  caçá-los, saber seus hábitos e suas manias, para então poder inventar uma armadilha para apanhar o bicho. Daí a arapuca do Nfofó cuja minuciosa descrição cuido de relatar a seguir. </p>
<p>O nome Nfofó, como vocês já devem ter intuído, é onomatopéico, ou seja, vinha do som que ele emitia quando estava com medo, assustado. Como ele era, apesar de arisco, um bicho danado de curioso, levava muitos sustos em sua curta vida. </p>
<p>Esta curiosidade atávica, hábito mais característico do Nfofó, foi como também se pode intuir, a sua ruína.</p>
<p>Com know how desenvolvido pelos benguela em muitos anos &#8211; séculos talvez &#8211; a arapuca de Nfofó (‘nfobulobulo’ em idioma benguela), tinha no tempo de minha bisavó a forma de uma caixa triangular de gravetos habilmente atados com um cipó especial, chamado por eles de ‘lukululu’ (‘ngnosis selvaticus’). Havia na caixa uma portinhola á guiza de guilhotina, firmemente tencionadas por uma vara longa, que os benguela chamavam pelo curioso nome de ‘kalapulo’ (de provável procedência lusitana).</p>
<p>Nestes aspectos até que a arapuca de Nfofó era uma armadilha bem comum. O que a tornava única, era o fato de ser profusamente enfeitada com penas de pássaros locais, de variadas cores, além de muitos chocalhos, feitos com pequeninas cabaças contendo sementes, muito leves, que faziam ruído a qualquer brisa ou vento que soprasse. </p>
<p>Diante de um chamariz e de uma armadilha, ao mesmo tempo, era curiosidade então que pegava o Nfofó pelo pé.</p>
<p>Um dos dados mais curiosos da tática de caça ao Nfofó era que, ao invés de esconder o nfobulobulo como deveria fazer com qualquer arapuca, a prática mais comum era deixá-lo bem visível, próximo á vegetação cerrada onde os bandos de nfofós se escondiam. Um deles sempre percebia a arapuca e tomado de insuportável atração, corria para ela aos berros:</p>
<p><em>_”Nfofó! Nfofó! Nfofó!”</em></p>
<p>Todo o bando, mesmo escondido, entrava a em polvorosa gritando num especial alarido, chamando a atenção do caçador que, podia estar a alguns metros dali, tranquilamente dedicado a outros afazeres. A cena que se seguia, até há pouco tempo, enchia de água a boca de minha querida bisavózinha:</p>
<p>O nfofó precursor, aquele que primeiro viu a arapuca, olhava por alguns instantes para ela, extasiado de pavor. Espevitado, abria o bico em desespero, repetindo:</p>
<p><em>_”Nfofó! Nfofó! Nfofó! Te digo! Te digo! Te digo!”</em></p>
<p>(Este ‘te digo’ era outra sutil diferença entre os sons onomatopéicos do nfofó e da galinha d’angola que, como se sabe fala ‘Tô fraco’ Tô fraco! Tô fraco!”)</p>
<p>Logo em seguida, o Nfofó precursor corria para o bando e voltava correndo para a arapuca, acompanhado agora por mais um curioso. O caçador, neste exato momento, punha a arapuca para funcionar e pronto, o primeiro nfofó ficava ali, estrangulado, enquanto o histérico sobrevivente corria para o bando, no mesmo ritual:</p>
<p><em>_”Nfofó! Nfofó! Nfofó! Te digo! Te digo! Te digo!”</em></p>
<p>Pegava-se assim, um a um, todo o bando de pobres nfofós.</p>
<p>Hoje em dia &#8211; é claro &#8211; não existem mais nfofós em Angola. Minha bisavó dizia também (mas isto eu não consegui provar ainda) que vem do nome nfofó a palavra brasileira fofoca que, neste caso, seria mais uma interessante contribuição das línguas africanas ao português falado no Brasil.</p>
<p>Pelo menos no que diz respeito ao jeito da arapuca pegar o nfofó (no caso dos fofoqueiros em si, dos <em>‘disse-me-disses’,</em> dos <em>‘língua-de-trapos’</em>, dos <em>‘leva-e traz’ </em>e dos incontáveis ‘<em>um-sete-uns’ </em>e trambiqueiros deste nosso Brasil, bem que a minha bisavó podia ter razão.</p>
<p><strong>Spírito Santo</strong></p>
<p>Rio, 24 de julho de 1993<br />
(com ligeiros retoques em 2007)</p>
<p><strong>NOTA IMPORTANTÍSSIMA!</strong></p>
<blockquote><p>Caro favor leitor, leia por favor as<br />
notas abaixo (o primeiro comentário a este post) que são do seu absoluto interesse para a compreensão total deste texto:</p>
</blockquote>
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		<title>Ao Molho Pardo</title>
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		<pubDate>Sun, 28 Sep 2008 22:42:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Spirito Santo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura/Prosa]]></category>
		<category><![CDATA[Contraventor]]></category>
		<category><![CDATA[Copa-do-Mundo-1950]]></category>
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		<category><![CDATA[Corrupção-Policial]]></category>
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		<category><![CDATA[Polícia]]></category>
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		<description><![CDATA[
Conto
Me chamo Brasil. Sério. Justino Amaral do Amoroso Brasil, ao seu dispor.
Saí de casa hoje agoniado, com aquela sanha de matar uns dois ou três. Sem
brutalidade, claro, que isto, podem crer, não é comigo. 
Matar sim mas, sem sadismo. Matar simplesmente, como minha mãe matava as galinhas de
domingo. Uma torcida rápida no pescoço e, babáu!
As [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=spiritosanto.wordpress.com&blog=858935&post=716&subd=spiritosanto&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><img src="http://spiritosanto.files.wordpress.com/2008/09/copa_19501.jpg?w=497&#038;h=348" alt="copa_19501" title="copa_19501" width="497" height="348" class="alignleft size-full wp-image-1297" /></p>
<p><strong>Conto</strong></p>
<p>Me chamo Brasil. Sério. Justino Amaral do Amoroso Brasil, ao seu dispor.<br />
Saí de casa hoje agoniado, com aquela sanha de matar uns dois ou três. Sem<br />
brutalidade, claro, que isto, podem crer, não é comigo. </p>
<p>Matar sim mas, sem sadismo. Matar simplesmente, como minha mãe matava as galinhas de<br />
domingo. Uma torcida rápida no pescoço e, babáu!</p>
<p>As vezes uma boa faca, bem amolada também resolvia bem a situação.<br />
Aliás, esta minha ojeriza a sadismo deve ter vindo daí, do dia em que a velha,<br />
assoberbada com a salada de maionese, me pediu para fazer o serviço com a<br />
galinha. Servicinho, pensei. Nem pestanejei. Era só pegar a bicha, forçar a<br />
cabeça dela na tábua de cortar carne e zás! Cortar. De um golpe só.</p>
<p>Mas fiz com piedade, me disse a Velha. E piedade não se pode ter na hora de<br />
matar uma galinha. Um amigo meu, da vigésima DP, que é legista, me<br />
ensinou:</p>
<p><em>_”A galinha está na base de nossa cadeia alimentar, meu chapa. Fazer o quê?<br />
Temos que viver, ora bolas! Vai desprezar a delícia que é uma moela<br />
ensopada, uma asa assada, uma coxa empanada?”</em></p>
<p>Mas fiz com remorso. Fiz sim. Eu sei. Um remorso prévio, mal disfarçado, que,<br />
não sei como, a pobrezinha sentiu, anteviu.</p>
<p>Foi de dar vertigem. O maior terror que eu já passei na minha vida.<br />
O corpo da galinha tombou para um lado, tombou para o outro e logo começou<br />
a se debater, de pé. Quase, não sei como, conseguiu ficar em pé. Como<br />
explicar? Fiquei embasbacado pensando como é que um corpo sem cabeça<br />
pode entender o que é ficar em pé? Foi aí que, para o meu alívio, o corpo dela<br />
caiu de novo, na tábua de carne, ficando só com aqueles tremeliques, aqueles<br />
espasmos de penosa moribunda. Me aliviei.</p>
<p>Mas qual o quê. Foi aí que a coisa ficou ainda mais apavorante: Na cabeça<br />
dela, os olhos piscavam como a procurar alguma coisa que eu tive certeza que<br />
era eu, o assassino. A bicha abria e fechava o bico, como a querer exprimir<br />
algo, algum cacarejo acusatório, quem sabe alguma severa condenação. Ai!<br />
Aquele bico apontado para mim, inquisidor.</p>
<p>Fiquei num desespero tão sem tamanho, que cheguei até a pensar em juntar<br />
de novo as partes, como fez aquele tal de Doutor Frankenstein.<br />
Tarde demais. O sangue da bicha já se esvaía e eu lembrei ali, naquele mesmo<br />
instante, que tinha que recolher todo aquele caldo escuro e viscoso num copo,<br />
senão, a velha me matava e me esfolava. Como a galinha.</p>
<p>O certo é que, talvez, esta minha sanha assassina tenha nascido ali mesmo,<br />
nos preparativos daquele rotineiro almoço de Domingo, no tempo em que eu<br />
ainda só bebia guaraná.</p>
<p>Foi por isso que saí assim, com aquela mesma sede de sangue que se<br />
apossava de mim nos bons tempos, sempre que uma diligência era marcada<br />
rumo ao covil de algumas destas bandidagens que infestam a nossa cidade.<br />
No noticiário da rádio Mayrink Veiga, ontem mesmo, estava dando uma notícia<br />
dessas que me arrepiam todo e fazem o meu sangue ferver.</p>
<p>O indivíduo bateu na mulher com o cabo da enxada até deixar ela desfalecida.<br />
Saiu, tomou umas três doses de &#8216;Pitú&#8217; no botequim da esquina e voltou. Pegou<br />
a enxada propriamente dita, encaixou o cabo e decepou o braço da coitada.<br />
Saiu de novo. Deixou a pobre se esvaindo em sangue e foi, de novo, para o<br />
botequim, acabar de encher a cara.</p>
<p>O guarda civil encontrou ele emborcado na sarjeta. Já entrou na rádio patrulha<br />
tomando umas porradas. Na delegacia apanhou mais do que boi ladrão. No<br />
início, anestesiado pelo goró glorioso que tomara, chegou a rir das bofetadas,<br />
ás gargalhadas, como um imbecil masoquista. Depois sossegou. A dor foi<br />
chegando e, enfim, confessou.</p>
<p>Tinha sido despedido da firma. Servente de pedreiro que era, sem eira nem<br />
beira em que se segurar, surtou mas, na surpresa do fracasso, se calou. Só foi<br />
descontar a raiva que sentia, a humilhação que o patrão o submetera, na<br />
pobre da &#8216;patroa&#8217;.</p>
<p>Pode viver um &#8216;cabôco&#8217; desses? Se pudesse, se estivesse ao alcance de minhas<br />
mãos, vocês podem crer que eu não batia só não. Eu matava.</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<p>Me chamo Brasil. Duvidam? Justino Amaral do Amoroso Brasil. Vivo repetindo<br />
a toda hora.</p>
<p>Mês passado tirei serviço no Maracanã. Nem era meu plantão mas o delegado<br />
insistiu, quase me intimou. Não queria ir. Foi aquele dia famigerado da final da<br />
Copa da maior vergonha deste Mundo. Bola pra lá, Barbosa pra cá. Gooool!<br />
Goool! Gol de Gigghia!</p>
<p>Barbosa, crioulo miserável, filho da puta. Frango de macumba. Um frango<br />
engolindo outro. Que horror.</p>
<p>Fiquem sabendo: O rádio do qual eu falava é novo porque o outro, no mesmo<br />
dia do jogo eu quebrei, matei ele, deixei mudo, para sempre. E olha que nem<br />
foi por causa da derrota do Brasil. Foi aquela notícia da terrível mancada que<br />
eu dei. Um crime idiota, tresloucado, na porta do Maracanã. Vergonha<br />
desgraçada. Foi assim:</p>
<p>Jogo acabado, os dois &#8216;Cosme-Damião&#8217; vinham vindo, espantando o povo com<br />
os seus cavalos. Era comoção geral, naquele desespero miserável, alguém bem<br />
que poderia cometer um desatino. Por isto eles vinham vindo. No trote. De<br />
repente um tiro. Fui eu. Um dos cavalos tropeçou nas próprias pernas e caiu,<br />
babando, se estrebuchando.</p>
<p>Eu tinha saído do estádio como qualquer um daqueles milhares de arrasados<br />
na praça, que éramos todos nós, naquela hora. Ouvi de longe a conversa.<br />
Alguém falava para outra pessoa:</p>
<p><em>_” Bem feito! Ficaram cantando vitória antes da hora, agora é essa choradeira.<br />
È sempre assim nesta merda de Brasil!”</em></p>
<p><em>“Merda de Brasil!” </em>Peguei no ar. Nem parei para pensar. Achei que era comigo.<br />
Puxei o revólver e apontei. Foi aí que vi a cara do soldado, não sei se o<br />
“Cosme” ou se o “Damião”. Foi Deus que abaixou a minha mão quando,<br />
naquele impulso maldito, atirei. Pou! Pou! Pegou no cavalo. Foi pior do que se<br />
eu tivesse matado um dos “Cosme-e-Damião”.</p>
<p>Perdi meu emprego ali, naquele instante do tiro. O delegado prontamente me<br />
enquadrou no xilindró e me despachou daquela boa vida que eu levava, na<br />
hora:</p>
<p><em>_”Exonerado, desgraçado! Tá exonerado a bem do serviço público! Onde já se<br />
viu? Que destempero, atirar num colega?” </em>_</p>
<p>Eu era polícia civil. 25 anos de serviço. Burro que sou acabei onde estou: Há 5<br />
meses sou capanga de bicheiro. Matador.</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211; </p>
<p>Saí de casa hoje pensando em matar uns dois ou três. Saí sim. Mas jurei para<br />
a minha patroa que vou tomar prumo. 1950 é o ano em que saio desta rotina<br />
cachorra. Ela sempre me disse que esta vida de matador é coisa de gente<br />
abilolada, recalcada, sorumbática, psicopática, sei lá como se diz.</p>
<p>Os dois ou três da lista eu já sei quem são e onde estão. Um é gerente de um<br />
dos pontos de bicho do doutor Claudionor. Tá roubando o chefe. Vai morrer.</p>
<p>Os outros são cupinchas dele. Vão para o buraco também , sem perdão. Faço o<br />
serviço na sexta à noite, quase madrugada. No Sábado durmo. No Domingo<br />
vou á feira, tomo umas cervejas e pego aquele almoço especial da minha dona<br />
patroa.</p>
<p>Vai ser galinha ao molho pardo. Posso até apostar. A danada cuida de tudo,<br />
escolhe uma bela penosa, rechonchuda, lá no aviário. A bicha já vem<br />
depenada na água fervente, limpinha, prontinha para a panela. Dona patroa<br />
confere todos os procedimentos.</p>
<p>Eu não. Não posso. Tenho trauma de matar galinha, vocês já sabem.<br />
Mas neste ano, já disse, me aposento. Aí, quem sabe, eu me destraumatizo e<br />
ainda destrincho umas gostosas penosas por aí? É como diz aquele meu amigo legista:</p>
<p><em> _”Quem viver, verá”.</em></p>
<p><strong>Spírito Santo</strong><br />
29 de Abril 2007</p>
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		<item>
		<title>Boladinho foi à luta</title>
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		<comments>http://spiritosanto.wordpress.com/2008/09/25/boladinho-foi-a-luta/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 25 Sep 2008 18:07:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Spirito Santo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura/Prosa]]></category>
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		<description><![CDATA[
Conto
Trabalho com meninos, muitos, todos os dias. Tanto que, às vezes, até me
confundo e penso que sou menino. Eles também se confundem e, das duas
uma: ou me faltam com o respeito devido, me zoando, como se eu fosse
mesmo mais um entre eles, ou me seguem, cegamente, como se eu fosse o
mais esperto, o líder deles. [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=spiritosanto.wordpress.com&blog=858935&post=708&subd=spiritosanto&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><img class="alignleft size-full wp-image-1299" title="boladinho1" src="http://spiritosanto.files.wordpress.com/2008/09/boladinho1.jpg?w=497&#038;h=331" alt="boladinho1" width="497" height="331" /><br />
<strong>Conto</strong></p>
<p>Trabalho com meninos, muitos, todos os dias. Tanto que, às vezes, até me<br />
confundo e penso que sou menino. Eles também se confundem e, das duas<br />
uma: ou me faltam com o respeito devido, me zoando, como se eu fosse<br />
mesmo mais um entre eles, ou me seguem, cegamente, como se eu fosse o<br />
mais esperto, o líder deles. O cara.</p>
<p>Acho que foi por isto que resolveram me lotar aqui, nesta delegacia, a DPCA.<br />
Este que vocês estão vendo, sentadinho ali, no banco, é um desses da rua,<br />
entre muitos, nem tantos assim eu diria. Está murchinho no seu canto, mas,<br />
não se iludam. Não é flor que se cheire. Ainda ontem, ou anteontem, esbarrei<br />
com ele na Praça XV:</p>
<p><em>_”Aí, ô tio! Dá uma força aí. Só pra mim comer um negóço.”</em></p>
<p>Fazer o quê? Paguei uns saquinhos de amendoim pra ele. Do jeito que estava<br />
com thinner e crack até na alma, não ia arrumar nada. Disse isto pra ele, mas, qual o<br />
quê. Só grunhiu meio que dizendo:</p>
<p><em>_” Qual é, tio? Tô legal. Só tô com fome.”</em></p>
<p>Quando cheguei, hoje cedo na delegacia ele já estava lá, dormindo no banco.<br />
O pessoal da noite me disse que ele foi pego no Leblon, doidão, no meio de um<br />
assalto num sinal de trânsito. Essas coisas. Tropeçou na fuga, caiu e ficou ali.<br />
Foi fácil pegá-lo. Tiveram que trazê-lo no colo. Chegou dormindo, chupando o dedinho. Só se mexeu de manhãzinha, quando alguém me chamou, gritando:</p>
<p><em>_” Detetive Ronaldo! Detetive Ronaldo! Telefone!”</em></p>
<p>Vou tomar o depoimento dele agora mesmo, antes que durma de novo, a<br />
praga. Os senhores e as senhoras esperem aqui, por favor. Não demora muito<br />
não porque é sempre a mesma história. Já sei de cor e salteado. Esta aqui é a<br />
famosa DPCA. Anh? Já falei? Pois é isto. Fiquem à vontade. Por favor.</p>
<p>Vou lá acordar o coitadinho. Dou um tapinha no ombro, de leve, só pra ele<br />
ficar esperto e espero. Ele vai me olhar meio assustado, com aquela cara de<br />
criança, que eles só mostram assim, nestes momentos distraídos, entre o sono e a morte. Vai limpar o olho remelento, me olhar com uma cara de enfado,<br />
maior do que o meu. Tédio e tudo o mais. Saco, desdém. E só aí vai se<br />
levantar.</p>
<p>Pronto. Levantou-se enfim. Licença. Vou lá interrogar a peste.</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-</p>
<p><em>_” Fala moleque. Conta aí.”</em></p>
<p>Boladinho fala:</p>
<p><em>_” Tem madame que desvia de mim que nem diabo desvia da cruz. Acreditam<br />
nessas histórias de que os dimenor carrega caco de vidro, gilete, estilete,<br />
estas coisas todas para cortar as vítima. Vítima? E eu? Sou o que então, assim magrelinho, com os cambitos fininho, andando pela rua sem que nem<br />
porque?Agora então é época. Frio. Os dente batendo igual aos de uma caveira. Os cambito estalando, um no outro, igual a dois graveto balançando no vento.</em></p>
<p><em>Tréc, tréc, tréc! Vareta de pipa sem papel, sacumé?</em></p>
<p><em>Ah&#8230; Não fui eu não! Quer dizer, pode até ter sido, mas, se foi, foi sem querer.<br />
Doidão do jeito que eu tava&#8230; De que? De thinner, sacumé? Que é que o<br />
doutor queria que eu fizesse? Cheirado eu faço coisas que até Deus duvida.<br />
</em></p>
<p><em>Abilolado, berimbolado, Faço qualquer negóço. Até com caneta Bic eu já<br />
roubei, sacumé? As madame acha que eu vou furar a goela delas e pronto.<br />
Ficam gelada, paralisada. Dão bolsa, dão relógio, dão sapato, dão óculos. Se<br />
insistir dão até as calcinha. Madame se assusta fácil. Madame vê muito filme, muita televisão.</em></p>
<p><em>A primeira vez que fui para o Padre Severino foi assim. Sorte que eu, sem<br />
querer, agredi a vítima. Cheguei no Severino cheio de moral, sacumé? Escapei de virar mulherzinha de um daqueles, mais velhos. A madame que me perdoe, mas, desta sorte, por conta de ter agredido a pobre, eu escapei.</em></p>
<p><em>E chamam aquilo lá sabe de que? De Escola! Vai entender? Lá tem corredor<br />
gradeado, tem cela, tem cama de cimento. Tem guarda com pastor alemão.<br />
Tem fuga e tem rebelião. Escola de que? Fala sério doutor. É igualzinho<br />
adonde meu pai tá guardado, Bangu 1, 2, 3, sei lá quantos Bangu tem.</em></p>
<p><em>Agora não. Tomei prumo. Magrinho do jeito que eu tô, com esta fraqueza no<br />
pulmão, no coração, não dá pra ficar tirando muita onda por aí. Uma moça aí outro dia, uma médica, doutora, enfermeira, não sei bem, me disse que se eu continuar nessa de thinner, meu coração vai estourar. Tá. Tô estoporado, mas, e daí? Thinner e crack mata a fome. Se eu não matar ela, é ela quem vai me matar, ora. Sacumé?</em></p>
<p><em>Ontem rodei na Lapa, em Copa, no Leblon e sabe o que comi? Um pedaço de<br />
pizza que estava aparecendo na borda da lata de lixo. Dividimos em três.<br />
Ainda tivemos que espantar uns vira lata, que olhavam de olho comprido pra pizza. Sai pra lá, mermão! Vocês são cachorro. Nós é gente, rapá! Sai! Sai!</em></p>
<p><em>Tô fraquinho mesmo. De vez em quando falta ar. A cabeça revira. Esta noite<br />
mesmo, lá nos Arcos, tava rindo à toa com a rapaziada, cheiradão e, de<br />
repente caí, tombei, sumi. Desmaiei ou dormi, nem sei.</em></p>
<p><em>Quando eu vejo um bichinho assim, que nem eu tô, osso só, com os olhos<br />
fundos, eu fico triste. Dou uns afagos, uns agrados, uns carinhos. Não estes<br />
vira lata de ontem. Isto não. Ali era eles ou nós. Eu digo assim, quando estou numa boa. Eu faço carinho sim. Agora, vê só essas madame. O que elas fazem? Enxotam a gente. Fecham o vidro do carro, só faltam cuspir, jogar pedra. Será que nós é bicho e elas é que são gente?</em></p>
<p><em>Pô, doutor! Medo nós também tem, mas, é gato contra rato, sacumé? A gente também tem direito de sobreviver.</em></p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;</p>
<p>O pessoal que espera olha para mim, impaciente. São como eu. Não estão<br />
muito interessados em historinhas de menores carentes, infratores,<br />
transgressores, em risco social ou em conflito com a lei. Querem uma solução<br />
das autoridades. Pronto.</p>
<p>Vocês esperem só um instantinho, por favor. Já estou terminando aqui, tá<br />
bom?</p>
<p>Boladinho, o seguinte: Vou te liberar, tá legal? Aqui é a DPCA, meu filho.<br />
Daqui, com a bronca que tu meteu, com a queixa que a madame fez contra tu,<br />
cheia de testemunhas&#8230; Vai voltar é pro Padre Severino, meu chapa. Sem<br />
choro nem vela. E lá, sabe Deus o que te espera. Tu não vale nem um picolé.<br />
Não quero este remorso na minha vida. Mas, me faz um favor. Sai da minha<br />
área, tá? Some do meu caminho. Vai à luta!</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<p>Pronto, pessoal. Detetive Ronaldo às ordens. Podem falar. Sentem-se, por<br />
favor. É queixa de assalto, não é? Já estou sabendo. Como era o moleque?<br />
Preto? Branco? Como este que saiu daqui agora? Teve agressão? Alguma<br />
vítima ferida? Podem falar. Aqui é a DPCA, Delegacia de Proteção à Criança e<br />
ao Adolescente.</p>
<p>(Boladinho saiu de mansinho. Pegou o cobertor que havia largado no chão, ao<br />
lado do banco e desapareceu. Mas antes, O detetive Ronaldo se lembrou de<br />
uma coisa essencial. Importante demais para o inquérito)</p>
<p>Boladinho! Fala aí moleque! Qual é mesmo a tua idade?</p>
<p><em>_ “Ah.. Não sei direito. Acho que uns sete pra oito. Já tô velho nesta vida,<br />
Doutor. Tchau, Valeu aí, tá? Vou à luta!</em></p>
<p><strong>Spírito Santo</strong><br />
Rio, Maio 2007</p>
Posted in Literatura/Prosa Tagged: Abrigo-de-menores, Cola-de-cheirar, Delegacia-de-Proteção-a -Criança-e-o-Adolescente, DPCA, Exclusão-social, Infancia-abandonada, menino-de-rua, Strasser-kinder, Street-kind <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/spiritosanto.wordpress.com/708/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/spiritosanto.wordpress.com/708/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/spiritosanto.wordpress.com/708/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/spiritosanto.wordpress.com/708/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/spiritosanto.wordpress.com/708/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/spiritosanto.wordpress.com/708/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/spiritosanto.wordpress.com/708/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/spiritosanto.wordpress.com/708/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/spiritosanto.wordpress.com/708/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/spiritosanto.wordpress.com/708/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=spiritosanto.wordpress.com&blog=858935&post=708&subd=spiritosanto&ref=&feed=1" /></div>]]></content:encoded>
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		<title>Os Caras</title>
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		<comments>http://spiritosanto.wordpress.com/2008/09/23/os-caras/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 23 Sep 2008 16:33:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Spirito Santo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura/Prosa]]></category>
		<category><![CDATA[bundão]]></category>
		<category><![CDATA[caras]]></category>
		<category><![CDATA[engarrafamento]]></category>
		<category><![CDATA[malabarista-de-rua]]></category>
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		<category><![CDATA[violência urbana]]></category>

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		<description><![CDATA[
Um cara:
(adrenalina a mil, trincadão, falando sem parar)
_ Aí, o seguinte: Perdeu, meu! Não levou fé e nem sentiu firmeza, né? Pensou que fosse esmola, foi? Tu tava era me achando assim um otário, um mané desses aí, qualquer nota, que estão sempre batendo cabeça, como se tu fosse um qualquer coisa dessas aí, assim, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=spiritosanto.wordpress.com&blog=858935&post=635&subd=spiritosanto&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><img src="http://spiritosanto.files.wordpress.com/2008/09/os-caras-engarrafamento_foto_de_alx2.jpg?w=497&#038;h=373" alt="os-caras-engarrafamento_foto_de_alx2" title="os-caras-engarrafamento_foto_de_alx2" width="497" height="373" class="alignleft size-full wp-image-1496" /><br />
Um cara:<br />
(adrenalina a mil, trincadão, falando sem parar)</p>
<p>_ Aí, o seguinte: Perdeu, meu! Não levou fé e nem sentiu firmeza, né? Pensou que fosse esmola, foi? Tu tava era me achando assim um otário, um mané desses aí, qualquer nota, que estão sempre batendo cabeça, como se tu fosse um qualquer coisa dessas aí, assim, importante pra caramba, um doutor desses, das colunas de jornal. Percebeu o ferro? O cagaço prateado? O argumento frio do dedo no gatilho? E aí? Vai encarar? Quer sentir o cano duro na espinha? E agora? Gelou, não foi? Apertou o fiofó? Não passa nem agulha, certo? Dá pra ver pela tua cara de bundão, sem chão onde pisar. Seu merda.</p>
<p>Achou que eu era um cara bom, do bem, mas se danou, <em>mermão</em>. Eu sou mau, mau, mau, bem pior do que um pica pau, cheio daquelas picardias passadas pelas crueldades desta vida, sacumé? Muito pé descalço e sacanagem. Rodado. Sou o que sou. Vai fazer o que?</p>
<p>Abre! Abra a porra do vidro, anda! Achou que era um moleque desses de sinal, <em>di menor </em>ainda, inofensivo, só que meio grandão, não é? Algum sujinho, imundo, pacato malabarista de limão murcho? Errou no diagnóstico da parada, tu viu a situação, assim&#8230; de forma&#8230; cumé que tu diz?&#8230;equivocada, morou? Vacilou, doutor bobão. Já era. </p>
<p>Trabalhar é o caralho! Me arrepio só de dizer este nome feio, baixo calão, chulo, palavrão. Não sabia? Pois vira esta boca rôta pra lá, rapá! Nem pensa. Li no teu olho. Deus que te livre e guarde. Nem pensa em pensar tal blasfêmia aqui, na minha frente, que eu posso até, de nervoso, raivoso, apertar o dedo em ti, e aí sim, tu babáu, morreu, seu língua solta. Vê se me tem respeito, tá legal? </p>
<p>Trabalho pra mim é chongas, palavra sem sentido. Pesadelo. Me dá ânsia de vômito só de me imaginar, cumprindo a maldita rotina de, cinco horas acordar, cinco e quinze sair, cinco horas acordar, cinco e quinze sair, cinco horas acordar, cinco e quinze sair&#8230;</p>
<p>Dia após dia. </p>
<p>Num meio tempo qualquer desses aí, aturar o mal humor da mulher caída, canhão, baranga, dragão, semi adormecida, que me acompanha na vida de cão cachorro sem vergonha que eu, se fosse um desses, levaria, perdoando o mal humor dela, por que sei que ele vem daquelas bolhas ardentes que ela carrega no punho, feito um bracelete, bolhas e bolhas de óleo respingado da frigideira preta, de toda santa madrugada fritar aquele ôvo mínimo e solitário, olhando, meio dormindo ainda, aquela porra de clara branca espalhada, aquele arroz branco empapado, achatado na marmita de tapeware esbranquiçada, aquela gema feito a coroa amarelo-dourada de algum rei de sonho, faminto rei torto do meio-dia, comendo sofregamente a sua comida, depois de cumprir metade de uma batalha de merda, sem glória nenhuma pra justificar a fome de leão.  </p>
<p>Vomito só de pensar: Tomar um banho as cinco e as cinco quinze partir, pegar um ônibus cata-corno desses, lotado, empanturrado de otários e choacalhar pela Avenida Brasil, feito um côco ensacado, num saco mal amarrado, em tempo de rolar pelo asfalto e um carro atropelar, alguém chutar. Vê só. Olha pra mim&#8230; &#8211; não, não olha não, senão tu morre, mané! &#8211; Só pensa. Pára pra pensar: Dá pra eu me enquadrar neste perfil? </p>
<p>Detesto insufilm, não deixa eu ver tua cara. Abre! Abre logo a porra do vidro, caralho! Anda!</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<p>_ Eu disse pra não olhar, pera lá&#8230;Que olhar de banda é este? Ai ai ai! Tá me esnobando, é, bebé? Tem grana aí? Já percebi. Filmei. Deu mole, mané. Ah, sim. Beleza! Então. Tanto melhor pra tu, seu babaca. Já tinha visto pela tua elegância de pato de galocha que tu é besta pra dedéu. </p>
<p>Ah, é? Não abaixa a crista não é? Então tá. Me dá, porra! Me dá logo este Mp4! O celular também! Agora! Me irritou esta pachorra tua de levantar os olhos pra mim, tipo que nem é contigo, que não te interessa a vida do otário operário que eu te contei como é que era. E se fosse mesmo eu, o tal do operário? E se fosse o meu passado que eu estivesse te contando assim, pra tu, na boa, na maior, confidentemente? Tu é frio, cara! Tu é sangue ruim, sangue de cazuza, logo se vê.</p>
<p>Tu não é um duro, certo? Não tivesses um qualquer aí, pra me dar, e ia ver só a merda em que estava se enfiando. Tiro na bunda, seu mofino filho da puta! E na cara. Duro tu seria um duro morto, agora mesmo &#8211;  Foda-se! &#8211; Diria eu. Podes crer. Pra teu governo, por isto mesmo, não se esqueça e não se iluda com a parada. Lembra que eu não sou, nem nunca fui e nem vou ser, jamais, este otário personagem bonzinho que trabalha duro. Destes que abaixam os olhos pra tu, arriam as calças pra tu, abrem a porta pra tu, servem cafezinho pra tu, que quase lambem o teu cú. Não. Não sou. Sou de outra laia. Outra qualidade, morou? Sou o bicho solto, cão-raivoso-chupando-manga no meio da noite escura do teu destino de zé mané, que é o que tu é, bundão, bundão! Bundão! Mil vezes bundão!</p>
<p>Dou mais de mil graças ao céu de não ter sido nunca, nem de longe, um panaca assim triste e obediente como tu vai ter que ser agora, na hora de me dar tudo que tu tem aí, e que de hoje em diante será do malandro aqui, que sou eu, Euzinho da Silva. </p>
<p>Tá vendo os outros caras ali, de cobertura. São os meus &#8216;Braços&#8217;? Pois é. É nóis. É eles e eu, o bam bam bam da parada, o dono de tudo aquilo que um dia foi teu. Ah, ah! Agora tu morou direitinho qual é a da parada. Morou ou não morou?</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<p>_ Perdeu meu chapa! Passa o carro. A mala, a pasta, tudo! O quê? Que documento o caralho. Eu sei que tu tem uma grana preta aí, seu, mané! É ou não é? Tu acha que eu sou ladrãozinho de celular, é? Tira o terno. Sim é isto mesmo. É isto aí. Pelado no meio da rua. Humilde, uma mão na frente a outra atrás. O quê? A rua tá escura? Alguém pode te matar? Qualé, cumpádi? Tá cheio de cupincha teu aí, nos carros. Teu dia ainda não é hoje não. Se bem que, vivo ou morto tu já foi, mané! Tu já era. Agora é nóis!</p>
<p>Tchau. Te deixo vivo por que eu sou legal.</p>
<p>Fui!</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<p>O outro cara:<br />
(em pânico. No mesmo lance, pensando rápido num jeito de se safar)</p>
<p>Puta que pariu! Fudeu! É assalto. Só pode ser. Olha só jeitão do cara, me olhando. Parece até a porra um bicho armando o bote. Caralho de sinal que não abre. Olha só o tamanho do braço do negão, meu irmão! Forte pra caramba! Um armário, tirando esta onda de pedinte de rua? Sei não. </p>
<p>Escola, nem pensar. Não tem ânimo, não tem cara de ficar afim. Deve ter fugido da sala de aula de algum Ciep morfético desses aí, há mais de dez anos. Melhor fechar o vidro e fingir que não é comigo, que nem vi. Adianta o que pagar imposto? Me digam. Não tem um policial sequer na pista. A gente que é cidadão, fica assim, inteiramente, à mercê desses camaradas  mal encarados. Nós, desamparados, sem ter em que se segurar, em que se valer.   </p>
<p>O que ele está pensando? Que eu sou rico? Pô! Imagina. Técnico de contabilidade. Um ferrado, por assim dizer. E este Pálio, velho, caquético, é de rico, por acaso? Tá na prestação. Este mês nem deu pra pagar. E se eu dissesse que eu trabalho numa Ong que ajuda pra caramba esta garotada que, como ele, tá por aí ao Deus dará? Será que cola? Tá legal. Mentira descarada. Minha mina é que trabalha nesta praia de Ong, trabalho que aliás ela detesta, coitada, mas, e daí? Quem é que vai saber? </p>
<p>Furada. Ele não está com nenhuma bolinha de tênis na mão. Nem limão. Nenhum nariz de palhaço, nenhuma flanelinha, nenhum rodinho de raspar sabão de parabrisa. O que é que ele tem ali? Parece um&#8230; é um&#8230; Ai meu Deus! Olha lá! Ele está portando um revólver, dá pra ver debaixo da camisa. Uma arma prateada. Caralho! Tô fudido!</p>
<p><em>_Tá doido! Abro! Abro, sim! Já abri, pronto! </em></p>
<p>Só mesmo dizendo pra mim mesmo: Controle-se! Segura a onda. Não faça nenhum gesto brusco. Ai que vontade de mijar. Puta que pariu. Pára de tremer, porra! Para de tremer, seu imbecil!</p>
<p>O problema da minha mina com estes caras é este aí. A verdade está aqui, na minha cara. A gente dá um montão de alternativas pra eles, dá aula de ética e cidadania, circo, teatro, música, o cacete a quatro. Explica o que é internet, word, excel, email, MSN. Tá certo, eles não tem um computador em casa, mas, e daí? Televisão eles tem, não tem? Nós também não tínhamos computador, ninguém tinha. </p>
<p>A gente ensina como elevar a auto estima desses caras que, mal sabem ler e escrever e eles ficam marmanjos e acabavam se voltando contra a gente. Ingratos. Ora, que diabo. A gente faz o que pode. Se eles não tem trabalho a culpa é de quem? Nossa é que não é. A gente paga imposto pra ter tranqüilidade e segurança. É ou não é? </p>
<p>Ai que vontade de mijar, caralho!</p>
<p>Trabalhar não quer, o vagabundo. Vai você, mesmo sem precisar, oferecer um biscatinho para um cara desses. Um serviço de pedreiro, um quintal pra capinar, umas sacolas de mercado para carregar. Pensam que ele aceita? Que nada. É soberbo. Se ofende. É o memso que xingar a mãe dele. Vai querer me bater, me matar. Afinal, alguém precisa dizer pra ele que todo trabalho é digno. A pessoa deve fazer o que pode para sustentar a família. A sociedade não pode ficar bancando vagabundo assim não. Onde é que a gente vai parar? </p>
<p><em>_Ai meu Deus! O que foi agora. Vai atirar? Vai me me matar? Calma! Calma! O que foi que eu fiz? Eu não falei. Eu só pensei. Fiz uma cara de que? Que cara? </em></p>
<p>Será que ele lê pensamento? Ai meu Deus! Mostra pra ele que eu não estou debochando de nada não. É o meu jeitão de ser. Fico assim quando estou em pânico. Pelo amor de Deus! Ai que vontade de mijar, caralho!</p>
<p>Ontem mesmo eu vi, de noitinha, uma mulher enfurnada num container de lixo catando papel, latinhas, garrafas Pet, o que pudesse. Deve vender o que arrecada à noite, pelos becos, pra poder comprar comida para levar para casa. É feio? É deprimente? Tá. É sim, mas, fazer o que? Aquele garimpo é o trabalho dela, ora. Trabalho honesto. Deus a recompensará um dia. </p>
<p>Eu mesmo, se tivesse uma situação melhor, se morasse numa Barra da Tijuca destas, da vida, pegava esta mulher e contratava como empregada doméstica. Já pensou? Honesta e trabalhadora como parecia ser. Um dia desses até carteira assinada ela ia ter. Depois, era só ir evoluindo, um aumentozinho aqui, outro ali, uma bolsa família para completar o orçamento. Ia longe a moça. </p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;</p>
<p><em>_ Não! Não! Que é isto? Não atira não! </em></p>
<p>Ai me acuda, meu Deus! Ele tá puto! Deve estar drogado. Vai atirar! Vai atirar!&#8230; </p>
<p><em>_ Tá legal, toma o Mp4, toma o celular, toma minha carteira, toma tudo logo!</em> </p>
<p>Ladrão filho da puta. Ralei feito um corno pra comprar este celular de câmera. Este Mp4. </p>
<p><em>_ O que? Não! Isto não! </em></p>
<p>Não posso nem pensar. Ele pode desconfiar.</p>
<p><em>_ O que? Tá legal. Dou a pasta. Toma. O que? A mala não! A mala não! </em></p>
<p>Ai meu caralho. O dinheiro do caixa dois da empresa. Vai me fuder a vida! Vai me fuder de verde amarelo! Como é que vai ser? O patrão vai querer que eu dê conta. Vai pensar que eu armei com a porra deste ladrão.</p>
<p><em>_ Calma! Calma! Nada de pânico. Vou sair! Vou sair do carro! Calma! </em></p>
<p>Deus me ajude que ele não me mate. </p>
<p><em>_ O terno? As calças, toma! Toma o paletó, está bom assim? Ficar só de cuecas? Nem cuecas? Puta que pariu! Quer me desmoralizar de vez, me esculachar, cara? Quem são estes caras vindo aí? </em></p>
<p>Caralho! Lotaram o carro!</p>
<p><em>_&#8230;Ei! Já vou, já vou!&#8230;Tá bom, tá bom&#8230;.Calma aí! Calma aí! Não vai não. Não vai não.</em></p>
<p>Pronto. Lá se foram.  Fudeu.</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<p>O que é? O que é vocês estão olhando. Nunca viram ninguém pelado não? Vão se fuder, vocês também. Vão todos pro caralho! Fizeram porra nenhuma para me ajudar. Ficaram aí, olhando, se cagando de medo. Mais de cem carros aí, parados, imóveis, no maior silêncio, assistindo eu me fuder, de camarote.  Olha lá os ladrões filhos-da-puta com o meu carro. Liberou geral. Parece até que sinal abriu só pra eles. Alguém aí vai testemunhar a meu favor? O senhor? Não? A senhora? Também não?  Seus escrotos! Eu sabia. Não precisava nem falar.</p>
<p>É por estas e outras que o Brasil não vai pra frente. Porra! Caralho! Cacete! Merda! Puta que pariu!</p>
<p><strong>Spírito Santo </strong><br />
Setembro 2007</p>
Posted in Literatura/Prosa Tagged: bundão, caras, engarrafamento, malabarista-de-rua, spiritosanto, violência urbana <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/spiritosanto.wordpress.com/635/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/spiritosanto.wordpress.com/635/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/spiritosanto.wordpress.com/635/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/spiritosanto.wordpress.com/635/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/spiritosanto.wordpress.com/635/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/spiritosanto.wordpress.com/635/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/spiritosanto.wordpress.com/635/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/spiritosanto.wordpress.com/635/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/spiritosanto.wordpress.com/635/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/spiritosanto.wordpress.com/635/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=spiritosanto.wordpress.com&blog=858935&post=635&subd=spiritosanto&ref=&feed=1" /></div>]]></content:encoded>
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		<title>Garça Parda</title>
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		<pubDate>Fri, 19 Sep 2008 08:05:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Spirito Santo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[
Conto
Curioso. Já havia passado por ali mil vezes e nunca havia visto aquela estátua. Túnica verde-escura, azinhavrada pelo tempo, rígida &#8211; de bronze que era &#8211; leve e diáfana porém, como se uma brisa fosse, a qualquer momento, revelar totalmente, o frêmito arrepiado das pernas lisas da outrora ninfa, hoje mulher grega amadurecida, de tanto [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=spiritosanto.wordpress.com&blog=858935&post=277&subd=spiritosanto&ref=&feed=1" />]]></description>
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<strong>Conto</strong></p>
<p>Curioso. Já havia passado por ali mil vezes e nunca havia visto aquela estátua. Túnica verde-escura, azinhavrada pelo tempo, rígida &#8211; de bronze que era &#8211; leve e diáfana porém, como se uma brisa fosse, a qualquer momento, revelar totalmente, o frêmito arrepiado das pernas lisas da outrora ninfa, hoje mulher grega amadurecida, de tanto com o cântaro ir à fonte.</p>
<p>Feia sim, mas, se via lá alguma graça, naquele jeito só seu de ser miss de maratona em desfile no Parthenon.</p>
<p>É. Linda ela não era, que as gregas destas estátuas, geralmente, nunca o são. Nariz adunco, pescoço curvo, tudo a fazê-la muito mais harpia do que garça, naquela sem-gracice toda, do feminismo lívido, às avessas, que dizem ser o das mulheres de Atenas, aquelas dos maridos ausentes, sem um <em>Ricardão </em>que seja para lhes encher de enlevo os dias, quiçá as noites de solidão.</p>
<p>Beleza mesmo só naquelas sandalinhas de tiras finas que usava, de um couro que, mesmo sendo fundido no bronze, alguma coisa de delicado tinha; como também eram delicadas as solinhas rasteiras, de mínima espessura, quase a lhes deixar o calor do chão queimar a planta dos pezinhos de fada-mulher. Quem não há de os querer ver e admirar? Quem?</p>
<p>E não é por isto mesmo que ela está ali, submissa estátua de jardim?</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;</p>
<p>Pois foi assim mesmo, saída do enlevo desta visão súbita e sensual de uma ex-ninfa de bronze no jardim, que aquela, a outra, me apareceu &#8211; sei lá de onde nem quem era, pois nem havia lhe visto rosto ainda &#8211; num susto, me pedindo, não me lembro bem o que.</p>
<p>Estava sobre os saltos toscos e imensos de um sandalhão cravejado de pregos dourados, como se calçar aquelas plataformas elevatórias, a fizesse magnífica, rainha entronizada de poderes inquestionáveis, impregnada de uma belezura qualquer, destas de magazines fashionistas. Pois sim.</p>
<p>Sem levantar os olhos ainda, as sandálias dela o que me lembravam mesmo, eram aquelas espécies de próteses que as acometidas pela poliemielite de antigamente usavam, uma perna curta outra comprida, um solado bem grossão (como o da aparição magrela), e o outro fino fininho (como a solinha da ex-ninfa estátua), a compensar o andar “<em>deixa-que-e-chuto”</em> delas.</p>
<p>Como, sem os solões, as coitadas das aleijadinhas rebolariam? Como arranjariam maridos? Sem aquela correção de nível, o caminhar delas ficava como uma destrambelhada dança de braço de roda de locomotiva, “chaca &#8230;<em>chuco”</em>, “chaca &#8230;<em>chuco”</em>, ou como aqueles toc sim, <em>toc </em>não, soando na calçada, de madrugada, fazendo a gente, meio dormindo ainda, pensar:</p>
<p><em>“_Ai!..Lá vai a coitada da solteirona aleijadinha comprar pão!”</em></p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-</p>
<p>E ela ali, com as mãos nas cadeiras, quase mesmo &#8211; ou pouco mais do que &#8211; uma aleijadinha compensada, pude perceber, quando levantei os olhos para a sua aparição esquálida e ainda estranha demais, me sorrindo um sorriso meio sem sentido, já que não havia em mim &#8211; ou no lusco-fusco cinzento daquele dia &#8211; nada que tivesse tanta graça, algo a mais, de fazer alguém sorrir, insinuante, como gatinha filhote a se imaginar pantera, felinamente, miando assim, à toa.</p>
<p>No banco da praça atônito estava, atônito fiquei, ainda sem compreender inteiras as nuances daquela visão embaçada, ouvindo ela falar coisas que eu não ouvia. Com o que ela se parecia? Cobra não. Harpia não, já que não grasnara ainda ofensa alguma, talvez por não compreender o que o fel cruel das maledicências são.</p>
<p>Onça? Não, que nada. Algum bicho pernalta talvez, pensei confuso; garça esfaimada sim, a precisar, como todas, fisgar no lago algum cardume de gerinos, engulir algum peixinho dourado mais desavisado, uma rãzinha nervosa, sei lá, alguma dessas coisas que as garças, por costume ou por necessidade, engolem quase sem comer.</p>
<p>Mas, não. Misteriosa demais, a garça era suja e pardacenta como estava o dia, e uma das coisas que sei nesta vida, é que pardacentas e sujas &#8211; as garças definitivamente, não são.</p>
<p><em>_”Quer tio? Quer tio? Eu faço!”</em></p>
<p>Não havia mão alguma estendida, pedindo um trocadinho, um real, um salgadinho. Apenas a altivez desastrada de uma criança de sandalhão, como aqueles malabaristas magricelas de sinal de trânsito, um em cima do outro, pirâmide desumana quase a se desconjuntar, desmoronar, por uns trocados. Saltimbancos maltrapilhos a trançar lançados limões murchos para o ar.</p>
<p>Por nada.</p>
<p>Isto: A altivez do sandalhão era altivez de coisa nenhuma, de estima alguma pelo que vai acontecer no outro dia, no amanhã que Deus, por certo, ao que todos os indícios anunciam, não dará.</p>
<p>A única diferença era mesmo esta: a magrela garça parda era uma meninazinha de rua.</p>
<p>De nada.</p>
<p>Tinha um sorriso maroto manchado de um barato baton carmim-melado; saiotinho também de nada, apenas encobrindo o ainda nenhum quadril. Os cambitos de coxas-gravetos marcados de lanhos, escoriações generalizadas, porém, marcas indolores de antigas quedas e rusgas, nas <em>meio que</em> brincadeiras <em>meio que</em> brigas de <em>pique-esconde</em>, <em>queimada</em>; as canelas finas, mais afinadas ainda pelos remelexos da <em>dança do Créu</em>.</p>
<p>E – Deus meu! – constrangedoramente, tremelicava a língua para mim, em meio ao tlec tlec de um chiclete gosmento que mascava (de fome mesmo talvez), macaqueando micro sinuosidades de minhoca querendo ser mulherzinha-serpente, a se pensar <em>prety baby</em>, ninfeta <em>femme fatale</em> de filme noir classe C da TV.</p>
<p>E cheirava um cheiro de tinta fresca, embora estivesse suja. Ratazana ou gata de rua? Comida de si mesma? Os olhos, engazeados por alguma inebriante coisa ruim qualquer, assustados com não sei o que, não combinavam mesmo, nada nada, com aquele sorriso de menininha meretriz de 11 anos, balbuciando já impaciente:</p>
<p><em>_”Quer tio? Quer tio? Eu faço!”</em></p>
<p>Foi quando meus olhos compreenderam naquele retrato de lolita imunda, o mundo-cão que emergia ali, daninho, matando toda a grama nova do jardim. No fundo, bem no fundo dos olhos dela, dava para se ver um determinismo de morte, ali mesmo, no interior da sua ainda minúscula imagem, eu via uma fumacinha branca de crack saindo e uma borra de sangue <em>hiv </em>positivo manchando a blusa, por todas as mazelas contaminada, sabe-se lá por que venenos picada: <em>Bauretes</em>? <em>Boquetes</em>? <em>Croquetes</em>?</p>
<p>Porco corredor curto da morte, a fumaça na chaminé de barro sem apito de fábrica de tecidos. Como naquelas imagens judias de campo de concentração – Jardim ou Campo? <em>Arbeit macht frei</em>, parecia estar escrito no portão do jardim.</p>
<p>Jardim conspurcado, o ar a nossa volta foi tomado então pelo cheiro insuportável do thinner que ela cheirara e tive náuseas; uma sensação estranha de vergonha e remorso, no meio de uma vontade enorme de fugir logo dali, o mais depressa que pudesse.</p>
<p><em>_”Quer tio? Quer tio? Eu faço!”</em></p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-</p>
<p>E fugi.</p>
<p>Passarei mais mil vezes por ali sim, pelo jardim, mas, agora com outros olhos, paixão irresistível &#8211; e escapista &#8211; que passei a sentir pelas estátuas de mulheres gregas, agora sim, para sempre lindas de morrer.</p>
<p>Platônicas. Bem longe daqui e de mim que as adoro helenas serenas, daquelas que antes ninfas meninas, tiveram tempo de crescer e se fazerem mulheres maravilhas; sem dolo, sem desconsolo; sem pressa e sem secura no canto da boca; nenhum abandono que não seja aquele de se deixar ficar, tolamente, imóveis, tal qual estátuas de Parthenon sem dono e sem mecenas, esperando num jardim qualquer os seus não menos tolos, como descritos, efêmeros e desenganados maridos&#8230;</p>
<p>&#8230;e ainda assim sem morrer de desamor.</p>
<p><strong>Spirito Santo</strong><br />
Maio 2008</p>
Posted in Literatura/Prosa Tagged: Exclusão-social-de-jovens, Infancia-abandonada, Prostituição-infantil, Spirito Santo <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/spiritosanto.wordpress.com/277/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/spiritosanto.wordpress.com/277/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/spiritosanto.wordpress.com/277/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/spiritosanto.wordpress.com/277/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/spiritosanto.wordpress.com/277/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/spiritosanto.wordpress.com/277/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/spiritosanto.wordpress.com/277/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/spiritosanto.wordpress.com/277/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/spiritosanto.wordpress.com/277/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/spiritosanto.wordpress.com/277/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=spiritosanto.wordpress.com&blog=858935&post=277&subd=spiritosanto&ref=&feed=1" /></div>]]></content:encoded>
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		<title>Parachoques do Fracasso</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Jan 2008 11:43:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Spirito Santo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura/Prosa]]></category>

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		<description><![CDATA[
Foto: Andres Bortnik
CONTO
_”Pera lá, mano! A guitarra quebrou, pô! Vou fazer o quê? Leva&#8230;Leva aí, aquele groove de baixo batera! Leva aí!”
O público se lixava. Nem se tocando para o meu drama. Já tava puto mesmo. Guitarra de merda, usada, comparada a 10 merréis ali na esquina. Queria o quê? Que funcionasse 10 anos? Tava [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=spiritosanto.wordpress.com&blog=858935&post=193&subd=spiritosanto&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><img src="http://spiritosanto.files.wordpress.com/2008/01/para-choques-guitarra_0585_copy.jpg?w=470&#038;h=347" alt="para-choques-guitarra_0585_copy" title="para-choques-guitarra_0585_copy" width="470" height="347" class="alignleft size-full wp-image-1337" /><br />
Foto: Andres Bortnik</p>
<p>CONTO</p>
<p><em>_”Pera lá, mano! A guitarra quebrou, pô! Vou fazer o quê? Leva&#8230;Leva aí, aquele groove de baixo batera! Leva aí!”</em></p>
<p>O público se lixava. Nem se tocando para o meu drama. Já tava puto mesmo. Guitarra de merda, usada, comparada a 10 merréis ali na esquina. Queria o quê? Que funcionasse 10 anos? Tava puto sim. 15 anos de banda e ainda naquele ramerrão de showzinho em cidade de interior.</p>
<p>Detesto. Um bando de mauricinho brega. O filho do fazendeiro, o filho do advogado do fazendeiro, a filha do dentista do fazendeiro. Arghh! Uma carreira de toyotas enlameados de barro, na porta do clube, me afrontando. Nós, os artistas, naquele ônibus velho, de 1980, sei lá. Meio constrangedor, não é? Tava puto sim.</p>
<p>No começo até que foi legal. Todo mundo garotão, pai e mãe bancando aquela doce aventura, dando a maior força para o sonho dos pimpolhos, naquela conversa:</p>
<p>_<em> “&#8230;Na pior das hipóteses os meninos se divertem. Melhor do que ficar aí pela rua, se  drogando”.</em></p>
<p>Papo furado de mãe. Lógico! Bullshit de pai e mãe. Vai acreditar.</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<p><em>_” Volta, porra! Volta pro palco, caralho!” -</em> Gritava o Marcão, desesperado. </p>
<p>Que voltar que nada. A platéia estava odiando o som. Aquele esporro de PA de quinta categoria. De irritar surdo. Voltar para o palco? Eu? Qual é? Sem chance. Voltar é o cacete. </p>
<p>Dois marmanjos meio punks, meio bandidos, desses que curtem heavy metal mas que, na calada da noite, adoram mesmo é Leandro e Leonardo, começaram a jogar latinhas de red bull. Na trajetória do palco, uma bateu bem na minha testa. Ah! Não teve jeito, parti pra cima.</p>
<p>Algo espirrou em mim. A chuva de latas agora já era tempestade. O barulho delas, batendo no prato splash da bateria, era apenas mais um dos sons constrangedores daquele nosso  espetáculo de erros.</p>
<p>Quem foi que enfiou na minha cabeça que eu era um músico talentoso? Quem? Meu pai? Minha mãe? Nem lembro mais. Maldita platéia de mauricinhos. As latinhas agora eram jogadas cheias. Batiam na cara do Marcão e do Pirulito, uma, duas, três. Parecia aquelas barracas de parquinho de subúrbio, com a cara do palhaço levando boladas que, se acertadas, valiam um prêmio michuruca qualquer. Um maço de cigarros, uma bolinha de plástico, um saco de jujuba. Que situação. </p>
<p>O supercílio do roadie abriu. Coitado. Sem ganhar um puto. Largou a faculdade pra seguir a banda, há 5 anos, por amor e pra quê? Pra levar latada na cara? As latas batiam e o líquido escorria na cara, na roupa da gente. Nem sei nem o que era. Cerveja? Podia ser mijo até, sei lá. Era como se eles cuspissem na gente. Cuspi também, com nojo.</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;</p>
<p>Eu, Júnior, Marcão e Pirulito. Éramos quatro.</p>
<p>Desde o início da banda, o mais lúcido dos nossos pais era o do Pirulito. Assistiu a três ensaios, caladão, num canto. Pirulito teve vergonha de dizer que ele tinha sido músico. Baterista de bossa Nova, algum troço brega aí, dos idos de 1960. Imagina. Eu nem sonhava em nascer. Mas não.</p>
<p>Agora, olhando a cara de ódio do Gordão Punk, em cima do palco, me chamando pra briga, eu tive que concordar. O pai do Pirulito tinha toda a razão.</p>
<p><em>_ “Meninos se divertindo &#8230;sem drogas”..</em>. Papo furado.</p>
<p>Bullshit de pai e mãe. Olha só pra nós. Quase trintões, trincadões de cocaína, cerveja, de cachaça com red bull. Bullshit de pai e mãe. As drogas éramos nós!</p>
<p>Aí, pronto. A porrada comeu solta. Os caras punks subiram no palco me carregando pelo cós das calças, como a um merda qualquer, dando porrada. Girei. Consegui jogar o cara para o lado da bateria, que toda desconjuntada, desabou. Plash!Splash!Prumcabragabum! </p>
<p>Júnior, o batera, se estabacou junto. Levantou e correu, fugiu para o camarim. Sumiu. Com o barulho, a platéia urrou feliz. Queriam mesmo é se divertir com a nossa desgraça.</p>
<p>Marcão, o mais sensível da banda, chorou. Tentou esconder mas eu vi, entre uma porrada e outra que o Gordão Punk dava na minha cara, eu vi, de relance, uma lágrima cortando o rosto dele.</p>
<p>Foi Marcão quem criou a banda, pensou a banda. O som.O visual. A proposta, tudo. Queria um lance assim, meio Seattle, de início. Punk Rock , cada vez vez mais Punk Rock, até se fixar  numa coisa assim mais &#8216;essência, como ele mesmo dizia, vago. Parece loucura, total, mas, no início da banda, o sonho era mesmo se mandar para os States. </p>
<p>Tocar em Seattle, Memphis! Maluquice, presunção, mania de grandeza. Mas no fundo, esse papo de &#8216;essência&#8217; era concessão mesmo. A gente sabia. Um troço assim Rock Brasil, meio barro meio tijolo, tipo embrulha e manda, visando um pouco o público, mas, principalmente, o mercado, &#8216;nacional&#8217;, é claro. Sabe como é? Senão &#8211; enfatizava Marcão &#8211; morreríamos de fome.</p>
<p><em>_ ”Seattle? Que nada. Brazuca, cara! Cai na real. Você mal sabe pronunciar y love you.” </em>- </p>
<p>Marcão falava, falava, com toda a convicção do mundo, já no final de uma reunião da banda. O pai do Pirulito, quieto no seu canto, olhava para o lado, disfarçando o muxoxo. </p>
<p>No final era isto mesmo que a gente deduziu. Era o papo que algum empresário caído arriou em cima dele, para descolar um percentual qualquer em cima da gente. E foi assim que saímos tocando por aí.</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<p>Uma porrada do Gordão, mal dada, fechou o meu olho. Abri bem o outro e acordei das lembranças. O Gordão me largou ali, meio desfalecido e partiu pra cima, logo de quem? Do  Pirulito. Gente de Deus! Ele é epilético! Se cair do palco e se machucar, o pai dele vai acabar  com a banda. De vez. Foi isto que me fez acordar.</p>
<p>Ou foi o som do baixo do Marcão que parou? Será que foi a falta daquele barulho roufenho que  me acordou? O Punk Magrão havia chutado o amp do Marcão, com tanta força, que a caixa tombou no palco, rachada de cima a baixo. </p>
<p>Com um estrondo, misturado com o esporro do feed back, o amp, que era nacional, é claro, pifou. Porra! Não falo nem a marca pra não queimar o filme do fabricante, mas, bem que merecia. Negou  patrocínio pra banda mil vezes. Tivemos que comprar a merda do equipamento à prestação. </p>
<p>O pai do Marcão, gente boa, empresário no ramo de imóveis, foi quem deu a entrada. Suamos vinte e cinco shows para pagar. Mas, agora, que se dane. Acabou. Pronto. O amp quebrou. Nem sei se vai ter conserto. </p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;</p>
<p>E a porrada comendo. Solta. Olhei para o lado e vi o Gordão Punk imprensando o Pirulito na coxia. O público, urrando, na farra, nem via que o Pirulito podia até ser morto ali, naquele canto escuro. Foda-se. Nem pensei. Peguei o extintor de incêndio e disparei na coxia. Na cara do Gordão Punk. Com raiva. Pirulito ali, como os olhos revirados, babando, aquela baba espessa, não sei se do extintor ou da epilepsia (engraçado. Pensei nisso agora. Será que me enganei? Foda-se).</p>
<p>A fumaça do extintor esguichando. Aquele chiado estridente e pronto: Pânico! A platéia maldita se desesperando. Olhei excitado, sádico. A casa estava lotada. Bombada. Estourada de gente. Foi a minha redenção. Vingança. Foda-se.</p>
<p><em>_”Incêndio! Incêndio!”</em> &#8211; Gritaram as patricinhas histéricas e os mauricinhos cagões.</p>
<p>Meu celular tremeu no bolso. Como é que ia atender no meio da confusão? Pedia licença aos punks, às patricinhas histéricas e aos mauricinhos cagões? Pedia silêncio á turba maldita para poder atender ao celular? Não. Melhor olhar o display. Pra quê? Tremi. Ai meu Cristo! Minha mãe! Aí&#8230;Pum! Foi o tempo de desviar as costas. </p>
<p>O extintor, tomado de mim pelo Gordão Punk, bateu na minha cabeça em cheio e caiu no palco, esguichando, de novo, espuma pra todos os lados. Só que, de repente o chiado parou. Subitamente. Só me lembro de ficar ouvindo uma musiquinha. Longe.</p>
<p>Não vi. Dizem que depois que eu caí, o gordão pegou meu celular e pisou, pisou, com toda vontade. O bicho não quebrou assim, logo. Ainda ficou tocando aquele toquezinho fresco, uma musiquinha do Mozart, que eu escolhi, de bobeira, só por que me lembrava de quando eu era neném. Fiquei calminho de repente. Relax. Achei que era a musiquinha. De repente, nem Mozart nem nada. Silêncio.</p>
<p>Quando acordei de vez, olhei para o lado e vi o Marcão, sentado no palco, meio zonzo, olhando para o amp quebrado, desolado. Pirulito sumira. Ah, não! Logo me deparei como ele ali, sentado   no chão do salão, atendido por um enfermeiro com o guarda pó ensebado, suadão. Que alívio. Não tinha tido ataque nenhum. A espuma na boca tinha sido do extintor mesmo. </p>
<p>O salão do clube vazio. Pra andar, tentando arrumar as idéias na cabeça e lembrar a história toda, tive que desviar das pilhas de latinhas, de copinhos de plástico, de seringas do pico dos punks, aqui e ali de umas camisinhas, calcinhas, um nojo só. Olhei pra cara do dono do clube, nosso contratante.</p>
<p>Gelei, desanimado. A cara dele estava tão feia, mas tão feia que logo vi. Nada, nem sombra de cachê à vista. Demorar muito por ali era até um risco. Ele podia ter a brilhante idéia de nos cobrar o prejuízo. Cobrar do meu pai ou, pior ainda, da minha mãe. Que sufôco.</p>
<p>O telefone do Marcão tocou. Achei que era o meu. Não era, mas, a ligação sim, era mesmo pra mim. </p>
<p><em>_” E aí mãe? O que foi?”</em></p>
<p><em>_” Nada, filho? Teu telefone só dá caixa postal&#8230; E o show? Como foi?”</em></p>
<p><em>_ ”É mãe. Maneiro. Deixamos nossa marca. Agora nós somos um sucesso por aqui”.</em></p>
<p>Não precisava nem falar, entrar em detalhes. Ela sabia entender a voz do filhão. 15 anos botando panos quentes nos meus fracassos. Me bancando. Até se divorciou do meu pai por causa de mim. A pensão alimentícia, o velho já parou de pagar faz um tempão. Sou quase um trintão, lembram? Na hora das dificuldades, nos mudamos pra Bangu. Mas ela segura minha onda. Sem reclamar. Sabe como é? Mãe é mãe, certo?</p>
<p><strong>Spírito Santo</strong><br />
Rio de Janeiro, Maio 2007</p>
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		<title>Bem-te-vi</title>
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		<pubDate>Mon, 07 Jan 2008 09:43:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Spirito Santo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura/Prosa]]></category>

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Foto de Fábio Pinheiro
Conto
Ciclotímico. Tímido e calmo de dia, de noite bicho solto, pôrra louca, pomba rolou. Às vezes o ciclo invertia e ele batia nas panelas, ainda bem cedinho, esbravejando contra tudo, despirocado, chutando o cachorro de estimação como se o pobre, o saco de suas mágoas fosse. Bizarro. Nestas horas, um horror de [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=spiritosanto.wordpress.com&blog=858935&post=169&subd=spiritosanto&ref=&feed=1" />]]></description>
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<p>Foto de Fábio Pinheiro</p>
<p><strong>Conto</strong><em></p>
<p>Ciclotímico. Tímido e calmo de dia, de noite bicho solto, pôrra louca, pomba rolou. Às vezes o ciclo invertia e ele batia nas panelas, ainda bem cedinho, esbravejando contra tudo, despirocado, chutando o cachorro de estimação como se o pobre, o saco de suas mágoas fosse. Bizarro. Nestas horas, um horror de pessoa. Verdadeiro urso no surto. Nas outras, como se diz: uma moça, um solícito e admirável amor de gente.</p>
<p>Hoje saiu cedinho, tranqüilão. Na padaria olhou, detidamente, as tortas e os pães de trança, as broas de milho, os provencianos, tudo enfileirado, enfeitiçando os olhos. Olhou com cupidez as bombas de chocolate e comprou uma. </p>
<p>Na farmácia da esquina admirou as latas de talco para bebês, os frascos de água de colônia, de alfazema, inebriado com aqueles odores e iguarias, os chocolates e os perfumes se misturando na cabeça esvoaçante de sem juízo tranqüilo que era, embora de vez em quando, já bem de uns cinco anos pra cá.</p>
<p>Só emburrava um pouco a cara quando passava no açougue. Não gostava muito de ver as mantas de carne seca, as peças de carne sangrenta estiradas no cepo, dependuradas nos ganchos, pingando. Achava macabro aquilo tudo esquartejado ali, à mostra, como uma sala de horrores. O que de pior havia ali para se ver? Talvez fossem os aventais dos açougueiros, manchados de um sangue que ninguém podia afirmar que fosse mesmo só de vacas mortas. Sabe-se lá? </p>
<p>Mas ia, tranqüilo, seguindo, dizendo para todos os conhecidos &#8211; que eram muitos &#8211; o seu delicado bom-dia, assim mesmo, por entre os dentes.</p>
<p>Cruzou com as crianças da creche já no fim da rua e, de sisudo que estava, desmanchou-se num sorriso, como se ali, o sorriso travado há cinco anos, fosse um imperativo feliz. Não tinha como impedir o riso de transbordar da boca e dos olhos. Sorriu por vários segundos e seguiu bobo consigo mesmo, de saber o quanto gostava de ver as criancinhas berrando para ele, em coro:</p>
<p></em><em>_ Bom dia seu moço! </em></p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<p>Foi meio por conta disto que o pessoal demorou um pouco a compreender o que se passava. Ouviram o tiro. Tudo bem. Tiro é coisa corriqueira. O sujeito se abaixa e se esconde, aguarda o burburinho da rua voltar ao normal. Nem reza. Nem se benze mais. O estranho é que, mesmo depois de resolvida a cena, tudo continuou suspenso, na mesma, porque, ninguém acreditou. </p>
<p>Foram dois estampidos secos, de arma automática, muito familiar por ali. Atirados pelo chão, pelos desvãos dos postes e das esquinas, o pessoal da rua não sabia muito bem como classificar a cena com ele ali, tão calmo e pacato, principalmente naquele dia, com a arma brilhando na mão, olhando o outro caído, estrebuchando e ele sorrindo, sabe-se lá de que, com o sorriso agora, novamente, preso nos beiços por um bico de assobio, um firififiu mavioso, desses com que se imita passarinho.</p>
<p>Parecia um bem-te-vi fora de hora.</p>
<p>E o outro lá, se esvaindo. A espuma da morte ainda fervilhando no esgar da boca torta, mais de incredulidade do que de dor. Nem teria podido haver mesmo dor, após semelhante tiro, certeiro, no abdome. Iria morrer logo, em menos de minuto, se muito. Nem de coitado o denominaram.</p>
<p>E ele, o algoz, a assobiar ali, tranqüilamente, não se sabe se de felicidade ou se por se achar mesmo um passarinho.</p>
<p>Pedrosegundo, o açougueiro foi quem saiu correndo do balcão, com as mãos ainda pingando aquele sangue ralo das carnes que destrinchava. Tirando, rápido, o revólver da mão do doidinho, berrou, solidário:</p>
<p><em>_Sai! Some daqui!</em></p>
<p>O farmacêutico também. Saiu correndo de seu lado, deixando as gôndolas de analgésicos a mercê de algum pequeno saque: Poucos seriam os anadores, os melhorais e as cibalenas, insuficientes seriam, certamente, para amenizar a bruta enxaqueca que o incidente provocara nas moças da rua. </p>
<p>O padeiro também. Incrédulo com o que viu pela vidraça da loja, largou uma fornada inteira de bolos de fubá no fogo. As postas de bolo, pretas, carvões redondos e roliços, iriam depois servir para confirmar o mau agouro escrito para aquele moribundo fardado, PM empertigado, conhecido como Bibelô.</p>
<p>_<em>Bibelô é enfeite. Este aí é uma maldita de uma assombração. Cruz credo. Vai, exu! Morre, peste! Vade retro! – disse o padeiro baixinho, para si mesmo, exultante, escaldado com medo de tornar pública a opinião.</em></p>
<p>Foi o padeiro também quem pegou a arma da mão de Pedrosegundo e, limpou o cabo com o avental e jogou em cima do morto, que tinha o coldre vazio:</p>
<p><em>_ É tua, a arma, não é mesmo? Tá devolvida, praga de mãe. Agora morre logo, porra!</em></p>
<p>O doidinho saiu andando, calmo como uma preguiça, assobiando, manso feito o passarinho que, ao que tudo indica, se julgava mesmo ser.</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212; </p>
<p>Não sei se por conta de ser doido, mas, o certo é que, enquanto ele andava, uma cena em flashback transcorreu na sua cabeça, de trás para frente, como um filme rodando ao contrário. E foi assim:</p>
<p>O corpo dela se levantando, a mancha de sangue sumindo, o furo na blusa sumindo. </p>
<p>O rosto dela se desescrispando, com o ferimento antes constatado. </p>
<p>O susto dos dois com o estampido, silvando no ar, com o som ao contrário. </p>
<p>O brilho da arma, instantâneo, vazando por entre os barracos, indo lá pra cima, para os lados da Boca. </p>
<p>Um brilho, que foi anterior ao outro, antes do estampido, espelhado no calafrio premonitório de quem sabia no que ia dar aquilo tudo, antes mesmo de ouvir o estampido, a sensação ruim, a premonição tarde demais para ser adivinhada como verdade.</p>
<p>Bastava juntar a cena em dèja vu com as várias vezes em que se viu Bibelô lá em cima, na Boca, doidão de tanto cheirar a cocaína de graça que consumia desvairadamente, como paga por proteger o Homem, o Chefe, de qualquer surpresa policial. Ficava lá, bonitão, a farda engomada, sempre com a automática brilhando na mão, soltando gargalhadas tresloucadas, fazendo tiro ao alvo nos cachorros, atirando a esmo como um maluco imbecil. Quem não sabia? Era praxe. Líquido e certo. Foi Bibelô quem atirou.</p>
<p>A clínica no pé do morro foi visitada porque era bem em conta. Combinaram que não iam dar mole, negligenciar com o pré-natal. Gente nova na família à vista. Primeiro filho. Sabem como é. </p>
<p>O tiro pegou a pobrezinha bem na porta da clínica, ainda com a ultrasonografia na mão. Uma tristeza sem tamanho.</p>
<p>Foi há, mais ou menos, cinco anos. O dia em que ele pirou.</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;</p>
<p>Foi Pedrosegundo, o açougueiro, quem conseguiu o advogado, um doutorzinho destes, de porta de xadrez, fazer o quê? É barato. É em conta. Bastou fazer uma vaquinha entre os muitos amigos dele, do peito, e pronto.  Custas da ação garantidas. Não deu outra: O doutorzinho, que era mesmo do ramo, quase fez o excelentíssimo senhor doutor juiz chorar:</p>
<p><em>_Excelência, data vênia, não tem nada a ver um homem como este meu cliente, estar aqui, nas barras de um tribunal. Não mata nem uma mosca esse aí. Olha lá. Vive assim, como o Sr. está vendo. Assim, assobiando feito um passarinho.</em></p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<p>Livre e solto, absolvido como se tivesse sido legítima defesa, saiu escoltado pelos amigos do peito, com o mesmo ar ausente de ave canora de sempre, realmente, alegre feito um passarinho. Nunca mais um surto violento. Para sempre calmo e tranqüilo. </p>
<p>Foi daquele dia em diante que passou a ser conhecido pelo apelido de Bem-te-vi.</p>
<p>Spírito santo</p>
<p>Julho 2007   </p>
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		<title>Vampirinhos de Shangrilá</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Oct 2007 01:34:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Spirito Santo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura/Prosa]]></category>
		<category><![CDATA[Conto]]></category>

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Conto
Anna Maria, Mariana, Maria Anna. O nome ninguém sabia direito, quanto mais o sobrenome. Morava para lá da terceira porteira das terras dos Molevade. Bem pra lá. Certeza só se tinha uma: Era pobre, porém, pura. Toda a família jurava, todos diziam. Imagina se não?
Cidade de interior. São João Moreira de Shangrilá. A plaquinha na [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=spiritosanto.wordpress.com&blog=858935&post=70&subd=spiritosanto&ref=&feed=1" />]]></description>
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<a rel="license" href="http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/2.5/br/"></a><a rel="license" href="http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/2.5/br/"><br />
<img alt="Creative Commons License" style="border-width:0;" src="http://i.creativecommons.org/l/by-nc-nd/2.5/br/88x31.png" /><br />
</a></p>
<p><strong>Conto</strong></p>
<p>Anna Maria, Mariana, Maria Anna. O nome ninguém sabia direito, quanto mais o sobrenome. Morava para lá da terceira porteira das terras dos Molevade. Bem pra lá. Certeza só se tinha uma: Era pobre, porém, pura. Toda a família jurava, todos diziam. Imagina se não?</p>
<p>Cidade de interior. São João Moreira de Shangrilá. A plaquinha na estátua dizia: &#8216;padre<br />
capuchinho português morto nas montanhas do Nepal por soldados chineses em 1952&#8242;. Os beatos mais velhos rogavam pragas contra os &#8216;amarelos&#8217;, todos os dias e todas as noites, em ladainhas sem fim. Claro. Cidade católica apostólica romana, a mais não poder. Queriam o quê, que espumantes de raiva, esbravejassem contra os chineses, aos palavrões?</p>
<p>Todos os homens também eram puros &#8211; puros não, que isto por ali era coisa de invertidos, de duvidosos -, honestos, corretos, beatos, por assim dizer, isto sim. O prefeito, por exemplo, era um santo homem, Dr. Luiz Santoza. Todos os vereadores, tanto os da família Santoza quanto os da família Molevade o eram, beatos todos. Para encurtar a novela, ali eram filhos de Maria todos os políticos a partir de 1964, o ano da canonização de São João de Shangrilá, o tal santo padroeiro.</p>
<p>Antes disso ninguém conta como eram ou o que eram as pessoas. Só se sabe que a cidade, antigamente, se chamara Portão do Desterro. Nome triste, medonho que, por conta de ser coisa do passado, ninguém ousava explicar de onde vinha. Com que então, se o passado de São João de Shangrilá era um completo mistério antes daí, cuidemos, pois, do futuro, que é coisa certa, que a Deus pertence.</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;</p>
<p>O futuro é do Moço Bom, João Molevade Filho, que passeava por aí sem moto, sem carro e sem avião. Tinha isto tudo, mas, não, curtia a rua de todo mundo, como se diz: como mais um entre os que têm o pé no chão. O melhor amigo dele era quem? Maculeba, o artesão da praça, um negão hippie, sujo, imundo, um carvoeiro de madeixas rastafári, um mendigo inteligente, por assim dizer. Falava com todo mundo, o Moço Bom, fazia festa para os meninos e os cachorros. Gente fina, este filho do senador João Molevade, o fazendeirão do lugar.</p>
<p>Ultimamente andara sumido, meses a fio. Cochichava-se, mas, ninguém falava coisa que se pudesse acreditar. Gente pura não especula para o mal.</p>
<p>_’ Tá lá no Rio de Janeiro! &#8216;-</p>
<p>Diziam como única certeza vaga, porém, verdadeira. Voltou magrinho, de olhos fundos, esquisito como não sei o quê. Vestindo uma roupa preta, botas pretas, tudo preto. Tinha até umas riscas pretas, embaixo dos olhos, como rímel de mulher.</p>
<p>Todo mundo reparou, é claro, olhando de banda, a estranha reaparição do Moço Bom. Só as donzelas de Shangrilá falaram, condoídas. As mais afoitas afirmando, convictas:_ &#8216; Virou noites e noites, o coitadinho. Tentou de novo o vestibular!&#8217;</p>
<p>_ &#8216;Vai ser médico &#8216;- suspirava a outra</p>
<p>&#8216;Médico não, Doutor! Diretor do Hospital!&#8217; &#8211; Enfatizava a mesma, delirante.</p>
<p>Magro. Diferente demais do Joãozinho Molevade de antigamente. Andava agora como um<br />
estrangeiro, sem falar com ninguém. Macambúzio, olhando para o chão ou para os lados, nunca para algum lugar. Procurando alguma coisa na própria cabeça. Maculeba, vivido, escolado, maldou logo de saída.</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-</p>
<p>Certo dia, aquela (a quem, por falta de uma certeza, vamos chamar a partir de agora, de<br />
Marianinha) deu de emagrecer também, assim, a olhos vistos. As bochechas brilhosas sumiram. Ficaram só duas covas fundas, macabras, vazias como sepultura de desencarnado ressuscitado. É por isto que ver os dois juntinhos, feito carne e unha, pra baixo e pra cima, pela rua afora, foi um pouco uma surpresa sim, mas, não tanta. Moço Bom com Moça Pura, afinal, é tudo que a sociedade de São João Shangrilá pode querer e merecer. É alvissareiro. É bonito. Serve para asseverar que a cidade também é pura.</p>
<p>Além do mais, isto de Moço Rico com Moça Pobre ser pecado mortal, já foi tempo. Isto foi na época do &#8211; cala-te boca &#8211; Portal do Desterro, naquele tempo em que o povo não sabia o seu lugar.  Agora não. Nascendo bebê, a família da moça acoita. Não nascendo, melhor ainda porque, não haveria nenhum risco do Moço Rico ter que casar.</p>
<p>Mas não. Preocupação à toa. Não namoravam, não beijavam. Além das mãos dadas, os ois nem se tocavam. Andavam só, pra baixo e pra cima, dia e noite &#8211; principalmente noite &#8211; olhando para cá e para ali como doidinhos.</p>
<p>Duas caveiras ambulantes é o que pareciam. A mãe dela, o pai, as tias, todo mundo se remoendo. Puros que eram, conjecturavam, conjecturavam, mas, não entendiam nada. Seria alguma paixão destas de secar rio? Seria definhamento de amor? A juventude era mesmo de uma estupidez sem tamanho, concluíam.</p>
<p>O certo é que o apelido que Maculeba dera, naquele seu jeitão franco de ser, foi se espalhando, se espalhando, como fofoca num rastilho, até estourar um dia, na manchete do jornal &#8216;A folha do Vale&#8217;, o tablóide da cidade:</p>
<p>_ ‘Extra! Extra! Vampiros em Shangrilá!&#8217;</p>
<p>Maldade de Maculeba, se sentindo ignorado pelo amigo. Se o fossem, não passariam de vampirinhos lânguidos, românticos. Perigo nenhum. Imagina?</p>
<p>Quantos contos não inspirariam? Quantas redações de grupo escolar? Já se falava até numa minisérie na TV da capital, num filme francês, num best seller. Mas, não teve jeito. O caso, de rumoroso, se complicou e desembestou pela ladeira da tragédia abaixo.</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-</p>
<p>Primeiro foram as galinhas, que apareceram murchas, só ossos e penas, como sacolas de<br />
plástico vazias, porém, andantes. Depois um cabrito e um porco da fazenda, também definharam  sem morrer. O cachorro do dono da farmácia da praça, pronto, também. Uma fauna enorme de bichos magrelos, chupados feito laranjas, bagaços circulando por aí.</p>
<p>&#8216;É Chupa Cabras!&#8217; -</p>
<p>Gritou Maculeba, maldoso. Mas, como se os seres continuavam vivos e, com as veinhas cheias de sangue, intactos?</p>
<p>_&#8217; Lobisomem!&#8217; -</p>
<p>Gritaram as tias da moça, desesperadas (Para elas, o Moço Bom já estava mesmo era passando da conta, cabendo mais na pele de um Coisa Ruim, de um Tinhoso)</p>
<p>Mas como, se os magrelinhos todos, bichos e gente, andavam no sol a pino, de dia, sem pelos nas ventas, sem dentes afiados, sem garras, sem nada de lobo, só a magreza de faminto aparecendo? Seria alguma doença, uma epidemia, talvez?</p>
<p>_&#8217;Isto. Uma doença! -</p>
<p>Dizia o dono da farmácia, olhando o fundo dos olhos do pobre do cachorro.</p>
<p>_&#8217;Sim, mas, que doença seria esta, meu Deus?&#8217;</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-</p>
<p>Dez dias depois. O senador, pai do Moço, sumiu há dias. Saiu com a camionete, intempestivamente.</p>
<p>_&#8217;Foi à capital! &#8216; &#8211; Disse o capataz, apreensivo com alguma coisa que não quis dizer.</p>
<p>Antes dele partir, na casa estivera a mãe do moço, uma mulher de meia idade com cara de sirigaita, bruxa, com o cabelo pintado de louro e a boca esticada como o bico de uma pata, os olhos tão apertados pela cirurgia plástica, que lembravam, imediatamente, os olhos dos tais chineses que mataram o pobre do padre João Moreira lá no alto do Nepal (a descrição maldosa, foi feita por Maculeba que odiava a madame mãe do Moço Bom, mas, em consideração ao amigo, se recusava dizer porque).</p>
<p>O capataz contou que ela revirou o quarto do garoto e achou o que já sabia: Umas pílulas verdes que ele trouxera da cidade. Reviraram o quintal e acharam mais pílulas, espalhadas pelo chão, pelo cercado dos porcos, pela grama enfrente da casa, no fundo do açude. Brigaram, aos berros, os dois. Depois choraram. O capataz os viu saindo na camionete, ainda com a noite alta, sumindo de Shangrilá. O capataz, por via das dúvidas, sumiu também. Além dele, só Maculeba, o mais esperto de todos, também partira. Lógico. Já disse. Maculeba maldara tudo, desde o início, estão pensando o quê?</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;</p>
<p>Ontem as luzes da cidade ficaram acesas durante toda a noite. Hoje também. Já eram muitos, centenas de magrelinhos zumbis. Primeiro todos os jovens da cidade, cinzentos, com os rostos encovados, foram aparecendo, saindo de suas casas, de cada canto de Shangrilá, até das fazendas mais distantes. Foram se amontoando na praça, em torno do Moço Bom e da Moça Pura, líderes aparentes daquela esdrúxula seita dos vampirinhos de Shangrilá.</p>
<p>Os bichos magrelos em volta deles, a cacarejar, a balir, a latir e a grunhir. Uma sujeira enorme, de tudo que é dejeto, largado, esparramado pelo chão. Os porcos, sem cerimônia, cercaram a estátua do coitado padre João Moreira, como se ela fosse um chiqueiro. Antes cagado só pelos pombos, o mártir ficou lá, embostalhado, mais martirizado e humilhado, do que o foi nas montanhas do Nepal.</p>
<p>Logo logo, a cidade inteira estava tomada por aquela mazela sem explicação. Pais, mães, tias, todos foram se tornando magros e cavernosos. Com a sabedoria das tias, da magreza, soube-se logo o motivo: É que, com a doença estranha, que a todos contaminara, ninguém comia, só perambulavam, atrás do Moço e da Moça, sabe-se lá por que.</p>
<p>O mercadinho &#8216;Que Barato&#8217; já não funcionava. Não se comprava mais nada. O primeiro jornalista que chegou de uma cidade próxima, para cobrir o estranho incidente, sóbrio, percebeu que todos procuravam por pílulas verdes, mas, não entendeu muito bem do se tratava. É que as pílulas haviam sumido. Ninguém sabia quem tinha, uma delas sequer, para vender.</p>
<p>Fanhão, o dono do mercadinho, tentou se aproveitar da situação e mudar de ramo. Quiz entrar no negócio das pílulas, naquele empreendedorismo afoito dos espertalhões. Deduziu, de pronto, que o Moço Gente Boa, devia saber onde encontrar tão ansiada mercadoria. Ah! Como se arrependeu, amargamente.</p>
<p>Logo no dia seguinte apareceram aqueles caras mal encarados, vestidos de preto, vindos não se sabe de que lugar. Deram uma carraspana tão bem dada em Fanhão que ele sumiu no espaço, se escafedeu do lugar. Nem o mercadinho ele fechou. A loja ficou lá escancarada, as gôndolas cheias de ratos guinchando, únicas criaturas da cidade a quem as tais pílulas não interessaram, ou não apeteceram.</p>
<p>O cheiro das mercadorias podres no mercadinho &#8216;Que Barato&#8217; exalava, assim, por toda a pracinha, sem ninguém se importar ou se dar conta. Até que um dia a camionete dos mal encarados, de repente, partiu da cidade, sem quê nem porquê. (Esta Maculeba não podia perder, mas, Deus – ou Jah &#8211; sabe o que faz. No final das contas,veremos quem acabou ganhando.)</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;</p>
<p>Enlouquecido de anseios, fissurado, desesperado, o povo se estapeava pelas ruas. Uns querendo porque querendo, uma poeirinha que fosse, daquela maldita bolinha de felicidade. Daquela sanha foram saindo aos poucos, caindo num torpor de ex-bêbados na ressaca. Do torpor, caíram num sono pesado, quase igual à morte. Acordaram aos poucos, uns tontos, outros pasmos. Foi aí que os menos tontos se deram conta de tudo: Não existia mais São João Moreira de Shangrilá!</p>
<p>Os ratos e os mal encarados haviam destruído, levado tudo de roldão. Os últimos a despertar foram os jovens, que vagaram ainda, por horas a fio, olhando desolados<br />
para o que Shangrilá havia se transformado. Cidade chupada, sugada, com covas fundas na geografia, suja e cinzenta, igualzinho ficara a cara dos vampirinhos. Cidade zumbi.</p>
<p>A Moça Pura e o Moço Bom haviam desaparecido também, misteriosamente. Alguém achou que os viu na camionete, partindo com os mal encarados sabe-se lá para que lugar. Achar que viu, contudo, não é ter certeza. Só se sabe que se esvaíram, como esvaíram-se suas carnes, quando emagreceram. Evaporam. Nem vampiros agora eles eram mais.</p>
<p>Muito menos de Shangrilá.</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;</p>
<p>No outro dia o pai do Moço Bom voltou á cidade. Trouxe o resultado da investigação sobre a origem das pílulas. Elas vinham de uma fábrica enorme, na capital. Estão sendo distribuídas por todo o país. Começam pelas grandes cidades, dando as pílulas para uns, que vão dando para os outros, até que todos, inebriados, dependendo delas para sobreviver, abrem mão de tudo, até mesmo ou quase, da própria vida. Os donos da fábrica são figuras notórias, mas, ninguém ousa proferir seus nomes. Não são Santoza nem Molevade, pelo menos isto se pode dizer. Os Santoza e os Molevade- relembrem &#8211; são todos puros.</p>
<p>Como o nome Marianinha, o nome real da tal pílula também ninguém sabia. Se alguém descobriu, decidiu também omitir. Podemos dar-lhe qualquer nome então. Vamos chamá-la de Pílula Verde da Felicidade Geral da Nação: Pivefegena</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-</p>
<p>Da cidade vizinha já chegam alguns rumores sobre a chegada de vampirinhos, mas, o povo de Shangrilá, irrecuperável, não vai alertar os vizinhos sobre o que virá depois. Afinal, o que virá depois eles também querem: Bolinhas da felicidade. Pivefegena.</p>
<p>A cidade vizinha é a minha. Rezem por mim. A me valer, talvez, só mesmo Deus ou, quem sabe, o bondoso e valoroso São João Moreira de Shangrilá!</p>
<p><strong>Spírito Santo</strong><br />
Junho 2007</p>
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