Centro Cultural Pequena África

•Agosto 28, 2009 • Deixe um comentário

PedraDoSal_02 Ivo Korytowski

(Só como introdução um papinho de nada: Ruben Confeti é quem comanda a casa, a roda de samba que rola por lá e mais o que estiver no contexto. É coisa mesmo para se espalhar aos quatro cantos, com o melhor dos incensos)
Leiam, por favor, com a alma livre:

(Extraido do site do CCPA)

A Pequena África

Nome dado por Heitor dos Prazeres a uma região compreendida pela Zona Portuária do Rio de Janeiro, Gamboa, Saúde onde se encontra a Comunidade Remanescente de Quilombos da Pedra do Sal, Santo Cristo, e outros locais habitada por escravos alforriados e que de 1850 até 1920 foram conhecidos por Pequena África.

No final da década de 1770 o Marquês de Lavradio transferiu o porto e o tráfico Africano para o Valongo, para evitar o espetáculo da chegada de milhares de seres humanos quase nus, com mulheres e crianças impressionando pelo seu alvoroço e quizumba no centro de uma cidade que deveria ser uma colônia européia no meio dos trópicos.

Muitos escravos chegavam com graves doenças, decorrentes muitas vezes das péssimas condições dos navios negreiros e eram enterrados ao largo de qualquer terreno na freguesia de Santa Rita. Há vários assentos de óbitos desta freguesia em que centenas de africanos recebiam apenas marcas geométricas como identificação. Caminhamos sobre ossos africanos em muitas áreas da freguesia de Santa Rita. Somos estes ossos e esta carne.

Os nossos irmãos africanos que eram trazidos nos porões de navios negreiros como escravos para o Brasil, desde o período colonial, tinham como primeiro contato com as terras do Estado do Rio de Janeiro, o que é hoje a chamada Zona Portuária. Os navios negreiros aportavam na Gamboa. Na altura da Pedra do Sal, perto do Largo da Prainha, onde funcionava o mercado de escravos (Valongo), onde os negros africanos eram comercializados e de lá saíam direto para o trabalho escravo nas lavouras. Calcula-se que 12 milhões de africanos foram trazidos para o Brasil, retirados à força de suas nações, e um número bastante significativo, não resistiam aos suplícios da viagem e chegavam desnutridos ou com feridas infectadas pêlos castigos das chibatas ou pelos cortes dos instrumentos de ferros que os prendiam nos pulsos, pescoços e tornozelos, o que invariavelmente os levavam à morte. Eram colocados em valas comuns e depois queimados.

Em 1996, durante as obras de reforma da casa de número 34 da Rua Pedro Ernesto, na Saúde, foi descoberto um cemitério de escravos. O espaço passou a ser conhecido como Cemitério dos Pretos Novos.

A situação do negro no século XIX sofreu várias mudanças no Brasil – a Lei do Ventre Livre, a Lei do Sexagenário, a própria Abolição, tudo fruto da luta pelo fim da escravidão -, de modo que, contraditoriamente, havia grupos de negros livres e grupos de negros escravos. A Pedra do Sal, aos poucos, foi também mudando. Antes, a área que servia de palco para a comercialização dos escravos passou a ser ponto de espera dos navios que traziam negros libertos, amigos e familiares de ex-escravos, a maioria vinda da Bahia, que, no final do século XIX, amargava uma forte decadência nas plantações de cacau e café. Vieram também para o Rio de Janeiro: escravos que participaram do levante dos Malês, singular acontecimento que teve lugar na Bahia em 1835, instalou-se na atual Barão de São Felix, um grande contingente de negros que participaram da Guerra do Paraguai, encerrada em 1870, e egressos do massacre de Canudos que se estabeleceram no Morro da Favela, hoje Providência.

A região portuária do Rio entrou num intenso processo de transformação social e cultural. Os negros que aqui chegavam reconstituíram seus valores culturais, misturando-os. Estávamos diante da consolidação da Pequena África. Seus moradores tiveram participação importante em episódios históricos como a Abolição da Escravatura, a Revolta da Armada, as greves operárias contra os maus tratos e pela redução da jornada de trabalho, a Revolta da Chibata, a Revolta da Vacina, entre outros. São momentos da história do Brasil em que se destacaram figuras como João Cândido, o Almirante Negro – Dom Obá II, Prata Preta e diversos líderes dos trabalhadores da orla portuária. A concentração de negros na região permitiu a retomada de uma cultura própria ou o que alguns pesquisadores preferiram chamar de cultura negra carioca.

A Sociedade dos Moços Pretos, fundada por Cândido Manoel Rodrigues, por volta de 1867, que se transformou no ano de 1905 em dois poderosos Sindicatos, que tiveram como homens fortes: Elói Antero Dias (Macaé) – Sindicato dos Arrumadores – e Ézio Cruz – Sindicato dos Estivadores – foi uma medida que deu impulso econômico a milhares de famílias negras. Foi no entorno da Pedra do Sal que Donga, João da Baiana, Heitor dos Prazeres, Aniceto do Império e Pixinguinha, entre outros, se reuniam para cantar e compor sambas. Na Gamboa, década de 30 do século XX, foi fundada a Agremiação Recreativa Escola de Samba Vizinha Faladeira que se tornou famosa por ser considerada a mais rica e inovadora escola de samba da época. A Pedra do Sal era ponto de encontro também de capoeiristas. Vale lembrar: a Escola de Samba Império Serrano surgiu basicamente do trabalho coletivo dos estivadores que circulavam pela região portuária e que alguns deles passaram a morar nas adjacências de Madureira.

O Candomblé, implantado no Rio de Janeiro pelo pai de santo Baiaco vindo da Bahia, em seus terreiros, na virada dos séculos XIX e XX, simbolizavam um espaço dos negros com as suas raízes religiosas. A elite branca proibia o batuque e perseguia os sambistas, considerados marginais. A casa da região mais famosa e freqüentada na época era da Tia Ciata, a baiana Hilária Batista de Almeida, que, em 1876, com 22 anos de idade, veio para o Rio de Janeiro em busca de uma vida melhor, para fugir da perseguição policial contra os terreiros em Salvador. Sua casa, que ficava na altura da atual Praça Onze, atraía os iniciadores do samba. E não sofria mais perseguições. E há explicação para isso: certa vez, o presidente da República Wenceslau Braz ficou com uma ferida na perna que nenhum dos seus médicos conseguia curar. Então, um policial que freqüentava a casa de Tia Ciata lhe pediu que tratasse do presidente. Ela recomendou uma pasta feita de ervas e, três dias depois, Wenceslau estava curado. A casa de Tia Ciata passou a ser respeitada pelas autoridades.

Esse é apenas um breve relato do que era a Pequena África.

O Centro Cultural Pequena África tem como seu objetivo principal resgatar e preservar os valores históricos e culturais e celebrar algumas personalidades que foram vitais nas questões da ancestralidade, solidariedade e cidadania da antiga Pequena África, como ficou conhecida a região que hoje abriga os bairros da Saúde, Gamboa, Santo Cristo e parte do Centro, primeira morada dos africanos e seus descendentes que chegaram ao Rio de Janeiro.

Nesta sua fase embrionária o Centro Cultural Pequena África vem realizando encontros periódicos, exaltando as lideranças acima citadas, através de rodas de samba, filmes de curta-metragem, depoimentos de pessoas que circulavam e se beneficiaram das ações dos nossos celebrados, num processo de resgate para a valorização da história e da cultura do Rio de Janeiro e do Brasil.

Trata-se de um trabalho de resistência, que precisa do seu apoio.

Como objetivos o Centro Cultural Pequena África tem:

1- Entidade sem fins lucrativos com o objetivo de pesquisar, registrar, promover a história e movimentos sócio culturais dos afro-descendentes que se estabeleceram na região da zona portuária do Rio de Janeiro.

2- Implantar um centro de convivência para recuperar a auto-estima da população local com atividades de arte-educação, de lazer, de saúde preventiva e de qualificação profissional.

3- O prédio abrigará: Teatro multiuso, salas de aula, centro de informática e internet (em convênio do CDI – Comitê de Democratização da Informática), cine clube, galeria de arte, restaurante e cafeteria, centro de documentação, pesquisa e ponto de cultura.

4- Programas de qualificação profissional para jovens e adultos, cursos de atualização para terceira idade, cursos de arte-educação com oficinas de teatro, dança e música, oficinas de vídeo e audiovisual.

5- Estabelecer convênios com os sindicatos dos trabalhadores e ex-trabalhadores do Porto do Rio, Organismos Nacionais e Internacionais, Governos Federal, Estadual e Municipal, Universidades, Escolas Técnicas, Centros Culturais.

6- Produzir livros, trabalhos acadêmicos, discos e vídeos que registrem a história dos afro-descendentes desta região do Rio de Janeiro até os dias atuais.

7- Promover ação de saúde para jovens e idosos da região.

AQUATICÓPOLIS: O primeiro Samba enredo ninguém esquece

•Agosto 22, 2009 • Deixe um comentário


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Aquaticópolis
Experiencia punk, pancadão mesmo, sem preço nem perdão:

Laércio (ex integrante do Grupo Vissungo) compositor parceirão de longa data, me telefona solicitando apoio numa missão quase impossível, destas que a gente só se atreve a pedir aos amigões do peito: ‘Consertar’, ou seja re-compor decorar e gravar um Samba-Enredo para uma escola de samba. Prazo: 24 horas para fazer tudo isto (a gravação já estava agendada para aquela mesma noite).

Ai Deus! O que não se faz pelos amigos do peito?

Frio e calculista como um algoz de amizades, Laércio me deixa uma fita K7 e um velho ‘micro system’ (Laércio é um cara destes das antigas).

Na fita o rascunho do samba meio alinhavado e duas páginas da sinopse de um enredo oceanográfico-tropicalista-psicodélico (urdido pelo festejado carnavalesco Paulo Barros), excelente para uma matéria academico- científica, uma tese de mestrado ou coisa que valha, mas – pensei eu, apavorado- nunca jamais em tempo algum como inspiração para um samba.

(Cá entre nós, à minha veia pesquisadora ocorreu que estes incríveis criadores de exuberantes cenografias sambísticas, geralmente artistas plásticos por formação, engendram os seus temas pensando apenas no potencial imagético da coisa, nas doideiras cenotécnicas que inventarão, nos ‘ganchos’ que renderão as imagens da letra do Samba, meras justificativas para os carros alegóricos estrambólicos, surpresas hollywwodianas, pirotecnias high tech e outros trecos e efeitos especiais.

A carroça na frente dos bois, na acepção da palavra.)

Ao pobre do compositor caberia apenas a missão esquizofrênica de transformar aquela tese imagética em algo levemente musical. Coisa para crioulo doido nenhum botar defeito!

É claro que as qualidades estritamente musicais do Samba contam, mas não se exige mais nada que lembre, nem de longe, os tempos melodiosos dos Silas de Oliveira, dos Paulos da Portela, dos Cartolas

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Enredo e Samba.
Para quem nunca se ligou, vale aqui a dica tipo ‘Você sabia’?:

A utilização de um Enredo, um tema para os desfiles, na origem, não tem nada a ver com as Escolas de Samba. É coisa que remonta o tempo dos Ranchos Carnavalescos.

Os enredos clássicos, historiográficos (que seja dito: baseados numa história oficial, ‘chapa branca’) são do tempo do Estado Novo e foram uma coisa de inspiração fascista – ‘getulista-chavista’ por assim dizer – ingerência do Estado nos desfiles, fase na qual – vade retro! – como se sabe, o crioulo sambista do Stanislaw endoidou de vez.

Daí teve a fase da exaltação à negritude (também ‘oficial‘, bem entendido), coisa ali dos anos 70/80 e, finalmente a fase atual onde o que motiva tudo (se me permitem o leve veneno) é o caráter espetaculoso, kitsch-broadwaydiano da história, muito mais ‘fru-fru’ visual para inglês ver e menos Samba.

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Pensei honestamente em fugir para Madri, para o Piauí, declarar a minha irrevogável incompetencia sambística, grunhir uma rouquidão inventada, mas qual o que, como um Mercadante de botequim desisti da idéia. Laércio não se convenceria jamais. Ele sabia muito bem que eu morderia a isca com frio na espinha e prazer.

Pois foi assim que, amante inveterado dos desafios culturais mais suicidas deste mundo mergulhei de cabeça na AQUATICÓPOLIS!

Afinal um cara que vive pesquisando e escrevendo sobre Samba, arrotando discutíveis saberes e inconveniencias por aí, não podia refugar semelhante chance de estar na, digamos, linha de fogo, na frente de batalha, no âmago efervescente da questão. O Resultado está aí em baixo para quem quiser ouvir.

Como todos poderão observar, depois da gravação alteramos algumas coisitas ou outras da letra mucho loka que deu na nossa telha (mais na telha do Laércio, devo confessar). É que, mesmo mortos de medo de fugir do exigente e fundamentalista carnavalismo da sinopse, querendo ser um pouco mais fiéis à melhor poética, cortamos os verbetes mais escalafobéticos, redundantes ou atropelados na rima.

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Na madrugada de anteontem, eufórico como um guri com pipa nova, subi no palco com dois ‘cúmplices’ (Black Out, um experiente ‘puxador’ de samba enredo ‘profissional’ e meu parceirão mui amigo Laércio, para defender o tal composição apoplética.

Quando a bateria atacou, furiosa, quase atingi o nirvana mais absoluto. Encarnei o Crioulo Doido mais maluco – como diria um samba destes qualquer – com enorme sofreguidão.

A letra cometida é esta aí em baixo (não nos exijam, por favor uma poética assim menos…utilitária do que a que nos foi exigida pelo emérito carnavalesco. Entendam que já não cabe muita poesia numa hora destas).

Cantem por aí então (ouçam a gravação aqui), antes que a comissão julgadora enterre os nossos ledos sonhos de ver nosso primeiro Samba-enredo sendo cantado na Marques de Sapucaí:

Aquaticópolis
Laercio Lino e Spírito Santo
Gres Renascer de jacarépaguá
Carnaval de 2010 – Carnavalesco Paulo Barros

“Nasceu na imaginação do poeta
a fábula de Aquatinópolis
metrópole bio-marinha refletida
num espelho d’água brilhante
num burbulhar esfuziante
morada de seres exóticos do mar

Moluscos, crustáceos, anfíbios
algas, aguas vivas e corais
humanóides com membranas e guelras de ar
numa bizarra civilização
na Renascer de Jacarépaguá

II
Nesta cidade fantástica
com problemas sociais
comércio, indústria, setores de progresso
maltratando as riquezas naturais

Aquatinópolis via em harmonia
mas foi sacudida pela desordem
a ganancia e a ambição
criando ondas de violencia e poluição
a tecnologia gerou a ‘internautica’
para ajudar o aquopolitano cidadão

Mas o Deus dos mares é bom
e a noite tem cultura até o cais
moda e lazer, e a onda agora é navegar
entre cardumes bioluminosos sensuais

Aquobrilhando e sambando na aquofolia
num banho de mar à fantasia
Aquobrilhando e sambando na aquofolia
num banho de mar à fantasia

(Refão)
Tudo muda, tudo passa tudo passará
ontem não é hoje amanhã não mais será
a Renascer carnavaliza o fundo do mar.”

(Obrigado bateria!)

Spírito Santo
Agosto 2009

“Nosso racismo é um crime perfeito”

•Agosto 20, 2009 • 2 Comentários

kabengele

Entrevista com o prof zairense Kabengele Munanga por Camila Souza Ramos e Glauco Faria [Terça-Feira, 18 de Agosto de 2009 às 15:15hs]

Fórum – O senhor veio do antigo Zaire que, apesar de ter alguns pontos de contato com a cultura brasileira e a cultura do Congo, é um país bem diferente. O senhor sentiu, quando veio pra cá, a questão racial? Como foi essa mudança para o senhor?
Kabengele – Essas coisas não são tão abertas como a gente pensa. Cheguei aqui em 1975, diretamente para a USP, para fazer doutorado. Não se depara com o preconceito à primeira vista, logo que sai do aeroporto. Essas coisas vêm pouco a pouco, quando se começa a descobrir que você entra em alguns lugares e percebe que é único, que te olham e já sabem que não é daqui, que não é como “nossos negros”, é diferente. Poderia dizer que esse estranhamento é por ser estrangeiro, mas essa comparação na verdade é feita em relação aos negros da terra, que não entram em alguns lugares ou não entram de cabeça erguida.
Depois, com o tempo, na academia, fiz disciplinas em antropologia e alguns de meus professores eram especialistas na questão racial. Foi através da academia, da literatura, que comecei a descobrir que havia problemas no país. Uma das primeiras aulas que fiz foi em 1975, 1976, já era uma disciplina sobre a questão racial com meu orientador João Batista Borges Pereira. Depois, com o tempo, você vai entrar em algum lugar em que está sozinho e se pergunta: onde estão os outros? As pessoas olhavam mesmo, inclusive olhavam mais quando eu entrava com minha mulher e meus filhos. Porque é uma família inter-racial: a mulher branca, o homem negro, um filho negro e um filho mestiço. Em todos os lugares em que a gente entrava, era motivo de curiosidade. O pessoal tentava ser discreto, mas nem sempre escondia. Entrávamos em lugares onde geralmente os negros não entram.
A partir daí você começa a buscar uma explicação para saber o porquê e se aproxima da literatura e das aulas da universidade que falam da discriminação racial no Brasil, os trabalhos de Florestan Fernandes, do Otavio Ianni, do meu próprio orientador e de tantos outros que trabalharam com a questão. Mas o problema é que quando a pessoa é adulta sabe se defender, mas as crianças não. Tenho dois filhos que nasceram na Bélgica, dois no Congo e meu caçula é brasileiro. Quantas vezes, quando estavam sozinhos na rua, sem defesa, se depararam com a polícia?
Meus filhos estudaram em escola particular, Colégio Equipe, onde estudavam filhos de alguns colegas professores. Eu não ia buscá-los na escola, e quando saíam para tomar ônibus e voltar para casa com alguns colegas que eram brancos, eles eram os únicos a ser revistados. No entanto, a condição social era a mesma e estudavam no mesmo colégio. Por que só eles podiam ser suspeitos e revistados pela polícia? Essa situação eu não posso contar quantas vezes vi acontecer. Lembro que meu filho mais velho, que hoje é ator, quando comprou o primeiro carro dele, não sei quantas vezes ele foi parado pela polícia. Sempre apontando a arma para ele para mostrar o documento. Ele foi instruído para não discutir e dizer que os documentos estão no porta-luvas, senão podem pensar que ele vai sacar uma arma. Na realidade, era suspeito de ser ladrão do próprio carro que ele comprou com o trabalho dele. Meus filhos até hoje não saem de casa para atravessar a rua sem documento. São adultos e criaram esse hábito, porque até você provar que não é ladrão… A geografia do seu corpo não indica isso.
Então, essa coisa de pensar que a diferença é simplesmente social, é claro que o social acompanha, mas e a geografia do corpo? Isso aqui também vai junto com o social, não tem como separar as duas coisas. Fui com o tempo respondendo à questão, por meio da vivência, com o cotidiano e as coisas que aprendi na universidade, depoimentos de pessoas da população negra, e entendi que a democracia racial é um mito. Existe realmente um racismo no Brasil, diferenciado daquele praticado na África do Sul durante o regime do apartheid, diferente também do racismo praticado nos EUA, principalmente no Sul. Porque nosso racismo é, utilizando uma palavra bem conhecida, sutil. Ele é velado. Pelo fato de ser sutil e velado isso não quer dizer que faça menos vítimas do que aquele que é aberto. Faz vítimas de qualquer maneira.

Revista Fórum – Quando você tem um sistema como o sul-africano ou um sistema de restrição de direitos como houve nos EUA, o inimigo está claro. No caso brasileiro é mais difícil combatê-lo…
Kabengele – Claro, é mais difícil. Porque você não identifica seu opressor. Nos EUA era mais fácil porque começava pelas leis. A primeira reivindicação: o fim das leis racistas. Depois, se luta para implementar políticas públicas que busquem a promoção da igualdade racial. Aqui é mais difícil, porque não tinha lei nem pra discriminar, nem pra proteger. As leis pra proteger estão na nova Constituição que diz que o racismo é um crime inafiançável. Antes disso tinha a lei Afonso Arinos, de 1951. De acordo com essa lei, a prática do racismo não era um crime, era uma contravenção. A população negra e indígena viveu muito tempo sem leis nem para discriminar nem para proteger.

Revista Fórum – Aqui no Brasil há mais dificuldade com relação ao sistema de cotas justamente por conta do mito da democracia racial? Kabengele – Tem segmentos da população a favor e contra. Começaria pelos que estão contra as cotas, que apelam para a própria Constituição, afirmando que perante a lei somos todos iguais. Então não devemos tratar os cidadãos brasileiros diferentemente, as cotas seriam uma inconstitucionalidade. Outro argumento contrário, que já foi demolido, é a ideia de que seria difícil distinguir os negros no Brasil para se beneficiar pelas cotas por causa da mestiçagem. O Brasil é um país de mestiçagem, muitos brasileiros têm sangue europeu, além de sangue indígena e africano, então seria difícil saber quem é afro-descendente que poderia ser beneficiado pela cota. Esse argumento não resistiu. Por quê? Num país onde existe discriminação antinegro, a própria discriminação é a prova de que é possível identificar os negros. Senão não teria discriminação.
Em comparação com outros países do mundo, o Brasil é um país que tem um índice de mestiçamento muito mais alto. Mas isso não pode impedir uma política, porque basta a autodeclaração. Basta um candidato declarar sua afro-descendência. Se tiver alguma dúvida, tem que averiguar. Nos casos-limite, o indivíduo se autodeclara afrodescendente. Às vezes, tem erros humanos, como o que aconteceu na UnB, de dois jovens mestiços, de mesmos pais, um entrou pelas cotas porque acharam que era mestiço, e o outro foi barrado porque acharam que era branco. Isso são erros humanos. Se tivessem certeza absoluta que era afro-descendente, não seria assim. Mas houve um recurso e ele entrou. Esses casos-limite existem, mas não é isso que vai impedir uma política pública que possa beneficiar uma grande parte da população brasileira.
Além do mais, o critério de cota no Brasil é diferente dos EUA. Nos EUA, começaram com um critério fixo e nato. Basta você nascer negro. No Brasil não. Se a gente analisar a história, com exceção da UnB, que tem suas razões, em todas as universidades brasileiras que entraram pelo critério das cotas, usaram o critério étnico-racial combinado com o critério econômico. O ponto de partida é a escola pública. Nos EUA não foi isso. Só que a imprensa não quer enxergar, todo mundo quer dizer que cota é simplesmente racial. Não é. Isso é mentira, tem que ver como funciona em todas as universidades. É necessário fazer um certo controle, senão não adianta aplicar as cotas. No entanto, se mantém a ideia de que, pelas pesquisas quantitativas, do IBGE, do Ipea, dos índices do Pnud, mostram que o abismo em matéria de educação entre negros e brancos é muito grande. Se a gente considerar isso então tem que ter uma política de mudança. É nesse sentido que se defende uma política de cotas.
O racismo é cotidiano na sociedade brasileira. As pessoas que estão contra cotas pensam como se o racismo não tivesse existido na sociedade, não estivesse criando vítimas. Se alguém comprovar que não tem mais racismo no Brasil, não devemos mais falar em cotas para negros. Deveríamos falar só de classes sociais. Mas como o racismo ainda existe, então não há como você tratar igualmente as pessoas que são vítimas de racismo e da questão econômica em relação àquelas que não sofrem esse tipo de preconceito. A própria pesquisa do IPEA mostra que se não mudar esse quadro, os negros vão levar muitos e muitos anos para chegar aonde estão os brancos em matéria de educação. Os que são contra cotas ainda dão o argumento de que qualquer política de diferença por parte do governo no Brasil seria uma política de reconhecimento das raças e isso seria um retrocesso, que teríamos conflitos, como os que aconteciam nos EUA.
Fórum – Que é o argumento do Demétrio Magnoli.
Kabengele – Isso é muito falso, porque já temos a experiência, alguns falam de mais de 70 universidades públicas, outros falam em 80. Já ouviu falar de conflitos raciais em algum lugar, linchamentos raciais? Não existe. É claro que houve manifestações numa universidade ou outra, umas pichações, “negro, volta pra senzala”. Mas isso não se caracteriza como conflito racial. Isso é uma maneira de horrorizar a população, projetar conflitos que na realidade não vão existir.
Fórum – Agora o DEM entrou com uma ação no STF pedindo anulação das cotas. O que motiva um partido como o DEM, qual a conexão entre a ideologia de um partido ou um intelectual como o Magnoli e essa oposição ao sistema de cotas? Qual é a raiz dessa resistência?
Kabengele – Tenho a impressão que as posições ideológicas não são explícitas, são implícitas. A questão das cotas é uma questão política. Tem pessoas no Brasil que ainda acreditam que não há racismo no país. E o argumento desse deputado do DEM é esse, de que não há racismo no Brasil, que a questão é simplesmente socioeconômica. É um ponto de vista refutável, porque nós temos provas de que há racismo no Brasil no cotidiano. O que essas pessoas querem? Status quo. A ideia de que o Brasil vive muito bem, não há problema com ele, que o problema é só com os pobres, que não podemos introduzir as cotas porque seria introduzir uma discriminação contra os brancos e pobres. Mas eles ignoram que os brancos e pobres também são beneficiados pelas cotas, e eles negam esse argumento automaticamente, deixam isso de lado.
Fórum – Mas isso não é um cinismo de parte desses atores políticos, já que eles são contra o sistema de cotas, mas também são contra o Bolsa-Família ou qualquer tipo de política compensatória no campo socioeconômico?
Kabengele – É interessante, porque um país que tem problemas sociais do tamanho do Brasil deveria buscar caminhos de mudança, de transformação da sociedade. Cada vez que se toca nas políticas concretas de mudança, vem um discurso. Mas você não resolve os problemas sociais somente com a retórica. Quanto tempo se fala da qualidade da escola pública? Estou aqui no Brasil há 34 anos. Desde que cheguei aqui, a escola pública mudou em algum lugar? Não, mas o discurso continua. “Ah, é só mudar a escola pública.” Os mesmos que dizem isso colocam os seus filhos na escola particular e sabem que a escola pública é ruim. Poderiam eles, como autoridades, dar melhor exemplo e colocar os filhos deles em escola pública e lutar pelas leis, bom salário para os educadores, laboratórios, segurança. Mas a coisa só fica no nível da retórica.
E tem esse argumento legalista, “porque a cota é uma inconstitucionalidade, porque não há racismo no Brasil”. Há juristas que dizem que a igualdade da qual fala a Constituição é uma igualdade formal, mas tem a igualdade material. É essa igualdade material que é visada pelas políticas de ação afirmativa. Não basta dizer que somos todos iguais. Isso é importante, mas você tem que dar os meios e isso se faz com as políticas públicas. Muitos disseram que as cotas nas universidades iriam atingir a excelência universitária. Está comprovado que os alunos cotistas tiveram um rendimento igual ou superior aos outros. Então a excelência não foi prejudicada. Aliás, é curioso falar de mérito como se nosso vestibular fosse exemplo de democracia e de mérito. Mérito significa simplesmente que você coloca como ponto de partida as pessoas no mesmo nível. Quando as pessoas não são iguais, não se pode colocar no ponto de partida para concorrer igualmente. É como você pegar uma pessoa com um fusquinha e outro com um Mercedes, colocar na mesma linha de partida e ver qual o carro mais veloz. O aluno que vem da escola pública, da periferia, de péssima qualidade, e o aluno que vem de escola particular de boa qualidade, partindo do mesmo ponto, é claro que os que vêm de uma boa escola vão ter uma nota superior. Se um aluno que vem de um Pueri Domus, Liceu Pasteur, tira nota 8, esse que vem da periferia e tirou nota 5 teve uma caminhada muito longa. Essa nota 5 pode ser mais significativa do que a nota 7 ou 8. Dando oportunidade ao aluno, ele não vai decepcionar.
Foi isso que aconteceu, deram oportunidade. As cotas são aplicadas desde 2003. Nestes sete anos, quantos jovens beneficiados pelas cotas terminaram o curso universitário e quantos anos o Brasil levaria para formar o tanto de negros sem cotas? Talvez 20 ou mais. Isso são coisas concretas para as quais as pessoas fecham os olhos. No artigo do professor Demétrio Magnoli, ele me critica, mas não leu nada. Nem uma linha de meus livros. Simplesmente pegou o livro da Eneida de Almeida dos Santos, Mulato, negro não-negro e branco não-branco que pediu para eu fazer uma introdução, e desta introdução de três páginas ele tirou algumas frases e, a partir dessas frases, me acusa de ser um charlatão acadêmico, de professar o racismo científico abandonado há mais de um século e fazer parte de um projeto de racialização oficial do Brasil. Nunca leu nada do que eu escrevi.
A autora do livro é mestiça, psiquiatra e estuda a dificuldade que os mestiços entre branco e negro têm pra construir a sua identidade. Fiz a introdução mostrando que eles têm essa dificuldade justamente por causa de serem negros não-negros e brancos não-brancos. Isso prejudica o processo, mas no plano político, jurídico, eles não podem ficar ambivalentes. Eles têm que optar por uma identidade, têm que aceitar sua negritude, e não rejeitá-la. Com isso ele acha que eu estou professando a supressão dos mestiços no Brasil e que isso faz parte do projeto de racialização do brasileiro. Não tinha nada para me acusar, soube que estou defendendo as cotas, tirou três frases e fez a acusação dele no jornal.

Fórum – O senhor toca na questão do imaginário da democracia racial, mas as pessoas são formadas para aceitarem esse mito…
Kabengele – O racismo é uma ideologia. A ideologia só pode ser reproduzida se as próprias vítimas aceitam, a introjetam, naturalizam essa ideologia. Além das próprias vítimas, outros cidadãos também, que discriminam e acham que são superiores aos outros, que têm direito de ocupar os melhores lugares na sociedade. Se não reunir essas duas condições, o racismo não pode ser reproduzido como ideologia, mas toda educação que nós recebemos é para poder reproduzi-la.
Há negros que introduziram isso, que alienaram sua humanidade, que acham que são mesmo inferiores e o branco tem todo o direito de ocupar os postos de comando. Como também tem os brancos que introjetaram isso e acham mesmo que são superiores por natureza. Mas para você lutar contra essa ideia não bastam as leis, que são repressivas, só vão punir. Tem que educar também. A educação é um instrumento muito importante de mudança de mentalidade e o brasileiro foi educado para não assumir seus preconceitos. O Florestan Fernandes dizia que um dos problemas dos brasileiros é o “preconceito de ter preconceito de ter preconceito”. O brasileiro nunca vai aceitar que é preconceituoso. Foi educado para não aceitar isso. Como se diz, na casa de enforcado não se fala de corda.
Quando você está diante do negro, dizem que tem que dizer que é moreno, porque se disser que é negro, ele vai se sentir ofendido. O que não quer dizer que ele não deve ser chamado de negro. Ele tem nome, tem identidade, mas quando se fala dele, pode dizer que é negro, não precisa branqueá-lo, torná-lo moreno. O brasileiro foi educado para se comportar assim, para não falar de corda na casa de enforcado. Quando você pega um brasileiro em flagrante de prática racista, ele não aceita, porque não foi educado para isso. Se fosse um americano, ele vai dizer: “Não vou alugar minha casa para um negro”. No Brasil, vai dizer: “Olha, amigo, você chegou tarde, acabei de alugar”. Porque a educação que o americano recebeu é pra assumir suas práticas racistas, pra ser uma coisa explícita.
Quando a Folha de S. Paulo fez aquela pesquisa de opinião em 1995, perguntaram para muitos brasileiros se existe racismo no Brasil. Mais de 80% disseram que sim. Perguntaram para as mesmas pessoas: “você já discriminou alguém?”. A maioria disse que não. Significa que há racismo, mas sem racistas. Ele está no ar… Como você vai combater isso? Muitas vezes o brasileiro chega a dizer ao negro que reage: “você que é complexado, o problema está na sua cabeça”. Ele rejeita a culpa e coloca na própria vítima. Já ouviu falar de crime perfeito? Nosso racismo é um crime perfeito, porque a própria vítima é que é responsável pelo seu racismo, quem comentou não tem nenhum problema.

Revista Fórum – O humorista Danilo Gentilli escreveu no Twitter uma piada a respeito do King Kong, comparando com um jogador de futebol que saía com loiras. Houve uma reação grande e a continuação dos argumentos dele para se justificar vai ao encontro disso que o senhor está falando. Ele dizia que racista era quem acusava ele, e citava a questão do orgulho negro como algo de quem é racista.
Kebengele – Faz parte desse imaginário. O que está por trás que está fazendo uma ilustração de King Kong, que ele compara a um jogador de futebol que vai casar com uma loira, é a ideia de alguém que ascende na vida e vai procurar sua loira. Mas qual é o problema desse jogador de futebol? São pessoas vítimas do racismo que acham que agora ascenderam na vida e, para mostrar isso, têm que ter uma loira que era proibida quando eram pobres? Pode até ser uma explicação. Mas essa loira não é uma pessoa humana que pode dizer não ou sim e foi obrigada a ir com o King Kong por causa de dinheiro? Pode ser, quantos casamentos não são por dinheiro na nossa sociedade? A velha burguesia só se casa dentro da velha burguesia. Mas sempre tem pessoas que desobedecem as normas da sociedade.
Essas jovens brancas, loiras, também pulam a cerca de suas identidades pra casar com um negro jogador. Por que a corda só arrebenta do lado do jogador de futebol? No fundo, essas pessoas não querem que os negros casem com suas filhas. É uma forma de racismo. Estão praticando um preconceito que não respeita a vontade dessas mulheres nem essas pessoas que ascenderam na vida, numa sociedade onde o amor é algo sem fronteiras, e não teria tantos mestiços nessa sociedade. Com tudo o que aconteceu no campo de futebol com aquele jogador da Argentina que chamou o Grafite de macaco, com tudo o que acontece na Europa, esse humorista faz uma ilustração disso, ou é uma provocação ou quer reafirmar os preconceitos na nossa sociedade.

Fórum – É que no caso, o Danilo Gentili ainda justificou sua piada com um argumento muito simplório: “por que eu posso chamar um gordo de baleia e um negro de macaco”, como se fosse a mesma coisa.
Kabengele – É interessante isso, porque tenho a impressão de que é um cara que não conhece a história e o orgulho negro tem uma história. São seres humanos que, pelo próprio processo de colonização, de escravidão, a essas pessoas foi negada sua humanidade. Para poder se recuperar, ele tem que assumir seu corpo como negro. Se olhar no espelho e se achar bonito ou se achar feio. É isso o orgulho negro. E faz parte do processo de se assumir como negro, assumir seu corpo que foi recusado. Se o humorista conhecesse isso, entenderia a história do orgulho negro. O branco não tem motivo para ter orgulho branco porque ele é vitorioso, está lá em cima. O outro que está lá em baixo que deve ter orgulho, que deve construir esse orgulho para poder se reerguer.

Fórum – O senhor tocou no caso do Grafite com o Desábato, e recentemente tivemos, no jogo da Libertadores entre Cruzeiro e Grêmio, o caso de um jogador que teria sido chamado de macaco por outro atleta. Em geral, as pessoas – jornalistas que comentaram, a diretoria gremista – argumentavam que no campo de futebol você pode falar qualquer coisa, e que se as pessoas fossem se importar com isso, não teria como ter jogo de futebol. Como você vê esse tipo de situação?
Kabengele – Isso é uma prova daquilo que falei, os brasileiros são educados para não assumir seus hábitos, seu racismo. Em outros países, não teria essa conversa de que no campo de futebol vale. O pessoal pune mesmo. Mas aqui, quando se trata do negro… Já ouviu caso contrário, de negro que chama branco de macaco? Quando aquele delegado prendeu o jogador argentino no caso do Grafite, todo mundo caiu em cima. Os técnicos, jornalistas, esportistas, todo mundo dizendo que é assim no futebol. Então a gente não pode educar o jogador de futebol, tudo é permitido? Quando há violência física, eles são punidos, mas isso aqui é uma violência também, uma violência simbólica. Por que a violência simbólica é aceita a violência física é punida?

Fórum – Como o senhor vê hoje a aplicação da lei que determina a obrigatoriedade do ensino de cultura africana nas escolas? Os professores, de um modo geral, estão preparados para lidar com a questão racial?
Kabengele – Essa lei já foi objeto de crítica das pessoas que acham que isso também seria uma racialização do Brasil. Pessoas que acham que, sendo a população brasileira uma população mestiça, não é preciso ensinar a cultura do negro, ensinar a história do negro ou da África. Temos uma única história, uma única cultura, que é uma cultura mestiça. Tem pessoas que vão nessa direção, pensam que isso é uma racialização da educação no Brasil.
Mas essa questão do ensino da diversidade na escola não é propriedade do Brasil. Todos os países do mundo lidam com a questão da diversidade, do ensino da diversidade na escola, até os que não foram colonizadores, os nórdicos, com a vinda dos imigrantes, estão tratando da questão da diversidade na escola.
O Brasil deveria tratar dessa questão com mais força, porque é um país que nasceu do encontro das culturas, das civilizações. Os europeus chegaram, a população indígena – dona da terra – os africanos, depois a última onda imigratória é dos asiáticos. Então tudo isso faz parte das raízes formadoras do Brasil que devem fazer parte da formação do cidadão. Ora, se a gente olhar nosso sistema educativo, percebemos que a história do negro, da África, das populações indígenas não fazia parte da educação do brasileiro.
Nosso modelo de educação é eurocêntrico. Do ponto de vista da historiografia oficial, os portugueses chegaram na África, encontraram os africanos vendendo seus filhos, compraram e levaram para o Brasil. Não foi isso que aconteceu. A história da escravidão é uma história da violência. Quando se fala de contribuições, nunca se fala da África. Se se introduzir a história do outro de uma maneira positiva, isso ajuda.
É por isso que a educação, a introdução da história dele no Brasil, faz parte desse processo de construção do orgulho negro. Ele tem que saber que foi trazido e aqui contribuiu com o seu trabalho, trabalho escravizado, para construir as bases da economia colonial brasileira. Além do mais, houve a resistência, o negro não era um João-Bobo que simplesmente aceitou, senão a gente não teria rebeliões das senzalas, o Quilombo dos Palmares, que durou quase um século. São provas de resistência e de defesa da dignidade humana. São essas coisas que devem ser ensinadas. Isso faz parte do patrimônio histórico de todos os brasileiros. O branco e o negro têm que conhecer essa história porque é aí que vão poder respeitar os outros.
Voltando a sua pergunta, as dificuldades são de duas ordens. Em primeiro lugar, os educadores não têm formação para ensinar a diversidade. Estudaram em escolas de educação eurocêntrica, onde não se ensinava a história do negro, não estudaram história da África, como vão passar isso aos alunos? Além do mais, a África é um continente, com centenas de culturas e civilizações. São 54 países oficialmente. A primeira coisa é formar os educadores, orientar por onde começou a cultura negra no Brasil, por onde começa essa história. Depois dessa formação, com certo conteúdo, material didático de boa qualidade, que nada tem a ver com a historiografia oficial, o processo pode funcionar.

Fórum – Outra questão que se discute é sobre o negro nos espaços de poder. Não se veem negros como prefeitos, governadores. Como trabalhar contra isso?
Kabengele – O que é um país democrático? Um país democrático, no meu ponto de vista, é um país que reflete a sua diversidade na estrutura de poder. Nela, você vê mulheres ocupando cargos de responsabilidade, no Executivo, no Legislativo, no Judiciário, assim como no setor privado. E ainda os índios, que são os grandes discriminados pela sociedade. Isso seria um país democrático. O fato de você olhar a estrutura de poder e ver poucos negros ou quase não ver negros, não ver mulheres, não ver índios, isso significa que há alguma coisa que não foi feita nesse país. Como construção da democracia, a representatividade da diversidade não existe na estrutura de poder. Por quê?
Se você fizer um levantamento no campo jurídico, quantos desembargadores e juízes negros têm na sociedade brasileira? Se você for pras universidades públicas, quantos professores negros tem, começando por minha própria universidade? Esta universidade tem cerca de 5 mil professores. Quantos professores negros tem na USP? Nessa grande faculdade, que é a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), uma das maiores da USP junto com a Politécnica, tenho certeza de que na minha faculdade fui o primeiro negro a entrar como professor. Desde que entrei no Departamento de Antropologia, não entrou outro. Daqui três anos vou me aposentar. O professor Milton Santos, que era um grande professor, quase Nobel da Geografia, entrou no departamento, veio do exterior e eu já estava aqui. Em toda a USP, não sou capaz de passar de dez pessoas conhecidas. Pode ter mais, mas não chega a 50, exagerando. Se você for para as grandes universidades americanas, Harvard, Princeton, Standford, você vai encontrar mais negros professores do que no Brasil. Lá eles são mais racistas, ou eram mais racistas, mas como explicar tudo isso?
120 anos de abolição. Por que não houve uma certa mobilidade social para os negros chegarem lá? Há duas explicações: ou você diz que ele é geneticamente menos inteligente, o que seria uma explicação racista, ou encontra explicação na sociedade. Quer dizer que se bloqueou a sua mobilidade. E isso passa por questão de preconceito, de discriminação racial. Não há como explicar isso. Se você entender que os imigrantes japoneses chegaram, nós comemoramos 100 anos recentemente da sua vinda, eles tiveram uma certa mobilidade. Os coreanos também ocupam um lugar na sociedade. Mas os negros já estão a 120 anos da abolição. Então tem uma explicação. Daí a necessidade de se mudar o quadro. Ou nós mantemos o quadro, porque se não mudamos estamos racializando o Brasil, ou a gente mantém a situação para mostrar que não somos racistas. Porque a explicação é essa, se mexer, somos racistas e estamos racializando. Então vamos deixar as coisas do jeito que estão. Esse é o dilema da sociedade.

Revista Fórum – como o senhor vê o tratamento dado pela mídia à questão racial?
Kabengele – A imprensa faz parte da sociedade. Acho que esse discurso do mito da democracia racial é um discurso também que é absorvido por alguns membros da imprensa. Acho que há uma certa tendência na imprensa pelo fato de ser contra as políticas de ação afirmativa, sendo que também não são muito favoráveis a essa questão da obrigatoriedade do ensino da história do negro na escola.
Houve, no mês passado, a II Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial. Silêncio completo da imprensa brasileira. Não houve matérias sobre isso. Os grandes jornais da imprensa escrita não pautaram isso. O silêncio faz parte do dispositivo do racismo brasileiro. Como disse Elie Wiesel, o carrasco mata sempre duas vezes. A segunda mata pelo silêncio. O silêncio é uma maneira de você matar a consciência de um povo. Porque se falar sobre isso abertamente, as pessoas vão buscar saber, se conscientizar, mas se ficar no silêncio a coisa morre por aí. Então acho que o silêncio da imprensa, no meu ponto de vista, passa por essa estratégia, é o não-dito.
Acabei de passar por uma experiência interessante. Saí da Conferência Nacional e fui para Barcelona, convidado por um grupo de brasileiros que pratica capoeira. Claro, receberam recursos do Ministério das Relações Exteriores, que pagou minha passagem e a estadia. Era uma reunião pequena de capoeiristas e fiz uma conferência sobre a cultura negra no Brasil. Saiu no El Pais, que é o jornal mais importante da Espanha, noticiou isso, uma coisa pequena. Uma conferência nacional deste tamanho aqui não se fala. É um contrassenso. O silêncio da imprensa não é um silêncio neutro, é um silêncio que indica uma certa orientação da questão racial. Tem que não dizer muita coisa e ficar calado. Amanhã não se fala mais, acabou.

(Essa matéria é parte integrante da edição impressa da revista Fórum de agosto. Nas bancas.)

o Sapoti, o Gibi e o Guri

•Agosto 4, 2009 • 1 Comentário


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O gosto do Sapoti

Seriam as lembranças da infância um caderno de matérias tatuadas em nossa mente, coloridas e nunca mais esquecidas ou seriam, por outro lado, um frio cárcere de memórias-cicatrizes, tão desprezíveis que, por mais que se tente, não se conseguirá apagar jamais?

O meu primeiro fragmento de lembrança deste tempo, pelo menos de início, até que é doce e bom:

Um sapoti caído do pé numa quente madrugada.

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As frutas caíam no chão de terra do pátio do colégio interno, ainda úmidas de orvalho. Eram o prêmio para os mais cedo despertos – e lépidos- primeiros a pular do beliche e correr para fora do alojamento.

Não sei quantas vezes fui o premiado. Do que sei bem é o que ficou em mim daquele amarelo manchado da casca do sapoti, em sua evocação de uma memória-delícia, sinônimo de vitória alcançada, marcada por uma única mácula: Os dentes do morcego que mordiscara a fruta, antes de mim, derrubando-a do pé.

A marca do morcego passou a ser o signo das lembranças mais amargas, de tudo que me lembro de ruim naquele tempo.

Do dia em que entrei no colégio interno pela primeira vez, por exemplo, não lembro quase nada. O morcego mordeu este pedaço. Existe um apagão irremediável nesta parte da história. Tenho deste dia apenas uma vaga e desagradável sensação de ansiedade, que logo virou terror, assim que regressei ao colégio, depois de ter ido, pela primeira vez, visitar a família em casa. Ânsias de vômito, náuseas. Esta é a parte mais doída das lembranças.

A primeira memória nítida que me vem, logo de saída, é a do ponto de bonde onde saltávamos, eu e Geny minha mãe, na Rua Hadoch Lobo, na Tijuca, bem em frente a um importante colégio de ricos e remediados da época: o Instituto Lafaiette.

O prédio do antigo instituto está lá, até hoje, demarcando a geografia de minhas lembranças. Passo sempre pelo local, mas, não consigo encontrar nenhum vestígio do Colégio Vera Cruz (nome oficial da Escola-Prisão) que me parece, ficava mesmo ao lado deste imponente Instituto.

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A primeira idéia, vaga ainda, do que seria uma escola, lugar onde se aprende coisas, foi até mais agradável ainda que o sapoti. O nome já dizia tudo: Jardim de Infância.

Havíamos mudado da casinha velha do bairro de Marechal Hermes que, simples e bela naquela sua arquitetura artesanal, pode ser rememorada pela foto que o soldado José Cyrillo tirou dela, com a máquina Kodak caixote que trouxera da Itália.

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O novo bairro foi Campo Grande, na antiga zona rural da capital federal. Foi lá o curto, porém intensamente bem vivido, tempo do Jardim de Infância.

Lembro do cheiro do pano do avental novinho em folha, com as minhas iniciais bordadas a ponto de cruz. Lembro de um chapeuzinho de palha com uma fita (azul ou vermelha?), xadrez, enlaçada no cocoruto. Lembro da folha de um livro de colorir com um pintinho impresso, vazado e sem cor que eu, maravilhado, pintei com o lápis amarelo (soube, imediatamente, ali, no momento em que inseri as virtuais peninhas amarelas naquele pintinho que, de algum modo, ‘desenharia’ coisas pelo resto da vida).

Tomado de paixão pela caixa de lápis de cor, levei para a sala de aula, no dia seguinte, um postal que meu pai trouxera da Itália e copiei, pela primeira vez, algo que saindo dos meus olhos, fixava-se no papel, como mágica.

Incrível descoberta: Aprendi ali que a rabiscada proa, linda e imponente, de uma gôndola veneziana, poderia me dar o poder de contar para os outros, algo sobre a vida do principal herói da ‘minha’ guerra mundial pessoal.

Pena ter sido tão breve a minha estada naquele jardim de prematuras e indeléveis felicidades, minha derradeira escola convencional.

Logo, tudo escureceu quando em 1951, seqüelas do alcoolismo, proveniente talvez do que se chamava na época ‘neurose de guerra’, me levaram o pai e, de roldão, o meu mundinho de criança feliz.

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… ‘Criança feliz, feliz a cantar
Alegre a embalar, seu sonho infantil

Ó meu bom Jesus, que a todos conduz
Olhai as crianças do nosso Brasil…’

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Não sei porque, nunca mais soube se foi um sonho ou uma miragem a lembrança que marca o começo de tudo na história da primeira escola, depois do Jardim de Infância. Datada, a lembrança que marca o momento preciso de minha ida para a Escola-Prisão, ali por volta dos meus cinco anos de idade, é uma canção insistentemente repetida no rádio.

Desta imagem, fantástica, eu me lembro, como se fosse hoje: Estava gravada no céu azul que encobria o pátio do colégio e foi, certamente, criada em minha cabeça pela visão fortuita da página de jornal de algum inspetor e pelo rádio, que tocava aquela música que para mim ficou, para sempre, associada à uma idéia de tristeza e melancolia.

..’.Crianças com alegria
Qual um bando de andorinhas

Viram Jesus que dizia:
- Vinde a mim as criancinhas…’

Entre um flash e outro da trágica notícia, entremeada com a majestosa voz do falecido cantando, eu ia compreendendo que um tal de Francisco Alves, uma celebridade da época, autor e intérprete daquela canção, havia morrido num acidente automobilístico.

O ano marca por isto, certamente, o início da minha jornada de habitante daquele estranho mundo, engolfado que fui, pelo que soube ser bem mais tarde, uma unidade conveniada do sistema SAM, Serviço de Assistência ao Menor, famigerada instituição criada no segundo governo de Getúlio Vargas para abrigar meninos pobres e órfãos, entre os quais os considerados infratores ou delinqüentes, eram encaminhados para a principal unidade do sistema: A Escola XV (cujo imponente prédio reformado, abriga hoje uma razoável escola pública, no bairro de Quintino, no Rio de Janeiro).

O fato é que, ingenuamente solidário diante das dificuldades de minha mãe viúva, além de influenciado pela foto de uma freira cuidando de um feliz menino – vestindo um paletozinho tweed – no Anuário as Senhoras de 1951, ingressei, pois, em 1952 no Colégio que, logo pude perceber, era uma reles Escola-Prisão, sempre temeroso de, caso cometesse alguma falta – como vi alguns cometerem – ser transferido, para Escola XV, o Presídio-Escola de todos os meus pesadelos.

Esta era – como ainda hoje é, ou muito pior – a lógica crua do sistema de ‘assistência’ às crianças pobres do Brasil.

Fosse a minha infância um tenro sapoti, o SAM seria, com certeza, o mais infame dos morcegos.

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O traço do Gibi

Não sei o que deu nela, na minha mãe, naquela ocasião. O que de bom teria ocorrido naquela época? Será que ganhou a milhar no jogo do bicho? O que mais poderia ocorrer na vida de uma modesta costureira suburbana? Talvez ela tivesse conseguido aquele seu primeiro emprego de costureira profissional, num ‘atelier’ de uma daquelas ‘mademoiselles’ com falso sobrenome francês que, motivadas pela abertura na cidade de elegantes magazines de roupas ‘prontas’, encheram de fabriquetas (confecções) o centro da cidade, criando uma enorme demanda por costureiras, bordadeiras, chuleadeiras, overloquistas, etc.

O que sei é que, na visita daquele dia ela não me levara apenas o modesto farnelzinho, com três ou quatro peras embrulhadas, delicadamente, num papel roxo e o saco da adorável rosquinha de coco marca ‘Seara’. Ela me apareceu desta vez, com uma enorme mala de papelão novinha em folha, forrada internamente, guarnecida com belas cantoneiras pintadas de marrom brilhante, cheia de tudo que ela imaginou que me extasiaria de felicidade.

E quem não se extasiaria com duas latas de leite condensado, muitos sacos de biscoitos sortidos – entre os quais os saborosos Seara’ – peras (e também maçãs) embrulhadas no papel roxinho de sempre, e tantas outras iguarias?

E as muitas revistas de histórias em quadrinhos? E os livros que, apesar de amarelados de tanto terem sido usados, eu – já a esta altura, razoavelmente, alfabetizado – muito apreciava (principalmente, quando eram novelas policiais do Arsène Lupin ou romances, como o inesquecível Robinson Crusoè do Daniel Defoe) livros que eu acho, ela garimpava em sebos do centro da cidade.

Caixa de Pandora que era, aquela mala, quando aberta, revelou-se um portal de mil e um encantamentos, glória absoluta para um menino que necessitava, ardentemente, de uma saída qualquer para um mundo fantástico, um portal através do qual ele pudesse escapar daquela vidinha humilhante de órfão na Escola-Prisão.

Foi como se um mundo inteiro de cores e delícias, encaixotadas naquela mala, explodisse, igualzinho como explode um feliz boneco-palhaço de mola, nos levando do susto à gargalhada, pulando da caixa presenteada, exatamente, para nos fazer sorrir alguma felicidade fortuita.

Finda a visita, levei correndo a mala para o pátio. Onde a guardaria? Não tínhamos ali armários ou qualquer coisa parecida com privacidade, além do colchão imundo e da colcha encardida de nosso beliche.

Andei com aquela mala para baixo e para cima, pelo pátio durante todo o dia, sentando nela entre uma e outra brincadeira. Dormi com ela, transformando-a num duro travesseiro que não atrapalhou, nem um pouco, os meus irrefreáveis bons sonhos de menino rico por um dia.

Foi logo que acordei que decidi guardar a mala naquele vão meio escondido de um corredor do pátio. Naquela minha estúpida inocência de guri, aquele me pareceu um covil bastante seguro.

Gelei quando ouvi a gritaria vindo exatamente do vão do corredor. Corri para a turba que, ao me ver debandou completamente. No chão, a mala saqueada, em frangalhos. Não chorei. Num colégio interno, mesmo tendo apenas oito anos de idade, um homem não chora.

Minha mãe, a partir dali me trouxe muitas e muitas outras revistas e livros. O Trauma da mala no entanto, ainda hoje me acompanha, tremo e tenho sensações de perda irreparável, só de lembrar daquela algazarra ensandecida dos saqueadores.

Os meus sonhos de voar devem ter começado também ali, naquela época da mala. Eram sonhos muito reais. Difícil aceitar que não fossem a mais pura realidade.

Dava um pulo para o alto e levitava um pouco, ainda de pé. Dava outro salto e conseguia me manter flutuando no ar. Subia, alcançava as nuvens e ficava por lá, passeando pelo céu, sentindo o frio gostoso da brisa úmida que transpassava as nuvens. Como continuei a tê-los, por muito tempo, sei que eram claros sonhos-desejo de fuga, sonhos de liberdade.

Assisti a várias fugas reais, mas, nunca tive coragem para fugir. Quando olhava o muro alto tremia de medo e me contentava em ficar imaginando o fugitivo feliz, com a adrenalina a mil, olhando para trás, até o bonde sumir numa esquina. O barulho das rodas do bonde martelando os trilhos ficou sendo para mim, para sempre, o som exato, trilha sonora perfeita daqueles sonhos, quase filmes, sobre Liberdade.

(Memórias e sonhos são mesmo como cinema, alguém já disse)

Assim, como uma lembrança puxa uma outra e, a propósito, me lembrei também do cineminha do colégio, que acontecia, de vez em quando. Os sinais de que haveria filme naqueles dias eram claros: Freiras, peças raras por ali, atravessavam o pátio de tardezinha, rumo ao galpão onde um inspetor montaria mais tarde um velho projetor Bell & Howell 16mm.

E nós ali, com os olhos brilhando como estrelas ou pupilas de gatos na noite.

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A roupa do Guri

Era uma roda com todos os meninos nela, eletrizados com algo que olhavam no chão do pátio.

Me enfiando entre os mais pequenininhos que eu, fui vislumbrando a imagem impressionante de um cawboy rabiscado no chão, com dois enormes revólveres apontados para a assistência muda.

O ‘rabisco’, vestido com botas de cano longo, lenço no pescoço, cinturão de fivela, fumava, displicentemente um cigarro, do qual esvaía uma fumaça mágica, porque nada mais era que um risco na terra seca. Não só a fumaça, tudo havia sido riscado com um imundo e reles palitinho de fósforo, que o orgulhoso e emocionado artista achara por ali mesmo, no chão.

Talvez, não me lembro, tenha me vindo à cabeça nesta hora, a imagem do pintinho do jardim de Infância. O certo é que senti, ali, de novo, o inexplicável prazer, inoculado que fui pelo vício da descoberta, de que se pode sim, contar coisas para os outros, conversar com as pessoas por meio de simples imagens, signos, rabiscos, estas coisas.

Se podia escrever tudo que quiséssemos, sobre o mundo, sobre a vida, apenas com rabiscos, foi o que aprendi naquele pátio feito escola. Grande milagre da vida.

Não sei por quanto tempo o tal menino artista ficou no colégio. Me lembro, contudo, de ter visto muitos outros desenhos dele expostos no chão do pátio. Me lembro, aí sim, bem mais claramente que, pouco tempo depois, chegou a hora de desenhar, eu mesmo, a minha própria obra prima admirável:

Um galeão, copiado de uma imagem do gibi do Fantasma-que-anda, foi o que fiz. Exatamente o galeão da primeira história da série, na qual o primeiro Fantasma, chegava na praia próxima à selva de Bengala, quase morto, depois de ter escapado de um navio de sórdidos piratas, que era visto na gravura, ainda ancorado ao largo.

E lá estava eu, me sentindo o rei de todos os mares da imaginação, olhando não menos emocionado que o meu inspirador, o meu próprio rabisco sendo admirado pela intrigada garotada.

O mais belo e incrível de tudo é que, os desenhos que fazíamos, eu e meu inspirado antecessor (como numa disputa de artistas plásticos emergentes), ficavam intactos no pátio por dias e dias, sem um pisadinha sequer.

O turbilhão e correrias e brincadeiras que fazíamos (entre as quais o violento jogo da Carniça predominava) ocorriam ao largo dos desenhos que iam se apagando e esmaecendo apenas com o tempo, lentamente, soprados por alguma leve brisa de fim de tarde ou alguma garoa.

Era como se o pátio fosse o sagrado museu a céu aberto da nossa emocionada – e quase inacreditável – iconografia infantil.

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O ansiado dia de visitar a família em casa (sempre num sábado do mês), era um tormento sem tamanho porque, nunca sabíamos que hora a inspetora gritaria o nosso nome, com um embrulho de papel com a nossa roupa ‘civil’ na mão, Ficávamos amontoados em frente ao portão entreaberto, tentando ver se alguém da família aparecia na fresta. É que tínhamos medo, pânico mesmo de, num dia destes acontecer de ninguém da família aparecer.

A roupa ‘de sair’, quando voltávamos no fim do Domingo, era deixada na portaria e levada com a nossa mãe para casa. O pacote de roupa ‘da rua’ era muito ansiado também porque não tínhamos nenhuma roupa sobressalente para usar no colégio.

O macacão de brim azul, ficava imundo em poucos dias de uso. Não teríamos outro por meses a fio. O melhor era cuidar para que ele não ficasse muito puído e rasgasse no joelho (coisa quase impossível de não acontecer). Dormíamos e acordávamos com aquele macacão surrado, nojento, que só tirávamos para tomar banho.

Éramos organizados em bandos de quatro a cinco meninos. Tínhamos, como os presidiários adultos, números por meio dos quais éramos identificados no colégio, até que um apelido mais específico nos fosse aplicado. A eleição de um líder se dava por meio de disputas físicas ou mesmo por intermédio de ações aceitas como demonstração de heroísmo explícito.

O líder de meu grupo era o ‘Leiteiro’ (por ser cor de leite, um dos raros brancos da Escola-Prisão) que foi alçado a função depois de ter prometido (e cumprido) engulir mais de dez botões de roupa no espaço de um mês. Assumiu a chefia de nosso ‘bando’ assim que retornou da enfermaria depois de comer 32 botões.

Cada um de nós tinha uma escova de dentes que era cuidadosamente, afiada em alguma superfície cimentada, para fazer as vezes de arma, de estoque.

Assisti a diversos embates no pátio. Cercávamos os dois brigões numa roda compacta e incitávamos, um contra o outro, doidos para ver o sangue correr. As brigas eram à socos, pontapés e estrangulamentos, violência pura e franca como a de animais em disputa por território ou comida. Quando um dos dois era atingido gravemente pelo outro, com um golpe mais certeiro e sangrava (geralmente no nariz), gritávamos, ensandecidos, a senha que declarava a luta por encerrada, com a consagração do vencedor:

_’Tirou melado! Tirou melado!’

Outra imagem bem vívida destes primeiros anos, era a da garotada formada no pátio, ao cair da tarde, ao lado do alojamento onde dormíamos. A ‘formatura’ era rígida e marcial, com gritos de ordem unida que hoje soariam ridículos quando consideramos que nós, os internos, não passávamos de uma medíocre tropa de menininhos magricelas, com idade entre os cinco e os quinze anos. Contudo, cumpríamos as ordens, mesmo detestando, nos sentindo compulsórios soldados reais.

_ Pelotão…Sentido!
_ Cobrir!
_Descansar!
-Ordinário…Marche!

Para mim, pensando bem, até que a ‘formatura’ não era assim tão ridícula porque, logo depois da ordem unida, o clima ficava diferente, agradável mesmo, por causa das músicas que cantávamos.

O repertório era, a princípio, aquele, formalmente, utilizado em todas as escolas da época, hinos cívicos tradicionais,”qual-cisne-branco-que-em-noite-de-lua,‘já-podeis-da-pátria-filhos’. Mas, o prazer maior chegava na hora em que, entre contritos e embevecidos, entoávamos aquelas dolentes canções ‘indígenas’ de Heitor Villa Lobos. Dormíamos bem, como anjos, nos dias em que cantávamos Villa Lobos, naquela semi escuridão do pátio ao anoitecer.

Ninguém nunca nos perguntou porque ficávamos tão emocionados, principalmente, com aquela canção, da qual eu me lembro bem até hoje, que falava de um tal de Anhangá que fugiu:

…Ó manhã de sol! Anhangá fugiu!
Anhangá! Hê!Hê !
Ah! Ah! Foi você
quem me fez sonhar…’

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Não que tenha esquecido, mas, pouco me lembro de professores. Pelo que recordo, praticamente não os tínhamos. Me recordo vagamente das aulas em que fui alfabetizado, do cheiro de massa de modelar levada, uma única vez, por uma diligente professora e só.

Nossa referência ‘educacional’ eram os chamados ‘inspetores’, figuras musculosas, com as camisas de mangas curtas arregaçadas, para mostrar a nós, esquálidos meninos, a ameaçadora desproporção entre seus bíceps e nossos bracinhos finos como gravetos.

Os inspetores homens (haviam entre eles algumas poucas mulheres) eram, pelo aspecto, jovens policiais, praticantes de luta livre e Jiu Jitsu. Lembro de dois deles. Um que usava uma vareta dura de madeira (como uma batuta de maestro) com a qual fustigava as costas e as pernas dos meninos ‘indisciplinados’ e outro que, ironicamente, usava uma grande régua de madeira, com a qual gostava de acertar o vão das orelhas dos rebeldes incorrigíveis. Verdadeiros ‘desensinadores’ que eram, usavam a régua com truculência ‘educativa’, como método pedagógico’ mesmo. Boçais como a sociedade que os criara. Que Deus os tenha.

É deles, dos carcereiros-inspetores da Escola-Prisão, a penúltima imagem que me ficou na memória, não por acaso, a mais constrangedora:

Numa formatura silenciosa, sem jantar, sem ordem unida, sem música de Villa Lobos, sem hinos cívicos, sem nada, ficamos perfilados noite adentro, por cerca de quatro horas, com os braços direitos estendidos, com as mãos espalmadas, pousadas no ombro do colega da frente. Aqueles que, não resistindo à dor, deixavam o braço pender para baixo, recebiam golpes da vara que os inspetores ainda neste tempo, portavam como instrumento de poder e coação.

A intenção deles com a tortura coletiva era clara: Alguém teria que denunciar quem entre nós, havia feito uma das denúncias que haviam vazado para fora do colégio, engrossando o que hoje imagino ter sido uma grave crise no sistema SAM que, ali por volta de 1959, parecia prestes a ruir com novas denúncias sobre bárbaras torturas na Escola XV.

Dos motivos sabíamos alguns poucos detalhes. Havíamos sido, rapidamente, transferidos da Tijuca para um bairro distante do centro (se não me engano, Jacarepaguá). A comida, de resto sempre ruim, estava agora intragável. Dias antes, alguns meninos haviam baixado enfermaria, depois de ingerirem carne estragada. As mães, alarmadas pelas notícias que, ao que parece, já haviam saído na imprensa, passaram a deixar algumas moedas conosco, com as quais comprávamos algo para enganar a fome, bolos, balas, laranjas, através do portão principal.

Na visita seguinte, faminto como todos os outros, decidi confessar a minha mãe que não dava mais para ficar ali.

É esta decisão que deflagra então a nossa última memória que, como se fosse uma volta simbólica ao Jardim de Infância, é a minha lembrança mais querida:

O bonde, a cortininha de lona levantada, o trajeto arborizado por entre as ruas da Tijuca. A música bem ritmada dos trechos de trilhos percorridos, exatamente, a mesma música da fuga dos outros.

Música dura e com faíscas eletrizantes. O ferro da roda do bonde atritando o ferro de memórias que, agora que foram contadas, explodidas para fora da mala, caixa de Pandora aberta que era, não podem mais ser apagadas por ninguém.

Minha honra e meu mérito escolares foram, portanto, muito mais do que ter permanecido lá, ter ali compreendido que a rota de fuga para a liberdade, era a única matéria que realmente merecia ser aprendida.

Escapar íntegro da Escola-Prisão e ter espantado os morcegos da minha vida, entre todos, é o meu único diploma válido, exposto com orgulho na lousa destas minhas remotas memórias, para sempre felizes por serem, eternamente, infantis.

Spírito Santo
Fevereiro 2008

Sowell por Kamel: O Preto no Branco

•Junho 28, 2009 • 2 Comentários


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The-two-platforms melhor
(Cartaz racista contra a adoção do voto negro na campanha eleitoral para o governo da Pennsylvania em 1866 – Arquivo USA Library of Congress)

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Acabo de ler em O’ Globo de hoje, 26 de junho de 2009, um artigo assinado por um tal de Rodrigo Constantino ,exatamente igual a um artigo do Ali Kamel que eu me lembrava, vagamente de ter lido há muitos anos atrás (inclusive com as mesmas citações ao caquético livro do intelectual direitista norte americano Thomas Sowell “Ação afirmativa ao redor do mundo. Um estudo empírico“).

Acabei caindo no site do Observatório da Imprensa (via google) onde me deparei surpreso com um artigo por mim mesmo escrito naquela ocasião debatendo a cruzada contra as cotas que o jornalista Ali Kamel começava empreender no jornal O’ Globo já naquela época.

Época do artigo para ‘O Observatório da Imprensa’: Julho de 2004.

A sensação de estar num circulo vicioso foi o que mais me constrangeu. Apesar de todo o acesso que temos tido hoje à informação e a meios ágeis para o debate de qualquer questão, eu tinha dado com os burros na água naquele mesmo debate, depois de incríveis cinco anos (!) para constatar que não havia ainda, rigorosamente nada de novo para acrescentar à conversa.

Água fria. Não havíamos avançado um milímetro sequer no esclarecimento da questão.

O texto do tal Rodrigo Constantino, rebarbativo a mais não poder, publicado em destaque, sabe-se lá por que méritos editoriais (na minha pauta leio para mim mesmo um sonoro ‘cala-te boca’) num jornal tão importante como O’ Globo, dá bem a medida do ponto a que chegou o jornalismo no Brasil nestes tempos de ética zero (e nem se pode atribuir ainda a culpa ao fim da exigência do diploma).

Outra coisa que me causou muita estranheza também foi a grande afinação que se começa a perceber no discurso destas pessoas (é impressionante, mas eles se repetem quase… ipsis leteris), a similaridade de suas teses e de suas rasas referências, digamos… bibliográficas são impressionantes, dando-me a nítida e desagradável impressão de que são uma espécie de instituição organizada, uma confraria dedicada à uma causa arraigada e fundamentalista. Sei não…

Para deixar patente o surpreendente destas minhas conclusões, decidi então reproduzir aqui o artigo de cinco anos atrás d’O Observatório da Imprensa também…ipsis leteris.

(Com o perdão do estilo ainda claudicante – os títulos e chamadas foram criadas pelo editor do site- peço desculpas também por estar talvez repetindo coisas que já disse por aqui, mas é que na época acho que o Overmundo sequer existia. Com o perdão antecipado de vocês inseri também irresistíveis notinhas sarcásticas e atuais em itálico no texto antigo).

É verdade: O Brasil não anda mesmo para a frente.

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COTAS NAS UNIVERSIDADES
Argumentos de uma cruzada frágil

Por Antônio José do Espírito Santo em 6/7/2004

Tem causado muita celeuma o empenho quase militante do jornalista Ali Kamel em sua cruzada em O Globo contra a adoção de cotas raciais no ingresso na universidade pública brasileira… (isto eu sei que já disse aqui, mas ao que me parece ninguém deu muita bola para este detalhe, o caráter… militante do empenho do cara, principalmente em se tratando de um jornalista).

Enfática, facilitada talvez pelo fato de ele exercer um cargo proeminente na maior rede de mídia do país, o que chama mais a atenção na cruzada do jornalista é a incrível contradição entre o amplo espaço de mídia de que ele dispõe e a superficialidade por demais evidente de sua argumentação, atributo no mínimo estranho no texto de um jornalista tão veementemente determinado a expor suas idéias sobre o assunto.

Em seu último – e extenso – artigo sobre o tema, Ali Kamel … (ao que me parece até hoje, ele anda escrevendo desde 2004 aquele mesmo artigo sobre o tema) … já começa afirmando assim, sem mais nem menos que, ao adotar as cotas raciais, o Brasil estaria “rompendo com a tradição legal de tratar brasileiros sem distinção de raça ou cor”. Ora, qualquer brasileiro medianamente informado sabe que esta referida tradição jurídica só tem, de tradicional, o fato de ter sido, há muito tempo, transformada em letra morta, desmoralizada pelo desuso, como o foram tantos e tantos outros artigos e parágrafos de nossas leis, principalmente quando tratavam de corrigir injustiças sociais históricas, como o racismo, por exemplo.

Logo em seguida, Ali se vale do trabalho “Ação afirmativa ao redor do mundo. Um estudo empírico”, de Thomas Sowell, segundo ele “um dos mais renomados intelectuais americanos”… (você aí conhece ou já ouviu falar da impoluta figura?).

Não conhecemos nada sobre Thomas Sowell … (hoje, graças ao São Google, já sabemos que ele é um pensador de direita norte americano, eminente quadro do Partido Republicano, integrante da equipe do governo Ronald Reagan entre outras peças deste nipe barra pesada)… Por conta disso não podemos aferir seu alegado renome ou, mesmo, atestar a propriedade de suas idéias contra as ações afirmativas em geral (idéias, a propósito, consideradas “demolidoras” por Kamel). Seria, no entanto o caso de se perguntar: que importância tão transcendental poderia ter um estudo, assumidamente empírico, realizado por um estudioso americano sobre matéria tão especificamente ligada à realidade brasileira atual e imediata, em detrimento do tanto que já se escreveu sobre o tema por aqui?

Para início de conversa, a avaliação dos desacertos (onde foram parar os acertos?) de políticas afirmativas ou de isonomia social não poderia ser realizada assim, de forma tão generalizadora.

Relembrando Bill Clinton, não se pode ser contra políticas deste tipo só por que se pode ser. Tem gente olhando.

Assim sendo, o que teriam em comum realidades sociais tão diferentes quanto Sri Lanka e Nigéria, Índia, Malásia e Estados Unidos, utilizadas por Kamel (citando Sowell) como base de sua argumentação?

Não é tão simples se afirmar peremptoriamente, mas, ao que tudo indica, a essência dos problemas sociais no contexto das eventuais políticas afirmativas empreendidas na Malásia, no Sri Lanka expressa, na maior parte dos casos, a existência de distorções e disputas étnicas, cuja solução ou reparação poderia vir a auxiliar algum tipo de unidade nacional, territorial ou mesmo a realização de aspirações nacionalistas ou separatistas recorrentes. Reflexos de disputas inter-étnicas, em suma, entre outras complexidades.

(Tudo bem. Posso estar sendo também tão rebarbativo quanto o Constantino pois, na época – veja logo abaixo – eu já comentava o mesmo tema levantado pelo Sowell e reverberado por Kamel, mas é que – cá entre nós – ver o mesmo descuido… analítico, aparentemente sendo cometido num artigo acadêmico, especializado, ‘de ponta’ dói, não é não?

É que acabei encontrando também no São Google um artigo de 2005 de uma renomada professora do Departamento de Antropologia da USP, comentando o mesmo artigo de Sowell. Se quiser leia na íntegra para conferir.

Seria impressão minha ou o artigo, aparentemente ponderando a questão – advogando para o Diabo – acaba mesmo, é referendando, de certo modo, o raciocínio torto de Sowell?. Veja os trechos que eu – do mesmo modo com notinhas sarcásticas em negrito- destaquei :

…”O tema tem gerado uma série de livros, sendo que um dos mais recentes acaba de ser editado entre nós: Ação Afirmativa ao Redor do Mundo: um Estudo Empírico, de Thomas Sowell……Autor de vários livros, Sowell é um pensador conservador e influente – … Além do mais, pertence a uma das minorias que estuda: trata-se de um pesquisador negro (êpa! Será que se alude aqui ao mito do ‘preto de alma branca’ repaginado?).

…Sowell chama as políticas afirmativas de “mitologias políticas”, assim como as denuncia enquanto um conjunto de “suposições, crenças e arrazoados”… lança mão dos exemplos de países como Estados Unidos, Índia, Nigéria, Sri Lanka e Malásia, a fim de demonstrar que, nessas nações, tais políticas teriam favorecido um grupo delimitado…provocado conflitos e guerras. Na Índia, nação que teria aplicado políticas de ação afirmativa desde os tempos coloniais ingleses (ações afirmativas colonialistas? Gente de Deus! Como assim?)… Na Malásia, teria favorecido uma maioria, contra uma minoria dinâmica, como os chineses, emigrados mais recentes (‘minoria’…chinesa?.. ‘mais’ dinâmica? estaria Sowell insinuando o conceito ‘ minoria superior’? Sendo assim, ’superior’ a quem? Às demais ‘etnias’? Hum!!). No Sri Lanka, a conseqüência seria a radicalização entre cingaleses e tâmeis e a própria guerra civil.

O conflito civil da Nigéria também teria sido motivado pela tentativa de retirar de uma etnia, os hauçás, os direitos entregues a outra: os iorubas…” (de novo as historicamente impensáveis ‘ações afirmativas colonialistas’ . Como assim?)

Ora, não nos parece necessário ser especialista em antropologia para perceber que os conflitos inter-étnicos descritos por Sowell, claramente identificáveis como notórias e velhacas ‘armações’ colonialistas – ou neo-colonialistas sei lá – de inspiração maquiavelistas como afirmo abaixo, nada têm a ver com o conceito Ação Afirmativa. Menos que argumentos, as teses de Sowell seriam – como as de Kamel são – meros sofismas.

Bem…siga lendo abaixo o meu papo de 2004:

O papel do invasor

Aliás, a confusão inexplicável que Kamel faz dos conceitos raça e etnia chega a ficar esdrúxula quando ele evoca o candente exemplo da Guerra de Biafra, na qual, sabidamente, poderosos interesses do colonialismo inglês insuflaram uma cruenta guerra separatista, a partir de divergências étnicas históricas e muito antigas entre os povos haussa, yoruba e ibo. Ora, a guerra na Nigéria nada teve a ver, diretamente, com a questão das ações afirmativas. O que houve por lá, todos se lembram, foi uma guerra. Os então inimigos yoruba (conhecidos como nagôs no Brasil) e ibo (os massacrados biafrenses) são rigorosamente povos da mesma raça (tendo até alguns de seus descendentes entre os protagonistas no debate atual pela adoção de cotas raciais no Brasil).

A única relação que os referidos conflitos na Ásia ou na África poderiam ter com cotas raciais seria talvez o fato de que, em muitos casos, as contradições étnicas ou nacionalistas que elas visavam resolver terem sido insufladas pelos poderosos interesses geopolíticos do maquiavélico colonialismo das potências brancas ocidentais, que inventaram o racismo, este eficiente sistema de cotas ao contrário: divide et impera.

O mais curioso inclusive é que em sua inexplicável simplificação de um fato histórico tão notório, Kamel, sabe-se lá por que razão (seguindo, cegamente sabe-se agora, a tese truncada de Sowell) omite completamente o papel do invasor inglês, pivô evidente de toda aquela tragédia que, se previu algum tipo de cota, foram as contas macabras da fome e do extermínio.

Nem corpo mole nem mão beijada

Falando agora realmente de cotas raciais, o que teria a ver no discurso de Kamel a eventual ascensão social de um pequeno contingente de imigrantes chineses e japoneses na América com o racismo perpetrado pelos brancos americanos contra seus próprios cidadãos negros? Em que dados afinal Kamel se baseia para afirmar, tão categoricamente, que os emigrantes asiáticos na América teriam ascendido socialmente “apenas por esforço próprio”, sem nenhum tipo de mecanismo de promoção social que os estimulasse? Aliás, é muito forte e incômoda a sensação de que, ao insistir tão enfaticamente nesta tese de uma eventual eficiência oriental Ali Kamel, por extensão, possa estar sugerindo uma espécie de incompetência ou inferioridade negra, historicamente improvável e, logo, preconceituosa. Algo parecido com esta perigosa analogia são as ilações que o jornalista faz sobre as cotas raciais nos EUA.

É bom que se recorde que foi muito árdua, complexa e, por que não dizer, controvertida a luta dos negros americanos por seus direitos civis, luta que foi a inspiração mais evidente do moderno conceito de ação afirmativa hoje em voga no Brasil e no mundo.

Não se pode dissociar os enforcados do Alabama, as grandes marchas pelos direitos civis e os assassinatos de Martin Luther King, Malcom X ou dos irmãos Kennedy das ações afirmativas ou leis de cotas que os precederam. Típico caso de ação e reação causa e efeito, em suma. Desconhecer, subestimar ou ignorar a relação direta entre estes fatos seria o mesmo que tripudiar da história e de suas vítimas. Não houve, há que se frisar, corpo mole nem mão beijada. Nem lá nem aqui.

Intenção protelatória

Ao contrário do que, surpreendentemente afirma Ali Kamel em seu artigo, o que fez o número de conflitos raciais crescer na década de 70 na América não foi a adoção das cotas mas, ao contrário, a violenta repressão policial estimulada pelos segregacionistas e demais ferrenhos opositores da integração racial e das ações afirmativas em geral (grupo no qual, infelizmente, Ali Kamel parece que de algum modo se coloca, levando Thomas Sowell de contrapeso).

Aliás, quando trata da questão das cotas nos Estados Unidos, Kamel omite também a enorme e segregadíssima população hispânica (sobretudo mexicanos e porto-riquenhos), além da árabe (sobretudo os muçulmanos, excluídos da vez no pós-11 de Setembro) e para os quais muitas ações afirmativas, por certo, ainda terão que ser empreendidas um dia.

Voltando enfim ao foco principal da questão, sejamos francos: o sistema de ensino no Brasil é, em todos os níveis, excludente em sua própria essência. Excluir, garantir a pouca farinha para o pirão de poucos, esta tem sido a sua principal razão de ser.

Delfim Neto, famoso ex-ministro da Fazenda no auge da ditadura militar, teria afirmado certa vez, acerca da extrema desigualdade na distribuição da renda no país, que era preciso primeiro “aumentar o bolo” para só então distribuí-lo entre os despossuídos. A tese de Kamel de que “é preciso primeiro melhorar a qualidade do ensino básico” para só aí, e pelos meios atuais, autorizar o ingresso de negros e pobres na universidade, vista por este prisma, parece ter esta mesma intenção protelatória.

Excedentes indesejáveis

É óbvio que será necessário melhorar a qualidade do ensino básico, mas uma coisa absolutamente não anula a outra. Há que se intervir radicalmente, e desde já, nos procedimentos de acesso à universidade pública, a fim de demolir seus mecanismos de exclusão tão arraigados. Quebrar seus funis.

É óbvio que a adoção de cotas, neste como em outros casos, objetiva a correção de distorções eminentemente sociais. Ocorre, no entanto que o fato de os negros serem as vítimas mais evidentes destas distorções faz com que as cotas raciais sejam um critério claramente pertinente, um grande facilitador na implementação destas políticas. O resto é tergiversação.

Sofismas na acepção da palavra, os procedimentos atuais que regulam o acesso ao ensino universitário, por exemplo, notadamente os chamados exames vestibulares, são do mesmo modo excludentes por natureza, não representando, a rigor, procedimento de aferição de conhecimento algum que não seja a simples apreensão de senhas, regras e códigos de acesso, decodificados em apostilas.

São, portanto o que o seu próprio nome diz: mecanismos “vestibulares”, portas reguladoras do acesso para os que tiverem mais “bala na agulha”, aqueles que, por ascendência socioeconômica (de certo modo o mesmo que sócio-racial no Brasil), terão o direito á educação plena que o Estado brasileiro não consegue a disponibilizar para todos, necessitando de, por meio destes eficientes mecanismos, excluir os excedentes indesejáveis.

Não compreenderam

Se há tão profundos níveis de desigualdade social no Brasil, é óbvio que semelhante sistema educacional não visa – ou não precisa visar – necessariamente educar, desenvolver país algum. Quem liga?

É por estas e outras que, se formos mesmo rigorosos quanto a isto, veremos que não existem ainda provas realmente cabais de que a universidade pública brasileira é excelente em si mesma. Um oásis de excelência a ser preservado da invasão de bárbaros pés-rapados.

É provável mesmo que, num ranking mundial, não estejamos em posição tão vantajosa quanto poderíamos estar se tivéssemos uma universidade realmente democrática. Como se sabe hoje que raça e condição econômica não são, de modo algum, sinônimos de maior inteligência ou maior aptidão intelectual, é óbvio que estamos utilizando, ainda hoje, mais de um século depois do fim da escravidão, algum tipo de complexo mecanismo de exclusão, que faz com que sejam admitidas na universidade uma maioria esmagadora de pessoas brancas e relativamente ricas, caracterizando um perfeito sistema de cotas raciais, portanto.

Se soubermos o verdadeiro sentido do conceito educação, concluiremos que o que temos no Brasil hoje é um sistema educacional ineficiente, além de doente e anacrônico. A sociedade brasileira está cheia de “mecanismos vestibulares” como este (ações negativas). No serviço público, no esporte, na dramaturgia televisiva, e até no jornalismo, talvez. São estes mecanismos que as ações afirmativas visam demolir, independentemente de quaisquer outras ações que o Estado ou a sociedade venham a empreender em prol da democratização do país.

É isto que pessoas como o jornalista Ali Kamel não compreenderam ainda.

(… ou não querem acreditar, acrescentaria eu hoje em dia, um tanto ou quanto cético quanto a honestidade ideológica desta gente)

Spirito Santo
julho 2004/ Junho 2009

Nota:
(Trecho parcialmente traduzido do
São Google a partir das referenciais descrições do cartaz)

Ilustrando esta matéria um cartaz racista atacando expoentes do Partido Radical Republicano que apoiaram o direito de voto para os negros (emenda Constitucional” de maio de 1866). O cartaz caracteriza o candidato democrata Hiester Clymer como adepto da plataforma “Homem branco”, representado pela idealizada cabeça de um jovem homem (Clymer pregava a supremacia racial dos brancos), em oposição a uma estereotipada cabeça de um negro representando o adversário de Clymer, James White Geary (que também era branco) e apoiava o voto para negros.

(Observem que, ao contrário do que ocorre com o ‘retrato’ de Clymer, no dístico que classifica o homem negro – supostamente Geary – não consta a expressão ‘man’ – ‘homem’).

Os cartazes foram espalhados na Pennsylvania durante a campanha pelo governo do estado em 1866. Geary acabou sendo o mais votado (307.274 votos) do que o racista Clymer (290.096 votos). Geary governou a Pensilvânia por dois mandatos, de 1867 a 1873.

Ulelelé! Grupo Vissungo no Youtube

•Junho 4, 2009 • Deixe um comentário

In July 1988, with an invitation to travel to Europe, the Group Vissungo ’starred’ this interesting video that marked its strong position to follow the vocation ‘Brazilian afrobeat’, a musical trend completely unknown – and unthinkable – for the too americanized brazilian musical scene of the occasion.

O’afro-beat ‘was a trend considered ‘european’ by the Brazilian phonographic market and its’ Majors’ in their close view of the market reserve for the’ black music ‘Motow post (not to mention that in our tough and systemic racism who preferred a black Brazilian music more…domesticated)

Managed fairly creative for that time by Flavio Razemblat, the film, a dusty VHS tape was left in a cardboard box for all these years.

The moovment implemented on the Internet about the desired ‘revival’ of the band, gave more life to this old document.

Ulelele!

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Em julho de 1988, já com um convite para viajar para a Europa, o Grupo Vissungo ‘estrelou’ este interessante vídeoclip que marcava a sua firme posição de seguir a vocação ‘Brazilian afrobeat’, uma tendência musical totalmente desconhecida – e impensável – para a excessivamente americanizada cena musical brasileira da ocasião.

O‘afro-beat’ era uma tendência considerada ‘européia’ pelo mercado fonográfico brasileiro e suas ‘majors’ gringas, em sua estreita visão de reserva de mercado para a ‘black music’ pós Motow (isto sem falar em nosso sistêmico e renitente racismo que preferia uma música negra brasileira mais..domesticada).

Dirigido de forma bastante criativa para a época por Flavio Razemblat, o filme, uma fita VHS empoeirada, estava esquecido numa caixa de papelão por todos estes anos.

O agito implementado na Internet acerca do ansiado ‘revival’ da banda, resuscitou mais este alfarrábio.

Ulelelé!

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O Camelo na Agulha

•Junho 1, 2009 • 1 Comentário


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Cerimonia na Escola Mitre 27 agosto 1918 malta
(Teste da ‘agulha no palheiro’: Procure os ‘wallys‘ nas fotos e ganhe um doce – o ‘wally’ no caso é um aluno – ou aluna – afro-descendente)

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…”O que diferencia o sofisma da falácia, é que, embora ambos sejam basicamente raciocínios errados, a falácia é involuntária. Ao passo que o sofisma tem como objetivo induzir a audiência ao engano, o raciocínio falacioso decorre de uma falha de quem argumenta. Quem usa sofismas, sabe o que está fazendo quando, por exemplo, tenta nos empurrar uma conclusão para a qual não dispõe de dados ou demonstrações suficientes. ….”
Othon M. Garcia

(Comentando o artigo “Cotas” por Ali Kamel publicado no jornal O Globo em 27/05/2008 e ainda tão atual e recorrente hoje em dia)
Ali Kamel assim falou e disse:

Sofisma número 01:

” A Uerj, a primeira universidade brasileira a adotar o sistema de cotas raciais, divulgou um estudo bastante revelador. No vestibular do ano passado, foram oferecidas 1.048 vagas para negros, mas apenas 673 estudantes se inscreveram. Desses, 439 passaram.
No ano anterior, o mesmo fenômeno já tinha acontecido. Foram oferecidas 1.031 vagas para negros, mas apenas 753 se inscreveram (as aprovações foram de apenas 432 alunos). Antes, havia mais candidatos inscritos do que vagas, mas o cenário mudou completamente nos últimos dois anos. A Uerj anunciou, então, um amplo estudo, a ser concluído até o fim deste ano, para descobrir as causas.”

(O baixo índice de inscrições bem como a taxa de cerca de 60% de aprovações, baixa pela insinuação do autor, ao contrário do que ele induz o leitor a concluir, são fatores previsíveis e compatíveis com a natureza perversa da exclusão sócio racial no Brasil. Estes números não provam, de forma alguma, que não há demanda de vagas para negros ou mesmo que a oferta é superior à esta demanda. O que provam é que o sistema de cotas, pelo menos no caso da Uerj, é sério no que se propõe e atende, em grande medida suas finalidades)

Mas Ali, não se faz de rogado e sem salamaleques, segue:

“Eu pergunto: precisa?
Para mim, esses dados são eloqüentes e provam, de maneira cabal, que, se os negros e os pardos não estão nas universidades na mesma proporção que ocupam na população geral, o motivo não é o racismo. “

(Ficando atestado que os rasos dados apresentados por Ali NÃO são eloquentes e nem provam nada de maneira CABAL, a afirmação do autor de que a razão do negro não estar na universidade não é o racismo, não se confirma. A afirmação inicial, tema central de toda a argumentação do autor no artigo, portanto, não procede)

E ainda assim Ali Kamel segue:

Sofisma número 02:

“Se, mesmo com 20% de vagas reservadas, não há inscritos suficientes, isso é um sinal claro de que a política de cotas é um instrumento ineficiente para abrir as portas do ensino superior. Se a Uerj decidisse ampliar a reserva de vagas para, digamos, 40%, o único resultado seria uma ociosidade ainda maior”

(A afirmação baseada numa argumentação infundada, segue sendo inconsistente. Aliás, a cega insistência nas afirmações infundadas é um artifício de argumentação usado pelo autor de forma, irritantemente insistente:)

“…O que esses números dizem de uma maneira irrefutável é que o ensino médio não forma alunos negros em número suficiente, o que impede até mesmo uma simples inscrição no vestibular (o certificado de conclusão do ensino médio é requisito para entrar na universidade) “

(Não está claramente demonstrado de onde o autor tirou esta conclusão, logo nada em seu discurso é ‘irrefutável’. O baixo índice de inscrições, provavelmente só atesta que uma grande parte dos alunos negros não se sente ainda, suficientemente preparada ou mesmo, confiante para tentar o vestibular.

Outros fatores tais como impossibilidades sócio econômicas definitivas, necessidade de ingressar logo no mercado de trabalho, também são fatores óbvios que poderiam ter sido considerados pelo autor.)

Renitente, Ali segue seu arrazoado:

Sofisma número 03:

“Antes, havia mais inscritos do que vagas, porque havia um estoque de alunos formados em anos anteriores, estoque esse que, com o tempo, se esgotou. Hoje, faltam formandos oriundos do ensino médio. Como para freqüentar o ensino médio e o ensino fundamental não há nenhum pré-requisito, não se pode dizer que haja neles um gargalo que atinja especificamente os negros”

(Mesmo ignorando o primarismo do discurso – inusitado para um jornalista da posição do autor – a argumentação, não pode deixar de ser criticada por sua leviandade flagrante: São inúmeras as dificuldades interpostas aos jovens negros – e consequentemente pobres – para vencer a barreira do ensino médio e mesmo do ensino fundamental.

Na verdade, a natureza cruel destas dificuldades tão evidentes está na raiz de toda a discussão que, reconhecendo a existência de racismo no Brasil, justifica como sendo urgentes e necessárias as ações afirmativas específicas para negros, sem prejuízo de outras ações de caráter mais universal, as quais os negros do mesmo modo teriam direito. )

…Cego e surdo Ali vai em frente:

“…Neste país, negro, pardo, branco ou amarelo, todos têm livre acesso às escolas públicas . Em outras palavras, não é o racismo que impede os negros de se formarem no ensino médio e, formados, de passarem no vestibular, mesmo tendo a vida facilitada por cotas”

(De novo o primarismo do discurso. Como todo mundo sabe e não discorda, o livre acesso à péssima escola pública brasileira – como o próprio autor de maneira contraditória, argumenta em outras situações – não é garantia alguma de livre acesso ao vestibular e, muito menos à universidade por razões mais do que óbvias.

A argumentação principal que justifica as cotas está ligada, diretamente ao fato de que o sistema educacional brasileiro é excludente por sua própria natureza, havendo criado um odioso filtro denominado exatamente ‘vestibular’, um gargalo na acepção da palavra ao qual só têm acesso aqueles que podem pagar por uma espécie de ‘treinamento’ que os habilita a ingressar na universidade pública – que assim, elitizou-se de forma inaceitável já que, por clara definição, deixou de ser para todos.

Afora todas as mazelas e empecilhos que os jovens negros – e consequentemente pobres, repetimos – já sofrem para ultrapassar a barreira do ensino fundamental e do ensino médio, ainda são excluídos do acesso ao vestibular por não terem poder aquisitivo para pagar este ‘treinamento‘ específico de acesso.)

Segue Ali a sua trilha santa:

“O que os impede de estar bem preparados é a pobreza. São os pobres, de todas as cores, que freqüentam as nossas escolas públicas, a maioria esmagadora delas de péssima qualidade”.

(A afirmação são pobres de todas as cores‘, ponto recorrente da argumentação do autor, ignora de maneira aparentemente oportunista, o fato de no Brasil – e no Rio de Janeiro em especial – a maioria esmagadora dos pobres ser formada por negros e que são a estes pobres-negros que as nossas escolas de ‘péssima qualidade’ se destinam, ou seja, ignora o autor que há uma clara relação de causa e efeito – intencional supõe-se – entre a péssima qualidade das escolas e a clientela a qual elas se destinam.

Por outro lado no caso deste elemento recorrente da argumentação do autor – a afirmação de que os pobres têm cores – é bastante sintomático, o fato de focar, tão especificamente, exatamente os indivíduos de raça negra como sendo os que ele propõe – e apenas a eles – que se negue as cotas)

Por Alah!Tomado por sua estranha e insana razão, ainda assim, Ali prossegue:

Sofisma número 04:

“Os mesmos números da Uerj comprovam o que estou dizendo. A universidade também destina cotas para estudantes da rede pública: no ano passado, foram oferecidas 1.048 vagas, e os inscritos foram 1.292 alunos. Mas apenas 787 passaram, mesmo com as cotas. No ano anterior, 1.581 alunos da rede pública se inscreveram nas 1.031 vagas oferecidas nas cotas, mas, novamente, apenas 830 alunos conseguiram entrar. Por que há mais alunos inscritos na cota para alunos de escolas públicas? A lei que instituiu as cotas na Uerj, diferentemente de outras leis, não diz que negros são os negros propriamente ditos e os pardos. Fala apenas em negros, e ordena num outro parágrafo que a universidade crie mecanismos para combater fraudes”

(A identificação de quem é ou não é negro no Brasil é uma questão de natureza muito controversa, mas a culpa disto (ou o ônus) não pode ser atribuída aos ‘negros’ ou aos ‘pardos’. A rigor, contudo, é óbvio que o critério (criado pela própria cultura do racismo à brasileira), é o da aparência.

Aqui, é negro quem parece ser negro já que este é o estigma, a condição que identifica e determina quem será excluído. A questão se tornou bem mais confusa ainda quando, institucionalmente por ocasião de alguns recenseamentos se adotou a prática do ítem cor autodeclarado que, atendendo a um interesse específico da elite brasileira, reduziu drasticamente – e de forma claramente enganosa – a taxa de negros no país.

Em geral, ao lidar com o problema, os especialistas tentam diluir a população num infinito mosaico de cores sem, contudo, justificar a misteriosa razão que faz com que a nossa elite econômica continue a ser, quase que inteiramente ‘branca’.

O mais exdrúxulo dos equívocos de nossos demógrafos, contudo é aquele que denuncia que nas estatísticas de cotistas brasileiros, na categoria dos ‘pardos’, estão computados os nossos milhões de descendentes de índios. Ora, não podemos nos esquecer que, no ensejo de serem também excluídos no passado, os índios do Brasil também eram classificados como ‘negros’.

Foi para corrigir esta distorção odiosa (mascarava a possibilidade de se alegar racismo) que se começou a computar os ‘pardos’ como pertencendo ao mesmo contingente social dos negros.

Constatou-se que, do ponto de vista do racismo à brasileira, discriminava-se os ‘pardos’ tanto quanto se discriminava os ‘negros’. É este critério que orienta e justifica a adoção de cotas chamadas de ‘raciais’. O critério é – sob o ponto de vista ético inclusive – perfeitamente legítimo.)

Ainda assim Ali segue com a palavra:

“Num país miscigenado como o nosso, é muito provável que os pardos de várias tonalidades tenham medo de se inscrever como negros e passar o vexame de ou ver a inscrição negada ou, pior, ser punidos como fraudadores. Devem estar optando pela cota mais segura, aquela que está isenta de qualquer tribunal racial, a cota para alunos de escolas públicas”.

(De novo as expressões ‘miscigenados‘ e ‘pardos de várias tonalidades‘ são usadas de forma capciosa. As expressões, maquiavélicas (‘divide et impera‘) a mais não poder, admitem a existência de ‘pardos’ – ‘mestiços‘ – novamente com a nítida intenção de reduzir – ou mesmo anular, extinguir – a existência de negros, excluindo desta forma furtiva, a possibilidade de se alegar a existência de racismo no Brasil.

O aspecto mais frágil da argumentação do autor, contudo é que ele não explica que apenas aqueles que alegam ser pardos, mas têm inegavelmente a aparência de brancos– que se supõe ser um número mínimo de pessoas – são os que têm medo de passar por fraudadores no sistema de cotas.

A questão é obviamente ética. É o ônus que devem pagar aqueles que, mesmo nunca tendo sido considerados negros, estão tentando tirar partido de uma situação se valendo do fato dela ser, naturalmente ambígua.

Como o critério do racismo à brasileira, como já se disse acima, é sempre a aparência, supõe-se que, do ponto de vista da lei das cotas, este contingente precise ser tratado como um caso à parte, um caso omisso, com implicações éticas e jurídicas que não podem, de modo algum, ser consideradas uma falha importante do sistema já que, mesmo juridicamente, toda regra tem exceção.)

e com a platéia já meio que bocejando segue Ali impassível :


Sofisma número 05:

“Mas o trágico é que em ambas o índice de reprovação é altíssimo: 35%, na cota para negros, e 39%, na cota para alunos da rede pública. Um sinal óbvio de que o problema reside no péssimo ensino que nossas escolas dão aos seus alunos, os filhos pobres do país. Uma tragédia”

(Como já se afirmou acima – e como o próprio autor, em suas próprias entrelinhas admite – os ‘filhos pobres do Brasil’, em sua esmagadora maioria, não são ‘brancos’. São tecnicamente tratados, discriminados e excluídos dos processos educacionais – entre outros processos – por não serem brancos, sendo, portanto simbolicamente ‘negros’ – mesmo se sabendo que a afirmação, usada de maneira política, não possui base científica alguma (não existem raças, cientificamente, mas todo mundo que não é cínico sabe que existe racismo no Brasil e raças inventadas para justificá-lo).

“Diante desses números, só há uma conclusão possível: as universidades só estarão coalhadas de alunos de todas as cores quando o nosso ensino público for de qualidade”.

(A afirmação parte do princípio de que o ensino das escolas privadas – ou dos cursinhos pré vestibulares – tem qualidade per si. Esta qualidade, contudo, excetuando algumas poucas escolas da alta classe média branca, de elite, portanto, não está devidamente atestada já que o acesso à universidade ainda se dá por intermédio de um sistema de avaliação muito questionável, no que diz respeito ao nível de capacitação do candidato. Há que se atestar também a qualidade da universidade brasileira em relação a de outros países para se ter uma justa medida de valor do sistema e da eficiência de seus mecanismos de acesso. )

...Só quando galinha criar dentes…

Sofisma número 06:

“Hoje, segundo dados oficiais, 75% das escolas de ensino fundamental no Brasil não têm sequer biblioteca, 91% não têm laboratório de ciências, 80% não têm sala de vídeo, 62% não têm computadores, 83% não têm laboratório de informática e 80% não têm acesso à internet. Não há uma só reportagem feita em uma escola pública típica, seja de cidade grande, pequena ou média, de área urbana ou de interior, em que o quadro não se repita: prédios caindo aos pedaços, livros didáticos de baixíssima qualidade, professores mal remunerados e mal preparados. Enquanto esse quadro persistir, os pobres brasileiros continuarão barrados às portas das universidades, mesmo daquelas que tentaram o atalho fácil das cotas. Haverá menos inscritos do que vagas oferecidas, e a reprovação continuará a ser grande”

(A constatação do autor ‘chove no molhado‘. Como todo mundo está cansado de saber a péssima qualidade da escola pública do Brasil atinge em cheio os pobres do país. O que o autor, estranhamente insiste em negar é que no Brasil a grande maioria dos ‘negros’ é pobre, ou seja, está sendo ainda excluída dos processos de evolução e promoção social, mais intensamente do que a parcela dos pobres em geral, por ser descendente de escravos que, como todo mundo também sabe, foram largados à margem da sociedade brasileira com a abolição (como se pode constatar facilmente, uma ínfima porção de pessoas reconhecidamente ‘brancas’ é realmente pobre no país).

Como convém ressaltar, historicamente este procedimento excludente tem sido usado de forma renitente pela elite beneficiária da situação – que decidiu manter o sistema vigente até hoje, reservando aos filhos, netos e bisnetos daquela gente escrava este mesmo hediondo lugar na sociedade, na mesma medida em que reserva (num evidente sistema de cotas ao contrário) os melhores lugares da sociedade para os seus (inclusive aqueles financiados com dinheiro público – como ainda ocorre no caso das universidades estaduais e federais.

É isto que precisa ser reparado já (como se faz em qualquer sociedade democrática e civilizada) com medidas e ações afirmativas e reparadoras. É esta a verdadeira natureza da proposta de cotas raciais no Brasil. Igualdade de oportunidades para todos de algum modo que não seja tardio, com métodos que não sejam meros sofismas protelatórios como os propostos, tão genericamente pelo autor.

Ou bem adotamos cotas para ‘negros’ ou abolimos as cotas para ‘brancos’. Tanto faz. Negando todos os sofismas do autor, deveríamos afirmar: Sim, somos racistas. Ponto. A questão nova deveria ser: Quando e como vamos deixar de sê-lo?)

Seria o fundamentalista ‘anti-racialismo’ de Ali uma espécie de… Neo racismo? Senão vejamos:

“Não vê quem não quer. E quem não quer ver são os racialistas, aqueles que querem transformar a nossa sociedade miscigenada numa nação racialmente dividida a fórceps entre negros e brancos. Em vez de analisarem os números e admitirem que é a pobreza, muito mais do que o racismo, a responsável pela falta de acesso de negros às universidades, preferem escrever manifestos em que repetem os mesmos falsos argumentos estatísticos de sempre. Desfiam uma série de números mostrando que negros e pardos encontram-se em situação pior, na média, do que os brancos, mas omitem que as estatísticas não permitem deduzir que isso seja fruto de racismo. É fruto da pobreza. O estudo da Uerj é apenas uma prova a mais, dentre muitas. A sanha racialista é de tal ordem que o Ipea chega a divulgar com pompa e orgulho que, este ano, os negros serão maioria entre os brasileiros. Nada contra, se fosse verdade. Não é. O que os dados do IBGE mostram inequivocamente é que o Brasil caminha para ser a maior nação mestiça do mundo. É isto o que temos de comemorar, é a prova mais evidente de que, no Brasil, não existem grupos estanques, todos se misturam”. É a nossa novidade diante do mundo, contra a qual lutam os racialistas”.

(O fim da argumentação constrangedora do autor é voltado para a enfatização do sofisma-chave de seu discurso ideológico: O Elogio à mestiçagem, a eufemística tese da Democracia Racial tão caquética e arcaica quanto desmoralizada em sua impropriedade, atestada pela simples observação dos fatos de nosso selvagem cotidiano e por sua evidente finalidade (desde Graça Aranha até Gilberto Freire) de servir de pretexto político para manter, ad infinitun, as coisas como estão na sociedade brasileira que, todo mundo também já deve saber, é uma das mais desiguais do planeta.

Ou não?

Até aí tudo poderia se resumir a um simples debate entre opiniões eventualmente divergentes, mas há de se considerar que no caso do jornalista existe um componente inaceitável – e pouco ético, na verdade – que é o fato dele, no ensejo de ocupar a sua triste tribuna, se valer da privilegiada posição que ocupa a frente dos maiores veículos de comunicação do país, contaminando todo o noticiário com editoriais e matérias em nome de sua estranha campanha contra ações afirmativas para negros no Brasil.

Não nos parece sério negar – ainda mais assim com argumentos tão ultrapassados – a existência no Brasil de procedimentos sociais exercidos por uma elite autodeclarada, caracterizados pela adoção de mecanismos de exclusão de certos grupos sociais sob a suposta – e oportunista – alegação de que estes pertencem a uma raça inferior (traduzindo : Racismo).

Menos sério ainda é fazer isto por meio de um arrazoado teórico tão primário, contraditório e desprovido de consistência.

A julgar por este seu tom de cruzada militante – e ao que parece pessoal – movimentando forças formadoras de opinião tão poderosas quanto as Organizações Globo, especificamente contra negros e pardos, talvez se devesse traduzir o suposto anti-racialismo do autor como sendo uma atitude meramente… racista (ou… neo racista talvez). Uma espécie de anti- abolicionismo tardio, como eu mesmo já disse em certa ocasião.

—————

Informando para quem ainda não sabe:

ALI KAMEL se declara apenas jornalista, mas, além disto, é o Editor Chefe do jornal impresso O Globo, de onde dispara editoriais – obviamente apócrifos – contra as cotas para negros e Editor Executivo do Jornal Nacional e de todos os telejornais da TV Globo, de onde pauta – e endossa – matérias do mesmo modo tendenciosas e opinativas contra ações afirmativas para negros no Brasil. Quem decide, portanto quais, como e quando opiniões favoráveis às cotas raciais serão publicadas nestes grandes veículos, é ele mesmo: Ali Kamel.)

Ou seja: É o camelo que passou pelo buraco da agulha, e está, injustamente com toda a banca no reino dos céus.

Mas não há de ser nada:

_Alah u Akbar!

Spírito Santo
Junho 2009

Faca de Ponta

•Maio 21, 2009 • Deixe um comentário

Jaqueta Capoeira
A tradição e a Capoeira retrucadas

“… Riachão said:
I do not deal with unknown negger
I do not know if it is a slave
come here to escape.. ”

Relendo o interessante post deste link me deu vontade de fazer este longo comentário dizendo que, realmente o alegado fenômeno da ‘tradição inventada’ levemente abordado no post a propósito de uma conversa sobre Capoeira, é bastante atual e recorrente, mas talvez esteja ainda incompletamente conceituado ali.

Posso começar sugerindo que, para ser necessário se ‘re-tradicionalizar’ algo, é necessário primeiro se reconhecer que este algo, antes reconhecido como tradicional, foi ‘des-tradicionalizado’ (por um processo que não vem ao caso se foi natural ou artificial) ou seja, foi de algum modo ‘conspurcado‘ (no dizer dos tradicionalistas mais radicais).

É lógico que não se recondiciona algo que não foi descondicionado.

Entender, portanto como esta coisa (uma manifestação cultural, no caso) era originalmente, torna-se imperativo para que se possa propor – ou criticar – a sua eventual ‘re-tradicionalização‘.

Complicado, concordo (embora a culpa não seja exatamente minha) mas sugiro que é por aí.

Fenômeno antropologicamente muito complexo, estas intenções de ‘retradicionalização‘ são controversas e ambíguas a mais não poder. Não é com uma leitura rápida de um ou outro Hobsbawm da vida que se conseguirá explicá-las ou justificá-las a contento.

É evidente que muitas destas distorções intencionais ou circunstanciais (‘tradições inventadas’), são muitas vezes honestas – e ingênuas em certos casos – mas podem ser também – e não raro o são – espertas e deliberadamente mal intencionadas (oportunistas para se dizer em português mais claro).

Logo, desqualificar o crítico chamando-o de ‘tradicionalista’ ressentido não é uma argumento suficiente ou convincente nestes casos. É o mesmo que, diante da má notícia, fuzilar o mensageiro.

Outro aspecto relevante é que esta ‘re-tradicionalização’ alegada, não pode ser definida, assim tão grosso modo como um processo de ‘invenção de tradições’.

Nestes processos ditos de ‘re-tradicionalização‘, tanto podem existir procedimentos de ‘resgate’ de antigas tradições, ‘autênticas’, realmente existentes no passado (redescobertas por alguma pesquisa) quanto tradições, efetivamente ‘inventadas’, meras mistificações criadas com o propósito claro e determinado de iludir os incautos, novos adeptos ou expectadores, admiradores de algo que não conhecem muito bem, vistos aqui como clientes de interesses comerciais e pecuniários em potencial (ou seja, ‘otários’ no bom linguajar capoeirístico do início do século 20).

É a velha armadilha para turistas, o chamadoFolclore para inglês ver‘.

É neste contexto amplo – olhando igualmente para os dois lados da moeda – que a questão da Capoeira precisa ser analisada. É muito evidente que a polêmica que envolve as duas correntes da Capoeira brasileira hoje, não se resume apenas a um embate ‘oligofrênico‘ entre ‘heróicos’ universalistas que espalham ‘galhardamente’ a Capoeira pelo mundo afora e vetustos tradicionalistas reacionários, aferrados a velhas e superadas tradições supostamente africanas.

Esta história é velha e se repete como farsa. Vem do tempo em que a Capoeira era sinônimo de rebelião, de organizações criminosas formadas por escravos ‘de-ganho’ e escravos fugidos (‘crime negro organizado’) e nem dança tinha.

O conflito era entre os ‘Nagoas‘ (negros africanos, habitantes do perímetro da Corte, até o bairro da Glória) e os ‘Gauiamuns‘ (negros ‘crioulos‘ – nascidos no Brasil – e mulatos habitantes da periferia, depois do Campo de Santanna e as adjacências do que é hoje a Praça Onze)

Para quem se liga no tema, recomendo a leitura dos livros sensacionais de Carlos Eugênio Líbano Soares: Negregada instituição‘ e ‘Capoeira Escrava.

“…Em seu livro A Identidade Cultural na Pós-modernidade (2002) Stuart Hall, destacado teórico do campo dos Estudos Culturais, argumenta que as culturas nacionais são compostas não apenas de instituições culturais, mas também de símbolos e representações. Uma cultura nacional é um discurso – um modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos, e, em conseqüência, as concepções que outras culturas têm da nossa. As culturas nacionais, ao produzir sentidos sobre “a nação”, sentidos com os quais podemos nos identificar, constroem identidades.”

(Sandra Rúbia da Silva (neste link na íntegra) “Redescobrindo o Brasil com Olhos Estrangeiros: a construção discursiva da identidade nacional brasileira na internet

A maioria finge que não vê, mas, existe sim hoje (e a este tema tenho me dedicado com muita frequência aqui mesmo neste site) um surdo conflito sócio cultural instalado no Brasil, envolvendo manifestações tradicionais de todos os tipos, entre elas o Jongo, o Maracatu e, com toda certeza a Capoeira, caracterizado pela utilização da prática da tradição inventada (conceituada sob os eufemismos os mais diversos, tais como a ‘resignificação’, por exemplo) como tática de ocupação de espaços de representação e de visibilidade social, notadamente após o surgimento de canais de patrocínio institucional.

Logo, existe no bojo desta discussão a ‘Tradição Inventada’, instancia legítima do resgate de valores sócio culturais extintos (ou em processo de extinção) por interesses de resgate da cidadania, de reencontro de elementos da auto estima perdida, do espírito de coesão de um grupo social e até da busca da modernidade legítima, etc. mas há também a ‘Tradição Inventada lado B, com outro sentido e outros interesses, como, por exemplo, um grupo social tirando partido de uma situação – como o aventureiro da história, aquele que ‘lança mão’.

(Aliás, já disse aqui varias vezes que esta é uma prática ideológica muito aplicada – e com aguda perspicácia – por nossa elite moderninha, exímia – e cínica – predadora social).

Pois bem, estes aspectos precisam ser do mesmo modo, convidados á entrar na roda, para serem esmiuçados, explicitados enfim.

Não devemos nos esquecer que Cultura é sobretudo Ética, modo de se proceder em sociedade, voltado para um fim que pode ser, bom ou ruim, honesto ou desonesto, dependendo do ponto de vista deste ou daquele grupo social e de seus respectivos interesses.

O Brasil convenhamos, não é esta gracinha de paz e amor entre uns e outros que certos otimistas renitentes insistem em apregoar. Aqui não há chapéuzinho vermelho nem vovózinha. É lobo engolindo lobo, sempre, vamos combinar.

Bucolismo de vaquinha pastando ao sol aqui só como comédia sarcástica. Conflito, ‘política o tempo inteiro’ é o que é a cultura de nós todos, seres em contínua mutação (e múltiplos interesses) aqui neste ex-país do carnaval.

“…”Hey .. I want to surrender
Hey, I want to surrender, Camará

Hey, knife-edge
Hey, knife-edge, Camará!

Knife to pierce
Hey, knife for drilling, Camará!”

Este embate falso entre modernidade e tradicionalidade encerra também um importante problema: Estar aferrado apenas às estáticas práticas e formas (‘estéticas’) de uma manifestação, amarrado cegamente às tradições (no sentido vulgar da palavra) não tem nada a ver com Tradição no sentido estrito da palavra.

Tradição é uma instancia cultural que pressupõe dinâmica, evolução a partir de algumas premissas básicas (um ‘DNA’, um ‘ethos’). Ou seja: ser um adepto da tradição e ser adepto da modernidade não é exatamente uma contradição em si.

Pensando grande, a rigor estas premissas básicas que definem o conceito tradição, estão ligadas, como já disse, a uma Ética, a um sentido de Moral, a uma Ideologia, enfim.

A manifestação em questão – a Capoeira – é tradição cultural no sentido de que é um conjunto de saberes e modos de ver o mundo (em constante mutação, é claro) portados por um grupo, um povo e a ele dizendo respeito, particularmente, caracterizando-o, dando-lhe identidade, originalidade em relação aos outros, em suma.

É como diz, num dos seus muitos sentidos, aquele chavão maravilhoso: ‘Minha pátria é minha língua’.

(Remember neste parêntese o falecido latim berrado por um centurião doido daqueles, na hora de espetar a lança no peito arfante de Jesus Cristo. Quem mais aqui, por menos moderninho que queira parecer, hoje ousa o ‘mico’ de berrar algo em latim? Morto e enterrado ali jaz o latim, como alguém já disse, o inglês falecido de amanhã.)

São estes conceitos que corroboram a afirmação líquida e certa de que – nos permitam insistir – tradicionalidade não é de modo algum sinônimo de arcaismo ou conservadorismo, muito pelo contrário.

A este respeito obrigo-me a chamar a atenção para o equívoco e o absurdo de certas conclusões a que se chega no Brasil, acerca do pensamento de autores como Eric Hobsbawm, Fernando Ortiz e Stuart Hall, entre outros, leituras ora apressadas (e, por esta razão básica, incapazes de relativizar conceitos tão abrangentes) ora mal intencionadas mesmo, como algumas muito em voga no Brasil que parecem visar, de forma alienada, desconstruir a idéia de Cultura Nacional, tachando de ‘essencialistas‘, ‘tradicionalistas‘, ‘puristas‘, ‘conservadores‘ e outros epítetos desclassificantes, todos aqueles que divergem de seus pontos de vista mal alinhavados, supostamente ‘avançados’ e ‘pós modernistas’.

Logo, antes de, simplesmente desqualificarmos o pensamento dos mestres de capoeira ditos ‘tradicionalistas oligofrênicos’ (embora alguns, com efeito, o sejam mesmo) críticos ressentidos deste surto universalista da Capoeira globalizada, é preciso responder a perguntas-chave para se assumir uma opinião mais fundamentada a respeito.

As respostas a estas perguntas-chave deveriam esclarecer, por exemplo, se esta ‘Nova Capoeira‘ re-tradicionalizada’ não estaria em nome da sua desenfreada ‘universalização’, inventando ,não uma manifestação avançada, mas apenas mais adaptada, melhor adequada a um outro grupo social (e neste caso expondo seus eventuais interesses sócio econômicos) desqualificando todos os outros sentidos da Capoeira dita original (tachados de tradições radicais ultrapassadas) por mero interesse comercial.

Esta ‘Nova Capoeira’ ‘retradicionalizada’ não estaria se utilizando destes argumentos supostamente hobsbawnianos para no ensejo – o que seria aí sim, condenável – excluir da roda como óbvios estorvos, os adeptos e participantes da Capoeira ‘tradicionalista’?

Quem quer saber?

————-

Assisti há poucos anos um festival internacional de capoeira da grande corrente Abadá na Fundição Progresso, na Lapa (grande point ‘moderninho’ do Rio de Janeiro).

Eram milhares de participantes, de todas as partes do mundo. Fiquei honestamente bestificado, não só com a dimensão planetária do evento quanto com um fato, muito surpreendente que narro aqui só para a gente refletir e sem nenhum juízo de valor.

Eram inúmeros os work shops que rolavam, concomitantemente em toda a extensão daquele imenso armazem cultural. Estandes e mais estandes comercializando toda espécie de produtos relacionados à prática da capoeira, calças brancas, camisetas, cordas de graduação, caxixis, berimbaus, atabaques (alguns muito ornamentados, reinventados, fashions mesmo, por sinal), muitos dólares e euros circulando, a som de frenético de muitas chulas clássicas e centenas de berimbaus ‘tradicionais’ tudo, devidamente globalizado.

Tomara que ninguém aqui vá simplificar ou desqualificar esta minha conversa me reduzindo a um mero racialista ressentido, mas confesso que me chamou bastante a atenção a significativa ausência de capoeiristas negros (não só brasileiros, mas também africanos, já que era um evento internacional).

Havia uns gatos pingados negros sim, claro, mas se preciso insistir no que estou querendo dizer, permitam-me indagar: Perguntar ofende?

Não é esquisito numa manifestação cultural criada por escravos africanos, no justo momento em que obtém acachapante sucesso internacional, deixar de conter, exatamente, indivíduos negros (pelo menos na proporção que a lógica sócio cultural do Brasil sugeriria)?

A resposta ‘hobsbawniana’ poderia ser que a obrigatoriedade da presença de negros na Capoeira é um ponto de vista arcaico… essencialista, algo como:

“…Hall (Stuart, em 2002) preconiza que a identidade nacional é também muitas vezes simbolicamente baseada na idéia de um povo ou folk puro, original. Mas, observa Hall, nas realidades do desenvolvimento nacional, é raramente esse povo (folk) primordial que persiste ou que exercita o poder. Novamente aproximamo-nos aqui da idéia de uma identidade nacional essencialista.”
(texto de Sandra Rúbia da Silva, citado)

Certo! Brancos também podem – e devem – praticar Capoeira. Mas falta alguma coisa nesta análise: Teriam os negros do Brasil se des-tradicionalizado tanto a ponto de terem excluído, a si mesmos deste contexto cultural que lhes era tão apropriado e peculiar?

Será que teremos que um dia inserir num Estatuto da Igualdade Racial um artigo prevendo cotas para negros… nas rodas de Capoeira?

Ou será que, por força da natureza desta Nova Capoeira, do radical processo de ‘des-tradicionalização’ empreendido por estes neo-mestres ‘anti-oligofrênicos’, teriam sido os negros da prática excluídos, nestes novos contextos globalizados, ficando restritos aos cafundós da invisibilidade da roça ‘essencial’?

De orelha em pé, ainda por ocasião deste festival, encontrei lá para as tantas num boteco da Lapa o vetusto grande Mestre Vieira, meu amigo há quinhentos anos (criador do Gupo Aidê de Capoeira), que havia presenciado em seus tempos de glória, como um dos principais protagonistas, o momento crucial em que a Capoeira carioca se cindiu – como vimos pela segunda vez em sua história – em dois grupos opostos e inconciliáveis.

(Como diz uma das versões da crônica – quem souber que conte outra- o hegemônico e seminal grupo de Capoeira Senzala, numa divergência histórica, dividiu-se em duas facções: Uma integrada por Mestre Boneco e Mestre Paulinho Sabiá manteve-se unido, criando depois um grande grupo secundário denominado Capoeira Brasil. O outro, liderado por Mestre Camisa, criou o afamado e globalizado Grupo Abadá).

Mestre Vieira (membro histórico do Senzala original), que não tinha podido entrar no evento da Fundição Progresso por falta de credencial ou grana para o ingresso, tão assustado quanto eu com a quantidade de gringos, suecos, americanos, holandeses etc. ali visíveis, espalhados pelo espaço e pelas sacadas, me contou um diálogo que teria sido travado outrora entre ele e um dos seus parceiros de capoeiragem conhecido na ocasião como Contra mestre Camisa (sim, ele mesmo, o Mestre Camisa véio de guerra, hoje um dos maiores – se não o maior – responsável deste fenômeno que é a internacionalização da Capoeira)

O diálogo é emblemático:

Mestre Vieira (afirmando, orgulhosamente a sua ligação ideológica com a Capoeira):

_ “Você precisa saber que eu vivo para a Capoeira!

Camisa, pragmático, retrucando:

_ “Pois é. Azar o seu porque eu vivo da Capoeira!

(Pano rápido)

———–

Na noite de anteontem, por obra pura do caso, estive numa festa tradicional fantástica na roça mais profunda do interior do Rio de Janeiro (Vassouras). No programa Jongo, Maculelê e…Capoeira.

Na hora da roda de Capoeira (veja as fotos que ilustram esta matéria) a ambiguidade maravilhosa deste assunto esbarrou em mim mais uma vez:

Saracoteando no mais barrento e poeirento dos terreiros desta cidade da roça, primeiro as elétricas faíscas de um Maculelê de Facão e depois uma efervescente roda de Capoeira, destas à vera, com um grupo destes de negão mesmo, comandado por um mestre cujo nome definia bem a figura: Mestre Sombra.

Enquanto pulavam seus aús, pude perceber intrigado que os membros do grupo exibiam nas camisetas o dístico: “Grupo Abadá de Capoeira”, inscrito como sabem todos com alguma familiaridade com o assunto, numa logomarca com o globo terrestre estilizado.

Cultura, gente, é ambiguidade e política pura, o tempo inteiro. Não existe povo ignorante e tolo (embora exista elite ignorante esperta).

Talvez fosse o caso de lermos o Hobsbawm e estes outros teóricos da cultura citados aqui com mais distanciamento e, principalmente, senso crítico.

Como diz a chula clássica, a faca é de ponta mas tem dois gumes.

“…Riachão arrespondeu:
Eu num canto cum nêgo descunhecido
Que eu num sei se é escravo
Oi que anda aqui fugido”

Êh quer me render
Êh, qué me render Camará

Êh faca de ponta

Eh faca de ponta, Camará!

Faca de furar
Êh faca de furar, Camará!

Êh dá a volta ao mundo
Êh volta ao mundo, Camará”
Êh que o mundo dá’
Êh que o munda dá, Camaráááá!”

(chula de capoeira da Bahia- século 19 - Sorry but, a translate lá em cima é do Zé Google mesmo, com a modesta corretion do nobre writer aqui presente)

Spírito Santo
Maio 2009

THE ALZHEIMER DAY

•Maio 14, 2009 • Deixe um comentário

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Il Grande Dimenticare

Acordei no que parecia ser uma cidadezinha do interior. Havia um sol morno fazendo brilhar a grama cor de verde-novo, chovera a pouco e era de tardezinha. Estranho… Não conseguia atinar como é que eu havia ido parar ali?

Ouvia bem longe um relincho de um cavalo afoito, histérico. Um relincho incomum demais para um cavalo ao sol. Seguindo o relincho logo divisei já na risca do horizonte, um homem magricela, se abaixando e levantando do chão, ocupado na faina de plantar ou colher algo. Não dava bem para saber ao certo o que. Olhando melhor a cena, percebi que vez por outra, o homem espantava o cavalo de perto de si, como se o animal estivesse querendo também, ardentemente, aquilo que ele plantava… ou colhia, não conseguia ainda perceber o que.

Foi quando o vento, mudando de direção me trouxe aquele cheiro nauseabundo de coisa morta, um cheiro insuportável de carne podre ou algo assim. O homem cavava e enterrava algo, era isto. Um bicho morto, concluí ainda intrigado. Com repulsa saí dali, tapando as narinas, afastando os olhos da cena e olhando para trás.

Atrás havia logo adiante uma casinha modesta, toda de adobe mal socado, com jeito de bem antigo. A casa estava um pouco destelhada e com um ar de abandonada há anos. Porta esbodegada, tombada para um lado, presa por uma única dobradiça, como um baú velho saqueado e abandonado por um ladrão decepcionado com o nada que havia dentro para ele roubar.

Incrível. Não conseguia mesmo atinar. Como é que eu havia ido parar ali? O pior é que isto eu jamais saberia por que, de repente acordei, completamente e me dei conta de que toda a bucólica paisagem da roça havia desaparecido, se desvanecido como por encanto, como se alguém tivesse mudado o canal da TV.

E foi daí que, aparvalhando-me mais ainda com a nova cena, ouvi aquele som sujo, um ruído, um chiado intermitente, um barulho familiar enfim. Incomodado, me dispus a acordar pulando da cama.

O que aconteceu? Onde estou? Quem sou eu? Que barulho seria este?

Olhos embaçados e um calafrio esquisito cortando o corpo, feito um choque elétrico fraquinho.

Claro! É que chovia muito. Dava pra ouvir aquilo que, mesmo sendo ainda indefinível para mim, evocava uma sensação assim-assim de coisa úmida, molhada, que logo associei à chuva. Sim, claro! Ainda sabia o que era aquilo. Uma enxurrada fustigando as paredes do prédio, uma lata velha largada sob uma grossa goteira, ou um teto de zinco chicoteado pelo vento. Isto! Feito uma cachoeirinha, um som de leve tempestade, isto! O zinco oxidado batido por lufadas de chuva. Ai que alívio! Ainda conseguia saber claramente o que era aquilo. Quase podia ver.

Um aliviozinho qualquer como estas furtivas lembranças valia ouro naquela altura dos acontecimentos. Tempos estranhos aqueles: A era do Alzheimer Day, o apagão geral das mentes, sensação igualzinha à daquelas vezes em que meu Dispositivo Pessoal de Raciocínio Virtual – a bem da verdade já meio superado – rateou rateou até pifar de vez.

Desesperador. Fiquei catatônico por vários dias. Sonado, abestalhado como um boxer que teve o cérebro sacudido na caixa craniana a vida inteira por milhares de upercuts, sparring do tempo e de si mesmo, se abobalhando. Fiz uma atualização do surrado DPRV sim, claro, mas sabem como é: Estas coisas recauchutadas…Ele voltou meio barro meio tijolo, como se diz, meia bomba.

Vez por outra eu não conseguia nem mesmo saber direito o que estava ouvindo, vendo, sentindo. Uma sensação terrível de desamparo, um desassossego só.

O terapeuta me disse na ocasião que o que eu sentia era idêntico ao que uma velhinha com mal de Alzheimer sofria, os neurônios se apagando um a um, num blackout seletivo, um córtex de cada vez. Sabem como é? Uma Las Vegas noturna sobrevoada por discos voadores, as luzes se apagando cassino a cassino, como naqueles filmes de Sci Fi de séculos atrás

(Discos voadores? Como assim, discos voando? Às vezes custo a me lembrar o que isto quer dizer).

Isto mesmo. A mente rateava da mesma forma como a das velhinhas só que, desta vez, não era só comigo. Viráramos todos velhinhas com Alzheimer numa pandemia de esquecimentos. Pelo menos era isto que diziam os mais safos, os que ainda conseguiam se lembrar do sentido de coisas assim tão complexas, conceitos tão abrangentes, descritivos deste sofrimento tão surpreendemente coletivo que era aquele apagão das mentes.

O que ocorreu só fomos entender mais de 10 anos depois, quando tudo se normalizou e assumimos a forma de inteligência que temos hoje, nem de longe parecida com a aguda perspicácia elétrica que tínhamos no passado, em meados do século 22 por aí, antes do Alzheimer Day.

Maravilhosos. Ultra civilizados. Super poderosos. Seres geniais e perfeitos o que éramos todos nós antes do acidente. As limitações intelectuais de alguns, dos mal educados, haviam sido suprimidas, quase que completamente banidas da população.

Inacreditável, mas, foi assim:

O estupendo grau de evolução tecnológica que atingimos permitiu que todo o conhecimento humano fosse transferido, gradualmente, para espaços virtuais de compartilhamento de dados, espécies de sites ‘de relacionamento‘, como se dizia antigamente. Não era de modo algum uma opção, meramente hedonista de nossa civilização. Era uma condição compulsória e imperativa de nossa evolução. O artificialismo total, a automatização absoluta de nossas maneiras de ser e viver em nome do bem estar, da felicidade geral da nação, de todas as nações: “It’s wonderful world”.

E esta era a mais pura das verdades – por mais absurda que pudesse parecer.

Estes espaços virtuais de compartilhamento de dados, estes sites antes ditos… ‘colaborativos‘, atraentes chamarizes de perfis e personalidades reais ou inventadas, passaram a acumular e guardar toda espécie de conteúdo (tudo que antes guardávamos em nossos cérebros primitivos), anseios, desejos, taras inconfessáveis, disponibilizando, a quem quer que seja rigorosamente tudo de bom ou de ruim que uma mente humana pudesse conter. A Droga Final, disseram os céticos apocalípticos.

Guardávamos aí, nestes espaços virtuais um pouco buracos negros, meio que armários guarda-volumes de aeroporto, inclusive os mais simples comandos e mecanismos de inteligência necessários a algumas de nossas ações mais triviais e cotidianas, tais como pensar e até mesmo amar, por exemplo.

Acumulávamos aí e assim – e intercambiávamos uns com os outros – até mesmo as mais falsas projeções que fazíamos de nós mesmos, personas mentidas, meras pavoneações de nossa alma ideal, projeções viciantes de como gostaríamos de ser vistos, que após certo tempo, confundiam-se com aquilo que realmente éramos, criando agora em muitos de nós, problemas de identidade muito próximos de uma psicopatia não diagnosticável, uma espécie de esquizofrenia virtual, absurda, irreal, que era como os psicólogos da época descreviam estas nossas novas maneiras de ser.

Rigorosamente toda a nossa memória enfim (exceto aquela utilizada para atos mecânicos como andar e comer), passou a ficar hospedada em HDs de supercomputadores gigantescos, depois que todas as mídias físicas foram sendo abandonadas por se tornarem antiquadas, anacrônicas e obsoletas e, principalmente, descartáveis em sua precária confiabilidade.

A fantástica evolução que representou passarmos a ter, rigorosamente tudo de nossas frágeis mentes guardado nestes supercomputadores, por sua vez, numa evolução natural da virtualidade quase total em que se transformou a vida humana, logo nos encaminhou para a criação de uma só grande máquina, capaz de centralizar os dados de todas as mentes do mundo

Praticamente todo o pensamento humano passou a estar, umbelicalmente armazenado num gigantesco computador Provedor Universal, instalado na superfície da Lua, após a lenta maturação de um projeto multinacional que durou quase 50 anos para ser enfim, concluído no ano de 2398.

O lúgubre Deus virtual, batizado por seu inventor Joseph Von Spitzheim-Siegl com o nome de Home Welt Herzzentrum‘ (HWH), foi talvez o passo mais fabuloso – tanto quanto o mais estúpido – dado pela humanidade em todos os tempos, em prol de sua exclusiva e egoísta evolução.

HWH: Cabeça da grande rede da velha WWW que, acéfala como uma hidra mitológica no século 21, assumia agora a forma de um grande polvo adormecido, sabe-se lá por que razões ou intenções sugerindo perigos, como um perverso vilão enrustido.

E foi assim que, neste dia o mal também projetado sobreveio enfim.

————–

Um risco cadente cortando o negror do espaço. Um clarão de estilhaços brancos, como um espirro de cacos explodidos de um bloco de gelo golpeado por um furador. Foi assim que alguns poucos descreveram o que viram naquela noite. Eles, os mesmos vadios de sempre que, sabe-se lá porque arcaicos instintos estavam, sentimentalmente com os olhos voltados para a Lua naquele instante.

Eu não. Coisa alguma vi naquele torpor em que me encontrava, pobre de mim, com o meu DPRV rateando. Só senti mesmo o susto de um pensamento bom que se apagou de súbito. No visor lateral dos meus óculos de grau a tela azul piscava o aviso de uma failure desconhecida, antes da janela secundária da tela se abrir com a notícia alarmante:

“FATAL ERROR!”

Provedor HWH inoperante. Por favor, teclar F7 para acessar provedor alternativo de emergência de sua região ou teclar ESC para sair”

O Provedor Alternativo era um sistema de emergência online com mensagens de ajuda e notícias curtas, que ficava disponível por algumas poucas horas, até se esgotar sua limitada capacidade de processamento o que, logo pudemos perceber, no caso de um crash universal como aquele, significaria a duração de uns poucos minutos, antes do apagão total se estabelecer. Foi neste serviço de ajuda online (último vínculo que teríamos com algo parecido com uma realidade) que assisti a uma simulação do que ocorreu:

Um asteróide errante, de trajetória não totalmente prevista, havia entrado na órbita da Terra e se chocado com a Lua. O pessoal da base do HWH teve tempo de se afastar da área sinalizada para o choque que foi, em cheio, a central do HWH, O grande domo de aço onde o dispositivo-mãe, núcleo duro da grande máquina, havia sido hermeticamente acondicionado.

Foi assim:

A ‘alma’ do HWH, o local onde o Provedor Universal fora instalado, na vã expectativa de que ali fosse o lugar mais seguro do universo, foi instantaneamente pulverizada pelo impacto.

Conta-se que o prof. Spitzheim-Siegl chorou, copiosamente, durante uma entrevista, como se tivesse perdido o filho mais querido.

As alarmistas notícias repassadas pelo provedor alternativo descreveram o acidente como sendo uma espécie de Alzheimer Day, o dia fatal do apagamento das melhores lembranças da humanidade, bem como aquele terapeuta me havia dito.

O filósofo marx-holista Vitorio Doro Scazambone, crítico contumaz das idéias de Spitzheim-Siegl nos alertara poucos anos antes do que ele chamou de Il Grande Dimenticare, em seu arcaico blog sobre os riscos de não se ter mais nossos cérebros primitivos ativos e bem treinados, sempre disponíveis para esta eventualidade tão previsível quanto inevitável.

“Lo dico e lo dico, con enfasi che molti millenni di formazione primitiva forme di ragionamento, in base alla lenta assimilazione dei concetti stabiliti dalla ripetizione degli errori e successi, i nostri cervelli hanno accumulato un livello di esperienza per la gestione e la cura dell ‘universo, insostituibile. Anche l’imprevedibilità del nostro comportamento, suscettibile di diverse influenze dell’ambiente – che per gli appassionati di virtualità totali è stata la nostra grande colpa – a me, Vitorio Scazanbone sembra essere una ragione divina e insormontabili. “

(Vitorio Doro Scazanbone no artigo “Sotto il rischio di un blackout di mente” publicado em seu blog pessoal em 11 de abril de 2395)

Inútil. Nada do que Scazambone alertara adiantou. Ninguém lhe dera mesmo ouvidos até porque as nossas mentes em poucos decênios de escravidão voluntária, haviam embotado quase por completo, irremediavelmente dependentes que ficaram dos eflúvios do HWH lunar, expressos por periódicas tempestades lunares carregadas de downloads oníricos.

Os ABs (alternativs braims), cérebros humanos alternativos (espécie de PCs minúsculos como chips pós modernos) de altíssima capacidade de armazenamento, passaram a ser implantados então, diretamente em nossas próprias cabeças. ‘Espetados’ como aqueles pendrivers do século 21 em nosso sistema nervoso central, muitas vezes tinham que ser confiscados dos filhos adolescentes por mães briosas, para que estes não se viciassem na rodagem de programas-barbitúricos ou anabolizantes, baixados, facilmente de sites de prazer virtual online.

O fato mais dramático é que estes ABs acabaram por assumir o controle de tudo, inclusive da nossa individualidade. Nossas vontades mais íntimas por conta desta evolução, a partir de certa época passaram a estar, totalmente dependentes de um programa de inteligência artificial denominado Onirix (1.09 em sua versão da época), periódica e automaticamente, atualizado, por meio daqueles longos downloads que rodavam durante o nosso sono, descaradamente disfarçados de sonhos chamados de ‘Marés de barato’.

(Estes sonhos virtuais eram tão lúbricos e eróticos que, não raro, produziam poluções noturnas intensas, tanto em homens quanto em mulheres e eram por esta simples razão, ansiosamente esperados, estimulando o comercio desenfreado – e inutilmente proibido – de drogas voltadas para tornar o mais profundo – e prazeiroso – possível o sono das pessoas.)

Sim, claro. Sabemos que sobraram na Terra, como remotas possibilidades de recuper algo de nossa inteligência original, as velhas mídias do passado. Livros empoeirados, discos de vinil de vetustos colecionadores, CDs meio descascados, pilhas de Ipods danificados, HDs enferrujados, tudo jazendo em velhas oficinas de sucata de material de informática, a maioria amontoada em úmidas salas de museus de mídia, prédios que ninguém visitava mais.

A causa era o alto estágio alcançado pelas avançadíssimas condições que a vida virtual atingira, com tudo, literalmente tudo podendo ser acessado e realizado, vivido mesmo. Esta Vida Virtual podia ser facilmente acessível por meio de algumas rápidas piscadelas de olho (ação que substituiu os clicks de mouse do passado) dirigidas ao nosso Cérebro Total Alternativo, fisicamente separado de nós e guardado num armário remoto qualquer, como uma alma superpoderosa, eternamente jovem, eternamente online.

Como consequência do Apagão o pânico. Ocorria que os poucos técnicos remanescentes que se lembravam ainda de como funcionavam as máquinas pré históricas, capazes de ler aqueles dados remotos, debatiam-se sem sucesso com a incompatibilidade absoluta estabelecida entre elas, as mídias arcaicas, os dados disponíveis, dispersos em suportes incompatíveis, não conseguiam se configurar num sistema operacional que servisse para alguma coisa que não fosse processar informações, absolutamente banais, como ler um romance, por exemplo.

E para que nos serviria afinal ler um romance se nossa inteligência não se desenvolvia mais por meio do impacto e da forte impressão que nos causavam as emoções banais?

Nos transformáramos em seres de aspecto apoplético tanto que, se fôssemos observados por pessoas comuns das eras passadas, não seríamos reconhecidos como humanos, de modo algum, por causa do ar de insanos pálidos, obesos e abestalhados, olhando o nada dentro de nós mesmos como falsos cegos não querendo ver o que, mais cedo ou mais tarde haveria de conosco acontecer. Como de fato aconteceu.

———–

Era por isto que a evocação daquele sonho estranho com o cavalo me angustiava. Um pesadelo aterrorizante era o que parecia. De onde viera aquela cena tão rudimentar e arquetípica?

Se eu, como todos os demais habitantes do planeta não tinha mais memórias a evocar, angústia alguma para sofrer e remoer em pesadelos, se não podia mais acessar a mais prosaica das lembranças tristes ou felizes de meu passado após a explosão lunar que destruiu o HWH, de onde vinham aqueles lapsos de consciencia, aquelas angustiantes mentalizações tão realistas?

De onde vinha o cheiro nauseabundo de carne podre? Como eu poderia reconhecê-lo se o registro dos vapores dele não mais estava em mim?

Naquela mesma noite, ao dormir o que seria mais uma noite sem bons sonhos, trêmulo com a expectativa de sofrer angústia do que julgava ser outro pior pesadelo, me vi novamente dentro da casinha tosca, que agora aquecida pelo fogão de lenha, me parecia, acolhedoramente familiar.

Um chá ralo, muito quente me foi posto á boca e as narinas se arregalaram: Hortelã!

Como assim? Onde estou? Quem sou eu?

O homem magricela – que agora eu percebia ser louro como uma espiga de milho – ainda impregnado daquele cheiro de morte que trouxera lá de fora, me tranquilizou com um olhar sereno, enquanto apontava uma lua que aparecia branca no céu ainda azul:

_” Nada de pioggia domani!

E foi com aquele seu sotaque italiano que ele me contou que a febre me pegara de jeito logo que chegamos ao local. As alucinações tinham sido tão intensas que nos delírios, eu havia molhado várias vezes o lençol estrapeado que ele me dera.

No mesmo dia em que eu adoecera daquela gripe braba, um raio matara um potro bem novinho. A chuvarada durou uns três dias e só agora ele pudera enterrar o bichinho. Como? Quer dizer que aquilo tudo não havia sido sonho nem pesadelo. Uma égua desesperada, achando incompreensível a morte de seu potrinho, fora o que eu vira naquela tarde.

Com a febre indo embora fui me lembrando, lentamente da viagem à roça. O pessoal da equipe tinha ido à cidade comprar querosene e cachaça. Antes de voltar, deram um tempo na venda do local e aproveitaram para dar uma carga nas baterias da câmera já que, mal havia luz elétrica por ali. Voltaram já meio tocados de pinga.

O hortelã do chá que o magricela me dera, aos litros, estava ainda impregnado no meu bigode e eu ansiei também por uns bons goles de pinga com limão. O Hortelã mais a pinga me deram um baita de um suadouro. Ai que alívio!

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Pois foi mesmo assim, mais calado do que de costume, que fiquei ouvindo a entrevista que o magricela continuou a nos conceder, falando sobre seu avô, um anarquista italiano que se escondera por aquelas bandas e construíra aquela casinha no início do século 20, depois de matar um soldado do exército na Revolta da Vacina no Rio de Janeiro. Nome do anarquista carcamano: Vitorio Doro Scazambone.

Mama mia! Pesadelo invertido é fogo.

Só continuo não conseguindo atinar como é que aquelas histórias desvairadas foram parar dentro de minha tão febril cabeça. Malato di mente como diria o magricela, preciso me curar logo deste vício de computador, dar um tempo da internet, esfriar a cabeça, apagar. esquecer.

Una piccola dimenticanza.

Spírito Santo
Maio 2009

O Turista na Armadilha

•Março 25, 2009 • 2 Comentários

Desenho de Johann Moritz Rugendas salpicado de fotos de misses Brasil (uploads revistas ‘O Cruzeiro’ e ‘ Manchete’ dos anos 60)
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Degradação do patrimônio imaterial no Brasil

A prostituição emocional

“… Esta (tribo)… caracterizava- se principalmente pelo fato de seus integrantes não recorrerem a palavras para se comunicarem, mas a sons musicais. Além disso, seu vocabulário estava repleto de denominações para o mal, em todas suas gradações. Destas, a mais apreciada era a “principiada num som grave e atingindo a quinta superior”, que designaria a palavra ‘inimigo’.”

(Makunaima e Macunaíma. Entre a natureza e a história’- Daniel Faria/Unicamp)

Mário de Andrade naquele divertido – e sarcástico – diálogo intelectual que gostava de estabelecer entre arte e cultura, inventou certa vez este falso grupo étnico indígena aí de cima (que teria sido encontrado por ele nas margens de um rio amazônico, durante uma viagem etnológica real) inventando uma série de hábitos e costumes assaz exóticos – como seria de se esperar de um grupo indígena desconhecido – entre os quais uma língua esquisita baseada, exclusivamente em três fonemas ou frequências musicais. Os arredios figuraças eram os índios ‘Dó-Mi-Sol’.

A história está aí, para quem quiser ler no sensacional livro ‘O Turista Aprendiz‘.

Hilário ainda hoje, não é mesmo? Mas que graça a gente acharia se isto tivesse sido escrito para parecer um fato, ou seja, se o esperto Mário estivesse tentando mesmo, macunaimicamente nos convencer de que aquela tribo era real, verdade verdadeira, sem tirar nem por?

Vocês podem achar uma ‘cascata’ inacreditável (e nem vou recriminá-los por isto), mas juro que vi uma vez na TV (no Discovery Channel, acho, não me lembro quando) uma história bem parecida com esta, só que verídica, descrevendo uma tribo de curiosíssimos hábitos, que havia sido descoberta por um antropólogo gringo na polinésia (ou num outro cantão desses aí, nas imensidões do oceano pacífico).

Publicada nos anais acadêmicos na época e atestada a ‘autenticidade’ da descoberta, anos depois um repórter ou outro antropólogo (tem sempre um chato de galochas nestas histórias) resolveu verificar as quantas andava o processo evolutivo daquela curiosa tribo. E qual não foi a sua surpresa quando descobriu que a tal tribo… jamais existira.

No duro. Era tudo pura ficção ‘científica’. Os membros da tribo fajuta não passavam de atores nativos, pobres cara de paus aculturados, arregimentados a dedo e treinados pelo antropólogo, que inventou-lhes uma selvageria fashion, criando hábitos ancestrais falsos, um figurino falso, uma cosmogonia falsa, tudo igualzinho ao que o nosso Mário fizera no seu conto inventando os ‘Dó-Mi-Sol’ (que eram, logicamente, puro sarro.)

Pobre Mário! Lido talvez, quem sabe (só que às avessas) pelo gringo ‘um-sete-um’, nem crédito para a sua original criação recebeu. Antropofagy é isto aí, gente boa!

Porque eu conto esta história? É fácil: É que esta moda… resignificativa e pós moderna a mais não poder, ao que parece, está pegando no Brasil.

Falando sério: Comenta-se a boca pequena (eu mesmo, a boca grande, vivo cantando esta pedra por aqui) que um insidioso fenômeno cultural já devia estar chamando a atenção de especialistas, antropólogos pelo Brasil a fora.

Trata-se do controvertido e agudo processo que pode, grosso modo, ser conhecido como resignificação de conteúdos – e da forma, da estética enfim – de manifestações culturais tradicionais brasileiras, infelizmente com fins nem sempre confessáveis.

Você já se ligou nisto? Não sabe bem o que significa? Resignifique-se então

É mais ou menos assim: As coisas são o que são, mas podem, dependendo do ponto de vista, significar outra coisa, ter outro sentido com o tempo. De novas e alentadas conclusões que sugerem novos olhares, emergem formas modernas de se abordar uma mesma coisa. Novos tempos, novas modas, novos significados enfim. Tudo muito bonito, mas dando aquela pinta mucho loca de ‘caô caô‘.

(Não sabe ainda o que é um ‘caô’? Depois explico)

O perigo, contudo pode morar na seguinte constatação: Tudo é sempre muito relativo (se o papo for Cultura então nem se fala). É preciso que existam regras morais, parâmetros éticos bem definidos, ordem para que não vire tudo, em suma, uma casa-da- mãe-joana.

Sabem como é: No Brasil o inimigo sempre mora ao lado.

Vandalismo politicamente correto pode?
Patrimônio cultural deliberadamente degradado: Um conceito

“… Há uma espécie de sensação fincada da insuficiência, da sarapintação, que me estraga todo o europeu cinzento e bem arranjadinho que ainda tenho dentro de mim. Por enquanto, o que mais me parece é que tanto a natureza como a vida destes lugares foram feitos muito às pressas, com excesso de castro-alves”.

( Mário de Andrade no diário: “18 de maio” )

É cada vez mais perceptível por aqui a promoção de ações e intervenções, pretensamente solidárias junto a comunidades que praticam – ou podem vir a praticar – manifestações ‘folclóricas’ com perfil característico (mesmo falso) que possa ser identificado como ‘manifestação cultural tradicional’, passível de justificar a formulação de projetos de tombamento, difusão e/ou preservação.

Além destas samaritanas finalidades há também, é claro, aquela que é a mais cínica de todas as justificativas para descolar um patrocínio, um qualquer: A chamada espetacularização da cultura tradicional (ou seja, a praga da carnavalização interesseira)

No dizer escorregadio desta gente espetacularização é a… ‘resignificação’ de uma manifestação de cultura popular com finalidades artísticas e, supostamente meritórias já que se enquadram como uma luva, no âmbito destes ‘trocentos’ programas de inclusão social, voltados para os nossos milhares de pobres diabos adolescentes.

- “Inclusão social! Capacitação profissional!” _ enchem a boca para dizer.

No português claro, inclusão social ‘para inglês ver’, por intermédio de alguma arte provisória e imediatista qualquer (como batucar samba-funk em latas velhas, por exemplo, função que ao que se sabe, nunca deu camisa e futuro a ninguém).

Este fenômeno – ainda carente de uma melhor definição – tem ocorrido, notadamente no âmbito de manifestações de inspiração africana, supostamente relacionadas ao conceito ainda um tanto mítico das sobrevivências etnológicas, eventualmente portadas por, não menos supostos, ‘quilombos remanescentes’, comunidades com algum resquício de herança cultural ancestral perceptível (curiosamente nunca inserem neste conceito as nossas imensas favelas).

É a partir desta tese da espetacularização benfazeja, portanto que foram formuladas mal embasadas reinterpretações de uma cultura afro-brasileira difusa, rasamente explicitadas em teses de mestrado, tornando-se uma seara bastante atraente para certa classe de ‘aventureiros’, muito mais por ser exótica e vulnerável a estas resignificações capciosas do que, propriamente por sua eventual relevância etnológica.

Estes verdadeiros predadores da cultura, motivados que são por uma vasta gama de interesses (a maioria, infelizmente relacionados aos recentes canais de patrocínio institucional abertos, na área da cultura e do turismo histórico-cultural no país) no âmbito das manifestações junto as quais se imiscuem, vão imprimindo – por ignorância sim, porém, muitas vezes de forma deliberada – estéticas e conteúdos descolados das tradições originais, que se diluíram com o tempo ou por conta de diversos vetores (entre o quais racismo e a exclusão social são o mais recorrentes).

O certo é que impacto das investidas destes ‘aventureiros’ sobre a cultura tradicional brasileira tem sido formidável.

Numa época em que se fala, insistentemente de tombamento e preservação do patrimônio imaterial, a questão assume proporções de drama cultural nacional eminente, tanto que a gravidade da situação pode sugerir que órgãos como o Iphan (que, ao que parece, não se deu conta ainda do fenômeno) e o MinC tenham que estabelecer, muito em breve, mecanismos de detecção e controle deste fenômeno, inaugurando estratégias que, na falta de nome mais adequado, chamarei aqui de ‘Restauração do patrimônio cultural imaterial deliberadamente degradado’ .

Patrimônio Turístico Cultural
Conceito e preconceito

(Antes que me esqueça: ‘Caô’ é uma evocação ao orixá Xangô do panteão do Candomblé _’Caô’! Caô! Cabecile!’ – Tudo indica que, de tanto ser usada, para as mais banais finalidades, a palavra vulgarizou-se, perdendo, vamos dizer assim, a ‘força’. Sábio como sempre o povo deu a palavra uma…‘resignificação’, passando a usá-la para definir, mentira, conversa fiada, qualquer coisa dita da boca para fora)

——–

Turismo como se sabe é um conceito ligado, obviamente à territorialidade, a um lugar específico para o qual os habitantes acharam por bem passar a atrair visitantes, motivados por alguma razão de natureza às vezes emocional (como amor por sua cidade) ou mesmo pragmática, como por exemplo, gerar recursos para melhorar a vida da coletividade, através da utilização de algo especial que o lugar tem, algo que atraindo interesse dos de fora, dos estrangeiros (que são chamados, vulgarmente, no caso, de ‘turistas’) possa ser explorado em benefício daquela coletividade.

Esta finalidade de utilidade pública está associada, portanto à existência deste certo ‘algo mais’ que os habitantes presumem possa gerar algum valor intrínseco ao ser visto e usufruído, algum atributo que está relacionado, como vimos – e de forma imperativa inclusive – a uma qualidade especial qualquer que o lugar, a cidade, o país ou o vilarejo tem, pode voltar a ter (ou mesmo nunca ter tido e passar a ter).

Assim, o conceito Turismo prescinde sempre de uma razão, de um adjetivo, algo sugestivo ou atrativo, um chamariz, um elemento motivador, que traga os turistas para a intimidade de uma comunidade e justifique o desejo deles de estarem ali e não em outro lugar qualquer.

As possibilidades são inúmeras desde as inconvenientes como o chamado Turismo Sexual, por exemplo (armadilha na qual algumas cidades do Brasil como o Rio de Janeiro e Recife, por exemplo, já estiveram, infelizmente, associadas), até as mais simpáticas como Agro Turismo (o lugar tem uma pecuária de alto nível e promove rodeios e feiras), o Eco Turismo (o lugar tem uma flora exuberante e recursos naturais belíssimos) e muitas outras motivações…turísticas, como se pode deduzir.

(Neste particular chamamos, fortemente a atenção para o fato de que a expressão ‘prostituição’, pode ser atribuída também, de forma genérica é claro, a qualquer aviltamento ou banalização desta motivação turística original, seja ela qual for.)

É fundamental, portanto que, ao propor que um lugar se abra ao Turismo, à visitação de estranhos, os habitantes tenham muita clareza daquilo que querem mostrar, expor à visitação não só do aspecto do impacto que esta exposição trará para a sua vida cotidiana, como também de que modo este ‘chamariz’ ou fato turístico, poderá ser mantido íntegro, patrimônio social que, efetivamente passou a ser (bem comum a ser preservado).

O grau de apreço com que uma comunidade trata a integridade deste ‘algo mais’ que a localidade tem – e que ela elegeu como sendo um fator turístico em si – é, pois, proporcional ao nível de degradação que fator turístico sofrerá quando desprezado ou exposto ao desleixo e ao descaso.

Um exemplo claro disto (embora nem sempre óbvio) é a necessidade de se manter limpo um rio que deságua numa cachoeira exuberante. Se houver qualquer descuido da comunidade (usando um exemplo bem corriqueiro) diante de uma ameaça de poluição deste rio mais cedo ou mais tarde os turistas abandonarão o balneário e o valor do que era um patrimônio eco-turístico inestimável, se esvairá.

Preservar, conservar e manter o patrimônio de uma coletividade íntegro e perene, mobilizar a consciência turística de uma coletividade é, pois, sinal de inteligência comunitária, condição essencial para merecermos o nome de indivíduos civilizados.

Tocar neste assunto quando o bem a ser preservado é de natureza imaterial como manifestações culturais tradicionais (algo intangível), por exemplo, é um assunto complexo, mas, considerando-se que, por sua vez, a julgar pelos exemplos acima citados, o conceito preservação não é tão complicado assim, podemos continuar a exemplificar sem dificuldade usando simples analogias.

Neste sentido, outro exemplo prático para se entender melhor a questão é quando este bem cultural, passível de ser utilizado com finalidade turística, é o patrimônio arquitetônico do lugar (algo tangível, portanto).

Prédios e edificações antigas, construídas em estilos que representam tendências de uma época, de um estágio tecnológico, de um modo de vida: edificações que, afora o seu significado estético, formal, representam também um espaço memorável, onde ocorreram fatos e incidentes emblemáticos, relacionados à história do local, ou onde certos aspectos da cultura da região ou do país, do mesmo modo ocorreram são, pois, bens culturais por excelência.

Conscientes destas particularidades como lidar então com este patrimônio histórico arquitetônico?

Em primeiro lugar é preciso identificá-lo, atestar a legitimidade de sua condição histórica, mediante uma avaliação técnica criteriosa. É por meio deste reconhecimento, desta comprovação de sua autenticidade atestada por evidências técnicas irrefutáveis, que se poderá ‘tombá-lo’, inventariá-lo ou reconhecê-lo, oficialmente como um bem histórico evidente, patrimônio público por suposto, bem coletivo a ser conservado.

É a partir deste reconhecimento público formal que surge então a obrigatoriedade, também pública, de restaurá-lo quando degradado pelo tempo – ou mesmo pelo vandalismo de alguns- e mantê-lo preservado, íntegro, função geralmente assumida, como precípua, por alguma instituição pública, vocacionada para tal (como é o caso do Iphan, pelo menos neste aspecto).

Radiografando o patrimônio imaterial
(O intangível não é invisível)

“… E esta pré-noção invencível, mas invencível, de que o Brasil, em vez de se utilizar da África e da Índia que teve em si, desperdiçou-as, enfeitando com elas apenas a sua fisionomia, suas epidermes, sambas, maracatus, trajes, cores, vocabulários, quitutes… E deixou-se ficar, por dentro, justamente naquilo que, pelo clima, pela raça, alimentação, tudo, não poderá nunca ser, mas macaquear, a Europa.”

( Mário de Andrade no diário: “18 de maio )

Por este viés de nossa avaliação algumas conclusões preliminares podem ser entabuladas. A primeira delas – a mais evidente e dramática – é que a maioria dos grupos de cultura tradicional do Brasil estão completamente desarticulados entre si e vivem à mercê das investidas de aventureiros de vários tipos, bem ou mal intencionados e, em sua maior parte, totalmente deseducados, aculturados, apartados dos significados e sentidos mais profundos da cultura tradicional de seu próprio país.

As razões desta desarticulação dos grupos de cultura tradicional, da fragilidade de suas relações com a sociedade em geral, estão ligadas, é claro, às históricas e caquéticas idiossincrasias do sistema social excludente do Brasil que alija para a periferia da sociedade tudo que diz respeito ao chamado povo, principalmente as suas oportunidades de acesso à educação.

Como se vê até mesmo a preservação do patrimônio cultural e emocional deste tal de povo é reiteradamente desprezado, subestimado do mesmo modo como são omitidas e desconstruídas, até mesmo as referências de seu passado histórico (bem entendido o passado histórico real do país, enquanto instância, evidentemente associada à nossa cultura, de maneira geral).

Fica do mesmo modo evidente de que há, além da óbvia e recorrente contradição sócio econômica entre pobres e ricos, um imenso fosso ético se alargando no bojo destas relações entre elite e povo (‘agentes externos’ e população local, no caso) já que as mais iníquas investidas rumo à vocação turístico cultural de certas regiões, vista como oportunidade de ganhos financeiros para indivíduos e instituições estranhas às comunidades, segundo a maioria dos relatos disponíveis, costuma ser perpetrada sem nenhuma espécie de pudor etnológico.

Aparentemente intencionada em alijar e excluir e, num segundo momento (por um mero imperativo político estratégico, talvez) usar, instrumentalizar a cultura dos grupos de cultura tradicional local, estas ações quase sempre são realizadas, portanto sem nenhum cuidado com os riscos que esta utilização irresponsável traria para a sobrevivência das manifestações aviltadas, após uma longa exposição a esta desmedida corrupção de seus valores gerais mais essenciais, sua tradicionalidade enfim.

Fica ainda no mesmo sentido atestado que há problemas terríveis também no que diz respeito à formação educacional de nossa juventude ‘incluída’ quando se percebe que na vanguarda desta elite predatória (turistas ‘ao contrário’, por se assim dizer), intermediando a ação dos ‘organizadores’ responsáveis por estas ações, estão jovens formados em universidades, muitas vezes em ciências sociais, antropologia, etc. matérias fundamentais nesta questão (inclusive em seu estrito sentido ético) jovens ‘bem’ formados estes que usam os supostos conhecimentos auferidos em sua formação para perpetrar este tipo de ação anti-cultural esperta, oportunista, fazendo-nos refletir, desolados que diabos estamos fazendo com a nossa sociedade ‘letrada’.

É bastante difícil avaliar por isto mesmo, o grau de degeneração provocado por iniciativas culturais, pretensamente positivas. O cerne da questão é que o impacto de ações como esta costuma ser muito mais nocivo no campo da ética, porque acaba corrompendo as comunidades no âmago de seus valores morais mais caros.

Degeneração pura e simples, no sentido da banalização de um atributo emocional intrínseco a cultura das pessoas; deturpação da representação simbólica de toda uma maneira de ver e viver a vida que, pode ruir – e efetivamente rui – totalmente quando se depara com a constatação de que se pode trocar por alguns trocados a exibição de uns poucos dotes artísticos ancestrais (da mesma forma que se pode trocar um benefício mensal de um programa de ‘renda mínima’ por um voto).

Degeneração ética como morte da tradição, como extinção do patrimônio cultural imaterial que se esgarça e se vulgariza.

(Tradição e ética não enche barriga, diz-se hoje por aí).

Assim, com a insistência do aliciamento dos ‘aventureiros’, como a esmola viciando o cidadão, a exibição dos dotes ‘exóticos’ passa a se dar mesmo quando alguém, considerando os dotes originais ou tradicionais feios e desinteressantes (segundo as ocultas intenções de espetacularização do evento), alicia para alterar, para subverter, para fingir uma falsa tradicionalidade, que melhor apeteça ao turista-freguês (também de algum modo lesado porque é levado a considerar cultura tradicional o que foi descaradamente maquiado, forjado).

Em meio a este descompasso moral, que mal haveria em mudar um passinho aqui, uma saia acolá, cantar uma canção pretensamente folclórica, composta por sabe-se lá quem, corrompendo-se, prostituindo-se? Algum incômodo, alguma sensação vaga de ridículo haveria, algum mal estar sim, mas, e daí se isto é coisa que dá e passa?

Quem há de saber o rumo que estas coisas poderão tomar ou no que elas podem resultar no futuro? Pois não é assim mesmo, aviltando-se e corrompendo-se por força de um meio hostil que as coisas todas do mundo se extinguem?

A questão nuclear de tudo isto é que, se o conceito Turismo Cultural encerra a exibição (seja lá com que finalidade for) de certos atributos do patrimônio imaterial real de uma comunidade, o que ocorre, em certo prazo se estes valores forem corrompidos, aviltados acima do suportável?

Mesmo que, materialmente ainda lhes restem traços, vestígios de sua forma original, simbolicamente nada mais restará de memorável, digno de ser exibido.

Tarde demais quando o que vendemos foi a nossa própria alma, pode ser a lição.

Ou mesmo, lembrando o ditado mais comum de todas as guerras: Não queime as suas pontes (os vínculos emocionais com o seu passado) senão você não terá como recuar quando isto for a única sorte possível, questão de vida ou de morte.


“… Nos orgulhamos de ser o único grande (grande?) país tropical…. Isso é o nosso defeito, a nossa impotência. Devíamos pensar, sentir como indianos, chins, gente de Benin, de Java… Talvez então pudéssemos criar cultura e civilização próprias. Pelo menos seríamos mais nós, tenho certeza. “

(Mário de Andrade no diário: “18 de maio)

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(Ah…Já ia me esquecendo: Vocês sabiam que a palavra ‘Tombar’ vem de ‘registrar nos livros da Torre do Tombo’, antiga sede do arquivo Nacional português em Lisboa? Pois é. Aculturados somos ou nos… resignificamos?)

Spírito Santo
Março 2009