o Sapoti, o Gibi e o Guri

•Agosto 4, 2009 • 1 Comentário


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O gosto do Sapoti

Seriam as lembranças da infância um caderno de matérias tatuadas em nossa mente, coloridas e nunca mais esquecidas ou seriam, por outro lado, um frio cárcere de memórias-cicatrizes, tão desprezíveis que, por mais que se tente, não se conseguirá apagar jamais?

O meu primeiro fragmento de lembrança deste tempo, pelo menos de início, até que é doce e bom:

Um sapoti caído do pé numa quente madrugada.

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As frutas caíam no chão de terra do pátio do colégio interno, ainda úmidas de orvalho. Eram o prêmio para os mais cedo despertos – e lépidos- primeiros a pular do beliche e correr para fora do alojamento.

Não sei quantas vezes fui o premiado. Do que sei bem é o que ficou em mim daquele amarelo manchado da casca do sapoti, em sua evocação de uma memória-delícia, sinônimo de vitória alcançada, marcada por uma única mácula: Os dentes do morcego que mordiscara a fruta, antes de mim, derrubando-a do pé.

A marca do morcego passou a ser o signo das lembranças mais amargas, de tudo que me lembro de ruim naquele tempo.

Do dia em que entrei no colégio interno pela primeira vez, por exemplo, não lembro quase nada. O morcego mordeu este pedaço. Existe um apagão irremediável nesta parte da história. Tenho deste dia apenas uma vaga e desagradável sensação de ansiedade, que logo virou terror, assim que regressei ao colégio, depois de ter ido, pela primeira vez, visitar a família em casa. Ânsias de vômito, náuseas. Esta é a parte mais doída das lembranças.

A primeira memória nítida que me vem, logo de saída, é a do ponto de bonde onde saltávamos, eu e Geny minha mãe, na Rua Hadoch Lobo, na Tijuca, bem em frente a um importante colégio de ricos e remediados da época: o Instituto Lafaiette.

O prédio do antigo instituto está lá, até hoje, demarcando a geografia de minhas lembranças. Passo sempre pelo local, mas, não consigo encontrar nenhum vestígio do Colégio Vera Cruz (nome oficial da Escola-Prisão) que me parece, ficava mesmo ao lado deste imponente Instituto.

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A primeira idéia, vaga ainda, do que seria uma escola, lugar onde se aprende coisas, foi até mais agradável ainda que o sapoti. O nome já dizia tudo: Jardim de Infância.

Havíamos mudado da casinha velha do bairro de Marechal Hermes que, simples e bela naquela sua arquitetura artesanal, pode ser rememorada pela foto que o soldado José Cyrillo tirou dela, com a máquina Kodak caixote que trouxera da Itália.

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O novo bairro foi Campo Grande, na antiga zona rural da capital federal. Foi lá o curto, porém intensamente bem vivido, tempo do Jardim de Infância.

Lembro do cheiro do pano do avental novinho em folha, com as minhas iniciais bordadas a ponto de cruz. Lembro de um chapeuzinho de palha com uma fita (azul ou vermelha?), xadrez, enlaçada no cocoruto. Lembro da folha de um livro de colorir com um pintinho impresso, vazado e sem cor que eu, maravilhado, pintei com o lápis amarelo (soube, imediatamente, ali, no momento em que inseri as virtuais peninhas amarelas naquele pintinho que, de algum modo, ‘desenharia’ coisas pelo resto da vida).

Tomado de paixão pela caixa de lápis de cor, levei para a sala de aula, no dia seguinte, um postal que meu pai trouxera da Itália e copiei, pela primeira vez, algo que saindo dos meus olhos, fixava-se no papel, como mágica.

Incrível descoberta: Aprendi ali que a rabiscada proa, linda e imponente, de uma gôndola veneziana, poderia me dar o poder de contar para os outros, algo sobre a vida do principal herói da ‘minha’ guerra mundial pessoal.

Pena ter sido tão breve a minha estada naquele jardim de prematuras e indeléveis felicidades, minha derradeira escola convencional.

Logo, tudo escureceu quando em 1951, seqüelas do alcoolismo, proveniente talvez do que se chamava na época ‘neurose de guerra’, me levaram o pai e, de roldão, o meu mundinho de criança feliz.

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… ‘Criança feliz, feliz a cantar
Alegre a embalar, seu sonho infantil

Ó meu bom Jesus, que a todos conduz
Olhai as crianças do nosso Brasil…’

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Não sei porque, nunca mais soube se foi um sonho ou uma miragem a lembrança que marca o começo de tudo na história da primeira escola, depois do Jardim de Infância. Datada, a lembrança que marca o momento preciso de minha ida para a Escola-Prisão, ali por volta dos meus cinco anos de idade, é uma canção insistentemente repetida no rádio.

Desta imagem, fantástica, eu me lembro, como se fosse hoje: Estava gravada no céu azul que encobria o pátio do colégio e foi, certamente, criada em minha cabeça pela visão fortuita da página de jornal de algum inspetor e pelo rádio, que tocava aquela música que para mim ficou, para sempre, associada à uma idéia de tristeza e melancolia.

..’.Crianças com alegria
Qual um bando de andorinhas

Viram Jesus que dizia:
- Vinde a mim as criancinhas…’

Entre um flash e outro da trágica notícia, entremeada com a majestosa voz do falecido cantando, eu ia compreendendo que um tal de Francisco Alves, uma celebridade da época, autor e intérprete daquela canção, havia morrido num acidente automobilístico.

O ano marca por isto, certamente, o início da minha jornada de habitante daquele estranho mundo, engolfado que fui, pelo que soube ser bem mais tarde, uma unidade conveniada do sistema SAM, Serviço de Assistência ao Menor, famigerada instituição criada no segundo governo de Getúlio Vargas para abrigar meninos pobres e órfãos, entre os quais os considerados infratores ou delinqüentes, eram encaminhados para a principal unidade do sistema: A Escola XV (cujo imponente prédio reformado, abriga hoje uma razoável escola pública, no bairro de Quintino, no Rio de Janeiro).

O fato é que, ingenuamente solidário diante das dificuldades de minha mãe viúva, além de influenciado pela foto de uma freira cuidando de um feliz menino – vestindo um paletozinho tweed – no Anuário as Senhoras de 1951, ingressei, pois, em 1952 no Colégio que, logo pude perceber, era uma reles Escola-Prisão, sempre temeroso de, caso cometesse alguma falta – como vi alguns cometerem – ser transferido, para Escola XV, o Presídio-Escola de todos os meus pesadelos.

Esta era – como ainda hoje é, ou muito pior – a lógica crua do sistema de ‘assistência’ às crianças pobres do Brasil.

Fosse a minha infância um tenro sapoti, o SAM seria, com certeza, o mais infame dos morcegos.

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O traço do Gibi

Não sei o que deu nela, na minha mãe, naquela ocasião. O que de bom teria ocorrido naquela época? Será que ganhou a milhar no jogo do bicho? O que mais poderia ocorrer na vida de uma modesta costureira suburbana? Talvez ela tivesse conseguido aquele seu primeiro emprego de costureira profissional, num ‘atelier’ de uma daquelas ‘mademoiselles’ com falso sobrenome francês que, motivadas pela abertura na cidade de elegantes magazines de roupas ‘prontas’, encheram de fabriquetas (confecções) o centro da cidade, criando uma enorme demanda por costureiras, bordadeiras, chuleadeiras, overloquistas, etc.

O que sei é que, na visita daquele dia ela não me levara apenas o modesto farnelzinho, com três ou quatro peras embrulhadas, delicadamente, num papel roxo e o saco da adorável rosquinha de coco marca ‘Seara’. Ela me apareceu desta vez, com uma enorme mala de papelão novinha em folha, forrada internamente, guarnecida com belas cantoneiras pintadas de marrom brilhante, cheia de tudo que ela imaginou que me extasiaria de felicidade.

E quem não se extasiaria com duas latas de leite condensado, muitos sacos de biscoitos sortidos – entre os quais os saborosos Seara’ – peras (e também maçãs) embrulhadas no papel roxinho de sempre, e tantas outras iguarias?

E as muitas revistas de histórias em quadrinhos? E os livros que, apesar de amarelados de tanto terem sido usados, eu – já a esta altura, razoavelmente, alfabetizado – muito apreciava (principalmente, quando eram novelas policiais do Arsène Lupin ou romances, como o inesquecível Robinson Crusoè do Daniel Defoe) livros que eu acho, ela garimpava em sebos do centro da cidade.

Caixa de Pandora que era, aquela mala, quando aberta, revelou-se um portal de mil e um encantamentos, glória absoluta para um menino que necessitava, ardentemente, de uma saída qualquer para um mundo fantástico, um portal através do qual ele pudesse escapar daquela vidinha humilhante de órfão na Escola-Prisão.

Foi como se um mundo inteiro de cores e delícias, encaixotadas naquela mala, explodisse, igualzinho como explode um feliz boneco-palhaço de mola, nos levando do susto à gargalhada, pulando da caixa presenteada, exatamente, para nos fazer sorrir alguma felicidade fortuita.

Finda a visita, levei correndo a mala para o pátio. Onde a guardaria? Não tínhamos ali armários ou qualquer coisa parecida com privacidade, além do colchão imundo e da colcha encardida de nosso beliche.

Andei com aquela mala para baixo e para cima, pelo pátio durante todo o dia, sentando nela entre uma e outra brincadeira. Dormi com ela, transformando-a num duro travesseiro que não atrapalhou, nem um pouco, os meus irrefreáveis bons sonhos de menino rico por um dia.

Foi logo que acordei que decidi guardar a mala naquele vão meio escondido de um corredor do pátio. Naquela minha estúpida inocência de guri, aquele me pareceu um covil bastante seguro.

Gelei quando ouvi a gritaria vindo exatamente do vão do corredor. Corri para a turba que, ao me ver debandou completamente. No chão, a mala saqueada, em frangalhos. Não chorei. Num colégio interno, mesmo tendo apenas oito anos de idade, um homem não chora.

Minha mãe, a partir dali me trouxe muitas e muitas outras revistas e livros. O Trauma da mala no entanto, ainda hoje me acompanha, tremo e tenho sensações de perda irreparável, só de lembrar daquela algazarra ensandecida dos saqueadores.

Os meus sonhos de voar devem ter começado também ali, naquela época da mala. Eram sonhos muito reais. Difícil aceitar que não fossem a mais pura realidade.

Dava um pulo para o alto e levitava um pouco, ainda de pé. Dava outro salto e conseguia me manter flutuando no ar. Subia, alcançava as nuvens e ficava por lá, passeando pelo céu, sentindo o frio gostoso da brisa úmida que transpassava as nuvens. Como continuei a tê-los, por muito tempo, sei que eram claros sonhos-desejo de fuga, sonhos de liberdade.

Assisti a várias fugas reais, mas, nunca tive coragem para fugir. Quando olhava o muro alto tremia de medo e me contentava em ficar imaginando o fugitivo feliz, com a adrenalina a mil, olhando para trás, até o bonde sumir numa esquina. O barulho das rodas do bonde martelando os trilhos ficou sendo para mim, para sempre, o som exato, trilha sonora perfeita daqueles sonhos, quase filmes, sobre Liberdade.

(Memórias e sonhos são mesmo como cinema, alguém já disse)

Assim, como uma lembrança puxa uma outra e, a propósito, me lembrei também do cineminha do colégio, que acontecia, de vez em quando. Os sinais de que haveria filme naqueles dias eram claros: Freiras, peças raras por ali, atravessavam o pátio de tardezinha, rumo ao galpão onde um inspetor montaria mais tarde um velho projetor Bell & Howell 16mm.

E nós ali, com os olhos brilhando como estrelas ou pupilas de gatos na noite.

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A roupa do Guri

Era uma roda com todos os meninos nela, eletrizados com algo que olhavam no chão do pátio.

Me enfiando entre os mais pequenininhos que eu, fui vislumbrando a imagem impressionante de um cawboy rabiscado no chão, com dois enormes revólveres apontados para a assistência muda.

O ‘rabisco’, vestido com botas de cano longo, lenço no pescoço, cinturão de fivela, fumava, displicentemente um cigarro, do qual esvaía uma fumaça mágica, porque nada mais era que um risco na terra seca. Não só a fumaça, tudo havia sido riscado com um imundo e reles palitinho de fósforo, que o orgulhoso e emocionado artista achara por ali mesmo, no chão.

Talvez, não me lembro, tenha me vindo à cabeça nesta hora, a imagem do pintinho do jardim de Infância. O certo é que senti, ali, de novo, o inexplicável prazer, inoculado que fui pelo vício da descoberta, de que se pode sim, contar coisas para os outros, conversar com as pessoas por meio de simples imagens, signos, rabiscos, estas coisas.

Se podia escrever tudo que quiséssemos, sobre o mundo, sobre a vida, apenas com rabiscos, foi o que aprendi naquele pátio feito escola. Grande milagre da vida.

Não sei por quanto tempo o tal menino artista ficou no colégio. Me lembro, contudo, de ter visto muitos outros desenhos dele expostos no chão do pátio. Me lembro, aí sim, bem mais claramente que, pouco tempo depois, chegou a hora de desenhar, eu mesmo, a minha própria obra prima admirável:

Um galeão, copiado de uma imagem do gibi do Fantasma-que-anda, foi o que fiz. Exatamente o galeão da primeira história da série, na qual o primeiro Fantasma, chegava na praia próxima à selva de Bengala, quase morto, depois de ter escapado de um navio de sórdidos piratas, que era visto na gravura, ainda ancorado ao largo.

E lá estava eu, me sentindo o rei de todos os mares da imaginação, olhando não menos emocionado que o meu inspirador, o meu próprio rabisco sendo admirado pela intrigada garotada.

O mais belo e incrível de tudo é que, os desenhos que fazíamos, eu e meu inspirado antecessor (como numa disputa de artistas plásticos emergentes), ficavam intactos no pátio por dias e dias, sem um pisadinha sequer.

O turbilhão e correrias e brincadeiras que fazíamos (entre as quais o violento jogo da Carniça predominava) ocorriam ao largo dos desenhos que iam se apagando e esmaecendo apenas com o tempo, lentamente, soprados por alguma leve brisa de fim de tarde ou alguma garoa.

Era como se o pátio fosse o sagrado museu a céu aberto da nossa emocionada – e quase inacreditável – iconografia infantil.

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O ansiado dia de visitar a família em casa (sempre num sábado do mês), era um tormento sem tamanho porque, nunca sabíamos que hora a inspetora gritaria o nosso nome, com um embrulho de papel com a nossa roupa ‘civil’ na mão, Ficávamos amontoados em frente ao portão entreaberto, tentando ver se alguém da família aparecia na fresta. É que tínhamos medo, pânico mesmo de, num dia destes acontecer de ninguém da família aparecer.

A roupa ‘de sair’, quando voltávamos no fim do Domingo, era deixada na portaria e levada com a nossa mãe para casa. O pacote de roupa ‘da rua’ era muito ansiado também porque não tínhamos nenhuma roupa sobressalente para usar no colégio.

O macacão de brim azul, ficava imundo em poucos dias de uso. Não teríamos outro por meses a fio. O melhor era cuidar para que ele não ficasse muito puído e rasgasse no joelho (coisa quase impossível de não acontecer). Dormíamos e acordávamos com aquele macacão surrado, nojento, que só tirávamos para tomar banho.

Éramos organizados em bandos de quatro a cinco meninos. Tínhamos, como os presidiários adultos, números por meio dos quais éramos identificados no colégio, até que um apelido mais específico nos fosse aplicado. A eleição de um líder se dava por meio de disputas físicas ou mesmo por intermédio de ações aceitas como demonstração de heroísmo explícito.

O líder de meu grupo era o ‘Leiteiro’ (por ser cor de leite, um dos raros brancos da Escola-Prisão) que foi alçado a função depois de ter prometido (e cumprido) engulir mais de dez botões de roupa no espaço de um mês. Assumiu a chefia de nosso ‘bando’ assim que retornou da enfermaria depois de comer 32 botões.

Cada um de nós tinha uma escova de dentes que era cuidadosamente, afiada em alguma superfície cimentada, para fazer as vezes de arma, de estoque.

Assisti a diversos embates no pátio. Cercávamos os dois brigões numa roda compacta e incitávamos, um contra o outro, doidos para ver o sangue correr. As brigas eram à socos, pontapés e estrangulamentos, violência pura e franca como a de animais em disputa por território ou comida. Quando um dos dois era atingido gravemente pelo outro, com um golpe mais certeiro e sangrava (geralmente no nariz), gritávamos, ensandecidos, a senha que declarava a luta por encerrada, com a consagração do vencedor:

_’Tirou melado! Tirou melado!’

Outra imagem bem vívida destes primeiros anos, era a da garotada formada no pátio, ao cair da tarde, ao lado do alojamento onde dormíamos. A ‘formatura’ era rígida e marcial, com gritos de ordem unida que hoje soariam ridículos quando consideramos que nós, os internos, não passávamos de uma medíocre tropa de menininhos magricelas, com idade entre os cinco e os quinze anos. Contudo, cumpríamos as ordens, mesmo detestando, nos sentindo compulsórios soldados reais.

_ Pelotão…Sentido!
_ Cobrir!
_Descansar!
-Ordinário…Marche!

Para mim, pensando bem, até que a ‘formatura’ não era assim tão ridícula porque, logo depois da ordem unida, o clima ficava diferente, agradável mesmo, por causa das músicas que cantávamos.

O repertório era, a princípio, aquele, formalmente, utilizado em todas as escolas da época, hinos cívicos tradicionais,”qual-cisne-branco-que-em-noite-de-lua,‘já-podeis-da-pátria-filhos’. Mas, o prazer maior chegava na hora em que, entre contritos e embevecidos, entoávamos aquelas dolentes canções ‘indígenas’ de Heitor Villa Lobos. Dormíamos bem, como anjos, nos dias em que cantávamos Villa Lobos, naquela semi escuridão do pátio ao anoitecer.

Ninguém nunca nos perguntou porque ficávamos tão emocionados, principalmente, com aquela canção, da qual eu me lembro bem até hoje, que falava de um tal de Anhangá que fugiu:

…Ó manhã de sol! Anhangá fugiu!
Anhangá! Hê!Hê !
Ah! Ah! Foi você
quem me fez sonhar…’

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Não que tenha esquecido, mas, pouco me lembro de professores. Pelo que recordo, praticamente não os tínhamos. Me recordo vagamente das aulas em que fui alfabetizado, do cheiro de massa de modelar levada, uma única vez, por uma diligente professora e só.

Nossa referência ‘educacional’ eram os chamados ‘inspetores’, figuras musculosas, com as camisas de mangas curtas arregaçadas, para mostrar a nós, esquálidos meninos, a ameaçadora desproporção entre seus bíceps e nossos bracinhos finos como gravetos.

Os inspetores homens (haviam entre eles algumas poucas mulheres) eram, pelo aspecto, jovens policiais, praticantes de luta livre e Jiu Jitsu. Lembro de dois deles. Um que usava uma vareta dura de madeira (como uma batuta de maestro) com a qual fustigava as costas e as pernas dos meninos ‘indisciplinados’ e outro que, ironicamente, usava uma grande régua de madeira, com a qual gostava de acertar o vão das orelhas dos rebeldes incorrigíveis. Verdadeiros ‘desensinadores’ que eram, usavam a régua com truculência ‘educativa’, como método pedagógico’ mesmo. Boçais como a sociedade que os criara. Que Deus os tenha.

É deles, dos carcereiros-inspetores da Escola-Prisão, a penúltima imagem que me ficou na memória, não por acaso, a mais constrangedora:

Numa formatura silenciosa, sem jantar, sem ordem unida, sem música de Villa Lobos, sem hinos cívicos, sem nada, ficamos perfilados noite adentro, por cerca de quatro horas, com os braços direitos estendidos, com as mãos espalmadas, pousadas no ombro do colega da frente. Aqueles que, não resistindo à dor, deixavam o braço pender para baixo, recebiam golpes da vara que os inspetores ainda neste tempo, portavam como instrumento de poder e coação.

A intenção deles com a tortura coletiva era clara: Alguém teria que denunciar quem entre nós, havia feito uma das denúncias que haviam vazado para fora do colégio, engrossando o que hoje imagino ter sido uma grave crise no sistema SAM que, ali por volta de 1959, parecia prestes a ruir com novas denúncias sobre bárbaras torturas na Escola XV.

Dos motivos sabíamos alguns poucos detalhes. Havíamos sido, rapidamente, transferidos da Tijuca para um bairro distante do centro (se não me engano, Jacarepaguá). A comida, de resto sempre ruim, estava agora intragável. Dias antes, alguns meninos haviam baixado enfermaria, depois de ingerirem carne estragada. As mães, alarmadas pelas notícias que, ao que parece, já haviam saído na imprensa, passaram a deixar algumas moedas conosco, com as quais comprávamos algo para enganar a fome, bolos, balas, laranjas, através do portão principal.

Na visita seguinte, faminto como todos os outros, decidi confessar a minha mãe que não dava mais para ficar ali.

É esta decisão que deflagra então a nossa última memória que, como se fosse uma volta simbólica ao Jardim de Infância, é a minha lembrança mais querida:

O bonde, a cortininha de lona levantada, o trajeto arborizado por entre as ruas da Tijuca. A música bem ritmada dos trechos de trilhos percorridos, exatamente, a mesma música da fuga dos outros.

Música dura e com faíscas eletrizantes. O ferro da roda do bonde atritando o ferro de memórias que, agora que foram contadas, explodidas para fora da mala, caixa de Pandora aberta que era, não podem mais ser apagadas por ninguém.

Minha honra e meu mérito escolares foram, portanto, muito mais do que ter permanecido lá, ter ali compreendido que a rota de fuga para a liberdade, era a única matéria que realmente merecia ser aprendida.

Escapar íntegro da Escola-Prisão e ter espantado os morcegos da minha vida, entre todos, é o meu único diploma válido, exposto com orgulho na lousa destas minhas remotas memórias, para sempre felizes por serem, eternamente, infantis.

Spírito Santo
Fevereiro 2008

Sowell por Kamel: O Preto no Branco

•Junho 28, 2009 • 2 Comentários


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The-two-platforms melhor
(Cartaz racista contra a adoção do voto negro na campanha eleitoral para o governo da Pennsylvania em 1866 – Arquivo USA Library of Congress)

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Acabo de ler em O’ Globo de hoje, 26 de junho de 2009, um artigo assinado por um tal de Rodrigo Constantino ,exatamente igual a um artigo do Ali Kamel que eu me lembrava, vagamente de ter lido há muitos anos atrás (inclusive com as mesmas citações ao caquético livro do intelectual direitista norte americano Thomas Sowell “Ação afirmativa ao redor do mundo. Um estudo empírico“).

Acabei caindo no site do Observatório da Imprensa (via google) onde me deparei surpreso com um artigo por mim mesmo escrito naquela ocasião debatendo a cruzada contra as cotas que o jornalista Ali Kamel começava empreender no jornal O’ Globo já naquela época.

Época do artigo para ‘O Observatório da Imprensa’: Julho de 2004.

A sensação de estar num circulo vicioso foi o que mais me constrangeu. Apesar de todo o acesso que temos tido hoje à informação e a meios ágeis para o debate de qualquer questão, eu tinha dado com os burros na água naquele mesmo debate, depois de incríveis cinco anos (!) para constatar que não havia ainda, rigorosamente nada de novo para acrescentar à conversa.

Água fria. Não havíamos avançado um milímetro sequer no esclarecimento da questão.

O texto do tal Rodrigo Constantino, rebarbativo a mais não poder, publicado em destaque, sabe-se lá por que méritos editoriais (na minha pauta leio para mim mesmo um sonoro ‘cala-te boca’) num jornal tão importante como O’ Globo, dá bem a medida do ponto a que chegou o jornalismo no Brasil nestes tempos de ética zero (e nem se pode atribuir ainda a culpa ao fim da exigência do diploma).

Outra coisa que me causou muita estranheza também foi a grande afinação que se começa a perceber no discurso destas pessoas (é impressionante, mas eles se repetem quase… ipsis leteris), a similaridade de suas teses e de suas rasas referências, digamos… bibliográficas são impressionantes, dando-me a nítida e desagradável impressão de que são uma espécie de instituição organizada, uma confraria dedicada à uma causa arraigada e fundamentalista. Sei não…

Para deixar patente o surpreendente destas minhas conclusões, decidi então reproduzir aqui o artigo de cinco anos atrás d’O Observatório da Imprensa também…ipsis leteris.

(Com o perdão do estilo ainda claudicante – os títulos e chamadas foram criadas pelo editor do site- peço desculpas também por estar talvez repetindo coisas que já disse por aqui, mas é que na época acho que o Overmundo sequer existia. Com o perdão antecipado de vocês inseri também irresistíveis notinhas sarcásticas e atuais em itálico no texto antigo).

É verdade: O Brasil não anda mesmo para a frente.

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COTAS NAS UNIVERSIDADES
Argumentos de uma cruzada frágil

Por Antônio José do Espírito Santo em 6/7/2004

Tem causado muita celeuma o empenho quase militante do jornalista Ali Kamel em sua cruzada em O Globo contra a adoção de cotas raciais no ingresso na universidade pública brasileira… (isto eu sei que já disse aqui, mas ao que me parece ninguém deu muita bola para este detalhe, o caráter… militante do empenho do cara, principalmente em se tratando de um jornalista).

Enfática, facilitada talvez pelo fato de ele exercer um cargo proeminente na maior rede de mídia do país, o que chama mais a atenção na cruzada do jornalista é a incrível contradição entre o amplo espaço de mídia de que ele dispõe e a superficialidade por demais evidente de sua argumentação, atributo no mínimo estranho no texto de um jornalista tão veementemente determinado a expor suas idéias sobre o assunto.

Em seu último – e extenso – artigo sobre o tema, Ali Kamel … (ao que me parece até hoje, ele anda escrevendo desde 2004 aquele mesmo artigo sobre o tema) … já começa afirmando assim, sem mais nem menos que, ao adotar as cotas raciais, o Brasil estaria “rompendo com a tradição legal de tratar brasileiros sem distinção de raça ou cor”. Ora, qualquer brasileiro medianamente informado sabe que esta referida tradição jurídica só tem, de tradicional, o fato de ter sido, há muito tempo, transformada em letra morta, desmoralizada pelo desuso, como o foram tantos e tantos outros artigos e parágrafos de nossas leis, principalmente quando tratavam de corrigir injustiças sociais históricas, como o racismo, por exemplo.

Logo em seguida, Ali se vale do trabalho “Ação afirmativa ao redor do mundo. Um estudo empírico”, de Thomas Sowell, segundo ele “um dos mais renomados intelectuais americanos”… (você aí conhece ou já ouviu falar da impoluta figura?).

Não conhecemos nada sobre Thomas Sowell … (hoje, graças ao São Google, já sabemos que ele é um pensador de direita norte americano, eminente quadro do Partido Republicano, integrante da equipe do governo Ronald Reagan entre outras peças deste nipe barra pesada)… Por conta disso não podemos aferir seu alegado renome ou, mesmo, atestar a propriedade de suas idéias contra as ações afirmativas em geral (idéias, a propósito, consideradas “demolidoras” por Kamel). Seria, no entanto o caso de se perguntar: que importância tão transcendental poderia ter um estudo, assumidamente empírico, realizado por um estudioso americano sobre matéria tão especificamente ligada à realidade brasileira atual e imediata, em detrimento do tanto que já se escreveu sobre o tema por aqui?

Para início de conversa, a avaliação dos desacertos (onde foram parar os acertos?) de políticas afirmativas ou de isonomia social não poderia ser realizada assim, de forma tão generalizadora.

Relembrando Bill Clinton, não se pode ser contra políticas deste tipo só por que se pode ser. Tem gente olhando.

Assim sendo, o que teriam em comum realidades sociais tão diferentes quanto Sri Lanka e Nigéria, Índia, Malásia e Estados Unidos, utilizadas por Kamel (citando Sowell) como base de sua argumentação?

Não é tão simples se afirmar peremptoriamente, mas, ao que tudo indica, a essência dos problemas sociais no contexto das eventuais políticas afirmativas empreendidas na Malásia, no Sri Lanka expressa, na maior parte dos casos, a existência de distorções e disputas étnicas, cuja solução ou reparação poderia vir a auxiliar algum tipo de unidade nacional, territorial ou mesmo a realização de aspirações nacionalistas ou separatistas recorrentes. Reflexos de disputas inter-étnicas, em suma, entre outras complexidades.

(Tudo bem. Posso estar sendo também tão rebarbativo quanto o Constantino pois, na época – veja logo abaixo – eu já comentava o mesmo tema levantado pelo Sowell e reverberado por Kamel, mas é que – cá entre nós – ver o mesmo descuido… analítico, aparentemente sendo cometido num artigo acadêmico, especializado, ‘de ponta’ dói, não é não?

É que acabei encontrando também no São Google um artigo de 2005 de uma renomada professora do Departamento de Antropologia da USP, comentando o mesmo artigo de Sowell. Se quiser leia na íntegra para conferir.

Seria impressão minha ou o artigo, aparentemente ponderando a questão – advogando para o Diabo – acaba mesmo, é referendando, de certo modo, o raciocínio torto de Sowell?. Veja os trechos que eu – do mesmo modo com notinhas sarcásticas em negrito- destaquei :

…”O tema tem gerado uma série de livros, sendo que um dos mais recentes acaba de ser editado entre nós: Ação Afirmativa ao Redor do Mundo: um Estudo Empírico, de Thomas Sowell……Autor de vários livros, Sowell é um pensador conservador e influente – … Além do mais, pertence a uma das minorias que estuda: trata-se de um pesquisador negro (êpa! Será que se alude aqui ao mito do ‘preto de alma branca’ repaginado?).

…Sowell chama as políticas afirmativas de “mitologias políticas”, assim como as denuncia enquanto um conjunto de “suposições, crenças e arrazoados”… lança mão dos exemplos de países como Estados Unidos, Índia, Nigéria, Sri Lanka e Malásia, a fim de demonstrar que, nessas nações, tais políticas teriam favorecido um grupo delimitado…provocado conflitos e guerras. Na Índia, nação que teria aplicado políticas de ação afirmativa desde os tempos coloniais ingleses (ações afirmativas colonialistas? Gente de Deus! Como assim?)… Na Malásia, teria favorecido uma maioria, contra uma minoria dinâmica, como os chineses, emigrados mais recentes (‘minoria’…chinesa?.. ‘mais’ dinâmica? estaria Sowell insinuando o conceito ‘ minoria superior’? Sendo assim, ’superior’ a quem? Às demais ‘etnias’? Hum!!). No Sri Lanka, a conseqüência seria a radicalização entre cingaleses e tâmeis e a própria guerra civil.

O conflito civil da Nigéria também teria sido motivado pela tentativa de retirar de uma etnia, os hauçás, os direitos entregues a outra: os iorubas…” (de novo as historicamente impensáveis ‘ações afirmativas colonialistas’ . Como assim?)

Ora, não nos parece necessário ser especialista em antropologia para perceber que os conflitos inter-étnicos descritos por Sowell, claramente identificáveis como notórias e velhacas ‘armações’ colonialistas – ou neo-colonialistas sei lá – de inspiração maquiavelistas como afirmo abaixo, nada têm a ver com o conceito Ação Afirmativa. Menos que argumentos, as teses de Sowell seriam – como as de Kamel são – meros sofismas.

Bem…siga lendo abaixo o meu papo de 2004:

O papel do invasor

Aliás, a confusão inexplicável que Kamel faz dos conceitos raça e etnia chega a ficar esdrúxula quando ele evoca o candente exemplo da Guerra de Biafra, na qual, sabidamente, poderosos interesses do colonialismo inglês insuflaram uma cruenta guerra separatista, a partir de divergências étnicas históricas e muito antigas entre os povos haussa, yoruba e ibo. Ora, a guerra na Nigéria nada teve a ver, diretamente, com a questão das ações afirmativas. O que houve por lá, todos se lembram, foi uma guerra. Os então inimigos yoruba (conhecidos como nagôs no Brasil) e ibo (os massacrados biafrenses) são rigorosamente povos da mesma raça (tendo até alguns de seus descendentes entre os protagonistas no debate atual pela adoção de cotas raciais no Brasil).

A única relação que os referidos conflitos na Ásia ou na África poderiam ter com cotas raciais seria talvez o fato de que, em muitos casos, as contradições étnicas ou nacionalistas que elas visavam resolver terem sido insufladas pelos poderosos interesses geopolíticos do maquiavélico colonialismo das potências brancas ocidentais, que inventaram o racismo, este eficiente sistema de cotas ao contrário: divide et impera.

O mais curioso inclusive é que em sua inexplicável simplificação de um fato histórico tão notório, Kamel, sabe-se lá por que razão (seguindo, cegamente sabe-se agora, a tese truncada de Sowell) omite completamente o papel do invasor inglês, pivô evidente de toda aquela tragédia que, se previu algum tipo de cota, foram as contas macabras da fome e do extermínio.

Nem corpo mole nem mão beijada

Falando agora realmente de cotas raciais, o que teria a ver no discurso de Kamel a eventual ascensão social de um pequeno contingente de imigrantes chineses e japoneses na América com o racismo perpetrado pelos brancos americanos contra seus próprios cidadãos negros? Em que dados afinal Kamel se baseia para afirmar, tão categoricamente, que os emigrantes asiáticos na América teriam ascendido socialmente “apenas por esforço próprio”, sem nenhum tipo de mecanismo de promoção social que os estimulasse? Aliás, é muito forte e incômoda a sensação de que, ao insistir tão enfaticamente nesta tese de uma eventual eficiência oriental Ali Kamel, por extensão, possa estar sugerindo uma espécie de incompetência ou inferioridade negra, historicamente improvável e, logo, preconceituosa. Algo parecido com esta perigosa analogia são as ilações que o jornalista faz sobre as cotas raciais nos EUA.

É bom que se recorde que foi muito árdua, complexa e, por que não dizer, controvertida a luta dos negros americanos por seus direitos civis, luta que foi a inspiração mais evidente do moderno conceito de ação afirmativa hoje em voga no Brasil e no mundo.

Não se pode dissociar os enforcados do Alabama, as grandes marchas pelos direitos civis e os assassinatos de Martin Luther King, Malcom X ou dos irmãos Kennedy das ações afirmativas ou leis de cotas que os precederam. Típico caso de ação e reação causa e efeito, em suma. Desconhecer, subestimar ou ignorar a relação direta entre estes fatos seria o mesmo que tripudiar da história e de suas vítimas. Não houve, há que se frisar, corpo mole nem mão beijada. Nem lá nem aqui.

Intenção protelatória

Ao contrário do que, surpreendentemente afirma Ali Kamel em seu artigo, o que fez o número de conflitos raciais crescer na década de 70 na América não foi a adoção das cotas mas, ao contrário, a violenta repressão policial estimulada pelos segregacionistas e demais ferrenhos opositores da integração racial e das ações afirmativas em geral (grupo no qual, infelizmente, Ali Kamel parece que de algum modo se coloca, levando Thomas Sowell de contrapeso).

Aliás, quando trata da questão das cotas nos Estados Unidos, Kamel omite também a enorme e segregadíssima população hispânica (sobretudo mexicanos e porto-riquenhos), além da árabe (sobretudo os muçulmanos, excluídos da vez no pós-11 de Setembro) e para os quais muitas ações afirmativas, por certo, ainda terão que ser empreendidas um dia.

Voltando enfim ao foco principal da questão, sejamos francos: o sistema de ensino no Brasil é, em todos os níveis, excludente em sua própria essência. Excluir, garantir a pouca farinha para o pirão de poucos, esta tem sido a sua principal razão de ser.

Delfim Neto, famoso ex-ministro da Fazenda no auge da ditadura militar, teria afirmado certa vez, acerca da extrema desigualdade na distribuição da renda no país, que era preciso primeiro “aumentar o bolo” para só então distribuí-lo entre os despossuídos. A tese de Kamel de que “é preciso primeiro melhorar a qualidade do ensino básico” para só aí, e pelos meios atuais, autorizar o ingresso de negros e pobres na universidade, vista por este prisma, parece ter esta mesma intenção protelatória.

Excedentes indesejáveis

É óbvio que será necessário melhorar a qualidade do ensino básico, mas uma coisa absolutamente não anula a outra. Há que se intervir radicalmente, e desde já, nos procedimentos de acesso à universidade pública, a fim de demolir seus mecanismos de exclusão tão arraigados. Quebrar seus funis.

É óbvio que a adoção de cotas, neste como em outros casos, objetiva a correção de distorções eminentemente sociais. Ocorre, no entanto que o fato de os negros serem as vítimas mais evidentes destas distorções faz com que as cotas raciais sejam um critério claramente pertinente, um grande facilitador na implementação destas políticas. O resto é tergiversação.

Sofismas na acepção da palavra, os procedimentos atuais que regulam o acesso ao ensino universitário, por exemplo, notadamente os chamados exames vestibulares, são do mesmo modo excludentes por natureza, não representando, a rigor, procedimento de aferição de conhecimento algum que não seja a simples apreensão de senhas, regras e códigos de acesso, decodificados em apostilas.

São, portanto o que o seu próprio nome diz: mecanismos “vestibulares”, portas reguladoras do acesso para os que tiverem mais “bala na agulha”, aqueles que, por ascendência socioeconômica (de certo modo o mesmo que sócio-racial no Brasil), terão o direito á educação plena que o Estado brasileiro não consegue a disponibilizar para todos, necessitando de, por meio destes eficientes mecanismos, excluir os excedentes indesejáveis.

Não compreenderam

Se há tão profundos níveis de desigualdade social no Brasil, é óbvio que semelhante sistema educacional não visa – ou não precisa visar – necessariamente educar, desenvolver país algum. Quem liga?

É por estas e outras que, se formos mesmo rigorosos quanto a isto, veremos que não existem ainda provas realmente cabais de que a universidade pública brasileira é excelente em si mesma. Um oásis de excelência a ser preservado da invasão de bárbaros pés-rapados.

É provável mesmo que, num ranking mundial, não estejamos em posição tão vantajosa quanto poderíamos estar se tivéssemos uma universidade realmente democrática. Como se sabe hoje que raça e condição econômica não são, de modo algum, sinônimos de maior inteligência ou maior aptidão intelectual, é óbvio que estamos utilizando, ainda hoje, mais de um século depois do fim da escravidão, algum tipo de complexo mecanismo de exclusão, que faz com que sejam admitidas na universidade uma maioria esmagadora de pessoas brancas e relativamente ricas, caracterizando um perfeito sistema de cotas raciais, portanto.

Se soubermos o verdadeiro sentido do conceito educação, concluiremos que o que temos no Brasil hoje é um sistema educacional ineficiente, além de doente e anacrônico. A sociedade brasileira está cheia de “mecanismos vestibulares” como este (ações negativas). No serviço público, no esporte, na dramaturgia televisiva, e até no jornalismo, talvez. São estes mecanismos que as ações afirmativas visam demolir, independentemente de quaisquer outras ações que o Estado ou a sociedade venham a empreender em prol da democratização do país.

É isto que pessoas como o jornalista Ali Kamel não compreenderam ainda.

(… ou não querem acreditar, acrescentaria eu hoje em dia, um tanto ou quanto cético quanto a honestidade ideológica desta gente)

Spirito Santo
julho 2004/ Junho 2009

Nota:
(Trecho parcialmente traduzido do
São Google a partir das referenciais descrições do cartaz)

Ilustrando esta matéria um cartaz racista atacando expoentes do Partido Radical Republicano que apoiaram o direito de voto para os negros (emenda Constitucional” de maio de 1866). O cartaz caracteriza o candidato democrata Hiester Clymer como adepto da plataforma “Homem branco”, representado pela idealizada cabeça de um jovem homem (Clymer pregava a supremacia racial dos brancos), em oposição a uma estereotipada cabeça de um negro representando o adversário de Clymer, James White Geary (que também era branco) e apoiava o voto para negros.

(Observem que, ao contrário do que ocorre com o ‘retrato’ de Clymer, no dístico que classifica o homem negro – supostamente Geary – não consta a expressão ‘man’ – ‘homem’).

Os cartazes foram espalhados na Pennsylvania durante a campanha pelo governo do estado em 1866. Geary acabou sendo o mais votado (307.274 votos) do que o racista Clymer (290.096 votos). Geary governou a Pensilvânia por dois mandatos, de 1867 a 1873.

O Camelo na Agulha

•Junho 1, 2009 • 1 Comentário


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Cerimonia na Escola Mitre 27 agosto 1918 malta
(Teste da ‘agulha no palheiro’: Procure os ‘wallys‘ nas fotos e ganhe um doce – o ‘wally’ no caso é um aluno – ou aluna – afro-descendente)

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…”O que diferencia o sofisma da falácia, é que, embora ambos sejam basicamente raciocínios errados, a falácia é involuntária. Ao passo que o sofisma tem como objetivo induzir a audiência ao engano, o raciocínio falacioso decorre de uma falha de quem argumenta. Quem usa sofismas, sabe o que está fazendo quando, por exemplo, tenta nos empurrar uma conclusão para a qual não dispõe de dados ou demonstrações suficientes. ….”
Othon M. Garcia

(Comentando o artigo “Cotas” por Ali Kamel publicado no jornal O Globo em 27/05/2008 e ainda tão atual e recorrente hoje em dia)
Ali Kamel assim falou e disse:

Sofisma número 01:

” A Uerj, a primeira universidade brasileira a adotar o sistema de cotas raciais, divulgou um estudo bastante revelador. No vestibular do ano passado, foram oferecidas 1.048 vagas para negros, mas apenas 673 estudantes se inscreveram. Desses, 439 passaram.
No ano anterior, o mesmo fenômeno já tinha acontecido. Foram oferecidas 1.031 vagas para negros, mas apenas 753 se inscreveram (as aprovações foram de apenas 432 alunos). Antes, havia mais candidatos inscritos do que vagas, mas o cenário mudou completamente nos últimos dois anos. A Uerj anunciou, então, um amplo estudo, a ser concluído até o fim deste ano, para descobrir as causas.”

(O baixo índice de inscrições bem como a taxa de cerca de 60% de aprovações, baixa pela insinuação do autor, ao contrário do que ele induz o leitor a concluir, são fatores previsíveis e compatíveis com a natureza perversa da exclusão sócio racial no Brasil. Estes números não provam, de forma alguma, que não há demanda de vagas para negros ou mesmo que a oferta é superior à esta demanda. O que provam é que o sistema de cotas, pelo menos no caso da Uerj, é sério no que se propõe e atende, em grande medida suas finalidades)

Mas Ali, não se faz de rogado e sem salamaleques, segue:

“Eu pergunto: precisa?
Para mim, esses dados são eloqüentes e provam, de maneira cabal, que, se os negros e os pardos não estão nas universidades na mesma proporção que ocupam na população geral, o motivo não é o racismo. “

(Ficando atestado que os rasos dados apresentados por Ali NÃO são eloquentes e nem provam nada de maneira CABAL, a afirmação do autor de que a razão do negro não estar na universidade não é o racismo, não se confirma. A afirmação inicial, tema central de toda a argumentação do autor no artigo, portanto, não procede)

E ainda assim Ali Kamel segue:

Sofisma número 02:

“Se, mesmo com 20% de vagas reservadas, não há inscritos suficientes, isso é um sinal claro de que a política de cotas é um instrumento ineficiente para abrir as portas do ensino superior. Se a Uerj decidisse ampliar a reserva de vagas para, digamos, 40%, o único resultado seria uma ociosidade ainda maior”

(A afirmação baseada numa argumentação infundada, segue sendo inconsistente. Aliás, a cega insistência nas afirmações infundadas é um artifício de argumentação usado pelo autor de forma, irritantemente insistente:)

“…O que esses números dizem de uma maneira irrefutável é que o ensino médio não forma alunos negros em número suficiente, o que impede até mesmo uma simples inscrição no vestibular (o certificado de conclusão do ensino médio é requisito para entrar na universidade) “

(Não está claramente demonstrado de onde o autor tirou esta conclusão, logo nada em seu discurso é ‘irrefutável’. O baixo índice de inscrições, provavelmente só atesta que uma grande parte dos alunos negros não se sente ainda, suficientemente preparada ou mesmo, confiante para tentar o vestibular.

Outros fatores tais como impossibilidades sócio econômicas definitivas, necessidade de ingressar logo no mercado de trabalho, também são fatores óbvios que poderiam ter sido considerados pelo autor.)

Renitente, Ali segue seu arrazoado:

Sofisma número 03:

“Antes, havia mais inscritos do que vagas, porque havia um estoque de alunos formados em anos anteriores, estoque esse que, com o tempo, se esgotou. Hoje, faltam formandos oriundos do ensino médio. Como para freqüentar o ensino médio e o ensino fundamental não há nenhum pré-requisito, não se pode dizer que haja neles um gargalo que atinja especificamente os negros”

(Mesmo ignorando o primarismo do discurso – inusitado para um jornalista da posição do autor – a argumentação, não pode deixar de ser criticada por sua leviandade flagrante: São inúmeras as dificuldades interpostas aos jovens negros – e consequentemente pobres – para vencer a barreira do ensino médio e mesmo do ensino fundamental.

Na verdade, a natureza cruel destas dificuldades tão evidentes está na raiz de toda a discussão que, reconhecendo a existência de racismo no Brasil, justifica como sendo urgentes e necessárias as ações afirmativas específicas para negros, sem prejuízo de outras ações de caráter mais universal, as quais os negros do mesmo modo teriam direito. )

…Cego e surdo Ali vai em frente:

“…Neste país, negro, pardo, branco ou amarelo, todos têm livre acesso às escolas públicas . Em outras palavras, não é o racismo que impede os negros de se formarem no ensino médio e, formados, de passarem no vestibular, mesmo tendo a vida facilitada por cotas”

(De novo o primarismo do discurso. Como todo mundo sabe e não discorda, o livre acesso à péssima escola pública brasileira – como o próprio autor de maneira contraditória, argumenta em outras situações – não é garantia alguma de livre acesso ao vestibular e, muito menos à universidade por razões mais do que óbvias.

A argumentação principal que justifica as cotas está ligada, diretamente ao fato de que o sistema educacional brasileiro é excludente por sua própria natureza, havendo criado um odioso filtro denominado exatamente ‘vestibular’, um gargalo na acepção da palavra ao qual só têm acesso aqueles que podem pagar por uma espécie de ‘treinamento’ que os habilita a ingressar na universidade pública – que assim, elitizou-se de forma inaceitável já que, por clara definição, deixou de ser para todos.

Afora todas as mazelas e empecilhos que os jovens negros – e consequentemente pobres, repetimos – já sofrem para ultrapassar a barreira do ensino fundamental e do ensino médio, ainda são excluídos do acesso ao vestibular por não terem poder aquisitivo para pagar este ‘treinamento‘ específico de acesso.)

Segue Ali a sua trilha santa:

“O que os impede de estar bem preparados é a pobreza. São os pobres, de todas as cores, que freqüentam as nossas escolas públicas, a maioria esmagadora delas de péssima qualidade”.

(A afirmação são pobres de todas as cores‘, ponto recorrente da argumentação do autor, ignora de maneira aparentemente oportunista, o fato de no Brasil – e no Rio de Janeiro em especial – a maioria esmagadora dos pobres ser formada por negros e que são a estes pobres-negros que as nossas escolas de ‘péssima qualidade’ se destinam, ou seja, ignora o autor que há uma clara relação de causa e efeito – intencional supõe-se – entre a péssima qualidade das escolas e a clientela a qual elas se destinam.

Por outro lado no caso deste elemento recorrente da argumentação do autor – a afirmação de que os pobres têm cores – é bastante sintomático, o fato de focar, tão especificamente, exatamente os indivíduos de raça negra como sendo os que ele propõe – e apenas a eles – que se negue as cotas)

Por Alah!Tomado por sua estranha e insana razão, ainda assim, Ali prossegue:

Sofisma número 04:

“Os mesmos números da Uerj comprovam o que estou dizendo. A universidade também destina cotas para estudantes da rede pública: no ano passado, foram oferecidas 1.048 vagas, e os inscritos foram 1.292 alunos. Mas apenas 787 passaram, mesmo com as cotas. No ano anterior, 1.581 alunos da rede pública se inscreveram nas 1.031 vagas oferecidas nas cotas, mas, novamente, apenas 830 alunos conseguiram entrar. Por que há mais alunos inscritos na cota para alunos de escolas públicas? A lei que instituiu as cotas na Uerj, diferentemente de outras leis, não diz que negros são os negros propriamente ditos e os pardos. Fala apenas em negros, e ordena num outro parágrafo que a universidade crie mecanismos para combater fraudes”

(A identificação de quem é ou não é negro no Brasil é uma questão de natureza muito controversa, mas a culpa disto (ou o ônus) não pode ser atribuída aos ‘negros’ ou aos ‘pardos’. A rigor, contudo, é óbvio que o critério (criado pela própria cultura do racismo à brasileira), é o da aparência.

Aqui, é negro quem parece ser negro já que este é o estigma, a condição que identifica e determina quem será excluído. A questão se tornou bem mais confusa ainda quando, institucionalmente por ocasião de alguns recenseamentos se adotou a prática do ítem cor autodeclarado que, atendendo a um interesse específico da elite brasileira, reduziu drasticamente – e de forma claramente enganosa – a taxa de negros no país.

Em geral, ao lidar com o problema, os especialistas tentam diluir a população num infinito mosaico de cores sem, contudo, justificar a misteriosa razão que faz com que a nossa elite econômica continue a ser, quase que inteiramente ‘branca’.

O mais exdrúxulo dos equívocos de nossos demógrafos, contudo é aquele que denuncia que nas estatísticas de cotistas brasileiros, na categoria dos ‘pardos’, estão computados os nossos milhões de descendentes de índios. Ora, não podemos nos esquecer que, no ensejo de serem também excluídos no passado, os índios do Brasil também eram classificados como ‘negros’.

Foi para corrigir esta distorção odiosa (mascarava a possibilidade de se alegar racismo) que se começou a computar os ‘pardos’ como pertencendo ao mesmo contingente social dos negros.

Constatou-se que, do ponto de vista do racismo à brasileira, discriminava-se os ‘pardos’ tanto quanto se discriminava os ‘negros’. É este critério que orienta e justifica a adoção de cotas chamadas de ‘raciais’. O critério é – sob o ponto de vista ético inclusive – perfeitamente legítimo.)

Ainda assim Ali segue com a palavra:

“Num país miscigenado como o nosso, é muito provável que os pardos de várias tonalidades tenham medo de se inscrever como negros e passar o vexame de ou ver a inscrição negada ou, pior, ser punidos como fraudadores. Devem estar optando pela cota mais segura, aquela que está isenta de qualquer tribunal racial, a cota para alunos de escolas públicas”.

(De novo as expressões ‘miscigenados‘ e ‘pardos de várias tonalidades‘ são usadas de forma capciosa. As expressões, maquiavélicas (‘divide et impera‘) a mais não poder, admitem a existência de ‘pardos’ – ‘mestiços‘ – novamente com a nítida intenção de reduzir – ou mesmo anular, extinguir – a existência de negros, excluindo desta forma furtiva, a possibilidade de se alegar a existência de racismo no Brasil.

O aspecto mais frágil da argumentação do autor, contudo é que ele não explica que apenas aqueles que alegam ser pardos, mas têm inegavelmente a aparência de brancos– que se supõe ser um número mínimo de pessoas – são os que têm medo de passar por fraudadores no sistema de cotas.

A questão é obviamente ética. É o ônus que devem pagar aqueles que, mesmo nunca tendo sido considerados negros, estão tentando tirar partido de uma situação se valendo do fato dela ser, naturalmente ambígua.

Como o critério do racismo à brasileira, como já se disse acima, é sempre a aparência, supõe-se que, do ponto de vista da lei das cotas, este contingente precise ser tratado como um caso à parte, um caso omisso, com implicações éticas e jurídicas que não podem, de modo algum, ser consideradas uma falha importante do sistema já que, mesmo juridicamente, toda regra tem exceção.)

e com a platéia já meio que bocejando segue Ali impassível :


Sofisma número 05:

“Mas o trágico é que em ambas o índice de reprovação é altíssimo: 35%, na cota para negros, e 39%, na cota para alunos da rede pública. Um sinal óbvio de que o problema reside no péssimo ensino que nossas escolas dão aos seus alunos, os filhos pobres do país. Uma tragédia”

(Como já se afirmou acima – e como o próprio autor, em suas próprias entrelinhas admite – os ‘filhos pobres do Brasil’, em sua esmagadora maioria, não são ‘brancos’. São tecnicamente tratados, discriminados e excluídos dos processos educacionais – entre outros processos – por não serem brancos, sendo, portanto simbolicamente ‘negros’ – mesmo se sabendo que a afirmação, usada de maneira política, não possui base científica alguma (não existem raças, cientificamente, mas todo mundo que não é cínico sabe que existe racismo no Brasil e raças inventadas para justificá-lo).

“Diante desses números, só há uma conclusão possível: as universidades só estarão coalhadas de alunos de todas as cores quando o nosso ensino público for de qualidade”.

(A afirmação parte do princípio de que o ensino das escolas privadas – ou dos cursinhos pré vestibulares – tem qualidade per si. Esta qualidade, contudo, excetuando algumas poucas escolas da alta classe média branca, de elite, portanto, não está devidamente atestada já que o acesso à universidade ainda se dá por intermédio de um sistema de avaliação muito questionável, no que diz respeito ao nível de capacitação do candidato. Há que se atestar também a qualidade da universidade brasileira em relação a de outros países para se ter uma justa medida de valor do sistema e da eficiência de seus mecanismos de acesso. )

...Só quando galinha criar dentes…

Sofisma número 06:

“Hoje, segundo dados oficiais, 75% das escolas de ensino fundamental no Brasil não têm sequer biblioteca, 91% não têm laboratório de ciências, 80% não têm sala de vídeo, 62% não têm computadores, 83% não têm laboratório de informática e 80% não têm acesso à internet. Não há uma só reportagem feita em uma escola pública típica, seja de cidade grande, pequena ou média, de área urbana ou de interior, em que o quadro não se repita: prédios caindo aos pedaços, livros didáticos de baixíssima qualidade, professores mal remunerados e mal preparados. Enquanto esse quadro persistir, os pobres brasileiros continuarão barrados às portas das universidades, mesmo daquelas que tentaram o atalho fácil das cotas. Haverá menos inscritos do que vagas oferecidas, e a reprovação continuará a ser grande”

(A constatação do autor ‘chove no molhado‘. Como todo mundo está cansado de saber a péssima qualidade da escola pública do Brasil atinge em cheio os pobres do país. O que o autor, estranhamente insiste em negar é que no Brasil a grande maioria dos ‘negros’ é pobre, ou seja, está sendo ainda excluída dos processos de evolução e promoção social, mais intensamente do que a parcela dos pobres em geral, por ser descendente de escravos que, como todo mundo também sabe, foram largados à margem da sociedade brasileira com a abolição (como se pode constatar facilmente, uma ínfima porção de pessoas reconhecidamente ‘brancas’ é realmente pobre no país).

Como convém ressaltar, historicamente este procedimento excludente tem sido usado de forma renitente pela elite beneficiária da situação – que decidiu manter o sistema vigente até hoje, reservando aos filhos, netos e bisnetos daquela gente escrava este mesmo hediondo lugar na sociedade, na mesma medida em que reserva (num evidente sistema de cotas ao contrário) os melhores lugares da sociedade para os seus (inclusive aqueles financiados com dinheiro público – como ainda ocorre no caso das universidades estaduais e federais.

É isto que precisa ser reparado já (como se faz em qualquer sociedade democrática e civilizada) com medidas e ações afirmativas e reparadoras. É esta a verdadeira natureza da proposta de cotas raciais no Brasil. Igualdade de oportunidades para todos de algum modo que não seja tardio, com métodos que não sejam meros sofismas protelatórios como os propostos, tão genericamente pelo autor.

Ou bem adotamos cotas para ‘negros’ ou abolimos as cotas para ‘brancos’. Tanto faz. Negando todos os sofismas do autor, deveríamos afirmar: Sim, somos racistas. Ponto. A questão nova deveria ser: Quando e como vamos deixar de sê-lo?)

Seria o fundamentalista ‘anti-racialismo’ de Ali uma espécie de… Neo racismo? Senão vejamos:

“Não vê quem não quer. E quem não quer ver são os racialistas, aqueles que querem transformar a nossa sociedade miscigenada numa nação racialmente dividida a fórceps entre negros e brancos. Em vez de analisarem os números e admitirem que é a pobreza, muito mais do que o racismo, a responsável pela falta de acesso de negros às universidades, preferem escrever manifestos em que repetem os mesmos falsos argumentos estatísticos de sempre. Desfiam uma série de números mostrando que negros e pardos encontram-se em situação pior, na média, do que os brancos, mas omitem que as estatísticas não permitem deduzir que isso seja fruto de racismo. É fruto da pobreza. O estudo da Uerj é apenas uma prova a mais, dentre muitas. A sanha racialista é de tal ordem que o Ipea chega a divulgar com pompa e orgulho que, este ano, os negros serão maioria entre os brasileiros. Nada contra, se fosse verdade. Não é. O que os dados do IBGE mostram inequivocamente é que o Brasil caminha para ser a maior nação mestiça do mundo. É isto o que temos de comemorar, é a prova mais evidente de que, no Brasil, não existem grupos estanques, todos se misturam”. É a nossa novidade diante do mundo, contra a qual lutam os racialistas”.

(O fim da argumentação constrangedora do autor é voltado para a enfatização do sofisma-chave de seu discurso ideológico: O Elogio à mestiçagem, a eufemística tese da Democracia Racial tão caquética e arcaica quanto desmoralizada em sua impropriedade, atestada pela simples observação dos fatos de nosso selvagem cotidiano e por sua evidente finalidade (desde Graça Aranha até Gilberto Freire) de servir de pretexto político para manter, ad infinitun, as coisas como estão na sociedade brasileira que, todo mundo também já deve saber, é uma das mais desiguais do planeta.

Ou não?

Até aí tudo poderia se resumir a um simples debate entre opiniões eventualmente divergentes, mas há de se considerar que no caso do jornalista existe um componente inaceitável – e pouco ético, na verdade – que é o fato dele, no ensejo de ocupar a sua triste tribuna, se valer da privilegiada posição que ocupa a frente dos maiores veículos de comunicação do país, contaminando todo o noticiário com editoriais e matérias em nome de sua estranha campanha contra ações afirmativas para negros no Brasil.

Não nos parece sério negar – ainda mais assim com argumentos tão ultrapassados – a existência no Brasil de procedimentos sociais exercidos por uma elite autodeclarada, caracterizados pela adoção de mecanismos de exclusão de certos grupos sociais sob a suposta – e oportunista – alegação de que estes pertencem a uma raça inferior (traduzindo : Racismo).

Menos sério ainda é fazer isto por meio de um arrazoado teórico tão primário, contraditório e desprovido de consistência.

A julgar por este seu tom de cruzada militante – e ao que parece pessoal – movimentando forças formadoras de opinião tão poderosas quanto as Organizações Globo, especificamente contra negros e pardos, talvez se devesse traduzir o suposto anti-racialismo do autor como sendo uma atitude meramente… racista (ou… neo racista talvez). Uma espécie de anti- abolicionismo tardio, como eu mesmo já disse em certa ocasião.

—————

Informando para quem ainda não sabe:

ALI KAMEL se declara apenas jornalista, mas, além disto, é o Editor Chefe do jornal impresso O Globo, de onde dispara editoriais – obviamente apócrifos – contra as cotas para negros e Editor Executivo do Jornal Nacional e de todos os telejornais da TV Globo, de onde pauta – e endossa – matérias do mesmo modo tendenciosas e opinativas contra ações afirmativas para negros no Brasil. Quem decide, portanto quais, como e quando opiniões favoráveis às cotas raciais serão publicadas nestes grandes veículos, é ele mesmo: Ali Kamel.)

Ou seja: É o camelo que passou pelo buraco da agulha, e está, injustamente com toda a banca no reino dos céus.

Mas não há de ser nada:

_Alah u Akbar!

Spírito Santo
Junho 2009

Faca de Ponta

•Maio 21, 2009 • Deixe um comentário

Jaqueta Capoeira
A tradição e a Capoeira retrucadas

“… Riachão said:
I do not deal with unknown negger
I do not know if it is a slave
come here to escape.. ”

Relendo o interessante post deste link me deu vontade de fazer este longo comentário dizendo que, realmente o alegado fenômeno da ‘tradição inventada’ levemente abordado no post a propósito de uma conversa sobre Capoeira, é bastante atual e recorrente, mas talvez esteja ainda incompletamente conceituado ali.

Posso começar sugerindo que, para ser necessário se ‘re-tradicionalizar’ algo, é necessário primeiro se reconhecer que este algo, antes reconhecido como tradicional, foi ‘des-tradicionalizado’ (por um processo que não vem ao caso se foi natural ou artificial) ou seja, foi de algum modo ‘conspurcado‘ (no dizer dos tradicionalistas mais radicais).

É lógico que não se recondiciona algo que não foi descondicionado.

Entender, portanto como esta coisa (uma manifestação cultural, no caso) era originalmente, torna-se imperativo para que se possa propor – ou criticar – a sua eventual ‘re-tradicionalização‘.

Complicado, concordo (embora a culpa não seja exatamente minha) mas sugiro que é por aí.

Fenômeno antropologicamente muito complexo, estas intenções de ‘retradicionalização‘ são controversas e ambíguas a mais não poder. Não é com uma leitura rápida de um ou outro Hobsbawm da vida que se conseguirá explicá-las ou justificá-las a contento.

É evidente que muitas destas distorções intencionais ou circunstanciais (‘tradições inventadas’), são muitas vezes honestas – e ingênuas em certos casos – mas podem ser também – e não raro o são – espertas e deliberadamente mal intencionadas (oportunistas para se dizer em português mais claro).

Logo, desqualificar o crítico chamando-o de ‘tradicionalista’ ressentido não é uma argumento suficiente ou convincente nestes casos. É o mesmo que, diante da má notícia, fuzilar o mensageiro.

Outro aspecto relevante é que esta ‘re-tradicionalização’ alegada, não pode ser definida, assim tão grosso modo como um processo de ‘invenção de tradições’.

Nestes processos ditos de ‘re-tradicionalização‘, tanto podem existir procedimentos de ‘resgate’ de antigas tradições, ‘autênticas’, realmente existentes no passado (redescobertas por alguma pesquisa) quanto tradições, efetivamente ‘inventadas’, meras mistificações criadas com o propósito claro e determinado de iludir os incautos, novos adeptos ou expectadores, admiradores de algo que não conhecem muito bem, vistos aqui como clientes de interesses comerciais e pecuniários em potencial (ou seja, ‘otários’ no bom linguajar capoeirístico do início do século 20).

É a velha armadilha para turistas, o chamadoFolclore para inglês ver‘.

É neste contexto amplo – olhando igualmente para os dois lados da moeda – que a questão da Capoeira precisa ser analisada. É muito evidente que a polêmica que envolve as duas correntes da Capoeira brasileira hoje, não se resume apenas a um embate ‘oligofrênico‘ entre ‘heróicos’ universalistas que espalham ‘galhardamente’ a Capoeira pelo mundo afora e vetustos tradicionalistas reacionários, aferrados a velhas e superadas tradições supostamente africanas.

Esta história é velha e se repete como farsa. Vem do tempo em que a Capoeira era sinônimo de rebelião, de organizações criminosas formadas por escravos ‘de-ganho’ e escravos fugidos (‘crime negro organizado’) e nem dança tinha.

O conflito era entre os ‘Nagoas‘ (negros africanos, habitantes do perímetro da Corte, até o bairro da Glória) e os ‘Gauiamuns‘ (negros ‘crioulos‘ – nascidos no Brasil – e mulatos habitantes da periferia, depois do Campo de Santanna e as adjacências do que é hoje a Praça Onze)

Para quem se liga no tema, recomendo a leitura dos livros sensacionais de Carlos Eugênio Líbano Soares: Negregada instituição‘ e ‘Capoeira Escrava.

“…Em seu livro A Identidade Cultural na Pós-modernidade (2002) Stuart Hall, destacado teórico do campo dos Estudos Culturais, argumenta que as culturas nacionais são compostas não apenas de instituições culturais, mas também de símbolos e representações. Uma cultura nacional é um discurso – um modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos, e, em conseqüência, as concepções que outras culturas têm da nossa. As culturas nacionais, ao produzir sentidos sobre “a nação”, sentidos com os quais podemos nos identificar, constroem identidades.”

(Sandra Rúbia da Silva (neste link na íntegra) “Redescobrindo o Brasil com Olhos Estrangeiros: a construção discursiva da identidade nacional brasileira na internet

A maioria finge que não vê, mas, existe sim hoje (e a este tema tenho me dedicado com muita frequência aqui mesmo neste site) um surdo conflito sócio cultural instalado no Brasil, envolvendo manifestações tradicionais de todos os tipos, entre elas o Jongo, o Maracatu e, com toda certeza a Capoeira, caracterizado pela utilização da prática da tradição inventada (conceituada sob os eufemismos os mais diversos, tais como a ‘resignificação’, por exemplo) como tática de ocupação de espaços de representação e de visibilidade social, notadamente após o surgimento de canais de patrocínio institucional.

Logo, existe no bojo desta discussão a ‘Tradição Inventada’, instancia legítima do resgate de valores sócio culturais extintos (ou em processo de extinção) por interesses de resgate da cidadania, de reencontro de elementos da auto estima perdida, do espírito de coesão de um grupo social e até da busca da modernidade legítima, etc. mas há também a ‘Tradição Inventada lado B, com outro sentido e outros interesses, como, por exemplo, um grupo social tirando partido de uma situação – como o aventureiro da história, aquele que ‘lança mão’.

(Aliás, já disse aqui varias vezes que esta é uma prática ideológica muito aplicada – e com aguda perspicácia – por nossa elite moderninha, exímia – e cínica – predadora social).

Pois bem, estes aspectos precisam ser do mesmo modo, convidados á entrar na roda, para serem esmiuçados, explicitados enfim.

Não devemos nos esquecer que Cultura é sobretudo Ética, modo de se proceder em sociedade, voltado para um fim que pode ser, bom ou ruim, honesto ou desonesto, dependendo do ponto de vista deste ou daquele grupo social e de seus respectivos interesses.

O Brasil convenhamos, não é esta gracinha de paz e amor entre uns e outros que certos otimistas renitentes insistem em apregoar. Aqui não há chapéuzinho vermelho nem vovózinha. É lobo engolindo lobo, sempre, vamos combinar.

Bucolismo de vaquinha pastando ao sol aqui só como comédia sarcástica. Conflito, ‘política o tempo inteiro’ é o que é a cultura de nós todos, seres em contínua mutação (e múltiplos interesses) aqui neste ex-país do carnaval.

“…”Hey .. I want to surrender
Hey, I want to surrender, Camará

Hey, knife-edge
Hey, knife-edge, Camará!

Knife to pierce
Hey, knife for drilling, Camará!”

Este embate falso entre modernidade e tradicionalidade encerra também um importante problema: Estar aferrado apenas às estáticas práticas e formas (‘estéticas’) de uma manifestação, amarrado cegamente às tradições (no sentido vulgar da palavra) não tem nada a ver com Tradição no sentido estrito da palavra.

Tradição é uma instancia cultural que pressupõe dinâmica, evolução a partir de algumas premissas básicas (um ‘DNA’, um ‘ethos’). Ou seja: ser um adepto da tradição e ser adepto da modernidade não é exatamente uma contradição em si.

Pensando grande, a rigor estas premissas básicas que definem o conceito tradição, estão ligadas, como já disse, a uma Ética, a um sentido de Moral, a uma Ideologia, enfim.

A manifestação em questão – a Capoeira – é tradição cultural no sentido de que é um conjunto de saberes e modos de ver o mundo (em constante mutação, é claro) portados por um grupo, um povo e a ele dizendo respeito, particularmente, caracterizando-o, dando-lhe identidade, originalidade em relação aos outros, em suma.

É como diz, num dos seus muitos sentidos, aquele chavão maravilhoso: ‘Minha pátria é minha língua’.

(Remember neste parêntese o falecido latim berrado por um centurião doido daqueles, na hora de espetar a lança no peito arfante de Jesus Cristo. Quem mais aqui, por menos moderninho que queira parecer, hoje ousa o ‘mico’ de berrar algo em latim? Morto e enterrado ali jaz o latim, como alguém já disse, o inglês falecido de amanhã.)

São estes conceitos que corroboram a afirmação líquida e certa de que – nos permitam insistir – tradicionalidade não é de modo algum sinônimo de arcaismo ou conservadorismo, muito pelo contrário.

A este respeito obrigo-me a chamar a atenção para o equívoco e o absurdo de certas conclusões a que se chega no Brasil, acerca do pensamento de autores como Eric Hobsbawm, Fernando Ortiz e Stuart Hall, entre outros, leituras ora apressadas (e, por esta razão básica, incapazes de relativizar conceitos tão abrangentes) ora mal intencionadas mesmo, como algumas muito em voga no Brasil que parecem visar, de forma alienada, desconstruir a idéia de Cultura Nacional, tachando de ‘essencialistas‘, ‘tradicionalistas‘, ‘puristas‘, ‘conservadores‘ e outros epítetos desclassificantes, todos aqueles que divergem de seus pontos de vista mal alinhavados, supostamente ‘avançados’ e ‘pós modernistas’.

Logo, antes de, simplesmente desqualificarmos o pensamento dos mestres de capoeira ditos ‘tradicionalistas oligofrênicos’ (embora alguns, com efeito, o sejam mesmo) críticos ressentidos deste surto universalista da Capoeira globalizada, é preciso responder a perguntas-chave para se assumir uma opinião mais fundamentada a respeito.

As respostas a estas perguntas-chave deveriam esclarecer, por exemplo, se esta ‘Nova Capoeira‘ re-tradicionalizada’ não estaria em nome da sua desenfreada ‘universalização’, inventando ,não uma manifestação avançada, mas apenas mais adaptada, melhor adequada a um outro grupo social (e neste caso expondo seus eventuais interesses sócio econômicos) desqualificando todos os outros sentidos da Capoeira dita original (tachados de tradições radicais ultrapassadas) por mero interesse comercial.

Esta ‘Nova Capoeira’ ‘retradicionalizada’ não estaria se utilizando destes argumentos supostamente hobsbawnianos para no ensejo – o que seria aí sim, condenável – excluir da roda como óbvios estorvos, os adeptos e participantes da Capoeira ‘tradicionalista’?

Quem quer saber?

————-

Assisti há poucos anos um festival internacional de capoeira da grande corrente Abadá na Fundição Progresso, na Lapa (grande point ‘moderninho’ do Rio de Janeiro).

Eram milhares de participantes, de todas as partes do mundo. Fiquei honestamente bestificado, não só com a dimensão planetária do evento quanto com um fato, muito surpreendente que narro aqui só para a gente refletir e sem nenhum juízo de valor.

Eram inúmeros os work shops que rolavam, concomitantemente em toda a extensão daquele imenso armazem cultural. Estandes e mais estandes comercializando toda espécie de produtos relacionados à prática da capoeira, calças brancas, camisetas, cordas de graduação, caxixis, berimbaus, atabaques (alguns muito ornamentados, reinventados, fashions mesmo, por sinal), muitos dólares e euros circulando, a som de frenético de muitas chulas clássicas e centenas de berimbaus ‘tradicionais’ tudo, devidamente globalizado.

Tomara que ninguém aqui vá simplificar ou desqualificar esta minha conversa me reduzindo a um mero racialista ressentido, mas confesso que me chamou bastante a atenção a significativa ausência de capoeiristas negros (não só brasileiros, mas também africanos, já que era um evento internacional).

Havia uns gatos pingados negros sim, claro, mas se preciso insistir no que estou querendo dizer, permitam-me indagar: Perguntar ofende?

Não é esquisito numa manifestação cultural criada por escravos africanos, no justo momento em que obtém acachapante sucesso internacional, deixar de conter, exatamente, indivíduos negros (pelo menos na proporção que a lógica sócio cultural do Brasil sugeriria)?

A resposta ‘hobsbawniana’ poderia ser que a obrigatoriedade da presença de negros na Capoeira é um ponto de vista arcaico… essencialista, algo como:

“…Hall (Stuart, em 2002) preconiza que a identidade nacional é também muitas vezes simbolicamente baseada na idéia de um povo ou folk puro, original. Mas, observa Hall, nas realidades do desenvolvimento nacional, é raramente esse povo (folk) primordial que persiste ou que exercita o poder. Novamente aproximamo-nos aqui da idéia de uma identidade nacional essencialista.”
(texto de Sandra Rúbia da Silva, citado)

Certo! Brancos também podem – e devem – praticar Capoeira. Mas falta alguma coisa nesta análise: Teriam os negros do Brasil se des-tradicionalizado tanto a ponto de terem excluído, a si mesmos deste contexto cultural que lhes era tão apropriado e peculiar?

Será que teremos que um dia inserir num Estatuto da Igualdade Racial um artigo prevendo cotas para negros… nas rodas de Capoeira?

Ou será que, por força da natureza desta Nova Capoeira, do radical processo de ‘des-tradicionalização’ empreendido por estes neo-mestres ‘anti-oligofrênicos’, teriam sido os negros da prática excluídos, nestes novos contextos globalizados, ficando restritos aos cafundós da invisibilidade da roça ‘essencial’?

De orelha em pé, ainda por ocasião deste festival, encontrei lá para as tantas num boteco da Lapa o vetusto grande Mestre Vieira, meu amigo há quinhentos anos (criador do Gupo Aidê de Capoeira), que havia presenciado em seus tempos de glória, como um dos principais protagonistas, o momento crucial em que a Capoeira carioca se cindiu – como vimos pela segunda vez em sua história – em dois grupos opostos e inconciliáveis.

(Como diz uma das versões da crônica – quem souber que conte outra- o hegemônico e seminal grupo de Capoeira Senzala, numa divergência histórica, dividiu-se em duas facções: Uma integrada por Mestre Boneco e Mestre Paulinho Sabiá manteve-se unido, criando depois um grande grupo secundário denominado Capoeira Brasil. O outro, liderado por Mestre Camisa, criou o afamado e globalizado Grupo Abadá).

Mestre Vieira (membro histórico do Senzala original), que não tinha podido entrar no evento da Fundição Progresso por falta de credencial ou grana para o ingresso, tão assustado quanto eu com a quantidade de gringos, suecos, americanos, holandeses etc. ali visíveis, espalhados pelo espaço e pelas sacadas, me contou um diálogo que teria sido travado outrora entre ele e um dos seus parceiros de capoeiragem conhecido na ocasião como Contra mestre Camisa (sim, ele mesmo, o Mestre Camisa véio de guerra, hoje um dos maiores – se não o maior – responsável deste fenômeno que é a internacionalização da Capoeira)

O diálogo é emblemático:

Mestre Vieira (afirmando, orgulhosamente a sua ligação ideológica com a Capoeira):

_ “Você precisa saber que eu vivo para a Capoeira!

Camisa, pragmático, retrucando:

_ “Pois é. Azar o seu porque eu vivo da Capoeira!

(Pano rápido)

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Na noite de anteontem, por obra pura do caso, estive numa festa tradicional fantástica na roça mais profunda do interior do Rio de Janeiro (Vassouras). No programa Jongo, Maculelê e…Capoeira.

Na hora da roda de Capoeira (veja as fotos que ilustram esta matéria) a ambiguidade maravilhosa deste assunto esbarrou em mim mais uma vez:

Saracoteando no mais barrento e poeirento dos terreiros desta cidade da roça, primeiro as elétricas faíscas de um Maculelê de Facão e depois uma efervescente roda de Capoeira, destas à vera, com um grupo destes de negão mesmo, comandado por um mestre cujo nome definia bem a figura: Mestre Sombra.

Enquanto pulavam seus aús, pude perceber intrigado que os membros do grupo exibiam nas camisetas o dístico: “Grupo Abadá de Capoeira”, inscrito como sabem todos com alguma familiaridade com o assunto, numa logomarca com o globo terrestre estilizado.

Cultura, gente, é ambiguidade e política pura, o tempo inteiro. Não existe povo ignorante e tolo (embora exista elite ignorante esperta).

Talvez fosse o caso de lermos o Hobsbawm e estes outros teóricos da cultura citados aqui com mais distanciamento e, principalmente, senso crítico.

Como diz a chula clássica, a faca é de ponta mas tem dois gumes.

“…Riachão arrespondeu:
Eu num canto cum nêgo descunhecido
Que eu num sei se é escravo
Oi que anda aqui fugido”

Êh quer me render
Êh, qué me render Camará

Êh faca de ponta

Eh faca de ponta, Camará!

Faca de furar
Êh faca de furar, Camará!

Êh dá a volta ao mundo
Êh volta ao mundo, Camará”
Êh que o mundo dá’
Êh que o munda dá, Camaráááá!”

(chula de capoeira da Bahia- século 19 - Sorry but, a translate lá em cima é do Zé Google mesmo, com a modesta corretion do nobre writer aqui presente)

Spírito Santo
Maio 2009

THE ALZHEIMER DAY

•Maio 14, 2009 • Deixe um comentário

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Il Grande Dimenticare

Acordei no que parecia ser uma cidadezinha do interior. Havia um sol morno fazendo brilhar a grama cor de verde-novo, chovera a pouco e era de tardezinha. Estranho… Não conseguia atinar como é que eu havia ido parar ali?

Ouvia bem longe um relincho de um cavalo afoito, histérico. Um relincho incomum demais para um cavalo ao sol. Seguindo o relincho logo divisei já na risca do horizonte, um homem magricela, se abaixando e levantando do chão, ocupado na faina de plantar ou colher algo. Não dava bem para saber ao certo o que. Olhando melhor a cena, percebi que vez por outra, o homem espantava o cavalo de perto de si, como se o animal estivesse querendo também, ardentemente, aquilo que ele plantava… ou colhia, não conseguia ainda perceber o que.

Foi quando o vento, mudando de direção me trouxe aquele cheiro nauseabundo de coisa morta, um cheiro insuportável de carne podre ou algo assim. O homem cavava e enterrava algo, era isto. Um bicho morto, concluí ainda intrigado. Com repulsa saí dali, tapando as narinas, afastando os olhos da cena e olhando para trás.

Atrás havia logo adiante uma casinha modesta, toda de adobe mal socado, com jeito de bem antigo. A casa estava um pouco destelhada e com um ar de abandonada há anos. Porta esbodegada, tombada para um lado, presa por uma única dobradiça, como um baú velho saqueado e abandonado por um ladrão decepcionado com o nada que havia dentro para ele roubar.

Incrível. Não conseguia mesmo atinar. Como é que eu havia ido parar ali? O pior é que isto eu jamais saberia por que, de repente acordei, completamente e me dei conta de que toda a bucólica paisagem da roça havia desaparecido, se desvanecido como por encanto, como se alguém tivesse mudado o canal da TV.

E foi daí que, aparvalhando-me mais ainda com a nova cena, ouvi aquele som sujo, um ruído, um chiado intermitente, um barulho familiar enfim. Incomodado, me dispus a acordar pulando da cama.

O que aconteceu? Onde estou? Quem sou eu? Que barulho seria este?

Olhos embaçados e um calafrio esquisito cortando o corpo, feito um choque elétrico fraquinho.

Claro! É que chovia muito. Dava pra ouvir aquilo que, mesmo sendo ainda indefinível para mim, evocava uma sensação assim-assim de coisa úmida, molhada, que logo associei à chuva. Sim, claro! Ainda sabia o que era aquilo. Uma enxurrada fustigando as paredes do prédio, uma lata velha largada sob uma grossa goteira, ou um teto de zinco chicoteado pelo vento. Isto! Feito uma cachoeirinha, um som de leve tempestade, isto! O zinco oxidado batido por lufadas de chuva. Ai que alívio! Ainda conseguia saber claramente o que era aquilo. Quase podia ver.

Um aliviozinho qualquer como estas furtivas lembranças valia ouro naquela altura dos acontecimentos. Tempos estranhos aqueles: A era do Alzheimer Day, o apagão geral das mentes, sensação igualzinha à daquelas vezes em que meu Dispositivo Pessoal de Raciocínio Virtual – a bem da verdade já meio superado – rateou rateou até pifar de vez.

Desesperador. Fiquei catatônico por vários dias. Sonado, abestalhado como um boxer que teve o cérebro sacudido na caixa craniana a vida inteira por milhares de upercuts, sparring do tempo e de si mesmo, se abobalhando. Fiz uma atualização do surrado DPRV sim, claro, mas sabem como é: Estas coisas recauchutadas…Ele voltou meio barro meio tijolo, como se diz, meia bomba.

Vez por outra eu não conseguia nem mesmo saber direito o que estava ouvindo, vendo, sentindo. Uma sensação terrível de desamparo, um desassossego só.

O terapeuta me disse na ocasião que o que eu sentia era idêntico ao que uma velhinha com mal de Alzheimer sofria, os neurônios se apagando um a um, num blackout seletivo, um córtex de cada vez. Sabem como é? Uma Las Vegas noturna sobrevoada por discos voadores, as luzes se apagando cassino a cassino, como naqueles filmes de Sci Fi de séculos atrás

(Discos voadores? Como assim, discos voando? Às vezes custo a me lembrar o que isto quer dizer).

Isto mesmo. A mente rateava da mesma forma como a das velhinhas só que, desta vez, não era só comigo. Viráramos todos velhinhas com Alzheimer numa pandemia de esquecimentos. Pelo menos era isto que diziam os mais safos, os que ainda conseguiam se lembrar do sentido de coisas assim tão complexas, conceitos tão abrangentes, descritivos deste sofrimento tão surpreendemente coletivo que era aquele apagão das mentes.

O que ocorreu só fomos entender mais de 10 anos depois, quando tudo se normalizou e assumimos a forma de inteligência que temos hoje, nem de longe parecida com a aguda perspicácia elétrica que tínhamos no passado, em meados do século 22 por aí, antes do Alzheimer Day.

Maravilhosos. Ultra civilizados. Super poderosos. Seres geniais e perfeitos o que éramos todos nós antes do acidente. As limitações intelectuais de alguns, dos mal educados, haviam sido suprimidas, quase que completamente banidas da população.

Inacreditável, mas, foi assim:

O estupendo grau de evolução tecnológica que atingimos permitiu que todo o conhecimento humano fosse transferido, gradualmente, para espaços virtuais de compartilhamento de dados, espécies de sites ‘de relacionamento‘, como se dizia antigamente. Não era de modo algum uma opção, meramente hedonista de nossa civilização. Era uma condição compulsória e imperativa de nossa evolução. O artificialismo total, a automatização absoluta de nossas maneiras de ser e viver em nome do bem estar, da felicidade geral da nação, de todas as nações: “It’s wonderful world”.

E esta era a mais pura das verdades – por mais absurda que pudesse parecer.

Estes espaços virtuais de compartilhamento de dados, estes sites antes ditos… ‘colaborativos‘, atraentes chamarizes de perfis e personalidades reais ou inventadas, passaram a acumular e guardar toda espécie de conteúdo (tudo que antes guardávamos em nossos cérebros primitivos), anseios, desejos, taras inconfessáveis, disponibilizando, a quem quer que seja rigorosamente tudo de bom ou de ruim que uma mente humana pudesse conter. A Droga Final, disseram os céticos apocalípticos.

Guardávamos aí, nestes espaços virtuais um pouco buracos negros, meio que armários guarda-volumes de aeroporto, inclusive os mais simples comandos e mecanismos de inteligência necessários a algumas de nossas ações mais triviais e cotidianas, tais como pensar e até mesmo amar, por exemplo.

Acumulávamos aí e assim – e intercambiávamos uns com os outros – até mesmo as mais falsas projeções que fazíamos de nós mesmos, personas mentidas, meras pavoneações de nossa alma ideal, projeções viciantes de como gostaríamos de ser vistos, que após certo tempo, confundiam-se com aquilo que realmente éramos, criando agora em muitos de nós, problemas de identidade muito próximos de uma psicopatia não diagnosticável, uma espécie de esquizofrenia virtual, absurda, irreal, que era como os psicólogos da época descreviam estas nossas novas maneiras de ser.

Rigorosamente toda a nossa memória enfim (exceto aquela utilizada para atos mecânicos como andar e comer), passou a ficar hospedada em HDs de supercomputadores gigantescos, depois que todas as mídias físicas foram sendo abandonadas por se tornarem antiquadas, anacrônicas e obsoletas e, principalmente, descartáveis em sua precária confiabilidade.

A fantástica evolução que representou passarmos a ter, rigorosamente tudo de nossas frágeis mentes guardado nestes supercomputadores, por sua vez, numa evolução natural da virtualidade quase total em que se transformou a vida humana, logo nos encaminhou para a criação de uma só grande máquina, capaz de centralizar os dados de todas as mentes do mundo

Praticamente todo o pensamento humano passou a estar, umbelicalmente armazenado num gigantesco computador Provedor Universal, instalado na superfície da Lua, após a lenta maturação de um projeto multinacional que durou quase 50 anos para ser enfim, concluído no ano de 2398.

O lúgubre Deus virtual, batizado por seu inventor Joseph Von Spitzheim-Siegl com o nome de Home Welt Herzzentrum‘ (HWH), foi talvez o passo mais fabuloso – tanto quanto o mais estúpido – dado pela humanidade em todos os tempos, em prol de sua exclusiva e egoísta evolução.

HWH: Cabeça da grande rede da velha WWW que, acéfala como uma hidra mitológica no século 21, assumia agora a forma de um grande polvo adormecido, sabe-se lá por que razões ou intenções sugerindo perigos, como um perverso vilão enrustido.

E foi assim que, neste dia o mal também projetado sobreveio enfim.

————–

Um risco cadente cortando o negror do espaço. Um clarão de estilhaços brancos, como um espirro de cacos explodidos de um bloco de gelo golpeado por um furador. Foi assim que alguns poucos descreveram o que viram naquela noite. Eles, os mesmos vadios de sempre que, sabe-se lá porque arcaicos instintos estavam, sentimentalmente com os olhos voltados para a Lua naquele instante.

Eu não. Coisa alguma vi naquele torpor em que me encontrava, pobre de mim, com o meu DPRV rateando. Só senti mesmo o susto de um pensamento bom que se apagou de súbito. No visor lateral dos meus óculos de grau a tela azul piscava o aviso de uma failure desconhecida, antes da janela secundária da tela se abrir com a notícia alarmante:

“FATAL ERROR!”

Provedor HWH inoperante. Por favor, teclar F7 para acessar provedor alternativo de emergência de sua região ou teclar ESC para sair”

O Provedor Alternativo era um sistema de emergência online com mensagens de ajuda e notícias curtas, que ficava disponível por algumas poucas horas, até se esgotar sua limitada capacidade de processamento o que, logo pudemos perceber, no caso de um crash universal como aquele, significaria a duração de uns poucos minutos, antes do apagão total se estabelecer. Foi neste serviço de ajuda online (último vínculo que teríamos com algo parecido com uma realidade) que assisti a uma simulação do que ocorreu:

Um asteróide errante, de trajetória não totalmente prevista, havia entrado na órbita da Terra e se chocado com a Lua. O pessoal da base do HWH teve tempo de se afastar da área sinalizada para o choque que foi, em cheio, a central do HWH, O grande domo de aço onde o dispositivo-mãe, núcleo duro da grande máquina, havia sido hermeticamente acondicionado.

Foi assim:

A ‘alma’ do HWH, o local onde o Provedor Universal fora instalado, na vã expectativa de que ali fosse o lugar mais seguro do universo, foi instantaneamente pulverizada pelo impacto.

Conta-se que o prof. Spitzheim-Siegl chorou, copiosamente, durante uma entrevista, como se tivesse perdido o filho mais querido.

As alarmistas notícias repassadas pelo provedor alternativo descreveram o acidente como sendo uma espécie de Alzheimer Day, o dia fatal do apagamento das melhores lembranças da humanidade, bem como aquele terapeuta me havia dito.

O filósofo marx-holista Vitorio Doro Scazambone, crítico contumaz das idéias de Spitzheim-Siegl nos alertara poucos anos antes do que ele chamou de Il Grande Dimenticare, em seu arcaico blog sobre os riscos de não se ter mais nossos cérebros primitivos ativos e bem treinados, sempre disponíveis para esta eventualidade tão previsível quanto inevitável.

“Lo dico e lo dico, con enfasi che molti millenni di formazione primitiva forme di ragionamento, in base alla lenta assimilazione dei concetti stabiliti dalla ripetizione degli errori e successi, i nostri cervelli hanno accumulato un livello di esperienza per la gestione e la cura dell ‘universo, insostituibile. Anche l’imprevedibilità del nostro comportamento, suscettibile di diverse influenze dell’ambiente – che per gli appassionati di virtualità totali è stata la nostra grande colpa – a me, Vitorio Scazanbone sembra essere una ragione divina e insormontabili. “

(Vitorio Doro Scazanbone no artigo “Sotto il rischio di un blackout di mente” publicado em seu blog pessoal em 11 de abril de 2395)

Inútil. Nada do que Scazambone alertara adiantou. Ninguém lhe dera mesmo ouvidos até porque as nossas mentes em poucos decênios de escravidão voluntária, haviam embotado quase por completo, irremediavelmente dependentes que ficaram dos eflúvios do HWH lunar, expressos por periódicas tempestades lunares carregadas de downloads oníricos.

Os ABs (alternativs braims), cérebros humanos alternativos (espécie de PCs minúsculos como chips pós modernos) de altíssima capacidade de armazenamento, passaram a ser implantados então, diretamente em nossas próprias cabeças. ‘Espetados’ como aqueles pendrivers do século 21 em nosso sistema nervoso central, muitas vezes tinham que ser confiscados dos filhos adolescentes por mães briosas, para que estes não se viciassem na rodagem de programas-barbitúricos ou anabolizantes, baixados, facilmente de sites de prazer virtual online.

O fato mais dramático é que estes ABs acabaram por assumir o controle de tudo, inclusive da nossa individualidade. Nossas vontades mais íntimas por conta desta evolução, a partir de certa época passaram a estar, totalmente dependentes de um programa de inteligência artificial denominado Onirix (1.09 em sua versão da época), periódica e automaticamente, atualizado, por meio daqueles longos downloads que rodavam durante o nosso sono, descaradamente disfarçados de sonhos chamados de ‘Marés de barato’.

(Estes sonhos virtuais eram tão lúbricos e eróticos que, não raro, produziam poluções noturnas intensas, tanto em homens quanto em mulheres e eram por esta simples razão, ansiosamente esperados, estimulando o comercio desenfreado – e inutilmente proibido – de drogas voltadas para tornar o mais profundo – e prazeiroso – possível o sono das pessoas.)

Sim, claro. Sabemos que sobraram na Terra, como remotas possibilidades de recuper algo de nossa inteligência original, as velhas mídias do passado. Livros empoeirados, discos de vinil de vetustos colecionadores, CDs meio descascados, pilhas de Ipods danificados, HDs enferrujados, tudo jazendo em velhas oficinas de sucata de material de informática, a maioria amontoada em úmidas salas de museus de mídia, prédios que ninguém visitava mais.

A causa era o alto estágio alcançado pelas avançadíssimas condições que a vida virtual atingira, com tudo, literalmente tudo podendo ser acessado e realizado, vivido mesmo. Esta Vida Virtual podia ser facilmente acessível por meio de algumas rápidas piscadelas de olho (ação que substituiu os clicks de mouse do passado) dirigidas ao nosso Cérebro Total Alternativo, fisicamente separado de nós e guardado num armário remoto qualquer, como uma alma superpoderosa, eternamente jovem, eternamente online.

Como consequência do Apagão o pânico. Ocorria que os poucos técnicos remanescentes que se lembravam ainda de como funcionavam as máquinas pré históricas, capazes de ler aqueles dados remotos, debatiam-se sem sucesso com a incompatibilidade absoluta estabelecida entre elas, as mídias arcaicas, os dados disponíveis, dispersos em suportes incompatíveis, não conseguiam se configurar num sistema operacional que servisse para alguma coisa que não fosse processar informações, absolutamente banais, como ler um romance, por exemplo.

E para que nos serviria afinal ler um romance se nossa inteligência não se desenvolvia mais por meio do impacto e da forte impressão que nos causavam as emoções banais?

Nos transformáramos em seres de aspecto apoplético tanto que, se fôssemos observados por pessoas comuns das eras passadas, não seríamos reconhecidos como humanos, de modo algum, por causa do ar de insanos pálidos, obesos e abestalhados, olhando o nada dentro de nós mesmos como falsos cegos não querendo ver o que, mais cedo ou mais tarde haveria de conosco acontecer. Como de fato aconteceu.

———–

Era por isto que a evocação daquele sonho estranho com o cavalo me angustiava. Um pesadelo aterrorizante era o que parecia. De onde viera aquela cena tão rudimentar e arquetípica?

Se eu, como todos os demais habitantes do planeta não tinha mais memórias a evocar, angústia alguma para sofrer e remoer em pesadelos, se não podia mais acessar a mais prosaica das lembranças tristes ou felizes de meu passado após a explosão lunar que destruiu o HWH, de onde vinham aqueles lapsos de consciencia, aquelas angustiantes mentalizações tão realistas?

De onde vinha o cheiro nauseabundo de carne podre? Como eu poderia reconhecê-lo se o registro dos vapores dele não mais estava em mim?

Naquela mesma noite, ao dormir o que seria mais uma noite sem bons sonhos, trêmulo com a expectativa de sofrer angústia do que julgava ser outro pior pesadelo, me vi novamente dentro da casinha tosca, que agora aquecida pelo fogão de lenha, me parecia, acolhedoramente familiar.

Um chá ralo, muito quente me foi posto á boca e as narinas se arregalaram: Hortelã!

Como assim? Onde estou? Quem sou eu?

O homem magricela – que agora eu percebia ser louro como uma espiga de milho – ainda impregnado daquele cheiro de morte que trouxera lá de fora, me tranquilizou com um olhar sereno, enquanto apontava uma lua que aparecia branca no céu ainda azul:

_” Nada de pioggia domani!

E foi com aquele seu sotaque italiano que ele me contou que a febre me pegara de jeito logo que chegamos ao local. As alucinações tinham sido tão intensas que nos delírios, eu havia molhado várias vezes o lençol estrapeado que ele me dera.

No mesmo dia em que eu adoecera daquela gripe braba, um raio matara um potro bem novinho. A chuvarada durou uns três dias e só agora ele pudera enterrar o bichinho. Como? Quer dizer que aquilo tudo não havia sido sonho nem pesadelo. Uma égua desesperada, achando incompreensível a morte de seu potrinho, fora o que eu vira naquela tarde.

Com a febre indo embora fui me lembrando, lentamente da viagem à roça. O pessoal da equipe tinha ido à cidade comprar querosene e cachaça. Antes de voltar, deram um tempo na venda do local e aproveitaram para dar uma carga nas baterias da câmera já que, mal havia luz elétrica por ali. Voltaram já meio tocados de pinga.

O hortelã do chá que o magricela me dera, aos litros, estava ainda impregnado no meu bigode e eu ansiei também por uns bons goles de pinga com limão. O Hortelã mais a pinga me deram um baita de um suadouro. Ai que alívio!

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Pois foi mesmo assim, mais calado do que de costume, que fiquei ouvindo a entrevista que o magricela continuou a nos conceder, falando sobre seu avô, um anarquista italiano que se escondera por aquelas bandas e construíra aquela casinha no início do século 20, depois de matar um soldado do exército na Revolta da Vacina no Rio de Janeiro. Nome do anarquista carcamano: Vitorio Doro Scazambone.

Mama mia! Pesadelo invertido é fogo.

Só continuo não conseguindo atinar como é que aquelas histórias desvairadas foram parar dentro de minha tão febril cabeça. Malato di mente como diria o magricela, preciso me curar logo deste vício de computador, dar um tempo da internet, esfriar a cabeça, apagar. esquecer.

Una piccola dimenticanza.

Spírito Santo
Maio 2009

O Turista na Armadilha

•Março 25, 2009 • 2 Comentários

Desenho de Johann Moritz Rugendas salpicado de fotos de misses Brasil (uploads revistas ‘O Cruzeiro’ e ‘ Manchete’ dos anos 60)
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Degradação do patrimônio imaterial no Brasil

A prostituição emocional

“… Esta (tribo)… caracterizava- se principalmente pelo fato de seus integrantes não recorrerem a palavras para se comunicarem, mas a sons musicais. Além disso, seu vocabulário estava repleto de denominações para o mal, em todas suas gradações. Destas, a mais apreciada era a “principiada num som grave e atingindo a quinta superior”, que designaria a palavra ‘inimigo’.”

(Makunaima e Macunaíma. Entre a natureza e a história’- Daniel Faria/Unicamp)

Mário de Andrade naquele divertido – e sarcástico – diálogo intelectual que gostava de estabelecer entre arte e cultura, inventou certa vez este falso grupo étnico indígena aí de cima (que teria sido encontrado por ele nas margens de um rio amazônico, durante uma viagem etnológica real) inventando uma série de hábitos e costumes assaz exóticos – como seria de se esperar de um grupo indígena desconhecido – entre os quais uma língua esquisita baseada, exclusivamente em três fonemas ou frequências musicais. Os arredios figuraças eram os índios ‘Dó-Mi-Sol’.

A história está aí, para quem quiser ler no sensacional livro ‘O Turista Aprendiz‘.

Hilário ainda hoje, não é mesmo? Mas que graça a gente acharia se isto tivesse sido escrito para parecer um fato, ou seja, se o esperto Mário estivesse tentando mesmo, macunaimicamente nos convencer de que aquela tribo era real, verdade verdadeira, sem tirar nem por?

Vocês podem achar uma ‘cascata’ inacreditável (e nem vou recriminá-los por isto), mas juro que vi uma vez na TV (no Discovery Channel, acho, não me lembro quando) uma história bem parecida com esta, só que verídica, descrevendo uma tribo de curiosíssimos hábitos, que havia sido descoberta por um antropólogo gringo na polinésia (ou num outro cantão desses aí, nas imensidões do oceano pacífico).

Publicada nos anais acadêmicos na época e atestada a ‘autenticidade’ da descoberta, anos depois um repórter ou outro antropólogo (tem sempre um chato de galochas nestas histórias) resolveu verificar as quantas andava o processo evolutivo daquela curiosa tribo. E qual não foi a sua surpresa quando descobriu que a tal tribo… jamais existira.

No duro. Era tudo pura ficção ‘científica’. Os membros da tribo fajuta não passavam de atores nativos, pobres cara de paus aculturados, arregimentados a dedo e treinados pelo antropólogo, que inventou-lhes uma selvageria fashion, criando hábitos ancestrais falsos, um figurino falso, uma cosmogonia falsa, tudo igualzinho ao que o nosso Mário fizera no seu conto inventando os ‘Dó-Mi-Sol’ (que eram, logicamente, puro sarro.)

Pobre Mário! Lido talvez, quem sabe (só que às avessas) pelo gringo ‘um-sete-um’, nem crédito para a sua original criação recebeu. Antropofagy é isto aí, gente boa!

Porque eu conto esta história? É fácil: É que esta moda… resignificativa e pós moderna a mais não poder, ao que parece, está pegando no Brasil.

Falando sério: Comenta-se a boca pequena (eu mesmo, a boca grande, vivo cantando esta pedra por aqui) que um insidioso fenômeno cultural já devia estar chamando a atenção de especialistas, antropólogos pelo Brasil a fora.

Trata-se do controvertido e agudo processo que pode, grosso modo, ser conhecido como resignificação de conteúdos – e da forma, da estética enfim – de manifestações culturais tradicionais brasileiras, infelizmente com fins nem sempre confessáveis.

Você já se ligou nisto? Não sabe bem o que significa? Resignifique-se então

É mais ou menos assim: As coisas são o que são, mas podem, dependendo do ponto de vista, significar outra coisa, ter outro sentido com o tempo. De novas e alentadas conclusões que sugerem novos olhares, emergem formas modernas de se abordar uma mesma coisa. Novos tempos, novas modas, novos significados enfim. Tudo muito bonito, mas dando aquela pinta mucho loca de ‘caô caô‘.

(Não sabe ainda o que é um ‘caô’? Depois explico)

O perigo, contudo pode morar na seguinte constatação: Tudo é sempre muito relativo (se o papo for Cultura então nem se fala). É preciso que existam regras morais, parâmetros éticos bem definidos, ordem para que não vire tudo, em suma, uma casa-da- mãe-joana.

Sabem como é: No Brasil o inimigo sempre mora ao lado.

Vandalismo politicamente correto pode?
Patrimônio cultural deliberadamente degradado: Um conceito

“… Há uma espécie de sensação fincada da insuficiência, da sarapintação, que me estraga todo o europeu cinzento e bem arranjadinho que ainda tenho dentro de mim. Por enquanto, o que mais me parece é que tanto a natureza como a vida destes lugares foram feitos muito às pressas, com excesso de castro-alves”.

( Mário de Andrade no diário: “18 de maio” )

É cada vez mais perceptível por aqui a promoção de ações e intervenções, pretensamente solidárias junto a comunidades que praticam – ou podem vir a praticar – manifestações ‘folclóricas’ com perfil característico (mesmo falso) que possa ser identificado como ‘manifestação cultural tradicional’, passível de justificar a formulação de projetos de tombamento, difusão e/ou preservação.

Além destas samaritanas finalidades há também, é claro, aquela que é a mais cínica de todas as justificativas para descolar um patrocínio, um qualquer: A chamada espetacularização da cultura tradicional (ou seja, a praga da carnavalização interesseira)

No dizer escorregadio desta gente espetacularização é a… ‘resignificação’ de uma manifestação de cultura popular com finalidades artísticas e, supostamente meritórias já que se enquadram como uma luva, no âmbito destes ‘trocentos’ programas de inclusão social, voltados para os nossos milhares de pobres diabos adolescentes.

- “Inclusão social! Capacitação profissional!” _ enchem a boca para dizer.

No português claro, inclusão social ‘para inglês ver’, por intermédio de alguma arte provisória e imediatista qualquer (como batucar samba-funk em latas velhas, por exemplo, função que ao que se sabe, nunca deu camisa e futuro a ninguém).

Este fenômeno – ainda carente de uma melhor definição – tem ocorrido, notadamente no âmbito de manifestações de inspiração africana, supostamente relacionadas ao conceito ainda um tanto mítico das sobrevivências etnológicas, eventualmente portadas por, não menos supostos, ‘quilombos remanescentes’, comunidades com algum resquício de herança cultural ancestral perceptível (curiosamente nunca inserem neste conceito as nossas imensas favelas).

É a partir desta tese da espetacularização benfazeja, portanto que foram formuladas mal embasadas reinterpretações de uma cultura afro-brasileira difusa, rasamente explicitadas em teses de mestrado, tornando-se uma seara bastante atraente para certa classe de ‘aventureiros’, muito mais por ser exótica e vulnerável a estas resignificações capciosas do que, propriamente por sua eventual relevância etnológica.

Estes verdadeiros predadores da cultura, motivados que são por uma vasta gama de interesses (a maioria, infelizmente relacionados aos recentes canais de patrocínio institucional abertos, na área da cultura e do turismo histórico-cultural no país) no âmbito das manifestações junto as quais se imiscuem, vão imprimindo – por ignorância sim, porém, muitas vezes de forma deliberada – estéticas e conteúdos descolados das tradições originais, que se diluíram com o tempo ou por conta de diversos vetores (entre o quais racismo e a exclusão social são o mais recorrentes).

O certo é que impacto das investidas destes ‘aventureiros’ sobre a cultura tradicional brasileira tem sido formidável.

Numa época em que se fala, insistentemente de tombamento e preservação do patrimônio imaterial, a questão assume proporções de drama cultural nacional eminente, tanto que a gravidade da situação pode sugerir que órgãos como o Iphan (que, ao que parece, não se deu conta ainda do fenômeno) e o MinC tenham que estabelecer, muito em breve, mecanismos de detecção e controle deste fenômeno, inaugurando estratégias que, na falta de nome mais adequado, chamarei aqui de ‘Restauração do patrimônio cultural imaterial deliberadamente degradado’ .

Patrimônio Turístico Cultural
Conceito e preconceito

(Antes que me esqueça: ‘Caô’ é uma evocação ao orixá Xangô do panteão do Candomblé _’Caô’! Caô! Cabecile!’ – Tudo indica que, de tanto ser usada, para as mais banais finalidades, a palavra vulgarizou-se, perdendo, vamos dizer assim, a ‘força’. Sábio como sempre o povo deu a palavra uma…‘resignificação’, passando a usá-la para definir, mentira, conversa fiada, qualquer coisa dita da boca para fora)

——–

Turismo como se sabe é um conceito ligado, obviamente à territorialidade, a um lugar específico para o qual os habitantes acharam por bem passar a atrair visitantes, motivados por alguma razão de natureza às vezes emocional (como amor por sua cidade) ou mesmo pragmática, como por exemplo, gerar recursos para melhorar a vida da coletividade, através da utilização de algo especial que o lugar tem, algo que atraindo interesse dos de fora, dos estrangeiros (que são chamados, vulgarmente, no caso, de ‘turistas’) possa ser explorado em benefício daquela coletividade.

Esta finalidade de utilidade pública está associada, portanto à existência deste certo ‘algo mais’ que os habitantes presumem possa gerar algum valor intrínseco ao ser visto e usufruído, algum atributo que está relacionado, como vimos – e de forma imperativa inclusive – a uma qualidade especial qualquer que o lugar, a cidade, o país ou o vilarejo tem, pode voltar a ter (ou mesmo nunca ter tido e passar a ter).

Assim, o conceito Turismo prescinde sempre de uma razão, de um adjetivo, algo sugestivo ou atrativo, um chamariz, um elemento motivador, que traga os turistas para a intimidade de uma comunidade e justifique o desejo deles de estarem ali e não em outro lugar qualquer.

As possibilidades são inúmeras desde as inconvenientes como o chamado Turismo Sexual, por exemplo (armadilha na qual algumas cidades do Brasil como o Rio de Janeiro e Recife, por exemplo, já estiveram, infelizmente, associadas), até as mais simpáticas como Agro Turismo (o lugar tem uma pecuária de alto nível e promove rodeios e feiras), o Eco Turismo (o lugar tem uma flora exuberante e recursos naturais belíssimos) e muitas outras motivações…turísticas, como se pode deduzir.

(Neste particular chamamos, fortemente a atenção para o fato de que a expressão ‘prostituição’, pode ser atribuída também, de forma genérica é claro, a qualquer aviltamento ou banalização desta motivação turística original, seja ela qual for.)

É fundamental, portanto que, ao propor que um lugar se abra ao Turismo, à visitação de estranhos, os habitantes tenham muita clareza daquilo que querem mostrar, expor à visitação não só do aspecto do impacto que esta exposição trará para a sua vida cotidiana, como também de que modo este ‘chamariz’ ou fato turístico, poderá ser mantido íntegro, patrimônio social que, efetivamente passou a ser (bem comum a ser preservado).

O grau de apreço com que uma comunidade trata a integridade deste ‘algo mais’ que a localidade tem – e que ela elegeu como sendo um fator turístico em si – é, pois, proporcional ao nível de degradação que fator turístico sofrerá quando desprezado ou exposto ao desleixo e ao descaso.

Um exemplo claro disto (embora nem sempre óbvio) é a necessidade de se manter limpo um rio que deságua numa cachoeira exuberante. Se houver qualquer descuido da comunidade (usando um exemplo bem corriqueiro) diante de uma ameaça de poluição deste rio mais cedo ou mais tarde os turistas abandonarão o balneário e o valor do que era um patrimônio eco-turístico inestimável, se esvairá.

Preservar, conservar e manter o patrimônio de uma coletividade íntegro e perene, mobilizar a consciência turística de uma coletividade é, pois, sinal de inteligência comunitária, condição essencial para merecermos o nome de indivíduos civilizados.

Tocar neste assunto quando o bem a ser preservado é de natureza imaterial como manifestações culturais tradicionais (algo intangível), por exemplo, é um assunto complexo, mas, considerando-se que, por sua vez, a julgar pelos exemplos acima citados, o conceito preservação não é tão complicado assim, podemos continuar a exemplificar sem dificuldade usando simples analogias.

Neste sentido, outro exemplo prático para se entender melhor a questão é quando este bem cultural, passível de ser utilizado com finalidade turística, é o patrimônio arquitetônico do lugar (algo tangível, portanto).

Prédios e edificações antigas, construídas em estilos que representam tendências de uma época, de um estágio tecnológico, de um modo de vida: edificações que, afora o seu significado estético, formal, representam também um espaço memorável, onde ocorreram fatos e incidentes emblemáticos, relacionados à história do local, ou onde certos aspectos da cultura da região ou do país, do mesmo modo ocorreram são, pois, bens culturais por excelência.

Conscientes destas particularidades como lidar então com este patrimônio histórico arquitetônico?

Em primeiro lugar é preciso identificá-lo, atestar a legitimidade de sua condição histórica, mediante uma avaliação técnica criteriosa. É por meio deste reconhecimento, desta comprovação de sua autenticidade atestada por evidências técnicas irrefutáveis, que se poderá ‘tombá-lo’, inventariá-lo ou reconhecê-lo, oficialmente como um bem histórico evidente, patrimônio público por suposto, bem coletivo a ser conservado.

É a partir deste reconhecimento público formal que surge então a obrigatoriedade, também pública, de restaurá-lo quando degradado pelo tempo – ou mesmo pelo vandalismo de alguns- e mantê-lo preservado, íntegro, função geralmente assumida, como precípua, por alguma instituição pública, vocacionada para tal (como é o caso do Iphan, pelo menos neste aspecto).

Radiografando o patrimônio imaterial
(O intangível não é invisível)

“… E esta pré-noção invencível, mas invencível, de que o Brasil, em vez de se utilizar da África e da Índia que teve em si, desperdiçou-as, enfeitando com elas apenas a sua fisionomia, suas epidermes, sambas, maracatus, trajes, cores, vocabulários, quitutes… E deixou-se ficar, por dentro, justamente naquilo que, pelo clima, pela raça, alimentação, tudo, não poderá nunca ser, mas macaquear, a Europa.”

( Mário de Andrade no diário: “18 de maio )

Por este viés de nossa avaliação algumas conclusões preliminares podem ser entabuladas. A primeira delas – a mais evidente e dramática – é que a maioria dos grupos de cultura tradicional do Brasil estão completamente desarticulados entre si e vivem à mercê das investidas de aventureiros de vários tipos, bem ou mal intencionados e, em sua maior parte, totalmente deseducados, aculturados, apartados dos significados e sentidos mais profundos da cultura tradicional de seu próprio país.

As razões desta desarticulação dos grupos de cultura tradicional, da fragilidade de suas relações com a sociedade em geral, estão ligadas, é claro, às históricas e caquéticas idiossincrasias do sistema social excludente do Brasil que alija para a periferia da sociedade tudo que diz respeito ao chamado povo, principalmente as suas oportunidades de acesso à educação.

Como se vê até mesmo a preservação do patrimônio cultural e emocional deste tal de povo é reiteradamente desprezado, subestimado do mesmo modo como são omitidas e desconstruídas, até mesmo as referências de seu passado histórico (bem entendido o passado histórico real do país, enquanto instância, evidentemente associada à nossa cultura, de maneira geral).

Fica do mesmo modo evidente de que há, além da óbvia e recorrente contradição sócio econômica entre pobres e ricos, um imenso fosso ético se alargando no bojo destas relações entre elite e povo (‘agentes externos’ e população local, no caso) já que as mais iníquas investidas rumo à vocação turístico cultural de certas regiões, vista como oportunidade de ganhos financeiros para indivíduos e instituições estranhas às comunidades, segundo a maioria dos relatos disponíveis, costuma ser perpetrada sem nenhuma espécie de pudor etnológico.

Aparentemente intencionada em alijar e excluir e, num segundo momento (por um mero imperativo político estratégico, talvez) usar, instrumentalizar a cultura dos grupos de cultura tradicional local, estas ações quase sempre são realizadas, portanto sem nenhum cuidado com os riscos que esta utilização irresponsável traria para a sobrevivência das manifestações aviltadas, após uma longa exposição a esta desmedida corrupção de seus valores gerais mais essenciais, sua tradicionalidade enfim.

Fica ainda no mesmo sentido atestado que há problemas terríveis também no que diz respeito à formação educacional de nossa juventude ‘incluída’ quando se percebe que na vanguarda desta elite predatória (turistas ‘ao contrário’, por se assim dizer), intermediando a ação dos ‘organizadores’ responsáveis por estas ações, estão jovens formados em universidades, muitas vezes em ciências sociais, antropologia, etc. matérias fundamentais nesta questão (inclusive em seu estrito sentido ético) jovens ‘bem’ formados estes que usam os supostos conhecimentos auferidos em sua formação para perpetrar este tipo de ação anti-cultural esperta, oportunista, fazendo-nos refletir, desolados que diabos estamos fazendo com a nossa sociedade ‘letrada’.

É bastante difícil avaliar por isto mesmo, o grau de degeneração provocado por iniciativas culturais, pretensamente positivas. O cerne da questão é que o impacto de ações como esta costuma ser muito mais nocivo no campo da ética, porque acaba corrompendo as comunidades no âmago de seus valores morais mais caros.

Degeneração pura e simples, no sentido da banalização de um atributo emocional intrínseco a cultura das pessoas; deturpação da representação simbólica de toda uma maneira de ver e viver a vida que, pode ruir – e efetivamente rui – totalmente quando se depara com a constatação de que se pode trocar por alguns trocados a exibição de uns poucos dotes artísticos ancestrais (da mesma forma que se pode trocar um benefício mensal de um programa de ‘renda mínima’ por um voto).

Degeneração ética como morte da tradição, como extinção do patrimônio cultural imaterial que se esgarça e se vulgariza.

(Tradição e ética não enche barriga, diz-se hoje por aí).

Assim, com a insistência do aliciamento dos ‘aventureiros’, como a esmola viciando o cidadão, a exibição dos dotes ‘exóticos’ passa a se dar mesmo quando alguém, considerando os dotes originais ou tradicionais feios e desinteressantes (segundo as ocultas intenções de espetacularização do evento), alicia para alterar, para subverter, para fingir uma falsa tradicionalidade, que melhor apeteça ao turista-freguês (também de algum modo lesado porque é levado a considerar cultura tradicional o que foi descaradamente maquiado, forjado).

Em meio a este descompasso moral, que mal haveria em mudar um passinho aqui, uma saia acolá, cantar uma canção pretensamente folclórica, composta por sabe-se lá quem, corrompendo-se, prostituindo-se? Algum incômodo, alguma sensação vaga de ridículo haveria, algum mal estar sim, mas, e daí se isto é coisa que dá e passa?

Quem há de saber o rumo que estas coisas poderão tomar ou no que elas podem resultar no futuro? Pois não é assim mesmo, aviltando-se e corrompendo-se por força de um meio hostil que as coisas todas do mundo se extinguem?

A questão nuclear de tudo isto é que, se o conceito Turismo Cultural encerra a exibição (seja lá com que finalidade for) de certos atributos do patrimônio imaterial real de uma comunidade, o que ocorre, em certo prazo se estes valores forem corrompidos, aviltados acima do suportável?

Mesmo que, materialmente ainda lhes restem traços, vestígios de sua forma original, simbolicamente nada mais restará de memorável, digno de ser exibido.

Tarde demais quando o que vendemos foi a nossa própria alma, pode ser a lição.

Ou mesmo, lembrando o ditado mais comum de todas as guerras: Não queime as suas pontes (os vínculos emocionais com o seu passado) senão você não terá como recuar quando isto for a única sorte possível, questão de vida ou de morte.


“… Nos orgulhamos de ser o único grande (grande?) país tropical…. Isso é o nosso defeito, a nossa impotência. Devíamos pensar, sentir como indianos, chins, gente de Benin, de Java… Talvez então pudéssemos criar cultura e civilização próprias. Pelo menos seríamos mais nós, tenho certeza. “

(Mário de Andrade no diário: “18 de maio)

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(Ah…Já ia me esquecendo: Vocês sabiam que a palavra ‘Tombar’ vem de ‘registrar nos livros da Torre do Tombo’, antiga sede do arquivo Nacional português em Lisboa? Pois é. Aculturados somos ou nos… resignificamos?)

Spírito Santo
Março 2009

FAVELÓPOLE!

•Março 12, 2009 • 2 Comentários

Favelados no Morro do Pinto-Início do século 20-Fotógrafo anônimo (talvez Augusto Malta)
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Um filme catástrofe? Conheça a raiz desta história bem carioca

“…Não existe viajante algum que, tendo visto o Rio, não fale com admiração do magnífico espetáculo proporcionado pela baía da cidade. Esta baía é ainda mais vasta que a baía de Constantinopla… Quando se entra na baía, após o sofrimento da longa travessia, fica-se comovido com o esplendor do panorama:

Porém que decepção se sente, oh meu Deus, quando se sai do ancoradouro?! Os perfumes que vem da baía são infectos!! A explicação é simples, a água das casas era transportada pelos escravos de várias fontes em barris semelhantes aos que, no fim da tarde, carregavam os detritos, pois as casas não têm fossa séptica já que o lençol freático, por causa do solo pantanoso, está muito próximo da superfície e todos os detritos domésticos são postos em barris que os escravos põem sobre a cabeça e vem, em procissão, para o mar onde os jogam, dá para imaginar o mau cheiro com o terrível calor do lugar, esses negros são como o símbolo da cidade…”

Um viajante da época da chegada da família real ao Brasil em 1808

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Dia destes resolvi folhear um guia de ruas do Rio de Janeiro (que nos meus bons tempos se chamava ‘Guia Rex’). A curiosidade – meio masoquista é verdade – era específica e bem determinada: Queria saber as quantas andava a decantada proliferação de favelas no Rio de Janeiro, fenômeno cujos sintomas alarmantes todo mundo por aqui sente, mas evita comentar.

Vivo falando de como este fenômeno é visível no meu bairro e do quanto me causa estranheza o fato deste assunto, candente e gravíssimo pelo que parece, não estar sendo debatido, mais vivamente por todo mundo – desesperadamente diria até, dada a natureza assustadora de suas consequências em certo- e quiçá breve – prazo.

Pois bem, saibam que mesmo careca de saber, fiquei de cabelo em pé quando terminei de folhear o tal guia. Maldita hora. Tive, a bem dizer, um pesadelo acordado, olhando em cada página o cinturão de favelas que cerca, inapelavelmente, quase todos os chamados ‘bairros comuns’ do Rio e a quantidade de problemas dramáticos, a cada dia mais insolúveis que esta pobre cidade, com certeza terá.

O pesadelo tinha um cheiro nauseabundo de vala negra, um ruído de carroças de tijolos arrastadas por cavalos esquálidos por entre os carros; as avenidas além de emporcalhadas pela bosta dos cavalos, atravancadas por engarrafamentos provocados por ‘arrastões’ de bandidos; sofás velhos largados pelas ruas, entupindo canais de esgoto; cadáveres de cães e de gente morta por atropelamentos ou em trocas de tiros; milícias de policiais corruptos ou traficantes se digladiando pela ocupação de territórios e vias de acesso, desordem absoluta dos serviços públicos, também controlados pelos substitutos das autoridades de ontem, hoje vergonhosamente destituídas.

Um mal estar antigo, arcaico, quase colonial como bem expressou o viajante europeu citado lá em cima.

Na última campanha eleitoral ouvi uma conversa estranha, à boca pequena falando em muros ‘para limitar a expansão’ de favelas. Enfeitava-se o pavão da conversa aludindo razões politicamente corretas, do tipo a meritória salvaguarda do meio ambiente, do que resta da ex-exuberante beleza da Mata Atlântica, etc. e tal. Conversa fiada eivada do mais puro caô.

_Muros? – pensei com arrepios – Conter a expansão de favelas com muros? Estão de brincadeira!

O Rio civiliza-se! Uh lalá!
A alma das ruas e o destruidor de ruas

“…A população do Rio que, na sua quase unanimidade, felizmente ama o asseio e a compostura, espera ansiosa pela terminação desse hábito selvagem e abjeto que nos impunham as sovaqueiras suadas e apenas defendidas por uma simples camisa de meia rota e enojante de suja, pelo nariz do próximo e do vexame de uma súcia de cafajestes em pés no chão (sob o pretexto hipócrita de pobreza quando o calçado está hoje a 5$ o par e há tamancos por todos os preços) pelas ruas mais centrais e limpas da grande cidade… Na Europa ninguém, absolutamente ninguém, tem a insolência e o despudor de vir para as ruas de Paris, Berlim, de Roma, de Lisboa, etc., em pés no chão e desavergonhadamente em mangas de camisa.”

(Francico Pereira Passos em discurso por volta de 1904)

“..A rua nasce, como o homem, do soluço, do espasmo. Há suor humano na argamassa do seu calçamento. Cada casa que se ergue é feita do esforço exaustivo de muitos seres, e haveis de ter visto pedreiros e canteiros, ao erguer as pedras para as frontarias, cantarem, cobertos de suor, uma melopéia tão triste que pelo ar parece um arquejante soluço. A rua sente nos nervos essa miséria da criação, e por isso é a mais igualitária, a mais socialista, a mais niveladora das obras humanas”.

(O cronista João do Rio em ‘A alma encantadora das ruas‘, na mesma época.)

Vista com o filtro lírico da prosa fantástica de João do Rio, as cidades – e suas ruas – são seres viventes, de carnes e de ossos, indissociáveis dos personagens que as habitam e nelas transitam, amam, odeiam, povoando-as de vozes, humores, angústias e sonhos. Nelas, quando morrem – quem sabe? – pode-se até mesmo supor que pelas esquinas mais escuras, os habitantes deixem por lá, largados ao léu, os seus fantasmas. Matar uma rua é, pois o mesmo que matar seus transeuntes. Genocídio na acepção da palavra.

Francisco Pereira Passos, prefeito do Rio na época, visto neste quadro seria este serial killer de ruas. Ironicamente arvorando-se de ser o modernizador da cidade teria sido, isto sim, um dos responsáveis – o principal deles – pela vexatória decadência do Rio de Janeiro de hoje, o verdugo da cidade enfim.

Se nos fosse possível, ignorando a lucidez ácida de Lima Barreto, relevar os desfeitos e desmandos de Pereira Passos e a aristocracia brasileira da belle èpoque, aludindo aos seus arroubos, supostamente, civilizatórios, ainda assim teríamos de admitir que só mesmo o mais estúpido cartesianismo positivista seria capaz de supor que a modernização de uma cidade poderia se dar com a expulsão da maior parte de seus originais habitantes.

Apartada deles, daqueles seres, adoravelmente abomináveis descritos por João do Rio e Lima Barreto, a cidade do Rio de Janeiro virou uma vítima subjugada, traída, aviltada, nunca modernizada.

Prefeito de 1902 a 1906, Francisco Pereira Passos se achava um adepto do futuro que os entusiastas da República se vangloriavam de representar.

…É claro que, por trás desta ideologia, estava a consolidação, entre outros, dos interesses da oligarquia cafeeira…. das construtoras francesas; das companhias inglesas de energia e bondes; e da nascente indústria automobilística norte-americana.

iniciou uma série de atos e decretos com o propósito de extirpar velhos hábitos citadinos e impor uma disciplina consoante à nova ordem republicana, comprometida que estava com os capitais franceses e ingleses em sua fase imperialista – calcada no escoamento da produção fabril e na exportação de capitais.

Exemplares neste particular foram os decretos de 09 de janeiro de 1903 que proibiram, no Centro da Cidade, o comércio ambulante de leite, efetuado com o auxílio do gado bovino… Outras proibições decretadas: esmola nas ruas, pingentes dos bondes, cuspidura no assoalho do bonde e criação de porcos no Distrito Federal.

Após alguma preparação de campo, iniciou-se, ainda naquele abril, um pequeno ensaio de demolições para alargamento e extensão de ruas e avenidas. Quase ao mesmo tempo foi apresentado o plano de remodelação da cidade.

O processo de desapropriação e despejo, aliado à instauração da vacinação obrigatória, redundou na Revolta da Vacina, iniciada em 14 de novembro de 1904, após a revolta da Escola Militar na Praia Vermelha. Com forte adesão popular, a revolta durou sete dias e resultou na decretação de estado de sítio, prorrogado por Pereira Passos até fevereiro de 1905, e no desterro dos insurretos (os chamados “quebra-lampiões”) para o Acre.

(In ‘Rede da memória Virtual brasileira‘)

A incrivelmente escassa divulgação dos fatos relacionados à chamada Revolta da Vacina no contexto da turbulenta serie de incidentes que, entre 1902 e 1910, demonstraram o estado de ânimo da população da cidade, em relação às intenções ‘civilizatórias’ do novo regime instaurado, é sobre qualquer aspecto vergonhosa.

A época, iniciada pelo fim do governo de feição positivista de Campos Salles, seguido por Rodrigues Alves e pelo início tumultuado do governo de seu sucessor Hermes da Fonseca- em cujo mandato ocorreram os não menos tristes acontecimentos relacionados á Revolta da Chibata (1910) – contém páginas que nossas auto proclamadas elites gostariam de rasgar da história brasileira.

As razões desta parcimoniosa objeção, quase omissão de fatos tão relevantes, emblemáticos mesmo para a nossa auto estima de povo heróico – embora não tão retumbante – é portanto mais que sabida: A história do Brasil ainda é contada sob o ponto de vista da mesma envergonhada e ignorante elite de sempre.

Neste caso, de forma deliberadamente exagerada, costumam ressaltar como mais relevantes, maravilhosos e positivos os méritos da modernização da capital atribuídos a uma ‘inovação’ chamada de República – que, a despeito disto, já nascia velha – a formidável transformação do centro da cidade na imagem e semelhança do centro de Paris – com a inauguração em 1906 do boulevard Avenida Central – e os avanços da cruzada higienista de Oswaldo Cruz contra o mosquito da febre amarela – e também contra a população que se mostrou em nada ignorante, posto que já intuía muito bem que depois da vacina obrigatória viria o famigerado ‘Bota abaixo’.

O fato é que até hoje se omite ou pouco se fala acerca do enorme custo social destas reformas e da natureza cruel e excludente de suas intenções, marcadas por um desprezo quase pré-nazista pela população comum, escorraçada para as frinchas dos morros e dos arrebaldes insalubres, sem eira nem beira, presa, degredada e, às vezes, morta com violência repressiva poucas vezes vista em nossa história (considerando-se inclusive o período dos anos de chumbo).

…”Saldo da revolta da Vacina: 30 mortos, 110 feridos, 945 presos 461 deportados. Em seguida, o governo deu início à prisão, tanto dos líderes populares da rebelião, quanto dos militares acusados de insurreição. “Prata Preta”(capoeirista, um dos líderes da revolta) foi preso em um dos restaurantes baratos do bairro da Saúde na hora do almoço. O escritor Lima Barreto, em Diário Íntimo, registrou a arbitrariedade e a crueldade da repressão aos revoltosos, sobretudo os pobres:

Eis a narrativa do que se fez no sítio de 1904.

“…A polícia arrebanhava a torto e a direito pessoas que encontrava na rua. Recolhia-as às delegacias, depois juntavam na Polícia Central. Aí, violentamente, humilhantemente, arrebatava-lhes os cós das calças e as empurrava num grande pátio. Juntadas que fossem algumas dezenas, remetia-as à Ilha das Cobras, onde eram surradas desapiedadamente. [...]“

A Ilha das Cobras tornou-se o centro dos castigos aos presos. Dias depois, eles foram embarcados em porões de navios para uma viagem sem volta ao Acre, território que o Brasil havia comprado da Bolívia em 1903.

“Os banidos levavam a missão dolorosíssima de desaparecerem…”, comentou o escritor Euclides da Cunha. A intenção das autoridades era remover para bem longe da cidade os elementos ditos “perigosos”, embora muitos deles fossem trabalhadores, desempregados ou simples miseráveis que se envolveram circunstancialmente na revolta.

Nas palavras do chefe de polícia Cardoso de Castro, afinadas com a política de saneamento da época: “era preciso limpar a cidade”. Para isso, “cogitou-se mesmo de sufocar a desordem a metralha”. A afirmação feita certa vez pelo presidente Campos Salles – “a cidade ideal era a cidade das multidões caladas” – parecia traduzir com perfeição os aconteciam .

(Extraído de ‘O Rio de Janeiro da época da Avenida Central )

Na crônica ainda obscura destes incidentes, ressalte-se que os deportados da Revolta da Vacina foram entregues a seringueiros para cumprirem trabalho escravo na selva… para sempre. Conta-se que muitos foram largados à própria sorte na mata e acabaram mortos pelos índios ou devorados pelos bichos.

O mesmo insidioso degredo para as selvas do Acre ocorreu com parte dos líderes marujos da Revolta da Chibata em 1910, cujo destino traçado pelo governo era serem fuzilados em alto mar na virada do ano novo de 1911. A insídia foi efetivamente cumprida.

(Segundo Edmar Morel, cronista da revolta, o diário de bordo do navio ‘Satélite‘, um dos nove marujos condenados, apelidado de ‘Sete‘ não pode ser fuzilado porque, mesmo estando com as mãos amarradas, conseguiu se atirar ao mar antes dos tiros, morrendo afogado).

João Cândido Felisberto, às custas do bom nome deixado em Liverpool na Inglaterra (cujo governo tentava garantir-lhe um julgamento justo) largado para morrer num calabouço da Ilha das Cobras junto a 12 marujos da Revolta, escapou do atentado que matou dez de seus companheiros.

(Com receio de reações na imprensa, cumprindo ordens superiores os oficiais, covardemente mandaram lançar acido fênico e cal virgem na masmorra para asfixiar os prisioneiros e simular um acidente fatal.)

Bruzundangas póstumas
O refúgio e tardia vingança dos infelizes

“…De uma hora para outra, a antiga cidade desapareceu e outra surgiu como se fosse obtida por uma mutação de teatro. Havia mesmo na cousa muito de cenografia”.
(Lima Barreto em Bruzudanga)

À espécie de degredo a que foi condenada a população expulsa do centro da cidade pelo ‘Bota Abaixo’ de Pereira Passos seguiu-se, obviamente a ocupação desordenada de todos os morros próximos a recém inaugurada Avenida Central (Av. Rio Branco atual), a começar pelos Morros de Santo Antônio e Castelo (logo demolidos), espraiando-se para o Morro da Favela, atual Morro da Providência, (onde surge, oficialmente, não o conceito, como muitos afirmam, mas a denominação ‘favela’).

Integram também esta trágica geografia os Morros em torno de Santa Teresa, (Coroa, Querosene, Fogueteiro, etc.) e os do Maciço da Tijuca, propriamente dito na Zona Norte da cidade (Serra dos Pretos Forros).

É significativo se ressaltar também que alguns morros próximos ao centro do Rio, como os que formam a espécie de maciço que divide o centro da Zona Sul na Serra do Carioca (como é o caso dos morros do Catumbi e Da Mineira) já haviam servido de esconderijo e habitação para escravos fugidos, pelo menos desde o início do século 19, dando, provavelmente origem às comunidades faveladas que até hoje ali habitam.

Esta fase inicial do processo de favelização do Rio de Janeiro, como que marcado, indelevelmente, pelo pecado original do modelo urbanistico excludente iniciado em 1902, se completa já nos primeiros decênios do século 20, com a expansão da cidade rumo à orla das praias da Zona Sul, e a reprodução de um mesmo velho modelo que evoca, sintomaticamente uma característica típica do modelo urbanístico patriarcal, que repete no Rio de Janeiro ad infinutum, o padrão flagrado por Gilberto Freire: A Casa Grande branca geminada, freudianamente à Senzala negra.

O Rio parece ser assim, o paradoxo da modernidade impossível, uma sociedade arcaica, aristocrática, que se valendo da exclusão social mais iníqua, pretende ser uma moderna Paris refinada sem abrir mão do abjeto anacronismo da escravidão reformada.

Pois observem bem que, depois de contidas as primeiras favelas da zona sul por meio de ‘remoções’, pretensamente civilizatórias (verdadeiros expurgos nazistas que foram), e incêndios criminosos (como o da favela da Praia do Pinto) foi da miséria a que foram relegados os bairros do subúrbio que as chagas das favelas voltaram a se alastrar, como pústulas se expandindo e se juntando umas às outras, num processo de involução urbana, ou desurbanização galopante (se é que estes esdrúxulos conceitos fazem mesmo sentido) que se acentua bastante a partir da década de 1970.

É de se lamentar – além disto, o que se há de fazer? – que numa espécie de vingança compulsória, involuntária, premida pela perpetuação das circunstancias de seu abandono, a antiga cidade das ’sovaqueiras suadas’ execrada pelo controvertido ‘reformador’ Francisco Pereira Passos, aquela que foi alijada de si mesma, aquela imunda e desprezada urbe de miseráveis, posta abaixo e varrida para os cantos insalubres do infeliz subúrbio de Lima Barreto, esteja agora a cobrar a sua conta… como uma estranha re-mutação dramatúrgica, uma desmontagem, uma anticenografia de um verdadeiro teatro de horrores.

Você já teve a emocionante experiência de trafegar pelo trajeto entre o aeroporto Tom Jobim e o centro do Rio? Senão experimente para assistir – como naquele filme de guerra – o que há ‘Além da linha vermelha’

A área, marcada pelos traçados das modernas linhas Vermelha e Amarela, além da Avenida Brasil, era palmilhada outrora por pacatos subúrbios (Irajá, Inhaúma, Manguinhos, Bonsucesso, Olaria, etc.) que – mais ou menos como um prenúncio do que pode ocorrer com a cidade como um todo, após o agravamento da decadência do município – foram engolfados por favelas, virando uma favelão só, compacto (‘Maré’, ‘Alemão”, ‘Acari’, etc. ‘Complexos’ de favelas, como se diz hoje com um cinismo de doer).

Da Avenida Brasil eu me lembro muito bem, da minha juventude de operário metalúrgico da Ishikawajima do Brasil e da Faulhaber Engenharia. Ela, a ‘Brasil’ era o pólo industrial da cidade, com uma de suas margens em quase toda a extensão (que vai do Caju, quase no Centro, à Santa Cruz no outro extremo do município) inteiramente tomada por imponentes fábricas e indústrias de ponta, empregando todo o pessoal que passou a ocupar aqueles emergentes subúrbios, exatamente por causa deste efervescente mercado de trabalho (até um ramal de estrada de ferro – a ‘Linha Auxiliar’- foi criado para atender àqueles bairros como uma espécie de metrô pré-moderno)

E o que é hoje a Avenida Brasil? Querem mesmo saber?

Os prédios e galpões de, rigorosamente todas as fábricas e indústrias foram, literalmente abandonados pelos proprietários e viraram micros e macro favelas. As gigantescas instalações da CCPL, por exemplo, grande fábrica e distribuidora de leite (uma das maiores do Brasil em seu auge) estão hoje ocupadas por um ‘condomínio’ com muitas centenas de favelados.

O mesmo se pode dizer da antiga ‘Gillete do Brasil’ e tantas outras indústrias, com seus prédios em ruínas abandonados e tomados, dando a região o nítido aspecto de uma… Mumbai? Por aí, só que com certo look de Bagdá bombardeada por um destes Bush da vida.

O Rio de Janeiro já é um imenso complexo de favelas, uma imensa ex-cidade pontilhada de bairros comuns aqui e ali, alguns guardados por uma serra íngreme ainda desabitada; outros protegidos – graças a Deus! – pela proximidade do mar; alguns mais previdentes já cercados por cercas e guaritas com seguranças de milícias privadas e, em futuro próximo (a se cumprirem os planos à boca pequena sugeridos pela prefeitura) muralhas semelhantes aquela aberração urbanística que Israel instalou na Faixa de Gaza.

Rio-Cidade? Favela-Bairro? Se virou favela como poderia ser, ao mesmo tempo, bairro? Se é um conglomerado complexo de favelas como poderia ser uma cidade? Sofismas urbanísticos de quem teima em não acreditar no que está óbvio, escancarado, como rei pelado, estropiado de velho se achando um Tom Cruise, um galã desses, da vez.

O Rio de Janeiro cidade maravilhosa cheia de encantos mil… já era, pessoal. O ‘coração do meu Brasil’ morreu, finou-se a metrópole – Deus que nos perdoe – reduzida hoje a uma… favelópole.

(Num flash do pesadelo ouço uma voz rouca vazando de um blindado ‘caveirão’ que trafega lúgubre por vielas pós-modernas, apavorando os favelados que somos todos nós:

_”Nós vamos carregar sua alma” Nós vamos carregar sua alma!” )

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Talvez os ectoplasmas dos bruxos, dos feiticeiros de Candomblé, dos kimbandistas da Praça Onze, dos capoeiras navalhistas do Largo da Glória, dos motorneiros de bonde, das prostitutas do Cais Pharoux e das vendedoras de angu, todas as almas penadas das ruas do velho Rio, emanadas das pessoas lançadas no degredo perpétuo e mortas nas selvas do Acre, tenham rogado por aí as suas justas pragas.

Talvez estas pragas pestilentas ainda infestem os ares da Praça Mauá, da Gamboa, do Santo Cristo ou da Saúde, onde os fantasmas dos ‘pretos novos‘ semi-sepultos no cemitério-pântano ali, ao lado do mercado de escravos do Valongo, já se arrastam há muitos anos.

Oremos, plantemos então uma vela vermelha e preta nesta encruzilhada escura em que nos encontramos, uma galinha magrela, farofa amarela e cachaça vagabunda, bonequinhas de vudu, tudo a que temos direito e com todo fervor gritemos:

- Maldito Positivismo republicano! Maldito Pereira Passos! Que as pragas retornem para vós e todos os seus e não nos atinjam jamais!

Spírito Santo
Março 2009

AMK – Auto do Manoel Kongo

•Fevereiro 25, 2009 • 8 Comentários

Creative Commons License
Escravos reais capturados em 1880-Desenho de Spírito Santo/1983 (nanquim sobre foto de autor anônimo)
escravos-reais-copy
RESENHA
História, Teatro e Turismo cultural/Uma experiência

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Originalmente, o projeto de encenação do Auto do Manoel Kongo, foi concebido no contexto de um trabalho de ação cultural, desenvolvido junto com animadores culturais da Secretaria Especial de Programas Especiais do Estado do Rio de Janeiro, (Cieps), no âmbito dos municípios do Sul Fluminense (Vale do Rio Paraíba do Sul). Sob a orientação geral da musicóloga Cecília Conde e a inspiração do antropólogo Darcy Ribeiro, o programa de Animação cultural em Cieps, foi um formidável esforço de arte educação que abrangeu uma rede de centenas de escolas, entre os anos de 1982 e 1996.

Proposto pela coordenação de animação cultural da área (função que o autor desempenhava na ocasião) pretendeu-se com esta ação unir os esforços de diversas instituições oficiais, municipais, estaduais e federais, numa ampla ação, que servisse para estimular estratégias de turismo cultural (a exemplo do que ocorre em cidades como Nova Jerusalém, no nordeste), talvez uma das poucas alternativas para a (na época) combalida economia desta região fluminense.

Assim, constatando-se ser o passado histórico, representado, entre outras coisas, pela bem preservada cultura tradicional da população local, a única herança pública deixada pela decadência em que o Vale mergulhou com o fim dos áureos tempos do café, buscou-se um tema que, conjugando o rico patrimônio histórico e arquitetônico das cidades do local, servisse de subsídio para a elaboração de um texto para um auto teatral, que pudesse ser encenado nas ruas de uma cidade da região.

Sem muita dificuldade, o coletivo de animadores culturais optou pela história do Quilombo de Manoel Kongo e pela cidade de Vassouras, palco deste que é, sem dúvida, o evento histórico mais importante e abrangente, ocorrido naquela região quando de seu apogeu e, talvez em todos os modorrentos tempos que se seguiram.

Por conta de diversos fatores e percalços, as circunstâncias da época (1996) acabaram por tornar inviável a primeira tentativa de montagem do espetáculo que, do ponto de vista artístico, já estava em fase bastante adiantada (ensaio geral)

Dentre estes percalços, além dos problemas apresentados, à última hora, pela empresa que produzia o evento, foram também significativos (embora não determinantes), os problemas encontrados para se sensibilizar os empresários e fazendeiros da região quanto à pertinência do conceito de ‘Turismo Cultural’ que defendíamos, que não omitia alusões óbvias ao passado escravocrata da cidade, que, não podendo ser omitidas da trama do espetáculo, por serem a sua chave dramatúrgica, de certo modo constrangiam a estratificação social da região, como no tempo de Manoel Kongo, ainda hoje quase que inalterada, com muito nomes de tradicionais famílias da aristocracia cafeeira, citados no texto do auto como escravocratas empedernidos no passado, figurando ainda no quadro de poder local em prefeituras, câmaras e secretarias.

Tendo o seu texto baseado nos autos de condenação de Manoel Congo, reproduzidos no livro ’Insurreição negra e Justiça’ de João Luiz Duboc Pinaud e outros autores, a encenação abortada, contou também com o inestimável apoio do pesquisador vassourense Paulo Mandaro, da arquiteta Isabel Rocha (diretora do Iphan da área), da direção do Ciep de Vassouras na época, além dos cerca de 30 animadores culturais da região que envolvia, além de Vassouras e entre outras, as cidades de Paraíba do Sul, Rio das Flores, Paracambi, Paty do Alferes, Barra do Piraí, Valença e Pinheiral.

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A Forma

O Auto do Manoel Kongo foi escrito em 1996, especialmente para ser apresentado em cenários naturais, originalmente o perímetro urbano de Vassouras ou de outra cidade histórica qualquer, localizada no Vale do rio Paraíba do Sul, no estado do Rio de Janeiro.

O roteiro do espetáculo obedece às condições gerais do espaço previsto para a encenação: Ruínas, sacadas de prédios históricos, trechos de rua, chafarizes ou quaisquer outros pedaços de passado preservado, que possam compor a cenografia (ou a geografia) do espetáculo.

O roteiro original propõe também a participação de grupos culturais da periferia da cidade (música e dança tradicionais) tanto no contexto dramático do espetáculo, quanto em eventos paralelos, à cargo de instituições e agentes culturais locais.

No elenco proposto, parcialmente, integrado por atores profissionais, está prevista também a participação de um número considerável de figurantes (não atores), recrutados entre a população local.

Como peça de divulgação (folder e programa) do espetáculo, o programa propõe a edição especial do tablóide fictício ‘ A Voz da Comarca’, a ser amplamente distribuído na região,a partir da semana que antecede ao espetáculo. Desta edição do tablóide (que reproduz um jornal do século 19), constará além da ficha técnica e demais informações sobre o espetáculo, peças de publicidade dos patrocinadores.

Para a véspera do espetáculo, também como estratégia para a divulgação do evento, o roteiro prevê a encenação de diversas situações do cotidiano de uma cidade do Vale, no século 19, com figurantes espalhados por ruas e espaços onde o auto será encenado .

Do mesmo modo, o programa sugere aos agentes culturais locais, a promoção de passeios de charrete (com cocheiros vestidos a caráter) e visitas guiadas às fazendas da região (com a possível realização de saraus de música popular ou erudita)

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A História

Com o esgotamento do ouro nas Minas Gerais, a economia brasileira se deslocou para o Vale do Paraíba do Sul, no Rio de Janeiro. O posterior esplendor da região, com seu eixo localizado na Vila de Paty do Alferes e, logo em seguida, na Vila de Vassouras, alavancou o desenvolvimento do Brasil por quase todo o século 19.

O signo principal deste ciclo de desenvolvimento era o café, mercadoria com enorme importância no mercado internacional do período, do qual o Brasil foi, durante muito tempo, o maior produtor.

Brasil e sua economia dependiam, no entanto, de outra mercadoria, ainda mais essencial do que o café; A força de trabalho do escravo africano.

Ambos negros, escravo e café, fizeram algumas das maiores fortunas do mundo da época, fortunas estas que, concentradas quase todas na região do Vale do Paraíba do Sul, geraram a sociedade dos chamados ‘barões do café’, nababesca e prepotente, assentada numa estrutura social sem povo, composta, basicamente, por aristocratas e escravos.

Seqüestrados de Angola, Congo, Moçambique e trazidos a partir, principalmente, do porto de Luanda para serem vendidos no mercado do Valongo, próximo ao porto do Rio de Janeiro, os africanos que, depois de longa jornada a pé, chegavam à plantações de café do Vale do Paraíba, acabaram se tornando, não só um elemento essencial para a economia local mas também, como se pôde concluir mais tarde, num elemento capaz de ameaçar a própria segurança física daquela sociedade.

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A Trama

Em 6 de novembro de 1838, o africano Camilo Sapateiro, escravo da fazenda freguesia foi morto a tiros, quando se dirigia, clandestinamente, à fazenda Maravilha, ambas pertencentes ao maior proprietário de escravos e principal autoridade da comarca: o Capitão-Mor Manoel Francisco Xavier. O assassino, um capataz da fazenda, quase foi linchado pelos escravos.

O que pretendia fazer Camilo Sapateiro na fazenda vizinha quando foi morto? Teria sido a sua morte, pelo capataz (um incidente algo corriqueiro na rotina escravista), a verdadeira razão da insurreição de escravos de tão grandes proporções, que se seguiu?

De roldão, os escravos rebelados, divididos em dois grupos, saquearam as duas fazendas do Capitão-Mor e fugiram para a mata próxima. Num ponto, ao que tudo indica, previamente combinando desta mata, um dos grupos se encontrou com um número indeterminado de escravos de outras fazendas, além das duas de propriedade do Capitão-Mor.

A imediata adesão de escravos de outras fazendas chama, fortemente, a atenção para a possibilidade de ter havido algum tipo de articulação prévia entre os rebelados.

O fato é que, um grande grupo se embrenha na mata, rumo a alto da Serra da Estrela, montando um arranchamento para pernoite, á cada fim de tarde do trajeto da fuga.

Perseguida por tropas da Guarda Nacional e homens recrutados pelo juiz de paz da comarca, uma parte deste grupo é atacada e dominada, quando ainda dormia, no quarto dia de fuga. Tropas do Exército Imperial, convocadas às pressas, comandadas pelo então Capitão Luiz Alves de Lima e Silva, futuro Duque de Caxias, só chegam na área do conflito quando tudo já havia terminado.

No grupo de escravos derrotados, está o suposto chefe da insurreição, denominado ‘Rei’, Manoel Congo, ferreiro da fazenda Maravilha e uma mulher, denominada ‘Rainha’, a costureira Marianna Crioula, escrava de confiança da senhora dos escravos das fazendas Maravilha e Freguesia, Dona Elisa Xavier. A um escravo morto na refrega, mas, não identificado nos autos, é atribuída a função de ‘Vice-rei’ da insurreição e do futuro suposto quilombo. Este escravo pode ser identificado, nas entrelinhas dos autos, como sendo o africano de nação Munhambane Epifânio Moçambique.

Um número indeterminado de negros do grupo atacado consegue se embrenhar na mata, serra acima e dele não se tem mais notícias. Não se tem notícias também do segundo grupo, comandado por um escravo chamado João Angola que, embora não estando presente no ponto de encontro com o ‘Rei’, nem constando no rol dos presos no momento do ataque, foi visto no dia anterior prestes a assaltar a fábrica de pólvora da região, desaparecendo por outro caminho, rumo á Serra do Couto, próxima à Serra a Estrela, aparentemente, o destino final de todos os rebelados.

Pode-se, por estas evidências, entre outras surgidas na pesquisa, supor que os relatos que dão conta da existência de um quilombo na região, jamais desbaratado, são factíveis.

A despeito destas evidências, a maioria dos proprietários alegou que seus escravos retornaram, espontaneamente, à suas fazendas, mas, não existem registros seguros dando conta de quantos, efetivamente, fugiram e retornaram. A alegação livrava os fazendeiros das pesadas custas processuais, caso tivessem negros de sua propriedade (e responsabilidade) arrolados como rebeldes. O peso total destas custas processuais acabou recaindo sobre o Capitão-Mor Manoel Francisco Xavier, que, depois dos escravos presos e condenados, passa a ser a principal vítima dos incidentes.

De um total de cerca de trezentos escravos fugidos e rebelados, apenas vinte e três (todos pertencentes a Manoel Francisco Xavier) são aprisionados (sete haviam sido mortos na refrega). Destes vinte e três presos, sete são mulheres (é significativo, do ponto de vista logístico, o fato deste grupo de presos, a maioria feridos na refrega, ser aquele onde estavam a maioria das mulheres e, provavelmente, os homens mais velhos e as crianças).

Cerca de dezesseis presos deste grupo são, efetivamente, julgados. A maioria é condenada, com uma única exceção: o escravo Adão Benguela que, apesar de estar tão envolvido quanto todos os outros nos conflitos, é estranhamente absolvido.

O suposto ‘Rei’ Manoel Congo’, é condenado à forca e executado em 1839 em Vassouras.

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Os Antecedentes

A observação acurada – e crítica – de fatos descritos em documentos da época, principalmente os autos do processo montado na ocasião, contendo os depoimentos dos escravos presos, pequenos indícios ou omissões aparentemente deliberadas, contradições entre os depoimentos, etc., formam a base principal utilizada para a elaboração deste texto teatral. Formam também a base de dados da pesquisa, textos esparsos, de outras fontes e um raro e inestimável relato, ao vivo, extraído pelo autor de uma entrevista (veja neste link) por ele realizada em 1975, com uma ex-escrava de uma das fazendas da região, que ali viveu, alguns anos após os incidentes descritos pelos autos.

A intenção foi, portanto, construir a trama, mais ou menos como uma reportagem (‘Teatro-Verdade’, talvez fosse o conceito mais apropriado) sempre que possível, a partir de dados verídicos, mais ou menos à maneira de uma reconstituição policial.

Com efeito, coisas muito inusitadas ocorriam naquela região nesta época de grande efervescência social.

Segundo dados descritos na crônica da cidade de Vassouras, um ano antes da fundação da vila, ocorrida em 1833, um grupo de proprietários criava a Sociedade Promotora da Civilização e da Indústria, de verniz positivista, e dedicada, entre outras coisas, à formação de artífices escravos, como mão de obra especializada, com o fim de possibilitar a manutenção de equipamentos, até então, feita por engenheiros vindos da Inglaterra e até – suprema ousadia – iniciar talvez a própria substituição da importação de máquinas e ferramentas agrícolas que, oriundas da Europa, obviamente com a mão de obra dos escravos-operários especializados, formados pela SCPI, passariam a ser fabricadas por aqui mesmo.

Ferreiros e marceneiros eram as principais especialidades indispensáveis à incrível proposta desenvolvimentista da SCPI. Os artífices a serem treinados, seriam recrutados, por seus proprietários, entre os seus escravos mais hábeis e inteligentes.

A mais incrível das coincidências era que o ofício de ferreiro era, ainda nesta época, a partir de uma tradição africana que remonta o século 10 (segundo alguns relatos, talvez até um pouco antes disto), uma ocupação exclusiva de reis e nobres, um status de poder hierárquico superior na cultura dos Kimbundos, grupo étnico angolano que, em grande maioria, contribuiu com escravos para as plantações de café do vale do Paraíba do Sul.

Sabe-se pelas mesmas fontes que, um ano depois (por volta de 1834), uma curiosa sociedade secreta, composta por negros escravos e libertos, com uma elaborada estrutura, havia surgido em Vassouras, quatro anos, portanto, antes da insurreição de Manoel Congo. Esta ‘insidiosa’ organização, segundo foi descrito por esta mesma crônica da Cidade de vassouras, andava ruminando um levante que pretendia libertar todos os escravos da área.

Somente nove anos depois, ou seja, em 1847, a tal organização secreta pode ser desbaratada. Os registros policiais da ocasião, afirmaram que ela se autodenominava Elbanda (Embanda, mais propriamente talvez, por ser a expressão o mesmo que sacerdote ou médico no idioma de origem) e era formada por núcleos ou células clandestinas, dirigidas, obrigatoriamente, por escravos ferreiros e marceneiros, chamados pelos outros escravos de ‘Pais’ (ou ‘Tatas’) Korongos.

Também curiosamente, pesquisas bem recentes sobre a cultura dos Kimbundos, nos dão conta que era por demais comum na sociedade angolana do século 19, a proliferação de seitas e sociedades secretas, por diversas motivações, prática que pode ter sido seguida pelos escravos de Vassouras.

Esta emocionante reconstituição nos dá conta, enfim, de uma malha de estranhas relações, interesses e contradições, bastante incomuns na história oficial do escravismo brasileiro, estabelecidas entre proprietários e escravos, escravos entre si, além de proprietários, do mesmo modo entre si. Um impressionante conflito humano sacudindo os alicerces daquela sociedade imperial, questionando o seu anacronismo. Matéria pura para teatro. Drama.

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Você vai poder ler num próximo momento, neste mesmo site, o texto completo deste emocionante Auto do Manoel Kongo, cuja extensa resenha disponibilizamos aqui.

Saiba desde já, contudo, que para a felicidade geral da nação (mesmo que incomode a alguns poucos) toda história que precisa ser contada, mais cedo ou mais tarde o será.

O Quilombo do Manoel Kongo vive!

EM PRIMEIRA MÃO: Leia texto teatral integral aqui!

SURPLUS!!!Antes que seja tarde demais

•Fevereiro 21, 2009 • 1 Comentário

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Assista aqui o apavorante doc. SURPLUS agora e desglobalize-se, antes que seja tarde demais.

Na Lapa de Makemba #03

•Janeiro 28, 2009 • 8 Comentários


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Cachoeira vista da lapa de Pedro – Foto de Spírito Santo
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O Bem o Mal e os ‘diablitos Ñanigos’

Caminhar até a lapa de Pedro e ‘Miúda’ (veja partes #01 e #02 deste post) foi assim como caminhar no paraíso. Parecia ser uma graça obtida por termos seguido tão contritos – apesar de surpresos, a Folia de Reis comandada por Pedro da Miúda, mas, não. Aquilo era muito mais do que uma graça.

Primeiro que, graça mesmo quem tinha obtido era ele, Pedro, o sortudo que além de ter a alegria companheira de ‘Miúda’ e a euforia divina da folia, tinha – digamos assim – certa independência financeira representada pela casinha própria, de alvenaria industrializada (coisa rara por ali) e do bem abastecido bar que, proprietário feliz (e sóbrio) administra tudo isto obtido – segundo ele diz jurando de pés juntos – pela graça suprema de ter achado, há pouco tempo atrás, o mais valioso diamante de toda a sua vida.

O diamante da vida. Sonho recorrente de todos os quilombolas ou não quilombolas por aquelas – por isto mesmo – tão espertas e arredias brenhas. Um anseio tão intenso quanto irresistível, que se transformara em vício incurável que a todos contamina, a ponto de nós mesmos, citadinos incrédulos, influenciados pelas histórias de tantos garimpos bem sucedidos, das notícias das generosas rodadas de pinga gastas nos festejos dos ‘enricados’ da vez, passarmos a andar, furtivamente investigando, de rabo de olho, o cascalho dos córregos do caminho, como crianças que acreditam que no pé de todo arco íris existe um pote de ouro escondido.

Delírios à parte, pobre como manda o figurino de uma folia de reis de vera, a do Pedro tinha um jeitão assim, inacreditavelmente autêntico, com um ar de folia ‘á moda antiga’ mesmo – pelo menos como eu podia imaginar – ou vagamente lembrar – que fossem as folias de reis da minha infância.

Seria mais incrível ainda enxergar toda esta autenticidade, esta veracidade tão inusitada na folia do Pedro, se considerássemos que a manifestação esteve extinta em São João da Chapada durante quase 30 anos (o mesmo incrível tempo que demorei para voltar ao lugar).

Contaram-nos os mais orgulhosos que a prática acabara de ser, totalmente ressuscitada por obra do pessoal de Quartel de Indaiá, como já se constatou – e afirmou cheio de razão o Gerhard Kubik - uma formidável ‘ilha cultural’, um verdadeiro ‘Shangrilá’ de hábitos e costumes deste negro Brasil profundo que visitávamos.

A Folia rediviva viera de Quartel de Indaiá junto com os descendentes dos quilombolas de Makemba, que hoje num processo de franca mudança para a cidade ‘grande’ (São João grande? pobre São João!) trouxe também na sua curiosa memória a Folia de Reis original, do mesmo jeitinho que a faziam por lá até pelo menos 1980, por aí.

Morta-aqui-viva-acolá que era, a Folia de Quartel de Indaiá comandada pelo Pedro (que também é oriundo de Quartel) parece que veio pura, renascida do fundo do oco da gruta onde ele morara naqueles 18 anos com ‘Miúda’.

(Só pra vocês terem uma ideia do quanto a folia deles é insólita, nela não tem nem sombra daqueles palhaços que o Fernando Ortiz viu no El dia de Reyes de Cuba, algo inspiradas segundo ele nos ensina, em sociedades secretas típicas da África, com o nome de ‘Diablitos Ñañigos).

Vocês sabem de quais palhaços estou falando? Isto mesmo. Aqueles com as aterrorizantes máscaras peludas, fedidas, que muitos de nós no Brasil cansamos de ver por aí a fora (as favelas mais antigas do Rio de Janeiro tinham, antigamente, folias de Reis clássicas).

Falando nisto, aliás, honestamente não sei por que os etnólogos daqui – talvez eu não saiba que eles sabem – não se deram conta ainda de que, se o El dia de Reys (06 de Janeiro) de lá de Cuba é o mesmo que o Dia de Reis daqui do Brasil, porque diabos os palhaços de lá e daqui não seriam ‘hermanos’, da mesma origem? (Se bem que, no caso da folia do pessoal de Quartel e São João da Chapada, esta acadêmica discussão seria, totalmente irrelevante, não é não?)

Irrelevâncias à parte, o fato é que eu nunca havia ouvido falar também, em nenhuma outra Folia de Reis, do pitoresco entrecho dançante chamado de ‘Chula’ que a Miúda, agitadamente, lá pelas tantas, nos anunciou. Você já havia ouvido falar disso?

Até o momento em que ‘Miúda’ de Pedro, excitada com a hora de organizar o tal entrecho (do qual ela se declarou a ‘chefe’) eu não fazia mesmo a menor ideia do que fosse. Juro por Deus.

Ah sim! ‘Chula’ – pude logo deduzir, mesmo antes de ver – um nome recorrente em nossa cultura popular, sempre relacionado a certo contexto. No caso, “chula’ de vulgar (no sentido de insólita, profana) em relação à catolicíssima Folia. Fora esta tentativa chinfrim de conceituar alguma coisa, a ‘Chula’ da Miúda era um grande mistério para mim.

E como era insólita esta chula da ‘Miúda’! Nada a ver com a folia em si. Ela era um entrecho mesmo, um ‘interregno’, um ‘intermezzo’, a mais pura e rasgada dança, enfiada na pudica Folia.

E mais: só havia mulheres dançando. Todas, das mais antigas (como ‘Miúda’ e Maria ‘Macarrão’) as mais pequetitinhas, todas graciosamente meninas, terçando passos de pura alegria feminina.

dancando-a-chula

(No dia seguinte, já em Quartel de Indaiá, soubemos que por lá ainda praticavam duas outras danças também, absolutamente desconhecidas para mim (estas com muita pinta de serem espécies de lutas marciais quilombolas, de machos por se assim dizer): O ‘Lundu de Pau’ e a ‘Pomba chorou’, ambas baseadas em estripulias agressivas, ritmadas com longos porretes (errou, paulada levou).

E foi assim que no dia seguinte Pedro da ‘Miúda’, por conta das várias emoções que trocamos nos deu então honra de nos levar a conhecer a sua lapa querida, distante 3 horas a pé de São João, montanha a dentro e, no dia seguinte, a casa-mocambo de Pedro Vissungueiro, que evasivo e reticente como que (por conta talvez de ter sido já por demais assediado nos últimos tempos, quando até um filme sobre ele andaram fazendo) falou, falou, mas, nenhum ponto de vissungo cantou (alegou a dor da perda do irmão Paulo, seu parceiro mas, talvez – sussurou alguém da família – se rolasse uma ‘ajudazinha’, quem sabe…)

Nem precisava. Sorte nossa que queríamos ouvir mesmo – e gravar – muito mais o que ele falou, falou (a agonia, o assédio, o processo da memória dos vissungos se apagando) do que dos ‘pontos’ que porventura cismasse de cantar. Tínhamos já toda uma coleção de registros, pelo menos desde 1942, além do acesso já garantido à inúmeras fontes seguras, em acervos públicos, onde outras gravações essenciais se acham também preservadas, acessíveis a qualquer interessado.

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Pedro Lucindo, o Vissungueiro, não sabe (ou não liga) ainda, mas, cultura oral é memória cega, vaga, imagem que se distorce ou se apaga com o tempo. Tem valor inestimável apenas enquanto não virar registro perene. Antes disto ninguém sabe direito o valor que tem, como um caco de imagem sem rosto, um fragmento de canção sem sentido (ainda mais se for coisa rarefeita como são os diamantes e os Vissungos).

Quem dá mais por uma remota lembrança íntima, pessoal? Quanto vale uma cantiga estranha entoada no enterro do seu avô? Quanto estaríamos dispostos a pagar pela tradução de uma palavra esdrúxula que encerra um enigma histórico transatlântico?

Dez? Cem? Mil reais? Um punhado de telhas de barro?

Largados naquelas brenhas com o fim da Real Extração e a tardia abolição da escravatura, os angolanos do Serro, Diamantina e adjacências garimparam a própria sorte nas gretas da montanha e sobreviveram se alimentando dos fósseis de suas lembranças da África durante quase 300 anos, mas, da ‘descoberta’ dos Vissungos em 1928 até a sua provável morte em 2008, foram necessários apenas 80 anos.

Ah… Tão poucos diamantes para tão pouca vida.

Zélia do Baú, uma das quilombolas entrevistadas, franca, alegre, porém, incisiva nos contou que entre as suas lembranças mais pungentes do tempo de criança, estava a fome, esperando noite a dentro, muitas vezes em vão, que o pai retornasse de Milho Verde com algumas ‘pouquinhas coisas de comer’.

_”Os homens viviam do garimpo de umas poucas pedrinhas. Com o que achavam, iam para Milho Verde, onde eram ludibriados pelos intermediários dos compradores mas, mesmo assim felizes, se embebedavam. As vezes nem voltavam. Ficavam caídos pela lama da estrada, sem um tostão”.

Hoje, devassada redoma de memórias em que se transformaram seus quilombos…‘remanescentes’, ainda largados nas mesmas brenhas de sempre, ainda sem acesso a qualquer benefício social que seja, trabalho, escola, saúde, etc. sem mais o que garimpar nos córregos e cachoeiras (já sendo tomadas pelos turistas) deixam então que lhes garimpem a própria alma.

(Á margem da bucólica Folia de Reis de Pedro e de Miúda já se pode ver um ou outro menininho de São João da Chapada pedindo uns trocados aos poucos visitantes. Jovens sem trabalho já fumam baseados de maconha pelas esquinas (por acaso uma palavra vinda do kimbundo: ‘Ma-kanha’). Na chegada à Milho Verde, a sensação de que havíamos aportado no oco do mundo logo se desvaneceu quando ouvimos o bate-estaca de uma festa rave, em algum recanto próximo.

Pedro Lucindo, precisa mesmo saber, antes que seja tarde, que o que vale ‘algum dinheirinho’ é o registro, a coisa física, a memória franca tornada concreta num filme, num CD, a memória tornada produto, documento visível, audível para todos.

Talvez seja por não saber disto ainda que, convencido pela força do assédio de alguns espertos esquadrinhadores, tenta vender os fragmentos de sua memória, já meio embaçadas lembranças, não mais tão pepitas de diamante como eram, por exemplo, as de João Tameirão (registrado por Aires da Mata em 1930), as de José Paulino de Assunção (gravado por Corrêa de Azevedo em 1942) ou mesmo as lembranças do último mestre Vissungueiro real , Crispim Viríssimo (adepto da difusão incondicional dos cantos) que, mesmo assim, como as lembranças de todos os outros antecessores, inapelavelmente morreram, foram para o kalunga.

(Interessantíssima figura, Crispim Viríssimo, pouco antes de morrer havia começado o dicionário que ele chamou de ‘linguagem africana’ um caderno manuscrito, roto, de poucas páginas, no qual ele começou a anotar palavras e significados de uso corrente no repertório dos Vissungos e no linguajar ‘dos mais antigos’ segundo lhe ditava a memória. Emblemática, a iniciativa simboliza o formidável esforço dele em transpor o umbral da literatura oral para a escrita para melhor cumprir a sua assumida missão de perpetuador da cultura benguela)

O dicionário do Crispim
Página do ‘dicionário’ de Crispim Viríssimo

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Em memória do falecido
Por uma genealogia dos Vissungos

…_Otê…Pádi nosso cum ave Maria
Securo, tamera, nta’anganazambi…
Ê calunga qui tom’ossemá
Ê calunga qui ntan’nganazambi, aio!”

(‘Pádi Nosso’ de Vissungo, Quartel de Indaiá)

Deixando a nostalgia de lado, juntando todas as evidências que se pode levantar e registrar até aqui, a palavra ‘ovissungo’, plural de ‘ocisungo’ significando, literalmente ‘hinos’ ou ‘louvores’ (no vernáculo Umbundo), pode ter servido de forma genérica para, erroneamente denominar na área de Diamantina, muitas outras práticas musicais características de grupos etnolinguísticos conhecidos hoje, ainda vulgarmente como Kimbundos, Umbundos ou Benguelas (na verdade um conjunto bem maior e diverso de grupos étnicos descendentes dos Bakongo), vindos como escravos para Minas Gerais em determinada época, acentuadamente a partir do fim do século 18 e início século 19.

Resumindo em termos mais precisos (utilizando ainda a coleta de Aires da Mata Machado Filho como referencia) é provável que Vissungos sejam, portanto apenas uma parte específica do conjunto dos 65 cantos recolhidos, exatamente aquela identificada por Aires como sendo de ‘evidente teor religioso’ (como os cantos para enterrar defuntos, por exemplo).

Por este ponto de vista, a maior parte dos cantos teriam outras especificidades, usados que seriam enfim para finalidades as mais diversas, entre as quais a marcação do ritmo de atividades laborais tais como ‘secar água’, ‘subir ladeiras’, anunciar a ‘hora do almoço’ ou o fim do dia de labuta (cantos de trabalho clássicos)

Estes cantos podem ter até mesmo um caráter sócio recreativo, caracterizados que são pelas disputas na decifração de adivinhas e charadas, conhecidos mais a sudeste de Minas Gerais pelo nome de Jongo, corruptela talvez da prática angolana classificada por Hèli Chatelain no século 19 como Jinongonongo (modelo no qual se pode inserir, perfeitamente, as chamadas canções de ‘mofa’ ou de ‘insulto’, descritas por Aires).

É importante se ressaltar, sobretudo que a palavra ‘Vissungo’, isolada do contexto generalizante no qual a maioria das teses e artigos acabaram por reduzi-la, pode estar relacionada sim, diretamente, a um tipo especial de canção tradicional de caráter eminentemente religioso (música sacra, litúrgica, por assim dizer).

Com efeito, a palavra parece servir em Angola até hoje em dia, para designar hinos religiosos especiais (como os ‘benditos’ e ‘incelenças’ de expressão portuguesa) utilizados talvez em missões apostólicas, tanto católicas quanto protestantes, notadamente na região do Benguela, local onde a disseminação deste tipo de missionarismo ocorreu, com alguma regularidade, de meados do século 18 até o início do século 20.

A existência de vocábulos do português, intrinsecamente associados ao texto de alguns destes cantos mais clássicos (como os ‘pádi nossos’, por exemplo) afora a possibilidade algo remota a nosso ver de terem sido incorporados no Brasil, não invalidam, de modo algum a hipótese de muitas destas canções terem chegado ao Brasil da forma muito próxima da que foram encontradas da primeira vez por aqui no fim da década de 1920.

Mesmo a ocorrência de gírias, expressões idiomáticas e vocábulos extraídos de um português castiço (uma espécie de ‘idioma crioulo são joanense’ como bem definiu Aires da Mata) nas letras de muitos Vissungos, não podem ser com, total segurança, atribuídos à experiência linguística destes escravos no Brasil, pela simples razão de que esta mesma experiência já se daria ainda na África, desde época bem remota (só como exemplo, devemos considerar que o catolicismo português já havia sido introduzido em Angola desde o século 15, notadamente em regiões no entorno dos centros administrativos de então tais como Luanda e, posteriormente, Benguela)

Esta prática, em seu sentido etnomusicológico mais genérico, com relativa segurança, pode ter se disseminado por todas as regiões brasileiras onde foram utilizados escravos da mesma origem etnolinguística.

A única razão que justificaria a interpretação que se dá ao vocábulo, portanto, como sendo o nome de uma prática cultural específica, é o fato de ele ter sido usado (pelo que se pode averiguar até agora) com esta denominação, apenas naquela remota região.

Nesta linha de raciocínio, genericamente como tem sido feito, seriam também ‘Vissungos’ alguns tipos de pontos de jongo, de congada, de candombes e moçambiques, assim como de catupês (ou catopés) e diversos outros gêneros de música tradicional de inspiração angolana existentes no Brasil, principalmente em Minas Gerais.

Já tivemos inclusive, pessoalmente a oportunidade de observar em muitas destas manifestações, a insistente ocorrência de ‘pontos’ e canções com a mesma estrutura musical dos ‘Vissungos’, inclusive no seu aspecto etnolinguístico.

“…Outra importante função no grupo (de catopês) é a do Corongigia, que carrega consigo um remédio preparado com raízes com a função de proteção e de cura espiritual.”

(‘Os cantos sagrados de Milho Verde, publicação da Associação Cultural e Comunitária do Catopê e da Marujada de Milho Verde e Adjacências ACMVA- Milho Verde MG)

Sintomaticamente, na gravação da The Library of Congress de 1942, os cantores de Vissungos José Paulino de Assunção e seu filho Francisco Paulino – são os mesmos que entoam as cantigas de catopês. José Paulino, aliás, (a exemplo de Crispim Viríssimo, Ivo Silvério da Rocha e outros) consta até hoje na lista dos mais eminentes mestres de Catopês da região, condição que, ao que parece, é comum a todos os mestres de Vissungos. A estreita relação existente entre Vissungos e Catopês ao que tudo indica, é mais estreita do que, comumente a maioria dos estudiosos tende a admitir.

É mesmo provável que, num fenômeno ainda pouco estudado ou observado no Brasil, práticas musicais ancestrais trazidas pelos escravos da África como uma todo, após a extinção das práticas sociais que as consubstanciavam, tenham tido como destino natural, a migração para o repertório de outras manifestações de caráter mais, claramente profano (ou festivo, artístico enfim) ganhando deste modo uma sobrevida, até se incorporarem, muitas vezes imperceptivelmente, no âmbito do que chamamos de Música Brasileira de uma maneira geral.

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Pra Nganazambi um Pádi Nosso cum Ave Maria
O Vissungo morreu! Viva o vissungo!

Sobraram-nos no testemunho do drama pungente da morte dos vissungos, os registros de um modo de vida tão arcaico quanto digno, envenenado pelo tempo sim, mas – um pouco que seja talvez – também pela ética estranha dos esquadrinhadores, portadora de um veneno que não há casca de árvore nem curiandamba capaz de debelar.

Sem choro nem vela, do ponto de vista etnomusicológico a importância dos ‘vissungos do Tijuco’ seria por estas hipóteses, maior ainda do que se imaginava, abrindo novas possibilidades para uma melhor compreensão das especificidades de toda a música africana praticada no Brasil, bem além das reiterações e dos lugares comuns ainda em voga.

Em resumo o que teria ocorrido na região do entorno de Diamantina e Serro em Minas Gerais teria sido, nada mais nada menos, do que o acaso de especiais circunstancias ensejarem a preservação de práticas culturais – principalmente, musicais – muito específicas de uma determinada região africana mantendo-as, maravilhosamente íntegras até a década de 1928, quando Aires da Mata Machado Filho e Araujo Sobrinho, seu informante local, as ‘descobriram’, com a ajuda decisiva do garimpeiro João Tameirão.

A natureza tão especial destas circunstâncias como vimos está, por ordem de importância, ligada, muito provavelmente, às opções estratégicas adotadas pelas autoridades coloniais portuguesas, no sentido de transferir para as minas de ouro (e, em seguida diamantes) descobertas na região do Serro e, posteriormente, São João da Chapada em Diamantina (Arraial do Tijuco) no início do século 18, escravos oriundos de certa região de Angola (o Reino do Benguela) onde a mineração já era praticada pelos habitantes locais, de forma especializada e sistematizada (de forma talvez até mais intensa, na época, do que no resto do território sob o jugo de Portugal).

O Reino de Benguela era assim constituído por um grupo de potentados africanos independentes (Quissama, Libolo, Caconda, Quilengue, Cuanhama, etc. nota do autor) que os Portugueses tentaram dominar no intuito de expandir a captura e troca de escravos para além dos reinos do Congo e de Angola, que rapidamente perdiam população, e que assim não podiam garantir uma oferta sustentável de escravos para os engenhos de açúcar do Brasil.

…De acordo com este ponto de vista, os Portugueses criaram a possessão autónoma de Benguela como “válvula de escape”, com receio da perda de Luanda, e com ela todo o acesso ao comércio negreiro no Atlântico Sul.”

(Helder Ponte em www.introestudohistangola.blogspot.com)

Ou seja, a questão crucial que se impõe às pesquisas atuais sobre este entre outros assuntos do gênero, talvez seja esclarecer como e porque a prática de se cantar vissungos teria, excepcionalmente, durado tanto tempo, a ponto de ainda ser lembrada, na maioria dos seus muitos detalhes ainda em 1928, havendo permanecido, estranhamente, íntegra, imune às naturais influências do seu meio brasileiro, por mais de um século depois de ter sido iniciada por aqui. Parece evidente também neste caso, que o foco destas pesquisas deva ser ajustado para dois pontos, ainda negligenciados da questão, a saber:

1- Muito mais do que na cultura urbana e rural (ou ‘suburbana’) acessível e visível em manifestações culturais comuns e recorrentes, como terreiros de candomblé e umbanda e festas periódicas tais como Congadas, Maracatus e Marujadas, por exemplo, as chaves mais elucidativas do ponto de vista etnológico, no que diz respeito á cultura brasileira de origem africana, parecem estar naquelas manifestações bem recônditas e obscuras, como as praticadas em lugarejos ainda existentes no interior dos estados do Rio de Janeiro e São Paulo (como o Jongo mais ‘primitivo’), além de certos lugares remotos em Minas Gerais onde ainda se conhece os Vissungos (antigos quilombos ou lugarejos surgidos em torno de lavras de garimpo clandestinas, principalmente). Verdadeiros sítios etnológicos onde fragmentos essenciais desta história oral, eventualmente estão preservados na memória dos habitantes, há que se estabelecer um conceito de ética (acadêmica ou não acadêmica), no trato da questão ‘pesquisa de campo‘ nestes locais.

2- Noutro sentido, as propriedades mais importantes à perfeita compreensão dos fundamentos essenciais destas manifestações não podem ser, de modo algum, decifradas se não se realizar um profundo estudo comparativo delas em seu contexto original africano.

No caso específico dos Vissungos (e da cultura negra do sudeste do Brasil como um todo) nada será efetivamente compreendido se não se estudar, detidamente, a cultura angolana, notadamente naqueles aspectos relacionados à Linguística, a cosmologia, a história enfim do povo Bakongo, com ênfase na sua expansão pela região abrangida pela invasão e influência militar portuguesa, região esta compreendida pelo antigo reino do Kongo (século 15 e 16), das adjacências do porto de Luanda e da cidade de Mbaka-Ambaça (até o seculo dezoito) e às adjacências do Porto de Benguela (do século dezoito até os anos mais próximos à abolição da escravatura).

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Pois foi assim – era uma vez enfim – sem tirar nem por, que a viagem aos falecidos Vissungos do Tijuco se deu (infelizmente, como a vida, toda viagem tem um fim).

Nem pau nem pedra. Nem oito nem oitenta (como já se viu esta história – quase um filme – tem dois Pedros e duas medidas). Pode estar nela a chave para a elucidação de diversas outras ainda mal traçadas linhas de nossa pujante – e ainda tão pouco reconhecida – diversidade cultural brasileira.

“_ Juro por tudo neste mundo que esta voz é do meu sangue, da minha família!– disse Ivo Silvério, ao ouvir, arrepiado, a voz do seu tio José Paulino cantando um ponto de Vissungo na gravação da Library of Congress de 1942.

Spírito Santo
Janeiro de 2009
(Com o não menos extasiado companheirismo de Cassio Gusson, Felipe Mantovan e Paulo Genestretti, parceiros da aventura)