Mídias liquidas. Um conceito para a cultura negra na Diáspora


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MÍDIAS LÍQUIDAS, o conceito
A cultura africana na Diáspora navegou por águas inesperadas

Muitas e intensas evidências de que a gênese dessa musicalidade africana na Diáspora, como verdes campos e matas ribeirinhas, se localiza nas bacias dos rios Zambeze e Congo, que cortam e banham uma enorme região da África saindo, um (o  Nzaidi ou Zaire conhecido também como Congo ) do centro do continente rumo ao Atlântico e o outro nascendo mais ao leste, na Zâmbia (que tem algo do Zambese no nome) daí seguindo para o Índico, até a região central de Moçambique. 

Essa rica música, borbulhante, tanto lá, quanto aqui na Corte do Rio de Janeiro de meados do século 19, foi sugada junto com as pessoas capturadas nessas regiões, música sequestrada, pois, mas jamais refém de ninguém, porque se esvaiu pelas frestas do sistema escravista e inundou as ruas das nossas grandes cidades, aqui, a partir da Corte Imperial. 

Difícil barrar os rios.

Depois de se espraiar irrigando esta maior parte do continente africano, numa malha fluvial que unia os dois lados da chamada África Central, de leste a oeste, a cultura desses povos sequestrados, hermeticamente contida na memória dos cativos, foi canalizada para portos na costa atlântica (Amboin, Ambriz e Benguela além de, em menores proporções, na costa oriental, o Inhambane), por fim atravessando daí o meio líquido fatal do Oceano Atlântico, fazendo a mitologia do Kalunga – um meio líquido – aaquela do Cosmograma, balongo, fazer todo o sentido.

Difícil domar os mares

Mídias líquidas ensejaram e configuraram a música e a cultura da Diáspora. Quase anfíbios, somos parte desse estuário. 

Spírito Santo
Junho 2020

(Se você é dado à academicices, não confunda este conceito com o de Zigmunt Bauman (“Modernidade líquida”) no caso de Bauman, se trata de aspectos modernos de nossa sociedade que, eventualmente podem se liquifazer. No nosso caso se trata de coisas líquidas em sentido lato mesmo, meio pelo qual a cultura dessa região foi transferida para o Brasil, junto com mercadorias, entre elas gente capturada, trazida à força para cá.

Angola irmã do Brasil – Cultura Bakongo para principiantes


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Estatueta Mpemba Mayombe - República Democrática do Congo

Estatueta Mpemba Mayombe – República Democrática do Congo. Congo? Sim. Saiba que a área Bakongo abrange também a região sul da República Democrática do Congo.

Os Bakongo ontem e hoje

Situando brasileiros na conversa

A enorme influência dos africanos no Brasil, todo mundo sabe,  se deu por força do tráfico de escravos. O que é preciso entender  e prestar mais atenção é que este processo maciço de transferencia de gente da África para cá, estava diretamente determinado pela localização geográfica dos centros de comercio e das feitorias implantadas por Portugal em suas colônias, em meio a um processo de ocupação de posições no litoral do Oceano Atlântico,  a partir da invasão do Kongo no fim do século 15.

É lógico se supor portanto que, excetuando-se a quase irrisória vinda de gente da Costa dos Escravos ( yorubas, ganenses, daomeanos, etc. sudaneses segundo se dizia ao tempo de Nina Rodrigues) para a Bahia, a história do negro brasileiro começa – e como poderemos ver mais tarde, continua – com a vinda de negros desta parte do que hoje conhecemos com Angola.

O povo que habitava estas regiões – notadamente o chamado Reino do Kongo – é conhecido como BaKongo cujo predomínio territorial e espírito independentista, meio que moldou toda a história da região até, pelo menos o século 17. A influência cultural deste interessante povo – notadamente no espaço destes dois séculos – ajudou a moldar também o que é a cultura angolana atual, com fortes relações – fundamentais mesmo – com o que chamamos de Cultura Negra no Brasil moderno.

Este simples detalhe cronológico determina, portanto que, os incidentes ocorridos no Brasil no período em que os BaKongo eram importantes lá na África – nos séculos 16 e 17 , com episódios como o  Kilombo de Palmares, por exemplo – têm intrínseca ligação com a história e a cultura dos BaKongo.

Ou seja – para os desavisados – nas bases reais de nossa formação cultural afro-negra (e observem que não estou falando de religião), quase não há sombra de Yoruba ou ‘axé babá’ na parada.

(Ao que parece alguém está inventando e nos vendendo uma outra história).

Este fato simplório torna óbvia a afirrmação de que não se pode, sequer entender estes episódios se não conhecemos a história africana da qual eles dizem respeito, a qual eles correspondem diretamente enfim.

No intuito de ajudar a corrigir este ‘mico’ antológico do negro do Brasil que ignora, solenemente a maioria do que foi dito acima, nada mais urgente então do que – só pra início de conversa –  conhecer algo sobre nossos irmãos bakongo.

Se ligua aí kandandu!

(A seguir,  matéria extraída do artigo “Crivação histórico-política 1975 1993 na sexta-feira sangrenta”)

Por: Jose Luquissa

“A Angola comemorou, o 11 de Novembro passado, os seus trinta e dois anos de independência. Um terço de século durante o qual este país viveu na dor.

Canadá/Calgary – Eu até sou Benguelense, mais propriamente do Lobito, ou melhor da Canata, bairro suburbano onde nascerem grandes figuras que hoje fazem a malha do tecido intelectual Angolano. Por outro lado, também foi o bairro dos tais que se intitulam originários do Lobito, os Kamutangres.

Contudo, não posso deixar de enaltecer o meu apreço e admiração aos Angolanos da etnia Bakongo, (os Mucongos). Os Bakongo, um grupo Bantu, que se estende desde o Congo (Brazzavile), parte do Congo Democrático e parte norte de Angola, possuem uma identidade própria, que os distingue dos demais povos e que ao mesmo tempo os identifica como africanos, juntando-se aos Yoruba da Nigéria, os Ashanti do Gana, os Nyangas do Gabao, Os Ovambos da Namibia, os Zulu da África do Sul, e outros tantos que se espalham pela África dentro.

A minha admiração se curva pela maneira sólida em como estes têm sabido manter inalterável a sua integridade etnolinguística. Durante os anos do processo de colonização e até os dias de hoje, esse grupo étnico angolano, tem sido alvo de insultos e certa discriminação, renegados ao escalão inferior, o que me leva concluir que manter esta integridade não tem sido fácil ou simplesmente mero acaso.

O reino do Congo , era o mais estruturado dentre os demais reinos que constituem hoje a nação Angolana. Era composto por províncias que eram dirigidas por aristocratas (Sumu), que dependiam directamente do rei (Ntotila). Para além de uma economia organizada, cujos produtos incitaram as trocas comerciais com os portugueses, onde já utilizavam moedas, (Libongo e Nzimbo), eles eram detentores de uma cultura rica, sólida e inabalável.

O Bacongo é um povo temente a Deus e já possuía seus profetas entre Kimpa Vita (D. Beatriz), Simão Kimbangu (igreja kimbanguista) e Simão Toco (igreja tocoista), e muito mais, para além dos profetas menores, como Simão Padi, André Matshoha e outros, numa forma de religião organizada.

Ignorar o Mucongo, significa tão-somente apagar uma parte integrante da história de Angola . O povo Bakongo transborda no seu exterior fortes sinais de rejeição a presença e ocupação portuguesa. Sendo o primeiro a ter contacto com os portugueses e que com eles estiveram mais tempo, não assimilaram os modos de vida destes e resistiram a submeter-se a eles.

Foram eles os primeiros Angolanos a desencadear uma acção militar activa contra o colonialista português através Álvaro Tulante Buta em 1913, seguido de Mbianda Ngunga. Muito mais tarde, o surgimento dos movimentos no norte centro e sul que levaram a independência de Angola em 1975.

Os Bakongo conservam seus hábitos e costumes até aos nossos dias. Fruto de um ensinamento que vem passando de geração a geração e tende em continuar, pese embora as congruências do nosso país em relação os valores culturais e a preservação das nossas origens.

Estes valores aliados a sua renitente acção contra a presença portuguesa, ocasionou um distanciamento dos portugueses dos Bakongo, que passaram a chamar-lhe de terroristas, gerando assim uma aparência negativa dos povos deste grupo étnico, aparência essa que foi acentuada pelos assimilados e servidores dos interesses portugueses, vinculando-lhe actos desgastantes, o mesmo que se verifica ate os dias de hoje infelizmente.

Um pouco diferente, os povos Ambundu e Ovimbundu, sobretudo, foram deixando-se levar pelos Portugueses em quase todos os seus estilos de vida e permitiram com tamanha leviandade a presença destes em seus territórios, submetendo-se avidamente as suas ordens, quão obedientes e submissos.

Em protesto a ocupação de suas terras cultiváveis, os Bakongo recusavam-se a trabalhar para os portugueses em suas próprias terras, o que levou aos portugueses empregaram trabalhadores Ovimbundu. Em função disto os Bakongos viam nos ovimbundu de cúmplices dos portugueses, por isso, a quando da insurreição armada de 1961, estes trabalhadores não foram poupados.

Para além de serem obrigados a trabalhar como escravos e humilhados, os Ambundu e Ovimbundu viram suas mulheres violadas e desonradas, servindo de objeto de prazer dos Portugueses, dali se justifica a mestiçagem gerada nas regiões de Luanda Malange, Kuanza Norte e Sul, Huambo, Bié, Benguela e Huíla. Os portugueses aproveitavam-se do seu poderio abusava das mulheres desde as escravas as lavadeiras sem grandes resistências.

Para os Bakongo, o casamento sempre teve um valor altíssimo, relações conjugais deviam obedecer os procedimentos, onde regras e princípios eram seguidos a risca, o que não convinha nem era motivador aos portugueses. Por outro lado, as próprias mulheres detinham uma conduta moral, que hoje não se vê o mesmo índice de mestiçagem nas regiões do Uíje, Cabinda e Zaire .

Até aos nossos dias, essa cultura se mantém, pois, exige-se, ou ao menos tende-se a exigir a responsabilidade aos jovens nos relacionamentos amorosos, em que o envolvimento familiar é imprescindível.

O casamento dentro do ciclo étnico é seguido entre a maioria dos Africanos, europeus, asiáticos, latinos, árabes e outras raças, embora com algumas excepções, isto demonstra como é importante conservar os valores culturais. Se os Bakongo também optaram em casar entre membros da sua etnia, ilustra assim o interesse que eles tinham e têm na preservação dos seus valores.

Durante os anos 50 e 60, sobretudo após a independência dos Congos, mais de meio milhão (500.000) de Bakongo, fugidos da repressão colonial, seguiram para aqueles países vizinhos em especial o Congo Democrático (ex-Zaire). Onde num mesmo ambiente cultural os angolanos fortificaram seus laços com os irmãos do outro lado e levados pela forte cultura enriqueceram-se daquilo que presença colonial Belga e Francesa não havia tanto interferido como a portuguesa.

Outros tantos jovens foram enviados pelos seus pais, ao longo deste anos para aquelas terras da mesma etnia, para prosseguirem seus estudos, dada a ausência de instituições escolares em altura nas suas regiões. Acabando muitos deles a sua formação em Universidade Francesas e Belgas. Ao passo que os filhos dos Ambundu e Ovimbundu que mais se encostavam aos portugueses eram encaminhados para os liceus e escolas coloniais e universidades em Portugal .

Para além de não haver escolas onde se podia aprender o português, lá nas aldeias onde estavam concentradas as populações, também a forte “enraização” a língua kikongo não reservava espaço para a aprendizagem da língua do colono. Nos Congos onde estes se refugiaram, havia uma situação diferente proporcionando a aprendizagem das línguas oficiais daquela país, o francês e o lingala.

Depois da independência, que todos esperávamos ser uma mar-de-rosas, aqueles angolanos de raiz, voltaram para sua terra, onde ao invés de se sentirem-se em casa, passaram a ser baptizados de primeiro, Retró, depois Zazá, mais tarde Langa-Langa e agora, simplesmente Zairense. Alias não se esperava que os nosso irmãos vindos dos Congos voltassem a falar fluentemente a lingua portuguesa.

Não seria o mesmo que chamar os Oshivambo (Ovambo) do Cunene regressados da Namíbia de Namibianos, ou os Nganguela do Kuando Kubango de Zambianos, ou mesmo os Baluba da Lunda Norte também de Zairense?. Primeiro, nenhum destes outros povos deu tanta dor de cabeça aos Tugas e depois os aspectos culturais destes não são tão enraizados como o dos Bakongo.

Desde o intelectual de mais alto gabarito, seja Doutor Juiz, Doutor Advogado, Professor Catedratico, o mais importante empresário, músico, artista, compositor, ou o simples cidadão Bakongo, para além de falar a sua língua, apresenta traços indicáveis da sua cultura. Uma identificação impar, única e exclusiva diferente do resto dos Angolanos.

Um certo amigo, disse-me que preferia identificar-se como Mukongo do que como angolano. Edificando-se como angolano, talvez suscitasse duvidas, mas como Mukongo, ninguém teria a capacidade moral de duvidar da sua identidade, seja do Zaire ou de Angola, sentia-se orgulhoso de ter uma identificação própria, sua original, não igualada nem imitada de alguém, apenas deixada pelos seus antepassados.

Ainda segundo ele, qualquer pessoa pode ser Angolano, um luso-tropical pode ser angolano, um desterrado de São Tome , Cabo-verde ou Guine, pode ser Angolano, um traficante de armas pode adquirir a nacionalidade Angolana, mas Mukongo, se nasce, não se fica, nem por força de qualquer constituição.

O orgulho deste povo, é sem dúvidas uma referência que deve ser mencionada, sem quaisquer tipo de concepções tribais, politicas ou qualquer que sejam. Aliás o Mucongo não é tribalista, mas sim vítima de uma crivação histórico-política, aconteceu em 1975 e aconteceu em 1993 na sexta-feira sangrenta. Um pouco antes, na década de 50 e 60, alguns bakongo que acompanharam o Profeta Simão Toco foram despojados algures no Rangel, área hoje conhecida de congoleses.

Este povo não tem a dignidade que merecia, razão pela qual muitos deles procura alguma dignidade fora do país. O Bakongo foi o primeiro Angolano a emigrar, e hoje temos o Angolano Bakongo, no parlamento da Suíça e aqui no Canadá em breve teremos um Angolano Bakongo no parlamento Canadiano. Para quem vai a honra, para os Angolanos ou para os Zairenses, ou simplesmente para os Bakongo?

Ao chegar a foz do rio Zaire, os primeiros que portugueses encontram foram os povos do reino Congo, a medida que iam por Angola a dentro e a sul na linha do litoral, é que foram encontrando os Reinos do Ndongo, Kassanje, Matamba, Benguela, Bailundo, Kuanhama, etc.

Estes grupos étnicos compartilham uma origem comum, e exibem uma continuidade no tempo, apresentam uma noção de história em comum e projectam um futuro como um só povo. Isto se alcança através da transmissão de geração em geração de uma linguagem comum, de valores, tradições e, em vários casos, instituições e organismo do aparelho da administração do estado têm o papel preponderante.

Por força da história, a divisão geográfica-lingüística foi aleatória. África foi fronteira da segundo os interesses dos ocupantes europeus, cortando linhas entre povos que tinham a mesma coabitação etno-linguistica. O exemplo dos Tutsi e os Hutus, no Rwanda e Burundi e parte da RDC, tambem se aplica aos Bakongo, os Kiocos, Ovambos, Ngaguelas sem excluir os Koisan.

Saber viver com este mal da história, deve ser uma tarefa que só geraria benefícios. Embora os factores culturas embrulham-se nos factores étnicos e políticos, não é necessário que um grupo étnico possua instituições próprias de governo ou forme uma estado independente. A soberania de uma nação não é definida pela etnia, mas se reflecte na necessidade de uma certa projecção social comum entre todas as etnias.”

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Txinguvo no Tsikaya – o ronco do Hipopótamo é tambor


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Música do interior de Angola

Site luso-angolano revela antiga e histórica pesquisa etnológica realizada na Angola Colonial pela multinacional Diamang. Veja em http://www.tsikaya.org www.tsikaya.org.

“Estamos comemorando 20 anos do projeto Tsikaya, uma plataforma para músicos no interior de Angola (www.tsikaya.org). Com base na localização geográfica, o site agora inclui uma amostra do lendário arquivo Diamang criado nos anos 40, 50 e 60. Confira este desenho incrível de um txinguvo. cortesia: website Diamang Digital que digitalizou parte do arquivo da antiga Companhia Diamang em arquivo na Universidade de Coimbra.”

Victor Gama

Escravidão no Brasil à cores


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A escravidão no Brasil à cores
Marina Amaral

A artista brasileira Marina Amaral restaurou 22 fotografias em sua série “Escravidão no Brasil à cores”. O material é composto por fotos de Alberto Henschel.

“Quando a gente olha para os números e para a escala enorme do que foi a escravidão, fica tudo meio abstrato. Mas quando consegue olhar para as pessoas… Ver cada rosto deixa tudo menos abstrato, cria uma conexão”, disse Marina à BBC News Brasil.”

A mineira de 25 anos é artista digital especializada em colorir fotos antigas em preto e branco – ficou conhecida mundialmente por dar cor a fotos das vítimas dos campos de concentração de Auschwitz. Ela diz que sempre teve vontade de criar um projeto sobre história do Brasil, mas tinha dificuldade de encontrar um arquivo que tivesse fotos em alta resolução.”

(Do site da BBC News Brasil)

“Alberto Henschel

Alberto Henschel foi um fotógrafo alemão-brasileiro nascido em Berlim. Considerado o fotógrafo e empresário mais ativo no Brasil do século XIX, com escritórios em Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo, Henschel também foi responsável pela presença de outros fotógrafos profissionais no país, incluindo seu compatriota Karl Ernst Papf – com quem ele mais tarde trabalhou.

Henschel ficou conhecido por fazer representações pictóricas do Rio de Janeiro como fotógrafo paisagista e por ser um excelente retratista. Ele ganhou o título de “Fotógrafo da Casa Imperial”, que lhe permitiu fotografar o cotidiano da monarquia brasileira durante o reinado de Pedro II. Este título daria às suas fotografias maior reconhecimento e aumentaria o seu preço.

A contribuição mais importante de Henschel para a história da fotografia no Brasil são os retratos que ele tirou de pessoas de origem africana, escravos e livres, “diferindo dele de outros fotógrafos porque ele tentou retratá-los livremente e com dignidade, como pessoas e não como objetos.

Agora você pode ver algumas fotos de Henschel em cores pela primeira vez.

Sobre este projeto

A arte de colorir existe desde os anos 1840. Aquarelas, óleos, giz de cera e pastéis, entre outros materiais, foram aplicados às fotos na tentativa de criar imagens mais realistas. Esta não é uma tentativa de substituir as fotografias originais, que são altamente importantes e de extremo valor histórico, mas, como em meus outros trabalhos, é uma tentativa de humanizar as pessoas retratadas. É também uma tentativa de individualizá-los e mostrar que eles não são apenas personagens dos livros de história.

Como nada se sabe sobre os homens e mulheres nas fotos, não pude fazer muita pesquisa. Portanto, as cores que você vê aqui são uma interpretação artística, baseada na minha experiência, observação, fotografias modernas, pesquisa preliminar básica e palpites artísticos.

Por esse motivo, eles não são necessariamente 100% precisos, mas são o mais próximo possível, dadas as limitações que tive ao longo do processo. As fotografias originais podem ser encontradas no Leibniz-Institut Für Länderkunde, Instituto Moreira Sales (Brasil), Ethnologisches Museum der Staatlichen Museen zu Berlin e outros arquivos. As fotografias foram tiradas em Recife e Salvador, por volta de 1869. A biografia de Henschel foi extraída da Wikipedia.

As fotos foram produzidas no formato carte-de-visite, o que torna o processo de coloração um pouco mais complicado. As áreas brilhantes geralmente perdem detalhes e textura (daí o fato de áreas específicas parecerem muito brilhantes, na versão original e na colorida), o que faz a pele “brilhar” depois que o contraste é corrigido. É muito difícil ajustar isso sem estragar a fotografia, portanto esse aspecto é mantido na versão colorida.

A carte de visite era geralmente feita de uma impressão de albumina, que era uma fotografia de papel fino montada em um cartão de papel mais grosso.

Download (Uso gratuito para fins educacionais. Uso comercial não permitido. Para reprodução, entre em contato primeiro.

(Texto de Marina Amaral)

Likumbi Lya Mize, Mu-Kanda. A Gira Infinita dos povos do Zambeze


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Likumbi Lya Mize

“Shabukolo”, esse primeirão da foto aí, seguido por gente alegre e feliz, é um Likishi (*Nkisi humano de etnia Mbunda, Angola). Ele se dirige para a cerimônia da Likumbi Lya Mize, sensacional evento que une os povos Mbunda, Chokwe, Luchasi e Luvale, no entorno (ou na bacia) do Rio Zambese, numa região que envolve partes de Angola, da Zâmbia e da República Democrática do Congo.


Os Ma-Kishi ou Mu-Kishi (genericamente um grupo de “Nikisi”) são representações de entidades com funções específicas na cerimônia, travestidos de forma efusiva, com máscaras fantásticas, para acompanhar os adolescentes que serão circuncidados até o local da curcuncisão (razão fundamental da secular cerimônia) e para a não menos fantástica comemoração da consumação do rito de passagem.

A Likumbi Lya Mize, é hoje uma conjugação de várias tradições desses povos, cujo foco principal é, historicamente atribuído aos Luvale, povo da área do Moxico, que se retirou de Angola para a Zâmbia durante as guerras de independência e a posterior guerra civil, tornando a Zâmbia, talvez o principal eixo da gigantesca cerimônia hoje.

(A parte essencial da cerimônia, a circuncisão, é denominada “Ma-Kanda” ou “Mu-Kanda”, segundo variações linguísticas locais)

A Likumbi Lya Mize foi reconhecida como Patrimônio Cultural da Humanidade em 2005 e é um grande evento de turismo cultural na região.

(Importante: Quando alguém aqui no Brasil lhe falar de “Nkise” como algo do estrito âmbito religioso, no campo do Candomblé, etc. desconfie. Se ligue. Afirmo que não é nada disso não. Abra o foco e escape das distorções interesseiras. Ninguém é santo nessa história.)

Abra a janela desse quartinho escuro e respire o ar do campo aberto, lençol das dúvidas e das perguntas mais delícias.

(*”Nkisi”=Palavra de origem remota do KiKongo, querendo dizer Ídolo, representação escultórica, objeto simbólico ou representação humana de uma entidade imaterial, intangível)

Spirito Santo
Quarentena de Maio 2020

Canto do Povo- Vinil histórico com Vissungo e outros


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“CANTO DO POVO”

Maravilhoso trabalho do Instituto Cultural Brasil África (ICBRAF) entidade de fomento da cultura brasileira ligada à esquerda revolucionária nos anos finais da resistência contra a Ditadura Militar.

O vinil foi gravado no histórico estúdio Havaí, do grande Bira, responsável pela criação de técnicas de gravação de instrumentos de percussão de Samba, que os preconceitos estéticos tacanhos das demais gravadoras tentavam velar em suas edições.

No set list do disco (“Pau de Sebo” como se dizia na época) um painel bem completo da emergente cena musical negro-carioca, reflexo cultural do ativismo negro de então.

Muito emocionante sentir esse vento de saudade vindo de quase 40 anos atrás.

Grupo Vissungo , presenteMulti Record / ICBRAF (1983)

01 Olorum Baba Mi – Natureza
02 Grupo Vissungo – Caracará
03 Leci Brandão – Gente Negra
04 Agbara Dudu – Chega / Ijexá
05 Quinteto Violado – Nhô Miguel
06 Julia Miranda – Andaié
07 Bamba Moleque – Maracatú Da Gamboa
08 Leda Silva – Tunga Tunguê
09 Walter Norambê – Kalamú

youtu.be/99NWCXznWDM

Fogo na Kanekalon!


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O controverso auto racismo capilar feminino e o super hennê alemão

Gosto demais de matérias na imprensa sobre o aumento da auto estima das mulheres negras com relação á inúmeras pautas, mesmo as, aparentemente mais prosaicas como os cabelos lisos, super lisos ou crespos.

Nesse caso em especial, me chama a atenção a resposta pronta e pragmática do mercado (já olharam o tamanho de uma seção de cosméticos alisadores capilares de uma drogaria?). O setor esteve entre os mais bombados e promissores da nossa economia.

Parece exagero, mas o drama de mulheres negras com relação a este…paradigma – ao que parece considerado por muitas como um estigma – tão incompreensível para os homens em geral, era mais pungente ainda nos anos 1950/60.

Eu vi. Eu vivi e afirmo! Mulheres negras odiavam seus cabelos naturais nessa época. Se submetiam às torturas mais lancinantes no couro cabeludo (em si mesmo um nome aterrador), com soda cáustica, ácidos, pentes-ferros quentes, às vezes até ferros de passar!

Sim! Lembro bem da lama preta do hennè enegrecendo os dedos delas, as luvas de plástico furadas, as toucas de jornal em baixo dos lenços.

Eu via em Padre Miguel, subúrbio onde morava, as moças nas tardes de sábado andando de bicicleta com aqueles lenços de seda ou cetim cobrindo os “bobs”, sorrisos insinuantes, de banda, numa espécie de dança de pré acasalamento, uma espécie de “Paquera time”.

Aquilo era puro surrealismo, pois, antes vistas com os lenços, que sabíamos que ocultavam o henê, de noite elas apareciam com lisas cabeleiras, franjinhas e “pega-rapazes”, lisinhos e pretinhos como se banhados a tinta nanquim.

Nós, os rapazes falsos tolos, porém românticos (embora um tanto cínicos), com nossos cabelos baixinhos, cortados à “Príncipe Danilo”, fingíamos, é claro, que não tínhamos visto nada, não sabíamos de nada, que nem tínhamos visto aqueles lenços inflando as cabeças delas como turbantes hindus,  aqueles “bobs” azuis, cor de rosa, aqueles grampos de aço, aquela mágica auto estima que, embora instilada nelas pelo ódio aos cabelos naturais, virava maravilha de puro teatro…”racial”.

Pra que estragar o sonho delas? Pareciam tão felizes assim, como rainhas ou misses recém coroadas…

Nos anos 1960, aliás, havia até um jingle de rádio no qual um personagem, óbviamente negro dizia, cantando:

“Nega, seu cabelo melhorou

Você se modernizou

Me explica essa transformação.”

(Ao que a “nega” respondia, exultante:)

“Aí Neguinho

É o novo preparado

Que revoluciona o mercado:

Super Hennê alemão!

Quem viu aquela coisa estranha que foram as perucas kanekalon? Quem se lembra delas? Existem ainda, sabiam? Virgem Santa…Um horror!

Me lembro de assistir um dia, num trem da Central do Brasil, um ladrão arrancar uma peruca chanel Kanekalon de uma jovem negra, e pular com a peruca de um trem em movimento, olhando para trás, feliz da vida com sua lucrativa crueldade.

Valia um bom dinheiro aquela touca de finíssimos fios de nylon, que, entre outros problemas (o calor de um micro ondas no cérebro, por exemplo) eram altamente inflamáveis!

O rosto aterrado da moça, tentando cobrir com as mãos a vergonha e a cabeça, com o cabelo duro natural, cortado baixinho, sufocado, prensado, fortemente por dezenas de grampos, ficou gravado na minha memória para sempre. Gente! Que trauma! (o dela, claro!)

Mas eis que nos recentes 1990 para cá, especialmente, como um inacreditável dejavù o estigma do ódio ao cabelo duro, sabe-se lá porque retornou. Como assim? _ pensava eu que já nos anos 1970 usava uma vigorosa cabeleira “black power”. Raras eram as irmãs negras que não usavam “black” também.

Um paradoxo! As mães e avós dessas jovens mulheres de hoje em dia, como disse já haviam se livrado, quase completamente disso, desse constrangimento nos distantes anos 1970!

“Black is Beautifull_Lembram? (O Beautifull era o cabelo duro, natural). Era o que dizíamos, homens e mulheres dos anos 1970, emponderados de negritude.

Negros casados ou ligados a mulheres negras, amigas, irmãs, etc. naquela época antes do “Black is Beautiful” sabem muito bem o que era isso: tentar, sem sucesso, entender porque afinal as mulheres negras desses posteriores anos 1990, 2010, por aí, retroagiram aos anos 1950/60, esquecendo aquele  que antes, no passado, fora um avanço sensacional para a autoestima negra feminina.

O “Black power” ou mesmo as “trancinhas afro” ou “nagô”, o cabelo de pretos normais enfim.

Claro! Quem com mais de trinta anos não se lembra que não era assim tão comum a partir dos anos 1970 – nem mesmo para mulheres brancas!- alisar os cabelos como a maioria delas passaram a fazer até há bem pouco tempo. Será que, assim, do nada as mulheres todas – e eu disse todas! – passaram, de novo, a odiar seus cabelos naturais? Pensei de novo, tonto: Porque será, meu Deus?

O que me ocorre nessas horas, é sempre a lembrança de mais velho que viu naqueles anos 70, por aí que era raríssimo, por exemplo, ver mulheres negras,- e até mesmo brancas – com cabelos lisos, escorridos.

_”Lisos para que?” _ Deviam pensar

Ora, cabelos lisos, escorridos quase nunca foi algo natural nem mesmo para gente branca, comum, aqui dos trópicos – até mesmo na maior parte da Europa.

Foi lá, onde morei nos anos 1990, no norte da Itália, que vi belas regazzi louras de morrer, pintando os cabelos de preto retinto (com hennê) porque odiavam parecer alemãs ou austríacas e mantinham uma atração irresistível por aquela semi negritude mediterrânea, numa inusitada italianice, resquício da guerra e suas sequelas:

_”Louras eram as nazistas alemãs ora! Aquelas vacas!”)

Aqui, contudo, além do negror logo desbancado, cabelos lisos assim, naturais (fora alguns casos de parentes diretos de europeus bem lá do norte), só eram conhecidos em mulheres escandinavas, suecas…ou, bom lembrar, índias. Disso, todos nós estávamos carecas de saber.

Muito constrangedor, portanto, lembrar este aspecto tão particular dessa época de tanta gente preta: o ódio racial a si mesmo, que nas mulheres (e até alguns homens) se expressava na forte rejeição aos seus próprios cabelos.

Com certeza, sequela do racismo, a volta da síndrome do cabelo liso nas mulheres nos anos 1990/2000, quando passou a ser justificada de novo, pelas jovens negras como uma busca sofrida (e para nós homens, inexplicável) por auto estima, acabou pegando as mulheres todas como um todo.

Até as brancas, vejam só!

Beirava à esquizofrenia (desculpem afirmar). Se as negras passaram a poder “ter” cabelos lisos escorridos (e a indústria do setor se esforçou o máximo para atender a essa demanda), as mulheres brancas piraram e decidiram que tinham que manter, a qualquer custo a sua hegemônica branquitude capilar preservada, de preferência com cabelos mais lisos ainda que o de suecas e agora…louros.

Cabelos lisíssimos de mulheres superiores e poderosas, o Power Hair invertido, quase alemão, voltou assim, louco, torto. A indústria de cosméticos capilares, novamente se adequou e bombou ainda mais (e isso explica, claramente porque este ramo industrial ama as mulheres de paixão!). “Escova progressiva” – em suas modalidades “Inteligente”, “De Chocolate”, “Marroquina” ou “Americana” – eram os must do momento.

(Deus do céu! Como assim…”progressiva? Devia ser…”Regressiva”.)

Não conheço nenhum homem que não pensasse isso, no fundo do mais profundo segredo, pensando pra dentro, “no sapatinho”. Afinal, virou quase agressão demonstrar carinho acariciando os cabelos de uma mulher, quanto mais tocar no assunto… Que tenso!

Doideira, não acham? As “brancas” então…Foram presas à armadilha de seu próprio racismo esquizofrênico (muito mais para as mulheres, nesse caso) e passaram a gastar mais e mais dinheiro e a sofrer problemas pesados com a baixa auto estima capilar que só as negras sofriam, passando a usar cabelos “naturais” reconstruídos, com atributos de lisura tão fake quanto aquelas fedidas perucas kanekalon das pretas de outrora.

Doía na gente (não todos, mas em muitos) não poder dizer para nossas pretas (ou brancas) mesmo baixinho, tremendo de medo:

_”…Mas eu não gosto desse liso, benzinho. É feio. Parece peruca…Não posso nem botar a mão, tem cheiro de formol. Cabelo natural é tão bonito- dá vontade de acariciar…Para com isso, amor!”

Mas ficávamos mudos, quietos como múmias, com medo de tomar uns tapas, umas imprecações de ódio explícito. Não fale em cabelos com mulheres! Nunca! Caluda! Esse assunto nem pensar!

(Mulheres e cabelos…Vai entender?)

Mas…ufa! Nem tudo estava perdido. Chegaram as cotas raciais e o feminismo preto emponderador reeclodiu! As pretas – Aleluia! – hoje já deixaram disso. (Mas já sinto o bafo quente de uma turba delas, pretas e brancas, pensando em me linchar pelo abuso de tocar nesse assunto tão…tão…proibido, tão íntimo …tão delas.)

“_Sacrílego! Misógino! Machista! Véio abusado! Profanador do “lugar de fala”!

Calma, meninas! Amo a todas, fraternal e sinceramente, com os cabelos que quiserem ter, duros, lisos ou até mesmo carecas. Afinal, nesse campo seria assim  o verdadeiro emponderamento feminino, não é?

Não?

Eu, coitado, velho observador, só queria entender o babado, solidário ao vosso desnecessário e inútil padecimento. Não é aí, nos cabelos, que mora a auto estima…ou será que não é? Como saber? (Lembro aqui, logo, do mito de Sansão, cuja força estava nos cabelos. Mas me calo. Afinal Sansão não era mulher)

Só lhes imploro uma coisa: Não voltem com as kanekalon e as progressivas. Nylon inflamável não! Formol não! Por Jesus! Apliques, turbantes, véus, se a baixa da auto estima capilar atacar, não esquentem as cabeças! Valem todos os artifícios. Nunca, nunca esqueçam da outra, aquela do trem, a da kanekalon.

(De antemão, com meu cabelo hoje tão branco e ralinho, peço um sincero perdão)

Spirito Santo

Quarentena de Abril de  2020

 

 

As chaves da alma abrem, escancaram mais uma porta do passado…e já nem sangra.


SPIRITO SANTO

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ilha-grande-ruc3adnas-da-cadeia-copy Ruínas dos fundos da velha cadeia do presídio da Ilha Grande, Rio de Janeiro

Titio na hemeroteca da BN: Quase um anti superstar

(E não vivo dizendo? Titio tem história.)

Emocionado aqui. Bastante, coração apertado e tudo. A amiga pesquisadora Bete Scg me socorre e encontra na hemeroteca da BN dados jornalísticos sobre a orgulhosa prisão do Titio como subversivo em 1969.

Gratidão eterna.

habeas Data 2

A casa na verdade – o policiazinha inapta – na verdade era outra, que não consta no inquérito e era um aparelho da Var Palmares. Nenhum de nós três morava lá.

Havia muito material no aparelho, inclusive, que eu tenha visto, pelo menos um velho fuzil e o tal mimeógrafo. Cruzamos uma vez com pessoas estranhas lá, deviam ser figurões da organização. Me lembro que eram muito brancos e se vestiam como europeus ou…

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Terça Gorda, Quarta Cinza


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O carnaval da branquitude está aí!

 

(Um post do carnaval de 2019. Nem uma vírgula a mudar para esse 2020. Posso até reposta-lo como premonição, antes do “Triduo Momesco”)

A conclusão mais anti carnavalesca que podia me ocorrer ontem, último dia de Carnaval, foi constrangedora.

(A música dos blocos na TV se misturava com as rajadas de fuzil lá fora. O espírito carnavalesco, se foi.)

A presença da cultura específica dos negros do Rio de Janeiro (dos negros pobres, é claro, portadores de vínculos culturais com seu passado africano) foi e é fundamental para a eclosão das festas e manifestações artístico musicais da cidade.

(Até os anos 1970, pelo menos, praticamente apenas negros produziam cultura popular, de rua, manifestações artísticas de caráter, verdadeiramente “nacional”, em bandas musicais e – como não – na volúpia dos carnavais)

Hoje, a música, as bandas, os blocos (cerca de 500 no Rio!) são maravilhosas, excepcionais. Geram Inclusive um mercado de trabalho para centenas, talvez milhares de pessoas. Um mercado promissor de milhões de reais. Uma adaptação formidável da cultura popular ao modelo capitalista de mundo que predominou. Alternativas de trabalho e entretenimento, contudo, acessíveis apenas para gente incluída no contexto (gente branca, por suposto)

Com efeito, a presença física dessas pessoas ditas pobres e negras, vai se tornando cada vez mais irrelevante. Ao que parece, não são mais necessárias para o exercício de manifestações culturais mais comuns, exceto em setores resilientes ou fundamentais das escolas de Samba como baterias, alas de baianas e alas de “comunidades”.

(“Comunidade”, vejam bem, é um eufemismo cínico para “favela”)

Essas pessoas desprezadas pelo sistema, quase não são, sequer vistas nas ruas da Zona sul, a não ser exercendo funções quase que de mendicância, recolhendo lixo reciclável, vendendo latas de cerveja, ou praticando ataques à propriedade pessoal dos brancos incluídos, cujo espaço urbano quase privado, esses “negros indesejáveis”, subrepticiamente invadem com seus arrastões, causando pavor urbano, como zumbis doidos, “lumpen proletariado” para os comunistas de botequim.

Criadoras dessa cultura que alimenta o Carnaval, pois sempre foram “o povo” real, alijadas do processo cultural atual por razões que a poucos interessa, além de outras tantas privações, têm mais essa provação: estão impedidas de exercer sua própria cultura…como os escravos inúteis, dispensáveis do pós abolição, preocupados mais com a fome e a sobrevivência física, do que com a arte. Despossuídos de tudo, enfim.


Chamei este fenômeno em 2004, num livro, de “Cultura negra sem negros”, mas confesso: preciso aprofundar o conceito. Na verdade, no Rio, parece mais correto dizer “Cultura popular brasileira sem negros”. É um fenômeno mais abrangente, do qual os negros são os protagonistas principais, deslocados de seu histórico papel.

O conceito pode indicar que, ao expressar sua total indiferença assim tão acintosamente, criando workshops para aprender a cultura antes alheia, as pessoas incluídas (no Brasil, em sua esmagadora maioria, gente branca), acham a exclusão um fenômeno normal, na verdade parecem almejar até, uma sociedade sem negros (um desses observadores mais cínicos afirmou que a miséria e a exclusão são problemas comuns, universais)

Sociedade sem negros, entenderam? Que nome você daria a isso?

Um país com mais de 50% de sua população negra (ou “não branca”, como queiram) segundo o IBGE, tem uma elite branca que dá claros sinais de tentar expulsar (ninguém parece saber, exatamente como isso se dá) uma maioria de seus concidadãos para o limbo de uma periferia inacessível, um processo de gentrificação, aliás, que teve o seu start no Rio, no início do século 20.

Para isso exigem que se crie um cinturão de defesa policial exclusivo (já cogitaram a construção de muros, há alguns anos atrás. Sério!)

A cidade do Rio parece hoje uma grande fazenda ou um campo de concentração enorme, dividido em múltiplos e miseráveis bolsões, não mais nos morros, mas espalhados, espremidos nas margens das avenidas e vias expressas, como remotos, porém tensos currais de gado humano, superlotados de carne viva, porém excedente, imprestável. Os mais jovens, magros novilhos, em grande parte são abatidos a tiros.

Onde vão esconder tanta gente? Por quanto tempo? Imaginam, porventura que esta maioria acossada em guetos sujos, vai se sujeitar, se submeter pacificamente a esta situação insustentável, eternamente? Acreditam mesmo que o paraíso é no Tuiuti?

(Na TV nessa manhã, já quarta de cinzas, as imagens inquietantes de uma turba negra saqueando um supermercado no Leblon, zona sul da cidade)

 

O que podemos prever como consequência desta indiferença social perpetuada, estúpida como os nazifascismos?

Eu tenho medo. Você não?

Spirito Santo

2019/2020