A “Middle passage” do Brasil e o Kalunga de Zumbi que não deu em O Globo

•19/11/2016 • 1 Comentário

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 Já pensaram, o Titio em O Globo em pleno dia de Zumbi?

Quase que colou…O texto do Titio a seguir foi encomendado em 2012 – pasmem! – por um importante órgão de defesa dos direitos do negro aqui do Rio. A pessoa muito gente boa que intermediava o convite me dizia:

“…Escrevo para você porque uma de minhas ideias …é um artigo escrito por alguém que entenda de cultura afro-brasileira e, portanto, seja um nome respeitado, a ponto de me permitir sugerir o texto à seção de Opinião do O Globo.

…O que me diz? … Aguardo ansiosamente o seu retorno.”

Viram só? O ‘pasmem‘ é pelo o inusitado que foi um crítico marrento e tão mordaz destes órgãos todos, muitos deles ‘chapa branca’ como vivo espalhando por aí, ser convidado para escrever um texto assim meio que ‘oficial‘. O mais inusitado de tudo nem era isto. Imaginem: O texto seria – viram só? – para propor à pauta do 20 de Novembro do jornal O Globo!

Bem, meu ‘bicho carpinteiro’ aparecido como ele só logo gritou, exultante:

“_ Êba!”

É, mas fui logo avisando a pessoa que intermediava o convite que talvez eu não fosse o mais talhado para o serviço, pois não sabia escrever textos ‘chapa branca‘ de jeito nenhum e que podia sim escrever, mas só se fosse com a ampla liberdade de opinião que me caracteriza. E não é que a pessoa topou? Não tinha mesmo como fugir.

Haviam uns tópicos chave, a citação obrigatória de certos pontos etc.. Nada que não fosse fácil de fazer, usando sutis picardias e entrelinhas (e esta era a parte mais divertida da missão).

É que desafio melhor não há: Escrever um texto para um jornalão pautado as vezes por um racismo renitente, ao mesmo tempo sem ser ‘chapa branca‘, mas criticando pontos chave que acho por bem criticar sempre e, ainda assim sem ser furibundo e abusado demais, como as vezes sou aqui no facebook ou aqui no quintal do meu blog…e isto tudo com apenas 3000 caracteres.

Uma experiência jornalística imperdível, digamos assim, fundamental para um escrevinhador contumaz feito eu.

Bem, lógico que não rolou. Alguém no percurso não mordeu a isca. Sei lá porque, impossível saber. Mas nem assim, criança frustrada em sua brincadeirinha eu fiquei. É que agora – ô sorte! – existe esta banca enorme de leitores aqui da Internet. Os jornalões com suas pautas travadas estão até ficando cada dia mais para trás, pegando o bonde andando da comunicação veloz da rede.

Vou liberando então para todo mundo – azar o deles – o textinho que fiz para marcar a data do dia nacional da consciência negra, o nosso Dia de Zumbi” e que, mesmo assim, arteiro como sou, não consegui ‘infiltrar‘ na pauta de O Globo de Ali Kamel.

Ah, se eu te pego!

Eis o texto que quase foi publicado:

“20 de Novembro: A Passagem e a sublimação do ‘kalunga’

Num 20/11 no século 19, o momento crucial da travessia era aquele onde a metade do caminho entre a África e a América era transposta. Ali a inexorabilidade do destino podia ser percebida no ar de um Atlântico fatal para a história das pessoas amontoadas nos porões do navio.

Ali eram distribuídos aos reféns doses calmantes de tabaco em cachimbos especialmente fabricados para o fim ambíguo de acalmar o pânico das almas e, ao mesmo tempo amansar na carga qualquer sanha que a fizesse se rebelar contra o mal sabido destino.

A tripulação chamava este portal de ‘Passagem do Meio’, uma expressão utilizada pelos traficantes de escravos, como demarcação de uma fase da viagem em que a carga podia ser considerada salva da apreensão pelos ingleses, que à época interceptavam os tumbeiros por ali. Os africanos, a maioria embarcada à força nos portos de Angola, julgavam esta passagem o momento crucial da travessia existencial de um portal entre o Mundo dos Vivos e o dos Mortos: A trágica travessia do “Kalunga”.

Foi assim, evocando estas mesmas memórias, que se construiu na cidade do Rio de Janeiro um monumento à Zumbi de Palmares, herói seminal decapitado no século 17. É providencial que dentre os eventos da agenda programada para 2012, um dos pontos altos seja a lavagem ritual do monumento. É que o ato é sempre antecedido pela ação noturna de pichadores que grafam suásticas na cabeça do rei Oni, de Ifé, Nigéria, escolhida para representar nosso angolano Zumbi.

Mas podem ser positivas também estas memórias.

Descobriu-se agora mesmo por exemplo, quase ao rés do chão do Porto do Valongo, vestígios de africanos que transpuseram a “Passagem do meio” e aqui desembarcaram. É certo que o que existe de mais arqueológico por ali, além de cacos dos cachimbos baforados dos reféns escravos, são esqueletos desmembrados de “pretos novos”, os recém-chegados que morriam e eram por ali mesmo lançados em imensos cemitérios pantanosos, um dos quais, clandestino, foi mandado aterrar em 1815 por ordem documentada de um alto funcionário da Corte de D. João VI.

É, pois promissora sim – se superados os interesses políticos e comerciais mais imediatistas ligados às obras – as chances abertas para se ter aqui no Rio de Janeiro avanços substanciais nesta questão.

Até leis já temos animando esta trajetória esperançosa por este mar do retorno a dentro. Entre outras leis, temos a 12.711, que trata das cotas sociais e ‘raciais’ e a 10.639 que versa sobre o ensino da história do negro e da África, ambas no âmbito urgente da educação pública.

De todos os significados deste ‘Dia de Zumbi‘ o mais digno de todos, portanto, talvez seja o ensejo de quebrar o paradigma do racismo no Brasil. A viagem de nós todos para a condição de amantes sinceros e fiéis da liberdade e da democracia enfim.

Num 20 de Novembro destes – esperamos que em breve futuro – à condição de seres humanos e solidários, havemos de voltar.

Spirito Santo

Músico. Artista visitante da UERJ

Congado dos Negros na Serra Antiga

•24/07/2016 • Deixe um comentário

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Congada fotografada por Augusto Riedel em Morro Velho, Minas Gerais em 1868 com marimbeiro ao centro.

Certa vez, aí pelo fim da década de 1970, já pesquisando no interior de Minas Gerais, fomos convidados eu e amigos do Grupo Vissungo, pelo mestre congadeiro José Caixeta (da cidade de Machado, MG ) para desfilar no terno dele. Decidi então desfilar na ala dos músicos, claro, tocando uma marimba que eu mesmo havia fabricado. Desfilei lá assim por uns cinco anos seguidos.

Me divertia muito quando identificava pelo olhar estupefato, um antropólogo pesquisador, olhando aquela fantástica marimba africana ali, inusitada. Ficava rindo escondido, moleque, imaginando a tese que o pobre do antropólogo desenvolveria para explicar aquela marimba ali, em pleno século 21.

Já sabia, claro, que xilofones africanos haviam sobrevivido no Brasil até bem perto da Abolição da escravatura. As provas, contudo, eu não havia encontrado nem mesmo em gravuras idealizadas de viajantes como Rugendas. Já havia encontrado em um ou outro livro de viajantes, sanzas (kalimbas) e muitos cordofones (harpas, alaúdes), a maioria, provavelmente angolanos, mas nunca havia visto uma foto sequer deles no Brasil e, de marimbas então, nem mesmo gravuras.

Achei esta imagem logo depois que a primeira edição do livro saiu, em 2011. Ela vai sair na segunda edição já na boca do forno, aí sim, única, maravilhosa marimba angolana (quiçá moçambicana) autêntica, vivinha ali no século 19! (Mostro aqui apenas um corte dela, com o marimbeiro destacado em foco, ao centro da imagem.)

A legenda da foto inteira, que publicarei no novo livro (já a publiquei aqui, tempos atrás, no facebook) dirá que a foto é de 1868 e é de autoria de Augusto Riedel, que viajou pela região de Morro Velho, MG (onde havia uma grande mina de diamantes) a serviço do imperador, grande entusiasta da arte da fotografia.

(A foto que Rudel fez da mina de diamantes, aliás, pode ser vista também em detalhes yyyyno link deste post que publiquei bem recentemente)

O que a legenda oficial diz é um pouco vago. O grupo fotografado é na verdade – sei agora – uma congada clássica da época em em Minas Gerais. A dúvida que persiste em mim sobre a sua origem africana ser angolana ou moçambicana vem do fato de ter encontrado há pouco tempo atrás uma grávida do praticamente desconhecido artista francês jean-rennè Moreaux um par de autênticas marimbas do inhanambane, miçambique, em plena Cirte do rio nesta mesma época (meados de 1860)

Verdadeiro teatro popular, as congadas desta região eram, ou representações faladas, cantadas e dançadas das estrepolias de “Carlos Magno e os 12 pares de França” contra os mouros, enredo dramático que narrava incidentes ocorridos durante as Cruzadas (enredo disseminado no Brasil em livretos de cordel, como instrumento de doutrinação), ou estrepolias semelhantes envolvendo um conflito entre dois reinos africanos (um sendo o Reino do Kongo, no caso) interpretados no pelo pessoal da congada com elementos mistos, extraídos de práticas culturais e de crônicas da história oral do reino do Kongo africano, o real, guardadas na memória popular.

Percebe-se, claramente na foto, os dois grupos oponentes, organizados, cada um, próximo a um comandante, um mouro, outro cristão (ou de um reino africano e de outro), ambos com suas espadas. Cultura negra do Brasil real. Esta que a antropologia convencional se nega, relutantemente reconhecer.

——————

A legenda oficial:

“Em 1868, o fotógrafo Augusto Riedel acompanhou Luis Augusto, Duque de Saxe, genro do Imperador Pedro II, em uma expedição ao interior do Brasil. Durante uma visita à cidade de Morro Velho, em Minas Gerais, o grupo assistiu a apresentação de uma festa afro-brasileira que misturava tradições religiosas católicas e africanas. A celebração apresentava a coroação do “Rei do Congo” e também rendia homenagem à Nossa Senhora do Rosário.”
(A Coleção Thereza Christina Maria é composta por 21.742 fotografias, reunidas pelo Imperador Pedro II ao longo de sua vida e por ele doadas à Biblioteca Nacional do Brasil. A coleção inclui uma grande variedade de assuntos. Documenta as conquistas do Brasil e do povo brasileiro no século XIX, e também inclui muitas fotografias da Europa, África e da América do Norte.)

Certa vez, aí pelo fim da década de 1970, já pesquisando no interior de Minas Gerais, fomos convidados eu e amigos do Grupo Vissungo, pelo mestre congadeiro José Caixeta (da cidade de Machado, MG ) para desfilar no terno dele. Decidi então desfilar na ala dos músicos, claro, tocando uma marimba que eu mesmo havia fabricado.
Desfilei lá assim por uns cinco anos seguidos.

Me divertia muito quando identificava pelo olhar estupefato, um antropólogo pesquisador, olhando aquela fantástica marimba africana ali, inusitada. Ficava rindo escondido, moleque, imaginando a tese que o pobre do antropólogo desenvolveria para explicar aquela marimba ali, em pleno século 21.

Já sabia, claro, que xilofones africanos havia sobrevivido no Brasil até bem perto da Abolição da escravatura. As provas, contudo, eu não havia encontrado nem mesmo em gravuras idealizadas de viajantes como Rugendas. Já havia encontrado em um ou outro livro de viajantes, sanzas (kalimbas) e muitos cordofones (harpas, alaúdes), a maioria, provavelmente angolanos, mas nunca havia visto uma foto sequer deles no Brasil e, de marimbas então, nem mesmo gravuras.

Achei esta imagem logo depois que a primeira edição do livro saiu, em 2011. Ela vai sair na segunda edição já na boca do forno, aí sim, única, maravilhosa marimba angolana (quiçá moçambicana) autêntica, vivinha ali no século 19! (Mostro aqui apenas um corte dela, com o marimbeiro destacado em foco, ao centro da imagem.)

A legenda da foto inteira, que publicarei no novo livro (já a publiquei aqui, tempos atrás, no facebook) dirá que a foto é de 1868 e é de autoria de Augusto Riedel, que viajou pela região de Morro Velho, MG (onde havia uma grande mina de diamantes) a serviço do imperador, grande entusiasta da arte da fotografia.

(A foto que Riedel fez da mina de diamantes, aliás, pode ser vista também em detalhes no link de um pist que publiquei bem recentemente)

O que a legenda oficial diz é um pouco vago. O grupo fotografado é na verdade – sei agora – uma congada clássica da época em em Minas Gerais. A dúvida que persiste em mim sobre a sua origem africana ser angolana ou moçambicana vem do fato de ter encontrado há pouco tempo atrás uma grávida do praticamente desconhecido artista francês jean-rennè Moreaux um par de autênticas marimbas do inhanambane, miçambique, em plena Cirte do rio nesta mesma época (meados de 1860)

Verdadeiro teatro popular, as congadas desta região eram, ou representações faladas, cantadas e dançadas das estrepolias de “Carlos Magno e os 12 pares de França” contra os mouros, enredo dramático que narrava incidentes ocorridos durante as Cruzadas (enredo disseminado no Brasil em livretos de cordel, como instrumento de doutrinação), ou estrepolias semelhantes envolvendo um conflito entre dois reinos africanos (um sendo o Reino do Kongo, no caso) interpretados no pelo pessoal da congada com elementos mistos, extraídos de práticas culturais e de crônicas da história oral do reino do Kongo africano, o real, guardadas na memória popular.

Percebe-se, claramente na foto, os dois grupos oponentes, organizados, cada um, próximo a um comandante, um mouro, outro cristão (ou de um reino africano e de outro), ambos com suas espadas. Cultura negra do Brasil real. Esta que a antropologia convencional se nega, relutantemente reconhecer.

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A legenda oficial:

“Em 1868, o fotógrafo Augusto Riedel acompanhou Luis Augusto, Duque de Saxe, genro do Imperador Pedro II, em uma expedição ao interior do Brasil. Durante uma visita à cidade de Morro Velho, em Minas Gerais, o grupo assistiu a apresentação de uma festa afro-brasileira que misturava tradições religiosas católicas e africanas. A celebração apresentava a coroação do “Rei do Congo” e também rendia homenagem à Nossa Senhora do Rosário.”
(A Coleção Thereza Christina Maria é composta por 21.742 fotografias, reunidas pelo Imperador Pedro II ao longo de sua vida e por ele doadas à Biblioteca Nacional do Brasil. A coleção inclui uma grande variedade de assuntos. Documenta as conquistas do Brasil e do povo brasileiro no século XIX, e também inclui muitas fotografias da Europa, África e da América do Norte.)

O Crioulo e a língua do Crioulo. Lorenzo Dow Turner no Brasil.

•31/05/2015 • 4 Comentários

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Lorenzo Dow Turner, brilhante etnolinguísta é, tardiamente ‘descoberto” pela academia (e pela imprensa) do Brasil.

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 Parece coisa de crioulo doido, só que não.

Passei boa parte do dia e a noite desta última sexta feira devorando informações sobre Lorenzo Dow Turner, etnolinguísta norte americano, praticamente desconhecido no Brasil até recentemente, descoberto entre outros pelo acadêmico francês Xavier Vatin, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Li – lemos – uma matéria esclarecedora sobre isto dia desses, cuja fonte, o instituto de linguística IPOL, foi reproduzida por alguns blogs, entre os quais o Geledés, especializado em ativismo e cultura negra.

Já havia tocado de leve na figura de Lorenzo Dow Turner , citando-o num post como um dos personagens do boom de estudos sobre os africanos no Brasil ocorrido em Salvador, Bahia no início da década de 1940, por injunção do Congresso Afro Brasileiro de 1937, coordenado por Edison Carneiro, entre outros. Leia o post do Titio neste link: “A Guerra, Academia e a impureza a Nagô“.

Me instiga nesta busca por dados mais completos sobre Dow Turner as relações, eventualmente existentes entre a invisibilidade brasileira de seu trabalho e o mesmo fenômeno ocorrido com o trabalho do etnólogo baiano Antônio Joaquim de Souza Carneiro (para os que desconhecem, pai de Edison Carneiro), vítima de uma intensa campanha de difamação e desqualificação intelectual, por parte de ilustres acadêmicos da mesma época, o incensado Arthur Ramos à frente.

O fato de Turner e Souza Carneiro serem ambos negros, intelectuais brilhantes e, do mesmo modo, terem tido suas pesquisas desprezadas e/ou ignoradas pela empáfia da academia tupiniquim da época, sempre me intrigou, intriga e tem me instigado a escrever vários inflamados artigos e posts (outros por certo se seguirão a este).

Recolhi neste intento, ontem, empolgado com a biografia de Lorenzo Dow Turner, que fui descobrindo pouco a pouco, a medida em que a noite avançava, muito material – muito mesmo – sobre as pesquisas e fontes de Lorenzo e já havia até começado um animado artigo sobre o etnolinguísta, quando, logo ao acordar, me deparo com esta excelente matéria no caderno Verso e Prosa de O Globo: “Gravações raras de linguísta americano revivem passado do candomblé

Bolívar Torres disse tudo!

Na verdade, a maioria destes dados, com exceção dos áudios, aos quais o jornalista de O Globo, sei lá como, teve acesso, já que publicou um exemplo (ouça a voz de Meninha do Gantois no link original da matéria, logo aí em cima) estão disponíveis a qualquer um no site do Arquivo de Musica Tradicional da Indiana University, fonte principal para quem gosta do tema.

Só achei impróprio na luminosa matéria de Bolívar Torres o uso da expressão “repatriada“, ao se referir á vinda de cópias do material de Turner para cá. Dispensável ufanismo.

Ora, afinal os registros de Lourenzo Dow Turner, como qualquer etnologia, são universais, os dados neles contidos, pertencem a toda a humanidade e só nos são tão desconhecidos até hoje, por conta talvez de nossa conhecida incúria acadêmica e o mal disfarçado pouco caso diante de tudo que se refere á presença de negros africanos por aqui.

(Lembrem-se que, ao que sabe, os pares de Lourenzo Turner na cidade de Salvador de 1941, notadamente Arthur Ramos e Edison Carneiro, testemunhas quase oculares das preciosas coletas de Turner, praticamente (salvo engano), nenhum uso ou citação fizeram sobre a existência deste precioso material, como se sabe, descoberto por acaso muito recentemente por um pesquisador estrangeiro.

E vejam, o mesmo ocorreu com as coletas do norte americano Stanley Stein em Vassouras, RJ, em 1949, descobertas do mesmo modo, recentemente e que continham preciosos registros de Jongo, Folias de Reis, Samba Rural e outras manifestações típicas dos ex escravos do Vale do Paraíba do Sul, RJ, solenemente ignoradas pelas sumidades do ramo até então)

Surpreendente e promissor, portanto, para os (supostos) modos algo racistas de ser desse grande jornal, que tão brilhante matéria seja publicada. Bons sinais também, devo admitir, a ascensão de jornalistas negros (as) (como Flavia de Oliveira, por exemplo) nas pautas recentes de O Globo – algumas marcadas até por um não dissimulado ativismo.

Estas coisas muito animam o Titio.

Brumas vão se dissipando e o que elas iam encobrindo, meio por  incúria ignorante, meio por tolo desprezo racista, começa a se revelar. O certo é que descartei meus escritos preliminares, bem genéricos, os que postaria hoje, por achar o assunto já bem claramente expresso na matéria de Bolívar Torres. Coloco ou reitero aqui apenas dados suplementares.

Outros dados, também preciosos tenho ainda aqui comigo, por elaborar, num novo artigo, para o deleite dos interessados. Os dados: Lorenzo Dow Turner – a matéria de O Globo já ressalta – é um dos precursores dos estudos linguísticos sobre o negro africano na Diáspora (sempre bom ressaltar as coletas em partituras, realizadas por Aires da Mata Machado Filho em 1928, em Diamantina, MG). 

Revisando a resenha sobre o acervo de Lorenzo Turner, aliás encontrei a inusitada citação “angolan funeral songs”, que corresponde, quase exatamente aos vissungos recolhidos por Aires da Mata em 1928. A resenha não enumera Minas Gerais no trajeto das viagens, mas sugere, fortemente a relação de Lorenzo Turner com os vissungos em 1940/41 numa coleta até hoje desconhecida, anterior, portanto,  a de Luiz Heitor Correa de Azevedo, esta em 1944.

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Africanos de Serra Leoa, presumo, ouvem divertidos a gravação de suas vozes por Lorenzo Dow Turner.

O material das coletas de Lorenzo Turner ao qual a matéria se refere, ao que parece, no caso do acervo do AMT da Indiana University, acabou não sendo considerado prioritário no âmbito geral do trabalho do etnolinguísta, talvez por esta razão não conste ainda do acervo da Indiana University a sua digitalização.

Presumo que estas digitalizações da Bahia já existam no Melville J. Herskovits Library of African Studies na Northwestern University Library ou outro acervo ao qual Bolívar Torres teve acesso (li qualquer coisa sobre o etnomusicólogo Carlos Sandroni estar trabalhando nisso aí.)

Sobressaíram mais, contudo as coletas de Turner na Costa Leste norte americana e coletas feitas no Caribe e na África ocidental. Aguardamos ansiosos.

Na resenha do AMF/UI sobre os arquivos de Turner diz-se o seguinte:

“Lorenzo Dow Turner Gullah Collection Fonte: Arquivos de Música Tradicional da Universidade de Indiana, EUA.

Registros de campo realizados por Lorenzo Dow Turner Na Georgia e Carolina do Sul e Sea Islands em 1932 e 1933, versando sobre o dialeto crioulo afro americano conhecido como “Gullah”, falado nesta região dos EUA. Formato: 154 discos de aluminio.

Lorenzo Dow Turner (1890-1972) foi um linguísta afro americano, que ficou conhecido como o pai dos estudos sobre o “Gullah” após publicação em 1949 dos africanismos contidos no dialeto Gullah, a primeira grande descrição científica deste dialeto.

Esta publicação da ATM/IU, (resenhada por este texto) um grande recurso para pesquisadores, contém diversas transcrições de gravações de Turner.

O trabalho de Lorenzo Dow Turner ajudou a construir uma fundação para estudos sobre a diáspora africana e contestou a noção que prevalecia há muito tempo de que a cultura afro-americano era simplesmente uma derivação da cultura norte americana branca. Turner mostrou que haviam retenções culturais significativas de culturas africanas entre os afro-americanos. Seu teabalho de campo adicional no Caribe, Brasil e África Ocidental fundamentou ainda mais estas ideias.

Os Arquivo de Música Tradicional da Indiana University contêm várias coleções de gravações etnográficas e linguísticas feitas por Turner, que foram gravadas em 836 discos de alumínio e laca. As gravações feitas nos verões de 1932 e 1933 compõem a coleção de discos de Gullah, compostas por 154 discos de alumínio e documentos de textos com cantos de trabalho, histórias, spirituals e contos de escravidão, recolhidos com 50 falantes de Gullah.

A ATM/IU possui também gravações das pesquisas de campo de Turner no Brasil (Salvador, Bahia em 1941: nota do Titio), África Ocidental, Louisiana do Sul, e várias outras partes dos Estados Unidos.

A coleção Gullah digital foi preservada como parte do Projeto Sound Directions Project.”

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Tema para muitas mangas. Me aguardem. Titio volta já

Spírito Santo  Junho 2015

VeVe – Milo Rigaud

•25/09/2018 • Deixe um comentário

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Candombe, Ndombe, Candomblé

•11/09/2018 • Deixe um comentário

1845. Juan Manoel Rosas, governador da província de Buenos Aires, Argentina, (sentado à esquerda) assiste a uma exibição de Candombe. O autor da imagem é desconhecido.

O Candombe clássico, recorrente, é o do Uruguai. Mas o gênero – pelo menos o título – está relacionado a muitas manifestações musicais ou religiosas da Diáspora africana nas Américas, principalmente, além do Uruguai citado, no Sudeste do Brasil e na Argentina.

O termo, não é de difícil tradução (ka-ndombe, “ka” um prefixo diminutivo do kimbundo, sendo “Ndombe”, entre outros sentidos, um lugar no Benguela, Angola) mas o sentido é fugidio, provavelmente seria ou teria passado a significar uma expressão genérica para definir “dança de negros” (como “Batuque”), com alguma certeza relacionando-se à danças oriundas da área Congo-Angola.

(A palavra”Candomblé”, aliás, que se diga, vem de “Candombe”.)

Em Minas Gerais o Candombe, sob a forma antiga de ritual de casa-terreiro, é tido como um ancestral de ternos de Moçambique, ou mesmo de algumas Congadas. É possível até hoje se encontrar algumas formas de Candombe em Minas Gerais.

O Candombe na Argentina, pode ser encontrado em Buenos Aires, Santa Fé, Paraná, Salta e Corrientes.

(Se você, assim de relance, tiver um insight ligando essa conversa à Milonga e ao Tango, saiba: saiba que é um insight luminoso)

Spirito Santo

Setembro 2018

Memória Nacional, seus esqueletos e seus armários

•08/09/2018 • Deixe um comentário

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Memória Nacional, seus esqueletos e seus armários

(Esta entrevista, com perguntas elaboradas pelo jornalista Leonardo Lichote para o jornal O Globo, é distribuída para um grupo de pensadores da cultura brasileira, teve algumas partes de cada convidado – entre os quais este autor- utilizadas numa excelente matéria publicada em 08/09/2018 no segundo caderno do jornal.

Publico aqui a íntegra das minhas respostas no intuito de expor o sentido geral do que penso sobre o candente assunto

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– Existe a célebre frase “O Brasil é um país sem memória”. Gostaria de desdobrá-la, ir um pouco mais fundo nisso, entender essa premissa. Isso é verdade?

Não. Não é verdade. Todo país tem memória. Ao usar esta expressão, provavelmente estamos nos referindo àquela parcela da população do Brasil com poder para manipular os registros dessas nossas memórias, retê-los, omiti-los ou mesmo falseá-los em seu proveito.

Estamos falando, suponho do uso político da História – da memória coletiva – por parte de uma arcaica aristocracia, de um país rachado em partes desiguais. Estamos admitindo enfim, muito timidamente ainda, a existência de uma classe de odiadores da memória de nosso país, disfarçados de guardiões oficiais de nossas lembranças.

Como o país lida com sua memória?

Cada sociedade lida com sua memória de variadas maneiras, mas em geral dispositivos diversos de registro e difusão, vulgarmente conhecidos, em seu conjunto, como Cultura, são, naturalmente criados para gerir e cuidar da memória, da história de um país.

Óbvio constatar, contudo que em sociedades tão radicalmente divididas como a nossa, esses dispositivos estão em estado de permanente e exacerbado conflito. Somos, portanto, do ponto de vista de nossa cultura entre outros, uma sociedade perigosamente conflagrada.

Por que isso se dá?

Provavelmente isto se dá porque os mecanismos de exclusão sócio racial – o racismo tornado aqui eixo do conflito por conta do modelo escravista que nos ligou umbelicalmente à África negra – desde os tempos coloniais são mecanismos muito resilientes.

Por razões ainda não suficientemente aprofundadadas o colonialismo no Brasil gerou uma “elite” extremamente ignorante, inepta e incapaz de encarnar o espírito de liderança de uma nação, comportando-se até hoje, tanto tempo depois da nossa independência de Portugal como europeus de segunda classe, ressentidos de sua suposta condição de asilados, degredados, piratas sem navio para fugir de uma ilha estranha, já saqueada.

– Porque a memória é importante?

A resposta é óbvia. O que configura, consubstancia um indivíduo, um ser vivo em geral são suas memórias, desde as genéticas, biológicas até as memórias sociais, a história de sua comunidade, memórias estas retidas nos registros trabalhados ou criados por seus sábios, seus artistas e educadores, impressos ou grafados em suportes diversos, desde os materiais tangíveis da ordem da arte, até os intangíveis, filosóficos, religiosos, etc. grafados no conjunto de cérebros de seus indivíduos.

Uma sociedadade – ou um indivíduo – sem memória é uma entidade morta, um ex-organismo em decomposição.

– Porque é tão difícil de se convencer a sociedade do valor da memória?

Antes de mais nada, é muito importante que se diga, de modo enfático até, que o desprezo pela memória nacional – tratando-se em especial do Brasil – não é uma característica da maioria de nossa população. Seria uma afirmação equivocada e injusta.

A grande maioria dos brasileiros cuida de forma exemplar de nossa memória por meio de inúmeras manifestações culturais, nas quais de forma artisticamente simbólica, cifrada; fatos, eventos, saberes morais e científicos tradicionais, materiais e imateriais são expressos de forma ativa, vivos, disponíveis à atenção das instituições destinadas a organizá-los, metodizá-los, sistematizá-los e conservá-los, como é o caso das universidades, dos centros culturais, dos museus ou instituiçaões similares.

Mas o que fazer quando essas instituições, espaços de poder político que são, assumem a condição também de espaços exclusivos de ascenção social para uma certa casta (que se sente estrangeira), que exerce este poder por meio de arcaicos mecanismos de exclusão social de parte considerável, majoritária até de nossa população, mecanismos tornados sistemáticos, apesar de terem sido supostamente abolidos, por lei, no século passado: a escravidão rediviva e sua resiliência inexplicável.

Trata-se então de um problema ideológico de grande complexidade no qual aos odiadores da ideia de um país livre e original, exatamente a estes é que destinamos a função de cuidar de nossa memória.

A Democracia, a igualdade total entre os indivíduos, a liberdade de opinião, além do acesso de todos à Educação, portanto são essenciais à consciência de uma sociedade sobre o valor de suas memórias.

– A memória é um espaço de disputa política, social, simbólica? Como isso se dá?

A Memória (ou a cultura, enquanto conjunto de memórias de uma sociedade) é, deve ser um espaço de conflito na medida em que sem tensão e conflito nada se move.

Mas ocorre que este conceito de conflito ao qual me refiro, naturalmente é apenas simbólico.

O Brasil – quem não sabe? – segue sendo, ao longo dos séculos, uma das sociedades mais desiguais do planeta. Convivemos aqui com armários largados ao relento, onde os odiadores do país escondem certas memórias incômodas à sua utopia de país europeu fora de lugar, memórias como esqueletos de parentes bastardos, largados ao relento para que apodreçam ao sol.

Não devia ser surpresa para ninguém que os acervos de nossa memória material vivam queimando por aí enquanto suas carcaças permanecem de pé, álibis dos crimes cometidos, geladeiras de memórias mortas pelo desprezo ou pela omissão.

Precisamos ser nós mesmos os guardiões dos museus e das memórias mais caras do país, os acervos em nossas cabeças retidos, pois só as memórias intangíveis, expressas em nossa cultura popular à prova de fogo, pode nos salvar da sanha dos odiadores.

Precisamos, de algum modo nos libertar deles e só assim voltar a guardar nossas relíquias materiais mais amadas em armários seguros.

Spirito Santo
Setembro 2018.

•08/09/2018 • Deixe um comentário

Eugenia é o cacete! Gente não se mistura

•13/08/2018 • 1 Comentário

Gente, água e óleo, tudo a ver.

Somos diversos, este é o nosso destino. Só nos misturamos na lama

Todo hibridismo é estéril. Não existe, portanto mestiçagem, mulatismo, crioulidade possível entre seres humanos.

(É um modismo estranho esse papo de mestiçagem vir refluindo assim, justo agora, como esgoto entupido. É bom falarmos sobre isto)

O Alí Kamel, editor chefe do jornalão, pautou esse tema diversas vezes em O Globo no passado, mas depois que o STF aprovou a pertinência constitucional das cotas raciais, a conversa morreu. Trata-se de uma ressuscitação de uma pauta morta? É um filme de zoombies? Jornalismo amarelado de direita?

Numa dessas matérias do geneticista contratado pelo jornal, por exemplo, o percentual de DNA europeu do Neguinho da Beija Flor e da ginasta Daiane da Silva seria, supostamente, de….60% (!). De que isto nos importaria? Eles viraram brancos diante dessa controversa constatação?

Convenhamos que é um tanto óbvia a conclusão no que diz respeito à aparência das pessoas não definir uma origem “racial” (o que, simples assim, prova apenas que não existem raças). Só me chamou a atenção o fato de quase nunca se mencionar os percentuais do DNA africano das pessoas brancas, que fica sendo o sujeito oculto na história.

Mas fica combinado assim: ser preto – ou branco – não tem fundamento eugênico, você não é uma espécie melhor ou pior de ser humano só porque tem a aparência fenotípica assim ou assada. Existem pretos, existem brancos e todas as possibilidades fenotípicas que estas duas matrizes possam gerar porque, a base de nossa natureza, geral, planetária, é a…DIVERSIDADE.

Pelo amor de deus! Isto é o básico de nossa humanidade.

Desculpem tocar em questão tão óbvia, mas, aparentemente, estas pesquisas morta-vivas parecem sempre querer reduzir a proporção de DNA africano na população (inclusive aquela que é visivelmente negra) e isto é uma coisa muito estranha. Não parece ocasional. Tem algo de intencional este eugenismo mofado e fora de hora.

Muito doida a sugestão dessas pesquisas de que o Brasil, com esta multidão de milhões de negros (e pardos, como alguns querem que se diga, “não-brancos” diria eu) tenha tanto DNA europeu. Haveria assim alguma potencialidade maior, alguma qualidade superior na constituição do DNA dos europeus que o faria mais resiliente que o DNAs das demais fenotipias que, o”inferiores”, se diluiriam com o tempo?

Estranho geneticismo seletivo este. Onde, mãe de deus estão as provas dessas teorias tão escalafobéticas?

Neste sentido, gostaria de chamar a atenção dos mais distraídos: O fato é que, na série de matérias pautadas pelo Kamel em O Globo, a intenção clara era política: reduzir a importância do DNA africano na população brasileira, numa época em que as campanhas pela adoção de cotas raciais bombavam.

(Ali Kamel – lembram? – liderava um grupo radicalmente contrário às cotas, grupo este por fim derrotado no STF. Alguns integrantes desse grupo soturno chegou a montar um tal de “Movimento pardo-Mestiço”, cuja guru principal, a mais proeminente era a antropóloga Ivonne Maggie.

Ninguém falou nisso aqui, mas eu espero que todos já estejam convencidos de que este tipo de pesquisa e seus inusitados resultados nada têm a ver com a questão do Racismo (a tentativa de alguns grupos de negar a sua existência), Racismo este que não passa de uma construção social, implantada no Brasil como “fundamento”, expediente para excluir pessoas em espaços sociais subalternos. A antidemocracia colorida.

Aliás, sempre me espanta um pouco este tipo de busca por ancestralidades biológicas (ou pedigrees) improváveis, ser uma tendência, tão fortemente voltada para o eugenismo (a genética como “prova”), quando se sabe que o DNA seria apenas um minúsculo indício de uma remota origem de alguém, sem a menor chance de identificar ancestrais reais, antepassados indivíduos.

Sugiro a todos que dêem uma estudada básica em pesquisas históricas que dão conta do alto percentual de DNA africano na população europeia – principalmente na nobreza, em todas as famílias reais. Fiz uma rápida pesquisa sobre isso e fiquei com o meu cabelo duro em pé. As descobertas embolam, desmoralizam qualquer conclusão eugenista baseadas nesses exames de DNAs remotos.

(Pobre Dr. Frankenstein)

Vamos pensando melhor no tema, é o conselho. Gastar dinheiro só pra saber se se é mais ou menos europeu, ou africano ou indígena é uma decisão um tanto inútil. Tomaria tudo de cerveja, entre outros prazeres mais…culturais e nesse transe etílico descobriria toda a verdade:

Somos todos negões!

Estou mesmo curiosíssimo é com a importância que o tema do percentual de DNA “racial” (a mestiçagem como sujeito omisso) esteja tão em voga no Brasil. Todo mundo querendo saber se é ou não é negão…até os que evidentemente negões já são.

O que está havendo, pessoal? Este é um tema do século 19!

Portanto, não se assustem, racistas arcaicos. Os negros, os meio negros ou quase negros, os que se parecem com negros, enfim, não estão urdindo planos de vingança. Estão apenas descobrindo que foram enganados.

Relaxem, e aprendam a gozar o prazer seminal de serem apenas gente normal se embolando, rolando agarrada numa lama medicinal dessas, como a de Guarapari.

Spirito Santo
Agosto 2018

Tabato, a Tabanca dos Djidius – Voz da Guiné

•19/07/2018 • 1 Comentário

Comentário sobre Gilberto Freire na lata

•18/07/2018 • Deixe um comentário

 

 


Denegrindo Gilberto Freyre

Como vivo dizendo por aí (bem sei que para os mais doutos nada disso é novidade) Freyre foi CONTRATADO pelo estado fascista Português.

Visitou todas as colônias portuguesas e formulou, como ideólogo as leis de gestão e controle das populações, expediente conhecido, oficialmente em Angola como “Lei do Indigenato”, que estabelecia status sociais denominados “indígenas” (o povo natural, de cultura tradicional africana) e “assimilados” (os aculturados, formados nos liceus, doutrinados nos modos de ser dos europeus)

(Importante ressaltar a similaridade entre o sistema proposto por Freire e a legislação sul africana conhecida como Apartheid, ou mesmo das categorias usadas no colonialismo pleno dos séculos anterores ao XX (“boçais”, “Ladinos” e Crioulos”.)

Não é novo esse pensamento conservador que eu chamo de neo racista. As ideias eugenistas, muito fortes nos anos 1930 (notadamente no Brasil), desmoronaram na década de 1940 com a queda do nazismo e foram, evidentemente recicladas.

O pensamento de Freyre e seu luso tropicalismo, é a ponta dessa “nova” ideologia que marca, profundamente as Ciências Sociais brasileiras até hoje.
Tem muito material analítico e crítico dessa ideologia em Portugal (aoacontrário daqui)

Aos “indígenas”, segundo a lei inspirada em Freyre, cabia o serviço do “Contrato”, regime de trabalhos forçados idêntico à escravidão. Os “assimilados” formavam uma espécie de classe média, uma aristocracia, aliada ao neo colonialismo deste estado fascista salazarista.

Esta intensa experiência de Freyre como ideólogo do fascismo português, que ocorre entre o fim da década de 1930 e o início de 1940 (omitida sutilmente em nossa bibliografia) é trazida para o Brasil é inspira a “Democracia Racial” brasileira, conceito a ele atribuído, mas na verdade cunhsdo por seguidores (Freyre, arguto grafava “Democracia Social”)

 
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