Black Blow Up. Nós na câmera da escravidão obscura.

•01/12/2013 • 2 Comentários

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Partida para a colheita de café com carro de boi- Vale do Paraíba do Sul - 1885. Marc Ferrez/ Coleção Gilberto Ferrez/ Acervo Instituto Moreira Salles.

Partida para a colheita de café com carro de boi- Vale do Paraíba do Sul – 1885.
Marc Ferrez/ Coleção Gilberto Ferrez/ Acervo Instituto Moreira Salles.

Esquadrinhando uma foto de Marc Ferrez

( Leia as elucidativas legendas passando o mouse pelas imagens)

Em meados dos anos 1970, ainda desenhista de arquitetura dos Correios e Telégrafos, mas já escalavrando sítios culturais por aí, saindo de uma inspeção numa agência da empresa em obras na Rua da Quitanda, no Rio de Janeiro, me vi lá pelas tantas diante de uma curiosa loja antiga, do século 19, com ares de um sebo literário, algo assim.

Casa Marc Ferrez”, estava escrito num letreiro.

Uma luz branca piscou na minha cabeça de negro. Um flash. Foto em Preto&branco. Havia acabado de enveredar pela pesquisa de fotos sobre a escravidão, coisa raríssima de se encontrar na época, restrita a algumas poucas coleções particulares, inacessíveis ou a uns poucos livros enormes, de capa dura, editados em edições limitadíssimas, mais inacessíveis ainda aos vis e duros mortais feito eu.

Havia visto já em algum lugar umas fotos desta época eletrizante, os primórdios da fotografia, assinadas por um dos mais famosos fotógrafos de então: Marc Ferrez. Liguei na hora os fatos: Casa Marc Ferrez, um estabelecimento remanescente de um outro do século 19 só podia ser a velha loja e laboratório do grande Marc Ferrez, sobrinho do outro Marc Ferrez vindo com a chamada Missão Francesa (na verdade um grupo de exilados bonapartistas) para o Brasil em 1816.

E era.

Entrei emocionado. Bem jovem ainda, jamais poderia imaginar que o passado pudesse ficar preservado assim, por tanto tempo. Foi ali que soube da existência de negativos de vidro, daguerreótipos, carte de visites e outros suportes fotográficos antes do papel. Logo abordado por um velho e atencioso senhor chamado Gilberto Ferrez, tão emocionado quanto eu, ouvi rápidas histórias sobre o legado de seu  avô. Confirmei ali que Marc fizera sim muitas fotos da escravidão, mas elas não estavam disponíveis em nenhuma publicação ainda.

Foi aí que o vírus de investigador e esquadrinhador de imagens foi inoculado em mim. Comecei a encontrar fotos de Marc por todo canto, mas sempre quase nada de suas imagens sobre escravidão.

Este hiato imperdoável, fruto evidente de nosso racismo residual, mas também motivado por fatores muito mais complexos, tais como o nível ainda excessivamente aculturado de nossa historiografia, aferrada demais à metodologias canônicas, que subestimam ainda a importância da iconografia (e da História Oral) como elementos de análise historiológica válidos, este hiato renitente enfim, está começando a ser preenchido.

Só agora, com a caixa de Pandora da internet arreganhada é que estas imagens começaram a afluir. Titio tem publicado na rede, entusiasticamente tudo que descobre neste campo. Me empolga demais quebrar estas vidraças egoístas. Vejam só por exemplo:

(O Museu de Arte Contemporânea da USP, em parceria com o IMS, abriu no dia 28 de outubro, a exposição Emancipação, inclusão e exclusão. Desafios do Passado e do Presente – fotografias do acervo Instituto Moreira Salles, com  fotografias de Marc Ferrez, Victor Frond e George Leuzinger, entre outros. A curadoria é de Lilia Schwarcz, Maria Helena Machado e Sergio Burgi.

A mostra com 74 imagens, inclusive originais de época, analisa o registro fotográfico feito sobre negros – livres, escravizados ou libertos – no Brasil, em um período em que vários fotógrafos estrangeiros atuavam no país com trabalhos com forte elaboração estética e formal. )

“…A fotografia de escravos e ex-escravos no Brasil tem uma particularidade: de um lado, a fotografia entrou cedo no país contando, já nos finais dos anos 1860, com clientela certa, que dentre outros incluía o imperador d. Pedro II; ele próprio um fotógrafo.

De outro lado, a escravidão tardou demais a acabar, guardando o Brasil a triste marca de ser o último país do Ocidente a admitir tal tipo de sistema. Dessa confluência resultou um registro amplo e variado desse sistema de trabalho e de seus trabalhadores.

 As crianças e os adolescentes, poupados da caminhada eram transportados na carroça, talvez para não atrasar a viagem. O garoto da extrema esquerda, já quase adulto, tem sinais de ter problemas renais. O da extrema direita está morto de sono. Todas as crianças olham para a câmera com certo ar de enfado, talvez já acostumados com poses para fotografia.

As crianças e os adolescentes, poupados da caminhada eram transportados na carroça, talvez para não atrasar a viagem. O garoto da extrema esquerda, já quase adulto, tem sinais de ter problemas renais. O da extrema direita está morto de sono. Todas as crianças olham para a câmera com certo ar de enfado, talvez já acostumados com poses para fotografia.

Por vezes tomados ao acaso, por vezes figurando como modelos exóticos ou tipos para a análise da ciência; ora como parte do cenário, ora como figuras principais, escravizados foram flagradas nas mais diversas situações. “

…”Mas se a operação de converter os indígenas em “objeto de estúdio” fazia parte dos cânones românticos de época, mais difícil era captar o dia a dia da escravidão e do trabalho forçado. Grande contradição do Império brasileiro, o sistema escravista foi abordado por diversos fotógrafos, autônomos ou apoiados pela Coroa.

Particularmente nos anos 1870 e 1880 proliferaram as fotos de escravizados, revelando, por sua regularidade, de que maneira o sistema andava naturalizado entre nós e disperso por todo país. Negros figurariam em cartes de visites, mas também nos documentos científicos.

Estariam também presentes nas fotografias de paisagem e na documentação do trabalho nas fazendas de café realizadas tanto por Victor Frond nos anos de 1859 e 1860, como por George Leuzinger por volta de 1860, e Marc Ferrez na década de 1880.  Em todos esses casos vemos a montagem da representação naturalizada da escravidão: tudo em seu lugar.”

“…Contando… com clientela certa”.

A afirmação expressa no texto da curadoria soa contraditória aos mais argutos quando entendida como um ensejo para “um registro amplo” de nossa escravidão. Ora, é por demais evidente que havia uma diferença enorme entre os interesses desta “clientela certa” (e dos fotógrafos a serviço dela) gente esnobe e escravista e os interesses dos escravos. Isto só poderia gerar uma iconografia travada, velada, de modo algum uma ‘variada visão’ do sistema de trabalho e de seus trabalhadores”

É onde peca, claudica a nossa historiografia mais convencional, sempre parcimoniosamente crítica, quase conivente. Uma simples comparação com a iconografia norte americana do mesmo período já nos dá a justa medida do quanto fomos -e somos- excludentes e seletivos (racistas, por suposto) também em nossa fotografia, nas imagens subalternas e comedidas que os nossos fotógrafos de antigamente (a maioria estrangeiros, diga-se) fizeram de nossa realidade escravista.

É pouco ainda. Observem que são apenas 74 imagens reveladas agora por esta exposição (algumas na verdade nem tão inéditas). Eu próprio já conhecia algumas há tempos, de ver aqui mesmo no internet, pesquisando para o meu livro “Do Samba ao Funk do Jorjão“.)

Nestas fotos nenhuma reportagem, nenhuma violência flagrada, nenhuma vítima acorrentada ou manietada num pelourinho, nem mesmo ferida, aleijada, nenhuma máscara de flandres no rosto de uma escrava, nenhum tronco, nenhum instrumento de tortura sequer insinuado num canto de cena, algemas, correntes, nada.

As expressões de todos os homens demonstram desagrado de estarem ali posando. Em alguns, os mais velhos (como este um pouco mais à frente) e o da extrema direita, o olhar é quase de ódio contido. Observem que o da extrema esquerda não esconde  a expressão de uma raiva sarcástica.  O homem ao centro (como o adolescente do corte 01) também tem no inchaço do rosto, sinais de ter problemas renais.

As expressões de todos os homens demonstram desagrado de estarem ali posando. Em alguns, os mais velhos (como este um pouco mais à frente) e o da extrema direita, o olhar é quase de ódio contido. Observem que o da extrema esquerda não esconde a expressão de uma raiva sarcástica. O homem ao centro (como o adolescente do corte 01) também tem no inchaço do rosto, sinais de ter problemas renais.

Isto tudo aí, anti ícones a serem escondidos está mal flagrado em gravuras, como se esta parte fosse uma iconografia do século 18, quando nem havia fotografia ainda. É que gravuras e desenhos não são dados “sérios“, exatamente críveis, qualquer um pode afirmar que aquilo ali descrito nunca existiu.

As imagens que legaram estes retratistas do século 19 foram sim, cuidadosamente controladas e censuradas, de modo algum representando, como dizem com ênfase equivocada nesta resenha, a tal visão “ampla e variada” de nossa escravidão.

É particularmente inquietante o fato de todas as imagens serem rigorosamente posadas, cenograficamente montadas, grande parte com figurino cuidadosamente produzido, muito mais do que flagrantes instantâneos da realidade, vocação precípua da arte fotográfica, uma espécie de arranjo congelado – e não refiro a baixa velocidade dos filmes da época – frames armados de uma ópera em slow motion, com os pobres atores imobilizados, amarrados por correntes invisíveis.

Nem mesmo as pitorescas cenas de rua, com escravos dançando ou amontoados em grupos de “negros de ganho”, tão comuns na obra de artistas como Rugendas e Debret, aparecem nestas fotografias, dando-nos a pertinente impressão de que uma meticulosa censura se não ocorreu na fonte, na captação destas imagens, ocorreu no controle dos proprietários dos acervos resultantes, ciosos de manter ocultas imagens mais constrangedoras e incômodas de nossa escravidão.

É prematuro, contudo se atribuir esta censura imagética a uma suposta conivência ou subordinação dos fotógrafos aos ditames de sua ‘clientela‘. Observemos que a maioria esmagadora destes registros aparecidos, são oriundos de acervos privados, ou seja quase nada foi ainda liberado para acervos públicos, livremente acessíveis à pesquisadores, que têm que se conformar com acervos privados, gradativamente tornados públicos por beneméritos como a família do banqueiro Walter Moreira Salles.

“…Mais uma vez, a forma precisa e estetizada se fazia presente nos cestos bem montados, nas vendeiras dispostas de maneira equilibrada e com panos das costas detalhadamente expostos, nos carregadores de liteiras bem postados. Aí estava novamente o espetáculo de uma escravidão pacífica e sem contestação. No entanto, essas fotos urbanas denunciam igualmente precariedade, indisciplina e certa ausência de controle do trabalho escravo nas cidades.”

Pode existir também – forçoso colocar – algum cuidado ou mal estar dos historiadores atuais de trazer a público imagens mais chocantes de nossa escravidão, que porventura lhes chegue as mãos, num momento em que a maioria dos historiadores ainda é gente branca, de algum modo marcada ainda por algum racismo ou preconceito residuais.

Não se têm por isto mesmo – e isto é um dado crucial nesta questão – a mais vaga ideia do volume de negativos ainda resguardados dos olhos de nós todos, objetos de heranças, aguardando o interesse de compradores ou simplesmente perdidos, esquecidos em gavetas familiares por aí.

É bastante provável por tudo isto, do mesmo modo como ocorreu com a iconografia sobre o negro dos EUA depois das lutas pelos direitos civis, que cenas mais realistas, jornalísticas de nossa escravidão comecem a aparecer na medida em que as cotas nas universidades aumentem o contingente de historiadores negros, interessados em revolver de vez estes inestimáveis dados de nosso passado e as bancas de mestrado e doutorado se tornem mais especializadas no assunto a ponto de ensejar pesquisas menos evasivas ou superficiais.

“… Entretanto, é a partir de uma atenção aos detalhes que os negativos fotográficos registraram, que podemos vislumbrar muitos momentos e ângulos de autonomia e de vontade própria por parte dos fotografados, possibilitando uma leitura a contrapelo ao sentido geral das imagens.

O fato é que a possibilidade atual de ampliar os negativos permitiu que trouxéssemos à tona o registro de detalhes de primeiro e de segundo planos. Hoje, com as novas técnicas é possível buscar ângulos recônditos das fotografias, muitas vezes desconhecidos pelo próprio artista que registrou a cena.

Embora o fotógrafo do XIX não pudesse revelar suas fotos em proporção mais ampliada, o negativo que ele nos legou permite, e é esse o convite que fazemos nessa exposição. A partir de recortes das imagens, vemos gestos e olhares que conferem singularidade aos indivíduos fotografados, fossem eles escravizados, libertandos ou libertos.”

É assim, seguindo as possibilidades instigantes deste novo caminho (na verdade e sem falsa modéstia devo reafirmar aqui que o Titio pode ser considerado um dos precursores mais animados desta abordagem iconográfica) que sigo esquadrinhando minúcias e blowups desta foto, descobrindo até, como faço aqui, agora, esfuziante como uma criança, detalhes que pouca gente ou ninguém viu.

Incrível! Acredite quem quiser (adeptos de São Tomé vão entender.)

Ai Jesus! Escravos brancos europeus?! Como assim.

As mulheres e seus bebês não são de modo algum aliviadas. Na verdade são mais prejudicadas que os homens na caminhada porque caminharão a pé com o peso da crianças e as bacias, nas quais, provavelmente carregam víveres e providenciais guarda chuvas. Calma! Já vi. É disto que estou falado: Tem um gajo inteiramente portuga ali no meio da negrada.

As mulheres e seus bebês não são de modo algum aliviadas. Na verdade são mais prejudicadas que os homens na caminhada porque caminharão a pé com o peso da crianças e as bacias, nas quais, provavelmente carregam víveres e providenciais guarda chuvas. Calma! Já vi. É disto que estou falado: Tem um gajo inteiramente portuga ali no meio da negrada.

Calma. Posso explicar tudo e exulto já de antemão diante da surpresa de vocês. Fiz um esquadrinhamento meticuloso desta maravilhosa foto de Marc Ferrez e posso, praticamente provar uma tese minha, antiga que sempre irrita os militantes negros mais xiitas: a de que o sistema de trabalho escravo não se confundia, exatamente com o sistema racista implantado e aperfeiçoado logo após a abolição.

Sim, sim! Escravos brancos, europeus! Uma descoberta surpreendente esta que eu – e sei lá mais quem – acabo de fazer.

Ninguém – nunca ouvi falar até hoje – viu o que vi porque…sei lá, talvez seja porque, normalmente olhamos numa fila de escravos, apenas negros africanos, uma massa amorfa de gente preta e nem ligamos para a humanidade ou a individualidade de cada uma das pessoas ali flagradas, nunca as olhamos nos olhos. E daí perdemos a parte melhor do filme.

Eu não. Cri cri, perdigueiro, amo os detalhes e as minúcias de paixão.

Quero entrar naquele tempo, ser uma daquelas pessoas, viver a história delas, mesmo que vá doer. Fiz assim alguma investigação para embasar o melhor possível esta minha mui inusitada afirmação. Macaco véio, estou vacinado já contra os narizes torcidos e a parcimônia dos mais doutos diante deste meu dom involuntário para descobrir fissuras e detonar o senso comum.

Aconselho, portanto a todos que afirmam que o Titio “viaja”, guardar o ceticismo para depois. Senão vejamos:

…Os imigrantes portugueses figuravam no estrato mais baixo da sociedade do Rio de Janeiro na segunda metade do século XIX, ao lado de negros e mulatos. Os portugueses e os negros habitavam o mesmo espaço geográfico, frequentemente dividindo o mesmo cortiço e compartilhavam da vivência na cidade…

…No caso da imigração portuguesa para o Rio de Janeiro, ela se intensificou quando o tráfico negreiro ainda estava em pleno funcionamento. Tratava-se, sobretudo, de uma imigração de jovens açorianos com idade entre 13 e 17 anos (a mesma média de idade dos escravos trazidos da África (grifos meus).

Na época, havia denúncias de que os navios negreiros também eram usados para trazer esses jovens portugueses para o Brasil, que eram chamados de engajados. Os jovens assinavam um contrato com o capitão do navio no qual, em troca da passagem de navio, se comprometiam a trabalhar para algum senhor no Brasil. O capitão do navio vendia o passe desses portugueses para o senhor, no valor da passagem e, ao pagar, o último adquiria esse trabalhador.

Os engajados tinham que pagar a soma do valor da passagem através de trabalho gratuito, cujo tempo era estipulado pelo próprio senhor, muitas vezes chegando a três ou cinco anos. Os imigrantes que se evadissem das terras antes do término do contrato eram tidos como “fugidos”. Todas essas características aproximavam os imigrantes portugueses da condição social dos escravos no Brasil.

As péssimas condições a que eram submetidos esses imigrantes portugueses no Brasil se refletiam nas estatísticas. Entre 1850 e 1872, a maioria dos adolescentes portugueses que desembarcavam no Rio de Janeiro morriam três anos após a chegada ao Brasil, vítimas de febre amarela, das más condições de moradia e das jornadas exaustivas de trabalho. Era a denominada “escravidão branca”, denunciada pela imprensa da época.

A maioria dos imigrantes portugueses na cidade era de adolescentes e jovens do sexo masculino, analfabetos, oriundos de zonas rurais de Portugal, completamente despreparados para enfrentar a vida numa metrópole do porte do Rio de Janeiro.

Fonte: “Dos fadistas e galegos. Os portugueses na capoeira” /Carlos Eugênio Líbano Soares:

Viram só? Quem diria? Como nunca nos apercebemos deste fato tão candente? Digo assim, de vê-lo fotografado, tão cabalmente demonstrando a tese de Líbano Soares. Alguém aí, algum outro historiador mais do ramo sabia disto, dos portugueses na foto de Ferrez? Se há algum bidu antes do Titio me responda: Porque diabos este flagrante andava escondido de nós, o pá?

Já cansei de dizer: Não tenho a menor pretensão de desmontar o estabelecido. Ocorrem comigo naturalmente estas coisas. Tirocínio de futucador, de bicho carpinteiro, faro, intuição, mero acaso, sei lá. Fazer o quê? Afinal era só olhar para ver.

No ensejo, abro para todos vocês o meu detetivesco e leigo método de esquadrinhamento de imagens antigas, que muito tem adiantado a minha vida de pesquisador, fatiando a foto em sub-fotos, micromilimetrando minúcias, desvendando em blowups os detalhes mais invisíveis aos olhos distraídos, supondo com insights e palpites para depois sair catando as provas por aí.

E aqui…Ai, Jesus! Outro escravo portuga! São dois os portugas!

E o portuga com cara de revoltado? Como seria a vida destes gajos ali no meio de gente tão diferente, pagando a aventura de emigrante com a servidão, melhor que os outros, já que tinha a alforria programada (mal sabia ele que apenas três anos depois a abolição para todos viria, de qualquer jeito.)

E o portuga com cara de revoltado? Como seria a vida destes gajos ali no meio de gente tão diferente, pagando a aventura de emigrante com a servidão, melhor que os outros, já que tinha a alforria programada (mal sabia ele que apenas três anos depois a abolição para todos viria, de qualquer jeito.)

Ah…Como viram, não resisti também de comentar corte a corte (passe o mouse nas imagens que as legendas aparecem), instigado em poder partilhar com vocês o olhar das pessoas da imagem, tateando a alma delas, agora liberadas para nos repassar suas mensagens cifradas naquele instante da foto, deixando de ser meros avatares de um sistema para serem de novo gente comum, como eu ou vocês, assim, num ampliador reveladas para o futuro, alforriadas.

Deixe então tudo de besta que traz dentro de si, a empáfia o ceticismo vazio e a arrogância, largue tudo na antessala deste senso comum embolorado. Entre vazio de certezas neste portal de forevers. Convido-os a cair dentro desta câmera obscura, para nos reconhecermos brilhando dentro dos olhos destas pessoas, quase a abraçá-las.

 E por fim...Ela, a mais nova e mais bela, a insolente e abusada. Entre todos a única pessoa que desafia a câmera. Que rebeldias terá feito na vida? E o portuga? Como seria a vida destes gajos ali no meio de gente tão diferente, pagando a aventura de emigrante com a servidão, melhor que os outros, já que tinha a alforria programada (mal sabia ele que apenas três anos depois a abolição para todos viria, de qualquer jeito.)

E por fim…Ela, a mais nova e mais bela, a insolente e abusada. Entre todos a única pessoa que desafia a câmera. Que rebeldias terá feito na vida?

E qual terá sido o final deste filme emocionante? De que importa? Blow Up não tem fim, como naquele filme do Antonioni, estão sabendo?

Spirito Santo

Dezembro 2013

O Orgulho amargo da pitonisa

•25/07/2015 • Deixe um comentário

Publicado originalmente em SPIRITO SANTO:

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Brasil haiti duplo 1-Toussaint L’Overture, líder da revolução haitiana no século 18. 2- Lula da Silva e Renèe Preval, presidente do Haiti no século 21

 Luiz Ignacio hoje e Henry Christoffe ontem:’

Que o o Haiti nunca seja aqui.

(O presente artigo enviado para publicação no jornal on line ‘Observatório da Imprensa’ em meados de 2005, no auge da crise do mensalão foi ‘derrubado’ pelo editor-chefe ou seja, considerado irrelevante ou inoportuno para a pauta daquela edição)

Em 05 de março de 2003, ainda no embalo da euforia generalizada que se abateu sobre a população brasileira com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, escrevi, como colaborador do OI, um artigo o qual, de forma um tanto impertinente talvez, intitulei “ Lula-lá- A classe média enfim vai ao paraíso”, A impertinência do título, por alguma razão editorial, não…

Ver original 2.061 mais palavras

Só Danço Samba (Pobre Samba meu)

•13/07/2015 • 2 Comentários

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Pixinguinha e Tom. Aparentemente (a foto é de uma série) Pixinguinha nesta ocasião ensina acordes de piano à Tom que também faz duetos na flauta, com Pixinguinha ao piano.

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A foto é muito emblemática. Ao que parece,  Tom Jobim e Chico Buarque usam os chapéus de Pixinguinha e João da Bahiana. As expressões e os sorrisos contidos de Pixinguinha e João podem denunciar que eles não “passaram”, voluntariamente os chapéus para os dois. Sutilezas.

O “sambismo” branco elegante da Bossa Nova posto em xeque.

“Pobre samba meu
Foi se misturando se modernizando, e se perdeu
E o rebolado cadê?, não tem mais
Cadê o tal gingado que mexe com a gente
Coitado do meu samba mudou de repente
Influência do jazz…”

————–

Gene Lees, grande crítico musical canadense, escreveu um artigo luminoso sobre a Bossa Nova e Tom Jobim sempre republicado por aí, mundo afora (embora quase nunca por aqui) O artigo sobre Antonio Carlos Jobim, que saiu provavelmente em 1987 ou 1993 na revista JazzLetter (escrita e editada por Lees)  foi também publicado no livro do mesmo Gene Lees “Singers & Song II (Nova Iorque : Oxford University Press, 1998) em um capítulo intitulado “Um abraço no Tom”.

Extraí, indiretamente desse artigo uma nota que publiquei em meu livro ‘Do Samba ao Funk do Jorjão“, muito polêmica porque denuncia a presunçosa arrogância elitista (claramente racista, diga-se) de Tom Jobim ao, desairosamente comparar numa entrevista a Lees, a Bossa Nova (dele e João Gilberto) com o Samba Negro (assim mesmo, adjetivado por ele) de todos nós.

Ora, repito insistentemente por aí, a suposta modernização do samba “negro“- cujo primitivismo é bastante questionável (ora, música é uma linguagem atemporal!) – esta fusão do Samba com o jazz, de autoria atribuída por Tom Jobim a ele mesmo, João Gilberto e a sua (deles) Bossa Nova é uma leviandade em todos os termos.

Quem não sabe que fique sabendo: esta “modernização” ocorrida, no mínimo na década de 1920, teve como precursores evidentes, entre outros, os “primitivos” crioulos Pixinguinha e Donga (e vejam: nesta fusion de ritmos africanos do Brasil e o jazz feita por Pixinguinha e os Oito Batutas, nem havia ainda o rótulo Samba, claramente expresso)

Convenhamos: Tom Jobim, um músico andado e viajado pela cena musical do Rio de Janeiro desde, pelo menos, o final da década de 1950, conhecia Pixinguinha, aprendeu até algo com ele e sempre soube disso. Logo, Tom foi, além de leviano, displicente em sua fala para um arguto crítico musical gringo. A nota que publiquei no livro (de 2011) causa ainda muito frisson nos meios mais laudatórios da obra de Tom Jobim.

A editora da primeira edição do meu referido livro, por exemplo, me chamou, gravemente a atenção sobre a temeridade que seria expor este lado tão politicamente incorreto – inacreditável para ela – de um monstro sagrado de nossa música popular, uma espécie de Villa Lobos da MPB.

Alguns leitores mais deselegantes, chegam mesmo a duvidar das minhas fontes que foram, inicialmente o livro “Sambeabá, o samba que não se aprende na escola”, de Nei Lopes e é agora (instigado por um comentário incrédulo de mais um leitor), diretamente extraída da fonte primária: o artigo de Gene Lees que compartilho aqui – com tradução livre do Titio com a ajuda de seu filhão Thiago Rosa – na íntegra para vocês. Antes, disponham do trecho da fala de Jobim que cito no livro, também no original:

“The authentic Negro samba in Brazil is very primitive. They use maybe ten percussion instruments and four or five singers. They shout and the music is very hot and wonderful.

“But bossa nova is cool and contained. It tells the story, trying to be simple and serious and lyrical. Joao [Gilberto] and I felt that Brazilian music had been too much a storm on the sea, and we wanted to calm it down for the recording studio.

You could call bossa nova a clean, washed samba, without loss of the momentum. We don’t want to lose important things. We have the problem of how to write and not lose the swing.”

Como se pode ver, os conceitos ‘negro“, associado à “primitivo” e “sujo“, associado a “Samba negro“, do qual, segundo Tom a Bossa Nova seria uma ‘depuração“, aparecem – verdade seja dita – bem nítidos na fala textual dele, revelada por Gene Lees, insuspeito por ser seu grande admirador. No bom sentido (e com todo respeito)

Titio quis apenas matar a cobra e mostrar o pau.

———-

Com a palavra, Gene Lees:

“A primeira música que ouvi de Jobim foi “Desafinado”. Dizzy Gillespie executou-a no Salão Sutherland em Chicago, no inverno de 1961-1962, quando Lalo Schifrin estava tocando com o grupo. Mais tarde, no meu apartamento, Lalo tocou a melodia novamente no meu piano, me mostrando as mudanças de acordes. Embora Lalo seja argentino, tinha vivido no Brasil e estava bem familiarizado com a nova música que havia surgido no Rio de Janeiro.

Logo depois eu ouvi um álbum de João Gilberto, a quem muitas pessoas consideram o pai da Bossa Nova (título que não significa nada mais do que ‘algo novo’), e isso só intensificou meu interesse por este notável e sutil balanço, seu acento lírico, particularmente nas músicas de Antonio Carlos Jobim.

Quando no início de 1962 apareceu uma oportunidade para eu passar seis meses na América Latina, incluindo o Brasil, agarrei a chance, em parte porque por muito tempo, nós da América não nos interessamos em saber  algo sobre os milhões de pessoas que dividem o Hemisfério Ocidental conosco .

A este respeito, as coisas não mudaram muito. Mas parte da razão que me instigava era saber mais sobre esta nova música, esta tal de Bossa Nova. E assim, em maio, na nossa primavera, outono no Brasil, eu estava no Rio de Janeiro.

A editora tinha me dado o número de telefone de João Gilberto. Ele não falava Inglês e passou o telefone para sua esposa Astrud. Ela me deu o telefone de Jobim para que eu o contatasse. Jobim me convidou naquela mesma noite para ir a sua casa, à uma curta distância da praia de Ipanema, uma longa faixa de areia em curva, que é uma das glórias daquela cidade. Quando entrei na pequena casa, João Gilberto estava sentado em um sofá cercado por um quarteto vocal chamado “Os Cariocas”.

Ele estava tocando violão e ensaiavam a harmonia de uma canção de Jobim chamada “Só danço Samba”. Eu tinha feito um estudo sobre as músicas de Tom Jobim, e entendia as letras em português. Ele e eu fomos para a cozinha e ele serviu uísque para nós dois. Lembro-me de estar de pé ao lado da geladeira com Jobim me dizendo:

“Eu sou doido, mas ele” – indicando João, na outra sala – “É muito mais doido”

No entanto a maior parte da nossa conversa foi em francês. Jobim falava pouco inglês e eu, pouco português. Sua ascendência era francesa, daí o seu sobrenome.

Eu lhe disse que acreditava que muitas de suas canções poderiam ser vertidas para o inglês e que sabia como fazê-lo. Ele me incentivou a tentar, e antes mesmo de sair do Brasil, eu já tinha escrito letras em inglês para ‘Corcovado “e” Desafinado “, que ficaram conhecidas, respectivamente como” Quiet Nights of Quiet Stars”e” Off Key “. Quando Jobim chegou a Nova York para um concerto no Carnegie Hall, eu o apresentei a Gerry Mulligan, cuja música – pelo testemunho de ambos Antonio e João – foi uma importante influência no desenvolvimento da Bossa Nova.

Na ocasião Jobim me disse:

“O samba autêntico negro do Brasil é muito primitivo. Eles usam talvez dez instrumentos de percussão e quatro ou cinco cantores. Eles gritam e a música é efusiva e maravilhosa demais. Mas a Bossa Nova é leve e contida. Conta uma história, tentando ser simples, grave e lírica.

João e eu sentimos que a música brasileira soava exagerada como uma tempestade no mar, e queríamos torná-la calma, mais adequada à gravação em estúdio. Você pode chamar bossa nova de um samba limpo, lavado, sem perda do clima.

Nós não queremos perder coisas importantes. Só temos o problema de como compor sem perder o balanço. “

E eles não perderam. Influenciaram o jazz americano quase tão profundamente quanto o jazz americano os havia influenciado Com o passar dos anos, Jobim continuou a se desenvolver. O samba não é, de modo algum o único ritmo tradicional do Brasil.

A influência de África é muito profunda, particularmente no norte e o folclore musical é muito rico. Nos anos seguintes Jobim passou a refletir em sua música esta tradição musical variada; os anos da bossa nova ficaram para trás. Cada vez mais suas canções passaram a refletir seu interesse pela ecologia do planeta e sua destruição.

“Estamos construindo um deserto, meu amigo”, ele me disse certa vez em Los Angeles.

Corcovado (Quiet Nights of Quiet Stars) é uma das primeiras canções de Jobim que ouvi. Na versão da letra tentei manter, não só o significado do original, mas também o ar fatalista, comum nas canções brasileiras e que, acredito deriva de fado português, remotamente oriundo da doutrina árabe do kismet. Corcovado é o nome da montanha na qual a estátua do Cristo Redentor foi erguida com os braços estendidos, como se abraçasse a cidade do Rio. A palavra significa corcunda, que é como os primeiros colonos chamavam a montanha.

“Só Danço Samba” foi a música que eu ouvi João Gilberto cantando no sofá de Jobim na noite em que conheci os dois. João cantou tão baixinho (mas tão perfeitamente!) que eu mal podia ouvi-lo, mesmo estando a poucos centímetros de distância.

Ele desenvolveu um estilo de um quase “vibrato less” (sem vibratos) uma forma de cantar que me fez lembrar, de uma só vez, o cantor francês Henri Salvador (o qual João disse tê-lo influenciado) e Chet Baker. A canção era sobre um rapaz que se diz cansado do twist, do calypso, e do cha-cha e que, de agora em diante” “Eu só danço samba”, que é o que o título significa.

A gravação, dessa música com Stan Getz, foi feita logo após a caravana de músicos brasileiros chegar à Nova York. A canção “Desafinado” (Off Key) é uma espécie de hino da bossa nova, pois aborda com humor a escola mais antiga de cantores e músicos do Brasil que se opuseram ao movimento da Bossa Nova, músicos mais velhos, críticos do bebop dos Estados Unidos.

Existe uma piada construída na harmonia desta canção: uma quinta bemol na segunda corda – um efeito harmônico que fazia parte do bebop. Os conservadores do Brasil disseram que a bossa nova tinha melodias tortuosas, mas a canção se tornou um hit internacional. “Grande amor” é uma das músicas menos conhecidas de Jobim, do início de sua carreira.

Ela foi incluída numa das sessões de gravação de Stan Getz com João Gilberto. A canção mantém a sua beleza melancólica, mesmo três décadas após a sua gravação. Insensatez (How Insensitive): A seqüência de acordes de abertura é copiada do “Prelúdio em Mi Menor de Chopin” e alguns de nós, ocasionalmente, brincávamos com Jobim sobre isso.

Gerry Mulligan foi tão longe com a gozação que propôs gravar o “Prelúdio em Mi Menor” em ritmo de samba.

Inútil Paisagern (Useless Landscape): Tirando o fato de achar essa uma das melhores músicas de Jobim queria também acrescentar o seu dueto com Elis Regina. Apesar dele tocar piano em muitas de suas músicas, isso não dá uma idéia real de quão bem ele tocava. Eu tenho uma fita dele com Gerry Mulligan gravada no final dos anos sessenta.

Jobim soa um pouco como Bill Evans na fita. O acompanhamento neste disco dá bem uma dica sobre sua forma de tocar. “

Gene Lees em junho 1993

© -Gene Lees, protegido por direitos autorais; todos os direitos reservados.

…”Quase que morreu
E acaba morrendo, está quase morrendo, não percebeu
Que o samba balança de um lado pro outro
O jazz é diferente, pra frente pra trás
E o samba meio morto ficou meio torto
Influência do jazz

No afro-cubano, vai complicando
Vai pelo cano, vai
Vai entortando, vai sem descanso
Vai, sai, cai… no balanço!

Pobre samba meu
Volta lá pro morro e pede socorro onde nasceu
Pra não ser um samba com notas demais
Não ser um samba torto pra frente pra trás
Vai ter que se virar pra poder se livrar
Da influência do jazz.”

(Influência do Jazz – Carlos Lyra)

Spirito Santo

Julho 2015

Zé Maria no Kalunga Ngombe. Tributo ao branco que foi grande

•11/07/2015 • Deixe um comentário

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 A descolonização da saudade de Zé Maria Nunes Pereira, o eterno mestre branco da minha negritude.

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…A raiz da minha história está na separação dos meus pais, quando eu tinha seis anos. Se desquitaram, fiquei com meu pai e fomos morar, primeiro, numa república de portugueses, depois,papai comprou um casarão enorme e fui criado por uma família negra: Mãe Lúcia, as irmãs e os meus dois irmãos de criação, que eram mais velhos e me protegiam..”

…”Fui um menino de bairro negro e de cais do porto; das minhas janelas eu via o cais. E mãe Lúcia teve muita influência em mim. Ela sempre se preocupava em dizer: “Você vai ser grande branco.”

…Ela era da ‘Casa das Minas’, mas nunca me levou para lá, escondia tudo o que era de culto. As nossas velhas de antigamente queriam que a nossa gente negra fosse criada no mundo dos brancos. Não era por alienação, era para vencer. Eu é que fazia ao contrário.

…Eu sempre fui um assimilado ao contrário, um sujeito africanizado desde muito cedo. Foi uma influência que pareceu depois esquecida, mas mais tarde veio a marcar muito a minha vida.

Agora, no dia 4 de dezembro, dia de Iansã, ela faria 100 anos se estivesse viva. Ela e papai morreram com dois meses de diferença. Eles se amasiaram, ele morreu, e ela morreu dois meses depois.”

(Entrevista concedida entre 15 e 28 de dezembro de 2006, no Rio de Janeiro, a Verena Alberti e Amílcar Araújo Pereira)

————

Não tenho na minha já velha memória nenhuma referência de mestre, sábio condutor de vidas, maior que este maranhense emotivo que soube hoje que se foi. Nem encontro palavras para descrever a perda irreparável que a alma vívida e intensa dele fará no rol de minhas memórias mais preciosas, na memória de todos que conviveram com ele.

No início dos anos 1970, eu jovenzinho ainda, o conheci na seção de Ipanema da Universidade Cândido Mendes. Ali, pela modesta injunção dele, em tumultuados, quase anárquicos encontros vespertinos, se urdia o que viria ser o refundado Movimento Negro Brasileiro.

Não vejo ninguém lhe dando este crédito merecido (quem sabe talvez por julgá-lo um branco a mais) mas no meu entender, ele é sim o principal instigador desta refundação daquilo que, aglutinando grupos diversos de negros, naqueles politizados, embora tensos anos da ditadura militar, acabou gerando sólidas instituições, o IPCN carioca e o MNU nacional, para citar apenas as mais bem sucedidas, inspiração para a criação de dezenas de outras instituições antirracistas, políticas, culturais e artísticas pelo Brasil afora.

Mas ele será sempre reconhecido por todos pelo seu incansável trabalho de intelectual militante pela descolonização e a libertação da África, ainda envolta em sangrentas guerras naquela época em que tive o enorme prazer de conhecê-lo.

Sem nenhuma dúvida, tudo que sou hoje, esta ligação com a pesquisa da cultura do negro no Brasil, a escrita, a música, tudo dessas mesmas coisas, o kissange e a marimba dos quais me tornei mestre fazedor e ensinador, o Grupo Vissungo, o Musikfabrik, meu textos meu livro, tudo que sou como intelectual orgânico, compulsivo, veio dele, espécie de pai do que me transformei:  José Maria Nunes Pereira.

A memória mais intensa que me vem dele agora, vivificada pela tristeza de perdê-lo, é a de uma daquelas tardes de sábado num pequeno quarto do apartamento da Rua Dois de Dezembro onde ele, dadivoso, com a intensa emoção que o caracterizava, abria mapas, tocava vinis, cedia cópias em fitas K7 (as quais guardo até hoje) emprestava livros, nos iniciando, ele, o branco, nas coisas da África negra – de Angola, principalmente- sua grande paixão.

A cena é ele, o querido Zé Maria, no calor do quarto, ás lágrimas cantando para nós, pobres rapazes negros ignorantes e atônitos, um poema de Agostinho Neto musicado por Rui Mingas que deixo aqui como tributo saudoso a esse branco que foi grande.

Mãe Angola
(Adeus à hora da largada)

Minha mãe
tu me ensinaste a esperar
como esperaste paciente nas horas difíceis
Mas em mim, a vida matou esta mística esperança
Eu não espero. Sou aquele por quem se esperar

A esperança somos nós os teus filhos
nascidos par uma fé que alimenta a vida

Nossas crianças nuas
nas senzalas do mato
Os garotos sem escola
a jogar bolas de trapos

Nos areais ao meio dia
Nós mesmos, os contratados
a queimar a vida nos cafezais

Os homens negros, ignorantes
que devem respeitar o branco
e temer o rico.

Somos os teus filhos
dos bairros de pobres
conforme concebes
com vergonha de te chamarmos mãe
com medo de atravessar a rua
com medo dos homens
Somos nós a esperança
em busca da vida.”

——–

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José Maria Nunes Pereira Conceição foi um dos fundadores, em 1973, do Centro de Estudos Afro-Asiáticos (CEAA) da Faculdade Candido Mendes, no Rio de Janeiro, uma instituição de referencia para assuntos ligados à África e suas relações com o Brasil. Nascido em São Luis do Maranhão (1937), estudou em Portugal (1947-1962) e participou dos movimentos de libertação das colônias ponuguesas na África.

Graduou-se em ciências sociais na UFF (1972), foi pro­fessor de história da África e editor da revista Estudos Afro-Asiáticos, do CEAA (1978-1986). Sua dissertaçáo de mestrado em sociologia, defendida na USP em 1991, teve como tema o centro de estudos que fundou: ”Os estudos africanos no Brasil e as relações com a África – um estudo de caso: o CEAA (1973-1986)”. A tese de doutorado, também defendida na USP, em 1999, intilulou-se “Angola: uma política externa em contexto de crise (1975- 1994)”.

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Spírito Santo
Julho 2015

_”Matem a macaca!” Uma jornalista negra é o alvo da vez.

•09/07/2015 • 2 Comentários

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O atirador é o racismo caolho de sempre.

Titio já disse: A invisibilidade midiática é o calcanhar de aquiles do racismo.

É uma tese simples: Negros visíveis, ocupando funções sociais proeminentes, normais, corriqueiras, desmontam a tese absurda de que os negros são intelectualmente inferiores e que por isso devem ocupar funções modestas e subalternas na sociedade.

Mas isto é um problema de nervo exposto, ferida aberta. A cabecinha de um negro ou negra aparece ali, acima da linha d’água e pronto, começam o ataque histérico, a celeuma, as pedradas.

Aflora aí, nos racistas – sempre na sombra, mas que são muitos e muitos no Brasil – uma espécie de complexo de inferioridade intolerável, uma consciência de culpa mau deglutida, um sentimento raso e ambíguo de ressentimento que assume a forma de ódio cego, desmedido.

(Franz Fanon explica)

É o que sempre ocorre em casos como o de Maria Júlia Coutinho. Os racistas fóbicos, radicais aparecem como uma matilha de cães raivosos se aproveitando de tudo para demolir a pessoa negra que ficou célebre, no afã de desconstruí-la, destruí-la, reinvisibilizá-la, devolvê-la ao limbo.

No fundo no fundo morrem mesmo é de medo, de cagaço, os coitados. São portadores de uma fobia colonial, um complexo de inferioridade bem psicótico, doentio.

(Nos estertores da escravidão brasileira, com a Abolição já dada como certa, inexorável, um medo pânico se espalhou pelas fazendas e pela Corte do Rio  – inclusive entre os abolicionistas, pretos e brancos – se apossando, preferencialmente dos brancos escravistas  – inclusive os pobres – por aí afora, temendo que os negros antes de serem libertos, impacientes, se rebelassem por si mesmos e pegando em armas, facas, mosquetes, catanas ou mesmo as próprias mãos crispadas, se lançassem sobre os brancos, sedentos de vingança:

A imprensa da época chegou até a chamar este clima paranóico de o “Terror Negro”.)

O caso do Joaquim Barbosa, o negro vingador insubmisso, ocorrido tanto tempo depois, praticamente ontem mesmo, é tão clássico quanto simbólico, do quanto a evocação deste passado escravocrata é ainda latente.

O ódio ideológico contra ele, por conta de sua firme condução do processo jurídico do Mensalão, rapidamente assumiu proporções absurdas, a feição de ódio racial exacerbado ficou clara para todos. Passaram a atacar a sua reputação, seu passado, sua família, tudo que dissesse respeito a ele foi…”denegrido“.

Foi o que fizeram – de forma chocante! – pessoas adeptas do PT, sintomaticamente brancas em sua maioria (negros petistas, inclassificáveis – não nos esqueçamos – também atacaram Joaquim) pessoas que julgávamos apenas equivocadas, porém, honestas e progressistas, “de esquerda”, mas que, máscaras caídas, começaram a se comportar como racistas fóbicos, direitistas mesmo, quase nazistas, no ensejo de desmoralizar, desqualificar o emérito juiz, mesmo sendo ele a maior autoridade jurídica do país.

_”Morte ao macaco!”_ Escreviam os mais estúpidos, insanos.

Para se ter uma ideia do quão virulento era este sentimento de ódio racial aflorado, basta lembrar que até ameaçado de morte Joaquim Barbosa foi, sendo obrigado a se aposentar e abandonar suas funções no STF, numa carreira promissora que ainda duraria muitos anos.

É este o contexto onde se pode encaixar o ódio ainda enrustido, mas já perceptível contra Maria Julia Coutinho, uma simples jornalista, apenas mais uma entre tantas belas mulheres escaladas para cobrir – com rara competência diga-se – notícias sobre o clima no Brasil no maior jornal de TV do país, mais uma “Moça do Tempo“, e daí? Mas…

“_Matem a macaca!”_

Escrevem no facebook jovens brancos imbecis. E um coro de brancos adultos, velhos, senhores e senhoras, surgem das sombras como fantasmas balbuciando por entre os dentes:

(_”Matem e…esfolem!”)

É por isso que sempre digo: A invisibilidade midiática é o calcanhar de aquiles do racismo.

Não basta ao negro ser eficiente, competente, irrepreensível. Vocês, nós todos precisamos entender que não somos mais escravos carentes da magnanimidade ou do reconhecimento do Sinhô.

A estratégia, a ideologia ideal não é este abolicionismo tardio e comedido das Seppirs, este assimilacionismo pai-joão de movimento negro elitista e pomposo, de ministras pretas de echàrpes bregas, de se submeter as regras de um sistema que não tolera negros fora de “seu lugar”… De-jeito-nenhum.

Sejamos resolutos, insubmissos. Sejamos VISÍVEIS e já que, pobres de espírito precisamos ainda de modelos edificantes: Sejamos heróis.

Simbolicamente…Matemos o Sinhô doente, psicopata que está encarnado, encruado em nós.

_Xô, xô, sinhô!

Spirito Santo
Julho 2015

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VISSUNGO, a Saga: Avaliando K I L O M B O L O K O!

•07/07/2015 • Deixe um comentário

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A carreira do Vissungo em revista

No fim desta sensacional turnê do Vissungo (40 anos de praia!) pela rede de lonas e arenas culturais da Secretaria Municipal de Cultura do Rio, muitas reflexões ocorrem ao Titio. Algumas, das mais ácidas, já esbocei num post anterior.

No fim do último show, eufóricos com o resultado artístico maravilhoso, fica a vontade de manter a azeitada máquina do Vissungo em moto contínuo, forever.

Um tanto surpreso e feliz com a nossa excelente forma de curtido vinho antigo, reflito sobre as perguntas de sempre, que nos invadem toda vez que terminamos uma jornada dessas, mais uma de nossa longa, longa, longa trajetória. Entre as perguntas surgidas aqui e ali da plateia ou de fãs curtidores das notícias da turnê, duas são chave:

_ “O CD! Cadê o CD!”_ Nos perguntou um grupo de ávidos novos fãs no final do penúltimo show desta turnê.

_ “Quando o Vissungo virá à minha cidade?”_ Nos perguntam outros fãs mais distantes, um pergunta que envolve questões muito mais instigantes e dubiosas.

Afinal, porque com um trabalho considerado artisticamente tão moderno e consistente, numa cancha que envolve trabalhos emblemáticos e premiados internacionalmente em trilhas sonoras para TV e cinema, com incursões tipo saga, por lugares e remotos do país (a pesquisa) ou em excursões por lugares europeus musicalmente importantes como a Itália e Áustria, carece tanto de visibilidade e projeção em seu próprio país?

Pois é.

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Estas perguntas sempre me inquietaram. Sempre reluto também em tentar respondê-las porque, fatalmente caio no lodo escuro da dúvida.

Será que o Mercado, o mainstream nos recusa espaço por alguma razão misteriosa? E esta é uma pergunta com resposta óbvia. Fôssemos atraentes ao mainstream e teríamos tido nesses 40 anos de carreira a nossa chance de gravar muitos LPs, CDs e estourar na praça, lógico!

Claro está também que a razão de fundo é mesmo muito misteriosa. Me ajudem a refletir, por favor: Que razão misteriosa seria esta?

A qualidade artística, musical de nosso trabalho, foi uma razão descartada logo de início, até porque o mercado nunca foi muito criterioso quanto a isto. Com muita frequência se pode observar que o sucesso de um artista medíocre ou relevante se dá, fulgurante, a despeito da qualidade chinfrim ou supimpa de seu trabalho.

A baixa apreciação do público também é outro fator descartável. Qualquer um que já assistiu um show ou a um ou outro clip do Vissungo e que esteja lendo este post agora, pode dar aqui testemunho do seu apreço, do seu prazer.

O que seria então? Nas centenas de entrevistas que já demos descrevendo assim ou assado o nosso trabalho, nas reportagens que abordaram aspectos de nossa carreira, nenhum jornalista se atreveu a nos sugerir uma resposta válida sequer para este enigma.

Por que o mercado sempre nos ignorou, descartou ou desprezou, assim tão renitentemente?

Com certeza, o fato de termos uma proposta artística fora dos padrões engessados dos escaninhos, dos nichos recorrentes do mercado: Samba, Rock, Funk, Sertanejo, Forró, patati patatá, é um fator relevante. Sim. Nossa música contêm, de algum modo, elementos de todos esses gêneros, mas os mesclamos de uma forma original, na lógica da música da Diáspora africana, nosso eixo temático fundamental.

Mas vejam, somos cria fiel da riquíssima música popular dos anos 1970, quando a regra principal e irrevogável do sucesso artístico era ser diverso, inusitado, original. Era pecado mortal naquela época alguém parecer demais com o outro. Imediatamente seria tratado, pejorativamente como “papel carbono” como se dizia na época. Havia um impulso dos produtores para encaixar as propostas num quadradinho estilístico inicial, mas ser cover, cover mesmo, jamais. O cover, o reles imitador, quase sempre amargava o limbo do mercado.

Que eu me lembre agora, dois exemplos são emblemáticos: a semelhança, então inaceitável entre Jorge Ben – hoje Benjor – e Bebeto e o certo jeitão de Milton Nascimento/Gilberto Gil misturados que tinha o Djavan do início. Com efeito ambos tiveram alguma dificuldade para emplacar. Dos dois, apenas Djavan conseguiu virar emblema de sucesso total.

O Vissungo, orgulhosamente não parece com ninguém, mas isto, estranhamente não nos beneficiou nos anos 1970, quando o inusitado era desejável. Porque teria sido?

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Quando surgimos, por exemplo, o “Afro Beat” era uma tendência musical generalizada no continente africano, mas completamente desconhecida no Brasil. O gênero consistia na inserção de elementos “afro” da Black Music da Motow (o Funk-Soul de James Brown, basicamente) na música tradicional, tribal mesmo da África seminal, incrementada por linhas contrapontísticas de baixo e guitarra desta Black Music mais visceral. Este original estilo africano, não entrava no Brasil de jeito nenhum.

Nossa experiência na Europa nos mostrou que existe ainda hoje – e desde os anos 1970 talvez – uma rígida divisão do mercado fonográfico da música popular mundial entre Europa e EUA. Nada, rigorosamente NADA da música negra bombada na Europa, abastecida pela riquíssima cena musical das ex colônias escravistas, tocará nas áreas de mercado subordinadas aos EUA e vice versa e temos aí neste quadrado americano o mercado brasileiro.

(E vejam, se liguem no paradigma: A chamada música pop internacional é uma invenção, claramente africana, gestada nas grandes cidades das Américas, no imediato pós abolição)

O estilo do Vissungo, formatado como “MPB negra” na origem , a partir dos anos 1980 (O samba, gênero bem sucedido no mercado na ocasião, o era apenas como um gênero tradicional, quase folclórico) o Vissungo assumiu enfim, francamente um formato “Afro-Pop“. Era uma tendência clara do mercado mundial, refletindo o explosivo sucesso comercial da luminosa gravadora Motown, ocorrido ainda nos anos 1970.

Mas havia um perceptível torcer de narizes dos críticos da época no Brasil que, furibundos nacionalistas, não admitiam uma música “negra” que não fosse tradicional por um lado, ou por outro (oh, contradição!), mero sucedâneo da Black Music gringa. Havia, isto sim, é um esforço enrustido de não estimular um música negra pop original, moderna, feita por negros.

Vai explicar!

Com efeito, o mercado musical brasileiro a partir do final dos anos 1970, em sua ideologia capitalista exacerbada (inserida na lógica da divisão de território mercadológico citada acima), pressionado por uma forte cena black (o fenômeno “Black Rio”), forjou e estimulou um produto negro musical mais voltado para o sucedâneo, o similar ao original, o cover enfim, aqui carimbado, sintomaticanente de…”Black Music“, com Tim Maia e Banda Black Rio nas cabeças.

Ora, o Vissungo também sempre tocou música popular fusion Afro Americana, só que optou fazer isso a partir do som da África que, historicamente dizia mais respeito ao Brasil: Angola, Moçambique, Guiné Bissau, Cuba, etc. uma música mais fácil de ser fundida com a música afro brasileira tradicional mais disseminada por aqui, o Samba, as Congadas, o Jongo e vejam: fazemos esta nossa fusion, exatamente com o Funk/Soul do inesquecível James Brown.

Tivemos um incidente curioso ligado a este paradoxo, recentemente. Foi quando insinuamos á amigos músicos mais jovens, a criação de uma “frente Afro-Beat” no Rio, visando a formação de uma plateia específica, tipo de movimento muito comum nos anos 1970.

Hum, pra quê? Fomos sutil e educadamente ignorados. Soubemos depois, sondando por aí, que não éramos bem vistos na cena por não sermos considerados uma banda de “Afro Beat”…”legítima” porque, simplesmente este rótulo passou a significar apenas aquilo que era cover de Fela Kuti, da música popular fusion da África Ocidental (Nigéria basicamente) com o formato bandão de sopros.

Pagamos no início o preço de sermos precursores. Pagamos nos anos 1980 o preço de não termos aquele sotaque da música negra norte americana mais recorrente. Pagamos na volta da Europa o preço de não sermos suficientemente “brasileiros” e continuamos a pagar ainda hoje o mesmo preço pela nossa insistência em sermos independentes e originais, não nos rendendo à “modinha” do Afro Beat do Fela Kuti, por exemplo.

Mas seria isto mesmo? De relance, as vezes, achamos que estamos mesmo é envoltos no manto de invisibilidade que cobre toda manifestação artística e cultural de negros no Brasil, enredados nesse racismo nosso de cada dia.

Com efeito, na crônica da música popular do Brasil, tem sido muito recorrente o ostracismo a que são relegados artistas negros com propostas não conformistas ou submissas às leis rasas do mercado local. Quantos não raparam fora para deslancharem suas carreiras no exterior?

“_Vocês não são crioulos? Toquem Samba tradicional, ora!”_ Nos diziam alguns produtores e críticos dos anos 1970/1980.

“_ Vocês não são crioulos? Toquem Fela Kuti, ora!_” Nos diz hoje a garotada branca que controla a incipiente cena musical “africana” do Rio de Janeiro.

Será que sermos, enfim uma verdadeira banda de crioulos musicalmente insubmissos, rebeldes é o verdadeiro “xis” do problema?

_” Vocês não se dizem crioulos rebeldes? Toquem Funk, ora!”_ Penso ouvir gritar pra mim um MC de “Proibidão’ na saída de um show no Complexo da Maré.

(Já nos mandaram tocar Raggae music também, claro!)

Afinal, porque esta cisma misteriosa do mercado com o Vissungo véio de guerra? Alguma pista para vocês nesta resenha sobre o perfil, supostamente maldito de nossa proposta? Jamais saberemos e por isto seguimos empávidos e felizes. Alguém, algum biógrafo que descubra .

Fica, portanto um conselho óbvio para vocês, amados fãs empedernidos de nossa rebeldia.

Visitem nossa página do Facebook. Falem de nossa saga, ouçam, vejam, divulguem, comprem, sugiram que comprem shows do Vissungo por este país afora.

_Alô, Brasília! Alô, São Paulo! Alô Belo Horizonte! Alô Salvador! Alô, Brasil!

Estamos em ponto de bala e os senhores do mercado para nós são…vocês.

Somos o VISSUNGO do K I L O M B O L O K O, morou?

(Fotos de Caio Rosa na Arena Cultural Dicró, na Penha em 04/07/2015. Veja o álbum)

Spirito Santo.
06/97/2015

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Viva Vissungo! É nóis!…Apesar deles.

•30/06/2015 • Deixe um comentário

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Saudades dos “Pacotes Culturais”

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2015. Reinaldo Amancio, Lula Espírito Santo (encoberto) e Spírito Santo. Vissungo em turnê.

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1978. Show histórico na favela do Caramujo, Niterói: Lula Espírito Santo (perfil), Carlos Codó in memorian e Spírito Santo (de costas)

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1995. Spirito Santo, Reinaldo Amancio (o baixinho), Jahir Soares (o careca) e Lula Espírito Santo. Até hoje aí. E aqui.

Na próxima quinta feira, dia 02 de Julho, com fecho de ouro no sábado, 04/7 (na Arena Cultural Dicró, na Penha, ás 20hs) o Vissungo encerra a sua heróica turnê por lonas e arenas culturais da zona oeste da cidade do Rio de Janeiro. Foi uma das mais felizes turnês de nossa longeva carreira, que já vai passando dos incríveis 40 anos.

Talvez ninguém se lembre, mas uma das bandeiras mais caras á ideologia do Vissungo, depois da pesquisa de campo, aquele se embrenhar nas maravilhas musicais do black Brasil profundo, a música oculta da Diáspora africana que cunhou a nossa estética negro-pop, depois desse mergulho artístico tão bem sucedido, assumimos como missão tocar, sempre que possível, para gente das periferias, ir de verdade “onde o povo estava”.

Na crônica de nossa carreira, nunca esqueceremos a turnê denominada “Pacote Cultural”, um programa idealizado pela Secretaria Estadual de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, comandado á época (final da década de 1970) pelo teatrólogo Paulo Afonso Grisolli. O convite partiu da querida musicóloga Cecília Conde, coordenadora de música do programa, entusiasta de nosso trabalho desde o início.

A missão desses “Pacotes Culturais”, entusiasticamente aceita por nós, consistia em realizar shows nos mais recônditos cantões do interior do estado com pouco ou nenhum recurso técnico, sem som, sem palco convencional, sem nada, bem no jeito do que o pessoal de teatro na época chamava de “mambembar”.

Viajávamos num fusca entulhado por nós músicos mais os instrumentos (empilhados num bagageiro), numa imagem indiana. Tocávamos em coretos, salas de aulas, púlpitos ou altares de igrejas, quadras de esporte, onde desse.

A filosofia dessas ações oficiais de dinamização da cultura no nosso estado, que vinham de encontro á nossa ideologia de antiga banda suburbana, era um imperativo nas políticas de fomento cultural da época. A população das nossas periferias e do interior, não tinham acesso a, rigorosamente nenhuma atividade artística que não fosse o ainda incipiente acesso à televisão. Não existiam grandes shows promovidos por prefeituras, não haviam casas de espetáculos, shows em clubes, nada.

Este episódio dos primórdios da descentralização das cenas artísticas, musicais do Brasil foi recordado por nós, forçosamente agora, no ensejo desta turnê no âmbito do projeto da Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro, ao qual nos habilitamos via edital (Fomento Cultural-Rio 450 anos).

Conhecemos então, muito entusiasmados, uma enorme rede de equipamentos culturais (lonas e arenas) espalhados pela extensa periferia da cidade, notadamente a grande zona oeste. Era tudo que sonhávamos ter naqueles velhos tempos. Este sonho se concretizava ali, na agradável missão de tocar em 10 desses equipamentos com som, luz, divulgação, tudo do bom e do melhor.

Como senões apenas as incongruências desta nossa época de paradoxos.

Constatamos, contudo que hoje, o Rio de Janeiro – e o Brasil, como um todo – tem muitos problemas ainda -problemas novos – no que diz respeito à difusão e fomento cultural. O principal deles talvez seja a mercantilização exacerbada da cena artística, e a centralização das ofertas no campo restrito – e imbecilizante – da masssificação.

Assim, a cena musical, por exemplo passou a ser condicionada, radicalmente aos interesses comerciais e às ofertas ditadas pelo mainstream, sem nenhum espaço para a diversidade artística, com prejuízos culturais incalculáveis.

A contradição entre a exuberância da oferta (a cena musical da cidade do Rio, por exemplo é, sempre foi, potencialmente muito rica) e o gosto massificado do público gera o paradoxo desta rede formidável de equipamentos operar quase sem público, como ocorreu em nossa turnê e ocorre, segundo nos informa o pessoal das lonas e arenas, de forma recorrente.

Elefantes brancos?

O que bomba nas lonas e arenas culturais? Um certo Funk, o Pagode Chic, o Sertanejo Chic e qualquer som de segunda mão, copiado do que estiver bombado na Mídia ou que tenha um artista do segundo time da TV Globo como estrela, sub produtos enfim do que está sendo ofertado pelo mainstream mais rasteiro e oportunista que já tivemos notícia por aqui.

A questão não é ignorada. Ela tem gerado muitas polêmicas, a maioria delas falsas, como a que cria uma suposta oposição entre o “puro e sincero gosto popular” e o “gosto burguês elitista”, uma proposta de debate oportunista porque, é fácil perceber que não se trata de uma questão de gosto musical.

Trata-se da redução drástica da oferta, restringida pela barreira midiática que impõe um “gosto musical” compulsório, um monopólio do raso, do simplismo artístico, do “seja lá o que for’, desde que dê lucro.

(A forjada comoção midiática pela morte de Cristiano Araújo que nos diga)

E não é só isso. Há também uma série de incongruências das políticas oficiais de fomento, erráticas e, de certo modo indiferentes ao problema, deliberadamente omissas, pois, qualquer política pública no campo da cultura – quem não sabe? -precisa envolver alguma sinergia entre o estado, o artista e as platéias. Não adianta muito, como constatamos em nosso caso, montar uma rede de equipamentos ideais e entregá-la ao deus dará do mercado, ao pega pra capar do mainstream.

Isto sem falar (e já falando) na enorme vulnerabilidade das políticas baseadas na renúncia fiscal (lei Rouanet) à corrupção nossa de cada dia, com editais corrompidos pelo superfaturamento dos contratos, ensejando um mercado de propinas que, agravando o problema do nivelamento artístico por baixo, já imposto pelo mainstream, impõe a lógica da predileção por projetos e artistas – não importa quais – que possam ensejar cachês mais elevados, passíveis de serem artificialmente engordados nas planilhas, para gerar sobras lucrativas para a rede de corrupção, infelizmente implantada, como parasitas em dez entre dez secretarias de cultura do país.

Essas políticas de desperdício cultural são preocupantes, absurdas, um entrave à ampla circulação da diversidade musical, artística enfim. Precisam ser demolidas

Há neste momento na alma do Vissungo, portanto uma felicidade agradecida. Cumprimos com muito empenho uma missão-delícia, nossa música black-exuberante rolou por aí em 10 ótimos palcos, cachês decentes, som e luz, alegres camarins…

…Mas muito nos constrangeu as platéias quase sempre vazias.

Contaminada pela estupidez do vale tudo corrupto que se apossou do país, vivemos o paradoxo do artista ter o palco, a cena, mas não saber mais onde o público está.

Alguém aí sabe onde o povo, realmente está?

Spírito Santo
Junho 2015

“A Patrulha”. Meu sangue escrito na neve da segunda guerra mundial

•20/06/2015 • 1 comentário

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Quem tem esta glória familiar que à mantenha viva, para sempre.

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Imaginem! Meu pai herói, teve um combate do qual fez parte no norte da Itália em 1945 registrado num jornal.

Fico aqui, chapado de emoção imaginando o quanto de orgulho meus irmãos e filhos sentirão de seu pai e avô, agora herói mesmo, sacramentado e juramentado.

A notícia eletrizante saiu no jornal (ou periódico) “O Cruzeiro do Sul” do dia 1° de março de 1945, pag 4. A crônica, assinada por aquele que é considerado o maior correspondente de guerra brasileiro, Joel Silveira se chamava “A Patrulha”. Quem garimpa e encontra é, de novo a dileta amiga Bete Scg que me pergunta:

“_.. Vê se pode ser ele”

Sim! Só pode ser ele. Que coisa impressionante!

(Clique na imagem para ler a matéria)

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Seu nome era muito incomum para ser um homônimo. Seria muita coincidência haver um homônimo no mesmo exército, na mesma guerra. Quando convocado estava morando aqui no Rio de Janeiro há muito tempo. Fugiu de casa, em Diamantina, MG com cerca de 14 anos, nunca soubemos, exatamente porque e, sabe-se lá como, fixou-se no Rio de Janeiro desde então.

José Cyrilo chegou no Rio de Janeiro (na época Distrito Federal) sozinho passando, segundo contou para minha mãe, por São Paulo ali por volta de 1932. No ensejo de sua convocação para a guerra na Europa, já estava aqui, portanto por cerca de 13 anos e deve ter sido identificado no quartel, por alguma razão, como natural daqui do então Distrito Federal.

O “Ceará” ao qual a crônica se refere, pode ser o amigo mais chegado dele, morto numa barraca de campanha num inesperado bombardeio alemão. Ele contou este incidente para minha mãe Geny, se referindo a um nordestino (tinha na memória que minha mãe falara num “Paraíba“, mas pode muito bem ter sido um “Ceará”).

Ele, Cyrilo, saiu da barraca com uma caneca de café recém feito, justo na hora em que o morteiro caiu. Por segundos não morreu neste incidente e eu, seu filho não teria existido para contar sua formidável história.

Talvez tenha sido um dos muitos gaúchos da bem sucedida patrulha, aquele amigo presenteou Cyrilo com uma bela cuia de chimarrão, com borda e bomba de prata, que guardo carinhosamente comigo até hoje (veja a foto)

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(…Eu sei. Preciso limpar a prata, mas é que gosto do óxido do tempo)

Num doc. de 1967, já publicado aqui, minha mãe solicita ao exército a correção do nome de José Cyrilo no certificado de sua medalha de campanha, grafado sempre equivocadamente sem o “y”.

Acordei há pouco e esta foi a primeira notícia do dia. Estou aqui emocionado, tomando o meu cafézinho matinal. Um bomba boa acabou de explodir aqui no meu cafofo.

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Felix Araújo: soldado 6362. Expedicionário da II Guerra Mundial. Itália, dezembro de 1944.

http://www.defesanet.com.br/ecos/noticia/2786/15-de-setembro-de-1944—–A-cobra-esta-Fumando—-Brasileiros-entram-em-combate-na-Italia/

(O jornal “Cruzeiro do Sul” onde a crônica foi publicada tem como fundador e principal colunista, a interessante figura de Félix de Araújo, paraibano, pracinha voluntário (veja a foto) correspondente de guerra, poeta que se tornou comunista e político muito bem sucedido, assassinado em 1953 com um tiro pelas costas, desferido por um desafeto político.

Existe uma controvérsia sobre a fundação do jornal, atribuída, oficialmente à FEB, segundo o link que obtive, em matéria onde o nome de Félix de Araújo, sequer é citado.

Agradeço comovido a este outro herói de guerra que foi Félix de Araújo, ou quem quer que seja o autor da crônica, por ter registrado para a eternidade o heroísmo de meu pai.

Aguenta coração!

Spírito Santo

Junho 2015

 
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