A Literatura Negra e suas páginas em Branco (Parte#2)

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Entre a luz e a Sombra, as contradições das entrelinhas.

Alexandre Dumas

“Os adeptos da literatura e do cinema dificilmente dirão que desconhecem a história dos três mosqueteiros, D’Artagnan ou do Conde de Monte Cristo…Grande parte daqueles que confirmam conhecer tais obras sabem que elas pertencem a Alexandre Dumas, mas uma aposta é quase certa: a grande maioria desconhece que ele era um negro.”

(Luis Vinicius Belizário, especialista em Cultura Afro-indígena)

Contudo, em “Os Irmãos Corsos”,”A Máscara de ferro”, o “Conde de Monte Cristo” e “Os três mosqueteiros”, clássicos de Dumas não havia, salvo engano, nenhum personagem importante que fosse… negro – nem mesmo o excêntrico D’Artagnan. As temáticas, do mesmo modo pouco se referiam, diretamente à condição dos negros ou afrodescendentes da França ou da Europa do século 19.

Alexandre Dumas só entra na lista dos autores de uma alentada Literatura Negra, depois de ter a sua condição de negro revelada, e isto nos faz propor a seguinte questão: Literatura negra (ou “Afro descendente”) seria mesmo apenas qualquer literatura cujo autor seja negro (ou afrodescendente) ou seria algo mais complexo?

Existem outros argumentos que podem nos ajudar a conceituar de modo mais convincente esta literatura feita por ou sobre negros, mesmo ressalvando que as razões de ser dessa segregação, dessa invisibilização são comuns também à outras áreas (como o Cinema, o Teatro entre outras). Mas, não se enganem: todas essas razões nos conduzem à perguntas complexas e a respostas ambíguas.

Antes do enorme sucesso literário de “Cidade de Deus’ de Paulo Lins (1997) e “Quarto de despejo”(1958)de Carolina Maria de Jesus, o último exemplo, ampla e publicamente citado de literatos negros bem sucedidos foi aquele que envolvia a pungente dicotomia entre a Luz e a Escuridão, representada pelo simbólico conflito ideológico latente, na obra de dois de nossos escritores negros mais famosos, ambos ainda no distante século 19 e início do século 20 (1881, primeiro livro de Machado de Assis, 1915 o primeiro de Lima Barreto).

Machado de Assis foi aquele que ascendeu na sociedade branca. ocultando, tornando literariamente invisível, de forma brilhante, sua própria negritude, e Lima Barreto, aquele que, ao contrário, invisibilizado por toda a vida, morreu louco tentando iluminar, de forma não menos brilhante, a sua (e a nossa) própria condição racial e suburbana, em emocionados contos, crônicas é romances.

Outro aspecto importante a ser considerado neste particular é que, apesar do otimismo atualmente reinante, é bastante tímida a evolução no tempo entre a publicação de livros escritos por negros que obtiveram grande projeção nacional e sucesso no meio editorial.

1-Machado de Assis – 1881- ‘Memórias Póstumas de Braz Cubas”
2-Lima Barreto – 1915 – ‘O triste fim de Policarpo Quaresma”
3-Carolina Maria de Jesus – 1958 – Quarto de Despejo”
4-Nei Lopes -1990 –‘Lapa-Irajá, Casos e enredos de Samba”
5-Paulo Lins – 1997 – Cidade de Deus”
6-Ana Maria Gonçalves- 2006 – “Um defeito de Cor”
7- Conceição Evaristo -2003/2014 –“Ponciá Vicencio” /”Olhos D’Água
8- Djamila Ribeiro- 2017 –“Quem tem medo do feminismo negro”

No exemplo de Paulo Lins, algo similar ao de Lima Barreto no que diz respeito à radicalidade das temáticas, é bom que observemos que sua visibilidade se deu também por conta de um fenômeno extemporâneo: O sucesso explosivo de um filme e algumas séries de TV cujos roteiros foram baseados em seu excelente romance.

Há, nesse mesmo sentido o exemplo também muito bem sucedido de Carolina Maria de Jesus cuja única obra conhecida, do mesmo modo tornou-se visível por conta de fenômeno semelhante: a grande repercussão jornalística na época do incrível paradoxo entre a sua condição social miserável, incompatível, no entender dessa imprensa, com o exercício tão excelente de sua literatura. Há também – este bastante polêmico até – o exemplo bem recente de Djamila Ribeiro cujo sucesso de de nível de bestseller, pode estar ligado muito mais ao apelo do feminismo puro e simples, do que à pauta de uma militância antirracista sugerida pela adjetivação “negro” inserida no título de seu livro mais famoso, tema que não tem, convenhamos, a rigor nenhuma relação direta com questões de gênero.

Friso estes exemplos porque eles não devem nunca ser utilizados como atenuadores da evidência da prática do racismo em nossa sociedade, neste como em outros campos.
(Importante ressaltar também que o principal fator do sucesso desses autores se deveu, principalmente à qualidade surpreendente e inquestionável de seus textos.)

Sugiro, portanto, que, logo de início nos perguntemos, bem objetivamente: Porque aceitamos, no âmbito do mercado literário brasileiro, ocupar o nicho restrito, por nós mesmos denominado Literatura negra? Em que que isto nos ajuda a combater o racismo ou a contornar as restrições que barram o acesso a este mercado?

Com a definição do conceito travada entre essas duas posições ambíguas (o “ser negro” ou o “usar temáticas negras”), o professor Eduardo de Assis Duarte em seu texto “Literatura e afrodescendência no Brasil antologia que reúne uma série de ensaios e referências biográficas e bibliográficas sobre 100 escritores, dos tempos coloniais até hoje, diz o seguinte a respeito (citando Domício Proença Filho) :

…Será negra, em sentido restrito, uma literatura feita por negros ou descendentes assumidos de negros, e, como tal, reveladora de visões de mundo, de ideologias que…por força de condições atávicas, sociais e históricas, se caracteriza por uma certa especificidade, ligada a um intuito claro de singularização cultural. Lato sensu, será a arte literária feita por quem quer que seja, desde que reveladora de dimensões peculiares aos negros ou aos descendentes de negros.

A discussão envolve outras variantes. Luíza Lobo, por exemplo, confere um perfil mais incisivo ao conceito: defendendo que o conceito (Literatura Negra) não deve incluir a produção de autores brancos, e… entende ser tal literatura apenas aquela “escrita por negros”.

Ambos os enunciados me parecem controversos, claramente retóricos, não justificando uma razão objetiva para que se utilize a expressão “Literatura Negra” (e este parece ser também o pensamento de Eduardo de Assis.)

Nada impede que um branco, exposto ás mesmas condições “atávicas”, etc. de um negro possa escrever literatura idêntica (e cito aqui o festejado autor do ramo Luiz Antonio Simas) . Do mesmo modo, um negro que viva em condições e meio social idênticos aos de um branco será, do mesmo modo capaz de realizar uma literatura “branca” (caso evidente Machado de Assis), tornando a classificação “literatura negra”, uma incongruência em vários termos.

Convenhamos: esta circunstância de, eventualmente estarmos sendo “negros juntos” é compulsória, imposta que foi pela estratificação social determinada pelo colonialismo.
Não existe, a rigor um determinismo biológico definindo o perfil cultural de uma comunidade negra, índia, cigana ou lá o que seja. Razões sociais de toda ordem, por exemplo a criação de guetos, espaços de exclusão (uma técnica inventada pelo racismo) é que determina o Ethos, a cultura de um grupo.
Seriam necessárias as muitas outras condições, para que esta caracterização “negra” se impusesse.
Eduardo de Assis é quem diz:

“…Também é certo que não há, sobretudo no Brasil, uma literatura 100% negra, tomada aqui a palavra como sinônimo de africana. Nem a África é uma só, nem o romance, o conto ou o poema são construções provindas unicamente do Atlântico Negro.

…Assim, já por esse pequeno sumário da questão, pode-se deduzir que, da militância e celebração identitária ao negrismo descomprometido e tendente ao exótico, passando por escritos distantes tanto de uma postura como de outra, literatura negra são muitas, o que, no mínimo, enfraquece e limita a eficácia do conceito…”

(Eduardo de Assis Duarte em “Por um conceito de literatura afro-brasileira”)

Com efeito, a princípio, não há meios de saber se um autor é negro apenas lendo a sua obra. A maioria de nós passou a maior parte da vida desconhecendo a negritude de, por exemplo, os citados Machado de Assis e Alexandre Dumas, entre tantos outros. O fato de ser negro também nesse caso, não explica porque literatos negros quase nunca chegam ao mercado. É óbvio que, do ponto de vista do racismo, há uma intenção sutil nesta circunstância, pois, ao ocultar a origem ‘racial’ de um artista numa sociedade, se nega à todas as pessoas negras como ele, subestimadas ou tratadas como ignorantes e incultas, a elevação de sua auto estima, ancorada nos atributos de genialidade da obra deste autor e de sua negritude, o que seria libertador para todos os demais segregados. Mas como impedir que esta ocultação, esta invisibilização deliberada ocorra?

São várias as supostas razões, mas ao que parece, no bojo dessas restrições a textos produzidos por ou sobre negros, paira uma questão que seria a “mãe de todas “: O caráter oportunista do Racismo tal como ele é praticado no Brasil, qual seja, um racismo da “farinha pouca meu pirão primeiro”, um “Racismo de resultados”. Criar meios de impedir que a condição “racial” seja ocultada seja lá por qual motivo for, seria uma ação bastante pertinente, escreva o literato negro sobre o tema que bem entender.

“O perfil do romancista brasileiro publicado por grandes editoras se manteve o mesmo por pelo menos 43 anos. Ele é homem, branco, de classe média, nascido no eixo Rio-São Paulo. Seus narradores, protagonistas e coadjuvantes são em sua maioria homens, também brancos, de classe média, heterossexuais e moradores de grandes cidades”

(A professora Regina Dalcastagnè, doutora em Teoria Literária pela UNICAMP (Divulgação/UNB)

Não concordando apenas que a heterossexualidade deva ser um fator a ser considerado (quem há de saber ou se importar de literatos brancos brasileiros serem ou não serem gays?), admito sim que há, é inegável uma espécie de surdo conluio entre produtores, editores, críticos literários especializados, jornalistas e formadores de opinião em geral, uma classe dominada, exclusivamente, como sabemos por gente branca (ou que se imagina branca), gente que, todos nós sabemos, em grande parte age como se negros não soubessem escrever e – o que é pior – como se sequer soubessem ler.

Mas vejam, não é sincero, tampouco fundamental este sentimento. A intenção final é impedir, afastar, excluir concorrentes. Em linhas gerais, portanto, restrições de natureza sutilmente racista, com certeza explicam algo, mas apenas parte do problema. A questão mais intrigante, no entanto, é saber porque autores negros, isolada ou coletivamente aceitam isso, se isolando e colaborando assim com as restrições de acesso ao mercado a nós imposta desde os tempos coloniais. Pode ser por conta de um ressentimento muito recorrente em vítimas de racimo, mas a tendência mais evidente adotada pelos envolvidos, no setor “Literatura Negra”, parece ser ignorar o mercado literário convencional para criar um mundo literário negro…à parte.

Tenho mais de 7 décadas de idade e já li inúmeras resenhas e entrevistas idênticas, sem tirar nem por, todas versando sobre este mesmo assunto, com doutores e acadêmicos do mesmo modo especialistas no tema, discorrendo uma lista dos mesmos autores de sempre, como a chover no molhado. A supostamente pífia participação de autores e temáticas negras na literatura do Brasil é um assunto daqueles sobre os quais quase nunca se tem novidades a acrescentar. Há uma certa acomodação, um discurso recorrente que repete os nomes chancelados pelo meio oficial – que é branco – em antologias tuteladas.

Quem lê esta Literatura Negra no Brasil? A quem ela se destina? A contradição entre estes dois fatores – se liguem bastante neste ponto – pode ser chave nesta discussão. 
Se o perfil médio do leitor de livros no Brasil, for mesmo aquele dos que, sendo brancos não querem ou evitam ler esta literatura, por se sentirem constrangidos, por indiferença para com o racismo, sei lá, desinteressados enfim pelo que esta literatura negra tem a dizer, uma questão mercadológica se imporia: Os livreiros e os editores não se sentiriam motivados a investir numa literatura com tão poucos leitores potenciais interessados neste setor.

O grande entrave para a inserção de uma literatura feita por ou sobre negros no mercado, muito provavelmente é o fato de as pessoas potencialmente interessadas nesta ‘literatura negra’ ser um pequeno grupo formado por alguns poucos letrados negros mas, principalmente por leitores brancos, universitários.
Ou seja: antes de ser racista, o mercado editorial brasileiro talvez sofra também de outro anacronismo, não menos agudo e penetrante, caracterizado por uma cena literária pífia (no sentido comercial do termo, inclusive), composta por escritores, jornalistas, livreiros e leitores ‘brancos’ (além dos poucos negros citados) conservadores, a maioria gente elitista e preconceituosa, ‘diferenciada’ que, eventualmente consome certa literatura “negra”, muito parcimoniosamente.

Um mercado restrito por conta de seu elitismo ainda colonial. Um mercado que vê com muita má vontade a sua própria popularização, tornando o seu produto (o livro) inacessível para muitos de seus leitores potenciais, os quais despreza por puro elitismo (ou racismo mesmo). Estes leitores ‘diferenciados’ (a clientela atual) seriam por sua vez tutelados em seu gosto literário por uma casta corporativista formada por acadêmicos e críticos especializados do mesmo modo… brancos.

O que os interessados na fruição de uma literatura feita por ou sobre negros precisam enxergar, é que do outro lado do muro editorial convencional, sem acesso a ele, alijado, desprezado está o tal público potencial, composto por uma massa impressionante de consumidores. Ocorre que os interesses literários dessa massa desses leitores potenciais, não se encontra, necessariamente expresso nesta literatura dita negra que, aliás, é às vezes arrogante e academicista,

A conclusão é que existe uma contradição instalada entre esta dita Literatura Negra e aquele que deveria ser o seu público preferencial: os negros comuns, uma contradição de natureza estética, temática, mas ideológica também, se bem me entendem. Me colocando no debate, diria que o nosso público potencial é, pois, paradoxalmente, em sua esmagadora maioria gente que não lê o que essa Literatura Negra pretende que ele leia. Trata-se de uma contradição de classe entre Certa literatura e Determinado leitor, portanto.

Considerando ser ínfimo o universo de pessoas letradas no Brasil – e falo apenas daquelas que consomem livros- é de se supor que o processo de aferição desta produção literária negra – no aspecto da crítica especializada mesmo, tão sintomaticamente omissa – tenha problemas importantes no que diz respeito à sua validade e pertinência. Imagino que já se contem às centenas as teses acadêmicas, dissertações e artigos, versando sobre o assunto Literatura Negra. Não há, contudo, livreiros ou editores negros controlando, contudo, a natureza do processo que seleciona monitora e legitima os nomes e as temáticas votados para integrar estas listas e antologias que o mercado decide assimilar. Talvez seja necessário lutar, isto sim, para participar do controle desse processo de aferição da produção literária do setor, que no momento realizado, exclusivamente pelo meio literário hegemônico (branco)

Esta repercussão destes textos fortuitos que escapam para o mercado convencional se dá, geralmente por meio da divulgação em resenhas e matérias de jornal, etc. sabe-se lá por conta de que critérios. Isto sem nos esquecermos de ressaltar o meio de divulgação principal para a fruição de textos deste tipo que são (ou foram, principalmente nas décadas de 1970/80) as iniciativas voltadas para um mercado alternativo, edições caseiras, venda de mão em mão, etc. como foi o caso do luminoso grupo “QuilombHoje”, plataforma inicial de muitos autores destas listas periódicas.

Enfim, um universo de amplitude um tanto restrita, infelizmente no qual os agentes, os responsáveis pela escolha e a legitimação dos nomes que constam nestas listas, os juízes desta ‘canonização’ afro descendente, aqueles que decidem o que é ou não é  ‘negro’ do ponto de vista literário, são uns poucos doutores e editores que exercem um papel decisivo, que mais restringe do que deixa fluir textos desse segmento, numa espécie de censura “branca” (no sentido de dissimulada…até porque, muitas vezes, eles próprios, apesar de brancos, são também autores de textos deste setor)

Estou sugerindo, portanto – e ouso afirmar, diretamente – que a instância que legitima ou que torna, de certo modo canônica certa literatura produzida por negros (ou relativa a temáticas ligadas a questões da negritude) não é, de modo algum o chamado “Movimento Negro“, mas sim a mesma instancia que legitima toda a produção literária nacional ou seja: É o Meio Literário…”branco” e a Academia… ’branca’ que determinam o que é Literatura Negra, uma contradição – permitam-me dizer – de natureza colonial. Esta é a grande contradição, o paradoxo no qual por sua própria conta o setor denominado “Literatura Negra” está envolvido, ao tentar criar um mundo literário negro á parte.

Estou propondo que a legitimidade destas listas e antologias precisa ter a sua relevância relativizada – ou mesmo questionada – porque existe um caráter claro de legitimidade tutelada, caracterizado por sugestões subalternizadas, uma contradição instalada aí que faz com que seja o ‘agente’ desta cultura hegemônica –  supostamente branca, racista e excludente – a mesma instancia que decide QUEM – e O QUE – é Literatura Negra. Dizendo em português claro: Ao se isolar num gueto literário e mal definido chamado “Literatura Negra”, se está autorizando que o mercado literário geral, …branco”, decida O QUE desta produção vai ser posto no mercado (bem entendido que não é viável a sobrevivência de um Mercado Literário negro á parte!)

Há que se considerar também (e este é o cerne da minha proposta de debate) outros problemas ligados ao conceito ‘Literatura Negra’ como, por exemplo: Porque não se fazer uma crítica menos complacente dos conteúdos que costumam predominar? É compreensível que, na falta de um mercado para o escoamento desta literatura afro descendente quase sempre emergente e amadora ela – seus autores – se feche e se volte para dentro de si mesma, assumindo esta tendência para a criação de um público leitor exclusivamente negro, idealizado, cliente de um mercado ‘a parte’, idealizado.

Mas é preciso encarar que isto é uma utopia em todos os termos, pois vivemos num país com a estratificação sócio racial arraigadamente excludente, o que sugere que a auto exclusão jamais será solução para se mudar o status quo algum, muito pelo contrário (a não ser que, mudar o status quo não seja o objetivo dos envolvidos no setor ). Aceitar, pois, a separação do mercado entre leitores negros e brancos como sendo uma fatalidade incontornável, uma contingência irreparável de nossa sociedade, a ponto de se almejar a criação de uma literatura, uma cultura exclusiva para negros, não me parece que seja uma solução inteligente, uma possibilidade plausível de jeito nenhum para um mercado potencial tão pleno de oportunidades represadas.

É por isto, penso eu, que para que este problema específico da penetração de obras de autores negros no mercado literário brasileiro se resolva, para que cesse esta inaceitável ausência de literatos negros na praça será preciso que esta literatura feita por negros, emergente, pulsante (toda ela e não apenas àquela chancelada por bancas acadêmicas ou militantes), seja lida, revista e avaliada por todos, exercitada, testada, comentada, resenhada amplamente, retirada para fora do gueto enfim, por meio de ações amplas, abertas para todo o meio literário do país.

Por outro lado, acho que – com as exceções de praxe – falta também a esta Literatura dita ‘Negra’ – às suas temáticas bem entendido – um comportamento mais ostensivo de enfrentamento social, contra cultural mesmo, mais ousadia para partir ‘para cima’ das editoras e livrarias, como se diz, para o desafio, para a disputa invasiva de espaço no mercado literário (uma disputa estética, inclusive), apostando no valor estratégico da qualidade, em vez de insistir nesse retraimento auto imposto, auto comiserativo, esta auto exclusão envergonhada tão ineficiente e inoportuna.

É preciso sair, pois, deste armário temático, do gueto cômodo da expressão de uma negritude recorrente, previsível, supostamente étnica, baseada na exaltação de mistificações e mitologias banais, religiozistas, num universo temático folclórico no mau sentido, que acaba obtendo projeção apenas nas teses acadêmicas mais solidárias com a ‘causa negra’, ou em círculos afro-militantes mais fechados, as quais, por conta deste isolamento compulsório, acabam sendo temáticas por demais autorreferentes, autorreverentes, auto complacentes enfim.

Machado de Assis, Lima Barreto, Paulo Lins, Nei Lopes, Carolina Maria de Jesus, Djamila Ribeiro e Conceição Evaristo (a novata na lista, aos 72 anos) para falar apenas nos mais conhecidos ou festejados e tantos outros mais ou menos afro-centrados, não deveriam ser lidos, resenhados, criticados, categorizados apenas como ‘literatos negros’, ‘escritores afro descendentes’ como se diz por aí, com certo mal disfarçado e rançoso paternalismo.

O que se precisa avaliar de verdade e com isenção é QUEM entre estes literatos negros, é real  e universalmente excelente.

Machado de Assis e Lima Barreto – e o velho exemplo de  Alexandre Dumas, que usei lá em cima – cada um a seu modo, são exemplos evidentes de que a qualidade se sobrepõe a tudo, mais cedo ou mais tarde se houver mobilização e ação contra as pedras do caminho, seja o racismo ou o que mais seja. 

Eles extrapolaram os limites – e a tutela – que foram impostos à literatura deles e são hoje o que são: Grandes escritores negros, de algum modo voltados para expressar a sua condição de negros sim, mas, antes de tudo grandes escritores da humanidade. De toda a humanidade e não apenas de seus guetos.

Como? Não sei. Editores, livreiros, críticos, pessoas do ramo, negros ou brancos por favor, manifestem-se.

Obrigado!

Spirito Santo

6 de Novembro 2018

(Texto integral de palestra, parcialmente proferida pelo autor no Seminário “Arte e Movimento Negro em Perspectiva”/ “Festival de Arte Negra de Nova Iguaçu”- Universidade Estácio Campus Nova Iguaçu em 6 de Novembro de 2018)

 

A “Middle passage” do Brasil e o Kalunga de Zumbi que não deu em O Globo

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 Já pensaram, o Titio em O Globo em pleno dia de Zumbi?

Quase que colou…O texto do Titio a seguir foi encomendado em 2012 – pasmem! – por um importante órgão de defesa dos direitos do negro aqui do Rio. A pessoa muito gente boa que intermediava o convite me dizia:

“…Escrevo para você porque uma de minhas ideias …é um artigo escrito por alguém que entenda de cultura afro-brasileira e, portanto, seja um nome respeitado, a ponto de me permitir sugerir o texto à seção de Opinião do O Globo.

…O que me diz? … Aguardo ansiosamente o seu retorno.”

Viram só? O ‘pasmem‘ é pelo o inusitado que foi um crítico marrento e tão mordaz destes órgãos todos, muitos deles ‘chapa branca’ como vivo espalhando por aí, ser convidado para escrever um texto assim meio que ‘oficial‘. O mais inusitado de tudo nem era isto. Imaginem: O texto seria – viram só? – para propor à pauta do 20 de Novembro do jornal O Globo!

Bem, meu ‘bicho carpinteiro’ aparecido como ele só logo gritou, exultante:

“_ Êba!”

É, mas fui logo avisando a pessoa que intermediava o convite que talvez eu não fosse o mais talhado para o serviço, pois não sabia escrever textos ‘chapa branca‘ de jeito nenhum e que podia sim escrever, mas só se fosse com a ampla liberdade de opinião que me caracteriza. E não é que a pessoa topou? Não tinha mesmo como fugir.

Haviam uns tópicos chave, a citação obrigatória de certos pontos etc.. Nada que não fosse fácil de fazer, usando sutis picardias e entrelinhas (e esta era a parte mais divertida da missão).

É que desafio melhor não há: Escrever um texto para um jornalão pautado as vezes por um racismo renitente, ao mesmo tempo sem ser ‘chapa branca‘, mas criticando pontos chave que acho por bem criticar sempre e, ainda assim sem ser furibundo e abusado demais, como as vezes sou aqui no facebook ou aqui no quintal do meu blog…e isto tudo com apenas 3000 caracteres.

Uma experiência jornalística imperdível, digamos assim, fundamental para um escrevinhador contumaz feito eu.

Bem, lógico que não rolou. Alguém no percurso não mordeu a isca. Sei lá porque, impossível saber. Mas nem assim, criança frustrada em sua brincadeirinha eu fiquei. É que agora – ô sorte! – existe esta banca enorme de leitores aqui da Internet. Os jornalões com suas pautas travadas estão até ficando cada dia mais para trás, pegando o bonde andando da comunicação veloz da rede.

Vou liberando então para todo mundo – azar o deles – o textinho que fiz para marcar a data do dia nacional da consciência negra, o nosso Dia de Zumbi” e que, mesmo assim, arteiro como sou, não consegui ‘infiltrar‘ na pauta de O Globo de Ali Kamel.

Ah, se eu te pego!

Eis o texto que quase foi publicado:

“20 de Novembro: A Passagem e a sublimação do ‘kalunga’

Num 20/11 no século 19, o momento crucial da travessia era aquele onde a metade do caminho entre a África e a América era transposta. Ali a inexorabilidade do destino podia ser percebida no ar de um Atlântico fatal para a história das pessoas amontoadas nos porões do navio.

Ali eram distribuídos aos reféns doses calmantes de tabaco em cachimbos especialmente fabricados para o fim ambíguo de acalmar o pânico das almas e, ao mesmo tempo amansar na carga qualquer sanha que a fizesse se rebelar contra o mal sabido destino.

A tripulação chamava este portal de ‘Passagem do Meio’, uma expressão utilizada pelos traficantes de escravos, como demarcação de uma fase da viagem em que a carga podia ser considerada salva da apreensão pelos ingleses, que à época interceptavam os tumbeiros por ali. Os africanos, a maioria embarcada à força nos portos de Angola, julgavam esta passagem o momento crucial da travessia existencial de um portal entre o Mundo dos Vivos e o dos Mortos: A trágica travessia do “Kalunga”.

Foi assim, evocando estas mesmas memórias, que se construiu na cidade do Rio de Janeiro um monumento à Zumbi de Palmares, herói seminal decapitado no século 17. É providencial que dentre os eventos da agenda programada para 2012, um dos pontos altos seja a lavagem ritual do monumento. É que o ato é sempre antecedido pela ação noturna de pichadores que grafam suásticas na cabeça do rei Oni, de Ifé, Nigéria, escolhida para representar nosso angolano Zumbi.

Mas podem ser positivas também estas memórias.

Descobriu-se agora mesmo por exemplo, quase ao rés do chão do Porto do Valongo, vestígios de africanos que transpuseram a “Passagem do meio” e aqui desembarcaram. É certo que o que existe de mais arqueológico por ali, além de cacos dos cachimbos baforados dos reféns escravos, são esqueletos desmembrados de “pretos novos”, os recém-chegados que morriam e eram por ali mesmo lançados em imensos cemitérios pantanosos, um dos quais, clandestino, foi mandado aterrar em 1815 por ordem documentada de um alto funcionário da Corte de D. João VI.

É, pois promissora sim – se superados os interesses políticos e comerciais mais imediatistas ligados às obras – as chances abertas para se ter aqui no Rio de Janeiro avanços substanciais nesta questão.

Até leis já temos animando esta trajetória esperançosa por este mar do retorno a dentro. Entre outras leis, temos a 12.711, que trata das cotas sociais e ‘raciais’ e a 10.639 que versa sobre o ensino da história do negro e da África, ambas no âmbito urgente da educação pública.

De todos os significados deste ‘Dia de Zumbi‘ o mais digno de todos, portanto, talvez seja o ensejo de quebrar o paradigma do racismo no Brasil. A viagem de nós todos para a condição de amantes sinceros e fiéis da liberdade e da democracia enfim.

Num 20 de Novembro destes – esperamos que em breve futuro – à condição de seres humanos e solidários, havemos de voltar.

Spirito Santo

Músico. Artista visitante da UERJ

Congado dos Negros na Serra Antiga

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Congada fotografada por Augusto Riedel em Morro Velho, Minas Gerais em 1868 com marimbeiro ao centro.

Certa vez, aí pelo fim da década de 1970, já pesquisando no interior de Minas Gerais, fomos convidados eu e amigos do Grupo Vissungo, pelo mestre congadeiro José Caixeta (da cidade de Machado, MG ) para desfilar no terno dele. Decidi então desfilar na ala dos músicos, claro, tocando uma marimba que eu mesmo havia fabricado. Desfilei lá assim por uns cinco anos seguidos.

Me divertia muito quando identificava pelo olhar estupefato, um antropólogo pesquisador, olhando aquela fantástica marimba africana ali, inusitada. Ficava rindo escondido, moleque, imaginando a tese que o pobre do antropólogo desenvolveria para explicar aquela marimba ali, em pleno século 21.

Já sabia, claro, que xilofones africanos haviam sobrevivido no Brasil até bem perto da Abolição da escravatura. As provas, contudo, eu não havia encontrado nem mesmo em gravuras idealizadas de viajantes como Rugendas. Já havia encontrado em um ou outro livro de viajantes, sanzas (kalimbas) e muitos cordofones (harpas, alaúdes), a maioria, provavelmente angolanos, mas nunca havia visto uma foto sequer deles no Brasil e, de marimbas então, nem mesmo gravuras.

Achei esta imagem logo depois que a primeira edição do livro saiu, em 2011. Ela vai sair na segunda edição já na boca do forno, aí sim, única, maravilhosa marimba angolana (quiçá moçambicana) autêntica, vivinha ali no século 19! (Mostro aqui apenas um corte dela, com o marimbeiro destacado em foco, ao centro da imagem.)

A legenda da foto inteira, que publicarei no novo livro (já a publiquei aqui, tempos atrás, no facebook) dirá que a foto é de 1868 e é de autoria de Augusto Riedel, que viajou pela região de Morro Velho, MG (onde havia uma grande mina de diamantes) a serviço do imperador, grande entusiasta da arte da fotografia.

(A foto que Rudel fez da mina de diamantes, aliás, pode ser vista também em detalhes yyyyno link deste post que publiquei bem recentemente)

O que a legenda oficial diz é um pouco vago. O grupo fotografado é na verdade – sei agora – uma congada clássica da época em em Minas Gerais. A dúvida que persiste em mim sobre a sua origem africana ser angolana ou moçambicana vem do fato de ter encontrado há pouco tempo atrás uma grávida do praticamente desconhecido artista francês jean-rennè Moreaux um par de autênticas marimbas do inhanambane, miçambique, em plena Cirte do rio nesta mesma época (meados de 1860)

Verdadeiro teatro popular, as congadas desta região eram, ou representações faladas, cantadas e dançadas das estrepolias de “Carlos Magno e os 12 pares de França” contra os mouros, enredo dramático que narrava incidentes ocorridos durante as Cruzadas (enredo disseminado no Brasil em livretos de cordel, como instrumento de doutrinação), ou estrepolias semelhantes envolvendo um conflito entre dois reinos africanos (um sendo o Reino do Kongo, no caso) interpretados no pelo pessoal da congada com elementos mistos, extraídos de práticas culturais e de crônicas da história oral do reino do Kongo africano, o real, guardadas na memória popular.

Percebe-se, claramente na foto, os dois grupos oponentes, organizados, cada um, próximo a um comandante, um mouro, outro cristão (ou de um reino africano e de outro), ambos com suas espadas. Cultura negra do Brasil real. Esta que a antropologia convencional se nega, relutantemente reconhecer.

——————

A legenda oficial:

“Em 1868, o fotógrafo Augusto Riedel acompanhou Luis Augusto, Duque de Saxe, genro do Imperador Pedro II, em uma expedição ao interior do Brasil. Durante uma visita à cidade de Morro Velho, em Minas Gerais, o grupo assistiu a apresentação de uma festa afro-brasileira que misturava tradições religiosas católicas e africanas. A celebração apresentava a coroação do “Rei do Congo” e também rendia homenagem à Nossa Senhora do Rosário.”
(A Coleção Thereza Christina Maria é composta por 21.742 fotografias, reunidas pelo Imperador Pedro II ao longo de sua vida e por ele doadas à Biblioteca Nacional do Brasil. A coleção inclui uma grande variedade de assuntos. Documenta as conquistas do Brasil e do povo brasileiro no século XIX, e também inclui muitas fotografias da Europa, África e da América do Norte.)

Certa vez, aí pelo fim da década de 1970, já pesquisando no interior de Minas Gerais, fomos convidados eu e amigos do Grupo Vissungo, pelo mestre congadeiro José Caixeta (da cidade de Machado, MG ) para desfilar no terno dele. Decidi então desfilar na ala dos músicos, claro, tocando uma marimba que eu mesmo havia fabricado.
Desfilei lá assim por uns cinco anos seguidos.

Me divertia muito quando identificava pelo olhar estupefato, um antropólogo pesquisador, olhando aquela fantástica marimba africana ali, inusitada. Ficava rindo escondido, moleque, imaginando a tese que o pobre do antropólogo desenvolveria para explicar aquela marimba ali, em pleno século 21.

Já sabia, claro, que xilofones africanos havia sobrevivido no Brasil até bem perto da Abolição da escravatura. As provas, contudo, eu não havia encontrado nem mesmo em gravuras idealizadas de viajantes como Rugendas. Já havia encontrado em um ou outro livro de viajantes, sanzas (kalimbas) e muitos cordofones (harpas, alaúdes), a maioria, provavelmente angolanos, mas nunca havia visto uma foto sequer deles no Brasil e, de marimbas então, nem mesmo gravuras.

Achei esta imagem logo depois que a primeira edição do livro saiu, em 2011. Ela vai sair na segunda edição já na boca do forno, aí sim, única, maravilhosa marimba angolana (quiçá moçambicana) autêntica, vivinha ali no século 19! (Mostro aqui apenas um corte dela, com o marimbeiro destacado em foco, ao centro da imagem.)

A legenda da foto inteira, que publicarei no novo livro (já a publiquei aqui, tempos atrás, no facebook) dirá que a foto é de 1868 e é de autoria de Augusto Riedel, que viajou pela região de Morro Velho, MG (onde havia uma grande mina de diamantes) a serviço do imperador, grande entusiasta da arte da fotografia.

(A foto que Riedel fez da mina de diamantes, aliás, pode ser vista também em detalhes no link de um pist que publiquei bem recentemente)

O que a legenda oficial diz é um pouco vago. O grupo fotografado é na verdade – sei agora – uma congada clássica da época em em Minas Gerais. A dúvida que persiste em mim sobre a sua origem africana ser angolana ou moçambicana vem do fato de ter encontrado há pouco tempo atrás uma grávida do praticamente desconhecido artista francês jean-rennè Moreaux um par de autênticas marimbas do inhanambane, miçambique, em plena Cirte do rio nesta mesma época (meados de 1860)

Verdadeiro teatro popular, as congadas desta região eram, ou representações faladas, cantadas e dançadas das estrepolias de “Carlos Magno e os 12 pares de França” contra os mouros, enredo dramático que narrava incidentes ocorridos durante as Cruzadas (enredo disseminado no Brasil em livretos de cordel, como instrumento de doutrinação), ou estrepolias semelhantes envolvendo um conflito entre dois reinos africanos (um sendo o Reino do Kongo, no caso) interpretados no pelo pessoal da congada com elementos mistos, extraídos de práticas culturais e de crônicas da história oral do reino do Kongo africano, o real, guardadas na memória popular.

Percebe-se, claramente na foto, os dois grupos oponentes, organizados, cada um, próximo a um comandante, um mouro, outro cristão (ou de um reino africano e de outro), ambos com suas espadas. Cultura negra do Brasil real. Esta que a antropologia convencional se nega, relutantemente reconhecer.

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A legenda oficial:

“Em 1868, o fotógrafo Augusto Riedel acompanhou Luis Augusto, Duque de Saxe, genro do Imperador Pedro II, em uma expedição ao interior do Brasil. Durante uma visita à cidade de Morro Velho, em Minas Gerais, o grupo assistiu a apresentação de uma festa afro-brasileira que misturava tradições religiosas católicas e africanas. A celebração apresentava a coroação do “Rei do Congo” e também rendia homenagem à Nossa Senhora do Rosário.”
(A Coleção Thereza Christina Maria é composta por 21.742 fotografias, reunidas pelo Imperador Pedro II ao longo de sua vida e por ele doadas à Biblioteca Nacional do Brasil. A coleção inclui uma grande variedade de assuntos. Documenta as conquistas do Brasil e do povo brasileiro no século XIX, e também inclui muitas fotografias da Europa, África e da América do Norte.)

O Crioulo e a língua do Crioulo. Lorenzo Dow Turner no Brasil.

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Lorenzo Dow Turner, brilhante etnolinguísta é, tardiamente ‘descoberto” pela academia (e pela imprensa) do Brasil.

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 Parece coisa de crioulo doido, só que não.

Passei boa parte do dia e a noite desta última sexta feira devorando informações sobre Lorenzo Dow Turner, etnolinguísta norte americano, praticamente desconhecido no Brasil até recentemente, descoberto entre outros pelo acadêmico francês Xavier Vatin, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Li – lemos – uma matéria esclarecedora sobre isto dia desses, cuja fonte, o instituto de linguística IPOL, foi reproduzida por alguns blogs, entre os quais o Geledés, especializado em ativismo e cultura negra.

Já havia tocado de leve na figura de Lorenzo Dow Turner , citando-o num post como um dos personagens do boom de estudos sobre os africanos no Brasil ocorrido em Salvador, Bahia no início da década de 1940, por injunção do Congresso Afro Brasileiro de 1937, coordenado por Edison Carneiro, entre outros. Leia o post do Titio neste link: “A Guerra, Academia e a impureza a Nagô“.

Me instiga nesta busca por dados mais completos sobre Dow Turner as relações, eventualmente existentes entre a invisibilidade brasileira de seu trabalho e o mesmo fenômeno ocorrido com o trabalho do etnólogo baiano Antônio Joaquim de Souza Carneiro (para os que desconhecem, pai de Edison Carneiro), vítima de uma intensa campanha de difamação e desqualificação intelectual, por parte de ilustres acadêmicos da mesma época, o incensado Arthur Ramos à frente.

O fato de Turner e Souza Carneiro serem ambos negros, intelectuais brilhantes e, do mesmo modo, terem tido suas pesquisas desprezadas e/ou ignoradas pela empáfia da academia tupiniquim da época, sempre me intrigou, intriga e tem me instigado a escrever vários inflamados artigos e posts (outros por certo se seguirão a este).

Recolhi neste intento, ontem, empolgado com a biografia de Lorenzo Dow Turner, que fui descobrindo pouco a pouco, a medida em que a noite avançava, muito material – muito mesmo – sobre as pesquisas e fontes de Lorenzo e já havia até começado um animado artigo sobre o etnolinguísta, quando, logo ao acordar, me deparo com esta excelente matéria no caderno Verso e Prosa de O Globo: “Gravações raras de linguísta americano revivem passado do candomblé

Bolívar Torres disse tudo!

Na verdade, a maioria destes dados, com exceção dos áudios, aos quais o jornalista de O Globo, sei lá como, teve acesso, já que publicou um exemplo (ouça a voz de Meninha do Gantois no link original da matéria, logo aí em cima) estão disponíveis a qualquer um no site do Arquivo de Musica Tradicional da Indiana University, fonte principal para quem gosta do tema.

Só achei impróprio na luminosa matéria de Bolívar Torres o uso da expressão “repatriada“, ao se referir á vinda de cópias do material de Turner para cá. Dispensável ufanismo.

Ora, afinal os registros de Lourenzo Dow Turner, como qualquer etnologia, são universais, os dados neles contidos, pertencem a toda a humanidade e só nos são tão desconhecidos até hoje, por conta talvez de nossa conhecida incúria acadêmica e o mal disfarçado pouco caso diante de tudo que se refere á presença de negros africanos por aqui.

(Lembrem-se que, ao que sabe, os pares de Lourenzo Turner na cidade de Salvador de 1941, notadamente Arthur Ramos e Edison Carneiro, testemunhas quase oculares das preciosas coletas de Turner, praticamente (salvo engano), nenhum uso ou citação fizeram sobre a existência deste precioso material, como se sabe, descoberto por acaso muito recentemente por um pesquisador estrangeiro.

E vejam, o mesmo ocorreu com as coletas do norte americano Stanley Stein em Vassouras, RJ, em 1949, descobertas do mesmo modo, recentemente e que continham preciosos registros de Jongo, Folias de Reis, Samba Rural e outras manifestações típicas dos ex escravos do Vale do Paraíba do Sul, RJ, solenemente ignoradas pelas sumidades do ramo até então)

Surpreendente e promissor, portanto, para os (supostos) modos algo racistas de ser desse grande jornal, que tão brilhante matéria seja publicada. Bons sinais também, devo admitir, a ascensão de jornalistas negros (as) (como Flavia de Oliveira, por exemplo) nas pautas recentes de O Globo – algumas marcadas até por um não dissimulado ativismo.

Estas coisas muito animam o Titio.

Brumas vão se dissipando e o que elas iam encobrindo, meio por  incúria ignorante, meio por tolo desprezo racista, começa a se revelar. O certo é que descartei meus escritos preliminares, bem genéricos, os que postaria hoje, por achar o assunto já bem claramente expresso na matéria de Bolívar Torres. Coloco ou reitero aqui apenas dados suplementares.

Outros dados, também preciosos tenho ainda aqui comigo, por elaborar, num novo artigo, para o deleite dos interessados. Os dados: Lorenzo Dow Turner – a matéria de O Globo já ressalta – é um dos precursores dos estudos linguísticos sobre o negro africano na Diáspora (sempre bom ressaltar as coletas em partituras, realizadas por Aires da Mata Machado Filho em 1928, em Diamantina, MG). 

Revisando a resenha sobre o acervo de Lorenzo Turner, aliás encontrei a inusitada citação “angolan funeral songs”, que corresponde, quase exatamente aos vissungos recolhidos por Aires da Mata em 1928. A resenha não enumera Minas Gerais no trajeto das viagens, mas sugere, fortemente a relação de Lorenzo Turner com os vissungos em 1940/41 numa coleta até hoje desconhecida, anterior, portanto,  a de Luiz Heitor Correa de Azevedo, esta em 1944.

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Africanos de Serra Leoa, presumo, ouvem divertidos a gravação de suas vozes por Lorenzo Dow Turner.

O material das coletas de Lorenzo Turner ao qual a matéria se refere, ao que parece, no caso do acervo do AMT da Indiana University, acabou não sendo considerado prioritário no âmbito geral do trabalho do etnolinguísta, talvez por esta razão não conste ainda do acervo da Indiana University a sua digitalização.

Presumo que estas digitalizações da Bahia já existam no Melville J. Herskovits Library of African Studies na Northwestern University Library ou outro acervo ao qual Bolívar Torres teve acesso (li qualquer coisa sobre o etnomusicólogo Carlos Sandroni estar trabalhando nisso aí.)

Sobressaíram mais, contudo as coletas de Turner na Costa Leste norte americana e coletas feitas no Caribe e na África ocidental. Aguardamos ansiosos.

Na resenha do AMF/UI sobre os arquivos de Turner diz-se o seguinte:

“Lorenzo Dow Turner Gullah Collection Fonte: Arquivos de Música Tradicional da Universidade de Indiana, EUA.

Registros de campo realizados por Lorenzo Dow Turner Na Georgia e Carolina do Sul e Sea Islands em 1932 e 1933, versando sobre o dialeto crioulo afro americano conhecido como “Gullah”, falado nesta região dos EUA. Formato: 154 discos de aluminio.

Lorenzo Dow Turner (1890-1972) foi um linguísta afro americano, que ficou conhecido como o pai dos estudos sobre o “Gullah” após publicação em 1949 dos africanismos contidos no dialeto Gullah, a primeira grande descrição científica deste dialeto.

Esta publicação da ATM/IU, (resenhada por este texto) um grande recurso para pesquisadores, contém diversas transcrições de gravações de Turner.

O trabalho de Lorenzo Dow Turner ajudou a construir uma fundação para estudos sobre a diáspora africana e contestou a noção que prevalecia há muito tempo de que a cultura afro-americano era simplesmente uma derivação da cultura norte americana branca. Turner mostrou que haviam retenções culturais significativas de culturas africanas entre os afro-americanos. Seu teabalho de campo adicional no Caribe, Brasil e África Ocidental fundamentou ainda mais estas ideias.

Os Arquivo de Música Tradicional da Indiana University contêm várias coleções de gravações etnográficas e linguísticas feitas por Turner, que foram gravadas em 836 discos de alumínio e laca. As gravações feitas nos verões de 1932 e 1933 compõem a coleção de discos de Gullah, compostas por 154 discos de alumínio e documentos de textos com cantos de trabalho, histórias, spirituals e contos de escravidão, recolhidos com 50 falantes de Gullah.

A ATM/IU possui também gravações das pesquisas de campo de Turner no Brasil (Salvador, Bahia em 1941: nota do Titio), África Ocidental, Louisiana do Sul, e várias outras partes dos Estados Unidos.

A coleção Gullah digital foi preservada como parte do Projeto Sound Directions Project.”

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Tema para muitas mangas. Me aguardem. Titio volta já

Spírito Santo  Junho 2015

“Bidimbo!” – Sistemas de escrita africanos. Já ouviu falar disto?

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Foto: ” L’initié Bruly Bouabré qui a popularisé l’écriture Bété. O iniciado Bruly Bouabré que popularizou a escrita Bété.

Não? Então descolonize-se antes que seja tarde demais

“…Nós sabemos que a África não foi a única origem da escrita, mas a sobrevivência desta prática depois do fim das civilizações do Vale do Nilo manteve-se forte no continente. A lista certamente incompleta de sistemas de escrita africanos já descobertas é muito forte e importante, não há dúvida de que existiram outros sistemas de escrita que desapareceram durante os 500 anos de destruição do continente.

Além disso, é interessante observar o que esses sistemas de escrita estão ainda muito enraizados no vale do Nilo, o que reforça a noção de unidade e identidade negra na região. Assim, sem querer ofender os ideólogos ocidentais, a África não teria apenas uma tradição oral, mas igualmente uma tradição escrita.”

Depois deste texto, ainda apenas beliscando o assunto, instigado pela descoberta recente da existência de dezenas de ideogramas denominados “Vevés” e as belíssimas bandeirolas de paetês ambos sistemas de signos do vudu haitiano entre outras instigações irresistíveis, acrescentaria algumas pimentas neste tempero.

Logo de início ressaltaria que os processos de expansão no tempo e no espaço das culturas africanas originais – como é o caso do Egito – por força de migrações motivadas por guerras, razões climáticas extemporâneas e motivações as mais diversas e em todas as direções do continente, era óbvio se supor que sistemas de escrita ancestrais se espalhariam pela África, como todos os outras sistemas gráficos se espalharam em outras partes do mundo.

Logo, supor uma África negra inteiramente ágrafa ou, por outro lado, superestimar o papel da escrita como parâmetro de superioridade no âmbito das civilizações humanas, inferiorizando aquelas culturas onde, além da escrita, a oralidade é também considerada um sistema de comunicação e transmissão de conhecimento eficiente, não passa de rematada tolice, pura babaquice intelectual.

Assim, avançando seja rumo ao norte (com a formação da civilização grega, segundo Heródoto) ou para o sul (com a suposta criação do império de Monomopata com suas grandes e enigmáticas muralhas), para o centro-oeste, com a grande civilização desenvolvida no que é hoje os Camarões, origem remota da cultura Bakongo, berço da Angola atual (origem da chamada escrita kongo, estudada pelo cubano Bárbaro Martinez-Ruiz), ou seja para o oeste remoto, próximo ao Atlântico (com, por exemplo as culturas do Benin, da Nigéria e do Gabão atuais) os sistemas de escrita tradicionais jamais desapareceram da África, não tendo sido esta linguagem, absolutamente inventada ou mesmo introduzida no continente pelos colonialistas europeus.

Ao contrário, foi comum na África colonial até o pós escravidão (fim do século 19, até as décadas de 40 e 50 do século 20) a invenção de dezenas de novos sistemas de escrita originais, baseados em experiências ancestrais associadas.

“O silabário ou escrita Bamum (Camarões) foi inventado pelo rei Ibrahim Njoya, do povo bamum em 1896. Esse rei também coletou muitos manuscritos que continham a história de seu povo e usou sua escrita para compilar uma ‘’farmacopéia’’, para criar um calendário e para guardar registros de leis. Ele também construiu escolas, bibliotecas e uma gráfica.”

(Importante se ressaltar neste caso que as origens remotas da cultura Kongo – BaKongo – num processo de migrações contínuas ocorrido entre os séculos 10 e 12 de nossa era – se localizam, exatamente no sul do Camarões.)

“A primeira versão dessa escrita Bamoun incluía 465 símbolos. O rei Njoya simplificou essa escrita muitas vezes até que chegou ao silabário A-Ka-U-Ku que é escrito da esquerda para a direita. Essa escrita apresenta 73 sílabas, mais 42 combinações, 10 numerais, 5 pontuações. Os tons são indicados quando necessários por sinais adequados.”

Escrevo, logo leio

Swahili: ler = kusoma; escrever = Kwandika

Lingala: Leia = kotanga; escrever = kokoma

Bambara (língua mandinga): Leia = kalan; escrever = Sebe

Hausa: Leia = karatou; escrever = rouboutou

Fulani: Leia = djangougol; escrever = windougol

Logo surge a pergunta que não quer calar: Como cinco entre as línguas negro africanas mais importantes do continente, definiram em vocábulos originais os atos da leitura e da escrita sem fazerem uso de ideogramas ou palavras árabes ou europeias?

Como, afinal estes povos conseguiriam definir o que significa ler e escrever se não lessem e escrevessem? Este simples detalhe da evolução da linguagem humana parece provar, quase sem sombra de dúvida, o óbvio: a leitura e a escrita eram sim havidas e sabidas na África negra bem antes das invasões europeias.

Os estudos sobre este tema, muito complexos, estão bem avançados no exterior, notadamente pelo esforço de etnólogos, antropólogos, filólogos e linguistas africanos e europeus como o congolês Fu Kiau Benseki (veja no trabalho dele o impressionante cosmograma bakongo decifrado) a zairense Clémentine Faïk-Nzunji Madyia, o belga Jan Vansina, o norte americano Robert Farris Thompson (um precursor), entre tantos outros.

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Estes estudos, contudo, estão bastante atrasados no Brasil por causa, entre outros motivos dos renitentes e arcaicos preconceitos que ainda predominam nas ciências sociais do país (o rançoso racismo acadêmico para os íntimos) que considera as memórias africanas para cá trazidas pelos escravos, hibridismo impuro, sincretismo reles, subproduto cultural de povos inferiores, primitivos e incivilizados.

“De acordo com a historiografia ocidental, o sábio Bruly Bouabré (na foto que ilustra este post) que se juntou a seus ancestrais, em janeiro de 2014, seria o inventor da escrita Bété da Costa do Marfim. Ele teria criado, sozinho em 1948, 448 sinais silábicos desta linguagem a ponto de ser possível escrever histórias com eles. A escrita Bété é pictográfica, ou seja, contém desenhos como na escrita egípcia e a escrita Mende, de Serra Leoa.

Um estudo mais aprofundado demonstra, sem dúvida nenhuma que existem sinais comuns nos sistemas de escrita da África negra. Bruly Bouabré, obviamente, não era um inventor da escrita Bété, mas sim um iniciado, que aprendeu a dominar esta escrita com seus antepassados.”

Uma excelente referência – esta já mais próxima de nós, brasileiros – é o especialista cubano em história da arte (com especialização em África e Centro América) Bárbaro Martinez-Ruiz que estuda o tema dos sistemas de escrita africanos, a partir de fragmentos do sistema tradicional de escrita Bakongo (bidimbo) sobrevivente na cultura cubana e caribenha (“firmas“) principal ligação entre a cultura africana na diáspora centro americana, e suas prováveis origens na região do antigo Reino do Kongo, com eixo centrado em Mbanza Kongo, antiga e histórica capital do reino, circunscrito, quase que inteiramente no que conhecemos hoje como República de Angola, além de partes do Zaire e da República Democrática do Congo atuais.

Estudante generoso, recomendo também – com insistência – muita atenção para o complexo sistema filosófico e de escrita afro-haitiano conhecido como “Vé-vè” (busque na rede por “Vé-Vè”, interessantíssimo livro do franco-haitiano Milo Rigaud, o maior especialista no tema) com sua provável ligação com o sistema de escrita bakongo (entre outras misteriosas e mui antigas ligações), principalmente pelo fato surpreendente de alguns de seus signos esotéricos, estarem misteriosamente contidos no âmbito da Kimbanda do Brasil (aquela dita umbanda bastarda, “do mal”) , sob o nome de “pontos riscados” (no Haiti como aqui, cada ponto é riscado, desenhado no chão do terreiro com pós específicos, entre os quais o “pemba”, feito no Kongo e Angola de uma argila branca especial, de valor místico conhecido, presumo desde o Egito.

Há sim, tudo indica, uma ligação fortuita entre estes sistemas de signos africanos todos, ligação menosprezada por aqui por conta dos preconceitos acadêmicos citados.

Existe, aliás, acabo de perceber assim de garimpar imagens – e me surpreendendo cada vez mais – uma intimidade gráfica, imagética inquietante entre o Vudu do Haiti, chegado nas Américas, em parte via Benin e a desprezada Kimbanda, para os tolos um ramo impuro da Umbanda, ambas (Umbanda e Kimbanda) com fortes raízes angolanas, remotas origens bakongo, por suposto.

Muito ainda a ser estudado para se encontrar a lógica desta história de tantas ramificações, embaralhada que foi pela escravidão, pela diáspora. O pó soprado desta magia da escrita africana, contudo, se espalhou por ai, mas não se dissipou. Escrita que é, não se dissipará jamais.

Bem, enfim são estes, por enquanto os amplos sinais bibliográficos, meio areia movediça, meio saco sem fundo, que a minha intuição tem seguido. Você pode seguí-los também, pinçando links, associando ideias, queimando pestanas. O jogo das descobertas está posto, o chicotinho, quente-frio está queimando.

(Para quem sabe ler, um pingo é letra).

Spirito Santo

Agosto 2014

(Fonte parcial: http://africanhistory-histoireafricaine.com)

Sempre Viva – Em nome do Pai


Notas de pesquisa para argumento cinematográfico

A ideia básica é a realização de uma pesquisa que, preenchendo lacunas da biografia de meu próprio pai, subsidie o roteiro de um filme denominado ‘Sempre Viva – O mistério do nome” versando, entre outras coisas, sobre o conceito genealogia perdida, drama coletivo ao qual foi submetida a maioria dos descendentes de escravos no Brasil.

A história estará centralizada nas peculiares origens deste homem que se chamava José Cyrilo do Espírito Santo, cuja misteriosa vida pregressa, dispersa em fragmentos na memória de seus familiares, se tentará desvendar e organizar, com os hiatos e pontos impossíveis de serem resgatados, substituídos por inserções de dados ficcionais, sugeridos como probabilidades na pesquisa.

Cabe-nos enfatizar, portanto – como deve ficar suficientemente claro no corpo desta narrativa – que todos os nomes e fatos citados neste estudo, estão inseridos no contexto de um projeto de finalidades meramente artísticas. A maioria dos dados abordados, a despeito de sua eventual plausibilidade, não contém – nem pretendem conter- embasamento documental que possa servir para quaisquer outras finalidades que não a eventual realização de uma obra de ficção, que se estruturará a partir do seguinte story line:

Jovem descendente de escravos, homônimo de jovem branco, de rica e influente família do interior, foge para a cidade grande, vai á guerra na Europa e, de volta ao seu país, constitui família, mantendo sempre obscuros, fatos cruciais de seu passado, confundindo-os, por alguma estranha razão, com episódios vividos na verdade por seu homônimo. Após sua morte, um dos filhos decide averiguar a história, descobrindo antigas relações de parentesco e herança entre seu pai e a família branca.

Vida pregressa do pai
Fragmentos de dados reais que deflagram a narrativa:

José Cyrilo do Espírito Santo, nascido em 1918 em Diamantina, Minas Gerais, fugiu com 16 anos do interior para a cidade do Rio de Janeiro, por motivos que nunca revelou, nem para a esposa. N

fuga alega ter participado de escaramuças ligadas á revolução de 1932, até parar no Rio de Janeiro, onde ingressa no exército em 1934, ficando ali engajado até 1939, quando aos 22 anos, por razões também desconhecidas, decide desertar.

Reincluído no exército em 1942 é condenado em 1943 a 10 meses e 15 dias de prisão pela deserção de 1939. Em novembro de 1944, praticamente, com um curto tempo de liberdade, saindo da cadeia direto para o convés de um navio, embarca para a guerra na Itália onde fica até julho de 1945. Casado em 1946, tem um filho em 1947 e, quase imediatamente mais dois outros, mas morre em 1951, com pouco mais de 30 anos, provavelmente por conta dos tormentos que sofreu na guerra, na qual foi um dos combatentes na sangrenta batalha pela tomada do Monte Castelo.

Muito reservado com relação aos fatos de seu passado em Diamantina, principalmente os que motivaram a sua fuga de casa ainda tão novo, ele deixou poucas informações sobre sua atribulada vida. Curiosamente, restaram embaralhados em sua fragmentada história, fatos que, depois de verificados em pesquisa no local, se mostraram estranhamente inverossímeis porque haviam sido vividos, na verdade, por um homônimo seu chamado José Cyrilo dos Santos Neto (‘Júnior’), herdeiro de uma rica e influente família – os ‘Cyrillo Dos Santos’-, tradicionalíssima em Diamantina, cujos varões, pelo menos desde o século 19, eram batizados com o nome de José Cyrilo, mais ou menos como uma marca dinástica, de clã.

Com efeito dados obtidos numa pesquisa posterior (2009), confirmando o levantamento preliminar (1981), dão conta que a família Cyrilo dos Santos é ainda hoje muito importante em Diamantina tendo se dedicado, pelo menos até alguns anos atrás, à exportação de flores ornamentais conhecidas como ‘Sempre-vivas’ (Paepalanthus Polyanthus) além de ser segundo dizem, proprietária da maior imobiliária da região e de possuirem uma concorrida loja de artesanato no centro histórico da cidade, a ‘Boutique Cyrilo’.

Que misteriosa razão teria induzido Antônio, pai de José Cyrilo, o negro, a atribuir a seu primogênito, um nome tão diretamente associado à esta importante família? Algum tipode homenagem a um padrinho?

Teria sido autorizada uma homenagem assim tão íntima e particular, como a atribuição deste nome, a alguém não pertencente ao clã? Que relação poderia ter havido entre o pai de José Cyrilo negro, e a família de José Cyrillo dos Santos, o patriarca branco, rico proprietário de escravos no século 19?

Na história de José Cyrilo, o negro, contada por ele mesmo, há muitos episódios ocorridos dentro do seminário da Mitra Diocesana de Diamantina de onde ele afirmou ter sido aluno. Na verdade, se conseguiu averiguar em 1981 com um padre do local que o seminário não aceitava alunos negros naquela época (por volta da década de 20 do século passado). Com efeito, o nome de José Cyrilo do Espírito Santo não consta no livro de registros do seminário onde consta sim o de José Cyrillo dos Santos Neto (’júnior’), seu homônimo branco.

Contudo, são verossímeis vários episódios da história contada por José Cyrilo, o negro, sobre a rotina e o interior do seminário. Dois deste detalhes são até muito significativos.

Um, por exemplo, conta um incidente num quarto escuro, onde ele teria ficado de castigo, junto do esqueleto da aula de anatomia, que foi desmontado e remontado, segundo dizia orgulhoso, para passar o tempo. Há também o episódio da lavadeira que prestava serviço para os seminaristas, o acolhendo e protegendo, a ponto de ter emprestado as roupas ‘civis’ com que ele, se livrando da batina, fugiu da cidade. É de se supor, portanto, que José Cyrillo, o negro, realmente conhecia o seminário podendo mesmo, de algum modo, ter ali residido.

Considerando remota a possibilidade de um menino de 16 anos além disto, negro, residir sozinho num ambiente de costumes tão severos como os de um seminário, a hipótese mais plausível é a de que ele morava com alguém que trabalhava, ou tinha amplo acesso ás dependências do seminário. A

hipótese mais evidente neste caso é a de que a pessoa com quem morava, era mesmo a tal lavadeira. Não é menos improvável inclusive que esta lavadeira tivesse sido a sua própria mãe ou, no caso dele ter ficado órfão, alguém com fortes laços de parentesco, uma tia ou mesmo uma avó.

A possibilidade de conviverem no seminário dois meninos tão diferentes entre si, com o nome de José Cyrilo, deve ter dado com certeza muito que falar na época. Teriam se imaginado parentes? Teriam sido amigos? O que teriam pensado sobre o fato algo insólito de terem exatamente o mesmo nome. O

que é certo é que, todos os segredos contidos na história de Cyrillo, o negro, parecem nos remeter à questões de parentesco. É provável até que a razão de sua fuga esteja relacionada a isto.

Sobre sua mãe Maria Josephina (ou uma pessoa que o criara ou com quem vivera durante certo tempo) em descrição atribuída a ele por sua esposa, José Cyrilo, o negro, dizia que ela era ‘uma africana, que não falava português e comia com as mãos, agachada no chão, caçada a laço á beira de um rio, por um tropeiro branco’ .

Esta estranha descrição, muito improvável se protagonizada por seus pais, nascidos no fim do século 19, já após a abolição da escravatura, nos sugere fortemente, contudo que, alguém da família, muito provavelmente sua avó, teria sido mesmo uma africana capturada e levada para Minas Gerais. A relação carnal entre a africana com o tropeiro seu captor – ou comprador- fica também, fortemente sugerida como óbvia nas entrelinhas do relato.

Por este raciocínio, Antônio, o pai de José Cyrillo, o negro, teria sido um filho bastardo de José Cyrilo dos Santos (que teria sido tropeiro e foi, comprovadamente, dono de escravos em 1878), com a escrava africana a qual, a julgar pelo indícios do mesmo relato, José Cyrillo, o negro, conheceu bem, chegando com ela a conviver, quem sabe até mesmo como uma ‘segunda mãe’.

Entre os mesmos fragmentos de memória deixados por ele, há a descrição de dois tios, irmãos de seu pai, que teriam tido carreiras bem sucedidas no Rio de Janeiro, ele, Nilton do Espírito Santo, como delegado de polícia e ela, Marieta do Espírito Santo, como pianista clássica.

Segundo afirmou a sua esposa Geny, José Cyrillo, o negro, não mantinha boas relações com os tios oriundos de Diamantina, havendo visitado apenas Marieta, no bairro do Flamengo, uma ou duas vezes. De todo modo, a boa situação social desses tios era bastante incompatível com o que ele deixou sugerido sobre a vida modesta de seus pais.

A impressão que fica é a de que, seriam ao menos três (na verdafde foram cinco) os filhos bastardos do senhor branco com a escrava, sendo que, pelo menos dois receberam algum tipo de apoio paterno, tendo sido por algum forte motivo o terceiro (supostamente o pai de Cyrilo, o negro), largado á própria sorte. Depois de deserdado do nome, deserdado de tudo.

São muito elucidativos também alguns aspectos relacionados ao perfil étnico ou ‘racial’ da família de José Cyrilo, o negro. Segundo seu relato, os tios tinham o tipo ‘acaboclado’, morenos não muito escuros, com cabelos quase lisos, perfil que, pode ser estendido a Antônio, seu pai. Ocorre que José Cyrillo, o negro, nasceu preto quase retinto, aspecto que sugere um perfil semelhante para sua mãe, Maria Josephina, a quem ele teria ‘puxado’.

Este fator, embora reforce a tese da africana capturada (que poderia ter sido a avó, mãe de Antônio) e a tese do filho bastardo, insere na história a possibilidade algo remota de sua própria mãe ter sido também uma ‘quase’ africana (neste caso uma filha de escravos).

Dois outros mistérios podem acentuar ainda mais a tendência de José Cyrillo, o negro, para se envolver, voluntariamente ou não, em mistérios ligados a nome e identidade. Um é o fato de sua coleção das revistas “Seleções do Reader’s Digest’ (variedades e anti-comunismo) e ‘O Pensamento’ (ocultismo e esoterismo), ambas muito populares no pós guerra (1945) serem assinadas por um tal de Carlos Christóbal Rocha, codinome que ele utilizava na época associado talvez a algum tipo de atividade secreta, sugerida também, quem sabe, pela longa vara de bambu com uma antena de rádio amador (’de Galena’ ) que ele mantinha pendente no teto de sua casa no bairro de Mal Hermes, Rio de Janeiro.

Outro mistério familiar é o aparecimento de uma certidão dando conta do nascimento em 1951, meses antes de sua morte, de mais uma filha, Célia Regina, cuja real existência jamais foi realmente confirmada pela família (nem mesmo por Geny, a suposta mãe da menina).

Cheia de mistérios como se viu, a história precisará preencher os seguintes hiatos:

– Quem seriam os avós paternos e maternos de José Cyrilo, o negro?

– Na região de Diamantina, em que bairro ou nas terras de quem viviam seus pais Antônio e Maria Josephina?

– Quando, como e como viveram e morreram os pais dele?

– Como, porque e com quem ele viveu no seminário?

– Quem era a lavadeira do Seminário?

– Porque ele fugiu aos 14 anos de Diamantina?

– Como e com a ajuda de quem chegou ao Rio de Janeiro?

– Porque desertou em 1939?

– Onde e como sobreviveu entre 1939 e 1942, procurado como desertor pela Polícia do Exército?

– Sua filha Célia Regina existiu mesmo? Senão, porque foi forjada uma certidão com seu nome?

Questões conceituais principais, a serem desenvolvidos na pesquisa:
A expropriação do nome

No passado remanescente de José Cyrillo, o negro, o nome da avó africana, tornada escrava no Brasil, foi arbitrariamente substituído por um nome português e por um sobrenome católico (ambos talvez impossíveis de serem descobertos pela pesquisa). Toda a memória contida no nome africano, original dela, que poderia servir de referência para a afirmação da identidade pessoal de todos os seus descendentes (onde nasceu, a que cultura estava afeita, que papel poderia ter desempenhado em seu grupo ou sociedade), ficou reduzida a fragmentos desconexos de memória, repassados por José Cyrilo, o negro, para sua esposa Geny, assim mesmo, de forma muito cifrada e confusa.

A expropriação do sobrenome

Ao que tudo indica a imposição ou a subtração de um nome – palavra que serve para identificar uma pessoa no âmbito restrito de seu grupo familiar ou clã – é menos traumática que a imposição (ou a subtração) de um sobrenome – palavra usada para identificar o grupo familiar num contexto mais amplo, social, tribal, cultural ao qual o indivíduo esteja ligado, podendo ser por este intermédio, reconhecido.

O sobrenome permite também que se trace uma linha clara entre uma pessoa e seus antepassados, configurando-lhe individualidade. Ao se suprimir o sobrenome de uma pessoa, se está na verdade lhe negando um passado, uma genealogia, uma história enfim (como é o caso evidente dos descendentes de José Cyrillo do Espírito Santo, objeto desta pesquisa).

Já se sabe que o sentido geral do batismo português durante a escravidão, era baseado na crença de que os negros africanos não tinham alma, individualidade, precisando, pois receber nomes ‘de gente’ para serem, supostamente ‘transformados em indivíduos’, pessoas de verdade. Na maior parte do tempo em que durou a escravidão, o mais comum era, logo após a imposição do nome português (geralmente um mesmo nome masculino e outro feminino para cada leva de escravos) se utilizar como sobrenome a origem geográfica de cada escravo, sua ‘nação’ (Maria Angola, Manoel Moçambique, Felipe Mina, etc.).

Era na Corte ou nas capitais de província, principalmente nos anos próximos á abolição, que o sobrenome tal como o conhecemos passou a ser aplicado aos escravos com uma função mais específica, usado ora para associar o escravo a um núcleo familiar determinado ou, o que era mais comum, para identificá-lo como pertencente a esta ou aquela paróquia, no perímetro desta ou daquela fazenda, sob o mando deste ou daquele senhor, seu proprietário.

O sobrenome católico cumpria, pois muito mais que a finalidade de identificar o indivíduo no seu grupo, a função de facilitar políticas de controle e repressão de escravos.

A expropriação dos direitos relacionados ao sobrenome..

Ao que se supõe também Antônio do Espírito Santo, pai de José Cyrillo, que vem a se casar com Maria Josephina, tem seu sobrenome extraído desta prática portuguesa muito recorrente, até mesmo depois da escravidão, de se atribuir aos escravos e seus descendentes, um sobrenome que associava o indivíduo a um evento católico qualquer ou mesmo a um santo em especial, geralmente como se disse, no contexto das paróquias.
Assim, são muitos os, ‘Das Virgens’, ‘das Mercês’, ‘De Jesus’ ou mesmo os ‘Dos Santos’ ou “Do Bonfim’, ‘Das Dores’, etc., existentes no Brasil. No caso de Diamantina, terra de Antônio, o santo mais popular, padroeiro da cidade era – e, ao que parece, é até hoje- o Divino Espírito Santo.

A estigmatização do nome
Por esta lógica, também Antônio, pai de José Cyrillo, o negro pode ter tido seu nome de família expropriado. As razões poderiam ser duas:

1- Ele era descendente direto de escravos dedicados em batismo ao Divino Espírito Santo ou,
2- Era filho ou neto bastardo de um homem branco, muito provavelmente de uma importante família no local, cujo sobrenome não poderia ser atribuído a ele sem provocar problemas morais na época – ou mesmo judiciais ou financeiros, de herança – no futuro, havendo sido a sua ascendência oculta por um sobrenome vago, que o dedicava ao santo padroeiro do local.

Assim sendo, ao ter as eventuais referências familiares contidas no sobrenome africano do ramo materno subtraídas e, do mesmo modo (embora por outras razões) sonegadas todas as informações referentes à suposta ascendência paterna, José Cyrillo teve cortados os vínculos com suas origens nos ramos materno e paterno, passando a ser um não-indivíduo, pessoa condenada a ter pouco ou nenhum acesso a sua história familiar (a genealogia perdida), herança que, involuntariamente, é passada para seus descendentes.

A atribuição de seu sobrenome talvez com o fim de ocultar o segredo de sua suposta origem, acabou se transformando num estigma, marca imposta de modo à nunca cicatrizar.

A apropriação do nome

Na hipótese de ter sido mesmo um bastardo, cujo direito ao sobrenome do pai natural lhe foi negado, a única alternativa que restaria a Antônio para que seus descendentes não tivessem o passado expropriado pela segunda vez, foi então se apropriar ele mesmo, senão do sobrenome, pelo menos do nome (na verdade um nome dinástico) de seu suposto pai.
Caso tenha mesmo ocorrido, este gesto, por mais ingênuo ou despropositado que possa parecer, acabaria sendo a única pista que restou da obscura história de sua família, um único fio da embaraçada meada. Tivesse José Cyrillo, o negro, outro nome qualquer e a eventual existência de segredos em sua história familiar jamais teria sido suspeitada.

A rejeição do nome e a negação de si mesmo
Que outra explicação plausível se poderia obter para José Cyrillo, o negro, cujo nome próprio é igual ao do jovem branco, ter embaralhado a sua própria história – a que conta para sua mulher – inserindo nela fatos que foram na verdade eventos vividos por seu homônimo?

A atitude fortuita pode significar também (caso ele já não soubesse a razão do nome), o sentimento de rejeição por sua história familiar, sua condição pessoal, sua revolta diante de ser, junto com seu pai, um renegado. Este tipo de motivação pode ter-lhe incutido a vontade inconsciente de ser o outro, trocar de lugar com o outro, o homônimo (que a esta altura já estava morto). A fuga da terra natal e da família como expressão da rejeição contra tudo isto.

A investigação do nome

Em 1981, o filho mais velho de José Cyrillo, o negro (Antônio José), viaja até Diamantina em busca da confirmação da estranha história relatada pelo pai. Já num primeiro passeio pela cidade encontra várias pessoas com o sobrenome Do Espírito Santo. Um dos supostos parentes se emociona e chora, ao se imaginar diante de um elo perdido de sua também dispersa família.

Refeito do susto e conformado, reflete: “Deve ser culpa do Divino Espírito Santo, padroeiro do lugar, esta proliferação de pessoas com sobrenomes iguais ao seu, a maioria, descendentes de escravos”, garante.

Seria quase impossível, portanto localizar parentes ou antepassados de José Cyrillo, o negro – ou mesmo qualquer negro -, partindo apenas de seu sobrenome.
Uma descoberta mais surpreendente ainda acontece logo em seguida, no centro comercial da cidade, quando Antônio José, o filho, se depara com inscrição ‘Boutique Cyrillo’, entalhada numa placa de madeira de uma loja de artesanato. No interior da loja há um livro de contabilidade muito antigo, pitoresca curiosidade para atrair fregueses.

No livro, nas anotações de ‘Dever’ e ‘Haver’ constam detalhes pormenorizados sobre a compra e venda de escravos, mulas, ferramentas e mantimentos. Abaixo, no fim da página a assinatura do patriarca proprietário: José Cyrillo dos Santos, 1878.

No seminário da Mitra Diocesana de Diamantina, na mesma linha da anterior, uma descoberta também surpreendente: Inquirido sobre a possibilidade de ter existido ali um aluno chamado José Cyrillo do Espírito Santo, o padre, a princípio reticente diante da evidência de efetivamente haver no livro de registro de algum aluno com este nome, acaba assumindo enfaticamente que sim, houve um aluno com este nome no seminário, mas ele jamais poderia ter sido pai de inquiridor. Mostra o nome do aluno no livro, da turma dos nascidos em 1922: José Cyrillo dos Santos Neto (‘Júnior’) um homem branco que, já como ex seminarista, morreu num acidente nos céus de Diamantina, ao que dizem, pilotando seu próprio avião.

As razões eram definitivas: O sobrenome não coincidia, e o José Cyrillo em questão, o ex seminarista aviador, não era o meu pai e pertencia mesmo àquela família branca e influente do local.

“_A família hoje cultiva Sempre-vivas…” – completou o padre_”…que são vendidas para o exterior”.

Quatro José Cyrillos haviam sido localizados. Três brancos e de uma mesma família (na verdade, descubro agora em 2009, um dos três supostos brancos era na verdade… mulato). O outro, o desgarrado, era o negro, o soldado.

O fato é que foi possível a Antônio José, o filho mais velho de José Cyrillo (o negro) voltar ao local em 2009, incríveis 28 depois das pesquisas preliminares acima narradas. O relato desta segunda viagem além de confirmar boa parte das suposições acima aventadas, lança a história para rumos ainda mais eletrizantes.

Uma nova observação, agora mais meticulosa dos objetos que ornamentavam a loja de artesanato Boutique Cyrillo demonstra claramente que a família Cyrillo dos Santos teve efetivamente um ramo negro, originado evidentemente de uma relação interracial de um de seus membros, possivelmente José Cyrillo dos Santos Filho, primogênito do patriarca dono de escravos que assinava o livro de contabilidade que folhei na minha primeira visita á loja de artesanato.

Desta feita, se pode observar – e fotografar – o rosto de José Cyrillo dos Santos Júnior, o aviador morto que quem o padre da Mitra Diocesana me falara em 1981. A incrível descoberta deste retrato encerra de vez o enigma sobre este homônimo de meu pai, já que este José Cyrillo dito ‘Júnior’, aparece na foto incrivelmente vestido à caráter, de aviador confirmando, cabalmente toda a história contada pelo padre na Mitra Diocesana em 1981.

Mas não terminava aí a surpresa. Ao lado do retrato do aviador, Antônio José tinha também diante de si a imagem de um filho mulato do mesmo José Cyrillo (o velho). A insuspeitada figura daquele que poderia ser seu tio, contemporâneo que era de seu pai, aparece em vários retratos finamente emoldurados, como o bem sucedido herdeiro e proprietário de, pelo menos parte dos bens da família (a filha deste José Cyrillo dos Santos me falou, orgulhosamente sobre o quanto seu pai era querido por ela (sem desconfiar das suspeitas sobre a relação entre a família dela e José Cyrillo, o negro) acrescentando o curioso comentário:

_”Meu pai era moreninho assim igual a você!”

Assim a inusitada, porém não improvável história de meu pai ganhou, além de mais verossimilhança, um novo e mais completo contexto. Teria tido José Cyrillo, o negro algum ressentimento relacionado a seu suposto tio mulato? Este ressentimento seria semelhante ao que teve seu pai Antônio diante de seus demais irmãos bastardos, ao contrário dele, agregados à família do patriarca?

O fato inquestionável é que José Cyrillo dos Santos, o patriarca branco do seculo 19, tivera em seu casamento um filho primogênito a quem deu o nome de José Cyrillo dos Santos Filho. Este José Cyrillo dos Santos Filho seria o pai de ‘júnior’, o aviador morto, nascido de seu casamento ‘legítimo’.

Contudo, numa segunda relação ‘ilegítima’ com uma de suas escravas, José Cyrillo dos Santos Filho teria tido com ela mais alguns filhos, aos quais apesar de serem’ bastardos’ assumiu, agregando-os à família.

Entre estes ‘bastardos’ estaria José Cyrillo dos Santos, o mulato.
Meu avô, pai de meu pai José Cyrillo do Espírito Santo, teria sido, portanto, pela hipótese desenvolvida até aqui, irmão carnal de José Cyrillo dos Santos (o mulato) e meio irmão do José Cyrillo aviador. Por esta intrincada e impressionante história, reforçando mais ainda as minhas suspeitas iniciais a tal escrava, seguramente angolana e oriunda talvez do reino do Benguela (a julgar pelo perfil étnico predominante na região), efetivamente existiu e poderia ter sido, realmente minha bisavó.

Portanto, a mais angustiante das probabilidades é a mais impossível de ser constatada: A escrava africana que como existiu na história de José Cyrillo, o negro seria a mesma que está na história do José Cyrillo, o mulato?

Seriam todos os personagens citados nesta história descendentes da mesma africana do reino do Benguela?

O mistério da predestinação contida no nome
A implausível possibilidade do destino (ou do futuro) de um indivíduo estar contido, de alguma forma, em seu nome próprio é um caminho que pode ser também considerado na reconstituição da história de José Cyrillo, o negro (pelo menos no plano emocional, no âmbito da fantasia e da ficção). Afora os mistérios extraídos de fatos objetivos acima narrados, há com efeito na história deste homem, algumas curiosidades que poderiam muito bem ser atribuídas a desígnios do destino.

Resultados preliminares da pesquisa, por exemplo, associam a família Cyrillo dos Santos, como sendo originária de uma proeminente figura da igreja local, D. João Antônio Dos Santos, famoso abolicionista, titular do bispado de Diamantina, instituído pelo papa Pio IX em 1854. Pode haver, pois alguma ligação entre o nome Cyrillo e o catolicismo apostólico romano, o Vaticano, as coisas de Roma enfim.

O nome dos varões desta família (que se supõe, pelo ramos ‘Dos Santos’ estar ligada ao Bispo) talvez esteja relacionado á São Cyrillo, um santo muito popular na Itália. A hipótese do nome Cyrillo ser fruto do ingresso, por casamento, de algum emigrante italiano na árvore genealógica da família Dos Santos, também pode ser considerada.

O fato é que, desafortunadamente, é exatamente para a Itália que em 1944 José Cyrillo, o negro, vai, enfrentando lá, a guerra que acabou sendo o último grande evento de sua vida.
Em 1989, oito anos após ter conhecido detalhes da história de seu api em Diamantina, de novo por pura e afortunada obra do acaso, Antônio José, o filho mais velho de José Cyrillo, o negro, viaja como músico para esta mesma Itália.

Conferindo num mapa com um professor italiano, o trajeto onde se localizavam as cidades da turnê, todas numa região chamada Emília Romagna, Antônio se assusta com a coincidência apontada pelo italiano: Os shows se dariam nas mesmas cidades onde José Cyrillo e as tropas brasileiras transitaram e lutaram na segunda guerra mundial. Impossível para o filho não ficar intrigado com a coincidência extrema, enquanto olhava pela janela do trem os campos de abetos, os vinhedos e os morros que foram o campo de batalha definitivo do soldado que fora seu pai.

O mistério mais intrigante, no entanto, diz respeito ao fato de dois filhos de José Cyrilo (Antônio José e Luiz Antônio) , o negro,terem se envolvido, também ocasionalmente, em 1975, ainda sem saberem rigorosamente nada a respeito das origens do pai, com um trabalho de pesquisa musical ao qual deram o nome de Grupo Vissungo (transformado pelo filho mais velho, Antônio José, em projeto de vida).

A pesquisa, que resgatava cantos de trabalho africanos denominados Vissungos, ocorrentes, exclusivamente, no interior da região de Diamantina, Minas Gerais, trazidos para o Brasil por escravos angolanos de nação Benguela, estranhamente ligava os filhos de José Cyrillo, diretamente, ao seu mais remoto passado, como se tivessem sido atraídos por alguma inexplicável e irresistível razão.

Percalços de garimpo

Ainda em 1981, no cartório da cidade de Diamantina, Antônio José, descobre que os nomes de Antônio e Maria Josephina, seus avós, não constavam dos registros de nascimento daquela freguesia, Eles seriam, evidentemente, naturais de algum lugarejo da periferia. Os únicos registros possíveis neste caso eram as certidões de batismo (batistérios), que poderiam estar num canto empoeirado de alguma igrejinha de uma das muitas vilas remotas espalhadas pela Serra do Espinhaço e seus vales.

Informados de que se investigava uma história de família iniciada muitos e muitos anos atrás, alguns informantes se referiram a uma senhora muito idosa, centenária, chamada Maria do Espírito Santo, moradora numa dessas vilas, chamada Pinheiros, muito distante para ser visitado naquela ocasião. A informação dava conta inclusive de que vários destes lugarejos, haviam sido na verdade antigas lavras abandonadas ou velhos esconderijos de quilombolas, nos quais até hoje vive uma população de arredios descendentes. A pista sobre a origem dos pais de José Cyrillo, o negro, não estando no centro de Diamantina, deverão estar em algum ponto desta misteriosa periferia.

Entrando mais para o interior da região, montanha acima, Antônio José, chegou a São João da Chapada, vila importante no tempo da escravidão, porque abrigou Xica da Silva e o contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira, que ali mantinha um posto avançado da Contratação (voltando a São João da Chapada em 2009, Antônio não se esquece desta vez de fornecer dados sobre estes avós ao cartório local).

Nos bares de São João da Chapada em 1981 era ainda assunto corrente, junto com as lendas e manhas da Xica da Silva, as estrepolias e aventuras de famosos quilombolas, em luta com os soldados da Real Extração portuguesa. Entre estes, para a população local os mais famosos foram Dumba e Makemba. De Makemba se fala, com muita empolgação, dos assaltos que fazia contra a carga transportada em tropas de mulas, de onde ele surrupiava mantas de carne seca ou sacos de ouro, numa tática tão furtiva quanto curiosa, que se expressa numa máxima tornada popular na época: ‘A última mula é do Makemba’ (na verdade, na pesquisa de 2009 descubro que as histórias dos quilombolsa da região – e de Makemba em especial – estão ainda mais vivas hoje do que nunca).

(Estive lá e confirmei tudo no post lapa de Makemba)

Do outro falam da mística ‘Lapa do Dumba’ uma grande gruta que existiria ainda hoje, oculta na montanha, contendo inscrições e desenhos feitos por Dumba e seu grupo. Um ponto de vissungo, da região eterniza Dumba: ‘Muriquim piquenino/ Muriquim piquinino/Purugunta a donde vai /Purugunta adonde vai/ Pro quilombo do Dumbá/Pro quilombo do Dumbá.”

De São João da Chapada Antônio José desceu a pé os 30 quilômetros montanha abaixo que o levaram ao lugarejo denominado Quartel de Indaiá, evoluído em torno das ruínas de um dos antigos quartéis que a coroa portuguesa espalhou na área, na tentativa de controlar a agressividade dos quilombolas e garimpeiros da região.

Pouco antes de se divisar Quartel, se vê um grande conjunto de palmeiras de indaiá, que dão nome ao lugar. Quartel é um lugar ermo, isolado de tudo, composto apenas de umas poucas casas numa espécie de largo ou rua tomada pelo capim, com a pedregosa montanha ao lado. É provável que passem anos sem um estranho passar por lá. Igreja há, mas, um padre ali só comparece uma vez por ano. Ao fundo, oculto pelo matagal como uma espécie de templo proibido, as ruínas do velho quartel português.

Numa tensa e emocionada conversa com um velho informante local, foram registrados dois pontos de Vissungo, em Benguela, idioma mantido ainda vivo na memória de alguns poucos moradores que sabem ‘temperar a língua’. Foram registrados também um relato sobre antigas práticas folclóricas do local que talvez remontem o século 19 – e podem ter ligação direta com folguedos angolanos – além de uma longa descrição sobre técnicas de garimpo, atividade a qual os moradores de todos os lugarejos remotos da região, estão ainda hoje envolvidos, clandestinamente, quase como por vício. No caminho, é comum se ver ao longe, meio ocultas nas curvas de córregos, ao longo da estrada, as cabeças negras de famílias inteiras, garimpando em antigas lavras.

(A quem interessar possa, toda esta parte da história dos africanos escravos mineradores e quilombolas da região onde teria vivido a avó de José Cyrillo, o negro, está meticulosamente contada na surpreendente série ‘Na Lapa de Makemba’ escrita por este mesmo filho de José Cyrillo, recentemente, após o retorno à região em janeiro de 2009. A série está acessível aqui: http://portalliteral.com.br/artigos/na-lapa-de-makemba-03.

Mineração da Persona.

Como todos os indícios demonstram, portanto, algum parente próximo de José Cyrillo, o negro – sua avó talvez – veio da África, mais precisamente de Angola para Diamantina e, como todos os escravos das lavras da região, cantou Vissungos enquanto minerava ouro e diamante.

José Cyrillo, o negro, se direitos a alguma herança possuía, largou-os lá em Diamantina, como canga inútil, vidrilho ou pedra falsa. A grande herança que deixaria para os filhos e netos seria a vaga memória de sua forte personalidade, sua força de vontade, sua Pessoa enfim.

DNA, memória genética, síndrome da genealogia perdida, ou mera predisposição de um destino que, já estando traçado, indelevelmente, no nome próprio desta pessoa, acabou por eternizá-la.

Ao que parece, foi mesmo a linha do sangue – desprezado como bastardo- o veículo que, reconstituindo a linha do tempo, reuniu enfim – pelo menos no plano simbólico- os fragmentos da desgarrada família de José Cyrillo, o negro. Revelando um veio muito rico de lembranças, um veio puro e nítido, que a pesquisa – e o filme ao qual ela deve se referir- pretende cultivar e perpetuar… como uma ‘Sempre- viva’.

Spírito Santo
Rio, Janeiro 2006/ Maio 2009

Sobre a congada de Ilha Bela/ São Paulo


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Congada da Ilha Bela

Formas de Olhar / 6 episódios

Resenha

Excelente série de documentários sobre a festa de São Benedito em Ilha Bela, litoral norte de São Paulo, suas origens e (talvez involuntárias) referências sobre a deculturação da organologia local, notadamente a perda total do know-how da fabricação da famosa “Marimba de Ilha Bela”, um xilofone tradicional levado para a ilha, presumo por escravos moçambicanos (embora a origem angolana não possa ser descartada.)

A “Marimba de Ilha Bela” é hoje um objeto meramente copiado na forma, decorativo em certa medida, sem nenhum traço das propriedades físico acústicas originais, tais como afinação e ressonância, fatores organológicos complexos, cujo expertise se perdeu por razões as mais diversas, carentes de mais estudo ao qual tenho me dedicado bastante, ultimamente.

Embora pareça paradoxal, contudo, o som da tosca marimba de meras ripas de pau percutidas, já está incorporado à tessitura musical da festa.

É significativa também a progressiva redução da participação pública negros no âmbito geral da festa, cuja manutenção, estimulada por seu grande potencial turístico é hoje realizada com um número menos significativo de negros ou descendentes e um número maior de caiçaras e brancos, populares comuns.

Esses novos participantes, muito dedicados e fervorosos à festa, principalmente por sua grande devoção religiosa, possuem, contudo, pouco ou nenhum vínculo ancestral com os elementos de transmissão oral que, antes eram preservados, firmemente pela coesão comunitária dos negros remanescentes, em sua orgulhosa etnogênese de africanos sequestrados para a Ilha há mais de 200 anos.

Curioso o depoimento num dos episódios, de um velho preto, outrora ativo participante da festa como músico, hoje um crítico amargo, discreto, porém incisivo do processo de deculturação sofrido pela congada, principalmente em seu aspecto musical, segundo ele, descaracterizado profundamente.

As razões da aparente e progressiva redução de negros e da deculturação relativa da festa (um fator resultado de múltiplas razões) aparentemente são a exacerbação da espetacularização turística (veementemente rejeitada pela geração de congadeiros mais antigos) e a intromissão de agentes estranhos à congada, fatores que, nesse aspecto estritamente cultural aparecem identificados em entrevistas na série.

Aparece, bem claramente também nesta interferência – quase ingerência, diria – na estrutura do auto teatral que caracteriza a congada, a atuação de uma folclorista e escritora, titular por um tempo da secretaria de cultura local, que de certo modo impôs mudanças cruciais nesta estrutura e na gestão da manifestação, apoiada por uma dissidência existente entre congadeiros.

Estas mudanças, na prática diluíram ou mesmo quase extirparam, os aspectos mais africanos da congada, típicos de sua origem de cultura de escravos levados para a ilha há cerca de 200 anos atrás.

Este processo velado de ingerência, com seu traço aparente de conspiração, produziu um racha entre os congadeiros, com o afastamento de muitos da cúpula familiar original, que geria a manifestação, rompidos assim os laços de etnogênese acima citados.

Enfim são muitos os aspectos e contradições instigantes para uma análise da conturbada e resiliente inserção da cultura africana na Diáspora no Brasil nesse caso de Ilha Bela, tão paradigmático.

Bem interessante e denso o traballho, uma série de 6 episódios, numa produção da TV USP.)

  1. (Siga a série à partir deste link: https://youtu.be/

“Batizado de quilombolas de Palmares


Atenção: Todo o conteúdo do blog está assegurado por uma licença CC.

Algumas controvérsias na legenda dessa imagem abaixo.

O chamado “acordo de Cucaú”, incidente decisivo na  história do Quilombo de Palmares, numa análise pente fino dos relatos na verdade, pelo menos para mim, foi um acordo de rendição.

Com toda a família de Ganga Zumba capturada e presa, os convertidos e batizados na imagem, segundo afirmam o cruzamento dos relatos, são entre outros, os filhos de Ganga Zona, cunhado de Ganga Zumba tornado aliado dos portugueses e traidor do Quilombo.

Um desses filhos de Zona, aliás cuja mãe, dizem, era holandesa, chegou a ser batizado com o nome do governador de Pernambuco Ayres de Souza Castro.

Detalhe: Ganga Zumba, um líder já idoso nessa época, parece não constar como presente a esses eventos em nenhum desses relatos.

Versåo difícil de engolir. Fere de morte a história oficial. Desagrada negros e brancos. Por ela a chamada “República” de Palmares teria sido traída por um membro da cúpula quilombola.

Nunca teria havido uma rendição voluntária de Palmares ao tempo de Ganga Zumba. Alguém da cúpula denunciou aos portugueses o local onde TODA a família de Ganga Zumba que foi capturada, inclusive mulheres e crianças.

Pensemos melhor no cruzamento dos detahes, constantes nos próprios documentos oficiais.

Expliquem, por exemplo o fato de, no mínimo um dos filhos de Ganga Zona, logo em seguida aos eventos da suposta rendição ter sido apadrinhado pelo governador português e, após ser batizado (seria um dos  personagens da gravura) receber o nome deste, num ato de sujeição evidente.

Expliquem Ganga Zona ter sido o emissário autorizado pelo governador Aires de Souza para ir ao encontro de Zumbi (o novo, livre na mata) afim de propor sua rendição.

Expliquem como toda a família de Ganga Zumba foi surpreendida em seu mais secreto esconderijo.

Expliquem como Ganga Zona não consta entre os presos.

Expliquem a ausência de Ganga Zumba nos incidentes da prisão da família e nemnmesmo nas solenidades do suposto acordo.

Expliquem a vida confortável de Ganga Zona como eminência da aristocracia de Recife depois do suposto acordo de Cucaú.

Pois bem, todos esses dados estão descritos em relatórios portugueses e holandeses. Quando os cruzamos, esse é o quadro que se forma.

O envenenamento de Ganga Zumba é um evento controverso. O fato de haver um grupo divergente, contudo, corrobora a tese da traição.

Se Ganga Zona é alçado pelo governador português como comandante do “acampamento” de Cucaú (uma reserva, claro!)a traição passa a ser óbvia.

(Utilizo o termo “reserva” como foi usado pelo estado norte americano parapdefinir osocampos de concentração de indígenas comanvhes e cheyenes no século 19

Expliquem porque um dos filhos de Ganga Zona, logo em seguida aos eventos da suposta rendição, segundo citado acima, apadrinhado pelo governador português e recebendo o nome deste, num ato de sujeição evidente.

Expliquem Ganga Zona ter sido o emissário autorizado pelo governador Aires de Souza para ir ao encontro de Zumbi (o novo, livre na mata) afim de propor sua rendição.

Expliquem como, se toda a família de Ganga Zumba foi surpreendida em seu mais secreto esconderijo, como Ganga Zona não consta entre os presos.

Expliquem a ausência jamaus citada dedm Ganga Zumba, o velho, nos incidentes da prisão da família e das solenidades do suposto acordo.

Expliquem a vida de Ganga Zona como eminência da aristocracia de Recife depois do suposto acordo de Cucaú.

E mais: Na descrição da chegada dos palmarinos aprisionados ou rendidos, há um jovem ferido na perna, único montado á cavalo. Atentem que Zumbi (o jovem) é descrito como ferido na perna num doc. que descreve o combate antes de Cucaú.

Este jovem manco, tudo indica, escapado da reserva de Cucaú, comandada (reparem bem) por Ganga Zona, seria oo Zumbi clássico.

Se não acredita nessa possibilidade, se acha esta versão inverosímil, pesquise  mais um pouco. Liberte-se do lugar comum.

Spirito Santo/ 2018/2019

(Cortesia na sugestão da imagem: Daniel Jorge Marques Filho)

Legenda questionada da imagem que ilustra esta matéria in

“Ganga Zumba, Rei dos Negros de Palmares e seus filhos recebendo a bênção do Bispo de Olinda para o tratado de paz oferecido pelo Governador Pedro de Almeida em 1678.” Gravura do Livro “História da Guerra do Reino do Brasil” escrita pelo carmelita português João José de Santa Teresa, publicada em Roma, em 1698.

A Sinfonia na Polirritmia do Negro Batuqueiro


 

Organologia africana e deculturação musicológica no Rio de Janeiro.

Qualquer pessoa de algum modo interessada em música hoje, sabe que são utilizadas formações instrumentais as mais diversas para o exercício de apresentações e espetáculos pelo mundo afora.

A Música é entre todas as artes, talvez a mais gregária, a que mais depende da interação total entre os participantes de um grupo no ato de uma performance.

Com uma humanidade formada por diversos modelos de cultura ou tipos de sociedade, o grau de diversidade dessas formações musicais inventadas pelo homem é enorme e maravilhoso.

Mas, ninguém gosta de assumir, mas existe, um preconceito sutil, e recorrente no Brasil, segundo a qual formações musicais organizadas com instrumentos melódicos ou harmônicos (tendo a música da Europa como parâmetro), seriam, consideradas…superiores.

Ora, podemos afiançar que a existência de formações instrumentais de tipo mais “sinfônico” ou “complexo”, é comum, praticamente em culturas de todo o planeta, não sendo de modo algum, uma prerrogativa das culturas europeias. De onde teria vindo então essa ideia tão incongruente?

A existência de formações musicais complexas em outras partes do mundo que não a Europa, se deu por razões objetiv aas, dentre as quais a principal foi a antiguidade dessas “outras” culturas.

Nos referindo especialmente à África, podemos afirmar que toda a rotina existencial das sociedades,Tempo e Espaço na vida comunitária são e serão, eternamente transcorridos e demarcados sob o signo da Música.

Este é o conceito filosófico fundamental da Música africana, vocês sabiam?

2007- Orquestra de marimbas “Timbila”, do povo Chopi de Mozambique

Ocorre que numa espécie de maniqueísmo interesseiro surgido com o fim dos tempos da escravidão, algumas peculiaridades das culturas musicais de “outras” culturas, passaram a ser subestimadas, em detrimento de outras. E isto, infelizmente se dá de forma muito intensa no Brasil.

Foi com certeza daí que surgiu o mito tão brasileiro do “negro batuqueiro”, a ideia simplista de que os negros em geral só possuem habilidades musicais muito básicas, ligadas em geral á chamada música de percussão.

Este preconceito é usado até hoje como presuposto teórico chave, nos estudos e teses sobre a música dos africanos e, por extensão a música do negro brasileiro, justificando-se assim esta suposta predileção destes pela percussão, pelo batuque.

Mas esta premissa nunca foi verdadeira. Jamais existiu uma pré disposição dos africanos ou dos negros para à percussão, para o “batuque”.

Esta subestimação visava, é claro desqualificar a cultura dos povos das colônias. Passou-se deste modo a opor, de um lado, a suposta excelência da música “sinfônica” da Europa (a “Metrópole”, “branca”, colonialista) em relação a música, quiçá exclusivamente “rítmica”, rude, dita “primitiva” dos povos “não brancos” (das “colônias” africanas, asiáticas, etc.)

1830 (circa) Desenho de Debret com dueto de Sanzas

Afinal, como habitantes de um país nascido da ocupação por europeus de um território selvagem, além dos nativos aqui residentes, povoado logo a seguir por um contingente imenso de gente sequestrada, trazida à força de outro continente também dito exótico e selvagem (isto tudo do ponto de vista europeu) como fazer uma cultura “Nacional” sem considerar a música praticada por essas pessoas, índios e africanos? Ignorar sua música?

Isto criou, logo que deixamos de ser, pelo menos oficialmente colônia da Europa, um paradoxo interessante no processo de formação de uma Música Nacional, representativa da excelência de uma cultura original, brasileira.

Teria sido necessário – ou melhor, teria sido natural – que a música dessas culturas tão diversas, se influenciassem umas às outras, o que nos tornaria, aí sim, originais. Mas não. Optou-se no campo dessa “Música de Excelência” pela exclusão, pelo desprezo desses elementos musicais considerados exóticos, no afã de continuarmos Europeus o que, é lógico, jamais voltaremos a ser.

Este paradoxo, por ser constrangedor é até hoje, um dos pontos de nossos programas de educação musical, mais solenemente ignorados.

 A verdade é que, este desprezo quase patológico pela cultura do “outro”, só nos restou no campo da invenção de uma “Música de Excelência Nacional”, dita Erudita, senão reproduzir, de modo subalterno a música da antiga metrópole. com algumas pitadas do que chamamos de música… folclórica, assimilada de modo apressado, tratada quase sempre como elementos de uma música simplória, infantil, o que a música dos africanos, vocês poderão ver mais adiante, absolutamente nunca foi.

O mais curioso é que alguns poucos compositores eruditos geniais, afirmaram pretender dar algum sabor “popular”, “africano” à música erudita no Brasil, como nessa peça de Luciano Gallet denominada “Batuque” coincidentemente na maravilhosa performance da própria orquestra que sedia esse nosso evento:

2012- Música erudita brasileira- “Batuque” de Luciano Gallet, com a orquestra da OSN- UFF

A inserção da música africana no Brasil

O acidentado e forçado processo de inserção da música africana no mundo colonial têm, portanto um grau de complexidade bem menos simplista do que imaginamos.

Pode-se ressaltar logo de saída, que esta ligação estreita dos africanos com a linguagem musical acima citada, não poderia jamais se resumir apenas, à percussão e aos “selvagens” batuques com tambores e ruídos idiofônicos primais que os preconceitos dominantes apregoam. Bastaria aos nossos musicólogos domarem a sua ignorância racista e estudarem com interesse e afinco essa música.
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É por isso surpreendente que ainda hoje se ignore nos meios musicais brasileiros mais acadêmicos, que havia grande quantidade de instrumentos musicais melódicos e harmônicos africanos, de todos os tipos, visíveis e audíveis nas ruas da Corte do Rio de Janeiro entre os séculos 18 e a parte inicial do 19, um campo vastíssimo de estudos, notadamente no que diz respeito ao que poderíamos chamar de “organologia histórica”, e também como um campo mais vasto ainda para o estudo de escalas emocionalmente complexas, timbres inusitados, valores musicais que melhor nos caracterizariam como povo.

1840 (circa) A dança dos Maiambáias” (Momçambicanos) Esboço á lápis de Regis-François Moreaux

O fato é que ocorreu na Corte do Rio de Janeiro, nos tempos mais intensos do tráfico negreiro (entre os séculos 18 e 19), a presença de uma organologia africana muito rica e diversificada, constando de instrumentos de corda, sopro, de todos os tipos, inclusive xilofones (“Marimbas”), Sanzas (Kisangi), Harpas, Alaúdes,  “Violinos”(“Cacoche”), entre outros, (com a presença pouco relevante ou mesmo inexistente de tambores, no caso da Corte do Rio, o que é curioso) existindo como estamos vendo aqui, razoável iconografia sobre o tema.

O fenômeno curioso e, muito emblemático, praticamente desmonta estas teorias musicológicas maniqueístas espalhadas por aí, que afirmam, haver aquela certa pobreza melódico-harmônica na música africana trazida para as Américas.

É mais surpreendente ainda que, estes instrumentos musicais trazidos para cá e há séculos, vistos em uma ou outra gravura colonial, ainda estejam vivíssimos na música africana de nossos dias, prontos a serem estudados e recuperados como exemplos da nossa originalidade instrumental e musical perdida.

O fenômeno da proliferação inicial de uma inusitada e exuberante África sinfônica em plena Corte escravista, pode estar ligado, diretamente a alta rotatividade de escravos na Corte do Rio, ponto de concentração e baldeação – às vezes caótica – de escravos para as províncias vizinhas, situação que enseja a fixação de alguns desses escravos aqui mesmo, na Corte, utilizados em serviços típicos das grandes cidades da época, tarefas que permitiam algum lazer ou fruição artística para a prática de artesanatos e manufaturas, por parte de alguns artesãos ou músico-artesãos especialistas.

1845-Sanza- Gravura de Thomas Ewbank

“…Hoje de manhã passou por aqui um escravo com um fardo na cabeça e as duas mãos metidas dentro de uma grande cabaça, na qual fazia soar a melodia de uma valsa que está na moda. Aproveitei a oportunidade para examinar a popular ‘marimba’.

“Cada nação africana tem seu tipo de marimba, podendo se reconhecer se é do Congo, de Angola, dos Minas, dos Achantis ou Maçambiques, embora não sejam grandes as diferenças…

…Raspando as varetas com os dedos por baixo, e acionando as claves com polegares, o instrumentista, ao flexionar as varinhas numa de suas extremidades e depois soltá-las, produz um som suave, semelhante à harpa judaica. A cidade é como um teatro abissínio e a marimba é o instrumento preferido da orquestra.”(Ewbank, Thomas “A Vida no Brasil. Diário de uma viagem ao país do Cacau e das Palmeiras”- Editora Conquista- Rio de Janeiro- 1978)

Em conversa com o etnomusicólogo colombiano Carlos Miñana Blasco, confirmamos a incidência de marimbas na Colômbia. Instrumento africano muito conhecido de todos nós, as marimbas são até hoje de uso corrente na Colômbia, onde, segundo Blasco, são promovidos, regularmente concursos e desafios de habilidades entre inúmeros músicos especialistas, por todo país.

Com know how trazido para cá da África do mesmo modo como chegaram à Colômbia, as marimbas e toda uma gama de instrumentos tradicionais africanos, na verdade foram, muito populares, praticamente em todo o sudeste do Brasil, até mesmo em Minas Gerais, onde aparecem no século 19 como instrumentos essenciais de ternos de congadas, segundo alguns registros, entre os quais um, memorável, do fotógrafo Augusto Riedel, em 1868, quando a serviço do Imperador D.Pedro II.

1868. Marimba em Congada de Morro Velho, Minas Gerais. Foto de Augusto Ridel.

A Deculturação

O etnomusicólogo colombiano, contudo, logo se mostrou surpreso – e desolado – quando lhe informamos, que as marimbas haviam desaparecido, misteriosa e completamente da Corte e do resto do Brasil no fim do século 19. E não só elas, mas toda aquela gama de instrumentos tradicionais africanos, de todos os tipos e “famílias”, num corte brusco, radical, uma tão súbita extinção de tecnologias culturais, talvez jamais vista no mundo colonial.

Ou seja, a deculturação ou o processo de desaparecimento gradual de quase todas as técnicas de fabricação de tudo que era conhecimento tecnológico das culturas africanas originais – notadamente dos instrumentos de música – ocorreu de forma deliberada e brusca, fato que se deu por razões as mais dramáticas no Brasil, já que as principais razões, estão ligadas ao desprezo e ao preconceito ignorante de nossa elite
 branca, em seu anseio de parecer “europeia”, ou seja: ao seu racismo enfim.

Por sorte, teimosia ou destino, o povo, os descendentes de africanos, de índios, a ralé, enfim, pelo menos no campo de nossa música popular, se adaptaram, rapidamente aos instrumentos ditos europeus e continuaram a encher a música urbana de do Brasil e do mundo com a singularidade e a criatividade dos sons com sabores da nossa exuberante Diáspora brasileira.

Quando a nossa Música Erudita fará o mesmo?

Orquestra de música “Adungu” de Uganda gravada em 2012

  1. Spirito Santo
    Abril 2019