GRUPO VISSUNGO! KILOMBOLOKO – Reta final!

•17/07/2018 • Deixe um comentário

GRUPO VISSUNGO! KILOMBOLOKO!
Reta final da campanha

Pouco mais de um mês para o fim da campanha de financiamento coletivo do sensacional VINIL/CD do Grupo Vissungo “KILOMBOLOKO!” que já está saindo do estûdio-forno! Acesse NOVO link aqui:

Teaser de pré mix de “Candombe para Gardel” de Ruben Rada. Voz de Spirito Santo, Guitarra Reinaldo Amancio Leandro, Violão Lula Espirito Santo, Batera Jahir Soares, Percussão de candombe Joaco Vaccari Bajista percussão base Julvano M Martins Martins, baixo Leri Machado, técnico gravação Luiz Filipe Cavalieri, Estúdio Livre, Rio

Um disco histórico. Mais de 40 anos de carreira e aventuras negro-musicais no Brasil e no exterior relidos, revistos, a alma da música da diáspora africana vai soar no mundo.

A chance de você colaborar rola até 27 de AGOSTO e você pode saber tudo sobre o projeto no link do site no primeiro comentário abaixo (clique na guia “sobre” da página do projeto no catarse.

Link da Campanha: http://www.catarse.me/kilomboloko2017

Vai lá!

A “Middle passage” do Brasil e o Kalunga de Zumbi que não deu em O Globo

•19/11/2016 • 1 Comentário

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 Já pensaram, o Titio em O Globo em pleno dia de Zumbi?

Quase que colou…O texto do Titio a seguir foi encomendado em 2012 – pasmem! – por um importante órgão de defesa dos direitos do negro aqui do Rio. A pessoa muito gente boa que intermediava o convite me dizia:

“…Escrevo para você porque uma de minhas ideias …é um artigo escrito por alguém que entenda de cultura afro-brasileira e, portanto, seja um nome respeitado, a ponto de me permitir sugerir o texto à seção de Opinião do O Globo.

…O que me diz? … Aguardo ansiosamente o seu retorno.”

Viram só? O ‘pasmem‘ é pelo o inusitado que foi um crítico marrento e tão mordaz destes órgãos todos, muitos deles ‘chapa branca’ como vivo espalhando por aí, ser convidado para escrever um texto assim meio que ‘oficial‘. O mais inusitado de tudo nem era isto. Imaginem: O texto seria – viram só? – para propor à pauta do 20 de Novembro do jornal O Globo!

Bem, meu ‘bicho carpinteiro’ aparecido como ele só logo gritou, exultante:

“_ Êba!”

É, mas fui logo avisando a pessoa que intermediava o convite que talvez eu não fosse o mais talhado para o serviço, pois não sabia escrever textos ‘chapa branca‘ de jeito nenhum e que podia sim escrever, mas só se fosse com a ampla liberdade de opinião que me caracteriza. E não é que a pessoa topou? Não tinha mesmo como fugir.

Haviam uns tópicos chave, a citação obrigatória de certos pontos etc.. Nada que não fosse fácil de fazer, usando sutis picardias e entrelinhas (e esta era a parte mais divertida da missão).

É que desafio melhor não há: Escrever um texto para um jornalão pautado as vezes por um racismo renitente, ao mesmo tempo sem ser ‘chapa branca‘, mas criticando pontos chave que acho por bem criticar sempre e, ainda assim sem ser furibundo e abusado demais, como as vezes sou aqui no facebook ou aqui no quintal do meu blog…e isto tudo com apenas 3000 caracteres.

Uma experiência jornalística imperdível, digamos assim, fundamental para um escrevinhador contumaz feito eu.

Bem, lógico que não rolou. Alguém no percurso não mordeu a isca. Sei lá porque, impossível saber. Mas nem assim, criança frustrada em sua brincadeirinha eu fiquei. É que agora – ô sorte! – existe esta banca enorme de leitores aqui da Internet. Os jornalões com suas pautas travadas estão até ficando cada dia mais para trás, pegando o bonde andando da comunicação veloz da rede.

Vou liberando então para todo mundo – azar o deles – o textinho que fiz para marcar a data do dia nacional da consciência negra, o nosso Dia de Zumbi” e que, mesmo assim, arteiro como sou, não consegui ‘infiltrar‘ na pauta de O Globo de Ali Kamel.

Ah, se eu te pego!

Eis o texto que quase foi publicado:

“20 de Novembro: A Passagem e a sublimação do ‘kalunga’

Num 20/11 no século 19, o momento crucial da travessia era aquele onde a metade do caminho entre a África e a América era transposta. Ali a inexorabilidade do destino podia ser percebida no ar de um Atlântico fatal para a história das pessoas amontoadas nos porões do navio.

Ali eram distribuídos aos reféns doses calmantes de tabaco em cachimbos especialmente fabricados para o fim ambíguo de acalmar o pânico das almas e, ao mesmo tempo amansar na carga qualquer sanha que a fizesse se rebelar contra o mal sabido destino.

A tripulação chamava este portal de ‘Passagem do Meio’, uma expressão utilizada pelos traficantes de escravos, como demarcação de uma fase da viagem em que a carga podia ser considerada salva da apreensão pelos ingleses, que à época interceptavam os tumbeiros por ali. Os africanos, a maioria embarcada à força nos portos de Angola, julgavam esta passagem o momento crucial da travessia existencial de um portal entre o Mundo dos Vivos e o dos Mortos: A trágica travessia do “Kalunga”.

Foi assim, evocando estas mesmas memórias, que se construiu na cidade do Rio de Janeiro um monumento à Zumbi de Palmares, herói seminal decapitado no século 17. É providencial que dentre os eventos da agenda programada para 2012, um dos pontos altos seja a lavagem ritual do monumento. É que o ato é sempre antecedido pela ação noturna de pichadores que grafam suásticas na cabeça do rei Oni, do Benin, escolhida para representar nosso angolano Zumbi.

Mas podem ser positivas também estas memórias.

Descobriu-se agora mesmo por exemplo, quase ao rés do chão do Porto do Valongo, vestígios de africanos que transpuseram a “Passagem do meio” e aqui desembarcaram. É certo que o que existe de mais arqueológico por ali, além de cacos dos cachimbos baforados dos reféns escravos, são esqueletos desmembrados de “pretos novos”, os recém-chegados que morriam e eram por ali mesmo lançados num imenso pântano, mandado aterrar em 1815 por ordem de um alto funcionário da Corte de D. João VI.

É, pois promissora sim – se superados os interesses políticos e comerciais mais imediatistas ligados às obras – as chances abertas para se ter aqui no Rio de Janeiro avanços substanciais nesta questão.

Até leis já temos animando esta trajetória esperançosa por este mar do retorno a dentro. Entre outras leis, temos a 12.711, que trata das cotas sociais e ‘raciais’ e a 10.639 que versa sobre o ensino da história do negro e da África, ambas no âmbito urgente da educação pública.

De todos os significados deste ‘Dia de Zumbi‘ o mais digno de todos, portanto, talvez seja o ensejo de quebrar o paradigma do racismo no Brasil. A viagem de nós todos para a condição de amantes sinceros e fiéis da liberdade e da democracia enfim.

Num 20 de Novembro destes – esperamos que em breve futuro – à condição de seres humanos e solidários, havemos de voltar.

Spirito Santo

Músico. Artista visitante da UERJ

Congado dos Negros na Serra Antiga

•24/07/2016 • Deixe um comentário

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Congada fotografada por Augusto Riedel em Morro Velho, Minas Gerais em 1868 com marimbeiro ao centro.

Certa vez, aí pelo fim da década de 1970, já pesquisando no interior de Minas Gerais, fomos convidados eu e amigos do Grupo Vissungo, pelo mestre congadeiro José Caixeta (da cidade de Machado, MG ) para desfilar no terno dele. Decidi então desfilar na ala dos músicos, claro, tocando uma marimba que eu mesmo havia fabricado. Desfilei lá assim por uns cinco anos seguidos.

Me divertia muito quando identificava pelo olhar estupefato, um antropólogo pesquisador, olhando aquela fantástica marimba africana ali, inusitada. Ficava rindo escondido, moleque, imaginando a tese que o pobre do antropólogo desenvolveria para explicar aquela marimba ali, em pleno século 21.

Já sabia, claro, que xilofones africanos haviam sobrevivido no Brasil até bem perto da Abolição da escravatura. As provas, contudo, eu não havia encontrado nem mesmo em gravuras idealizadas de viajantes como Rugendas. Já havia encontrado em um ou outro livro de viajantes, sanzas (kalimbas) e muitos cordofones (harpas, alaúdes), a maioria, provavelmente angolanos, mas nunca havia visto uma foto sequer deles no Brasil e, de marimbas então, nem mesmo gravuras.

Achei esta imagem logo depois que a primeira edição do livro saiu, em 2011. Ela vai sair na segunda edição já na boca do forno, aí sim, única, maravilhosa marimba angolana (quiçá moçambicana) autêntica, vivinha ali no século 19! (Mostro aqui apenas um corte dela, com o marimbeiro destacado em foco, ao centro da imagem.)

A legenda da foto inteira, que publicarei no novo livro (já a publiquei aqui, tempos atrás, no facebook) dirá que a foto é de 1868 e é de autoria de Augusto Riedel, que viajou pela região de Morro Velho, MG (onde havia uma grande mina de diamantes) a serviço do imperador, grande entusiasta da arte da fotografia.

(A foto que Rudel fez da mina de diamantes, aliás, pode ser vista também em detalhes yyyyno link deste post que publiquei bem recentemente)

O que a legenda oficial diz é um pouco vago. O grupo fotografado é na verdade – sei agora – uma congada clássica da época em em Minas Gerais. A dúvida que persiste em mim sobre a sua origem africana ser angolana ou moçambicana vem do fato de ter encontrado há pouco tempo atrás uma grávida do praticamente desconhecido artista francês jean-rennè Moreaux um par de autênticas marimbas do inhanambane, miçambique, em plena Cirte do rio nesta mesma época (meados de 1860)

Verdadeiro teatro popular, as congadas desta região eram, ou representações faladas, cantadas e dançadas das estrepolias de “Carlos Magno e os 12 pares de França” contra os mouros, enredo dramático que narrava incidentes ocorridos durante as Cruzadas (enredo disseminado no Brasil em livretos de cordel, como instrumento de doutrinação), ou estrepolias semelhantes envolvendo um conflito entre dois reinos africanos (um sendo o Reino do Kongo, no caso) interpretados no pelo pessoal da congada com elementos mistos, extraídos de práticas culturais e de crônicas da história oral do reino do Kongo africano, o real, guardadas na memória popular.

Percebe-se, claramente na foto, os dois grupos oponentes, organizados, cada um, próximo a um comandante, um mouro, outro cristão (ou de um reino africano e de outro), ambos com suas espadas. Cultura negra do Brasil real. Esta que a antropologia convencional se nega, relutantemente reconhecer.

——————

A legenda oficial:

“Em 1868, o fotógrafo Augusto Riedel acompanhou Luis Augusto, Duque de Saxe, genro do Imperador Pedro II, em uma expedição ao interior do Brasil. Durante uma visita à cidade de Morro Velho, em Minas Gerais, o grupo assistiu a apresentação de uma festa afro-brasileira que misturava tradições religiosas católicas e africanas. A celebração apresentava a coroação do “Rei do Congo” e também rendia homenagem à Nossa Senhora do Rosário.”
(A Coleção Thereza Christina Maria é composta por 21.742 fotografias, reunidas pelo Imperador Pedro II ao longo de sua vida e por ele doadas à Biblioteca Nacional do Brasil. A coleção inclui uma grande variedade de assuntos. Documenta as conquistas do Brasil e do povo brasileiro no século XIX, e também inclui muitas fotografias da Europa, África e da América do Norte.)

Certa vez, aí pelo fim da década de 1970, já pesquisando no interior de Minas Gerais, fomos convidados eu e amigos do Grupo Vissungo, pelo mestre congadeiro José Caixeta (da cidade de Machado, MG ) para desfilar no terno dele. Decidi então desfilar na ala dos músicos, claro, tocando uma marimba que eu mesmo havia fabricado.
Desfilei lá assim por uns cinco anos seguidos.

Me divertia muito quando identificava pelo olhar estupefato, um antropólogo pesquisador, olhando aquela fantástica marimba africana ali, inusitada. Ficava rindo escondido, moleque, imaginando a tese que o pobre do antropólogo desenvolveria para explicar aquela marimba ali, em pleno século 21.

Já sabia, claro, que xilofones africanos havia sobrevivido no Brasil até bem perto da Abolição da escravatura. As provas, contudo, eu não havia encontrado nem mesmo em gravuras idealizadas de viajantes como Rugendas. Já havia encontrado em um ou outro livro de viajantes, sanzas (kalimbas) e muitos cordofones (harpas, alaúdes), a maioria, provavelmente angolanos, mas nunca havia visto uma foto sequer deles no Brasil e, de marimbas então, nem mesmo gravuras.

Achei esta imagem logo depois que a primeira edição do livro saiu, em 2011. Ela vai sair na segunda edição já na boca do forno, aí sim, única, maravilhosa marimba angolana (quiçá moçambicana) autêntica, vivinha ali no século 19! (Mostro aqui apenas um corte dela, com o marimbeiro destacado em foco, ao centro da imagem.)

A legenda da foto inteira, que publicarei no novo livro (já a publiquei aqui, tempos atrás, no facebook) dirá que a foto é de 1868 e é de autoria de Augusto Riedel, que viajou pela região de Morro Velho, MG (onde havia uma grande mina de diamantes) a serviço do imperador, grande entusiasta da arte da fotografia.

(A foto que Riedel fez da mina de diamantes, aliás, pode ser vista também em detalhes no link de um pist que publiquei bem recentemente)

O que a legenda oficial diz é um pouco vago. O grupo fotografado é na verdade – sei agora – uma congada clássica da época em em Minas Gerais. A dúvida que persiste em mim sobre a sua origem africana ser angolana ou moçambicana vem do fato de ter encontrado há pouco tempo atrás uma grávida do praticamente desconhecido artista francês jean-rennè Moreaux um par de autênticas marimbas do inhanambane, miçambique, em plena Cirte do rio nesta mesma época (meados de 1860)

Verdadeiro teatro popular, as congadas desta região eram, ou representações faladas, cantadas e dançadas das estrepolias de “Carlos Magno e os 12 pares de França” contra os mouros, enredo dramático que narrava incidentes ocorridos durante as Cruzadas (enredo disseminado no Brasil em livretos de cordel, como instrumento de doutrinação), ou estrepolias semelhantes envolvendo um conflito entre dois reinos africanos (um sendo o Reino do Kongo, no caso) interpretados no pelo pessoal da congada com elementos mistos, extraídos de práticas culturais e de crônicas da história oral do reino do Kongo africano, o real, guardadas na memória popular.

Percebe-se, claramente na foto, os dois grupos oponentes, organizados, cada um, próximo a um comandante, um mouro, outro cristão (ou de um reino africano e de outro), ambos com suas espadas. Cultura negra do Brasil real. Esta que a antropologia convencional se nega, relutantemente reconhecer.

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A legenda oficial:

“Em 1868, o fotógrafo Augusto Riedel acompanhou Luis Augusto, Duque de Saxe, genro do Imperador Pedro II, em uma expedição ao interior do Brasil. Durante uma visita à cidade de Morro Velho, em Minas Gerais, o grupo assistiu a apresentação de uma festa afro-brasileira que misturava tradições religiosas católicas e africanas. A celebração apresentava a coroação do “Rei do Congo” e também rendia homenagem à Nossa Senhora do Rosário.”
(A Coleção Thereza Christina Maria é composta por 21.742 fotografias, reunidas pelo Imperador Pedro II ao longo de sua vida e por ele doadas à Biblioteca Nacional do Brasil. A coleção inclui uma grande variedade de assuntos. Documenta as conquistas do Brasil e do povo brasileiro no século XIX, e também inclui muitas fotografias da Europa, África e da América do Norte.)

O Crioulo e a língua do Crioulo. Lorenzo Dow Turner no Brasil.

•31/05/2015 • 4 Comentários

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Lorenzo Dow Turner, brilhante etnolinguísta é, tardiamente ‘descoberto” pela academia (e pela imprensa) do Brasil.

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 Parece coisa de crioulo doido, só que não.

Passei boa parte do dia e a noite desta última sexta feira devorando informações sobre Lorenzo Dow Turner, etnolinguísta norte americano, praticamente desconhecido no Brasil até recentemente, descoberto entre outros pelo acadêmico francês Xavier Vatin, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Li – lemos – uma matéria esclarecedora sobre isto dia desses, cuja fonte, o instituto de linguística IPOL, foi reproduzida por alguns blogs, entre os quais o Geledés, especializado em ativismo e cultura negra.

Já havia tocado de leve na figura de Lorenzo Dow Turner , citando-o num post como um dos personagens do boom de estudos sobre os africanos no Brasil ocorrido em Salvador, Bahia no início da década de 1940, por injunção do Congresso Afro Brasileiro de 1937, coordenado por Edison Carneiro, entre outros. Leia o post do Titio neste link: “A Guerra, Academia e a impureza a Nagô“.

Me instiga nesta busca por dados mais completos sobre Dow Turner as relações, eventualmente existentes entre a invisibilidade brasileira de seu trabalho e o mesmo fenômeno ocorrido com o trabalho do etnólogo baiano Antônio Joaquim de Souza Carneiro (para os que desconhecem, pai de Edison Carneiro), vítima de uma intensa campanha de difamação e desqualificação intelectual, por parte de ilustres acadêmicos da mesma época, o incensado Arthur Ramos à frente.

O fato de Turner e Souza Carneiro serem ambos negros, intelectuais brilhantes e, do mesmo modo, terem tido suas pesquisas desprezadas e/ou ignoradas pela empáfia da academia tupiniquim da época, sempre me intrigou, intriga e tem me instigado a escrever vários inflamados artigos e posts (outros por certo se seguirão a este).

Recolhi neste intento, ontem, empolgado com a biografia de Lorenzo Dow Turner, que fui descobrindo pouco a pouco, a medida em que a noite avançava, muito material – muito mesmo – sobre as pesquisas e fontes de Lorenzo e já havia até começado um animado artigo sobre o etnolinguísta, quando, logo ao acordar, me deparo com esta excelente matéria no caderno Verso e Prosa de O Globo: “Gravações raras de linguísta americano revivem passado do candomblé

Bolívar Torres disse tudo!

Na verdade, a maioria destes dados, com exceção dos áudios, aos quais o jornalista de O Globo, sei lá como, teve acesso, já que publicou um exemplo (ouça a voz de Meninha do Gantois no link original da matéria, logo aí em cima) estão disponíveis a qualquer um no site do Arquivo de Musica Tradicional da Indiana University, fonte principal para quem gosta do tema.

Só achei impróprio na luminosa matéria de Bolívar Torres o uso da expressão “repatriada“, ao se referir á vinda de cópias do material de Turner para cá. Dispensável ufanismo.

Ora, afinal os registros de Lourenzo Dow Turner, como qualquer etnologia, são universais, os dados neles contidos, pertencem a toda a humanidade e só nos são tão desconhecidos até hoje, por conta talvez de nossa conhecida incúria acadêmica e o mal disfarçado pouco caso diante de tudo que se refere á presença de negros africanos por aqui.

(Lembrem-se que, ao que sabe, os pares de Lourenzo Turner na cidade de Salvador de 1941, notadamente Arthur Ramos e Edison Carneiro, testemunhas quase oculares das preciosas coletas de Turner, praticamente (salvo engano), nenhum uso ou citação fizeram sobre a existência deste precioso material, como se sabe, descoberto por acaso muito recentemente por um pesquisador estrangeiro.

E vejam, o mesmo ocorreu com as coletas do norte americano Stanley Stein em Vassouras, RJ, em 1949, descobertas do mesmo modo, recentemente e que continham preciosos registros de Jongo, Folias de Reis, Samba Rural e outras manifestações típicas dos ex escravos do Vale do Paraíba do Sul, RJ, solenemente ignoradas pelas sumidades do ramo até então)

Surpreendente e promissor, portanto, para os (supostos) modos algo racistas de ser desse grande jornal, que tão brilhante matéria seja publicada. Bons sinais também, devo admitir, a ascensão de jornalistas negros (as) (como Flavia de Oliveira, por exemplo) nas pautas recentes de O Globo – algumas marcadas até por um não dissimulado ativismo.

Estas coisas muito animam o Titio.

Brumas vão se dissipando e o que elas iam encobrindo, meio por  incúria ignorante, meio por tolo desprezo racista, começa a se revelar. O certo é que descartei meus escritos preliminares, bem genéricos, os que postaria hoje, por achar o assunto já bem claramente expresso na matéria de Bolívar Torres. Coloco ou reitero aqui apenas dados suplementares.

Outros dados, também preciosos tenho ainda aqui comigo, por elaborar, num novo artigo, para o deleite dos interessados. Os dados: Lorenzo Dow Turner – a matéria de O Globo já ressalta – é um dos precursores dos estudos linguísticos sobre o negro africano na Diáspora (sempre bom ressaltar as coletas em partituras, realizadas por Aires da Mata Machado Filho em 1928, em Diamantina, MG). 

Revisando a resenha sobre o acervo de Lorenzo Turner, aliás encontrei a inusitada citação “angolan funeral songs”, que corresponde, quase exatamente aos vissungos recolhidos por Aires da Mata em 1928. A resenha não enumera Minas Gerais no trajeto das viagens, mas sugere, fortemente a relação de Lorenzo Turner com os vissungos em 1940/41 numa coleta até hoje desconhecida, anterior, portanto,  a de Luiz Heitor Correa de Azevedo, esta em 1944.

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Africanos de Serra Leoa, presumo, ouvem divertidos a gravação de suas vozes por Lorenzo Dow Turner.

O material das coletas de Lorenzo Turner ao qual a matéria se refere, ao que parece, no caso do acervo do AMT da Indiana University, acabou não sendo considerado prioritário no âmbito geral do trabalho do etnolinguísta, talvez por esta razão não conste ainda do acervo da Indiana University a sua digitalização.

Presumo que estas digitalizações da Bahia já existam no Melville J. Herskovits Library of African Studies na Northwestern University Library ou outro acervo ao qual Bolívar Torres teve acesso (li qualquer coisa sobre o etnomusicólogo Carlos Sandroni estar trabalhando nisso aí.)

Sobressaíram mais, contudo as coletas de Turner na Costa Leste norte americana e coletas feitas no Caribe e na África ocidental. Aguardamos ansiosos.

Na resenha do AMF/UI sobre os arquivos de Turner diz-se o seguinte:

“Lorenzo Dow Turner Gullah Collection Fonte: Arquivos de Música Tradicional da Universidade de Indiana, EUA.

Registros de campo realizados por Lorenzo Dow Turner Na Georgia e Carolina do Sul e Sea Islands em 1932 e 1933, versando sobre o dialeto crioulo afro americano conhecido como “Gullah”, falado nesta região dos EUA. Formato: 154 discos de aluminio.

Lorenzo Dow Turner (1890-1972) foi um linguísta afro americano, que ficou conhecido como o pai dos estudos sobre o “Gullah” após publicação em 1949 dos africanismos contidos no dialeto Gullah, a primeira grande descrição científica deste dialeto.

Esta publicação da ATM/IU, (resenhada por este texto) um grande recurso para pesquisadores, contém diversas transcrições de gravações de Turner.

O trabalho de Lorenzo Dow Turner ajudou a construir uma fundação para estudos sobre a diáspora africana e contestou a noção que prevalecia há muito tempo de que a cultura afro-americano era simplesmente uma derivação da cultura norte americana branca. Turner mostrou que haviam retenções culturais significativas de culturas africanas entre os afro-americanos. Seu teabalho de campo adicional no Caribe, Brasil e África Ocidental fundamentou ainda mais estas ideias.

Os Arquivo de Música Tradicional da Indiana University contêm várias coleções de gravações etnográficas e linguísticas feitas por Turner, que foram gravadas em 836 discos de alumínio e laca. As gravações feitas nos verões de 1932 e 1933 compõem a coleção de discos de Gullah, compostas por 154 discos de alumínio e documentos de textos com cantos de trabalho, histórias, spirituals e contos de escravidão, recolhidos com 50 falantes de Gullah.

A ATM/IU possui também gravações das pesquisas de campo de Turner no Brasil (Salvador, Bahia em 1941: nota do Titio), África Ocidental, Louisiana do Sul, e várias outras partes dos Estados Unidos.

A coleção Gullah digital foi preservada como parte do Projeto Sound Directions Project.”

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Tema para muitas mangas. Me aguardem. Titio volta já

Spírito Santo  Junho 2015

Eugenia é o cacete! Gente não se mistura

•13/08/2018 • Deixe um comentário

Gente, água e óleo, tudo a ver.

Somos diversos, este é o nosso destino. Só nos misturamos na lama

Todo hibridismo é estéril. Não existe, portanto mestiçagem, mulatismo, crioulidade possível entre seres humanos.

(É um modismo estranho esse papo de mestiçagem vir refluindo assim, justo agora, como esgoto entupido. É bom falarmos sobre isto)

O Alí Kamel, editor chefe do jornalão, pautou esse tema diversas vezes em O Globo no passado, mas depois que o STF aprovou a pertinência constitucional das cotas raciais, a conversa morreu. Trata-se de uma ressuscitação de uma pauta morta? É um filme de zoombies? Jornalismo amarelado de direita?

Numa dessas matérias do geneticista contratado pelo jornal, por exemplo, o percentual de DNA europeu do Neguinho da Beija Flor e da ginasta Daiane da Silva seria, supostamente, de….60% (!). De que isto nos importaria? Eles viraram brancos diante dessa controversa constatação?

Convenhamos que é um tanto óbvia a conclusão no que diz respeito à aparência das pessoas não definir uma origem “racial” (o que, simples assim, prova apenas que não existem raças). Só me chamou a atenção o fato de quase nunca se mencionar os percentuais do DNA africano das pessoas brancas, que fica sendo o sujeito oculto na história.

Mas fica combinado assim: ser preto – ou branco – não tem fundamento eugênico, você não é uma espécie melhor ou pior de ser humano só porque tem a aparência fenotípica assim ou assada. Existem pretos, existem brancos e todas as possibilidades fenotípicas que estas duas matrizes possam gerar porque, a base de nossa natureza, geral, planetária, é a…DIVERSIDADE.

Pelo amor de deus! Isto é o básico de nossa humanidade.

Desculpem tocar em questão tão óbvia, mas, aparentemente, estas pesquisas morta-vivas parecem sempre querer reduzir a proporção de DNA africano na população (inclusive aquela que é visivelmente negra) e isto é uma coisa muito estranha. Não parece ocasional. Tem algo de intencional este eugenismo mofado e fora de hora.

Muito doida a sugestão dessas pesquisas de que o Brasil, com esta multidão de milhões de negros (e pardos, como alguns querem que se diga, “não-brancos” diria eu) tenha tanto DNA europeu. Haveria assim alguma potencialidade maior, alguma qualidade superior na constituição do DNA dos europeus que o faria mais resiliente que o DNAs das demais fenotipias que, o”inferiores”, se diluiriam com o tempo?

Estranho geneticismo seletivo este. Onde, mãe de deus estão as provas dessas teorias tão escalafobéticas?

Neste sentido, gostaria de chamar a atenção dos mais distraídos: O fato é que, na série de matérias pautadas pelo Kamel em O Globo, a intenção clara era política: reduzir a importância do DNA africano na população brasileira, numa época em que as campanhas pela adoção de cotas raciais bombavam.

(Ali Kamel – lembram? – liderava um grupo radicalmente contrário às cotas, grupo este por fim derrotado no STF. Alguns integrantes desse grupo soturno chegou a montar um tal de “Movimento pardo-Mestiço”, cuja guru principal, a mais proeminente era a antropóloga Ivonne Maggie.

Ninguém falou nisso aqui, mas eu espero que todos já estejam convencidos de que este tipo de pesquisa e seus inusitados resultados nada têm a ver com a questão do Racismo (a tentativa de alguns grupos de negar a sua existência), Racismo este que não passa de uma construção social, implantada no Brasil como “fundamento”, expediente para excluir pessoas em espaços sociais subalternos. A antidemocracia colorida.

Aliás, sempre me espanta um pouco este tipo de busca por ancestralidades biológicas (ou pedigrees) improváveis, ser uma tendência, tão fortemente voltada para o eugenismo (a genética como “prova”), quando se sabe que o DNA seria apenas um minúsculo indício de uma remota origem de alguém, sem a menor chance de identificar ancestrais reais, antepassados indivíduos.

Sugiro a todos que dêem uma estudada básica em pesquisas históricas que dão conta do alto percentual de DNA africano na população europeia – principalmente na nobreza, em todas as famílias reais. Fiz uma rápida pesquisa sobre isso e fiquei com o meu cabelo duro em pé. As descobertas embolam, desmoralizam qualquer conclusão eugenista baseadas nesses exames de DNAs remotos.

(Pobre Dr. Frankenstein)

Vamos pensando melhor no tema, é o conselho. Gastar dinheiro só pra saber se se é mais ou menos europeu, ou africano ou indígena é uma decisão um tanto inútil. Tomaria tudo de cerveja, entre outros prazeres mais…culturais e nesse transe etílico descobriria toda a verdade:

Somos todos negões!

Estou mesmo curiosíssimo é com a importância que o tema do percentual de DNA “racial” (a mestiçagem como sujeito omisso) esteja tão em voga no Brasil. Todo mundo querendo saber se é ou não é negão…até os que evidentemente negões já são.

O que está havendo, pessoal? Este é um tema do século 19!

Portanto, não se assustem, racistas arcaicos. Os negros, os meio negros ou quase negros, os que se parecem com negros, enfim, não estão urdindo planos de vingança. Estão apenas descobrindo que foram enganados.

Relaxem, e aprendam a gozar o prazer seminal de serem apenas gente normal se embolando, rolando agarrada numa lama medicinal dessas, como a de Guarapari.

Spirito Santo
Agosto 2018

Tabato, a Tabanca dos Djidius – Voz da Guiné

•19/07/2018 • 1 Comentário

Comentário sobre Gilberto Freire na lata

•18/07/2018 • Deixe um comentário

 

 


Denegrindo Gilberto Freyre

Como vivo dizendo por aí (bem sei que para os mais doutos nada disso é novidade) Freyre foi CONTRATADO pelo estado fascista Português.

Visitou todas as colônias portuguesas e formulou, como ideólogo as leis de gestão e controle das populações, expediente conhecido, oficialmente em Angola como “Lei do Indigenato”, que estabelecia status sociais denominados “indígenas” (o povo natural, de cultura tradicional africana) e “assimilados” (os aculturados, formados nos liceus, doutrinados nos modos de ser dos europeus)

(Importante ressaltar a similaridade entre o sistema proposto por Freire e a legislação sul africana conhecida como Apartheid, ou mesmo das categorias usadas no colonialismo pleno dos séculos anterores ao XX (“boçais”, “Ladinos” e Crioulos”.)

Não é novo esse pensamento conservador que eu chamo de neo racista. As ideias eugenistas, muito fortes nos anos 1930 (notadamente no Brasil), desmoronaram na década de 1940 com a queda do nazismo e foram, evidentemente recicladas.

O pensamento de Freyre e seu luso tropicalismo, é a ponta dessa “nova” ideologia que marca, profundamente as Ciências Sociais brasileiras até hoje.
Tem muito material analítico e crítico dessa ideologia em Portugal (aoacontrário daqui)

Aos “indígenas”, segundo a lei inspirada em Freyre, cabia o serviço do “Contrato”, regime de trabalhos forçados idêntico à escravidão. Os “assimilados” formavam uma espécie de classe média, uma aristocracia, aliada ao neo colonialismo deste estado fascista salazarista.

Esta intensa experiência de Freyre como ideólogo do fascismo português, que ocorre entre o fim da década de 1930 e o início de 1940 (omitida sutilmente em nossa bibliografia) é trazida para o Brasil é inspira a “Democracia Racial” brasileira, conceito a ele atribuído, mas na verdade cunhsdo por seguidores (Freyre, arguto grafava “Democracia Social”)

Eu Titio, um Velho Mestre lendo a ‘Lei Griô’

•12/07/2018 • Deixe um comentário

https://wp.me/p13kWg-Q1

“A Patrulha”. Meu sangue escrito na neve da segunda guerra mundial

•19/06/2018 • Deixe um comentário

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Quem tem esta glória familiar que à mantenha viva, para sempre.

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Imaginem! Meu pai herói, teve um combate do qual fez parte no norte da Itália em 1945 registrado num jornal.

Fico aqui, chapado de emoção imaginando o quanto de orgulho meus irmãos e filhos sentirão de seu pai e avô, agora herói mesmo, sacramentado e juramentado.

A notícia eletrizante saiu no jornal (ou periódico) “O Cruzeiro do Sul” do dia 1° de março de 1945, pag 4. A crônica, assinada por aquele que é considerado o maior correspondente de guerra brasileiro, Joel Silveira se chamava “A Patrulha”. Quem garimpa e encontra é, de novo a dileta amiga Bete Scg que me pergunta:

“_.. Vê se pode ser ele”

Sim! Não só pode ser ele.p, como É ELE! Que coisa impressionante!

(Clique na imagem para ler a matéria)

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Seu nome era muito incomum para ser um homônimo. Seria muita coincidência haver um homônimo no mesmo exército, na mesma guerra. Quando convocado estava morando aqui no Rio de Janeiro há muito tempo. Fugiu de casa, em Diamantina, MG com cerca de 14 anos, nunca soubemos, exatamente porque e, sabe-se lá como, fixou-se no Rio de Janeiro desde então.

José Cyrilo chegou no Rio de Janeiro (na época Distrito Federal) sozinho passando, segundo contou para minha mãe, por São Paulo ali por volta de 1932. No ensejo de sua convocação para a guerra na Europa, já estava aqui, portanto por cerca de 13 anos e deve ter sido identificado no quartel, por alguma razão, como natural daqui do então Distrito Federal.

O “Ceará” ao qual a crônica se refere, pode ser o amigo mais chegado dele, morto numa barraca de campanha num inesperado bombardeio alemão. Ele contou este incidente para minha mãe Geny, se referindo a um nordestino (tinha na memória que minha mãe falara num “Paraíba“, mas pode muito bem ter sido um “Ceará”).

Ele, Cyrilo, saiu da barraca com uma caneca de café recém feito, justo na hora em que o morteiro caiu. Por segundos não morreu neste incidente e eu, seu filho não teria existido para contar sua formidável história.

Talvez tenha sido um dos muitos gaúchos da bem sucedida patrulha, aquele amigo presenteou Cyrilo com uma bela cuia de chimarrão, com borda e bomba de prata, que guardo carinhosamente comigo até hoje

(…Eu sei. Preciso limpar a prata, mas é que gosto do óxido do tempo)

Num doc. de 1967, já publicado aqui, minha mãe solicita ao exército a correção do nome de José Cyrilo no certificado de sua medalha de campanha, grafado sempre equivocadamente sem o “y”.

Acordei há pouco e esta foi a primeira notícia do dia. Estou aqui emocionado, tomando o meu cafézinho matinal. Um bomba boa acabou de explodir aqui no meu cafofo.

José Cyrilo do Espírito Santo, meu pai herói

http://www.defesanet.com.br/ecos/noticia/2786/15-de-setembro-de-1944—–A-cobra-esta-Fumando—-Brasileiros-entram-em-combate-na-Italia/

(O jornal “Cruzeiro do Sul” onde a crônica foi publicada tem como fundador e principal colunista, a interessante figura de Félix de Araújo, paraibano, pracinha voluntário (veja a foto) correspondente de guerra, poeta que se tornou comunista e político muito bem sucedido, assassinado em 1953 com um tiro pelas costas, desferido por um desafeto político.

Existe uma controvérsia sobre a fundação do jornal, atribuída, oficialmente à FEB, segundo o link que obtive, em matéria onde o nome de Félix de Araújo, sequer é citado.

Agradeço comovido a este outro herói de guerra que foi Félix de Araújo, ou quem quer que seja o autor da crônica, por ter registrado para a eternidade o heroísmo de meu pai.

Aguenta coração!

Spírito Santo

Junho 2015

A violenta – e justa – alma das ruas

•09/03/2018 • Deixe um comentário

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A intervenção militar agrava as sequelas da fratura social persistente.

“…A polícia arrebanhava a torto e a direito pessoas que encontrava na rua. Recolhia-as às delegacias, depois juntavam na Polícia Central. Aí, violentamente, humilhantemente, arrebatava-lhes os cós das calças e as empurrava num grande pátio. Juntadas que fossem algumas dezenas, remetia-as à Ilha das Cobras, onde eram surradas desapiedadamente. […]”

                       (Lima Barreto em 1904, sobre a repressão policial após a Revolta da Vacina)

Qualquer ginasiano sabe que a raiz dos problemas de segurança pública no Rio de Janeiro, reside na falta aguda e histórica de políticas públicas de natureza social. Sim, é claro que as autoridades civis e militares, os doutores em Ciências Sociais, os especialistas em segurança pública, os habitantes das áreas nobres das cidades do Brasil, também sabem disso.

A grave crise na segurança pública no Brasil, é pois, fruto de uma clara opção do Estado brasileiro – com o beneplácito dos privilegiados com a situação – pela exclusão social da maioria da população, um modelo de gestão resiliente, porém falido, em voga desde os tempos da escravidão.

Óbvio ululante, portanto, que o modelo de gestão social é o principal vetor da violência urbana. Em última análise, por esta razão, diversos tipos de atividades laborais – comerciais no caso – ilegais e clandestinas se tornaram as únicas alternativas de sobrevivência física desta maioria da população, escorraçada do processo.

Chama-se instinto de sobrevivência esta reação atávica, natural, irresistível a qualquer ser vivo na natureza. Se o ambiente oferece dificuldades, em algum grau intransponíveis de acesso à meios de sobrevivência, o ser vivo busca meios alternativos, geralmente predatórios, não raro violentos, utilizados contra os elementos do meio, responsáveis por suas privações.

Legítima defesa instintiva, animal, poderíamos considerar.

Entre essas atividades de auto defesa social, no Brasil, a principal, como prática generalizada por ser a mais lucrativa, é o tráfico de drogas e suas ramificações.

As estratégias de distribuição do produto (droga ilícita), obedece a uma geopolítica determinada pela proximidade e a facilidade de acesso ao consumidor (cujo perfil majoritário é o cidadão branco, de classe média), ao produto ou aos bairros nobres, onde residem esses consumidores.

A logística da distribuição de drogas ilícitas, determinada como ideal no Brasil, se caracteriza pela acumulação (e parte do processamento) do produto em paióis localizados no interior dos guetos e “comunidades” criados pelo modelo de gestão social, como dito acima, de responsabilidade do Estado.

(A questão das armas, seu uso e sua comercialização, é uma redundância. É redundante também o fato dessas armas atualmente serem tão pesadas, modelos propriamente de guerra, uma consequência óbvia, ligada, diretamente à logística do negócio e à leniência das autoridades e dos consumidores.)

Convêm ressaltar, portanto, que as armas se tornaram necessárias, por questões táticas, para defender os estoques do produto, valiosíssimo, dos ataques armados dos concorrentes ou da repressão pontual dos órgãos oficiais de segurança, atualmente tão corrompidos que se transformaram também em estruturas cúmplices do negócio.

As armas dos traficantes não estão nos morros e “comunidades” para atacar a população. Estão, como dissemos acima, para proteger os estoques do produto. O mesmo não se pode dizer das armas das polícias e forças de intervenção que, sob o pretexto de caçar traficantes, atiram a esmo, assumindo o risco de matar inocentes, o que ocorre com trágica frequência.

Na prática, pela lógica militar dessas “forças da ordem”, portanto, não existe população civil nesses ambientes de gente excluída. Todos que habitam comunidades “carentes”, são bandidos em potencial, logo, destituídos de todos os direitos civis, mesmo os mais elementares (como o direito à vida, por exemplo).

Logo, há uma relação estreita, direta – embora ambígua – entre o Estado e as consequências sociais resultantes de sua opção pela exclusão social da maioria. Quanto mais repressão às quadrilhas de traficantes, cada vez mais bem armadas e treinadas elas ficarão.

É fácil perceber assim que, entre outras mazelas deliberadas, as táticas de exclusão social por meio da gentrificação aleatória, por exemplo, é que geraram guetos/”comunidades”(morros e favelas) no entorno dos bairros nobres, guetos esses, cuja população, por conta desse seu instinto de sobrevivência acima descrito, mantêm uma relação de dependência parasitária com a população branca, de classe média.

No âmbito desta relação doentia, se precisou inventar uma rede semi clandestina de serviços precários, bem semelhantes ao dos escravos domésticos do passado (cozinheiras, babás, passadeiras, pedreiros, faxineiros, carregadores, bombeiros hidráulicos, etc), uma espécie de escravidão reciclada, cuja resiliência parece baseada num vício entranhado na alma da população incluída no Brasil: Uma queda para o exercício do escravismo cínico, dissimulado.

Uma indiferença oportunista revoltante.

No bojo dessas relações patológicas, obviamente surgiram atividades ligadas aos modos de ser e hábitos consumistas dessa aristocracia colonial tardia, atividades ilícitas as mais degradantes como a prostituição (inclusive aquela ligada à pedofilia), os assaltos, o roubo, o furto, até as mais “honrosas” e “machas” como o tráfico de drogas, sempre alimentadas pelos vícios de ostentação dessa população branca e “bem nascida”, caracterizada como adepta de um comportamento moral e ético, socialmente muito questionável, se não irresponsável.

Reflitamos: Na prática, polícias civis e militares, traficantes armados e agora o Exército, estão envolvidos numa guerra sem sentido que, no fundo, serve apenas para dar uma ilusão de segurança à classe média, mantendo o negócio da droga intocado, a um custo em vidas humanas inocentes, imprevisível, com níveis estatísticos de guerras no Oriente Médio, por exemplo. Um paradoxo total e absoluto. Uma loucura.

Com certa razão, a parte excluída da sociedade (gente negra ou não branca) grande maioria da população, nutre um ódio surdo, enrustido, pela classe média branca da qual, para sobreviver, depende e vice versa. Não por acaso a parte mais aparente desse ódio recíproco, é o racismo, por isto mesmo, dito estrutural.

Desnecessário se faria enfatizar que esta relação maniqueísta contêm níveis de esquizofrenia social profundos, os quais, como uma doença ácida, autoimune, se transformou no principal vetor da eclosão de surtos frequentes de violência. Os responsáveis, contudo, parecem ignorar, rejeitar, veementemente, conceitos óbvios como Responsabilidade, por exemplo.

Por outro lado, é importante que se perceba também que existem inúmeras outras atividades laborais semi clandestinas, de menor virulência que o tráfico de drogas, utilizadas por essa enorme população excluída. Nas favelas ou “comunidades”, por exemplo (mais de mil localizadas só no perímetro urbano da cidade do Rio), o conjunto dessas atividades está organizado num complexo sistema econômico, paralelo ao da sociedade “normal” – vista aqui como uma verdadeira “Matrix”, uma voraz “Urbe do Mal“. 

A repressão policial ou militar, ao tentar estancar, pontualmente o concurso da violência explícita no mercado das drogas (e não o tráfico em si) mexe, perigosamente  com todo esse sistema econômico financeiro paralelo, espécie de viga mestre de toda a estrutura social.

Ė como mexer numa “casa de marimbondos“, a ultra sensível rede de sobrevivência dessas “comunidades”, já que o dinheiro que faz girar a economia comunitária (o chamado micro empreendedorismo local, pequenas lojas, comércio ligeiro, rede de vendedores ambulantes, etc.) é, majoritariamente extraído do negócio da droga, praticamente a única fonte de capital disponível.

É bastante provável que a desestruturação dessa rede de economia paralela, que ocupa, fornece a subsistência de parte importantíssima da população, tende a produzir reações violentas dos prejudicados, que já vivem no limite, à beira do precipício.

Desobediência Civil!

Os sinais dessas reações, em surtos, já começam a ser sentidos em explosões de violência, arrastões, saques e depredações de transportes públicos – notadamente o sistema BRT – meio vital de distribuição e comercialização de produtos piratas diversos, operado, geralmente por jovens que não optaram (ainda) pelo mercado de trabalho oferecido pelo tráfico de drogas e suas ramificações.

Esses jovens podem se organizar – na verdade já parecem estar organizados – em bandos agressivos de desafiadores da ordem pública, depredadores, saqueadores, odiadores do Estado o qual, com seu avanço rumo a uma espécie de ditadura militar seletiva, sufoca, como vimos, os limitados meios de vida dessas pessoas, atiçando sua justa ira.

Enfim, ao que se pode deduzir, as decisões erráticas das autoridades, adotando medidas e políticas tão equivocadas (deliberadamente elitoreiras, convenhamos) na verdade autofágicas, voltadas, como modelo nacional, para a repressão violenta de parte significativa de nossa própria população, a rigor já privada de todos os direitos, é uma fórmula perfeita para o caos social e a eclosão de formas inusitadas de intolerância, fermentadoras de governos autoritários, fascistas em médio prazo.

Ruas desalmadas, sem joões do Rio que as decifrem, jovens zumbis promovendo emboscadas e arrastões nas esquinas, antes de serem abatidos a tiros. Quem pariu Mateus? É a pergunta que ninguém quer responder. Um filme de terror ao vivo, previsível demais, é a dedução mais à vista.

Assim, o futuro do Brasil – eleitoral inclusive – torna-se então, imprevisível.

Spirito Santo

Março 2018


 
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