A “Middle passage” do Brasil e o Kalunga de Zumbi que não deu em O Globo

•19/11/2016 • 1 Comentário

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 Já pensaram, o Titio em O Globo em pleno dia de Zumbi?

Quase que colou…O texto do Titio a seguir foi encomendado em 2012 – pasmem! – por um importante órgão de defesa dos direitos do negro aqui do Rio. A pessoa muito gente boa que intermediava o convite me dizia:

“…Escrevo para você porque uma de minhas ideias …é um artigo escrito por alguém que entenda de cultura afro-brasileira e, portanto, seja um nome respeitado, a ponto de me permitir sugerir o texto à seção de Opinião do O Globo.

…O que me diz? … Aguardo ansiosamente o seu retorno.”

Viram só? O ‘pasmem‘ é pelo o inusitado que foi um crítico marrento e tão mordaz destes órgãos todos, muitos deles ‘chapa branca’ como vivo espalhando por aí, ser convidado para escrever um texto assim meio que ‘oficial‘. O mais inusitado de tudo nem era isto. Imaginem: O texto seria – viram só? – para propor à pauta do 20 de Novembro do jornal O Globo!

Bem, meu ‘bicho carpinteiro’ aparecido como ele só logo gritou, exultante:

“_ Êba!”

É, mas fui logo avisando a pessoa que intermediava o convite que talvez eu não fosse o mais talhado para o serviço, pois não sabia escrever textos ‘chapa branca‘ de jeito nenhum e que podia sim escrever, mas só se fosse com a ampla liberdade de opinião que me caracteriza. E não é que a pessoa topou? Não tinha mesmo como fugir.

Haviam uns tópicos chave, a citação obrigatória de certos pontos etc.. Nada que não fosse fácil de fazer, usando sutis picardias e entrelinhas (e esta era a parte mais divertida da missão).

É que desafio melhor não há: Escrever um texto para um jornalão pautado as vezes por um racismo renitente, ao mesmo tempo sem ser ‘chapa branca‘, mas criticando pontos chave que acho por bem criticar sempre e, ainda assim sem ser furibundo e abusado demais, como as vezes sou aqui no facebook ou aqui no quintal do meu blog…e isto tudo com apenas 3000 caracteres.

Uma experiência jornalística imperdível, digamos assim, fundamental para um escrevinhador contumaz feito eu.

Bem, lógico que não rolou. Alguém no percurso não mordeu a isca. Sei lá porque, impossível saber. Mas nem assim, criança frustrada em sua brincadeirinha eu fiquei. É que agora – ô sorte! – existe esta banca enorme de leitores aqui da Internet. Os jornalões com suas pautas travadas estão até ficando cada dia mais para trás, pegando o bonde andando da comunicação veloz da rede.

Vou liberando então para todo mundo – azar o deles – o textinho que fiz para marcar a data do dia nacional da consciência negra, o nosso Dia de Zumbi” e que, mesmo assim, arteiro como sou, não consegui ‘infiltrar‘ na pauta de O Globo de Ali Kamel.

Ah, se eu te pego!

Eis o texto que quase foi publicado:

“20 de Novembro: A Passagem e a sublimação do ‘kalunga’

Num 20/11 no século 19, o momento crucial da travessia era aquele onde a metade do caminho entre a África e a América era transposta. Ali a inexorabilidade do destino podia ser percebida no ar de um Atlântico fatal para a história das pessoas amontoadas nos porões do navio.

Ali eram distribuídos aos reféns doses calmantes de tabaco em cachimbos especialmente fabricados para o fim ambíguo de acalmar o pânico das almas e, ao mesmo tempo amansar na carga qualquer sanha que a fizesse se rebelar contra o mal sabido destino.

A tripulação chamava este portal de ‘Passagem do Meio’, uma expressão utilizada pelos traficantes de escravos, como demarcação de uma fase da viagem em que a carga podia ser considerada salva da apreensão pelos ingleses, que à época interceptavam os tumbeiros por ali. Os africanos, a maioria embarcada à força nos portos de Angola, julgavam esta passagem o momento crucial da travessia existencial de um portal entre o Mundo dos Vivos e o dos Mortos: A trágica travessia do “Kalunga”.

Foi assim, evocando estas mesmas memórias, que se construiu na cidade do Rio de Janeiro um monumento à Zumbi de Palmares, herói seminal decapitado no século 17. É providencial que dentre os eventos da agenda programada para 2012, um dos pontos altos seja a lavagem ritual do monumento. É que o ato é sempre antecedido pela ação noturna de pichadores que grafam suásticas na cabeça do rei Oni, de Ifé, Nigéria, escolhida para representar nosso angolano Zumbi.

Mas podem ser positivas também estas memórias.

Descobriu-se agora mesmo por exemplo, quase ao rés do chão do Porto do Valongo, vestígios de africanos que transpuseram a “Passagem do meio” e aqui desembarcaram. É certo que o que existe de mais arqueológico por ali, além de cacos dos cachimbos baforados dos reféns escravos, são esqueletos desmembrados de “pretos novos”, os recém-chegados que morriam e eram por ali mesmo lançados em imensos cemitérios pantanosos, um dos quais, clandestino, foi mandado aterrar em 1815 por ordem documentada de um alto funcionário da Corte de D. João VI.

É, pois promissora sim – se superados os interesses políticos e comerciais mais imediatistas ligados às obras – as chances abertas para se ter aqui no Rio de Janeiro avanços substanciais nesta questão.

Até leis já temos animando esta trajetória esperançosa por este mar do retorno a dentro. Entre outras leis, temos a 12.711, que trata das cotas sociais e ‘raciais’ e a 10.639 que versa sobre o ensino da história do negro e da África, ambas no âmbito urgente da educação pública.

De todos os significados deste ‘Dia de Zumbi‘ o mais digno de todos, portanto, talvez seja o ensejo de quebrar o paradigma do racismo no Brasil. A viagem de nós todos para a condição de amantes sinceros e fiéis da liberdade e da democracia enfim.

Num 20 de Novembro destes – esperamos que em breve futuro – à condição de seres humanos e solidários, havemos de voltar.

Spirito Santo

Músico. Artista visitante da UERJ

Congado dos Negros na Serra Antiga

•24/07/2016 • Deixe um comentário

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Congada fotografada por Augusto Riedel em Morro Velho, Minas Gerais em 1868 com marimbeiro ao centro.

Certa vez, aí pelo fim da década de 1970, já pesquisando no interior de Minas Gerais, fomos convidados eu e amigos do Grupo Vissungo, pelo mestre congadeiro José Caixeta (da cidade de Machado, MG ) para desfilar no terno dele. Decidi então desfilar na ala dos músicos, claro, tocando uma marimba que eu mesmo havia fabricado. Desfilei lá assim por uns cinco anos seguidos.

Me divertia muito quando identificava pelo olhar estupefato, um antropólogo pesquisador, olhando aquela fantástica marimba africana ali, inusitada. Ficava rindo escondido, moleque, imaginando a tese que o pobre do antropólogo desenvolveria para explicar aquela marimba ali, em pleno século 21.

Já sabia, claro, que xilofones africanos haviam sobrevivido no Brasil até bem perto da Abolição da escravatura. As provas, contudo, eu não havia encontrado nem mesmo em gravuras idealizadas de viajantes como Rugendas. Já havia encontrado em um ou outro livro de viajantes, sanzas (kalimbas) e muitos cordofones (harpas, alaúdes), a maioria, provavelmente angolanos, mas nunca havia visto uma foto sequer deles no Brasil e, de marimbas então, nem mesmo gravuras.

Achei esta imagem logo depois que a primeira edição do livro saiu, em 2011. Ela vai sair na segunda edição já na boca do forno, aí sim, única, maravilhosa marimba angolana (quiçá moçambicana) autêntica, vivinha ali no século 19! (Mostro aqui apenas um corte dela, com o marimbeiro destacado em foco, ao centro da imagem.)

A legenda da foto inteira, que publicarei no novo livro (já a publiquei aqui, tempos atrás, no facebook) dirá que a foto é de 1868 e é de autoria de Augusto Riedel, que viajou pela região de Morro Velho, MG (onde havia uma grande mina de diamantes) a serviço do imperador, grande entusiasta da arte da fotografia.

(A foto que Rudel fez da mina de diamantes, aliás, pode ser vista também em detalhes yyyyno link deste post que publiquei bem recentemente)

O que a legenda oficial diz é um pouco vago. O grupo fotografado é na verdade – sei agora – uma congada clássica da época em em Minas Gerais. A dúvida que persiste em mim sobre a sua origem africana ser angolana ou moçambicana vem do fato de ter encontrado há pouco tempo atrás uma grávida do praticamente desconhecido artista francês jean-rennè Moreaux um par de autênticas marimbas do inhanambane, miçambique, em plena Cirte do rio nesta mesma época (meados de 1860)

Verdadeiro teatro popular, as congadas desta região eram, ou representações faladas, cantadas e dançadas das estrepolias de “Carlos Magno e os 12 pares de França” contra os mouros, enredo dramático que narrava incidentes ocorridos durante as Cruzadas (enredo disseminado no Brasil em livretos de cordel, como instrumento de doutrinação), ou estrepolias semelhantes envolvendo um conflito entre dois reinos africanos (um sendo o Reino do Kongo, no caso) interpretados no pelo pessoal da congada com elementos mistos, extraídos de práticas culturais e de crônicas da história oral do reino do Kongo africano, o real, guardadas na memória popular.

Percebe-se, claramente na foto, os dois grupos oponentes, organizados, cada um, próximo a um comandante, um mouro, outro cristão (ou de um reino africano e de outro), ambos com suas espadas. Cultura negra do Brasil real. Esta que a antropologia convencional se nega, relutantemente reconhecer.

——————

A legenda oficial:

“Em 1868, o fotógrafo Augusto Riedel acompanhou Luis Augusto, Duque de Saxe, genro do Imperador Pedro II, em uma expedição ao interior do Brasil. Durante uma visita à cidade de Morro Velho, em Minas Gerais, o grupo assistiu a apresentação de uma festa afro-brasileira que misturava tradições religiosas católicas e africanas. A celebração apresentava a coroação do “Rei do Congo” e também rendia homenagem à Nossa Senhora do Rosário.”
(A Coleção Thereza Christina Maria é composta por 21.742 fotografias, reunidas pelo Imperador Pedro II ao longo de sua vida e por ele doadas à Biblioteca Nacional do Brasil. A coleção inclui uma grande variedade de assuntos. Documenta as conquistas do Brasil e do povo brasileiro no século XIX, e também inclui muitas fotografias da Europa, África e da América do Norte.)

Certa vez, aí pelo fim da década de 1970, já pesquisando no interior de Minas Gerais, fomos convidados eu e amigos do Grupo Vissungo, pelo mestre congadeiro José Caixeta (da cidade de Machado, MG ) para desfilar no terno dele. Decidi então desfilar na ala dos músicos, claro, tocando uma marimba que eu mesmo havia fabricado.
Desfilei lá assim por uns cinco anos seguidos.

Me divertia muito quando identificava pelo olhar estupefato, um antropólogo pesquisador, olhando aquela fantástica marimba africana ali, inusitada. Ficava rindo escondido, moleque, imaginando a tese que o pobre do antropólogo desenvolveria para explicar aquela marimba ali, em pleno século 21.

Já sabia, claro, que xilofones africanos havia sobrevivido no Brasil até bem perto da Abolição da escravatura. As provas, contudo, eu não havia encontrado nem mesmo em gravuras idealizadas de viajantes como Rugendas. Já havia encontrado em um ou outro livro de viajantes, sanzas (kalimbas) e muitos cordofones (harpas, alaúdes), a maioria, provavelmente angolanos, mas nunca havia visto uma foto sequer deles no Brasil e, de marimbas então, nem mesmo gravuras.

Achei esta imagem logo depois que a primeira edição do livro saiu, em 2011. Ela vai sair na segunda edição já na boca do forno, aí sim, única, maravilhosa marimba angolana (quiçá moçambicana) autêntica, vivinha ali no século 19! (Mostro aqui apenas um corte dela, com o marimbeiro destacado em foco, ao centro da imagem.)

A legenda da foto inteira, que publicarei no novo livro (já a publiquei aqui, tempos atrás, no facebook) dirá que a foto é de 1868 e é de autoria de Augusto Riedel, que viajou pela região de Morro Velho, MG (onde havia uma grande mina de diamantes) a serviço do imperador, grande entusiasta da arte da fotografia.

(A foto que Riedel fez da mina de diamantes, aliás, pode ser vista também em detalhes no link de um pist que publiquei bem recentemente)

O que a legenda oficial diz é um pouco vago. O grupo fotografado é na verdade – sei agora – uma congada clássica da época em em Minas Gerais. A dúvida que persiste em mim sobre a sua origem africana ser angolana ou moçambicana vem do fato de ter encontrado há pouco tempo atrás uma grávida do praticamente desconhecido artista francês jean-rennè Moreaux um par de autênticas marimbas do inhanambane, miçambique, em plena Cirte do rio nesta mesma época (meados de 1860)

Verdadeiro teatro popular, as congadas desta região eram, ou representações faladas, cantadas e dançadas das estrepolias de “Carlos Magno e os 12 pares de França” contra os mouros, enredo dramático que narrava incidentes ocorridos durante as Cruzadas (enredo disseminado no Brasil em livretos de cordel, como instrumento de doutrinação), ou estrepolias semelhantes envolvendo um conflito entre dois reinos africanos (um sendo o Reino do Kongo, no caso) interpretados no pelo pessoal da congada com elementos mistos, extraídos de práticas culturais e de crônicas da história oral do reino do Kongo africano, o real, guardadas na memória popular.

Percebe-se, claramente na foto, os dois grupos oponentes, organizados, cada um, próximo a um comandante, um mouro, outro cristão (ou de um reino africano e de outro), ambos com suas espadas. Cultura negra do Brasil real. Esta que a antropologia convencional se nega, relutantemente reconhecer.

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A legenda oficial:

“Em 1868, o fotógrafo Augusto Riedel acompanhou Luis Augusto, Duque de Saxe, genro do Imperador Pedro II, em uma expedição ao interior do Brasil. Durante uma visita à cidade de Morro Velho, em Minas Gerais, o grupo assistiu a apresentação de uma festa afro-brasileira que misturava tradições religiosas católicas e africanas. A celebração apresentava a coroação do “Rei do Congo” e também rendia homenagem à Nossa Senhora do Rosário.”
(A Coleção Thereza Christina Maria é composta por 21.742 fotografias, reunidas pelo Imperador Pedro II ao longo de sua vida e por ele doadas à Biblioteca Nacional do Brasil. A coleção inclui uma grande variedade de assuntos. Documenta as conquistas do Brasil e do povo brasileiro no século XIX, e também inclui muitas fotografias da Europa, África e da América do Norte.)

O Crioulo e a língua do Crioulo. Lorenzo Dow Turner no Brasil.

•31/05/2015 • 4 Comentários

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Lorenzo Dow Turner, brilhante etnolinguísta é, tardiamente ‘descoberto” pela academia (e pela imprensa) do Brasil.

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 Parece coisa de crioulo doido, só que não.

Passei boa parte do dia e a noite desta última sexta feira devorando informações sobre Lorenzo Dow Turner, etnolinguísta norte americano, praticamente desconhecido no Brasil até recentemente, descoberto entre outros pelo acadêmico francês Xavier Vatin, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Li – lemos – uma matéria esclarecedora sobre isto dia desses, cuja fonte, o instituto de linguística IPOL, foi reproduzida por alguns blogs, entre os quais o Geledés, especializado em ativismo e cultura negra.

Já havia tocado de leve na figura de Lorenzo Dow Turner , citando-o num post como um dos personagens do boom de estudos sobre os africanos no Brasil ocorrido em Salvador, Bahia no início da década de 1940, por injunção do Congresso Afro Brasileiro de 1937, coordenado por Edison Carneiro, entre outros. Leia o post do Titio neste link: “A Guerra, Academia e a impureza a Nagô“.

Me instiga nesta busca por dados mais completos sobre Dow Turner as relações, eventualmente existentes entre a invisibilidade brasileira de seu trabalho e o mesmo fenômeno ocorrido com o trabalho do etnólogo baiano Antônio Joaquim de Souza Carneiro (para os que desconhecem, pai de Edison Carneiro), vítima de uma intensa campanha de difamação e desqualificação intelectual, por parte de ilustres acadêmicos da mesma época, o incensado Arthur Ramos à frente.

O fato de Turner e Souza Carneiro serem ambos negros, intelectuais brilhantes e, do mesmo modo, terem tido suas pesquisas desprezadas e/ou ignoradas pela empáfia da academia tupiniquim da época, sempre me intrigou, intriga e tem me instigado a escrever vários inflamados artigos e posts (outros por certo se seguirão a este).

Recolhi neste intento, ontem, empolgado com a biografia de Lorenzo Dow Turner, que fui descobrindo pouco a pouco, a medida em que a noite avançava, muito material – muito mesmo – sobre as pesquisas e fontes de Lorenzo e já havia até começado um animado artigo sobre o etnolinguísta, quando, logo ao acordar, me deparo com esta excelente matéria no caderno Verso e Prosa de O Globo: “Gravações raras de linguísta americano revivem passado do candomblé

Bolívar Torres disse tudo!

Na verdade, a maioria destes dados, com exceção dos áudios, aos quais o jornalista de O Globo, sei lá como, teve acesso, já que publicou um exemplo (ouça a voz de Meninha do Gantois no link original da matéria, logo aí em cima) estão disponíveis a qualquer um no site do Arquivo de Musica Tradicional da Indiana University, fonte principal para quem gosta do tema.

Só achei impróprio na luminosa matéria de Bolívar Torres o uso da expressão “repatriada“, ao se referir á vinda de cópias do material de Turner para cá. Dispensável ufanismo.

Ora, afinal os registros de Lourenzo Dow Turner, como qualquer etnologia, são universais, os dados neles contidos, pertencem a toda a humanidade e só nos são tão desconhecidos até hoje, por conta talvez de nossa conhecida incúria acadêmica e o mal disfarçado pouco caso diante de tudo que se refere á presença de negros africanos por aqui.

(Lembrem-se que, ao que sabe, os pares de Lourenzo Turner na cidade de Salvador de 1941, notadamente Arthur Ramos e Edison Carneiro, testemunhas quase oculares das preciosas coletas de Turner, praticamente (salvo engano), nenhum uso ou citação fizeram sobre a existência deste precioso material, como se sabe, descoberto por acaso muito recentemente por um pesquisador estrangeiro.

E vejam, o mesmo ocorreu com as coletas do norte americano Stanley Stein em Vassouras, RJ, em 1949, descobertas do mesmo modo, recentemente e que continham preciosos registros de Jongo, Folias de Reis, Samba Rural e outras manifestações típicas dos ex escravos do Vale do Paraíba do Sul, RJ, solenemente ignoradas pelas sumidades do ramo até então)

Surpreendente e promissor, portanto, para os (supostos) modos algo racistas de ser desse grande jornal, que tão brilhante matéria seja publicada. Bons sinais também, devo admitir, a ascensão de jornalistas negros (as) (como Flavia de Oliveira, por exemplo) nas pautas recentes de O Globo – algumas marcadas até por um não dissimulado ativismo.

Estas coisas muito animam o Titio.

Brumas vão se dissipando e o que elas iam encobrindo, meio por  incúria ignorante, meio por tolo desprezo racista, começa a se revelar. O certo é que descartei meus escritos preliminares, bem genéricos, os que postaria hoje, por achar o assunto já bem claramente expresso na matéria de Bolívar Torres. Coloco ou reitero aqui apenas dados suplementares.

Outros dados, também preciosos tenho ainda aqui comigo, por elaborar, num novo artigo, para o deleite dos interessados. Os dados: Lorenzo Dow Turner – a matéria de O Globo já ressalta – é um dos precursores dos estudos linguísticos sobre o negro africano na Diáspora (sempre bom ressaltar as coletas em partituras, realizadas por Aires da Mata Machado Filho em 1928, em Diamantina, MG). 

Revisando a resenha sobre o acervo de Lorenzo Turner, aliás encontrei a inusitada citação “angolan funeral songs”, que corresponde, quase exatamente aos vissungos recolhidos por Aires da Mata em 1928. A resenha não enumera Minas Gerais no trajeto das viagens, mas sugere, fortemente a relação de Lorenzo Turner com os vissungos em 1940/41 numa coleta até hoje desconhecida, anterior, portanto,  a de Luiz Heitor Correa de Azevedo, esta em 1944.

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Africanos de Serra Leoa, presumo, ouvem divertidos a gravação de suas vozes por Lorenzo Dow Turner.

O material das coletas de Lorenzo Turner ao qual a matéria se refere, ao que parece, no caso do acervo do AMT da Indiana University, acabou não sendo considerado prioritário no âmbito geral do trabalho do etnolinguísta, talvez por esta razão não conste ainda do acervo da Indiana University a sua digitalização.

Presumo que estas digitalizações da Bahia já existam no Melville J. Herskovits Library of African Studies na Northwestern University Library ou outro acervo ao qual Bolívar Torres teve acesso (li qualquer coisa sobre o etnomusicólogo Carlos Sandroni estar trabalhando nisso aí.)

Sobressaíram mais, contudo as coletas de Turner na Costa Leste norte americana e coletas feitas no Caribe e na África ocidental. Aguardamos ansiosos.

Na resenha do AMF/UI sobre os arquivos de Turner diz-se o seguinte:

“Lorenzo Dow Turner Gullah Collection Fonte: Arquivos de Música Tradicional da Universidade de Indiana, EUA.

Registros de campo realizados por Lorenzo Dow Turner Na Georgia e Carolina do Sul e Sea Islands em 1932 e 1933, versando sobre o dialeto crioulo afro americano conhecido como “Gullah”, falado nesta região dos EUA. Formato: 154 discos de aluminio.

Lorenzo Dow Turner (1890-1972) foi um linguísta afro americano, que ficou conhecido como o pai dos estudos sobre o “Gullah” após publicação em 1949 dos africanismos contidos no dialeto Gullah, a primeira grande descrição científica deste dialeto.

Esta publicação da ATM/IU, (resenhada por este texto) um grande recurso para pesquisadores, contém diversas transcrições de gravações de Turner.

O trabalho de Lorenzo Dow Turner ajudou a construir uma fundação para estudos sobre a diáspora africana e contestou a noção que prevalecia há muito tempo de que a cultura afro-americano era simplesmente uma derivação da cultura norte americana branca. Turner mostrou que haviam retenções culturais significativas de culturas africanas entre os afro-americanos. Seu teabalho de campo adicional no Caribe, Brasil e África Ocidental fundamentou ainda mais estas ideias.

Os Arquivo de Música Tradicional da Indiana University contêm várias coleções de gravações etnográficas e linguísticas feitas por Turner, que foram gravadas em 836 discos de alumínio e laca. As gravações feitas nos verões de 1932 e 1933 compõem a coleção de discos de Gullah, compostas por 154 discos de alumínio e documentos de textos com cantos de trabalho, histórias, spirituals e contos de escravidão, recolhidos com 50 falantes de Gullah.

A ATM/IU possui também gravações das pesquisas de campo de Turner no Brasil (Salvador, Bahia em 1941: nota do Titio), África Ocidental, Louisiana do Sul, e várias outras partes dos Estados Unidos.

A coleção Gullah digital foi preservada como parte do Projeto Sound Directions Project.”

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Tema para muitas mangas. Me aguardem. Titio volta já

Spírito Santo  Junho 2015

RESENHA MANOEL KONGO AMK

•16/11/2018 • Deixe um comentário


História, Teatro e Turismo cultural/Uma experiência

A História
Com o esgotamento do ouro nas Minas Gerais, a economia brasileira se deslocou para o Vale do Paraíba do Sul, no Rio de Janeiro. O posterior esplendor da região, com seu eixo localizado na Vila de Paty do Alferes e, logo em seguida, na Vila de Vassouras, alavancou o desenvolvimento do Brasil por quase todo o século 19.

O signo principal deste ciclo de desenvolvimento era o café, mercadoria com enorme importância no mercado internacional do período, do qual o Brasil foi, durante muito tempo, o maior produtor.
Brasil e sua economia dependiam, no entanto, de outra mercadoria, ainda mais essencial do que o café; A força de trabalho do escravo africano.

Ambos negros, escravo e café, fizeram algumas das maiores fortunas do mundo da época, fortunas estas que, concentradas quase todas na região do Vale do Paraíba do Sul, geraram a sociedade dos chamados ‘barões do café’, nababesca e prepotente, assentada numa estrutura social sem povo, composta, basicamente, por aristocratas e escravos.

Sequestrados de Angola, Congo, Moçambique e trazidos a partir, principalmente, dos portos de Luanda e Benguela, para serem vendidos no Mercado do Valongo, próximo ao porto do Rio de Janeiro, os africanos que, depois de longa jornada a pé, chegavam à plantações de café do Vale do Paraíba, acabaram se tornando, não só um elemento essencial para a economia local mas também, como se pôde concluir mais tarde, num elemento capaz de ameaçar a própria segurança física daquela sociedade.

A Trama
Em 6 de novembro de 1838, o africano Camilo Sapateiro, escravo da fazenda Freguesia foi morto a tiros, quando se dirigia, clandestinamente, à fazenda Maravilha, ambas pertencentes ao maior proprietário de escravos e principal autoridade da comarca: o Capitão-Mor Manoel Francisco Xavier. O assassino, um capataz da fazenda, quase foi linchado pelos escravos.

O que pretendia fazer Camilo Sapateiro na fazenda vizinha quando foi morto? Teria sido a sua morte, pelo capataz (um incidente algo corriqueiro na rotina escravista), a verdadeira razão da insurreição de escravos de tão grandes proporções, que se seguiu?
De roldão, os escravos rebelados, divididos em dois grupos, saquearam as duas fazendas do Capitão-Mor e fugiram para a mata próxima. Num ponto, ao que tudo indica, previamente combinando desta mata, um dos grupos se encontrou com um número indeterminado de escravos de outras fazendas, além das duas de propriedade do Capitão-Mor.

A imediata adesão de escravos de outras fazendas chama, fortemente, a atenção para a possibilidade de ter havido algum tipo de articulação prévia entre os rebelados.

O fato é que, um grande grupo se embrenha na mata de Santa Catarina rumo a alto da Serra da Estrela, montando um arranchamento para pernoite, á cada fim de tarde do trajeto da fuga.

Perseguida por tropas da Guarda Nacional e homens recrutados pelo juiz de paz da comarca, uma parte deste grupo é atacada e dominada, quando ainda dormia, no quarto dia de fuga. Tropas do Exército Imperial, convocadas às pressas, comandadas pelo então Capitão Luiz Alves de Lima e Silva, futuro Duque de Caxias, só chegam na área do conflito quando tudo já havia terminado.

No grupo de escravos derrotados, está o suposto chefe da insurreição, denominado ‘Rei’, Manoel Congo, ferreiro da Fazenda Maravilha e uma mulher, denominada ‘Rainha’, a costureira Marianna Crioula, escrava de confiança da senhora dos escravos das fazendas Maravilha e Freguesia, Dona Elisa Xavier.

A um escravo morto na refrega, mas, não identificado nos autos, é atribuída a função de ‘Vice-rei’ da insurreição e do futuro suposto quilombo. Este escravo pode ser identificado, nas entrelinhas dos autos, como sendo o africano de nação Munhambane (moçambicano) Epifânio Moçambique.

Um número indeterminado de negros do grupo atacado consegue se embrenhar na mata, serra acima e dele não se tem mais notícias. Não se tem notícias também do segundo grupo, comandado por um escravo chamado João Angola que, embora não estando presente no ponto de encontro com o ‘Rei’, nem constando no rol dos presos no momento do ataque, foi visto no dia anterior prestes a assaltar a fábrica de pólvora da região, desaparecendo por outro caminho, rumo á Serra do Couto, próxima à Serra a Estrela, aparentemente, o destino final de todos os rebelados.

Pode-se, por estas evidências, entre outras surgidas na pesquisa, supor que os relatos que dão conta da existência de um quilombo na região, jamais desbaratado, são factíveis.

A despeito destas evidências, a maioria dos proprietários alegou que seus escravos retornaram, espontaneamente, à suas fazendas, mas, não existem registros seguros dando conta de quantos, efetivamente, fugiram e retornaram. A alegação livrava os fazendeiros das pesadas custas processuais, caso tivessem negros de sua propriedade (e responsabilidade) arrolados como rebeldes.

O peso total destas custas processuais acabou recaindo sobre o Capitão-Mor Manoel Francisco Xavier, que, depois dos escravos presos e condenados, passa a ser a principal vítima dos incidentes.

De um total de cerca de trezentos escravos fugidos e rebelados, apenas vinte e três (todos pertencentes a Manoel Francisco Xavier) são aprisionados (sete haviam sido mortos na refrega). Destes vinte e três presos, sete são mulheres (é significativo, do ponto de vista logístico, o fato deste grupo de presos, a maioria feridos na refrega, ser aquele onde estavam a maioria das mulheres e, provavelmente, os homens mais velhos e as crianças).

Cerca de dezesseis presos deste grupo são, efetivamente, julgados. A maioria é condenada, com uma única exceção: o escravo Adão Benguela que, apesar de estar tão envolvido quanto todos os outros nos conflitos, é estranhamente absolvido.

O suposto ‘Rei’ Manoel Congo’, é condenado à forca e executado em 1839 em Vassouras.

Os Antecedentes
A observação acurada – e crítica – de fatos descritos em documentos da época, principalmente os autos do processo montado na ocasião, contendo os depoimentos dos escravos presos, pequenos indícios ou omissões aparentemente deliberadas, contradições entre os depoimentos, etc., formam a base principal utilizada para a elaboração deste texto teatral.

Formam também a base de dados da pesquisa, textos esparsos, de outras fontes e um raro e inestimável relato, ao vivo, extraído pelo autor de uma entrevista (veja neste link) por ele realizada em 1973, com uma ex-escrava de uma das fazendas da região, que ali viveu, alguns anos após os incidentes descritos pelos autos.

Com efeito, coisas muito inusitadas ocorriam naquela região nesta época de grande efervescência social.

Segundo dados descritos na crônica da cidade de Vassouras, escrito por Ignacio Raposo, um ano antes da fundação da vila, ocorrida em 1833, um grupo de proprietários criava a Sociedade Promotora da Civilização e da Indústria, de verniz positivista, e dedicada, entre outras coisas, à formação de artífices escravos, como mão de obra especializada, com o fim de possibilitar a manutenção de equipamentos, até então, feita por engenheiros vindos da Inglaterra e até – suprema ousadia – iniciar talvez a própria substituição da importação de máquinas e ferramentas agrícolas que, oriundas da Europa, obviamente com a mão de obra dos escravos-operários especializados, formados pela SCPI, passariam a ser fabricadas por aqui mesmo.

Ferreiros e marceneiros eram as principais especialidades indispensáveis à incrível proposta desenvolvimentista da SCPI. Os artífices a serem treinados, seriam recrutados, por seus proprietários, entre os seus escravos mais hábeis e inteligentes.

A mais incrível das coincidências era que o ofício de ferreiro foi, ainda nesta época, a partir de uma tradição africana que remonta o século 10 (segundo alguns relatos, talvez até um pouco antes disto), uma ocupação exclusiva de reis e nobres, um status de poder hierárquico superior na cultura dos Kimbundo e Ovimbundo, grupos étnicos angolanos que, em grande maioria, contribuíram com escravos para as plantações de café do Vale do Paraíba do Sul.

Sabe-se pelas mesmas fontes (Ignacio Rapiso) que, um ano depois (por volta de 1834), uma curiosa sociedade secreta, composta por negros escravos e libertos, com uma elaborada estrutura, havia surgido em Vassouras, quatro anos, portanto, antes da insurreição de Manoel Congo. Esta ‘insidiosa’ organização, segundo foi descrito por esta mesma crônica da Cidade de vassouras, andava ruminando um levante que pretendia libertar todos os escravos da área.

Somente nove anos depois, ou seja, em 1847, a tal organização secreta pode ser desbaratada. Os registros policiais da ocasião, afirmaram que ela se autodenominava Elbanda (Embanda, mais propriamente talvez, por ser a expressão traduzida como “Curandeirismo” ou ” Medicina” a qual, quando acrescida do prefixo “Ki” – Kimbanda – significa o mesmo que “Médico” no idioma de origem (kimbundo) podendo se traduzir Embanda como “medicina” nesse contexto de seita ou sociedade secreta) e era formada por núcleos ou células clandestinas, dirigidas, obrigatoriamente, por escravos ferreiros e marceneiros, chamados pelos outros escravos de ‘Tata” (ou ‘pai’ ) Korongo.

Também curiosamente, pesquisas bem recentes sobre a cultura dos Kimbundo, nos dão conta que era por demais comum na sociedade angolana do século 19, a proliferação de seitas e sociedades secretas, por diversas motivações, prática que pode ter sido seguida pelos escravos de Vassouras.

A seita em questão, devotada à Santo Antônio, evocava, fortemente possível inspiração na remota seita existente no Reino do Kongo na virada do século 17 para o 18, criada e liderada por uma sacerdotisa chamada Kimpa Nvita (ou Vita), morta em 1702 numa fogueira da Inquisição. Importante frisar que a seita de Kimpa Nvita pregava uma guerra de libertação do reino contra os colonialistas portugueses.

Esta emocionante reconstituição nos dá conta, enfim, de uma malha de estranhas relações, interesses e contradições, bastante incomuns na história oficial do escravismo brasileiro, estabelecidas entre proprietários e escravos, escravos entre si, além de proprietários, do mesmo modo entre si. Um impressionante conflito humano sacudindo os alicerces daquela sociedade imperial, questionando o seu anacronismo. Matéria pura para teatro. Drama.

O Cavaleiro Negro de Alfama

•05/10/2018 • Deixe um comentário

O Cavaleiro negro de Alfama

Vocês se lembram. Encontrei a tela denominada “Chafariz Del Rey”, numa pesquisa musical sobre o gênero afro-lusitano o “Rasga”, segundo o pesquisador José Ramos Tinhorão, provavelmente criado por angolanos de Cabinda e seus descendentes nas ruas de Lisboa colonial.

Sempre nesses casos, de pesquisa cabeluda, sobre temas sobre as quais as fontes rareiam, na metodologia  de pesquisa do Titio, sigo como um cão farejador, uma ou outra via das muitas encruzilhadas que se abrem. Dessa vez decidi enveredar (como sempre por intuição) pelas entranhas da história do quadro, no qual Tinhorão e outros pesquisadores pinçaram diversos exemplos de negros, escravos e libertos (muitos libertos) dançando, portando instrumentos musicais, vivendo enfim.

A metodologia do Titio não é convencional, nem um pouco. É autodidata, inventada por mim, intuitiva, mimética, semiológica, holística, pouco me importa o nome que se dê a ela (costumo chamá-la de “estratégia da aranha”)

Posso tentar explicar: Nela , todo tema em foco está ligado, necessariamente a um contexto que lhe é próprio (como um enorme quebra cabeças), formado por outros sub sistemas, por sua vez portando temas outros que, à medida em que vão sendo vislumbrados e entendidos, se articulam, aleatoriamente a outros temas, antes desconhecidos, formando uma rede gigantesca, na qual os elos se intercomunicam, uns explicando os outros, criando outras e mais outras questões ou dúvidas, de modo que ao final (simbólico, pois nesse caso nunca se chega, realmente a um fim, a uma conclusão satisfatória, muito próxima do cabal) até, portanto, que alguma coisa parecida com a verdade – a dúvida alarmada – se esclareça.

(A verdade é a aranha, certo)

Entenderam? Não? Pouco importa. O fato é que foi assim que esbarrei no nobre negro da tela do chafariz de Alfama.

Comecei por opção óbvia a estudar a tela no geral, principalmente no que diz respeito á datação, que variava, entre os diversos sites de arte medieval que consultei como tendo sido feita entre 1540 e 1620.

…”O movimento era intenso e muitas as desordens. As regateiras negras eram acusadas de serem «desarrazoadas» e insultuosas, os vendedores de palha e carvão, de viciarem as medidas e, no chafariz de el‑rei, o principal da cidade, com seis bicas mas escasso de água, travavam‑se de razões os aguadeiros na confusão de encher o cântaro. O chafariz de el‑rei era, de entre todos, o mais concorrido como já o atesta a Relação […] dos arredores mais chegados à cidade de Lisboa e seus arrabaldes, pondo em evidência a diversidade dos aguadeiros que o frequentavam:

«[…] chafariz de El‑Rei

Com tantas bocas abertas.

Onde tantos aguadeiros

Tantos negros, tantas negras

Galegos, cabras, ratinhos

A quarta de água sustenta».

Os confrontos iam até às últimas consequências, de tal modo que, em 1551, o município determinou que a primeira bica só podia ser usada por homens escravos e libertos de todas as raças, que também podiam beneficiar da segunda, depois dos condenados às galés aí terem enchido os barris necessários às frotas; a terceira e a quarta bica destinavam‑se aos brancos livres; a quinta, às mulheres negras, escravas e libertas; e, finalmente, a sexta era utilizada pelas mulheres brancas. A quem infringisse a postura aplicava‑se a multa de 2 mil reis e três dias de cadeia, se fossem brancos; sendo de cor, seriam logo açoitados com baraço e pregão junto ao chafariz. Ainda no século XIX, a poesia popular regista referências a mortes que indiciam desordens junto ao chafariz:

«Já não quero ir à praia

Nem ao chafariz de El‑Rei

Que ‘stá lá um homem morto,

E dirão que eu o matei».

http://www.buala.org/pt/a-ler/ser-escravo-quadros-de-um-quotidiano-dos-trabalhos-e-dos-dias

Era indispensável também confirmar a identidade, ou pelo menos a nacionalidade do pintor, ficando por fim confirmada a definição mais recorrente de que era mesmo um pintor holandês, entre os muitos que se estabeleceram em Portugal nessa época.

Curiosamente, consegui encontrar uma segunda tela, pela identidade e estilo, com alguma certeza do mesmo pintor, um dístico retratando, do mesmo modo que o Chafariz de Alfama, a Praça dos Mercadores em Lisboa.

Foi uma constatação rápida. Pelo que se pôde, rapidamente  investigar e confirmar, só os holandeses se arvoraram na época a abandonar a sacralidade explícita dos temas pictóricos da renascença, para ingressar num barroco que os encaminharia para o verismo e a utilização da pintura mais como a arte do registro da realidade e menos mera representação ou exaltação idealizada das virtudes morais do catolicismo.

A ordem dos Espadários

Até que num elo da rede, um dos mais evidentes, consegui desvendar numa das resenhas um dado crucial do mistério. Uma ligação fortuita do cavaleiro com o contexto da imagem: Como mais um enigma entre tantos, este muito promissor, descubro então que o insigne cavaleiro negro usa em sua capa ou toga, um curioso símbolo heráldico, logo revelado como sendo  a marca de uma ordem eclesiástica-militar, a ordem de Santiago também conhecida como Ordem dos Espadários.

A marca era uma referência a um misto de cruz e espada esboçado como símbolo (a ordem era semelhante a dos Templários entre outras, tantas criadas pelo Vaticano no contexto da luta dos reis católicos europeus contra os muçulmanos)

(A Ordem de Santiago, também conhecida como “A Ordem de Santiago da Espada”, foi fundada no século XII e deve o seu nome ao Patrono nacional da Galiza E Espanha, Santiago (São Tiago Maior). Seu objetivo inicial era proteger os peregrinos do Caminho de Santiago e defender a Cristandade.

Após a morte do Grão-Mestre Alfonso de Cárdenas em 1493, os Reis Católicos incorporaram a Ordem à Coroa Espanhola eo papa Adriano VI uniu para sempre o cargo de grande mestre de Santiago à coroa em 1523.)”

A ordem foi criada em 1175 para defender os reinos católicos de Espanha e Portugal, entre outras coisas, escoltando peregrinos. Assim depois de várias demandas e lutas em defesa das monarquias espanhola (e portuguesa em tempo do fim das cruzadas ela depois de ter tido por séculos grãos mestres indicados pelos reis e Vaticano, passa a ter como grão-mestres os póprios reis

“…Manuel morreu em 1521, e foi sucedido por seu filho João III de Portugal, que manteve o esforço para corroer a Ordem de Santiago. Quando Jorge de Lencastre morreu em julho de 1550, João III recebeu um touro do Papa Júlio III algumas semanas depois nomeando-o pessoalmente como mestre da Ordem de Santiago e da Ordem de Aviz praeclara cahrissimi,

emitido pelo papa sob grande pressão diplomática por João III em dezembro de 1551, nomeando os Reis de Portugal como senhores a perpetuidade das três ordens militares, Cristo, Santiago e Aviz, trazendo assim Um fim à independência das ordens militares em Portugal.”https://en.m.wikipedia.org/wiki/Military_Order_of_Saint_James_of_the_Sword.

Enquanto isso, ele continuava  lá. Altivo e misterioso. Impossível não vê-lo, a figura mais estranha das centenas de figuras da tela. Como explicar um negro africano, fidalgo na Lisboa do pleno século 16?

“Africano negro cavaleiro (da ordem) de Santiago com servos. Último quarto do século 16. Lisboa. 1540/k

(Beatriz Aluares, no Printrest)

O que descobri:

Ele não é só um nobre, é um membro da ordem eclesistica-militar de Santiago (a marca da ordem está na toga que veste). A ordem é chamada também de ordem dos Espadários, sendo semelhante à dos cavaleiros templários.

“Resumo:
Este artigo estuda os casos de vinte e sete homens agraciados com o título de Cavaleiro das Ordens Militares Portuguesas do Cristo, Santiago e de Avis, do início do século XVII até 1731, nos quais testemunhas da investigação sobre antecedentes haviam atestado que os pais ou avós desses homens haviam sido descritos como “mulatos” e/ou descendentes de escravos africanos.

Embora este estudo tenha como foco os mulatos, vale a pena mencionar que se tem conhecimento de que sete negros se tornaram cavaleiros nas ordens militares portuguesas. Três na Ordem de Santiago (no século XVI), três na Ordem de Cristo (todos em 1609), e um na Ordem de Avis (1580). Mas só um dos sete – João de Sá Panasco, o bobo da corte durante o reinado do Rei João III (r. 1521-1557) – descendia de escravos.

Quatro outros negros – todos eles militares nascidos no Brasil, descendentes de escravos – foram agraciados com títulos de cavaleiro nas ordens militares portuguesas no século XVII mas nunca os receberam.

Quase todos os casos envolviam pessoas que viviam em Portugal. Com apenas uma exceção, a dispensa exigida foi por “falta de qualidade” e não por “pureza de sangue”. Mais de 80% dessas pessoas receberam dispensas por serem “mulatos”, e se tornaram membros da Ordem de Cristo (a maioria) ou da Ordem de Santiago.”

…” A maioria dos nomes na lista de Leitão Aranha que receberam dispensa por causa de impedimentos por serem mulatos se tornaram cavaleiros de ordens militares no final do século XVII e no início do século XVIII. Mas diversos casos interessantes ocorreram antes de 1660.

Houve dois casos importantes na Ordem de Santiago. Ambos envolveram homens nascidos fora de Portugal. O pardo nascido na Bahia e herói de guerra, Manuel Gonçalves Doria, cujo avô materno foi identificado como um mulato da Madeira, foi cuidadosamente pesquisado.22 O outro era o africano Francisco da Mata Falcão, Capitão da Gente Preta do Reino de Angola, que foi mencionado diversas vezes na História Geral das Guerras Angolanas de António de Oliveira de Cadornega.23 Antes de se tornar cavaleiro da Ordem de Santiago, em 1648, Francisco precisou de diversas dispensas.

Primeiro, D. João IV o dispensou do “defeito” de ser um mulato e permitiu que ele tivesse sua investigação de antecedentes feita em Lisboa em vez de Angola. Embora não se soubesse em que lugar da África tinham nascido sua mãe e seus avós maternos, testemunhas afirmaram que Francisco e a mãe eram considerados “Christãos velhos sem outra mistura”.

Entretanto, algumas testemunhas acharam que seus avós maternos eram gentios. O pai de Francisco era Antão da Mata Falcão, embora não esteja claro se Francisco era meio-irmão ou filho do médico da Corte, que tinha este mesmo nome. Francisco foi finalmente dispensado (aceito) porque ele era um mulato nascido fora do casamento – um adulterino, já que o pai dele era casado – e seus avós maternos eram pagãos ou gentios.24

De forma geral, o impedimento de ser descendente de gentios, embora listado nos Estatutos da Ordem junto com aqueles que eram descendentes de muçulmanos e judeus, não afetava a limpeza de sangue e, portanto, era uma dispensa relativamente fácil de receber do Rei.

“Alguns negros aproveitaram as oportunidades disponíveis na corte para avançar-se, seja através da educação ou atividades militares. João de Sá Panasco (fl.1524-1567), que começou como um bobo da corte em Lisboa, passou a se tornar um cavalheiro da família, manobrista do rei, um soldado que participou junto com o irmão do rei na campanha de Charles V na África do Norte em 1535, sendo por estes serviços feito membro da prestigiosa Ordem de Santiago.

João era,  portanto um  africano legítimo e descendia de escravos.

“Muitos mouros (negros) se converteram ao cristianismo na península ibérica nos anos 1500, se tornando importantes figuras na sociedade, como é mostrado na pintura abaixo que descreve uma cena no Porto lisboeta de Alfama.

O homem montado no cavalo em  primeiro plano, aparenta ter uma alta posição na sociedade, alguém importante na cena.A cruz vermelha em sua capa provavelmente representa que ele é um membro  da ordem de Santiago, uma ordem militar eclesiástica da península ibérica criada no século 12.

 

É fato que muitos africanos foram admitidos  na ordem, incluindo Luis Peres, (1550), D. Pedro da Silva (1579), e João de Sá Panasco que é citado num documento real de 1547 como “o homem preto cavaleiro de minha casa”

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http://www.buala.org/pt/a-ler/ser-escravo-quadros-de-um-quotidiano-dos-trabalhos-e-dos-dias

“…Entre os bobos evidenciaram‑se alguns escravos. João de Sá, mais conhecido por Panasco, «preto crioulo» nascido escravo já em Portugal, foi uma dessas figuras a quem D. João III concedeu alforria e privilegiou com o hábito da Ordem de Santiago. Foi considerado um dos homens mais espirituosos do seu tempo; alvo de constantes zombarias por causa da sua cor, respondia em tom de mordaz ironia que «a felicidade de um cavaleiro português consistia em chamar‑se Vasconcelos, ter uma quinta, seiscentos mil reis de renda, ser parvo e não prestar para nada».

Na Colecção Política de Apotegmas, estão registados alguns dos ditos jocosos que lhe foram dirigidos e outros com que brindou os fidalgos. Aqui se destacam alguns desses ditos que a argúcia de João de Sá suscitou:

«Um dia apodando a todos, não fez caso de um filho decerto Desembargador do Passo, que também ali estava; o qual desconfiado de o não apodar como aos demais, lhe perguntou: E eu, Panasco, que vos pareço? Olhou‑o ele por cima do ombro e respondeu‑lhe: vós pareceis‑me Fidalgo dando a entender que o não era. Riram‑se todos e o apodado ficou de maneira que tomara antes não ter falado.»

«[…] Estava João de Sá diante de el‑Rei D. Sebastião, que então era menino de sete anos e querendo abrir a bolsa e não podendo, lhe disse el‑Rei: tirai‑a e ponde‑a na cinta a outrem e logo a abrireis.»

«Estando doente Panasco em uma cama com lençóis, cobertor e cortinas tudo branco, foi a vê‑lo o Conde de Redondo, D. Francisco Coutinho e disse para outros Fidalgos, que lhe parecia mosca em leite.»

«Vendo‑o com o hábito de Santiago dizia o Conde: não lhe[s] parece a vocês saco de carvão com a marca da cidade?.http://www.buala.org/pt/a-ler/ser-escravo-quadros-de-um-quotidiano-dos-trabalhos-e-dos-diasK

(João, dependendo da data do quadro, pode ser o cavaleiro, pois morreu em 1567. A cor do homem do quadro indica ser um africano sem mistura, o que não é o caso de Francisco Mata Falcão,além disso, Francisco só foi ordenado muitos anos depois.).

Relendo os bobos na corte do Conde de Sabugosa*…

«Gostava muito el-rei D.João III de um preto crioulo chamado João de Sá Panasco; fez-lhe muitas mercês e deu-lhe o Hábito de Santiago. Assistia sempre à mesa de el-rei diviertindo-o com a suas galanterias, e apodando os fidalgos com grande graça.

Um dia apodando a todos não fez caso de um filho de certo desembargador do Paço, que também ali estava, o qual de o não agradar como aos demais, lhe perguntou: E eu, Panasco, que vos pareço? Olhou-o ele por cima do ombro, e respondeu-lhe: Vós pareceis-me Fidalgo; dando a entender que o não era. Riram-se todos e o apodado ficou de maneira que antes não ter falado»

(*Citação de Pedro José Supico, Colecção Política de Apotegmos ou ditos apudos e sentenciosos, 1K

Sobre a pintura flamenga em Portugal no período em Wikipedia :

Ver artigo principal: Renascimento, Maneirismo, Renascimento em Portugal, Estilo manuelino, Maneirismo em Portugal
Como se disse na abertura deste artigo, a passagem do século XV para o XVI foi uma fase privilegiada para a cultura portuguesa. D. Manuel I leva o reino a uma fase de esplendor, e desenvolve um programa ideológico destinado a enaltecer a sua autoridade e a grandeza lusitana. Reformas institucionais são levadas a cabo, a cultura recebe grande estímulo, o país torna-se numa verdadeira potência naval, lidera as grandes navegações, funda lucrativas colónias na América, África e Ásiaque enriquecem a nação, estreita contactos culturais e comerciais com o resto da Europa e conhece o Humanismo. Neste período a pintura entra numa fase de grande prestígio e a importação de arte flamenga pelo rei, pelo clero e pela nobreza chega a grandes volumes, disputando entre si as melhores obras e os melhores artistas, cujo ritmo de produção é elevadíssimo[11]

Sobre o quadro minúcias de um especialista brasileiro em figurino, ignora, totalmente a presença do cavaleiro negro.http://www.arquiamigos.org.br/info/info27/i-estudos.htm

Raro exemplar de arte portuguesa, a tela denominada Chafariz d’El Rey (1570-1580)

A única pintura portuguesa que, de acordo com o nosso conhecimento, nos mostra objetivamente trajes populares em uso na Lisboa em meados do século XVI, constituindo-se por isso numa relevantíssima fonte documental iconográfica, é a tela denominada Chafariz d’El Rey (fig.5). De autoria anônima e atribuída a artista de origem flamenga, a obra pertence hoje à coleção de José Manuel Rodrigues Berardo (1944- ), bilionário madeirense mais conhecido como Joe Berardo.

Obra de intenso realismo ingênuo, o quadro fornece-nos uma infinidade de preciosas informações sobre diferentes aspectos da Lisboa quinhentista, na região do Cais de Santarém. O que mais chama a atenção dos pesquisadores portugueses é, sem dúvida, a aparência da notável fonte medieval depois das obras feitas ao tempo de D. Manuel I, fonte ainda hoje existente embora sob forma totalmente diversa.

Para nós é particularmente comovente observar o populacho lisboeta, com o qual se misturavam então muitos escravos negros trazidos da África. Uma multidão desordenada, maciçamente constituída de homens e escravas, invadia o recinto do chafariz, provocando decerto grande vozerio e alvoroço.

No quadro, é rara a presença de mulheres de condição livre. Nas janelas altas das casas, à distância segura da arraia miúda que inundava o espaço público, surpreendemos algumas damas com trajes de influência talvez francesa, dedução feita a partir do tipo de decote e toucado que usavam. Impressão que sai reforçada, quando observamos a senhora com traje parecido que é objeto da atenção de um rapaz, ambos ocupando um bote que flutua ao sabor das ondas do estuário, em primeiro plano.

Se a moda do elemento feminino pertencente às camadas superiores traía naquela altura a influência francesa, a indumentária masculina dessas mesmas camadas parecia estar já sob o influxo direto dos trajes espanhóis. Os homens de capa e espada que desfilavam ao longo do cais vestiam-se todos de negro, cor que se tornara quase universal durante aquele período na Europa ocidental.

As escravas, contudo, trajavam-se como as mulheres brancas mais humildes do povo (fig.6). Portando roupas parecidas, peixeiras portuguesas estariam, no inicio do século XVIII, atendendo em barracas no Mercado da Ribeira Velha em Lisboa, conforme painel de azulejos hoje exposto no Museu da Cidade (www.museudacidade.pt), numa época em que, aparentemente, as escravas negras já não eram assim tão numerosas em Portugal (fig.7 A). Na pintura ora analisada, as cativas trazem vestidos pardos, inteiriços, com a saia arregaçada na frente para facilitar os movimentos, deixando à mostra uma saia ou vestido interior cuja fímbria não atingia os tornozelos. Calçavam grosseiros sapatos camponeses que subiam até os tornozelos e envolviam a cabeça em panos brancos, as chamadas toalhas de toucar citadas nos inventários paulistas, hábito herdado da mulher medieval, ciosamente conservado pelas portuguesas e espanholas das camadas inferiores. Uma figura de mulher desse mesmo tipo aparece no fundo de um quadro do pintor espanhol Diego Velásquez(1599-1660), datado do inicio do século XVII (Cristo em casa de Marta e Maria, 1618), confirmando a universalidade, no mundo ibérico, desse modo de vestir próprio da mulher de baixa condição social. A única diferença que se nota era que o vestido do século XVII havia sofrido uma modificação de ordem estética, tendo suas formas, antes ajustadas, passado por um processo de amplificação (fig.7 B).

Quanto aos escravos, vestiam-se do mesmo modo que os rudes homens da plebe, os chamados peões, ralé infeliz sempre ameaçada e humilhada pelas Ordenações Reais portuguesas. Traziam o gibão (ou jubão) diretamente sobre a camisa (gibão segundo parece guarnecido com mangas avulsas de outra cor), antiquadas calças feitas de tecido, muito ajustadas às pernas, presas por atilhos na borda inferior dos gibões, e em geral sem pés, presas por meio de cabrestilhos (alças, fixadas nas bocas das pernas das calças, que se enfiavam nos pés, deixando–os descobertos), braguilhas salientes, e borzeguins ou, no caso, botas moles até os joelhos, além de carapuça e chapéu na cabeça (fig.8). Outros punham sobre o gibão uma veste exterior que ia até um palmo do joelho (que era, sem dúvida, a versão popular do pelote) (fig.9). Um dos escravos vistos na pintura usava roupa mais sumária, semelhante a dos cativos brasileiros. Ceroulas largas, pernas e pés desnudos e dorso coberto por camisa, cujas mangas estavam enroladas até os cotovelos. O rosto, ao que parece, vinha escondido por uma máscara de lata, provavelmente para que perdesse o mau hábito de ingerir terra (fig.10).

As cores dos trajes humildes eram sempre pardacentas ou acinzentadas, cores da lã e do linho sem tintura ou tingidos com corantes sem qualidade. Só os trajes dos ricos eram coloridos, às vezes exageradamente, por meio de pigmentos caros. Por influência da moda espanhola, a cor negra começava a predominar nos trajes das camadas superiores, algo que ia se prolongar até além da Restauração (1640), quando a Corte portuguesa independente da Espanha passaria a adotar a moda masculina francesa.

Tempo
Print version ISSN 1413-7704
Tempo vol.16 no.30 Niterói  2011
http://dx.doi.org/10.1590/S1413-77042011000100005

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ChafarizdeAlfama
O nobre negro na tela do chafariz de Alfama

“O cavaleiro Negro de Alfama”

O que descobri:

1- Ele não é só um nobre, é um membro da ordem eclesistica-militar de Santiago (a marca da ordem está na toga que veste). A ordem é chamada também de ordem dos Espadários, sendo semelhante à dos cavaleiros templários.

Kate {Beatriz Aluares} salvou em 1540-1600 Spanish
Black African Knight of Santiago, with servant, last quarter of the 16th century, Lisboa.

A ordem foi criada em 1175 para defender os reinos católicos de Espanha e Portugal, entre outras coisas, escoltando peregrinos. Assim depois de várias demandas e lutas em defesa das monarquias espanhola (e portuguesa em tempo do fim das cruzadas ela depois de ter tido por séculos grãos mestres indicados pelos reis e Vaticano, passa a ter como grão-mestres os póprios reis.

Em 1570, data da tela, com comando já direto dos Reis católicos, é  de se supor que o homem negro no cavalo, embora seja bem difícil estabelecer um vínculo direto nesse sentido. Um amigo africano questiona a data, dizendo que pode ser bem antes de 1580. De minha parte posso intuir que a data pode ser também posterior. Vou citar o amigo, nas vou tentar datar melhor a tela.

Abaixo copiei dados sob a conjuntura das relações entre Kongo e Vaticano e constatei que, em época compatível, o rei do Kongo mandou sim emissários ao Vaticano, contudo isto teria se dado um pouco depois de 1580. Nada achei ainda sobre a existência de um negro na ordem.

A prioridade da pesquisa é, pois, estudar mais a história da ordem e o contexto das relações entre Portugal, Kongo e o Vaticano na época.
É indispensável ler Pigafetta e Duarte Lopes.

Surpreendente descoberta!

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Contexto Kongo no período:

“…Em 1567, o Congo foi invadido pelos Jagas, uma tribo feroz vinda do leste, com fama de antropófagos. Na luta, morreu no mesmo ano o próprio Rei, Bernardo I. O mesmo aconteceu ao seu sucessor, Henrique I, no ano seguinte. Sucedeu-lhe seu filho, Álvaro I. A cidade de S. Salvador estava totalmente destruída e o Rei com uma parte da população do Reino fugiu para a Ilha dos Cavalos, no meio do Zaire. Fora, entretanto, pedida ajuda aos portugueses  Acorreu ao Congo Francisco de Gouveia Sotomaior com uma força de 400 soldados, que expulsou os Jagas em 1570, numa campanha que durou ano e meio.

Em 1580, Portugal perdeu a sua independência e começaram a ser enviados para o Congo missionários espanhóis. Em 1584, chegaram três Carmelitas Descalços que desembarcaram em Luanda e, no caminho para o Congo, baptizaram 3 000 pessoas.

Em 1589, depois de terem baptizado mais algumas dezenas de milhares, os Carmelitas Descalços voltaram a Espanha para recrutar mais companheiros, mas um novo Provincial tinha ideias diferentes do anterior e achava que ser missionários não era tarefa para os Carmelitas.

Por volta de 1578, D. Álvaro I enviou a Roma como seu embaixador o comerciante Eduardo Lopes, que vivia em S. Salvador há vários anos, com a missão de pedir o envio de sacerdotes. O navio que o transportava esteve quase a naufragar junto de Cabo Verde e foi à deriva, indo ter à América Central, à ilha de Cubágua, junto da Ilha Margarida. Eduardo Lopes conseguiu depois embarcar num navio português, chegar a Madrid e depois a Roma. Mas o Papa remeteu-o para o Rei de Espanha

Presentòssi al Papa, e li consegnò le lettere di credenza; gli narrò a sufficienza le sue commissioni, e fu graziosamente udito, ma poi fattogli intendere, che essendo il regno di Congo appartenente al Re di Spagna, à lui lo rimetteva.
Esta audiência terá sido em 1588, pois já tinha falecido o rei Álvaro I e era Papa Sisto V, falecido em 1590; e já em 14 de Dezembro de 1589, Duarte Lopes escrevia em Madrid um incisivo relatório sobre o comércio de escravos (MMA, IV, 514).

Em Roma, Duarte Lopes encontrou Filippo Pigafetta, um humanista, viajante experimentado e bom escritor a quem ditou um relatório acerca do Reino do Congo e da sua história após a chegada dos portugueses. Pigafetta escreveu naturalmente em italiano o livro, que foi publicado em 1591, embora não indique a data. Sendo embora provável que, aqui e ali, Pigafetta tenha usado a sua fantasia, o livro tem informações muito úteis acerca de século e meio da vida do Congo após a chegada de Diogo Cão à foz do Zaire.
A missão de Duarte Lopes (que era cristão-novo) não foi em vão, porque, daí em diante, os Reis do Congo passaram a corresponder-se directamente com o Papa.

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Este artigo é sobre a Ordem Espanhola de cavalaria. Para a Ordem Portuguesa, ver Ordem de S. Tiago da Espada.
Ordem de Santiago
Orden de Santiago
Cruz de Saint James.svg
A Cruz de Santiago usada pela Ordem
Prémio de Espanha
Tipo ordem religiosa de honra e anteriormente uma ordem militar
Religião Católica
Primeiro Grande Mestre Pedro Fernández de Castro
Grande Mestre Rei de Espanha
Estabelecido 1158
ESP Ordem de Santiago BAR.svg
Fita do pedido

Sinal de ordem, século XVII
A Ordem de Santiago, também conhecida como “A Ordem de Santiago da Espada”, foi fundada no século XII e deve o seu nome ao Patrono nacional da Galiza E Espanha, Santiago (São Tiago Maior). Seu objetivo inicial era proteger o peregrino do Caminho de Santiago e defender a Cristandade.

Após a morte do Grão-Mestre Alfonso de Cárdenas em 1493, os Reis Católicos incorporaram a Ordem à Coroa Espanhola eo papa Adrian VI uniu para sempre o cargo de grande mestre de Santiago à coroa em 1523.

A primeira República suprimiu a Ordem em 1873 e, embora a Restauração foi restabelecida, foi reduzida a um instituto nobilical de caráter honorável. Foi governado por um Conselho Superior dependente do Ministério da Guerra, que também se extinguiu após a proclamação da segunda República em 1931.

A Ordem de Santiago, juntamente com a Calatrava, Alcántara e Montesa, foi restaurada como uma associação civil com o reinado de Juan Carlos I com o caráter de uma organização nobiliária, honorável e religiosa que permanece como tal.

UMA PISTA MUITO ESTRANHA:

Em 1482, a sede da Ordem transferiu-se para o Castelo de Palmela, que acabou por ficar associado à Ordem. O últimoMestre de Santigo antes da união dos mestrados à Coroa em 1551, no reinado de D. João III, foi D. Jorge de Lencastre, Duque de Coimbra, filho ilegítimo de D. João II, que reformulou a Ordem com novos estatutos e que ficou sepultado na Igreja do Castelo de Palmela.

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Sobre a pintura flamenga em Portugal no período em Wikipedia :

Ver artigo principal: Renascimento, Maneirismo, Renascimento em Portugal, Estilo manuelino, Maneirismo em Portugal

Como se disse na abertura deste artigo, a passagem do século XV para o XVI foi uma fase privilegiada para a cultura portuguesa. D. Manuel I leva o reino a uma fase de esplendor, e desenvolve um programa ideológico destinado a enaltecer a sua autoridade e a grandeza lusitana. Reformas institucionais são levadas a cabo, a cultura recebe grande estímulo, o país torna-se numa verdadeira potência naval, lidera as grandes navegações, funda lucrativas colónias na América, África e Ásiaque enriquecem a nação, estreita contactos culturais e comerciais com o resto da Europa e conhece o Humanismo. Neste período a pintura entra numa fase de grande prestígio e a importação de arte flamenga pelo rei, a grandes volumes, disputando entre si as melhores obras e os melhores artistas, cujo ritmo de produção é elevadíssimo.[11]

Sobre o quadro:

VeVe – Milo Rigaud

•25/09/2018 • Deixe um comentário

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Candombe, Ndombe, Candomblé

•11/09/2018 • Deixe um comentário

1845. Juan Manoel Rosas, governador da província de Buenos Aires, Argentina, (sentado à esquerda) assiste a uma exibição de Candombe. O autor da imagem é desconhecido.

O Candombe clássico, recorrente, é o do Uruguai. Mas o gênero – pelo menos o título – está relacionado a muitas manifestações musicais ou religiosas da Diáspora africana nas Américas, principalmente, além do Uruguai citado, no Sudeste do Brasil e na Argentina.

O termo, não é de difícil tradução (ka-ndombe, “ka” um prefixo diminutivo do kimbundo, sendo “Ndombe”, entre outros sentidos, um lugar no Benguela, Angola) mas o sentido é fugidio, provavelmente seria ou teria passado a significar uma expressão genérica para definir “dança de negros” (como “Batuque”), com alguma certeza relacionando-se à danças oriundas da área Congo-Angola.

(A palavra”Candomblé”, aliás, que se diga, vem de “Candombe”.)

Em Minas Gerais o Candombe, sob a forma antiga de ritual de casa-terreiro, é tido como um ancestral de ternos de Moçambique, ou mesmo de algumas Congadas. É possível até hoje se encontrar algumas formas de Candombe em Minas Gerais.

O Candombe na Argentina, pode ser encontrado em Buenos Aires, Santa Fé, Paraná, Salta e Corrientes.

(Se você, assim de relance, tiver um insight ligando essa conversa à Milonga e ao Tango, saiba: saiba que é um insight luminoso)

Spirito Santo

Setembro 2018

Memória Nacional, seus esqueletos e seus armários

•08/09/2018 • Deixe um comentário

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Memória Nacional, seus esqueletos e seus armários

(Esta entrevista, com perguntas elaboradas pelo jornalista Leonardo Lichote para o jornal O Globo, é distribuída para um grupo de pensadores da cultura brasileira, teve algumas partes de cada convidado – entre os quais este autor- utilizadas numa excelente matéria publicada em 08/09/2018 no segundo caderno do jornal.

Publico aqui a íntegra das minhas respostas no intuito de expor o sentido geral do que penso sobre o candente assunto

—————-

– Existe a célebre frase “O Brasil é um país sem memória”. Gostaria de desdobrá-la, ir um pouco mais fundo nisso, entender essa premissa. Isso é verdade?

Não. Não é verdade. Todo país tem memória. Ao usar esta expressão, provavelmente estamos nos referindo àquela parcela da população do Brasil com poder para manipular os registros dessas nossas memórias, retê-los, omiti-los ou mesmo falseá-los em seu proveito.

Estamos falando, suponho do uso político da História – da memória coletiva – por parte de uma arcaica aristocracia, de um país rachado em partes desiguais. Estamos admitindo enfim, muito timidamente ainda, a existência de uma classe de odiadores da memória de nosso país, disfarçados de guardiões oficiais de nossas lembranças.

Como o país lida com sua memória?

Cada sociedade lida com sua memória de variadas maneiras, mas em geral dispositivos diversos de registro e difusão, vulgarmente conhecidos, em seu conjunto, como Cultura, são, naturalmente criados para gerir e cuidar da memória, da história de um país.

Óbvio constatar, contudo que em sociedades tão radicalmente divididas como a nossa, esses dispositivos estão em estado de permanente e exacerbado conflito. Somos, portanto, do ponto de vista de nossa cultura entre outros, uma sociedade perigosamente conflagrada.

Por que isso se dá?

Provavelmente isto se dá porque os mecanismos de exclusão sócio racial – o racismo tornado aqui eixo do conflito por conta do modelo escravista que nos ligou umbelicalmente à África negra – desde os tempos coloniais são mecanismos muito resilientes.

Por razões ainda não suficientemente aprofundadadas o colonialismo no Brasil gerou uma “elite” extremamente ignorante, inepta e incapaz de encarnar o espírito de liderança de uma nação, comportando-se até hoje, tanto tempo depois da nossa independência de Portugal como europeus de segunda classe, ressentidos de sua suposta condição de asilados, degredados, piratas sem navio para fugir de uma ilha estranha, já saqueada.

– Porque a memória é importante?

A resposta é óbvia. O que configura, consubstancia um indivíduo, um ser vivo em geral são suas memórias, desde as genéticas, biológicas até as memórias sociais, a história de sua comunidade, memórias estas retidas nos registros trabalhados ou criados por seus sábios, seus artistas e educadores, impressos ou grafados em suportes diversos, desde os materiais tangíveis da ordem da arte, até os intangíveis, filosóficos, religiosos, etc. grafados no conjunto de cérebros de seus indivíduos.

Uma sociedadade – ou um indivíduo – sem memória é uma entidade morta, um ex-organismo em decomposição.

– Porque é tão difícil de se convencer a sociedade do valor da memória?

Antes de mais nada, é muito importante que se diga, de modo enfático até, que o desprezo pela memória nacional – tratando-se em especial do Brasil – não é uma característica da maioria de nossa população. Seria uma afirmação equivocada e injusta.

A grande maioria dos brasileiros cuida de forma exemplar de nossa memória por meio de inúmeras manifestações culturais, nas quais de forma artisticamente simbólica, cifrada; fatos, eventos, saberes morais e científicos tradicionais, materiais e imateriais são expressos de forma ativa, vivos, disponíveis à atenção das instituições destinadas a organizá-los, metodizá-los, sistematizá-los e conservá-los, como é o caso das universidades, dos centros culturais, dos museus ou instituiçaões similares.

Mas o que fazer quando essas instituições, espaços de poder político que são, assumem a condição também de espaços exclusivos de ascenção social para uma certa casta (que se sente estrangeira), que exerce este poder por meio de arcaicos mecanismos de exclusão social de parte considerável, majoritária até de nossa população, mecanismos tornados sistemáticos, apesar de terem sido supostamente abolidos, por lei, no século passado: a escravidão rediviva e sua resiliência inexplicável.

Trata-se então de um problema ideológico de grande complexidade no qual aos odiadores da ideia de um país livre e original, exatamente a estes é que destinamos a função de cuidar de nossa memória.

A Democracia, a igualdade total entre os indivíduos, a liberdade de opinião, além do acesso de todos à Educação, portanto são essenciais à consciência de uma sociedade sobre o valor de suas memórias.

– A memória é um espaço de disputa política, social, simbólica? Como isso se dá?

A Memória (ou a cultura, enquanto conjunto de memórias de uma sociedade) é, deve ser um espaço de conflito na medida em que sem tensão e conflito nada se move.

Mas ocorre que este conceito de conflito ao qual me refiro, naturalmente é apenas simbólico.

O Brasil – quem não sabe? – segue sendo, ao longo dos séculos, uma das sociedades mais desiguais do planeta. Convivemos aqui com armários largados ao relento, onde os odiadores do país escondem certas memórias incômodas à sua utopia de país europeu fora de lugar, memórias como esqueletos de parentes bastardos, largados ao relento para que apodreçam ao sol.

Não devia ser surpresa para ninguém que os acervos de nossa memória material vivam queimando por aí enquanto suas carcaças permanecem de pé, álibis dos crimes cometidos, geladeiras de memórias mortas pelo desprezo ou pela omissão.

Precisamos ser nós mesmos os guardiões dos museus e das memórias mais caras do país, os acervos em nossas cabeças retidos, pois só as memórias intangíveis, expressas em nossa cultura popular à prova de fogo, pode nos salvar da sanha dos odiadores.

Precisamos, de algum modo nos libertar deles e só assim voltar a guardar nossas relíquias materiais mais amadas em armários seguros.

Spirito Santo
Setembro 2018.

Eugenia é o cacete! Gente não se mistura

•13/08/2018 • 1 Comentário

Gente, água e óleo, tudo a ver.

Somos diversos, este é o nosso destino. Só nos misturamos na lama

Todo hibridismo é estéril. Não existe, portanto mestiçagem, mulatismo, crioulidade possível entre seres humanos.

(É um modismo estranho esse papo de mestiçagem vir refluindo assim, justo agora, como esgoto entupido. É bom falarmos sobre isto)

O Alí Kamel, editor chefe do jornalão, pautou esse tema diversas vezes em O Globo no passado, mas depois que o STF aprovou a pertinência constitucional das cotas raciais, a conversa morreu. Trata-se de uma ressuscitação de uma pauta morta? É um filme de zoombies? Jornalismo amarelado de direita?

Numa dessas matérias do geneticista contratado pelo jornal, por exemplo, o percentual de DNA europeu do Neguinho da Beija Flor e da ginasta Daiane da Silva seria, supostamente, de….60% (!). De que isto nos importaria? Eles viraram brancos diante dessa controversa constatação?

Convenhamos que é um tanto óbvia a conclusão no que diz respeito à aparência das pessoas não definir uma origem “racial” (o que, simples assim, prova apenas que não existem raças). Só me chamou a atenção o fato de quase nunca se mencionar os percentuais do DNA africano das pessoas brancas, que fica sendo o sujeito oculto na história.

Mas fica combinado assim: ser preto – ou branco – não tem fundamento eugênico, você não é uma espécie melhor ou pior de ser humano só porque tem a aparência fenotípica assim ou assada. Existem pretos, existem brancos e todas as possibilidades fenotípicas que estas duas matrizes possam gerar porque, a base de nossa natureza, geral, planetária, é a…DIVERSIDADE.

Pelo amor de deus! Isto é o básico de nossa humanidade.

Desculpem tocar em questão tão óbvia, mas, aparentemente, estas pesquisas morta-vivas parecem sempre querer reduzir a proporção de DNA africano na população (inclusive aquela que é visivelmente negra) e isto é uma coisa muito estranha. Não parece ocasional. Tem algo de intencional este eugenismo mofado e fora de hora.

Muito doida a sugestão dessas pesquisas de que o Brasil, com esta multidão de milhões de negros (e pardos, como alguns querem que se diga, “não-brancos” diria eu) tenha tanto DNA europeu. Haveria assim alguma potencialidade maior, alguma qualidade superior na constituição do DNA dos europeus que o faria mais resiliente que o DNAs das demais fenotipias que, o”inferiores”, se diluiriam com o tempo?

Estranho geneticismo seletivo este. Onde, mãe de deus estão as provas dessas teorias tão escalafobéticas?

Neste sentido, gostaria de chamar a atenção dos mais distraídos: O fato é que, na série de matérias pautadas pelo Kamel em O Globo, a intenção clara era política: reduzir a importância do DNA africano na população brasileira, numa época em que as campanhas pela adoção de cotas raciais bombavam.

(Ali Kamel – lembram? – liderava um grupo radicalmente contrário às cotas, grupo este por fim derrotado no STF. Alguns integrantes desse grupo soturno chegou a montar um tal de “Movimento pardo-Mestiço”, cuja guru principal, a mais proeminente era a antropóloga Ivonne Maggie.

Ninguém falou nisso aqui, mas eu espero que todos já estejam convencidos de que este tipo de pesquisa e seus inusitados resultados nada têm a ver com a questão do Racismo (a tentativa de alguns grupos de negar a sua existência), Racismo este que não passa de uma construção social, implantada no Brasil como “fundamento”, expediente para excluir pessoas em espaços sociais subalternos. A antidemocracia colorida.

Aliás, sempre me espanta um pouco este tipo de busca por ancestralidades biológicas (ou pedigrees) improváveis, ser uma tendência, tão fortemente voltada para o eugenismo (a genética como “prova”), quando se sabe que o DNA seria apenas um minúsculo indício de uma remota origem de alguém, sem a menor chance de identificar ancestrais reais, antepassados indivíduos.

Sugiro a todos que dêem uma estudada básica em pesquisas históricas que dão conta do alto percentual de DNA africano na população europeia – principalmente na nobreza, em todas as famílias reais. Fiz uma rápida pesquisa sobre isso e fiquei com o meu cabelo duro em pé. As descobertas embolam, desmoralizam qualquer conclusão eugenista baseadas nesses exames de DNAs remotos.

(Pobre Dr. Frankenstein)

Vamos pensando melhor no tema, é o conselho. Gastar dinheiro só pra saber se se é mais ou menos europeu, ou africano ou indígena é uma decisão um tanto inútil. Tomaria tudo de cerveja, entre outros prazeres mais…culturais e nesse transe etílico descobriria toda a verdade:

Somos todos negões!

Estou mesmo curiosíssimo é com a importância que o tema do percentual de DNA “racial” (a mestiçagem como sujeito omisso) esteja tão em voga no Brasil. Todo mundo querendo saber se é ou não é negão…até os que evidentemente negões já são.

O que está havendo, pessoal? Este é um tema do século 19!

Portanto, não se assustem, racistas arcaicos. Os negros, os meio negros ou quase negros, os que se parecem com negros, enfim, não estão urdindo planos de vingança. Estão apenas descobrindo que foram enganados.

Relaxem, e aprendam a gozar o prazer seminal de serem apenas gente normal se embolando, rolando agarrada numa lama medicinal dessas, como a de Guarapari.

Spirito Santo
Agosto 2018

Tabato, a Tabanca dos Djidius – Voz da Guiné

•19/07/2018 • 1 Comentário

 
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