Black Blow Up. Nós na câmera da escravidão obscura.

•01/12/2013 • 2 Comentários

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Partida para a colheita de café com carro de boi- Vale do Paraíba do Sul - 1885. Marc Ferrez/ Coleção Gilberto Ferrez/ Acervo Instituto Moreira Salles.

Partida para a colheita de café com carro de boi- Vale do Paraíba do Sul – 1885.
Marc Ferrez/ Coleção Gilberto Ferrez/ Acervo Instituto Moreira Salles.

Esquadrinhando uma foto de Marc Ferrez

( Leia as elucidativas legendas passando o mouse pelas imagens)

Em meados dos anos 1970, ainda desenhista de arquitetura dos Correios e Telégrafos, mas já escalavrando sítios culturais por aí, saindo de uma inspeção numa agência da empresa em obras na Rua da Quitanda, no Rio de Janeiro, me vi lá pelas tantas diante de uma curiosa loja antiga, do século 19, com ares de um sebo literário, algo assim.

Casa Marc Ferrez”, estava escrito num letreiro.

Uma luz branca piscou na minha cabeça de negro. Um flash. Foto em Preto&branco. Havia acabado de enveredar pela pesquisa de fotos sobre a escravidão, coisa raríssima de se encontrar na época, restrita a algumas poucas coleções particulares, inacessíveis ou a uns poucos livros enormes, de capa dura, editados em edições limitadíssimas, mais inacessíveis ainda aos vis e duros mortais feito eu.

Havia visto já em algum lugar umas fotos desta época eletrizante, os primórdios da fotografia, assinadas por um dos mais famosos fotógrafos de então: Marc Ferrez. Liguei na hora os fatos: Casa Marc Ferrez, um estabelecimento remanescente de um outro do século 19 só podia ser a velha loja e laboratório do grande Marc Ferrez, sobrinho do outro Marc Ferrez vindo com a chamada Missão Francesa (na verdade um grupo de exilados bonapartistas) para o Brasil em 1816.

E era.

Entrei emocionado. Bem jovem ainda, jamais poderia imaginar que o passado pudesse ficar preservado assim, por tanto tempo. Foi ali que soube da existência de negativos de vidro, daguerreótipos, carte de visites e outros suportes fotográficos antes do papel. Logo abordado por um velho e atencioso senhor chamado Gilberto Ferrez, tão emocionado quanto eu, ouvi rápidas histórias sobre o legado de seu  avô. Confirmei ali que Marc fizera sim muitas fotos da escravidão, mas elas não estavam disponíveis em nenhuma publicação ainda.

Foi aí que o vírus de investigador e esquadrinhador de imagens foi inoculado em mim. Comecei a encontrar fotos de Marc por todo canto, mas sempre quase nada de suas imagens sobre escravidão.

Este hiato imperdoável, fruto evidente de nosso racismo residual, mas também motivado por fatores muito mais complexos, tais como o nível ainda excessivamente aculturado de nossa historiografia, aferrada demais à metodologias canônicas, que subestimam ainda a importância da iconografia (e da História Oral) como elementos de análise historiológica válidos, este hiato renitente enfim, está começando a ser preenchido.

Só agora, com a caixa de Pandora da internet arreganhada é que estas imagens começaram a afluir. Titio tem publicado na rede, entusiasticamente tudo que descobre neste campo. Me empolga demais quebrar estas vidraças egoístas. Vejam só por exemplo:

(O Museu de Arte Contemporânea da USP, em parceria com o IMS, abriu no dia 28 de outubro, a exposição Emancipação, inclusão e exclusão. Desafios do Passado e do Presente – fotografias do acervo Instituto Moreira Salles, com  fotografias de Marc Ferrez, Victor Frond e George Leuzinger, entre outros. A curadoria é de Lilia Schwarcz, Maria Helena Machado e Sergio Burgi.

A mostra com 74 imagens, inclusive originais de época, analisa o registro fotográfico feito sobre negros – livres, escravizados ou libertos – no Brasil, em um período em que vários fotógrafos estrangeiros atuavam no país com trabalhos com forte elaboração estética e formal. )

“…A fotografia de escravos e ex-escravos no Brasil tem uma particularidade: de um lado, a fotografia entrou cedo no país contando, já nos finais dos anos 1860, com clientela certa, que dentre outros incluía o imperador d. Pedro II; ele próprio um fotógrafo.

De outro lado, a escravidão tardou demais a acabar, guardando o Brasil a triste marca de ser o último país do Ocidente a admitir tal tipo de sistema. Dessa confluência resultou um registro amplo e variado desse sistema de trabalho e de seus trabalhadores.

 As crianças e os adolescentes, poupados da caminhada eram transportados na carroça, talvez para não atrasar a viagem. O garoto da extrema esquerda, já quase adulto, tem sinais de ter problemas renais. O da extrema direita está morto de sono. Todas as crianças olham para a câmera com certo ar de enfado, talvez já acostumados com poses para fotografia.

As crianças e os adolescentes, poupados da caminhada eram transportados na carroça, talvez para não atrasar a viagem. O garoto da extrema esquerda, já quase adulto, tem sinais de ter problemas renais. O da extrema direita está morto de sono. Todas as crianças olham para a câmera com certo ar de enfado, talvez já acostumados com poses para fotografia.

Por vezes tomados ao acaso, por vezes figurando como modelos exóticos ou tipos para a análise da ciência; ora como parte do cenário, ora como figuras principais, escravizados foram flagradas nas mais diversas situações. “

…”Mas se a operação de converter os indígenas em “objeto de estúdio” fazia parte dos cânones românticos de época, mais difícil era captar o dia a dia da escravidão e do trabalho forçado. Grande contradição do Império brasileiro, o sistema escravista foi abordado por diversos fotógrafos, autônomos ou apoiados pela Coroa.

Particularmente nos anos 1870 e 1880 proliferaram as fotos de escravizados, revelando, por sua regularidade, de que maneira o sistema andava naturalizado entre nós e disperso por todo país. Negros figurariam em cartes de visites, mas também nos documentos científicos.

Estariam também presentes nas fotografias de paisagem e na documentação do trabalho nas fazendas de café realizadas tanto por Victor Frond nos anos de 1859 e 1860, como por George Leuzinger por volta de 1860, e Marc Ferrez na década de 1880.  Em todos esses casos vemos a montagem da representação naturalizada da escravidão: tudo em seu lugar.”

“…Contando… com clientela certa”.

A afirmação expressa no texto da curadoria soa contraditória aos mais argutos quando entendida como um ensejo para “um registro amplo” de nossa escravidão. Ora, é por demais evidente que havia uma diferença enorme entre os interesses desta “clientela certa” (e dos fotógrafos a serviço dela) gente esnobe e escravista e os interesses dos escravos. Isto só poderia gerar uma iconografia travada, velada, de modo algum uma ‘variada visão’ do sistema de trabalho e de seus trabalhadores”

É onde peca, claudica a nossa historiografia mais convencional, sempre parcimoniosamente crítica, quase conivente. Uma simples comparação com a iconografia norte americana do mesmo período já nos dá a justa medida do quanto fomos -e somos- excludentes e seletivos (racistas, por suposto) também em nossa fotografia, nas imagens subalternas e comedidas que os nossos fotógrafos de antigamente (a maioria estrangeiros, diga-se) fizeram de nossa realidade escravista.

É pouco ainda. Observem que são apenas 74 imagens reveladas agora por esta exposição (algumas na verdade nem tão inéditas). Eu próprio já conhecia algumas há tempos, de ver aqui mesmo no internet, pesquisando para o meu livro “Do Samba ao Funk do Jorjão“.)

Nestas fotos nenhuma reportagem, nenhuma violência flagrada, nenhuma vítima acorrentada ou manietada num pelourinho, nem mesmo ferida, aleijada, nenhuma máscara de flandres no rosto de uma escrava, nenhum tronco, nenhum instrumento de tortura sequer insinuado num canto de cena, algemas, correntes, nada.

As expressões de todos os homens demonstram desagrado de estarem ali posando. Em alguns, os mais velhos (como este um pouco mais à frente) e o da extrema direita, o olhar é quase de ódio contido. Observem que o da extrema esquerda não esconde  a expressão de uma raiva sarcástica.  O homem ao centro (como o adolescente do corte 01) também tem no inchaço do rosto, sinais de ter problemas renais.

As expressões de todos os homens demonstram desagrado de estarem ali posando. Em alguns, os mais velhos (como este um pouco mais à frente) e o da extrema direita, o olhar é quase de ódio contido. Observem que o da extrema esquerda não esconde a expressão de uma raiva sarcástica. O homem ao centro (como o adolescente do corte 01) também tem no inchaço do rosto, sinais de ter problemas renais.

Isto tudo aí, anti ícones a serem escondidos está mal flagrado em gravuras, como se esta parte fosse uma iconografia do século 18, quando nem havia fotografia ainda. É que gravuras e desenhos não são dados “sérios“, exatamente críveis, qualquer um pode afirmar que aquilo ali descrito nunca existiu.

As imagens que legaram estes retratistas do século 19 foram sim, cuidadosamente controladas e censuradas, de modo algum representando, como dizem com ênfase equivocada nesta resenha, a tal visão “ampla e variada” de nossa escravidão.

É particularmente inquietante o fato de todas as imagens serem rigorosamente posadas, cenograficamente montadas, grande parte com figurino cuidadosamente produzido, muito mais do que flagrantes instantâneos da realidade, vocação precípua da arte fotográfica, uma espécie de arranjo congelado – e não refiro a baixa velocidade dos filmes da época – frames armados de uma ópera em slow motion, com os pobres atores imobilizados, amarrados por correntes invisíveis.

Nem mesmo as pitorescas cenas de rua, com escravos dançando ou amontoados em grupos de “negros de ganho”, tão comuns na obra de artistas como Rugendas e Debret, aparecem nestas fotografias, dando-nos a pertinente impressão de que uma meticulosa censura se não ocorreu na fonte, na captação destas imagens, ocorreu no controle dos proprietários dos acervos resultantes, ciosos de manter ocultas imagens mais constrangedoras e incômodas de nossa escravidão.

É prematuro, contudo se atribuir esta censura imagética a uma suposta conivência ou subordinação dos fotógrafos aos ditames de sua ‘clientela‘. Observemos que a maioria esmagadora destes registros aparecidos, são oriundos de acervos privados, ou seja quase nada foi ainda liberado para acervos públicos, livremente acessíveis à pesquisadores, que têm que se conformar com acervos privados, gradativamente tornados públicos por beneméritos como a família do banqueiro Walter Moreira Salles.

“…Mais uma vez, a forma precisa e estetizada se fazia presente nos cestos bem montados, nas vendeiras dispostas de maneira equilibrada e com panos das costas detalhadamente expostos, nos carregadores de liteiras bem postados. Aí estava novamente o espetáculo de uma escravidão pacífica e sem contestação. No entanto, essas fotos urbanas denunciam igualmente precariedade, indisciplina e certa ausência de controle do trabalho escravo nas cidades.”

Pode existir também – forçoso colocar – algum cuidado ou mal estar dos historiadores atuais de trazer a público imagens mais chocantes de nossa escravidão, que porventura lhes chegue as mãos, num momento em que a maioria dos historiadores ainda é gente branca, de algum modo marcada ainda por algum racismo ou preconceito residuais.

Não se têm por isto mesmo – e isto é um dado crucial nesta questão – a mais vaga ideia do volume de negativos ainda resguardados dos olhos de nós todos, objetos de heranças, aguardando o interesse de compradores ou simplesmente perdidos, esquecidos em gavetas familiares por aí.

É bastante provável por tudo isto, do mesmo modo como ocorreu com a iconografia sobre o negro dos EUA depois das lutas pelos direitos civis, que cenas mais realistas, jornalísticas de nossa escravidão comecem a aparecer na medida em que as cotas nas universidades aumentem o contingente de historiadores negros, interessados em revolver de vez estes inestimáveis dados de nosso passado e as bancas de mestrado e doutorado se tornem mais especializadas no assunto a ponto de ensejar pesquisas menos evasivas ou superficiais.

“… Entretanto, é a partir de uma atenção aos detalhes que os negativos fotográficos registraram, que podemos vislumbrar muitos momentos e ângulos de autonomia e de vontade própria por parte dos fotografados, possibilitando uma leitura a contrapelo ao sentido geral das imagens.

O fato é que a possibilidade atual de ampliar os negativos permitiu que trouxéssemos à tona o registro de detalhes de primeiro e de segundo planos. Hoje, com as novas técnicas é possível buscar ângulos recônditos das fotografias, muitas vezes desconhecidos pelo próprio artista que registrou a cena.

Embora o fotógrafo do XIX não pudesse revelar suas fotos em proporção mais ampliada, o negativo que ele nos legou permite, e é esse o convite que fazemos nessa exposição. A partir de recortes das imagens, vemos gestos e olhares que conferem singularidade aos indivíduos fotografados, fossem eles escravizados, libertandos ou libertos.”

É assim, seguindo as possibilidades instigantes deste novo caminho (na verdade e sem falsa modéstia devo reafirmar aqui que o Titio pode ser considerado um dos precursores mais animados desta abordagem iconográfica) que sigo esquadrinhando minúcias e blowups desta foto, descobrindo até, como faço aqui, agora, esfuziante como uma criança, detalhes que pouca gente ou ninguém viu.

Incrível! Acredite quem quiser (adeptos de São Tomé vão entender.)

Ai Jesus! Escravos brancos europeus?! Como assim.

As mulheres e seus bebês não são de modo algum aliviadas. Na verdade são mais prejudicadas que os homens na caminhada porque caminharão a pé com o peso da crianças e as bacias, nas quais, provavelmente carregam víveres e providenciais guarda chuvas. Calma! Já vi. É disto que estou falado: Tem um gajo inteiramente portuga ali no meio da negrada.

As mulheres e seus bebês não são de modo algum aliviadas. Na verdade são mais prejudicadas que os homens na caminhada porque caminharão a pé com o peso da crianças e as bacias, nas quais, provavelmente carregam víveres e providenciais guarda chuvas. Calma! Já vi. É disto que estou falado: Tem um gajo inteiramente portuga ali no meio da negrada.

Calma. Posso explicar tudo e exulto já de antemão diante da surpresa de vocês. Fiz um esquadrinhamento meticuloso desta maravilhosa foto de Marc Ferrez e posso, praticamente provar uma tese minha, antiga que sempre irrita os militantes negros mais xiitas: a de que o sistema de trabalho escravo não se confundia, exatamente com o sistema racista implantado e aperfeiçoado logo após a abolição.

Sim, sim! Escravos brancos, europeus! Uma descoberta surpreendente esta que eu – e sei lá mais quem – acabo de fazer.

Ninguém – nunca ouvi falar até hoje – viu o que vi porque…sei lá, talvez seja porque, normalmente olhamos numa fila de escravos, apenas negros africanos, uma massa amorfa de gente preta e nem ligamos para a humanidade ou a individualidade de cada uma das pessoas ali flagradas, nunca as olhamos nos olhos. E daí perdemos a parte melhor do filme.

Eu não. Cri cri, perdigueiro, amo os detalhes e as minúcias de paixão.

Quero entrar naquele tempo, ser uma daquelas pessoas, viver a história delas, mesmo que vá doer. Fiz assim alguma investigação para embasar o melhor possível esta minha mui inusitada afirmação. Macaco véio, estou vacinado já contra os narizes torcidos e a parcimônia dos mais doutos diante deste meu dom involuntário para descobrir fissuras e detonar o senso comum.

Aconselho, portanto a todos que afirmam que o Titio “viaja”, guardar o ceticismo para depois. Senão vejamos:

…Os imigrantes portugueses figuravam no estrato mais baixo da sociedade do Rio de Janeiro na segunda metade do século XIX, ao lado de negros e mulatos. Os portugueses e os negros habitavam o mesmo espaço geográfico, frequentemente dividindo o mesmo cortiço e compartilhavam da vivência na cidade…

…No caso da imigração portuguesa para o Rio de Janeiro, ela se intensificou quando o tráfico negreiro ainda estava em pleno funcionamento. Tratava-se, sobretudo, de uma imigração de jovens açorianos com idade entre 13 e 17 anos (a mesma média de idade dos escravos trazidos da África (grifos meus).

Na época, havia denúncias de que os navios negreiros também eram usados para trazer esses jovens portugueses para o Brasil, que eram chamados de engajados. Os jovens assinavam um contrato com o capitão do navio no qual, em troca da passagem de navio, se comprometiam a trabalhar para algum senhor no Brasil. O capitão do navio vendia o passe desses portugueses para o senhor, no valor da passagem e, ao pagar, o último adquiria esse trabalhador.

Os engajados tinham que pagar a soma do valor da passagem através de trabalho gratuito, cujo tempo era estipulado pelo próprio senhor, muitas vezes chegando a três ou cinco anos. Os imigrantes que se evadissem das terras antes do término do contrato eram tidos como “fugidos”. Todas essas características aproximavam os imigrantes portugueses da condição social dos escravos no Brasil.

As péssimas condições a que eram submetidos esses imigrantes portugueses no Brasil se refletiam nas estatísticas. Entre 1850 e 1872, a maioria dos adolescentes portugueses que desembarcavam no Rio de Janeiro morriam três anos após a chegada ao Brasil, vítimas de febre amarela, das más condições de moradia e das jornadas exaustivas de trabalho. Era a denominada “escravidão branca”, denunciada pela imprensa da época.

A maioria dos imigrantes portugueses na cidade era de adolescentes e jovens do sexo masculino, analfabetos, oriundos de zonas rurais de Portugal, completamente despreparados para enfrentar a vida numa metrópole do porte do Rio de Janeiro.

Fonte: “Dos fadistas e galegos. Os portugueses na capoeira” /Carlos Eugênio Líbano Soares:

Viram só? Quem diria? Como nunca nos apercebemos deste fato tão candente? Digo assim, de vê-lo fotografado, tão cabalmente demonstrando a tese de Líbano Soares. Alguém aí, algum outro historiador mais do ramo sabia disto, dos portugueses na foto de Ferrez? Se há algum bidu antes do Titio me responda: Porque diabos este flagrante andava escondido de nós, o pá?

Já cansei de dizer: Não tenho a menor pretensão de desmontar o estabelecido. Ocorrem comigo naturalmente estas coisas. Tirocínio de futucador, de bicho carpinteiro, faro, intuição, mero acaso, sei lá. Fazer o quê? Afinal era só olhar para ver.

No ensejo, abro para todos vocês o meu detetivesco e leigo método de esquadrinhamento de imagens antigas, que muito tem adiantado a minha vida de pesquisador, fatiando a foto em sub-fotos, micromilimetrando minúcias, desvendando em blowups os detalhes mais invisíveis aos olhos distraídos, supondo com insights e palpites para depois sair catando as provas por aí.

E aqui…Ai, Jesus! Outro escravo portuga! São dois os portugas!

E o portuga com cara de revoltado? Como seria a vida destes gajos ali no meio de gente tão diferente, pagando a aventura de emigrante com a servidão, melhor que os outros, já que tinha a alforria programada (mal sabia ele que apenas três anos depois a abolição para todos viria, de qualquer jeito.)

E o portuga com cara de revoltado? Como seria a vida destes gajos ali no meio de gente tão diferente, pagando a aventura de emigrante com a servidão, melhor que os outros, já que tinha a alforria programada (mal sabia ele que apenas três anos depois a abolição para todos viria, de qualquer jeito.)

Ah…Como viram, não resisti também de comentar corte a corte (passe o mouse nas imagens que as legendas aparecem), instigado em poder partilhar com vocês o olhar das pessoas da imagem, tateando a alma delas, agora liberadas para nos repassar suas mensagens cifradas naquele instante da foto, deixando de ser meros avatares de um sistema para serem de novo gente comum, como eu ou vocês, assim, num ampliador reveladas para o futuro, alforriadas.

Deixe então tudo de besta que traz dentro de si, a empáfia o ceticismo vazio e a arrogância, largue tudo na antessala deste senso comum embolorado. Entre vazio de certezas neste portal de forevers. Convido-os a cair dentro desta câmera obscura, para nos reconhecermos brilhando dentro dos olhos destas pessoas, quase a abraçá-las.

 E por fim...Ela, a mais nova e mais bela, a insolente e abusada. Entre todos a única pessoa que desafia a câmera. Que rebeldias terá feito na vida? E o portuga? Como seria a vida destes gajos ali no meio de gente tão diferente, pagando a aventura de emigrante com a servidão, melhor que os outros, já que tinha a alforria programada (mal sabia ele que apenas três anos depois a abolição para todos viria, de qualquer jeito.)

E por fim…Ela, a mais nova e mais bela, a insolente e abusada. Entre todos a única pessoa que desafia a câmera. Que rebeldias terá feito na vida?

E qual terá sido o final deste filme emocionante? De que importa? Blow Up não tem fim, como naquele filme do Antonioni, estão sabendo?

Spirito Santo

Dezembro 2013

Viva Vissungo! É nóis!…Apesar deles.

•30/06/2015 • Deixe um comentário

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Saudades dos “Pacotes Culturais”

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2015. Reinaldo Amancio, Lula Espírito Santo (encoberto) e Spírito Santo. Vissungo em turnê.

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1978. Show histórico na favela do Caramujo, Niterói: Lula Espírito Santo (perfil), Carlos Codó in memorian e Spírito Santo (de costas)

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1995. Spirito Santo, Reinaldo Amancio (o baixinho), Jahir Soares (o careca) e Lula Espírito Santo. Até hoje aí. E aqui.

Na próxima quinta feira, dia 02 de Julho, com fecho de ouro no sábado, 04/7 (na Arena Cultural Dicró, na Penha, ás 20hs) o Vissungo encerra a sua heróica turnê por lonas e arenas culturais da zona oeste da cidade do Rio de Janeiro. Foi uma das mais felizes turnês de nossa longeva carreira, que já vai passando dos incríveis 40 anos.

Talvez ninguém se lembre, mas uma das bandeiras mais caras á ideologia do Vissungo, depois da pesquisa de campo, aquele se embrenhar nas maravilhas musicais do black Brasil profundo, a música oculta da Diáspora africana que cunhou a nossa estética negro-pop, depois desse mergulho artístico tão bem sucedido, assumimos como missão tocar, sempre que possível, para gente das periferias, ir de verdade “onde o povo estava”.

Na crônica de nossa carreira, nunca esqueceremos a turnê denominada “Pacote Cultural”, um programa idealizado pela Secretaria Estadual de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, comandado á época (final da década de 1970) pelo teatrólogo Paulo Afonso Grisolli. O convite partiu da querida musicóloga Cecília Conde, coordenadora de música do programa, entusiasta de nosso trabalho desde o início.

A missão desses “Pacotes Culturais”, entusiasticamente aceita por nós, consistia em realizar shows nos mais recônditos cantões do interior do estado com pouco ou nenhum recurso técnico, sem som, sem palco convencional, sem nada, bem no jeito do que o pessoal de teatro na época chamava de “mambembar”.

Viajávamos num fusca entulhado por nós músicos mais os instrumentos (empilhados num bagageiro), numa imagem indiana. Tocávamos em coretos, salas de aulas, púlpitos ou altares de igrejas, quadras de esporte, onde desse.

A filosofia dessas ações oficiais de dinamização da cultura no nosso estado, que vinham de encontro á nossa ideologia de antiga banda suburbana, era um imperativo nas políticas de fomento cultural da época. A população das nossas periferias e do interior, não tinham acesso a, rigorosamente nenhuma atividade artística que não fosse o ainda incipiente acesso à televisão. Não existiam grandes shows promovidos por prefeituras, não haviam casas de espetáculos, shows em clubes, nada.

Este episódio dos primórdios da descentralização das cenas artísticas, musicais do Brasil foi recordado por nós, forçosamente agora, no ensejo desta turnê no âmbito do projeto da Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro, ao qual nos habilitamos via edital (Fomento Cultural-Rio 450 anos).

Conhecemos então, muito entusiasmados, uma enorme rede de equipamentos culturais (lonas e arenas) espalhados pela extensa periferia da cidade, notadamente a grande zona oeste. Era tudo que sonhávamos ter naqueles velhos tempos. Este sonho se concretizava ali, na agradável missão de tocar em 10 desses equipamentos com som, luz, divulgação, tudo do bom e do melhor.

Como senões apenas as incongruências desta nossa época de paradoxos.

Constatamos, contudo que hoje, o Rio de Janeiro – e o Brasil, como um todo – tem muitos problemas ainda -problemas novos – no que diz respeito à difusão e fomento cultural. O principal deles talvez seja a mercantilização exacerbada da cena artística, e a centralização das ofertas no campo restrito – e imbecilizante – da masssificação.

Assim, a cena musical, por exemplo passou a ser condicionada, radicalmente aos interesses comerciais e às ofertas ditadas pelo mainstream, sem nenhum espaço para a diversidade artística, com prejuízos culturais incalculáveis.

A contradição entre a exuberância da oferta (a cena musical da cidade do Rio, por exemplo é, sempre foi, potencialmente muito rica) e o gosto massificado do público gera o paradoxo desta rede formidável de equipamentos operar quase sem público, como ocorreu em nossa turnê e ocorre, segundo nos informa o pessoal das lonas e arenas, de forma recorrente.

Elefantes brancos?

O que bomba nas lonas e arenas culturais? Um certo Funk, o Pagode Chic, o Sertanejo Chic e qualquer som de segunda mão, copiado do que estiver bombado na Mídia ou que tenha um artista do segundo time da TV Globo como estrela, sub produtos enfim do que está sendo ofertado pelo mainstream mais rasteiro e oportunista que já tivemos notícia por aqui.

A questão não é ignorada. Ela tem gerado muitas polêmicas, a maioria delas falsas, como a que cria uma suposta oposição entre o “puro e sincero gosto popular” e o “gosto burguês elitista”, uma proposta de debate oportunista porque, é fácil perceber que não se trata de uma questão de gosto musical.

Trata-se da redução drástica da oferta, restringida pela barreira midiática que impõe um “gosto musical” compulsório, um monopólio do raso, do simplismo artístico, do “seja lá o que for’, desde que dê lucro.

(A forjada comoção midiática pela morte de Cristiano Araújo que nos diga)

E não é só isso. Há também uma série de incongruências das políticas oficiais de fomento, erráticas e, de certo modo indiferentes ao problema, deliberadamente omissas, pois, qualquer política pública no campo da cultura – quem não sabe? -precisa envolver alguma sinergia entre o estado, o artista e as platéias. Não adianta muito, como constatamos em nosso caso, montar uma rede de equipamentos ideais e entregá-la ao deus dará do mercado, ao pega pra capar do mainstream.

Isto sem falar (e já falando) na enorme vulnerabilidade das políticas baseadas na renúncia fiscal (lei Rouanet) à corrupção nossa de cada dia, com editais corrompidos pelo superfaturamento dos contratos, ensejando um mercado de propinas que, agravando o problema do nivelamento artístico por baixo, já imposto pelo mainstream, impõe a lógica da predileção por projetos e artistas – não importa quais – que possam ensejar cachês mais elevados, passíveis de serem artificialmente engordados nas planilhas, para gerar sobras lucrativas para a rede de corrupção, infelizmente implantada, como parasitas em dez entre dez secretarias de cultura do país.

Essas políticas de desperdício cultural são preocupantes, absurdas, um entrave à ampla circulação da diversidade musical, artística enfim. Precisam ser demolidas

Há neste momento na alma do Vissungo, portanto uma felicidade agradecida. Cumprimos com muito empenho uma missão-delícia, nossa música black-exuberante rolou por aí em 10 ótimos palcos, cachês decentes, som e luz, alegres camarins…

…Mas muito nos constrangeu as platéias quase sempre vazias.

Contaminada pela estupidez do vale tudo corrupto que se apossou do país, vivemos o paradoxo do artista ter o palco, a cena, mas não saber mais onde o público está.

Alguém aí sabe onde o povo, realmente está?

Spírito Santo
Junho 2015

“A Patrulha”. Meu sangue escrito na neve da segunda guerra mundial

•20/06/2015 • 1 comentário

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Quem tem esta glória familiar que à mantenha viva, para sempre.

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Imaginem! Meu pai herói, teve um combate do qual fez parte no norte da Itália em 1945 registrado num jornal.

Fico aqui, chapado de emoção imaginando o quanto de orgulho meus irmãos e filhos sentirão de seu pai e avô, agora herói mesmo, sacramentado e juramentado.

A notícia eletrizante saiu no jornal (ou periódico) “O Cruzeiro do Sul” do dia 1° de março de 1945, pag 4. A crônica, assinada por aquele que é considerado o maior correspondente de guerra brasileiro, Joel Silveira se chamava “A Patrulha”. Quem garimpa e encontra é, de novo a dileta amiga Bete Scg que me pergunta:

“_.. Vê se pode ser ele”

Sim! Só pode ser ele. Que coisa impressionante!

(Clique na imagem para ler a matéria)

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Seu nome era muito incomum para ser um homônimo. Seria muita coincidência haver um homônimo no mesmo exército, na mesma guerra. Quando convocado estava morando aqui no Rio de Janeiro há muito tempo. Fugiu de casa, em Diamantina, MG com cerca de 14 anos, nunca soubemos, exatamente porque e, sabe-se lá como, fixou-se no Rio de Janeiro desde então.

José Cyrilo chegou no Rio de Janeiro (na época Distrito Federal) sozinho passando, segundo contou para minha mãe, por São Paulo ali por volta de 1932. No ensejo de sua convocação para a guerra na Europa, já estava aqui, portanto por cerca de 13 anos e deve ter sido identificado no quartel, por alguma razão, como natural daqui do então Distrito Federal.

O “Ceará” ao qual a crônica se refere, pode ser o amigo mais chegado dele, morto numa barraca de campanha num inesperado bombardeio alemão. Ele contou este incidente para minha mãe Geny, se referindo a um nordestino (tinha na memória que minha mãe falara num “Paraíba“, mas pode muito bem ter sido um “Ceará”).

Ele, Cyrilo, saiu da barraca com uma caneca de café recém feito, justo na hora em que o morteiro caiu. Por segundos não morreu neste incidente e eu, seu filho não teria existido para contar sua formidável história.

Talvez tenha sido um dos muitos gaúchos da bem sucedida patrulha, aquele amigo presenteou Cyrilo com uma bela cuia de chimarrão, com borda e bomba de prata, que guardo carinhosamente comigo até hoje (veja a foto)

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(…Eu sei. Preciso limpar a prata, mas é que gosto do óxido do tempo)

Num doc. de 1967, já publicado aqui, minha mãe solicita ao exército a correção do nome de José Cyrilo no certificado de sua medalha de campanha, grafado sempre equivocadamente sem o “y”.

Acordei há pouco e esta foi a primeira notícia do dia. Estou aqui emocionado, tomando o meu cafézinho matinal. Um bomba boa acabou de explodir aqui no meu cafofo.

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Felix Araújo: soldado 6362. Expedicionário da II Guerra Mundial. Itália, dezembro de 1944.

http://www.defesanet.com.br/ecos/noticia/2786/15-de-setembro-de-1944—–A-cobra-esta-Fumando—-Brasileiros-entram-em-combate-na-Italia/

(O jornal “Cruzeiro do Sul” onde a crônica foi publicada tem como fundador e principal colunista, a interessante figura de Félix de Araújo, paraibano, pracinha voluntário (veja a foto) correspondente de guerra, poeta que se tornou comunista e político muito bem sucedido, assassinado em 1953 com um tiro pelas costas, desferido por um desafeto político.

Existe uma controvérsia sobre a fundação do jornal, atribuída, oficialmente à FEB, segundo o link que obtive, em matéria onde o nome de Félix de Araújo, sequer é citado.

Agradeço comovido a este outro herói de guerra que foi Félix de Araújo, ou quem quer que seja o autor da crônica, por ter registrado para a eternidade o heroísmo de meu pai.

Aguenta coração!

Spírito Santo

Junho 2015

Auto do Manoel Kongo/ AMK. Mané Kongo: Tição botô fogo na mata

•10/06/2015 • 4 Comentários

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Arcozelo 30

Equipe deflagra projeto de montagem do Auto do Manoel Kongo no Vale do Café

Velho Caxambuzeiro:

_”O ambiente tá pesado por aqui nesta fazenda da Freguesia. O capitão-mor, o dono…mandou feitor fazê guarda na frente da senzala dia e noite…Inda mês passado mataram um feitor por aqui…As coisa são falada a boca pequena que é pra guarda nacional não saber…O capitão-mor tem medo que o Werneck, chefe da Guarda Nacioná, de Valença, mancomunado com os Avellar, o Correa e Castro, o Leite e todos os seus inimigos, arranjem um jeito de ferrar ele. Vão querer botá tropa nas terras dele. Vão ter um prato feito para arruinar Manoel Francisco Xavier…”

(Velho segue)

_”…E o que ele fez? Botou polícia interna, falou com os capanga e com os feitor que daqui não sai negro nenhum, nem vivo nem morto, pra fazê quilombo…O Werneck da guarda nacioná já tá inteirado. Investigou que lá pros lado do Pilar, a polícia prendeu um mascate sabe com o que? Uns tres barril de pórvora encomendado pelos preto daqui…Num se sabe com que dinhêro, nem com que intenção. Pórvora, sô! Só pode ser pra fazê furdunço!..Botar nas espingarda e matá branco…Virge Nossa Senhora!..Mas…tá bom. A gente sabe mais que eles, né? Só que vamos ficar como diz João Angola…de boca lacrada!”

                                   (Auto do Manoel Kongo de Spirito Santo, fragmento)

Foi muito mais do que eletrizante conhecer a antiga Fazenda da Freguesia, atual Aldeia Arcozelo, em Paty de Alferes, núcleo do qual se originou toda a ocupação e o fausto do chamado Vale do Café (Vale do rio Paraíba do Sul) no século 19.

Por uma destas coincidências mágicas da vida, destino escrito sei lá, ali por volta de 1966, aí com os meus 18, 19 anos e já mexendo com estas coisas de teatro e por conta de um prêmio que o meu grupo suburbano (o MOCA) recebeu, havia visitado a Aldeia Arcozelo.

Não fazia a menor ideia até então de que aquele lugar havia sido a maior fazenda de escravos da primeira metade do século 19 na qual foi deflagrada uma das maiores insurreições de escravos da Diáspora americana.

Cheguei a conhecer Pascoal Carlos Magno o dono e principal incentivador daquilo que era uma formidável iniciativa de fomento do teatro brasileiro. Tenho uma vaga lembrança da exuberância e do bom estado de conservação do complexo, tanto que me deu uma certa tristeza revoltada, ver a degradação do local, principalmente a velha casa grande, com partes desabadas e ameaçadas de ruir.

Arcozelo 7Na entrada do complexo vimos uma grande placa da Funarte, atual administradora da Aldeia de Arcozelo, mas no interior nenhum sinal de obras de manutenção ou restauração do que se trata de um dos complexos arquitetônicos do século 19 (as construções iniciais remontam o século 18) mais importantes das Américas.

Os funcionários e contatos locais nos informaram que um presidente e outras autoridades da Funarte já estiveram por lá em solenidades e vistosas visitas, mas nada de concreto ainda ocorreu. Fala-se em verbas emendas parlamentares e recursos de um novo PAC, mas nada realmente conclusivo.

Não compreendi, enfim como está sendo encaminhada a questão da salvação deste patrimônio inestimável, seriamente ameaçado, por parte do Iphan, do governo brasileiro enfim, já que a Funarte, embora sendo uma herdeira natural do sonho teatral de Pascoal Carlos Magno – um dos aspectos relevantes do valor do espaço como bem cultural imaterial – não tem, absolutamente nenhuma relação com a preservação de patrimônio arquitetônico e histórico, da cultural material deste importante lugar.

Tampouco jamais poderia imaginar que tantos anos depois me veria envolvido com a pesquisa e a criação de um espetáculo teatral que narra, em minúcias historicamente bem realistas os incidentes principais da revolta. Afinal foi ali que estes tumultuosos incidentes ocorreram. Exatamente ali os personagens todos do Auto do Manoel Kongo viveram conspiraram, se rebelaram e morreram no calor da refrega numa mata próxima ou mais tarde, cansados de cativeiro, moídos de velhos ali pela fazenda mesmo, onde muitos estão enterrados.

Dá bem para vocês entenderem a emoção indescritível que senti caminhando pelos espaços, pátios, alpendres e cômodos onde os personagens da história que escrevi, efetivamente existiram.

“…O tenente-coronel Gil Francisco Xavier herdou a fazenda Freguesia com a morte de sua mãe adotiva, Francisca Elisa Xavier, primeira baronesa da Soledade, viúva de Manuel Francisco Xavier. Endividado pelo jogo, Gil Francisco Xavier cedeu ou vendou a fazenda para o médico português Joaquim Teixeira de Castro que mudou o seu nome para fazenda Arcozelo, que era onde ficava a quinta de sua família em Portugal (freguesia de São Miguel de Arcozelo, concelho de Vila Nova de Gaia). Joaquim Teixeira de Castro recebeu do rei D. Luís I de Portugal, em 1874, o título de visconde do Arcozelo.

“…A partir da década de 1930, o excelente clima da região passou a ser conhecido nacionalmente com a propaganda feita grande médico infectologista Miguel da Silva Pereira. Isto atraiu muitos turistas de veraneio procedentes da cidade do Rio de Janeiro e, assim, a fazenda foi transformada em hospedaria em 1945.

Finalmente, a fazenda foi loteada e a parte com as edificações tornou-se propriedade de João Pinheiro Filho, que, em 1958, a doou ao embaixador Pascoal Carlos Magno com o propósito de ali criar uma escola de teatro e local de retiro de artistas.

O centro cultural Aldeia de Arcozelo foi inaugurado em 1965.”

                           (Wikipedia)

Arcozelo 15

A impactante emoção influenciou então fortemente o plano da montagem, já que o complexo arquitetônico tipicamente do século 19, de maneira incrível se presta maravilhosamente à encenação do Auto, contendo em seu contexto todos os cenários constantes da itinerância do formato que eu, o autor estou propondo, com cenas ocorrendo num curto trajeto percorrido pela plateia.

O fato de serem cenários absolutamente reais, torna a ideia de montar o espetáculo na antiga fazenda da Freguesia, absolutamente irrecorrível.

Assim, depois de uma animada e bem sucedida rodada de encontros com secretários de cultura e pessoas representativas da região saímos de lá decididos a promover uma série de espetáculos em, pelo menos duas ou três cidades do Vale do Café.

Uma conspiração virtuosa foi deflagrada e os quilombolas buscam as armas para subir e ocupar a Serra.

O Quilombo de Manoel Kongo, vive!

“…Mané Kongo botô Paty pra queimá…
….Matou, incendiou, fez tudo pra fugir
do cativêro de Paty…”

_Tição botô

(coro) Fogo na mata

_Vagalume alumiou

(Coro)Toda a mata…”

(Jongo do Mané Kongo, música tema do Auto)

Spirito Santo
Fevereiro 2014

Arcozelo 39E a equipe é:

Spirito Santo ( autor)

Aurélio Mesquita (Direção Teatral)

José Luiz Menezes Júnior (Secretario de Cultura de Vassouras)

Samba, Futebol e Congada mineira: Tudo a ver!

•07/06/2015 • 3 Comentários

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Zuzuca, o esperto rei negro flanando por aí

Meu amigo Julio Barroso, aqui no Facebook, todo animado, exalta:

(Comece abrindo este link):

(Agora siga a onda):

Julio Barroso:

“_E a torcida do Barça canta; Olê lê, olá lá, pega no ganzê, pega no ganzá! Esse samba virou patrimônio universal da humanidade…Valeu Salgueiro!”

Titio iconoclasta consciente, questionando, veemente:

“…Valeu, Salgueiro, o cacete! Tá no livro do Titio: Este refrão foi plagiado de um ponto de congada da cidade de Oliveira, MG. O samba inteiro, aliás. Zuzuca só mudou a letra do estribilho. Rs rs rs rs…Titio tem a prova.

        Valeu, isto sim, congadeiros de Oliveira!”

O samba “do” Zuzuca não é samba. É um ponto de Catupé*!

Está lá, no meu livro “Do Samba ao Funk do Jorjão“, primeira edição, na página 225:

“…Voltando à ligação entre o catupé e a Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro, tivemos certa feita, pesquisando congada na região (Minas Gerais) , a grande surpresa de nos depararmos, numa noite em Oliveira — na década de 1970 —, com um desses ternos de catupé (*dança típica do ciclo das congadas) cantando algo que, segundo informações dos mais velhos do lugar, era “um dos pontos mais populares e antigos da festa, remontando talvez ao tempo da escravidão”.

O intrigante era que o refrão do ponto nos era muito familiar, pois, tinha exatamente a mesma letra e melodia do conhecidíssimo Samba da Acadêmidos do Salgueiro — “Festa para um Rei Negro”, “de” Zuzuca — no carnaval de 1971: “Oi lelê/ Oi lalá/ Pega no ganzê/ Pega no ganzá”.

Versando sobre a caminhada de um terno de congo rumo à coroação de Nossa Senhora do Rosário — um tema muito comum nas congadas em geral por ser a santa reconhecida pelos congadeiros como solidária com o sofrimento dos escravos — o resto da letra do ponto de catupé era inteiramente diferente dos versos de Zuzuca; a melodia, no entanto, era rigorosamente igual à do Samba.

Oh, Senhora do Rosário
que vem nos abençoar…

…………

…que beleza!
inté manhã
que noutro dia eu vou voltar.

Oi lelê
Oi lalá
Pega no ganzê
Pega no ganzá,

A despeito da possibilidade de termos aí uma evidência de plágio de um tema folclórico, coisa infelizmente muito comum em nossa música popular, o fato tinha uma explicação marota, proposta por um velho Mestre de Catupé da cidade com um sorrisinho “mineiro” nos canto dos lábios:

Zuzuca, o pitoresco salgueirense autor do samba, antes de ser um mero plagiador seria na verdade um conterrâneo, mineiro de Oliveira como todos os outros catupezeiros locais; seria, isso sim, um grande apaixonado pela cultura de sua terra natal, da qual havia decidido se tornar o difusor.

Como o incidente foi presenciado por este autor in loco em época ligeiramente posterior ao sucesso do Samba atribuído a Zuzuca, alguém poderia considerar que o ponto de catupé é que foi, ele sim, plagiado do célebre “Pega no ganzê”.

A possibilidade, no entanto, convenhamos: é bastante remota. A paródia não é, de modo algum, prática usual em manifestações folclóricas, pelo menos no Brasil.”

(Spirito Santo in Do Samba ao Funk do Jorjão“)

————

Na matéria deste link abaixo, há uma explicação algo equivocada da história:

“…A música foi uma das responsáveis pelo título do Salgueiro naquele ano. Ganzá é o nome de um instrumento de percussão parecido com o chocalho e a palavra ganzê foi inventada pelo compositor para rimar. Após o sucesso no Carnaval, a letra foi adaptada de acordo com o interesse de cada torcida, mas a melodia não foi modificada”

Mero chute do articulista, mal informado: Chama-se hoje, por aí, chocalho de ganzá. No interior de Minas Gerais contudo, “Ganzá” é como o pessoal desta região de Oliveira até Montes Claros, chama o pequeno reco-reco usado na dança do catupé. O nome vem, seguramente de “DiKanza” um tradicional e muito popular reco-reco angolano.

Com certeza é este o “Ganzá” da música apropriada pelo esperto Zuzuca.

Na mesma matéria Zuzuca dá a sua marota versão para a estupenda internacionalização do “seu” samba::

“…Tudo começou no Maracanã. Daqui, saiu espalhando para o mundo afora. A torcida brasileira lá na Copa do Mundo, América do Sul toda, eu gravei samba no mundo inteiro, mais de 40 países.”

(Esqueceu de agradecer à Nsa. Senhora do Rosário, a quem a música foi devotada talvez ainda no tempo do cativeiro. Zuzuca ganhou muita grana com este samba.

Titio sabe. Titio diz.

———–

Aviso final aos incrédulos: Titio guarda consigo até hoje, mais de 40 anos depois, a fita K7 gravada in loco, numa rua de Oliveira, MG, coalhada de ternos de congada, um deles cantando o “Pega no Ganzê” original.

Ahá!

Spirito Santo

Junho 2015

As chaves da alma abrem, escancaram mais uma porta do passado…e já nem sangra.

•05/06/2015 • Deixe um comentário

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Ruínas dos fundos da velha cadeia do presídio da Ilha Grande, Rio de Janeiro

Titio na hemeroteca da BN: Quase um anti superstar

(E não vivo dizendo? Titio tem história.)

Emocionado aqui. Bastante, coração apertado e tudo. A amiga pesquisadora Bete Scg​ me socorre e encontra na hemeroteca da BN dados jornalísticos sobre a orgulhosa prisão do Titio como subversivo em 1969.

Gratidão eterna.

habeas Data 2

A casa na verdade – o policiazinha inapta – na verdade era outra, que não consta no inquérito e era um aparelho da Var Palmares. Nenhum de nós três morava lá.

Havia muito material no aparelho, inclusive, que eu tenha visto, pelo menos um velho fuzil e o tal mimeógrafo. Cruzamos uma vez com pessoas estranhas lá, deviam ser figurões da organização. Me lembro que eram muito brancos e se vestiam como europeus ou gente rica da zona sul, algo assim muito ” bandeira” num subúrbio, para quem faz coisas perigosamente clandestinas.

Na minha casa mesmo só havia “documentos” (textos de estudo marxista ou manuais de luta armada) escondidos no baú de um velho sofá cama e meus livros. Cercaram o quarteirão. Levaram e destruiram tudo. Como não conseguiram arrancar nada de nós no Exército, onde foi o “interrogatório” (e nem foi assim tão  insuportável a tortura), nada disso, da Var Palmares, pode constar nos inquéritos…uffa! (num dos docs. que li do inquérito, diz que esqueceram de separar o que apreenderam de outras apreensões e contamiram, melecaram todas as provas. )

(Cliquem nas imagens para ampliá-las)

Abaixo, Titio Spírito Santo tal como estava em Agosto de 1968, em foto para a revista do Festival Estudantil da TV Globo, apenas quatro meses antes da prisão. Como se vê, pareço mesmo um perigosíssimo terrorista subversivo.

Habeas Data 3

Habeas data corrigido 1

O curioso é que a polícia ignorou, solenemente esta decisão judicial noticiada pelo jornal Tribuna da Imprensa 5/6 de julho de 1969 e não me libertaram de jeito nenhum.

Me lembro que estava na Ilha Grande nesta época, transferido para lá na madrugada do dia 12 de junho de 1969 e nem cheguei a ficar sabendo que a II Auditoria da Marinha, tão “boazinha”, havia acatado este recurso de forma assim tão meiga, como se houvesse lei na ditadura.

Habeas data corrigido 2

Como se vê, a minha prisão preventiva foi prorrogada por mais seis meses e segui preso por quase dois anos, sem nenhuma acusação formal apresentada.

Era uma justiça de fancaria aquela. As vezes podiam absolver presos que já estavam mortos. A cada recurso legal concedido, havia sempre um novo pedido de prisão preventiva interposto e decretado. Além de torpes eram ineptos em sua opressão desmedida.

O fato é que nem me lembro direito quando saí de lá, da Ilha Grande.

Não achei nenhum doc. de minha saída de lá, nenhum memorando, nada. Só sei que não foi dessa vez que saí. É como se, oficialmente eu ainda estivesse lá, fantasma entre as ruínas do presídio, hoje demolido.

Sei apenas que voltei para a prisão da Dops e lá fiquei e estava ainda lá em setembro de 1969, quando do rumoroso sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrik. Me lembro bem até de um dos libertados que estava comigo nesta prisão da DOPS: Ricardo Vilas, o de mais baixa estatura entre os libertados, algemados em frente ao avião Hércules que partiria para o México (veja na foto)

Habeas Data 9

Ricardo é músico. Integrava o grupo vocal Momento Quatro (veja no link com Ricardo ao lado de Edu Lobo, na foto) que apresentara com Edu Lobo a música Ponteio, no III Festival Música Brasileira de 1967. Mostrei a ele uma música que havia composto pouco antes da prisão, se não engano, uma parceria interrompida com o Carlos Dafé. 

(Por acaso, depois de tanto tempo, me encontrei dia desses, não tem nem um mês, com o Ricardo Vilas na UFRJ – ele, claro nem se lembrava mais de mim – por força de um ensejo para-acadêmico que talvez nos reúna e do tão pequenininho que este nosso mundo é.)

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O MOITA citado na matéria ao lado, na verdade era um grupo de teatro do Méier, recém criado por influencia do MOCA (Movimento Cultural e Artístico) este sim a tal “célula comunista” segundo a polícia, de onde saímos todos os presos, que, por acaso, faziam teatro mesmo. Muito Brecht. Eu, por exemplo dirigia a música do grupo.

Éramos, portanto, subversivos bem novatos. Havíamos, os três presos naquele janeiro, feito apenas dois treinamentos com arma de fogo, no alto da Serra de Bangu (um deles com uma velha garrucha enferrujada)

O fato é que nunca soube, exatamente quanto tempo fiquei preso. Presumo que tenha sido entre um e quase dois anos. O único doc. oficial que consegui do fim desta saga foi o memorando desta mesma II Auditoria da Marinha comunicando à DOPS o arquivamento do meu processo em 1970 (no print)

Habeas Data 6Não tinha a menor ideia sobre a existência dessas matérias de jornal sobre o trâmites do meu processo. Me senti importante guerrilheiro, juro. Estas matérias de 1970 provam, cabalmente que não me soltaram mesmo em julho coisíssima alguma. De abril de 1970, provavelmente (me lembro vagamente) prorrogaram a prisão preventiva por mais seis meses.

Devo ter sido solto, ali pelo final de 1970, cumprindo uma cadeia, como sempre imaginei, cerca de 2 anos.

Vou enviar todos estes docs. recentes à Brasília onde corre um interminável processo no MJ/Comissão de Anistia, visando a reparação dos crimes da ditadura cometidos contra este plácido Titio.

Só me falta agora achar os prints das matérias imediatas à prisão, para o Titio ex terrorista ficar, completamente famosão.

Habeas Data 8——-

As matérias gentilmente encontradas pela amiga Bete Scg – nem sei como agradecer – são das seguintes datas e jornais:

Diário de Notícias 12 de Janeiro de 1969
Tribuna da Imprensa, 5/6 de Julho 1969,
Diário da Tarde, Curitiba, 1 de Abril de 1970,
Jornal do Brasil, Rj, 1 de Abril de 1970,
Tribuna da Imprensa, RJ – 1 de Abril de 1970,

Spírito Santo

Junho 2015

O Crioulo e a língua do Crioulo. Lorenzo Dow Turner no Brasil.

•31/05/2015 • 3 Comentários

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Lorenzo Dow Turner, brilhante etnolinguísta é, tardiamente ‘descoberto” pela academia (e pela imprensa) do Brasil.

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 Parece coisa de crioulo doido, só que não.

Passei boa parte do dia e a noite desta última sexta feira devorando informações sobre Lorenzo Dow Turner, etnolinguísta norte americano, praticamente desconhecido no Brasil até recentemente, descoberto entre outros pelo acadêmico francês Xavier Vatin, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Li – lemos – uma matéria esclarecedora sobre isto dia desses, cuja fonte, o instituto de linguística IPOL, foi reproduzida por alguns blogs, entre os quais o Geledés, especializado em ativismo e cultura negra.

Já havia tocado de leve na figura de Lorenzo Dow Turner , citando-o num post como um dos personagens do boom de estudos sobre os africanos no Brasil ocorrido em Salvador, Bahia no início da década de 1940, por injunção do Congresso Afro Brasileiro de 1937, coordenado por Edison Carneiro, entre outros. Leia o post do Titio neste link: “A Guerra, Academia e a impureza a Nagô“.

Me instiga nesta busca por dados mais completos sobre Dow Turner as relações, eventualmente existentes entre a invisibilidade brasileira de seu trabalho e o mesmo fenômeno ocorrido com o trabalho do etnólogo baiano Antônio Joaquim de Souza Carneiro (para os que desconhecem, pai de Edison Carneiro), vítima de uma intensa campanha de difamação e desqualificação intelectual, por parte de ilustres acadêmicos da mesma época, o incensado Arthur Ramos à frente.

O fato de Turner e Souza Carneiro serem ambos negros, intelectuais brilhantes e, do mesmo modo, terem tido suas pesquisas desprezadas e/ou ignoradas pela empáfia da academia tupiniquim da época, sempre me intrigou, intriga e tem me instigado a escrever vários inflamados artigos e posts (outros por certo se seguirão a este).

Recolhi neste intento, ontem, empolgado com a biografia de Lorenzo Dow Turner, que fui descobrindo pouco a pouco, a medida em que a noite avançava, muito material – muito mesmo – sobre as pesquisas e fontes de Lorenzo e já havia até começado um animado artigo sobre o etnolinguísta, quando, logo ao acordar, me deparo com esta excelente matéria no caderno Verso e Prosa de O Globo: “Gravações raras de linguísta americano revivem passado do candomblé

Bolívar Torres disse tudo!

Na verdade, a maioria destes dados, com exceção dos áudios, aos quais o jornalista de O Globo, sei lá como, teve acesso, já que publicou um exemplo (ouça a voz de Meninha do Gantois no link original da matéria, logo aí em cima) estão disponíveis a qualquer um no site do Arquivo de Musica Tradicional da Indiana University, fonte principal para quem gosta do tema.

Só achei impróprio na luminosa matéria de Bolívar Torres o uso da expressão “repatriada“, ao se referir á vinda de cópias do material de Turner para cá. Dispensável ufanismo.

Ora, afinal os registros de Lourenzo Dow Turner, como qualquer etnologia, são universais, os dados neles contidos, pertencem a toda a humanidade e só nos são tão desconhecidos até hoje, por conta talvez de nossa conhecida incúria acadêmica e o mal disfarçado pouco caso diante de tudo que se refere á presença de negros africanos por aqui.

(Lembrem-se que, ao que sabe, os pares de Lourenzo Turner na cidade de Salvador de 1941, notadamente Arthur Ramos e Edison Carneiro, testemunhas quase oculares das preciosas coletas de Turner, praticamente (salvo engano), nenhum uso ou citação fizeram sobre a existência deste precioso material, como se sabe, descoberto por acaso muito recentemente por um pesquisador estrangeiro.

E vejam, o mesmo ocorreu com as coletas do norte americano Stanley Stein em Vassouras, RJ, em 1949, descobertas do mesmo modo, recentemente e que continham preciosos registros de Jongo, Folias de Reis, Samba Rural e outras manifestações típicas dos ex escravos do Vale do Paraíba do Sul, RJ, solenemente ignoradas pelas sumidades do ramo até então)

Surpreendente e promissor, portanto, para os (supostos) modos algo racistas de ser desse grande jornal, que tão brilhante matéria seja publicada. Bons sinais também, devo admitir, a ascensão de jornalistas negros (as) (como Flavia de Oliveira, por exemplo) nas pautas recentes de O Globo – algumas marcadas até por um não dissimulado ativismo.

Estas coisas muito animam o Titio.

Brumas vão se dissipando e o que elas iam encobrindo, meio por  incúria ignorante, meio por tolo desprezo racista, começa a se revelar. O certo é que descartei meus escritos preliminares, bem genéricos, os que postaria hoje, por achar o assunto já bem claramente expresso na matéria de Bolívar Torres. Coloco ou reitero aqui apenas dados suplementares.

Outros dados, também preciosos tenho ainda aqui comigo, por elaborar, num novo artigo, para o deleite dos interessados. Os dados: Lorenzo Dow Turner – a matéria de O Globo já ressalta – é um dos precursores dos estudos linguísticos sobre o negro africano na Diáspora (sempre bom ressaltar as coletas em partituras, realizadas por Aires da Mata Machado Filho em 1928, em Diamantina, MG. Revisando resenha sobre o acervo de Lorenzo Turner, aliás encontrei a inusitada citação “angolan funeral songs”, que correspobde, quase exatanente aos vissungos recolhidos por Aires da Mata em 1928. A resenha não enumera Minas Gerais no trajeto das viagens, mas sugere, fortemente a relação de Lorenzo Turner com os vissungos em 1940/41 numa coleta até hoje desconhecida, anterior, portanto,  a de Luiz Heitor Correa de Azevedo, esta em 1944.

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Africanos de Serra Leoa, presumo, ouvem divertidos a gravação de suas vozes por Lorenzo Dow Turner.

O material das coletas de Lorenzo Turner ao qual a matéria se refere, ao que parece, no caso do acervo do AMT da Indiana University, acabou não sendo considerado prioritário no âmbito geral do trabalho do etnolinguísta, talvez por esta razão não conste ainda do acervo da Indiana University a sua digitalização.

Presumo que estas digitalizações da Bahia já existam no Melville J. Herskovits Library of African Studies na Northwestern University Library ou outro acervo ao qual Bolívar Torres teve acesso (li qualquer coisa sobre o etnomusicólogo Carlos Sandroni estar trabalhando nisso aí.)i

Sobressaíram mais, contudo as coletas de Turner na Costa Leste norte americana e coletas feitas no Caribe e na África ocidental. Aguardamos ansiosos.

Na resenha do AMF/UI sobre os arquivos de Turner diz-se o seguinte:

“Lorenzo Dow Turner Gullah Collection Fonte: Arquivos de Música Tradicional da Universidade de Indiana, EUA.

Registros de campo realizados por Lorenzo Dow Turner Na Georgia e Carolina do Sul e Sea Islands em 1932 e 1933, versando sobre o dialeto crioulo afro americano conhecido como “Gullah”, falado nesta região dos EUA. Formato: 154 discos de aluminio.

Lorenzo Dow Turner (1890-1972) foi um linguísta afro americano, que ficou conhecido como o pai dos estudos sobre o “Gullah” após publicação em 1949 dos africanismos contidos no dialeto Gullah, a primeira grande descrição científica deste dialeto.

Esta publicação da ATM/IU, (resenhada por este texto) um grande recurso para pesquisadores, contém diversas transcrições de gravações de Turner.

O trabalho de Lorenzo Dow Turner ajudou a construir uma fundação para estudos sobre a diáspora africana e contestou a noção que prevalecia há muito tempo de que a cultura afro-americano era simplesmente uma derivação da cultura norte americana branca. Turner mostrou que haviam retenções culturais significativas de culturas africanas entre os afro-americanos. Seu teabalho de campo adicional no Caribe, Brasil e África Ocidental fundamentou ainda mais estas ideias.

Os Arquivo de Música Tradicional da Indiana University contêm várias coleções de gravações etnográficas e linguísticas feitas por Turner, que foram gravadas em 836 discos de alumínio e laca. As gravações feitas nos verões de 1932 e 1933 compõem a coleção de discos de Gullah, compostas por 154 discos de alumínio e documentos de textos com cantos de trabalho, histórias, spirituals e contos de escravidão, recolhidos com 50 falantes de Gullah.

A ATM/IU possui também gravações das pesquisas de campo de Turner no Brasil (Salvador, Bahia em 1941: nota do Titio), África Ocidental, Louisiana do Sul, e várias outras partes dos Estados Unidos.

A coleção Gullah digital foi preservada como parte do Projeto Sound Directions Project.”

Ouça em primeira mão no Brasil, neste link do texto original da Indiana University, duas canções recolhidas por Lorenzo Dow Turner neste projeto dos “Gulah:

http://www.indiana.edu/~libarchm/index.php/collections/highlights/lorenzo-dow-turner-collections.html

——————

Tema para muitas mangas. Me aguardem. Titio volta já

Spírito Santo  Junho 2015

Entre os números e a ideologia: a avaliação das UPPs em “Os donos do morro”

•26/05/2015 • Deixe um comentário

Publicado originalmente em Blog da Boitempo:

Marcos Barreira Maurílio Botelho_Os donos do morros_Numeros e ideologia[detalhe da capa do livro Os donos do morro, organizado por Ignacio Cano]

Por Marcos Barreira e Maurílio Lima Botelho.

O objetivo modesto da “avaliação exploratória” das UPPs proposto por Ignácio Cano e sua equipe de pesquisadores contrasta com o interesse que ela tem despertado na imprensa. Concluída em 2012, a pesquisa ganhou recentemente uma edição em livro.[1] Trata-se, segundo os autores, de uma análise “preliminar e incompleta” do “impacto inicial” das UPPs na criminalidade e na relação da polícia com os moradores das favelas ocupadas.[2] Há também uma preocupação em demarcar o campo metodológico, para dar ao tema um tratamento teórico que não se confunde com os debates midiáticos e as discussões políticas. Mais complicado é separar, no próprio objeto estudado, o que é midiático e o que é político. A “pacificação”, como se sabe, é um elemento central na produção de uma nova…

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