Orson Welles, Titio pesquisador e a “Story of Samba”

•04/02/2016 • Deixe um comentário

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 História, mais que ler, é ver para crer.

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Seção rítmica clássica do Samba de 1920 a 1940: Surdos de primeira e de segunda (não existia o de terceira), caixas (sem esteiras, corpos curtos) e repinique (corpo longo). Tambores antigos, toscos, denotando a perda por parte do povo, do excelente know how dos antigos tambores africanos. As peles eram então retesadas à tachinhas ou pregos e afinadas no calor (sol ou tochas de jornal). Os tambores de lata de carbureto, aparentemente tinham a pele costurada no corpo. Um notável e candente exemplo de resistência cultural.

 

As fotos que ilustram este post são frames do filme “Story of Samba” de Orson Welles, capturados por Hall Preston diretor de fotografia do documentário em 1942, nunca exibido completamente. Pesquisador sortudo, encontrei o filme durante a pesquisa para a segunda edição de meu livro “Do Samba ao Funk do Jorjão“.

É que uma das teses centrais do livro, era o estudo do processo de evolução organológica (instrumental) das baterias de escola de samba do Rio de Janeiro, as quais, por razões até então nunca estudadas, estranhamente usavam instrumental, diretamente extraído das seções rítmicas das bandas marciais e musicais de origem européia, da virada do século 19 para o 20. Desconstruo e construo este processo, meticulosamente no livro.

Desenvolvida na primeira edição, de forma convincente, a hipótese que considerava a exclusão sócio racial, o racismo enfim, como elemento crucial para a perda do know how para a fabricação de tambores africanos de alta performance, portado pelos descendentes de africanos até o início do século 20, faltava um elemento de prova concreto para transformar a hipótese em tese, um elemento que tornasse a teoria desta transição inquestionável.

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Organologia mista. Flagrando a transição em 1942: Tambores antigos, toscos, com pele retesada à tachinhas, afinadas no calor (sol ou tochas de jornal) e tambores de tarrachas, “modernos”, semi industrializados, usados desde o final século 19 por bandas militares.

A intuição e a investigação holística do Titio, atenta a qualquer pista, de qualquer origem, me entregaram a chave: A transição dos tambores rústicos e elementares do Samba carioca (e das demais manifestações musicais africanas Brasil a fora), se dera, EXATAMENTE na década de 1940. Ela podia – como foi – flagrada nas ruas, no carnaval de 1942.

Bingo!

Como provei? Com essa sequência de frames do filme de Orson Welles de fevereiro de 1942. Nele Hall Preston conseguiu captar, em detalhes, todas as caraterísticas fisiológicas desta transição. Assim, ao invés de descrever em sempre questionáveis palavras e mais palavras os detalhes da teoria, faço como São Tomé e publico as imagens.

Na prática, a teoria é outra.

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Tambores toscos, ainda normalmente inseridos no Samba de carnaval. O custo dos tambores “modernos”, deve ter atrasado bastante a utilização destes por parte da população negra, mais pobre, moradora em favelas.

“É tudo verdade” é um filme inacabado de Orson Welles composto por três histórias sobre a América Latina. “My Friend Bonito”, supervisionado por Welles e dirigido por Norman Foster no México, em 1941, “Carnaval” (também conhecido como “The Story of Samba“) e “Jangadeiros” (também conhecido como “Quatro Homens em uma jangada”) foram dirigidos por Welles no Brasil em 1942.

“É tudo verdade” era para ter sido o terceiro filme de Welles para RKO Radio Pictures, depois de “Cidadão Kane” (1941) e “The Magnificent Ambersons” (1942). O projeto foi uma co-produção da RKO e do Escritório do Coordenação de Assuntos Interamericanos dos EUA.

A produção não realizada foi o tema de um documentário de 1993 escrito e dirigido por Richard Wilson, Bill Krohn e Myron Meisel.

Enquanto algumas das filmagens de “É Tudo Verdade” foram reaproveitadas ou enviadas para bibliotecas de filmes de ação, cerca de 200.000 pés de negativos de nitrato em Technicolor , a maior parte do episódio “Story  of Samba”, foi lançado no Oceano Pacífico na década de 1960 ou 1970 .

Na década de 1980 uma caixa de negativos, grande parte em preto-e-branco, foi encontrado em um cofre e entregue ao UCLA Film and Television Archive. Um inventário de 2000 indicou que cerca de 50.000 pés de “É tudo verdade” tinham sido preservados, junto com aproximadamente 130.045 pés do negativo de nitrato de preservação ainda não garantidas.

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Tarol e repique “modernos”, de bandas militares, já inseridos, normalmente no Samba de carnaval

Ano passado (2015) no embalo da revisão de conteúdo para esta segunda edição do livro, voltei ao excelente site “Citizen Grave“, onde encontrei o filme desses frames. Pretendia compartilhar o link de todo o filme no livro. Decepcionado constatei que a maldita RKO (seus representantes) produtora original do filme de Orson, por ela amaldiçoado, havia retirado o dito do YouTube.

Azar o dela. Titio havia feito na primeira visita esses prints que, orgulhoso e satisfeito publico no livro e compartilho aqui.

Perdeu RKO! Valeu Orson Welles.

É tudo verdade!

Quer saber mais? Aguarde a segunda edição do livro do Titio para breve.

Spirito Santo
Fevereiro 2016

2185- O ano inesquecível

•25/01/2016 • Deixe um comentário

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(Agora é mesmo tarde. Não precisamos mais de Jules Verne, Isaac Asimov ou Arthur C. Clark para prever o nosso inevitável futuro. Acabo de receber, por meios que, honestamente, desconheço, uma mensagem alarmante, vinda do futuro. Veio de alguém que presumo ser meu descendente. Não posso me furtar a responsabilidade de partilhar esta mensagem com vocês. Chamei-a de O Diário de ‘O Turvo‘)

Dizia ele:

“O Airtrain passou pela minha janela agora, fazendo a vidraça trepidar levemente, num frêmito. Aquela mancha súbita, incômoda, era pior ainda à noite, quando a luz do letreiro da boate em frente tremeluzia, trôpego, me assustando como um fantasma fugidio.

Bobagem ainda acreditar em fantasmas a esta altura da vida, mas, fazer o que? Sou do tempo do crack tecnológico de 2098, a época em que o mundo parou por quase 3 anos, travado pela crise provocada pelo esgotamento súbito das reservas de biocombustíveis, que culminou com a desertificação parcial das terras do sul do planeta, levadas a beira da esterilidade total pela monocultura energética, e pelos efeitos catastróficos da Grande Enchente, no Norte.

Evento há muito tempo esperado, como resultado irremediável do aquecimento global, esta inundação catastrófica só ocorreu mesmo, subitamente, no ano novo de 2095.

A maior entre todas as tragédias da humanidade, na qual milhões de pessoas desapareceram, a Grande Enchente foi como se retornássemos ao dilúvio bíblico. Ao fim do processo, o refluxo das águas, incompleto, formou no centro da Europa, uma região aprazível, denominada Grandes lagos do Norte, onde os milionários do mundo e as grandes instituições que governam o planeta se fixaram. Tornada, no entanto a última opção de combustível abundante, capaz de dar vazão a grande demanda de consumo energético do modo nababesco de vida dos povos do Norte, a água dos Grandes Lagos, logo secou.

Ao Downtime, como ficou conhecido o apagão energético do mundo, se seguiu então a chamada Guerra da Água, conflito ocorrido nas Américas, com milhares de mortos e envolvendo os Estados Unidos e o México (associados às potências européias), contra os aliados Brasil, Venezuela, Colômbia e Bolívia, pela posse da bacia hidrográfica do Amazonas. A Guerra da Água foi de um barbarismo sem precedentes. Nela, pela primeira vez na história, foram usados combatentes zumbis, soldados induzidos á lutar até morte, com as mentes controladas por computadores.

Derrotadas, as nações do Sul passaram a ser obrigadas a comprar a sua própria água que, desviada pelo Aqueduto internacional para as terras do Norte, é vendida hoje em tonéis, cujo preço exorbitante torna o abastecimento de água para as populações dos desertos do Sul, um problema dramático.

A Guerra e o Downtime tiveram, contudo, alguns poucos resultados benéficos. Um deles foi volta de muitas de nossas crenças mais primitivas, hábitos culturais antigos – tais como este, de acreditar em fantasmas, em Deus ou mesmo na redenção do ser humano, esta coisa patética em que nos transformamos.

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Este incômodo com a mancha instantânea do Airtrain só me ocorre assim, nas noites de insônia. Quando mergulho nestes tristes e melancólicos pensamentos de saudade dos velhos e bons tempos que se foram, para sempre. Ah, quanto não daria para ter um copo de leite morno nestas horas. Deus do céu, entre todas, esta é uma das maiores e mais insuportáveis provações.

Não existe mais leite na Terra. As vacas há muito se foram deste mundo. Meu bisneto viu uma delas num holograma do VirtualZoo de sua escola. Teve pesadelos durante três dias. Disse que foi do nojo que sentiu, ao ver que as pessoas bebiam aquele líquido infecto, que saía das entranhas de um animal tão gordo e asqueroso.

Ah, uma gota, um sorvo só que fosse, deste líquido precioso e abençoado, que não provo há mais de quarenta anos. Acho que, como um elixir da juventude, este sorvo me remoçaria.

Parece mesmo loucura lembrar como as coisas eram antigamente. Quem poderia imaginar que não criaríamos mais animais para matar a nossa fome? Quem suspeitaria, há 100 anos que fosse, que esta história de cadeia alimentar seria, um dia, apenas mais uma das remotas lembranças de nosso passado biológico? E que, mesmo assim, o tardio da decisão de preservar a vida animal na Terra, nos tivesse privado da maioria das espécies que havia? Estas milhares de coisas exóticas que vemos agora nestes tristes e melancólicos hologramas dos VirtualZoos escolares.

Sim. Estamos quase sós no planeta, nossa velha natureza é agora mais pobre e medíocre do que jamais foi. Com força de vontade, se poderia enumerar, no máximo, umas seis espécies de animais ainda não extintas, e isto, contando conosco, é claro. Não é preciso nem pensar muito: Sobreviveram os Cães, os Pombos, os Corvos, os Ratos e as Baratas.

Vi na Hologram-Tv outro dia que há num certo canto remoto do Brasil, uma tribo que come os seus próprios cães e domestica seus ratos, segundo eles, os da tribo, excelentes farejadores de dejetos orgânicos, outro hábito cultural surgido na época do Downtime e praticado pelos endinheirados do Norte, pobres de espírito, que pagam caríssimo pelo produto, cuja venda é controlada por um grande cartel de traficantes denominado ‘The Monopol‘.

Os dejetos, conhecidos pelo estranho nome de Cocablood, distribuídos sob a forma líquida ou pastosa, são considerados uma iguaria afrodisíaca. Era de se esperar uma reação como esta diante do insípido hábito que adquirimos de ingerir pílulas. Asco. É por estas e outras que tenho desprezo profundo por estes tempos modernos. Principalmente por sua fauna.

Ontem saí de casa depois de seis meses de reclusão. A idade avançada reduziu bastante o meu apego pelos passeios, mesmo os noturnos. Não estou mais tão benevolente para aceitar ficar sendo observado, fotografado, quase tocado por estes inconvenientes jovens Seestrangers, que ficam postados em frente a minha janela; gente que nunca viu, assim de perto, um ser humano real, como éramos antes do Downtime. Definitivamente não me agrada ser este tipo de celebridade.

Na verdade sou mesmo quase um bicho raro. Como caminhamos para o ponto onde não existirão mais as antigas diferenças estéticas, biotípicas entre as pessoas, o aspecto que os seres humanos mais novos (‘normais’ como já se diz, com certo desprezo pelos mais velhos) adquiriram, é tão diferente de mim, que sou conhecido aqui no meu bairro como ‘O Turvo‘ (uma alusão ao tom pardo e baço da minha pele, bem diferente do tom claro e brilhante da pele dos mais jovens), sofrendo, todas as vezes que saio às ruas, os constrangimentos mais absurdos que se possa imaginar.

Meu bisneto tentou me convencer um dia destes a aceitar a proposta que um professor de sua escola lhe fez, para que eu, em troca de algum dinheiro – uma verdadeira fortuna, na verdade – posasse como modelo, para imagens holográficas a serem disponibilizadas aos alunos no VirtualZoo local.

_” Como as imagens da vaca?” – Indaguei, para que ele se lembrasse do que sentiu pelo bicho que dava leite e que tanta má impressão lhe causara. Ele não compreendeu a sutileza. Tive que rejeitar a idéia, veementemente, com argumentos bem mais diretos.

Não temo afirmar que a extinção total da diferença entre as raças, ocorrida em 2099, foi de um pragmatismo por demais cruel, (atributo que, infelizmente, se tornou corriqueiro entre nós). Determinados a abolir um componente de nossa humanidade, considerado então prejudicial á boa convivência entre os povos e as nações, os procedimentos científicos que iniciaram, ao fim de longo debate, a extinção das diferenças raciais foi, em quase cem anos, a decisão mais polêmica tomada pela Cúpula Planetária, instituição criada em substituição da ONU, um pouco antes do Downtime.

(Como se pode observar em qualquer VirtualBook, desmoralizada por um formidável esquema de corrupção, liderado por proeminentes membros do antigo Conselho de Segurança, envolvendo tráfico de armas e negociatas com mercenários, a ONU foi extinta em 2097).

Segundo os especialistas consultados, sociólogos e antropólogos em sua maioria, a diversidade étnica, entre outros inconvenientes (como a inevitabilidade do racismo, por exemplo) seria um recurso já totalmente ultrapassado, do tempo em que a humanidade, do ponto de vista de sua evolução biológica, apenas engatinhava.

O principal impulso a esta decisão, foram os avanços da engenharia genética no século 21, a partir da descoberta das células tronco, o que tornou viável a maravilhosa esperança – para eles –  que será o ser humano homogeneizado, o Homem Mestiço, sem qualquer traço de diferenciação racial. Segundo a minha modesta e suspeita opinião, mais uma aberração, entre tantas, que o homem criou depois que passou a se julgar o Deus de si mesmo.

O processo, no entanto se prevê, poderá incorrer em diversos inconvenientes e muitas consequências indesejáveis, como, por exemplo, já ocorre com o crescente surgimento de movimentos que preconizam a expulsão de pessoas contrárias á homogeneização para os distantes desertos do Sul.

Chamadas pela imprensa de Racialistas, estes grupos contrários á homogeneização, foram criados por clérigos progressistas do Norte, que fundaram o Movimento Racialista da Humanidade (conhecido como a última fronteira da religiosidade humana) que prega a manutenção da diversidade étnica e racial, afirmando que a homogeneização irá produzir uma praga genética pandêmica, que dizimará mais gente do que a Grande Enchente.

Logo após o Downtime, com a explosão dos movimentos migratórios para o Norte, a medida que boa parte do sul do planeta se desertificava, as pressões da Cúpula Planetária acabaram forçando ainda mais a expulsão em massa de racialistas para as áreas desérticas, onde já viviam as populações originais, largadas á própria sorte pelas potências do Norte.

Regredindo, com o decorrer dos anos, a um estágio de civilização primitivo, bem semelhante aos modos de vida dos humanos do início do século 21, a população destas terras do sul, atualmente são governadas pela irmandade dos clérigos racialistas e uma casta aristocrática de emigrados recentes, fugidos ou banidos do Norte, que pregam uma guerra violenta contra os povos do Norte.

As áreas desertificadas da Amazônia e do Sudeste asiático são os habitats mais característicos destes povos, entre os quais os Mulatos do Brasil e os PanChinos da Tailândia se destacam pela selvageria.

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A maioria dos seres humanos, muito em breve, será ‘Flex‘. Não existirão os gêneros humanos, homem, mulher, tais quais os conhecíamos. Serei um dos poucos exemplares vivos dos homens convencionais, Protohetero, como a ciência já nos classifica hoje. Mais um constrangimento que me faz pretender, para mais breve ainda, a minha partida deste mundo.

Os ‘Flex’ não serão homens nem mulheres. A evolução dos seres humanos para o estado ‘Flex’ se tornou um imperativo, na medida em que o intercurso sexual, com fins de procriação, se tornou uma prática totalmente desnecessária entre os humanos. A formidável evolução científica nesta área, possibilitou a implantação definitiva da gestação por meio da inseminação artificial de células tronco, permitindo que qualquer indivíduo, homem ou mulher, passasse a poder gerar e gestar filhos, naturalmente.

A revolucionária inovação, no entanto, não conseguiu abolir, absolutamente, o prazer que, desvinculado da necessidade de haver intercurso sexual, mesmo que simbólico, entre seres de gêneros diferentes, passou a ter exacerbados os seus aspectos mais primitivos,ancestrais, como vício mesmo, ou necessidade atávica cuja saciedade, apesar de transgredir regras sociais atualmente vigentes, precisa ser conseguida, irresistivelmente, a qualquer custo.

Foi assim que o sexo acabou se transformando em droga proibida, cuja comercialização assumiu proporções avassaladoras quando se descriminalizou a prática da pedofilia (outrora tolerada apenas quando praticada por ricos) para fins sexuais amplos, desde que normais e controlados.

A decisão, que causou grande polêmica entre a população, só foi tomada após um disputadíssimo referendo mundial. A vitória dos adeptos da Pedofilia Controlada, como não podia deixar de ser, provocou o surgimento de um mercado clandestino, dominado por traficantes e voltado para o atendimento á clientes viciados naquelas aberrações anteriormente toleradas, tais como a mutilação e/ou assassinato de crianças pra fins de canibalismo.

É comum aqui, por esta razão, a apreensão, quase diária, de comboios de Airtrains, carregados de jovens, meninos e meninas, criados nos desertos do Sul (principalmente no Brasil) exclusivamente, para alimentar este mercado abjeto do Norte.

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Mais um Airtrain passou agora mas não me animei ainda em pegar um. A hora está chegando, mas o esforço mental para pegar um veículo destes, mesmo com o confortável procedimento da Teletransportation, é tão grande – ainda mais na minha idade – que quase desfaleço, só de pensar.

O fato é que morro em breve. Posso saber disto, assim, com tanta convicção, porque as mortes perderam a inevitabilidade natural que tinham antigamente e precisam ser programadas hoje em dia. Como sempre foi com tudo na vida, vivem mais os que possuem dinheiro. Para os pobres a morte é líquida e certa.

Sempre achei este procedimento, chamado popularmente de Morte Legal, um total absurdo, mas, o departamento do governo que cuida do controle populacional já me comunicou: meu tempo se encerra daqui à três meses e exatamente às 16 horas do dia 5 de setembro de 2185 serei declarado oficialmente morto e terei que ser fisicamente apagado. Vivo ou morto, no entanto, 2185 será, com certeza, o meu ano inesquecível.

Por isto pegarei o Airtrain pela primeira e última vez ainda hoje. O processo é simples e indolor, posso garantir. Você mentaliza o seu desejo de embarcar no momento em que algum sinal da vinda do Airtrain se processa. Uma tremida da vidraça, o trepidar do assoalho, qualquer indício é o sinal. Assim que veículo passa pela sua janela, o embarque é instantâneo. Num átimo você está dentro do veículo rumo ao destino que mentalizou.

Sem que os funcionários da LifeDelete saibam, partirei. Os traficantes de matéria são facilmente encontrados no interior do Airtrain. Eles me teletransportarão para as terras do sul sem problemas, a um custo bem em conta, se julgarmos a enorme alegria que terei. Estou decidido a passar meus últimos dias numa tribo do Brasil, minha origem genética, perto de pessoas iguais á mim. Morrer naturalmente, definhando, é o que eu desejo.

Chego até a sonhar com alguém que reze por mim aquelas velhas rezas do passado. Velas acesas, flores. Gurufim com tambores. Talvez um velho Samba na voz da Clementina de Jesus. Incelenças, ladainhas. Pontos de Jongo ou de Macumba. Velhos rituais ancestrais do tempo em que tínhamos ainda resquícios de humanidade.

A vidraça tremeu. Não sei por que, no meio dos pensamentos de embarque, surgiu o rosto dela, daquela que foi a minha última mulher, exatamente como estava no dia em que nos conhecemos. O vestido estampado, as pequenas flores de flamboyant no cabelo. Linda. Ah! Como é doce esta felicidade. Aos meus sonhos mais antigos, portanto, satisfeito e conformado eu vou.”

Spírito Santo
em algum momento de 2008 (ou seria 2007?)

Europa Black & White

•23/01/2016 • 2 Comentários

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SEGUE A PELEJA DOS MOUROS CONTRA OS CRISTÃOS

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“Retrato de um homem africano”
Quadro atribuído ao pintor holandês Jan Mostaert, de 1520/30

“O homem veste roupas ricas, luvas, e segura uma espada, todos indicativos de seu importante status. A insígnia em seu chapéu e o alforge, aludem a possíveis origens espanhola ou portuguesa. Muitos dos africanos que chegaram à Europa em tempos medievais e início do Renascimento eram estudiosos e consultores…O retrato é também conhecido como ” Retrato de um mouro”.

(Parte da descrição oficial do RijksMuseum, de Amsterdam, proprietário da obra)

Absolutamente ensandecido com o tema da presença negra ou africana nas artes da velha Europa, vou mergulhando no buraco doido e sem fundo das histórias mal contadas, de fatos tão antigos que remontam a Grécia antiga.

“Há muitos retratos de negros comuns que ainda existem da Europa antiga, para aqueles que ainda não estão convencidos da degenerada natureza mentirosa dos Albinos, afirmamos que não é verdadeira a explicação que nos dão para a existência desses negros nativos europeus afirmando que eles são africanos.

É isso mesmo, sempre que um retrato de um negro europeu é encontrado, a explicação é sempre a mesma: É um Africano. Mas mesmo o leitor leigo sabe que os seres humanos se reproduzem e se reúnem em tipos bem ampliados de família, tribos e grupos maiores.

bLogo, assim que vemos alguns negros num contexto, a questão que se coloca é: onde estão os outros? Como todos sabemos, a melhor maneira de fazer algo sumir de vista é chamá-lo de outra coisa…”

(Trecho do inusitado site “Black britain /Realhistory”, voltado para atestar a enorme e sutilmente ocultada presença de negros nas sociedades europeias.)

Nós, os ainda poucos familiarizados com o tema, ao vislumbrarmos essas imagens fantásticas, já nos surpreendemos muito ao descobrir, por exemplo, a existência de tantos negros na Europa Medieval e nos séculos imediatamente posteriores. É que tendemos a associar a saída de negros da África sempre a séculos mais tarde, nos anos mais agudos das invasões colonialistas e da exacerbação da captura massiva de africanos para a escravidão incipiente na Europa e, logo desenfreada para abastecer de mão de obra as colônias das Américas.

Imaginem então qual não foi a minha surpresa ao descobrir o quanto as maravilhosas nuances da história humana, geralmente reveladas assim por acaso, são capazes de nos acachapar: Havia uma multidão de negros na Europa medieval e renascentista, aparentemente quase tantos quanto hoje. E não estava invisível todo esse criouléu. Os artistas da época não se cansavam de retratá-lo, desde, pelo menos o século 3, bem antes da chamada Idade Média.

É mesmo uma indústria de ignorantes essa nossa Educação. Basta um cacho de surpresas visuais como estas as quais fui submetido, para um universo inteiro de novidades, perguntas e respostas nos aparecerem, instigando renovadas questões, cada vez mais surpreendentes.

Negregada Europa enrustida. Pés e mais pés de aristocratas escurinhos, nobres e plebeus, enfiados nos baldes das cozinhas brancas mais insuspeitadas.

Impossível abordar todos os aspectos e pontas soltas dessa história de mais de 10 séculos medievais (do V ao XV). E ainda temos todos os séculos seguintes. Por isso começo de leve, pelo que mais me instigou: o reino encantado das aparências, a quebra do mito da Europa nobre, de sangue azul.

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(Honigmann, E.A.J. (1987). John Weever: a biography of a literary associate of Shakespeare and Jonson, together with a photographic facsimile of Weever’s Epigrammes (1559). Manchester: Manchester University Press.)

Em linhas muito básicas, as razões de ser da nossa ignorância sobre o tema, talvez seja deliberada, como é todo apagão imagético racista, coisa tão corriqueira no Brasil. Construíram, os que nos governam, uma ideia de um “Velho Mundo” ocidental puro, branco, diáfano, o supra sumo da “raça” humana morando ali, uma casca clara para nos iludir sob o que tem dentro desse ovo, nessa complexada mania de ser vira latas, que toda elite aristocrática tem – principalmente no Brasil – sempre à caça de algum inatingível pedigree.

Assim, a ocultação da Europa real, de bases multiculturais, multi “raciais”, não é uma construção exclusivamente brasileira. É apenas a sua gênese mais remota. Ela deve ter se dado gradualmente, na medida em que a criação de uma ordem mundial dicotômica – ricos vagabundos de um lado e pobres servos ou escravos de outro – foi se cristalizando. E isso se deu (ou, pelo menos começou) com alguma certeza, no século 16.

Esquecemos, ou não damos importância, por exemplo, o fato histórico decisivo de que os Mouros, dominaram a Europa por…séculos. Sabemos disso, mas não consideramos o impacto cultural decisivo e formidável provocado por uma dominação deste porte, de um povo sobre outro durante tanto tempo. Esquecemos, sobretudo – e aí está o “xis” da questão – até mesmo das consequências, digamos assim…”simbiótico genéticas” dessas relações culturais tão extensas no tempo.

Naturalmente, lei que é da natureza, onde quer que estivermos, sejamos quem formos, crescemos e nos multiplicamos, transamos, procriamos. Nada que é humano, portanto, nos deveria parecer estranho.

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Neste mesmo sentido, nunca consideramos – ou nunca nos deixaram perceber – que esses muçulmanos todos, povos africanos, vizinhos, habitantes das fraldas da Europa, chamados na época genericamente de “Mouros“, eram em sua grande maioria…gente preta. Eu mesmo, só me dei conta disso quando, morando na Europa, fui um dia, inadvertidamente xingado de “Mohr” por uma velha racista.

“Mohr”, “Moor”, “Maure”, “Mouro”, “Muçulmano“, pude logo descobrir na ocasião, que significava, pejorativamente o mesmo quev “negro”, “crioulo”, na Europa inteira e desde a Idade Média – óbvio! – fruto evidente do ódio latente que esta Europa até hoje devota aos seus seculares invasores, que a eles os “caucasianos” cristãos se imiscuíram, não exatamente como estupradores.

As imagens que fui desvelando nesses livros mostram centenas de africanos e afro europeus proeminentes em suas sociedades, na Rússia, na França, na Inglaterra, na Áustria, na Polônia, em Portugal, na Espanha, na Itália. Incrível, mas desde sempre, todas as sociedades europeias tiveram negros, como galhos ocultos de suas árvores genealógicas, das mais plebeias as mais nobres.

De onde eles vieram? Não é razoável afirmar que todos vieram da África como escravos e na Europa se emanciparam, certo? Nasceram na Europa, muitos deles. Isto é certo!

Esta genealogia trancada em armários pudicos, tem como intenção historiológica principal, ora pois, a tentativa de omitir ou apagar a provável origem europeia do negro número 1 de cada família, supostamente…branca desde Adão e Eva.

Quem não sabe? Isto é típico no Brasil, até hoje, quando numa caixa de retratos antigos de uma família branca, aparece por acaso a foto de uma negra, geralmente idosa, a imagem inusitada explicada diante da nossa surpresa com a resposta vacilante: _” Não sei. Deve ser uma pessoa muito querida da família…não me lembro o nome.”

E a “pessoa querida” quem seria? Uma negra tia distante, uma avó oculta , destinada a ter a imagem renegada para não “queimar” o filme da família?

De certo maneira, embora de modo menos frio e num espaço mais dilatado de tempo, o mesmo ocorreu na velha Europa. Em todos os casos que verifiquei – e foram dezenas – sobre este primeiro negro da família europeia se dizia, invariavelmente ser “um escravo (a) africano (a)” de quem o dono, um parente distante mui bonzinho, mesmo quando nobre, se tomou de amores e deu a este negro (a) sortudo (a), educação, bens e até herança, de modo que alguns desses ex-cativos (as) se tornaram ricos.

Duvidam?

Incrível, mas todos esses negros de alto status, quase nunca têm – ou lhes subtraem – um sobrenome. A todos se aplica o apelido “o Africano”, “o Negro“.

Com efeito, em muitos casos, certas evidências insinuam que figuras de nobres claramente de ascendência africana podem ter se tornado, efetivamente, não só nobres, cortesãos mas – pasmem! – membros da mais alta nobreza…até reis de verdade, dizem alguns pesquisadores mais radicais.

Só que, desta feita, contudo, este status de alta nobreza de um negro, desmoralizando velhas e rígidas práticas de sucessão por parentesco direto, por via patrilinear (no caso da Europa) costumava ser, literalmente apagado da posteridade por meio do embranquecimento gradual de retratos e gravuras, apagamento este associado ao desaparecimento de qualquer traço documental dessa ascendência negra, processo que torna muito difícil construir teses mais ou menos críveis sobre esta teoria.

(Filhos bastardos, frutos relações sexuais “interraciais”, o bom nome da família em jogo, sabem como é.)

Contudo, as evidências iconológicas, mesmo nos casos mais cabeludos ou duvidosos como este acima, são instigantes. Algumas delas, mais evidentes, são mesmo impressionantes e, desvendando-as, não resisto ao desejo de partilhá-lhas. Vou começar então abordando-as com o máximo de evidências que pude encontrar até agora.

Preparem-se. São babados muito fortes.

“…Muitos dos africanos que chegaram à Europa em tempos medievais e início do Renascimento eram estudiosos e consultores…O retrato é também conhecido como ” Retrato de um mouro”.

Mas observem: É estranha e vaga demais esta descrição. É por demais evidente que este nobre, em pose imponente de quem tem poderes, vestido de forma suntuosa, de modo a representar seu “alto status” (seria um duque, um conde, um marquês?) como a própria descrição da tela logo em seguida afirma, de forma enfática, realmente existiu. Parece ter havido uma intenção deliberada de tornar esta pessoa anônima

O que torna tudo mais estranho ainda, são as muitas e controversas versões para a identidade do indivíduo retratado, um mistério estranho porque tendo-se o nome e a naturalidade do autor e a data provável do quadro, fatores aliados á evidente proeminência do homem naquela sociedade, atestada pelo rigor e luxo detalhista de suas vestes, como e porque seu nome foi esquecido? Na verdade, as tentativas de identificá-lo são todas muito estapafúrdias. Tanto que a mais recorrente delas eu pude desconstruir em poucas horas de pesquisa.

“… Diz-se também que é a mais antiga pintura de um homem negro na Europa. Foi intitulado com certo desdém como “Retrato de um Africano”. Segundo alguns críticos esta denominação vaga, visa anular todas as possibilidades de pessoa como esta ser um europeu nativo.”

(Nota do “Realhistory”, um site de crítica ao suposto apagamento da imagem do negro na historia europeia, revendo a nota do RijksMuseum)

Realmente são bem controversas as dúvidas sobre a identidade do homem do quadro de Jan Mostaert. A tela tem todos os sinais de ser um retrato fiel. A sugestão de que “pode ser o primeiro retrato de um homem negro na pintura europeia”, é temerária também. O estilo “verista” do barroco holandês (a fotografia de então) cujo auge ocorre 100 anos depois, pode ter tido este início aí, acrescentando que a data do quadro pode ser, quem sabe, de data um pouco posterior (Mostaert morre em 1558)

As mais rasas suposições foram aventadas, logo pude constatar. Ao que parece, os críticos de arte desde sempre, em algum momento de suas expertises, recusavam-se a admitir que o quadro de Mostaert pudesse ser o retrato de um nobre negro de verdade, buscando explicações tranversas para enfatizar o seu anonimato. Este movimento pelo anonimato de personagens negros, geralmente apelavam para a teoria de que o “homem africano”, o “Moor”, seria uma imagem idealizada, devocional, de algum santo católico negro, curiosamente muito comuns na Idade Média.

As primeiras imagens de pessoas negras na arte europeia, foram com certeza imagens devocionais idealizadas. Uma das mais antigas era a de São Maurício (um personagem do século 3) , sendo também muito comuns e populares, as imagens de Balthazar, o rei mago cuja negritude foi, simplesmente inventada apenas em 1437. Muitas imagens de negros reais, por isso mesmo, ao não serem reconhecidas como retratos fiéis, acabaram sendo atribuídas a imagens de Balthazar, São Maurício e outros santos ou seres míticos, figuras de fábulas, etc.

Saint Maurice (também Moritz, Morris, ou Maurício) era um militar romano (!) líder da lendária Legião de Tebas, no século 3, e um dos santos favoritos e mais venerados. Ele era o santo padroeiro de várias profissões, localidades e reinos europeus. Ele também é um santo muito venerado nas igrejas Ortodoxa Copta e Ortodoxas Orientais.”

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(1470-1528) St. Maurice (detalhe do “O Encontro de São Erasmo e São Mauricio” 1517-23, por Mathias Grünewald )

 

Vejam bem: Um militar negro de alta patente, comandando tropas romanas baseadas em Tebas, Grécia, mais tarde santificado pelo Vaticano, padroeiro de muitos reinos europeus? Isto tudo ocorrendo no século 3? Como explicar?

O certo é que São Maurício nada tem a ver com o homem negro de Mostaet. É fácil perceber isto a partir de uns poucos dados. Tampouco Balthazar. Mas, mesmo assim as divagações sobre o “homem negro” de Mostaert prosseguiram, algumas já tocando de leve alguma pertinência.

“…Jan Mostaert, o pintor, acompanhava a arquiduqueza Margareth da Áustria, sua mecenas, em muitas de suas viagens e pintou muitos retratos de seus cortesãos, que entraram em contacto com a classe superior e figuras públicas.”

“Em 1518, Margaret da Áustria declarou Mostaert “peintre d’honneur”. A seu serviço, ele foi contratado para criar retratos, embora também tenha produzido uma série de imagens devocionais, bem como retratos para a pequena nobreza holandesa.

Óbvio que este “homem africano”, por esses fatores, era um nome muito importante, e exercia relevante função na corte da Arquiduqueza Margareth da Áustria e de Carlos V.”

Ou seja: Lançava-se a identificação do “homem negro” ao limbo da lista de modelos difusos. Mas como ignorar a pompa e a circunstância da nobre figura, cuja importância estava flagrante no próprio fato dela ter sido tão respeitosamente distinguida e retratada pelo pintor mais importante da casa real dos Habsburg?

“…Como era prática comum no século 15 e 16 nos Países Baixos, Mostaert frequentemente reproduzia retratos de figuras políticas baseadas em modelos originais. Em 1521, Margaret encomendou, por exemplo a Mostaert um retrato de seu terceiro marido, o já falecido duque Philibert de Sabóia. O retrato foi feito dezesseis anos após a morte do duque Philibert.”

As evidências de que o quadro de Mostaert é de uma pessoa real, vão se tornando, portanto, quase inquestionáveis. Mas afinal, quem seria essa figura?

Ah! Não contavam com a leiga astúcia do Titio. Insatisfeito, sem mais dados a investigar. Corri então atrás do nome atribuído a figura e pronto, eureka! Alguma coisa nova enfim se revelou:

Saibam vocês que o homem retratado, descrito pelas resenhas da obra de Jan Mostaert, não podia ser Christophe Le More, simplesmente porque o Christopher le More real, NUNCA viveu na Corte de Carlos V. A história dele, do Le More real pode ser perfeitamente reconstituída com o cruzamento das boas fontes que encontrei.

Por elas, pude deduzir que um crítico de arte qualquer, acreditado em seu meio, confundiu – ou criou – esta versão aceita pelo RijsMuseum, relacionando o “homem negro” de Mostaert a um outro “homem negro” famoso na ocasião. Ao que pude apreender, o tal expert achou este Christopher o eleito ideal.

Mas era falso. A história mais provável de Christopher, o Mouro, é a que relato a seguir:

“Um africano de nome original desconhecido, escravo de um proprietário de terras siciliano chamado Christopher (Cristofaro) Manasseri, na metade dos século 16 teria adotado sobrenome do proprietário. Este Christopher, seria filho de pais africanos que provavelmente haviam chegado na Sicília entre 1450 e 1480.”

(Obviamente, sendo a quadro de Mostaert datado de, no máximo 1430, Retratando um homem adulto, o Christopher real seria ainda uma criança na época da pintura)

Ou seja: “Christophe Le More“, como ficou conhecido este negro da Sicília, um afro-italiano por suposto, nascido provavelmente já no fim do século 15, segundo sua biografia disponível, “casou-se com a também siciliana Diane Larcan (ou Larcari) também descendente de africanos. Tiveram, pelo menos um filho na cidade de San Fidelpo em 1526, chamado Benedetto, que foi alforriado quando contava cerda de dez anos de idade.”

Benedetto, o filho de Christopher le More e Diana Larcari, que se tornaram cristãos, teria nascido em 1526 na cidade de San Fratello, conhecida também como San Philadelphio Fradello ou perto de Messina, na Sicília. Sim, com todos dados levantados podemos enfim desconstruir parte da história.

(Não se tem notícia da existência de imagens do Christopher le More real (na verdade Cristofaro, il Moro). Mas isto é natural. Ele era um cidadão afro-europeu comum.)

Talvez vocês nem tenham se dado conta, mas o filho de Cristofaro e Diana, conhecido como “Benedetto, il Moro” (Benedito, o Mouro), aliás, por obra e graça de mais uma das muitas acidentais sacações das pesquisas do Titio, é sim…São Benedito, santo popularíssimo entre católicos do mundo inteiro, notadamente negros da África e do Brasil, onde protagoniza, junto com Nossa Senhora do Rosário e Santa Efigênia (também negra) animadas Congadas.

Vejam aqui um retrato do próprio, Benedetto, o Mouro, não se sabe se num retrato real, provavelmente imaginado:

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Mas quanto ao nome do homem do quadro de Mostaert?

(Mas novas pistas não cessam de serem encontradas pelo Titio)

“…Um elemento no retrato que pode ser identificado com certeza é a insígnia (medalha) no chapéu flamengo do homem negro, que está associada a um local de peregrinação (Halle, na Bélgica). Este é o local de uma igreja na qual uma Madona Negra atrai muitos peregrinos, incluindo inúmeros soberanos europeus, de todas as partes do continente, desde 1267. Assim, o homem do retrato provavelmente teria ido a Halle… “

E segue:

“…Em 1520 Carlos de Habsburg foi a Bruxelas, com destino a Halle para honrar a estátua da Madona Negra, como era praxe entre os monarcas católicos do período, em agradecimento por sua eleição para o trono do Sacro Império Romano. Carlos tinha na ocasião 20 anos de idade. Seu irmão Ferdinand (bem mais novo que ele, nota do Titio), estaria em sua companhia.

Escusado será dizer que eles não estavam sozinhos e teriam sido acompanhados por membros da corte de Carlos e um corpo de guarda-costas. Um dos guarda-costas foi Aerts A maioria desses guarda costas eram africanos…”

“…Foi Mostaert quem pintou o mouro. Não se trata de uma coincidência. Lembrem-se que ele trabalhou na corte do regente, por isso, é lógico que ele viu Carlos antes ou depois de sua peregrinação a Halle. É lógico, portanto que o homem do quadro é o guarda costas com emblema em seu chapéu, que se destacou pela cor de corpo mais do que os outros, antes ou depois da peregrinação de Charles a Halle. Embora a pintura tenha sidompintada entre 1525 e 1530, eu assumo que o ano da peregrinação de Charles de Halle, 1520 é a principal referência para a datação da pintura.)

(Rik Wouters teórico e especialista em turismo em terras flamengas no site historiek.net

Rik Wouter especula. Tenta, de todo jeito enquadrar o nobre negro na figura de um guarda costas, mas não explica porque um desses supostos guarda costas “africanos” foi privilegiado com a distinção de ter um retrato seu pintado pelo principal e exclusivo artista da poderosa família Habsburg, governante de boa parte da Europa, nem porque esse misterioso homem negro se vestia de modo tão suntuoso, portando inclusive, a insígnia de peregrino, objeto raro (e caro) consagrado apenas aos nobres de mais alto status na corte do Sacro Império Romano.

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Medalha (insígnia) de peregrino a Halle, Bélgica, do século 16, provavelmente igual à pintada por Jan Mostaert no chapéu do “homem negro”

Podemos fechar questão, contudo, no seguinte: O quadro “homem africano” de Jan Mostaert é, efetivamente o retrato de uma pessoa real. Esta pessoa, mesmo ainda sem estudos mais definitivos sobre sua identidade, era um nobre de importância e algum poder na corte austríaca, à época da arquiduquesa Margareth da Áustria e de seu sobrinho Carlos V, da família dos Habsburg.

O “homem negro” de Jan Jaas Mostaert estava em Halle, em 1520 junto a Carlos V. Ele era um nobre, uma pessoa “chegada à família”. Muitas estranhas e bem guardadas relações devem envolver a identidade deste homem.

(O site Realhistory, em sua afirmação mais tresloucada, defende a tese de que, no ensejo de haverem tantos negros ocultos na genealogia da nobreza europeia, o “homem africano” de Ja Mostaert poderia ser, o próprio…Carlos V, da família real austríaca Habsburg.) Mas aí já achei absurdo demais.

Contudo, vocês não perdem por esperar. Os sinais muito evidentes da negritude tão improvável da nobreza europeia de então, são sim muito profusos.

Num próximo post teremos uma história mais cabulosa ainda de um outro negro na nobreza da velhusca Europa, este sim, perfeitamente identificado, quase rei, sem dúvida alguma.

O DNA deste negão, descrito por muitas fontes, escorre até hoje nas veias das melhores famílias de suposto sangue azul do Velho Mundo. Galhos insuspeitos da árvore genealógica até da família real inglesa, a mais branca realeza da Europa, teriam sido alimentados com a seiva desse homem, cuja história está disponível aos mais curiosos.

Trata-se da arrogante Europa, despeitada, conspurcada e impura, fugindo dos espelhos!

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(Estranha moeda, ducado, aparentemente autêntica,  da época de Carlos V, monarca do Sacro Império Romano, com a esfinge de um homem nobre negro. Em sendo verdadeira a moeda, quem seria esta impiante figura?)

Spirito Santo
Janeiro 2015

 

‘Nobre Negão’ or 17’ century african nobleman

•14/01/2016 • Deixe um comentário

SPIRITO SANTO

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 (Retrato realizado pelo pintor holandês Albert Eckhout de D.Miguel de Castro, nobre do Reino do Kongo, durante uma viagem comercial à colônia portuguesa do Brasil. O quadro é do século 17 e pertence ao acervo do Museu Nacional da Dinamarca).
(Retrato realizado pelo pintor holandês Albert Eckhout de D.Miguel de Castro, nobre do Reino do Kongo, durante uma viagem comercial à colônia portuguesa do Brasil. O quadro é do século 17 e pertence ao acervo do Museu Nacional da Dinamarca).

17’ century african nobleman

A informação é surpreendente. Praticamente inédita. Para os mais empedernidamente crentes no primitivismo selvagem dos africanos nos idos do século 17, a notícia é mesmo i-na-cre-di-tá-vel.

Mas é fato. Modéstia à parte um achado historiográfico impressionante.

Corro atrás de evidências sobre este mistério há muitos anos, depois de ter lido em algum lugar, num texto de Câmara Cascudo, se não me engano, uma informação muito vaga sobre uma mítica embaixada que a rainha Nzinga Mbandi (Jinga) teria enviado ao Brasil, á época do domínio holandês.

A ausência total de qualquer outra referencia sobre o…

Ver o post original 1.605 mais palavras

Eugenia reciclada e Arqueologia interesseira

•10/01/2016 • 1 comentário

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A peleja improvável do negão Sapiens versus o branquelo Neandertal

Sou reconheço, um pesquisador empedernido e cri cri. Um compulsivo, um obsessivo investigador de tudo aquilo que me chama a atenção, um bisbilhoteiro profissional.

Esta pulga de hoje, me invadiu as orelhas ali por volta de 2004, no ensejo de uma série de posts que comecei a escrever sobre o racismo, na intenção de desmascarar o que me pareciam farsas científicas grosseiras que tentavam reciclar o chamado “Racismo científico” do século 19, com o claro objetivo de justificar ações contra as recentes políticas públicas de combate à exclusão sócio racial, o nosso racismo renitente por suposto, mais precisamente as propostas de cotas raciais, afinal tornadas legais pelo STF.

Chato que nem carrapato, logo pude perceber que havia no Brasil um grupo de pessoas, entre intelectuais e acadêmicos, organizadas, envolvidas de forma militante CONTRA as propostas de reparação das mazelas sociais provocadas pelo racismo.

Os nomes logo foram aparecendo: Entre outros, Ivonne Maggie e Peter Fry (inglês) acadêmicos especialistas em cultura negra (curiosamente, de algum modo ligados ao Movimento Negro dos anos 1970/80) os jornalistas Demétrio Magnoli e Rodrigo Constantino e, o que me parecia ser o líder de todos eles, Ali Kamel, à época super poderoso editor chefe das Organizações Globo, soberano das pautas do jornalão, para o qual foram contratados como colunistas – olhem só que coincidência! – quase todos os citados (com exceção de Fry).

Os mais atentos à questão com certeza perceberam que o jornal O Globo, se transformou na ocasião numa feroz e poderosa tribuna CONTRA a adoção de cotas raciais no Brasil.

Classifiquei na época a cruzada desses intelectuais como Neo-racismo, já que a reciclagem do tal “Racismo científico” aludida acima, era o fulcro teórico principal de suas teses, a maioria extraída das foribundas teorias do direitista e racista, sociólogo e economista norte americano, membro ativo do Tea Party/Partido Republicano dos EUA, Thomas Sowell (que por acaso é negro.)

Ocorre que, já nessa época, no esmiuçamento diligente das teorias do suposto grupo neo racista de Ali Kamel, comecei a perceber a difusão no jornal dessa insidiosa e sutil teoria:

A da sutil superioridade genética do Homem de Neandertal sobre o Homo Sapiens

http://oglobo.globo.com/sociedade/ciencia/heranca-dos-neandertais-deu-humanos-modernos-defesa-pre-historica-18439948

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Sério.

É disso que trata mais um artigo de O Globo batendo nessa estranha tecla. Já li vários (dois, bem recentes, estão linkados neste post), todos, ou pelo menos a maioria, assinados pelo geneticista Cesar Baima, aliás – outra coincidência sutil – um dos consultores “científicos” convocado por Kamel e seu grupo para ir à Brasília defender a derrotada ação de inconstitucionalidade da lei de cotas no STF, assumida pelo grupo.

“…Já a segunda pesquisa foi ainda mais abrangente e revelou que os genes dos neandertais estão ligados a diversas doenças, principalmente autoimunes, como lúpus, cirrose biliar e doença de Crohn, além de diabetes tipo 2 e comportamentos como a capacidade de parar de fumar. Por outro lado, ela também mostrou que o DNA neandertal contribuiu com adaptações evolutivas vantajosas para o Homo sapiens, como as relacionadas à produção de queratina, proteína que fortalece pele, cabelos e unhas, o que teria ajudado os humanos modernos a sobreviverem nos climas mais frios de fora da África.”

http://oglobo.globo.com/sociedade/ciencia/a-heranca-genetica-dos-neandertais-nos-homens-modernos-11444984#ixzz3wmbteSiJ

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A campanha pseudo científica visa a eleição do Homem de Neandertal (europeu, suposto ascendente da “raça branca”) como residualmente superior ao Homo Sapiens (africano) considerado o antepassado direto do ser humano moderno. Em suma, a tese tenta, sutilmente atenuar ou mesmo, anular a teoria amplamente aceita hoje, que considera o surgimento do ser humano moderno como sendo um evento africano.

A ojeriza à possibilidade de todos os homens de hoje em dia terem tido um antepassado negro africano comum, aparece escorrendo como veneno nessa teoria.

No presente artigo (cujo teor, aliás, no original, pode não ter as insidiosas intenções da versão de Kamel/Cesar Baima) observem que o infográfico, logo de cara já frauda ou omite aspectos importantes da evolução dos dois grupos de “homos” postos em estranha competição.

Na linha de tempo, a longa e improvável longevidade do Homem de Neandertal é, claramente exagerada. Impossível, a luz da arqueologia moderna, uma espécie de hominídeo ter vivido tanto tempo, sem evoluir para outras espécies sucedâneas. Se o neandertal fosse máximo da evolução deste ramo, como se chamavam, quem seriam seus ascendentes? Que macacos antecederam os neandertal? O infográfico pula essa parte.

“…O que emergiu de nosso estudo, assim como do outro trabalho, é que a miscigenação com humanos arcaicos teve implicações funcionais no homem moderno. Sua consequência mais óbvia foi moldar nossa adaptação ao ambiente pela melhoria de resistência a patógenos e da metabolização de novos alimentos — esclarece Janet, para quem a ideia faz muito sentido.

Os neandertais viviam na Europa e no Oeste da Ásia cerca de 200 mil anos antes da chegada dos humanos modernos. Provavelmente já estavam adaptados ao clima, alimentos e patógenos locais. Ao nos misturarmos com eles, ganhamos adaptações vantajosas.”

Há muitos outros problemas nessa argumentação. Ela supõe o surgimento de dois tipos de seres pré humanos idênticos em áreas, completamente díspares do planeta. A hipótese, com o perdão do chiste, só seria possível mesmo se fossem “…os deuses astronautas”. E mais, a extinção dos brancos neandertais, coitados, teria se dado, segundo essa teoria, por conta da invasão de uma horda de pretos sapiens, que teriam exterminado os neandertais, introduzindo na teoria uma espécie de ‘mágoa branca’, um ressentimento secular dos caucasianos contra os africanos.

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Esta intenção subjacente da pesquisa, aparece, claramente no raso artifício do infográfico de uma das matérias, esta última de 9/01/2016 – uma fraude absurda – quando tenta nos fazer acreditar que o Homem de Neandertal, pronto e acabado, nasceu antes do Homo Sapiens, nessa linha de tempo, teria vivido mais tempo, imprimindo no homem moderno alguns elementos genéticos mais “vantajosos”, senão mais “superiores” do que os atributos biológicos originais dos “negões” Sapiens.

Para corroborar esta teoria esquisita, rasteira, nessa linha de tempo do infográfico, os antecedentes do Homo Sapiens são do mesmo modo, sumariamente omitidos, como se esta espécie também tivesse surgido no planeta assim do nada, vinda de outra galáxia, sei lá. Quem seriam os ascendentes do Homo Sapiens? A ciência já sabe, mas o infográfico, simplesmente omite esta informação, para ressaltar o improvável surgimento do neandertal antes do Sapiens.

“…Quando os humanos modernos (homo sapiens) saíram da África, entre 125 mil e 60 mil anos atrás, eles já encontraram a Europa e a Ásia ocupadas por outra espécie de hominídeos. Eram os neandertais (Homo neanderthalensis), com os quais conviveram durante milênios até que eles foram extintos, há cerca de 30 mil anos. Neste longo período de convivência, no entanto, as duas espécies se cruzaram e estudos recentes mostraram que europeus, asiáticos, oceânicos e americanos atuais têm por volta de 2% de DNA neandertal, praticamente ausente nas populações da África subsaariana, que nunca encontraram com eles.2”

O grande problema como se vê, é que a teoria parece ignorar, completamente as nuances graduais do processo de evolução de ambas as espécies, desconsiderando as inúmeras mutações genéticas que estas sofreram, até atingirem o estágio e a aparência que apresentavam na época em que, supostamente conviveram.

Nem é preciso ser geneticista ou arqueólogo para entender a trama, que tem um curioso parentesco com teses eugenistas do século 19 ou mesmo com as teorias pré nazistas que inventaram o mito do ser humano puro, ariano.

Ora, os humanos, em sua expansão pelo planeta, não poderiam ter nascido em condições climáticas tão hostis quanto as temperaturas abaixo de zero, mas, como se viu, as teses em que Cesar Baima se refere, assim grosseiramente traduzidas, cometem esta estranha afirmação tão improvável: Os neandertal – que nas gravuras aparecem com a pele branquinha, lisinha e totalmente desprovida de pelos – teriam aparecido, do nada, já nas terras frias, adaptados a elas, sem terem nenhum antepassado na linha inversa de sua evolução.

Como assim?

Óbvio ululante que, por conta da saga durante a sua expansão rumo às terras frias, o ser humano primordial, a partir de sua origem num clima ideal à sua natural evolução (a África, provavelmente), inventou procedimentos de adaptação em séculos de experimentação, tentativa e erro (descobrindo o fogo e as roupas de peles de animais, por exemplo) e foi assim sofrendo mutações biológicas respectivas ás suas necessidades de sobrevivência.

Está claro e sobejamente provado pela própria arqueologia, que nesse processo, certis grupos de hominídeos foram se tornando, gradativamente mais “brancos”, com a pele e os olhos mais claros e os cabelos lisos, se adequando assim à, por exemplo a absorção de vitamina A, em condições de insolação precárias, etc. (entenda-se aqui a melanina como um filtro solar)

Assim, grupos de homens africanos (os quais nem sabemos se eram, originalmente negros) em condições anteriores bem diversas, migrando para o norte do planeta, iniciaram a linhagem biológica dos “brancos” europeus, caso dos neandertais, uma das muitas espécies de hominídeos geradas pelo ser humano primordial, que se espalharam pela Terra.

Ocorre que a espécie de hominídeo que mais se adaptou, de forma generalizada ao planeta, foi um grupo diretamente descendente do que chamamos hoje de Homo Sapiens. A linha de hominídeos que resultou no Homem de Neandertal, não evoluiu e se extinguiu, paciência. Afinal, a extinção de espécies é um evento absolutamente natural segundo a teoria da sobrevivência das espécies estabelecida pelo recorrente Darwin.

A pergunta que não quer calar, contudo é: Porque esses grupos de cientistas e intelectuais insistem tanto nessa teoria da eventual relevância, ou até superioridade do Homem de Neandertal?

Tenho uma resposta simples: Porque o Neandertal, supostamente seria um hominídeo BRANCO. Esses grupos pretendem assim, segundo esta minha simples constatação, manter válida a insidiosa teoria da superioridade da “raça” branca. É a única dedução possível.

São sim – por ideologia ou oportunismo – neo racistas toscos esses aí.

Chifre em cabeça de cavalo, pelo em ovo? Não creio. Como disse, trata-se de uma conversa bizantina, bizarra até, mas muito pertinente, pois, é nessas questões bizantinas que mora o perigo.

Eu sei. É estranho e temerário questionar assim, com uma argumentos tão banais teorias científicas mui abalizadas, referendadas por publicações científicas tão respeitaveis, mas, devemos nos recordar que as do mesmo modo complexas e…”avançadas” teorias acadêmicas do chamado “racismo científico” do século 19 deram no que deram.

As teorias, aparentemente mais rigorosamente científicas, não raro nascem embasadas nas mais baixas e estúpidas ideologias.

Recapitulando: Numa linha que, partindo de Gobineau, passou por Lombroso e Nina Rodrigues, aprofundadas mais tarde por Richard Chamberlain, essas “teorias pós escravistas…”de ponta”, justificaram todo o barbarismo do Nazismo.

Estas ideias de jerico, envenenaram o mundo pós colonial e só foram paradas, vistas como charlatanismo pirado, dezenas de anos mais tarde com a vitória das forças aliadas numa segunda guerra mundial sangrenta, revelando ao mundo o espetáculo aterrador das sepulturas coletivas, coalhadas de corpos nus de judeus e outros seres humanos, “inferiores”, trucidados em escala industrial em nome da pureza ariana.

Melhor estar atento e forte diante da iniquidade humana, sempre tão solerte, não é não?

Spírito Santo
Janeiro de 2016

Afro-Conveniência institucional em miúdos

•18/10/2015 • 5 Comentários

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Os equívocos da política para afro descendentes no Brasil

A velha ideia de analisar com lupa me retoma. Hoje tive que ler, por dever de ofício calhamaços de documentos oficiais da SEPPIR, ex ministério criado, dizem para a promoção da afrodescendência no Brasil.

Nada como uma lida após a outra.

“Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana são definidos como grupos que se organizam a partir dos valores civilizatórios e da cosmovisão trazidos para o país por africanos para cá transladados durante o sistema escravista, o que possibilitou um contínuo civilizatório africano no Brasil, constituindo territórios próprios caracterizados pela vivência comunitária, pelo acolhimento e pela prestação de serviços à comunidade.”

Parece bonito, mas está errado: A constituição de “territórios próprios, etc.” assim como a “vivência comunitária” e a “prestação de serviços á comunidade“, numa análise menos cínica, são consequências da exclusão social, dispositivos naturais de sobrevivência comuns aos guetos de exclusão social em geral, não sendo, necessariamente avançadas instancias sociais a serem preservadas, como texto insinua.

“Comunidades Tradicionais – O que são
As políticas públicas voltadas para os Povos e Comunidades Tradicionais são recentes no âmbito do Estado brasileiro e tiveram como marco a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que foi ratificada em 1989 e trata dos direitos dos povos indígenas e tribais no mundo.”  

A raiz principal deste formidável equívoco, talvez tenha sido a impertinente inclusão de comunidades negras eventuais – na verdade guetos, frutos de nossa histórica exclusão sociorracial que remonta à escravidão – no âmbito dos povos tradicionais mais convencionais (populações indígenas), objeto principal da convenção 169 da OIT de 1989.

Ao que parece, a estratégia dos juristas e antropólogos envolvidos no processo de regulamentação desta convenção no Brasil, foi inserir a fórceps a questão racial nesse contexto, por força da renitente displicência da antropologia branca, mais acadêmica para com a “questão do negro“, por um lado, mas também por conta da vocação não menos displicente das lideranças negras cooptadas pelo governo, oportunistas e/ou ignorantes de carteirinha, diante das complexas características da condição social e verdadeiras demandas por promoção social dos afro descendentes na diáspora americana.

Por um ponto de vista mais rigoroso, podemos concluir, portanto, que o estado brasileiro, como faz desde a abolição da escravatura, não se mostrou ainda desta vez, disposto a reconhecer, de verdade, a necessidade da implementação de políticas públicas de inclusão específicas para os descendentes de escravos africanos, gerando essa aberração sócio antropológica que é o “indigenato negro pós colonial“, os generalizados “quilombos remanescentes“, as eugenistas e falsamente puras “comunidades de terreiro” e outras aberrações culturais auto excludentes.

“No Brasil, esse público passou a integrar a agenda do governo federal em 2007, por meio do Decreto 6040, que instituiu a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais (PNPCT), sob a coordenação da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) da Presidência da República”.

De acordo com o Decreto 6040, os povos e comunidades tradicionais são definidos como “grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem formas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos por tradição”.

Este conceito antropológico é, portanto, política e ideologicamente muito controverso. Não lhes parece estranho que, na prática, no contexto de uma sociedade, profundamente racista como a nossa, voltada para a sistemática exclusão de afro descendentes, em vez de se instituir políticas de inclusão dessas pessoas na sociedade geral, se institua, ao contrário, a manutenção ou a perpetuação do seu apartamento, do seu viver em guetos estanques, mediante o fornecimento de parcos recursos públicos, suficientes apenas para mantê-los “em seu lugar“?

“Entre os povos e comunidades tradicionais do Brasil estão quilombolas, ciganos, matriz africana, seringueiros, castanheiros, quebradeiras de coco-de-babaçu, comunidades de fundo de pasto, faxinalenses, pescadores artesanais, marisqueiras, ribeirinhos, varjeiros, caiçaras, praieiros, sertanejos, jangadeiros, ciganos, açorianos, campeiros, varzanteiros, pantaneiros, caatingueiros, entre outros.”

A insistente utilização do conceito “povos tradicionais“, da forma como está sendo descrito na lista de categorias culturais e trabalhistas acima citada, parece extraído daquela antropologia mais colonial, reacionária e arcaica já aqui descrita, além de ajudar também a perenizar um sem número de sub-profissões, sub-empregos que nada têm de culturalmente válidos, edificantes, frutos que são, exatamente da histórica precarização de nossas relações sociais, que precisa ser urgentemente superada e não estimulada.

No âmbito desse arrazoado de conceituações imprecisas, salta aos olhos a estranha – por ser redundante – categoria “matriz africana“, aparentemente um artifício para incluir no rol dessas políticas, comunidades afro-religiosas – “de terreiro” como se diz (no caso do Brasil, erroneamente abrangidas por um conjunto de práticas afro-baianas, grosso modo conhecidas como ‘Candomblé“).

Trata-se de um artifício reducionista, pois, numa visão colonial, limita a cultura negro-africana a um primitivismo religioso indesejável,  além de – o que é pior – a limitar a uma única…”matriz africana“, que não representa, de modo algum a ampla cultura dos africanos em geral, desenvolvida no Brasil nos quase 500 anos de experiência escravista e racista.

É a negação da modernidade aos negros do país, condenados a viver para sempre em guetos museológicos, zoos humanos com cercas invisíveis, fedendo a formol imperial.

Complexa, a sutil inclusão desta categoria “matriz africana“, politicamente talvez reflita, por outro lado, a proeminência de grupos de pressão sediados no estado da Bahia, muito influentes nas entidades governamentais afrodescendentes criadas nos últimos anos, grupos de pressão estes, ligados a currais eleitorais dominados por velhos caciques ou “coronéis” de nossa política parlamentar mais medíocre ou comezinha, da estirpe de um Antônio Carlos Magalhães, prócer da ditadura militar, ou, atualmente a de Jaques Wagner, líder de uma casta política da Bahia, atualmente super poderoso membro do governo federal.

“Segundo dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), as Comunidades Tradicionais constituem aproximadamente 5 milhões de brasileiros e ocupam ¼ do território nacional. Por seus processos históricos e condições específicas de pobreza e desigualdade, acabaram vivendo em isolamento geográfico e/ou cultural, tendo pouco acesso às políticas públicas de cunho universal, o que lhes colocou em situação de maior vulnerabilidade socioeconômica, além de serem alvos de discriminação racial, étnica e religiosa.”

Nesse contexto, a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais (PNPCT) tem por objetivo reconhecer formalmente a existência e as especificidades desses segmentos populacionais, garantindo os seus direitos territoriais, socioeconômicos, ambientais e culturais, sempre respeitando e valorizando suas identidades e instituições.”

Nesse aspecto, fica mais claramente expressa ainda, a dimensão enorme desse crasso equívoco: A confusão talvez deliberadamente estabelecida entre cultura e condição social, associando, diretamente cultura negra com pobreza, criando o paradoxo de que, para manter (preservar) a cultura “tradicional” dessas pessoas, seria necessário mantê-las numa espécie de “redoma ou aquário social”, mantido com comidinha em migalhas.

E aqui, reparem, nesse mesmo sentido, que o conceito “tradicional” assume também um caráter claramente reacionário, pois pressupõe que, além da manutenção dessas comunidades estáticas, congeladas no tempo e no espaço num mesmo território geográfico (isoladas como reservas indígenas) se sugere o seu enclausuramento num mesmo “território emocional“, caracterizado por uma cultura isolada e imutável, espécie de reserva folclórica de uma nação de brancos sem cultura própria, porém, mandando.

Caberia ao Estado, segundo esta mesma política, apenas garantir vagos “direitos socioeconômicos” a essas comunidades (“direitos” esses, na verdade provisórios), obviamente caracterizados como políticas de renda mínima tipo Bolsa Família, já que nenhum programa efetivo de promoção social, educação, capacitação profissional e emprego é vislumbrado nesses planos.

Talvez seja por conta dessa sua irrisória função institucional que nunca se verificaram ações ou intervenções efetivas da SEPPIR diante das demandas mais graves e urgentes da população negra do Brasil como, por exemplo, as práticas genocidas generalizadas contra a juventude negra, o desaparecimento de pessoas torturadas e mortas pela polícia, a truculência e a violência policial em comunidades-guetos de nossas grandes cidades, enfim.

Não se observou, portanto, nenhuma ação concreta, nem mesmo qualquer posicionamento político da SEPPIR no âmbito da inexistência total de políticas públicas voltadas para as chamadas “comunidades carentes“, favelas e bairros precários, no momento sofrendo a pressão insuportável de ações de contenção, repressão e controle policial-militar (UPPs, no caso do Rio de Janeiro), cujo único paralelo foram as práticas similares levadas a cabo pela polícia do apartheid da África do Sul pré-Mandela-ANC.

“…A SEPPIR, por meio da Secretaria de Políticas para Comunidades Tradicionais (SECOMT), é responsável pela execução da Política voltada a alguns grupos deste segmento: povos e comunidades tradicionais de matriz africana, quilombolas e ciganos.”

Outro aspecto relevante do caráter evasivo e clientelista desse plano é o número irrisório de beneficiários afro descendentes atendidos (como se viu, apenas parte de 5 milhões), no âmbito de uma população afro descendente composta, segundo o IBGE, por cerca de 100 milhões de almas, a grande maioria em situação social tão ou mais precária do que os meros parte do 5 milhões abrangidos pelo PNUD/SEPPIR.

Assim, como principal resultado desta política, amplo programa de marketing político e eleitoral pôde ser deflagrado e mantido, a partir da propagação da falácia de que os governos atuais, “como nunca antes em nossa história“, cuidam do problema da exclusão sociorracial”, promovendo a evolução da comunidade negra” de forma universalizada, quando, na verdade, essas políticas são, isto sim, totalmente desfocadas, inócuas, servindo apenas para criar uma casta de “negros de elite“, fiel defensora do status quo, do governo e do partido no poder, em última análise um aparelho populista, na acepção da palavra.

(Os textos analisados até aqui foram extraídos do doc. “Presidência da República – Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. Chamada Pública N.o 001/2013de propostas para apoio a projetos de fortalecimento institucional das entidades representativas dos povos e comunidades tradicionais de matriz africana do Brasil)

O aparelhamento dos movimentos sociais

Black peleguismo e outras peles e máscaras brancas

Finalidades da SEPPIR

– Formulação, coordenação e articulação de políticas e diretrizes para a promoção da igualdade racial;

– Formulação, coordenação e avaliação das políticas públicas afirmativas de promoção da igualdade e da proteção dos direitos de indivíduos e grupos étnicos, com ênfase na população negra, afetados por discriminação racial e demais formas de intolerância”

Num Estado, flagrantemente racista, com todos os poderes institucionais dominados por nossa velha estratificação sociorracial herdada do escravismo (“o branco mandando“) a completa independência institucional dos movimentos sociais que promovem a luta contra o racismo deveria ser fundamental (a questão da independência política, aliás, foi acaloradamente debatida pelas lideranças antirracistas do final da década de 1970).

A captura dessas finalidades por um órgão governamental (a SEPPIR), criou, evidentemente uma aberração política, pois na prática, instituiu, como um pega moscas, a cooptação da maioria das lideranças, diluindo e desestruturando os grupos movimentos antirracistas independentes por ventura sobreviventes. O resultado óbvio disso, no caso, foi a paralisação de qualquer reação organizada contra o racismo no país.

É de se destacar que nos governos federais dos últimos 12 anos a prática da cooptação de movimentos sociais por meio da institucionalização de suas reivindicações e da criação de apêndices governamentais, tem sido bastante recorrente.

A prática, de perfil historicamente fascista, parece ter sido iniciada nesses governos pela cooptação das entidades sindicais, via financiamento e distribuição de benesses para as lideranças, de modo que hoje no Brasil, o movimento sindical, aglutinado em duas centrais principais, se encontra, quase que inteiramente subordinado ao partido no governo.

A gênese real desta prática, contudo, parece ter sido um efeito colateral do nosso processo de democratização pós ditadura, no qual a reorganização ou a refundação de estruturas partidárias convencionais, acabou por aglutinar, de forma mais ou menos caótica, os movimentos sociais independentes, surgidos, espontaneamente na luta contra a ditadura e que se haviam pulverizado em centenas de entidades sindicais, estudantis, associações de bairro, grupos artísticos, etc.

“- Articulação, promoção e acompanhamento da execução dos programas de cooperação com organismos nacionais e internacionais, públicos e privados, voltados à implementação da promoção da igualdade racial;

– Coordenação e acompanhamento das políticas transversais de governo para a promoção da igualdade racial;

– Planejamento, coordenação da execução e avaliação do Programa Nacional de Ações Afirmativas;

– Acompanhamento da implementação de legislação de ação afirmativa e definição de ações públicas que visem o cumprimento de acordos, convenções e outros instrumentos congêneres assinados pelo Brasil, nos aspectos relativos à promoção da igualdade e combate à discriminação racial ou étnica.”

Transformando-se em instancias meramente subordinadas a um governo – melhor dizendo, subordinadas aos interesses de um governo – este conjunto de “movimentos sociais” (entre os quais o chamado movimento negro) acabou se transformando em estruturas pseudo democráticas, com a função precípua de operar como milícias populistas, grupos de pressão, cuja função única parece ser a de dar suporte eleitoral ao partido que, eventualmente ocupa o poder, do qual, como dissemos, se tornaram apêndices.

Por fim, no ensejo da transformação desta ex-SEPPIR numa secretariazinha de um ministério de redundâncias, talvez seja a hora de nós, pretos e brancos do Brasil, refletirmos sobre o que é realmente pertinente, relevante, nesta longa e insana luta contra o racismo.

Hora de assumirmos, de uma vez por todas que, muito mais do que uma nódoa em nossa vaga ideia de civilização, o racismo é o pilar central desta nossa ojeriza pelo progresso ou pela democracia, de nosso atraso geral enfim.

Inclusão e exclusão são palavras óbvias, auto explicativas, nas quais não cabem eufemismos. Os negros do Brasil precisam então de políticas públicas que os incluam no rol dos cidadãos plenos, beneficiários normais de direitos universais, Educação, Liberdade e Trabalho, basicamente.

A nossa luta deve ser então por Direitos Civis.

(Não é a toa que a política de Cotas Raciais na Educação é reconhecida hoje como a única conquista real e bem sucedida dos negros brasileiros nesse processo)

Quilombos“, “favelas“, guetos-territórios remanescentes de nosso passado escravista, são entidades sociais execráveis que não merecem o nosso apreço ou perdão. Tratar esses precários e desprezíveis modos de vida da maioria dos negros do Brasil como política pública, algo a ser mantido, preservado, é reacionário.

Do mesmo modo, abrigar no campo amplo da Cultura – a guisa de pretexto ideológico – modos de vida que deveriam ser provisórios, é uma forma cínica de conservadorismo, de agradar à Casa Grande, de “manter o negro no seu lugar“.

Cultura – é bom que se lembre – é uma instancia espontânea da natureza humana e, numa visão mais aberta dos sentidos dela, ainda no nosso caso, não é pertinente trabalhar com um projeto de cultura negra, pretensamente “pura”, trancada em grotões oprimidos, clara política de exclusão.

Livre e integrada á sociedade geral como parte dela, a cultura dos africanos trazida para cá, normalmente sobreviverá. É humano que assim seja.

O fato concreto e definitivo é que somos tributários de uma rica e indelével herança cultural transatlântica e de certo modo, pretos e brancos, queiramos ou não, somos isso, uma cultura africana na diáspora.

Não nos serve mais apostar em políticas de traço eugenista, este mais do mesmo que é uma cultura de negros subalternos aqui, outra sub-cultura de brancos mandando ali.

Reabolir – agora de fato – a nossa velha escravidão, deverá passar também pela abolição das cumplicidades de nós mesmos com este sistema e suas armadilhas atraentes para uns poucos.

Se o governo é o Sinhô, ao escravo cabe gritar contra ele, assassinar qualquer traço dele que ainda sobreviva em si.

Spirito Santo

Outubro 2015

CINEMA E SOCIEDADE

•18/10/2015 • Deixe um comentário

Valeu, vinteculturaesociedade, pela republicação!

vinteculturaesociedade

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Val, empregada de família de classe média brasileira, trata com carinho,
filho da patroa, como se fosse sua própria mãe

“Será que ela volta?”

Patroa evita a praia e pega um cineminha

Por Spirito Santo*

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Doméstica incendeia varal de roupas dos patrões na rebelião dos empregados
de uma mansão em “Boa Esperança”, clip de Emicida, dirigido por Kátia Lund

Enquanto isso, empregada assiste outro filme na televisão.

“…Quando a brasiliense Camila Márdila surgiu como candidata a viver Jéssica, uma das protagonistas de “Que horas ela volta?”, a diretora Anna Muylaert implicou um pouco. Afinal, o roteiro descrevia a personagem — uma adolescente que se reencontra com a mãe, Val (Regina Casé), em São Paulo, após dez anos separadas — como uma mulata pernambucana.”
(Fabiano Ristow em O Globo)

Então…

Assisti ontem a excelente entrevista de Mario Sergio Conti com Anna Muylaert na Globo News. O tema, claro, era o festejado…

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