DO SAMBA AO FUNK DO JORJÃO Livro do pesquisador SPIRITO SANTO tem segunda edição

•28/12/2016 • Deixe um comentário

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DO SAMBA AO FUNK DO JORJÃO

Livro do pesquisador SPIRITO SANTO tem segunda edição revista e aumentada!

Resenha

Engana-se o leitor que acreditar que DO SAMBA AO FUNK DO JORJÃO — Ritmos, mitos e ledos enganos no enredo de um Samba chamado Brasil é um livro somente sobre música. É muito mais. O Spirito é outro. Descemos (ou subimos) as ladeiras da história/histórias dos Brasis, seu interior, cidades, encontros e desencontros de sons, silêncios, vozes roucas, compassos e gingas.

Spirito Santo é um dos mais criativos pesquisadores da cultura brasileira, aquela da diáspora e suas dimensões crioulas. Não ficou em laboratórios e nunca preocupado com explicações fáceis – e seus essencialismos — e de enredos românticos. Seu andamento foi pesquisa-experimentação-erudição. Conferiu bibliografia clássica, aquela acadêmica, a literatura e os registros da memória. Foi ouvir os velhos e os jovens. Uma acuidade atenta às várias perspectivas teóricas e metodológicas.

Suas jornadas já tem longa data, iniciada nos anos 70. Aqui ou acolá emergiam vozes, sons e ritmos. Experimentava muitos. Inventava outros tantos. Não fabricava só instrumentos. Mas fundamentalmente sentidos-sons. Procurava autorias, transformações, permanências e personagens.

Spirito Santo fez escola com uma metodologia própria de pensar/criar/executar ritmos alinhando percursos diaspóricos e suas entranças atlânticas. Sua persistência lhe garantiu um acervo extraordinário com entrevistas, discos, partituras e gravações desde os anos 70 com músicos, artistas, instrumentistas e personagens da musicalidade negra.

O Vissungo – conjunto criado por ele – produziu uma original trilha sonora para uma geração negra que aliou protesto, mobilização política e vontade de conhecer incontáveis afro-brasis, pertos ou distantes. O silêncio sobre este som soa estrondoso para a história do tempo-presente da diáspora, com a centralidade no Rio de Janeiro.

Spirito foi também solo e acompanhamento da sua trajetória. É reconhecido por muitos como um dos mais destacados intelectuais da sua geração. Parte da qual esquecida, posto não submissa. Não esperou aplausos e pedidos de bis, mas foi à luta. Considerado estudioso brilhante que juntou pesquisa, erudição, inquietude e criatividade nos oferece uma viagem sonora única para entender o Brasil. O de ontem e o de hoje.

É possível localizar nela – entre outras coisas – outras faces e fases do atlântico negro e das identidades culturais na melhor tradição analítica de Stuart Hall a Paul Gilroy. Desfilam partituras, cosmogramas, caxambus, jongos e congadas.

Reencontramos heróis anônimos da sua própria história. Somfos conduzidos tanto a passeios pelas Minas Gerais e seus ritmos como convidados a invadir morros e seus ruídos. Caramba, aumenta o volume!

Flávio Gomes
historiador UFRJ

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A “Middle passage” do Brasil e o Kalunga de Zumbi que não deu em O Globo

•19/11/2016 • 1 Comentário

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 Já pensaram, o Titio em O Globo em pleno dia de Zumbi?

Quase que colou…O texto do Titio a seguir foi encomendado em 2012 – pasmem! – por um importante órgão de defesa dos direitos do negro aqui do Rio. A pessoa muito gente boa que intermediava o convite me dizia:

“…Escrevo para você porque uma de minhas ideias …é um artigo escrito por alguém que entenda de cultura afro-brasileira e, portanto, seja um nome respeitado, a ponto de me permitir sugerir o texto à seção de Opinião do O Globo.

…O que me diz? … Aguardo ansiosamente o seu retorno.”

Viram só? O ‘pasmem‘ é pelo o inusitado que foi um crítico marrento e tão mordaz destes órgãos todos, muitos deles ‘chapa branca’ como vivo espalhando por aí, ser convidado para escrever um texto assim meio que ‘oficial‘. O mais inusitado de tudo nem era isto. Imaginem: O texto seria – viram só? – para propor à pauta do 20 de Novembro do jornal O Globo!

Bem, meu ‘bicho carpinteiro’ aparecido como ele só logo gritou, exultante:

“_ Êba!”

É, mas fui logo avisando a pessoa que intermediava o convite que talvez eu não fosse o mais talhado para o serviço, pois não sabia escrever textos ‘chapa branca‘ de jeito nenhum e que podia sim escrever, mas só se fosse com a ampla liberdade de opinião que me caracteriza. E não é que a pessoa topou? Não tinha mesmo como fugir.

Haviam uns tópicos chave, a citação obrigatória de certos pontos etc.. Nada que não fosse fácil de fazer, usando sutis picardias e entrelinhas (e esta era a parte mais divertida da missão).

É que desafio melhor não há: Escrever um texto para um jornalão pautado as vezes por um racismo renitente, ao mesmo tempo sem ser ‘chapa branca‘, mas criticando pontos chave que acho por bem criticar sempre e, ainda assim sem ser furibundo e abusado demais, como as vezes sou aqui no facebook ou aqui no quintal do meu blog…e isto tudo com apenas 3000 caracteres.

Uma experiência jornalística imperdível, digamos assim, fundamental para um escrevinhador contumaz feito eu.

Bem, lógico que não rolou. Alguém no percurso não mordeu a isca. Sei lá porque, impossível saber. Mas nem assim, criança frustrada em sua brincadeirinha eu fiquei. É que agora – ô sorte! – existe esta banca enorme de leitores aqui da Internet. Os jornalões com suas pautas travadas estão até ficando cada dia mais para trás, pegando o bonde andando da comunicação veloz da rede.

Vou liberando então para todo mundo – azar o deles – o textinho que fiz para marcar a data do dia nacional da consciência negra, o nosso Dia de Zumbi” e que, mesmo assim, arteiro como sou, não consegui ‘infiltrar‘ na pauta de O Globo de Ali Kamel.

Ah, se eu te pego!

Eis o texto que quase foi publicado:

“20 de Novembro: A Passagem e a sublimação do ‘kalunga’

Num 20/11 no século 19, o momento crucial da travessia era aquele onde a metade do caminho entre a África e a América era transposta. Ali a inexorabilidade do destino podia ser percebida no ar de um Atlântico fatal para a história das pessoas amontoadas nos porões do navio.

Ali eram distribuídos aos reféns doses calmantes de tabaco em cachimbos especialmente fabricados para o fim ambíguo de acalmar o pânico das almas e, ao mesmo tempo amansar na carga qualquer sanha que a fizesse se rebelar contra o mal sabido destino.

A tripulação chamava este portal de ‘Passagem do Meio’, uma expressão utilizada pelos traficantes de escravos, como demarcação de uma fase da viagem em que a carga podia ser considerada salva da apreensão pelos ingleses, que à época interceptavam os tumbeiros por ali. Os africanos, a maioria embarcada à força nos portos de Angola, julgavam esta passagem o momento crucial da travessia existencial de um portal entre o Mundo dos Vivos e o dos Mortos: A trágica travessia do “Kalunga”.

Foi assim, evocando estas mesmas memórias, que se construiu na cidade do Rio de Janeiro um monumento à Zumbi de Palmares, herói seminal decapitado no século 17. É providencial que dentre os eventos da agenda programada para 2012, um dos pontos altos seja a lavagem ritual do monumento. É que o ato é sempre antecedido pela ação noturna de pichadores que grafam suásticas na cabeça do rei Oni, do Benin, escolhida para representar nosso angolano Zumbi.

Mas podem ser positivas também estas memórias.

Descobriu-se agora mesmo por exemplo, quase ao rés do chão do Porto do Valongo, vestígios de africanos que transpuseram a “Passagem do meio” e aqui desembarcaram. É certo que o que existe de mais arqueológico por ali, além de cacos dos cachimbos baforados dos reféns escravos, são esqueletos desmembrados de “pretos novos”, os recém-chegados que morriam e eram por ali mesmo lançados num imenso pântano, mandado aterrar em 1815 por ordem de um alto funcionário da Corte de D. João VI.

É, pois promissora sim – se superados os interesses políticos e comerciais mais imediatistas ligados às obras – as chances abertas para se ter aqui no Rio de Janeiro avanços substanciais nesta questão.

Até leis já temos animando esta trajetória esperançosa por este mar do retorno a dentro. Entre outras leis, temos a 12.711, que trata das cotas sociais e ‘raciais’ e a 10.639 que versa sobre o ensino da história do negro e da África, ambas no âmbito urgente da educação pública.

De todos os significados deste ‘Dia de Zumbi‘ o mais digno de todos, portanto, talvez seja o ensejo de quebrar o paradigma do racismo no Brasil. A viagem de nós todos para a condição de amantes sinceros e fiéis da liberdade e da democracia enfim.

Num 20 de Novembro destes – esperamos que em breve futuro – à condição de seres humanos e solidários, havemos de voltar.

Spirito Santo

Músico. Artista visitante da UERJ

Les Batutas, 1922. Uma antropologia da noite parisiense

•25/07/2016 • Deixe um comentário

Juro que procurava apenas um dado banal para corrigir a legenda de uma foto. Achei este interessantíssimo artigo.

De novo a chama intensa do instigamento me assolou. Tanta coisa nova a descobrir – e, principalmente a confirmar – sobre o – muitas vezes sutil – apagamento do protagonismo do negro na construção da modernidade de nossa cultura ainda – por isso mesmo – incompletamente revelada.

Muito surpreso também com o fato de tão profusas informações terem sido encontradas – mais uma vez – fora do Brasil, por um diligente pesquisador também interessado no desvendamento dessas pontas soltas de nossa história, sempre omitidas, nunca suficientemente desvendadas naquelas partes que foram, na verdade fruto do gênio de artistas ou intelectuais negros, aqueles a quem se decidiu, por pura iniquidade, reservar o eterno papel de ignorantes subalternos.

(Fiquei muito surpreso em saber que ainda na década de 1920, antes ainda de Mário de Andrade, Pixinguinha e Donga integraram uma equipe de pesquisadores de campo, recolhendo e registrando música tradicional pelo interior do Brasil. Alguém entre vocês sabia?)

Havia dito isso já em meu livro, acerca desse apagão racista na formação de nossa música popular, intuindo o que alguns outros – não muitos – já disseram e vão, cada um a seu modo, dia a dia, recolocando dados no lugar. O alentado artigo que leremos (de 2005), devolve o crédito pela fundação da música popular brasileira mais moderna, a quem de direito, fundação está ocorrida justo nas primeiras décadas do século 20 (quando a maioria dos músicos eram negros, por razões que não cabe aqui discutir, a maioria delas ligada às idiossincrasias da escravidão e seu sucedâneo, o racismo)

Descrevendo em minuciosos detalhes o enorme sucesso em Paris do grupo Les Batutas de Pixinguinha e Donga, entre outros, numa época em que o próprio conceito de música popular mundial era forjado, este artigo abre novos caminhos para a redenção da razão ou da verdade do que ouvimos por aí.

A África musical que nos habita, se agita, enche o ar de groove e dança nessas horas.

Spirito Santo
Julho 2016

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“A versão original deste texto, que foi bastante modificada, saiu em inglês em Antropologia em Primeira Mão, 66 (2004). Graças a uma bolsa da Capes, pude ter acesso às fontes francesas que estão na base do texto, quando de minha estadia em Paris de setembro a dezembro de 2002, como convidado do Laboratoire d’Etnomusicologie do Departamento de Etnomusicologia do Musée de l’Homme e do Centre d’Études Nord-Américaines da École des Hautes Études en Sciences Sociales.

Agradeço a Bernard Lortat-Jacob, Jean-Michel Beaudet e Sara Le Menestrel, pela parceria. Também a Anne Decoret, Kali Argyriadis e Didier Chantillon, pelas gentilezas. Agradeço ainda aos colegas do Departamento de Antropologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Alberto Groisman, Theophilus Rifiotis, Jean Langdon, Márnio Teixeira Pinto, Carmen Rial e Miriam Grossi, pelas conversas sobre a pesquisa.

A Samuel Araújo e Carlos Sandroni, por suas contribuições. Aos membros do grupo de pesquisa da UFSC, Arte, Cultura e Sociedade na América Latina e Caribe (Musa), pelas idéias partilhadas durante os últimos anos. A tradução básica do artigo original para o português é de Talita Portilho.

Rafael José de Menezes Bastos

(Legenda foto)
“Les Batutas” e Duque, 1922. Em pé: Pixinguinha, José Alves de Lima, José Monteiro, Sizenando Santos “Feniano” e Duque. Sentados: China, Nelson dos Santos Alves e Donga.

Introdução

Em 1922, Os Oito Batutas – reduzidos a sete músicos –, sob a direção de Pixinguinha e incluindo Donga e outros membros importantes do círculo de música popular do Rio de Janeiro, passaram seis meses em Paris, de fevereiro a agosto.

Durante esse período, o grupo – na França chamado de Les Batutas – apresentou-se no Shéhérazade, entre outros locais.

Este trabalho pretende contribuir para a compreensão dessa viagem, episódio pouco conhecido na história da música popular brasileira, embora considerado pelas fontes brasileiras dos anos de 1970 bastante importante para a carreira de Pixinguinha e para a música popular brasileira em geral, particularmente por evidenciar já naquela época as influências musicais norte-americanas, o que não é comumente reconhecido.

Tais fontes – com exceção de Pixinguinha e Donga nos depoimentos incluídos em Fernandes (1970) – enfatizam que, em Paris, Os Batutas mantiveram ligações relevantes com colegas norte-americanos. Apenas com estes, em uma cidade como Paris, em que se encontravam músicos de toda parte do mundo. Destacam também que depois da viagem o grupo incorporou aos arranjos instrumentos como saxofone, clarinete e trompete, além de gêneros musicais como fox-trots e outros, passando, ainda, a usar o estilo de arranjo de jazz-band (Marcondes, 1998, pp. 583-584, 634).

A excursão foi também construída pelas fontes em comentário como jornada épica, isto é, os viajantes-músicos passaram a ser vistos como heróis e aqueles que escreveram a seu respeito como narradores épicos (ver especialmente Cabral, 1978, pp. 41-46; Silva e Oliveira Filho, 1979, pp. 43-78). Na época, a viagem provocou no país um acalorado debate sobre a legitimidade d’ Os Batutas – em sua maioria negros, que faziam uma música considerada nacional brasileira – como representantes brasileiros em Paris.

Para os envolvidos no debate, Paris não se tratava de uma cidade qualquer, mas a capital cultural do mundo, desde o século XIX referência central para a cultura brasileira, especialmente para as elites (Ortiz, 1991, p. 8; Rial e Grossi, 2000, p. 2). Embora a viagem não fosse uma missão de Estado, o debate tendeu a assim considerá-la. No debate em consideração, os argumentos dos “contra” tinham um cunho racista e eurocêntrico, desqualificando a música nacional como provinciana e de baixa extração.

Os “pró” enalteciam a competência dos músicos e a natureza indígena de sua música.5 A literatura dos anos de 1970 descreve as apresentações do grupo em Paris como muito bem-sucedidas, considera o contato com os músicos norte-americanos fértil e qualifica a volta do grupo ao Brasil, que iria participar das festividades do primeiro centenário da Independência no Rio de Janeiro, como triunfante. Pixinguinha é um nome consagrado da música popular brasileira, rei do choro – ilustre gênero instrumental –, e um dos músicos mais importantes na construção do samba carioca como gênero emblemático da música popular brasileira (Vianna, 1995).

Esse lugar ímpar resulta de vários fatores: desde sua posição central no universo do samba, passando pelo seu virtuosismo como flautista, até sua genialidade como compositor e arranjador. Essas qualificações foram paulatinamente reconhecidas pelos colegas, pelo público e pelos críticos da música popular brasileira.

Embora não tenha sido sambista, mas chorão, Pixinguinha tinha amplo acesso ao mundo do samba, especialmente em relação à sua variedade mais antiga (do tipo de Pelo telefone, de 1917). Apesar de carioca, tinha uma profunda lealdade em relação à Bahia, pois, como Donga e João da Baiana, era filho de pai carioca e mãe baiana (Baiana, 1970, p. 60).

Tudo isso criou condições para que ele tivesse uma inserção privilegiada no universo do samba, que, desde o final dos anos de 1920, era dominado por disputas entre uma facção identificada com a variedade mais antiga, denominada baiana, e outra, com a mais nova, carioca (Sandroni, 2001). Ademais, Pixinguinha tinha acesso à música erudita ocidental– e contato com músicos, como Villa-Lobos –, fator que contribuiu fortemente para a criação de uma verdadeira aura em torno de sua pessoa.

Este texto pretende mostrar que a viagem para Paris d’Os Batutas foi fundamental e deu o primeiro impulso para a construção de Pixinguinha como primus inter pares da música popular brasileira. A estadia na Europa e o debate gerado aqui no Brasil em torno da viagem significaram o auge de um movimento iniciado com a fundação d’Os Batutas em 1919, por meio do qual Pixinguinha foi confirmado como grande músico e a música produzida pelo grupo, sob sua liderança, imediatamente reconhecida, tornando-se a seguir o âmago do universo do samba.

Foi a partir dessa jornada que Pixinguinha começou a criar vínculos musicais e compatibilizar sua música com o jazz, que na época se encontrava em franco processo de se estabelecer como o novo universal da música popular. A trajetória musical de Pixinguinha teve várias fases. A primeira evidencia-se ainda na adolescência, quando ao 14 anos já era um flautista virtuoso (Cabral, 1978, pp. 21-26).

A estréia, em 1919, d’Os Batutas marcou a abertura da segunda fase de seu trajeto. Havia no Rio de Janeiro uma forte presença da música norte-americana baseada na jazz-band, identificada como moderna (Tinhorão, 1990, pp. 195-203), o que se contrapunha à idéia de uma música nacional – popular – sertaneja e indígena, associada pela intelligentsia ao grupo d’Os Batutas. Havia, portanto, uma oposição entre essa música popular e a estrangeira, e ainda entre o popular e o aristocrático, isto é, a música erudita, incluindo a ópera (Cabral, 1978, p. 31).

Os Oitos Batutas foi formado para tocar na sala de espera do elegante Cine Palais, e teve como público membros da elite carioca, muitos deles – como Arnaldo Guinle(1884-1964) – ligados a um ideário nacionalista em defesa da cultura popular, pensada como rural por excelência, em oposição à urbana (Idem, pp. 31-32). Guinle será o mecenas do grupo, financiando suas viagens pelo interior do Brasil, em 1919 e 1921, além da estadia em Paris.

Desde sua fundação Os Oito Batutas geraram polêmica. O fato de serem em sua maioria negros e o tipo de música que faziam eram motivos para controvérsia. Identificá-los à genuína musicalidade nacional, significava para muitos uma desqualificação em termos de uma pretensa universalidade equacionada com o cânone da música clássico-romântica ocidental – e um veredicto de provincianismo. Além disso, a negritude era vista como sinal de inferioridade sociocultural.

Após a viagem a Paris, essas questões tenderam a ser absorvidas positivamente, e o choro foi assumindo um papel central em nossa cultura até se consagrar, vinculado ao samba, como o símbolo da música popular brasileira, ao tempo em que se tornava compatível com o jazz, nova linguagem musical do sistema mundial.12 Voltando de Paris, Os Batutas – agora, oito músicos – viajaram a Buenos Aires, de novembro de 1922 a abril de 1923, onde gravaram para a Victor e se apresentaram em teatros, com muito sucesso.

No entanto, nesse período ocorreu a dramática segmentação do grupo, que se dividiu em dois sob as lideranças de Pixinguinha e Donga.14 Entre 1919 e 1922, o Brasil, governado por Epitácio Pessoa (1865-1942) – importante político, ex-senador, ministro e chefe da delegação brasileira na Conferência de Paz de Paris em 1919 –, conheceu um período de considerável prosperidade econômica, como exportador agrícola, principalmente de café no decorrer da Primeira Guerra Mundial (Fausto, 1999, pp. 292-295).

Politicamente, foi um momento turbulento, marcado por greves de trabalhadores urbanos e por uma forte tensão entre governo e militares (Idem, pp. 295-315). Data de 1922 a fundação do Partido Comunista Brasileiro (PCB). No âmbito da cultura, a época foi de mobilização, marcada pela Semana de Arte Moderna em São Paulo, em 1922, que envolveu a vanguarda artística do país – Mário de Andrade, Oswald de Andrade, entre outros (Carpeaux, 1964, p. 270) –, tendo Villa-Lobos entre seus mais notáveis participantes da música erudita (Wisnik, 1977).

O movimento lutava por uma arte nacional brasileira, de inspiração folclórica, tendo como um de seus principais alvos de crítica as concepções clássico-românticas européias. A França, em 1922, vivia as catastróficas conseqüências da Primeira Guerra; sua economia estava fragilizada, com altos níveis de desemprego, e havia, politicamente, um clima de muita perturbação (Agulhon et al., 1993, pp. 35-50). Em 1918, 200 mil soldados norte-americanos se encontravam no país, evidência eloqüente de sua “invasão musical” por parte dos Estados Unidos (Richard, 1991, pp. 214-216; Tournès, 1999, pp. 11-32; Martin e Roueff, 2002, pp. 93-104).

Desde o final do século XIX e início do XX, a França já vinha sendo “invadida” pelas danses exotiques e danses nouvelles (Apprill e DorierApprill, 2001, p. 31). As primeiras incluíam tudo que fosse estrangeiro; as segundas, especialmente as manifestações artísticas provindas das Américas – o cake walk norte-americano, o tango argentino, o maxixe brasileiro, o paso doble espanhol, a rumba cubana, entre outros.

Os gêneros provenientes da América Latina e os orientais– danças cambojanas, por exemplo – eram muito prestigiados (Decoret, 1998, vol. 1, pp. 59-132).15 Misturavam-se todos, juntamente com os gêneros propriamente franceses, no music hall – se os anneés folles foram o tempo de consagração, na França, de Josephine Baker, eles também o foram de Mistinguett e Maurice Chevalier.16 Após a guerra, o bal musette – proibido de 1914 a 1919 – foi retomado como principal opção de dança francesa nos dancings e cabarés (Argyriadis e Le Menestrel, 2003, p. 27).

Os músicos-viajantes, o dançarino-agente, o empresário-mecenas e o aficionado-político

Este era o clima cultural na França, quando da viagem d’Os Batutas – uma aventura sem igual, envolvendo vários agentes e agências em torno de três personalidades notáveis: o empresário Arnaldo Guinle, no papel de mecenas; o dançarino Antonio Lopes de Amorim Diniz (1884-1953), cujo apelido, Duque, salientava sua elegância como agente cultural; e o político e diplomata Lauro Müller (1863-1926), que imprimia na jornada uma idéia, diríamos, de missão quase diplomática.

Unia essas personalidades o encanto pela música d’Os Batutas, a crença na idéia de que o Brasil tinha uma missão no mundo e a convicção de que a música – nacional, de inspiração folclórica, feita por negros, sim, no âmago da elegante boemia carioca – constituía a essência dessa missão. Radicado no Rio de Janeiro desde 1906, o Duque foi responsável pela criação de coreografias primorosas para gêneros brasileiros, especialmente o maxixe, então considerado gênero das camada baixas. Em 1909, ele se mudou para Paris, dançando em bares e teatros com Maria Lino – famosa dançarina ítalo-brasileira.

Alcançaram fama em 1913, ao ganharem o primeiro prêmio em uma competição em Berlim. Fundou uma escola de dança em Paris em 1915, viajou para Londres e Nova York para realizar apresentações; em seguida, voltou para o Brasil, de onde fez excursões para Montevidéu e Buenos Aires; em 1921 retornou a Paris, quando lançou o samba no teatro Albert Premier, tornando-se, em seguida, diretor artístico do Schéhérazade.

Depois disso, no Rio de Janeiro foi acompanhado pelos Batutas, que pela primeira vez tocavam para uma apresentação de dançarinos, no elegante cabaré Assírio (Pixinguinha, 1970, p. 23). Duque encantou-se com o conjunto, obtendo ajuda financeira de Guinle e apoio político-diplomático de Müller para tornar possível a viagem à França, a fim de disseminar a música e a dança brasileiras (Marcondes, 1998, p. 254).17 Guinle, engenheiro e empresário, possuía grande fortuna, oriunda da exploração do porto de Santos (Alvarenga, 2001); refinado e filantropo, foi o mecenas de um dos primeiros esforços no Brasil de coleta de música folclórica.

Com seu patrocínio e sob a supervisão de Villa-Lobos, Pixinguinha, Donga e João Pernambuco (compositor e violonista João Teixeira Guimarães [1883-1947) – o último então também membro d’Os Oito Batutas viajaram pelo interior de São Paulo e Minas Gerais, em 1919, e pelo interior da Bahia e de Pernambuco, em 1921, para recolher, via transcrições feitas de ouvido, manifestações de música folclórica (Cabral, 1978, pp. 32-35, 38-40; Donga, 1970, pp. 8889).

De origem francesa, Guinle era habitué do Le Schéhérazade em Paris. No Rio de Janeiro, freqüentava os elegantes music halls, conhecendo Os Batutas no Assírio (Pixinguinha, 1970, p. 23). Junto com o irmão Carlos, financiou a estadia de Villa-Lobos em Paris, de 1927 a 1930. Müller, originalmente engenheiro militar que alcançou o generalato, era seguidor de Benjamin Constant Botelho de Magalhães (1836-1891) também engenheiro militar –, um dos mais importantes intelectuais e políticos brasileiros ligados ao positivismo de Comte, doutrina de grande impacto no Brasil, particularmente entre os militares (Fausto, 1999, pp. 232-233; Giannotti, 1978, pp. xv-xviii).

Müller foi deputado federal, senador e, entre 1912-1917, ministro das relações exteriores, como sucessor do Barão de Rio Branco. Em virtude de seu prestígio, foi peça estratégica para a viagem d’Os Batutas, dando-lhes apoio político diplomática no Brasil e na França. Era também habitué da elegante vida noturna carioca, na qual conheceu o grupo (Donga, 1970, p. 89).

Les Batutas em Paris: sobre a americanização francesa da música popular brasileira

Les ‘étoiles’ d’aujourd’hui sont artificielles; elles sont guindées et mécaniques parce qu’elles n’ont pas la même ressource, ce qui reste de monde autour d’elle [sic] s’adonnants [sic] aux tangos et matchiche qui n’ont aucun rapport avec la chorégraphie des théâtres officielles, pour l’aquelle [sic] travaillent nos compositeurs de ballets. M. Lebond, 192220.

Como foi construída a persona d’Os Batutas em Paris? Que recepção teve o grupo nesta cidade? Estas as questões a explorar agora, no contexto de uma pesquisa em andamento, com base tanto na literatura especializada, como na leitura de um número expressivo de jornais e revistas franceses da época, e também de fontes brasileiras.

O objetivo é recompor não só as intenções do grupo e de sua equipe – Duque e o staff do Le Shéhérazade –, como também o perfil do público e suas reações. Em suma, pretendo analisar como a aquisição e a atribuição da persona d’Os Batutas combinaram-se em Paris. Nesse sentido, faz-se necessário lançar um olhar sobre o ambiente cultural da cidade no período – a noite parisiense nos anos de 1920, quando a capital começava a ser desenhada no imaginário mundial como a cidade dos prazeres.

À maneira de Geertz, a análise será feita na cidade, nas ruas, nas casas noturnas, nos lupanares. A crônica da qual foi extraída a epígrafe desta seção é toda uma queixa sobre a situação da dança e da música francesas durante a época em estudo. Além de ser um ataque ao tango e ao maxixe, faz ácidas comparações entre a música e a dança francesas e as correspondentes russas na França, avaliadas como bem-sucedidas em detrimento das francesas.

Não abordarei a questão interessante que pode ser inferida da crônica dos Leblond, de como escritores tão vinculados à luta pela validação do ponto de vista do colonizado e, portanto, envolvidos profundamente com o tema do déracinement, em contato com expressões culturais de ex-colônias européias – tangos e matchiche –, alinham-se com os cânones franceses, desqualificando os gêneros musicais de países como Brasil e Argentina.

Para meus objetivos aqui, o que é importante extrair da crônica é a evidência de que em julho de 1922, final da estadia d’Os Batutas em Paris, o maxixe (juntamente com o tango) não só era muito bem conhecido na cidade – o que confirma a efetividade do trabalho de Duque –, mas também era usado como diacrítico de oposição em relação à música francesa canônica.

Não se tratava, a crônica em comentário, de um editorial, ou de um texto cuja autoria poderia ser creditada à equipe de redação, mas de uma crônica assinada por escritores ilustres e engajados no mundo colonial francês, além de ter sido publicada em um importante jornal francês na área das artes e espetáculos

Também é instrutivo extrair da crônica a verificação de que o maxixe brasileiro era, no início do século XX, considerado “invasor”, “afetado” (guindé), “mecânico” (méchanique), por autores relevantes da cidade reconhecida pela elite brasileira de então como a capital cultural do mundo.

Sobre a eficácia do trabalho de Duque, vale lembrar que de 1906 a 1923 várias partituras de composições brasileiras foram lançadas na França e que o samba era citado como exemplo paradigmático do tipo fantaisiste entre as danses nouvelles. Como dançarino e professor de dança, ele também é referido com freqüência como figura notável em vários manuais de dança correntes na França, pelo menos desde 1913.

Alguns dias antes da publicação dessa crônica, saiu no mesmo jornal em primeira página uma matéria intitulada “Orchestres et jazz-band: la protection des musiciens français”, em que as críticas são pesadas e revelam o temor dos franceses em relação à “invasão” do país por gêneros musicais estrangeiros:

“aujourd’hui, c’est la concurrence du jazz-band et autres orchestres exotiques qui porte un préjudice considérable aux musiciens français […]” (Paris-Midi, 1922).

Tornam-se evidentes as queixas de músicos e proprietários de casas noturnas e restaurantes franceses. Em 1922, uma crise ameaçou o setor, causada, segundo este e outros textos, pela excessiva quantidade de músicos estrangeiros em Paris e pelo fato de o Estado cobrar uma taxa de 13% aos donos de restaurantes e casas noturnas que contratavam orquestras. A ameaça de desemprego para os músicos franceses ante a possibilidade de dissolução de grupos e fechamento de estabelecimentos foi anunciada dramaticamente em edições sucessivas de outros jornais importantes no domínio das artes e espetáculos.

Uma solução provisória para a crise – oferecida pelo então ministro da economia numa reunião com representantes dos músicos e proprietários foi liberar da taxa estabelecimentos cujo foco principal não fosse a música e a dança, o que excluía dancings e cabarés. No mesmo encontro, os representantes dos músicos exigiram do ministro a imposição de um limite de 10% de estrangeiros em orquestras da cidade (Le Journal, 1922d).

Essa questão continuou a ocupar os jornais de Paris durante várias edições de 1922. No entanto, o debate não se restringia a esse lado, diria, protecionista ou mesmo intolerante em relação à invasão de Paris por estrangeiros. Não, ele tinha pelo menos mais um lado, consistente com o desejo de Paris continuar sendo a capital cultural da Europa (Martin e Roueff, 2002, p. 9), uma capital que revelava, adicionalmente, uma forte predisposição em relação ao Outro (Clifford, 1988, p. 136).

Este outro lado aponta para a vanguarda artística parisiense – da qual faziam parte muitos estrangeiros – e seu estilo de vida boêmio (Franck, 1998). Conforme Clifford (1998), essa vanguarda, particularmente o surrealismo, mantinha um relacionamento próximo com a antropologia e tinha a África como universo privilegiado de interesse. Em termos musicais, o jazz estava no centro deste interesse, sendo considerado o filho prestigioso de uma África negra generalizada, nascido nos Estados Unidos, um país cujo poderio era suficientemente grande para ajudar a própria França a recuperar-se da devastação.

Esta fascinação pela África e por manifestações culturais tidas como de origem africana, alcançou não só a vanguarda artística e áreas da antropologia, mas também consideráveis contingentes da classe média parisiense que, emulando a sensibilidade da vanguarda, formavam um público cada vez maior, ávido por experimentar, na noite, todos os tipos de exotismo, vivenciando-os como viagens simbólicas (Decoret, 1998, vol. 1, p. 277).

Uma crônica escrita por um intelectual de nível intermediário, o libretista René Jeanne (1922), e publicada em um importante jornal da área das artes e espetáculos, aponta claramente para essa busca intensa pela vivência do exótico na noite, avaliando de modo positivo a forte presença de negros na cidade – africanos, norte-americanos, latino-americanos.

Nesse contexto, qual era o lugar da música dança popular brasileira em Paris antes d’Os Batutas? De um lado, fazia parte das danses exotiques, universo em oposição ao francês (civilizado), apontando para os campos da etnicidade e da nacionalidade. De outro, era considerada também uma das danses nouvelles, que incluía o cake walk norte-americano, o tango argentino, o paso doble espanhol, a rumba cubana, entre outros gêneros.

Ainda, estava entre as danses latines, de fato entre aquelas provenientes da Amérique Latine, isto é, outros domínios também vinculados à etnicidade e à nacionalidade, o último ligado de maneira peculiar à geopolítica francesa do século XIX. Vale lembrar, por fim, como as manifestações artísticas brasileiras de música e dança eram fortemente identificadas com a figura de Duque, seu genial divulgador branco. Parece, pois, que do ponto de vista francês, seu lugar em Paris antes d’Os Batutas era mais ao lado do tango argentino, conforme estabelecido pelos Leblond, do que da rumba cubana.

Como visto, a associação do maxixe com o tango ocorria no Brasil como uma tentativa de escapar dos julgamentos que o condenavam – toda a musicalidade considerada africana no Brasil – como lascivo e de baixa qualidade. Se o argumento central deste texto é o de que a construção da figura de Pixinguinha como nome consagrado da música popular brasileira foi impulsionada quando de sua estadia em Paris, seu fundamento é de que essa turnê foi estratégica para a mudança da forma de compreender o Brasil, segundo a qual a africanidade era um problema, não uma solução.

A viagem, assim, antecipou horizontes que só nos anos de 1930 seriam consolidados no país (Vianna, 1995), o que ilustra de maneira feliz a idéia da vocação profética da música (Attali, 1992, p. 4; Jameson, 1992, p. xi).

Les Batutas em Paris: pequeno ensaio hemerográfico

Em 12 de fevereiro de 1922, Le Journal anunciou a chegada de Les Batulas (sic) em Bordeaux e seu début sensational em Paris na mesma semana. No dia 13, uma nota projetava a turnê do grupo como um dos grandes sucessos da estação.33 No dia seguinte, o mesmo jornal publicou o seguinte anúncio:

Les Batutas, cet extraordinaire orchestre brésilien, unique au monde, d’une gaieté endiablé, compose de virtuoses surnommes les rois du rythme et de la samba, joue toutes les jours aux thés et aux soupers de Shéhérazade, 16, Faubourg Montmartre. Direction: Duque (Le Journal, 1922).

Com pequenas alterações no texto, este mesmo anúncio saiu em Le Figaro (1922a) até o dia 31 de março. Também o Comedia de 14 de fevereiro (em uma seção não especializada) exibia uma propaganda sobre Les Batutas no Le Shéhérazade. Do dia 15 até o final de março, agora na seção “Les Music-Halls” e na página final onde eram publicados juntos os anúncios das casas noturnas – saiu a mesma publicidade, que voltou a ser noticiada de meados de abril até o dia 20 de maio. Daí em diante, nenhuma outra notícia sobre o grupo foi publicada no Comedia. No dia 16 de fevereiro, Le Journal publicou:

L’orchestre des Batutas n’est pas un jazz-band. Il ne comprend ni piano ni batterie, composé d’instrumentistes spéciaux, d’une virtuosité accomplie, il est d’une gaieté communicative formidable. Aujourd’hui, soirée de gals pour fêter son début sensationnel (Le Journal, 1922h). Ainda em fevereiro, dia 22, este mesmo jornal dizia: Les Batutas, le célèbre orchestre brésilienne, unique au monde, a débutée avec de plus grand succès à Shéhérazade, le féerique establishment du faubourg Montmartre. Allez entendre Les Batutas vous ne reggreterez pas votre déplacement (Le Journal, 1922).

Até o dia 22 de maio, anúncios semelhantes, de Le Shéhérazade, saíram neste jornal. De 16 de fevereiro a 25 de maio, o jornal L’Intransigeant (1922) anunciou a estadia do grupo em Le Shéhérazade. Nesse mesmo dia, Le Journal publicou a seguinte propaganda sobre o grupo, agora no estabelecimento Le Duque:

Batutas. Orchestre à la Mode. Chez Duque. Au Thé et Soirée Dansante. 17, rue Caumartin – Tél Louvre 43-09 Samba Danse Nouvelle (Le Journal, 1922j).

Desde então, os anúncios sobre o grupo oscilaram em freqüência em Le Journal, voltando a aparecer em 5 de maio (1922) e em alguns dias de junho. Propagandas sobre Le Shéhérazade sem nada sobre Les Batutas continuaram a sair, sinal de que a mudança para Le Duque era definitiva. Ao mesmo tempo, Le Figaro (1922b) publicou de 1º a 30 de junho: Chez Duque. 17, rue, Caumartin, Tél Louvre 4309. Thés dansants de 4 a 7 heures. Soupers de 10 h à 3 h du matin, avec le concours des Batutas, l’orchestre à la mode, et le Bernard Kay’s Jazz Trio.35 Do mês seguinte em diante, nenhum anúncio consta nos jornais citados sobre Les Batutas e sobre o Duque em Le Shéhérazade.

Também nada mais sobre a casa de espetáculos Le Duque. A campanha – houve aqui, sim, uma campanha – para promover Les Batutas em Paris teve início em meados de fevereiro, muito próximo à sua estréia, e durou até o último dia de junho. Sua principal característica foi o desenho da musicalidade do grupo como algo único (unique) em relação à identidade étnico-nacional, construída como indubitavelmente brasileira, e a respeito da formação orquestral, esta identificada por um gênero bastante percussivo (o samba). Escolhendo o samba como marca, a campanha livrou o grupo da possibilidade de associação com o tango argentino e sua ligação com o mundo dos brancos, o que a opção pelo maxixe – criação do branco Duque em Paris – poderia provocar.

Também, essa escolha enfatizou o espírito nouveau da música executada pelo grupo. Com as opções pelo universo do jazz como pólo de contraste e do ritmo-percussão como território do encanto (gaieté) do grupo, a campanha inseriu a sua musicalidade no plano mundial (não mais restrito à América Latina), lar do poderoso Outro, e aproximou-a da música africana, considerada pelo público em geral (e também por muitos musicólogos já) extremamente rítmica e percussiva – Les Batutas, Duque, Guinle e Müller queriam projetar a idéia de um Brasil grande, que se encontrava no centro do mundo, e de uma música popular – negra, sim –, no âmago de toda a sua grandeza.

De acordo com a publicidade, o itinerário de Les Batutas em Paris incluiu as casas de espetáculo Le Shéhérazade e Le Duque – o grupo estreou na primeira em meados de fevereiro apresentando-se ali até cerca de 25 de maio; depois transferiu-se para a segunda, onde permaneceu até 30 de junho de 1922. Pode-se supor que a transferência do grupo para Le Duque foi resultado de um conflito de perspectivas entre os projetos dos brasileiros e do proprietário do Le Shéhérazade.

A turnê d’Os Batutas em Paris não incluiu apenas apresentações em casas noturnas. Em 28 de março, um longo artigo, de primeira página, no Comedia (Silver, 1922), informa que o grupo seria um dos dois a tocar em uma recepção amplamente promovida para as Rainhas da Micareme no Lé Shéhérazade, oferecida pelo jornal Comoedia. Na véspera do evento (25 de março), lia-se no jornal:

M. Duque a organisé à cette occasion une fête splendide. Un jazz endiablé dirigé par M. Bouvier et le curieux orchestre “Les Batutas”, que le directeur de Shéhérazade est allé chercher au Brésil même, mènera la danse après le dîner. On dansera la “Semba”, la nouvelle danse à la mode, et l’amusant black-step ou Pas de Nègre, ainsi que la farandole brésilienne. Enfin, à minuit: grand cotillon! (grifos meus).Matéria similar saiu no dia da recepção (Comoedia, p. 5).

Do artigo de Marcel Silver e dos anúncios citados relativos a essa recepção, pode-se depreender que tanto Duque como Les Batutas eram muito bem conhecidos na cena parisiense da época. Além disso, fica evidente que se, por um lado, o samba constituía a marca do grupo, por outro, havia o desejo de manter uma relação contrapontística com o jazz, a um só tempo de pertinência e de independência em relação a esse gênero musical.

Por fim, pode-se também deles concluir que a característica principal de Les Batutas em Paris era de serem curieux – originários do Brésil même –, provocadores de indiscrição e curiosité, isto é, desejo de ver, conhecer e aprender (Larousse, 1954, p. 96).39 Sobre o êxito do grupo em Paris, a avaliação de Pixinguinha é discreta, apontando que sucesso na cidade então – tonitruante – era privilégio dos norte-americanos (Pixinguinha, 1970, p. 24). Donga é mais enfático; afirma que o sucesso de Les Batutas foi considerável, não tendo sido maior devido à falta de apoio do governo brasileiro, haja vista que o governo norte-americano mantinha as jazz-bands (Donga, 1970, p. 91).

Sobre as influências sofridas pelo grupo em Paris, Pixinguinha permanece discreto ao declarar que para ele se tratava de uma questão muito mais de admiração e escolha ativa – portanto de apropriação do que de influência, naturalizada, passiva (Pixinguinha, 1970, pp. 24, 32-33). Ele se refere não apenas aos músicos norte-americanos, mas também a colegas de outros lugares, como os músicos do admirável sexteto que tocava na casa em frente ao Le Shéhérazade. Foi o contato com o violoncelista deste conjunto – diz ele – que despertou seu interesse pelo saxofone (Idem, p. 26).

Considerações finais

Nos últimos dez anos,40 venho desenvolvendo a idéia de que a música popular brasileira como qualquer música popular nacional, no contexto das relações dos Estados-nações modernos somente pode ser bem entendida dentro de um quadro cujos nexos tenham simultaneamente pertinência local, regional, nacional e global, e que tome as músicas erudita, folclórica e popular como universos em comunicação.

Essa idéia mostrou-se produtiva para o estudo da música popular brasileira desde sua fase inaugural, da modinha e do lundu, gêneros que constituíram no século XVIII um dos primeiros casos de globalização no âmbito da música popular do Ocidente. O romance vocal e a ária de corte franceses, o bel’canto italiano e outros universos cancionais constituíram suas conexões européias.

Os gêneros, com suas variantes brasileira e portuguesa, formavam o nodo luso-brasileiro do sistema, um nodo entre outros plausíveis euro-latino-americanos. Essas variantes eram versões locais vigentes no Estado luso-brasileiro, logo estabelecendo-se como símbolos das identidades nacionais respectivas. Domingos Caldas Barbosa (1738- 1800) foi o demiurgo desse encontro na formalização dos gêneros luso-brasileiros. A moldura internacional é também congênita na formação do samba, desde a época em que o rótulo – como o de tango (Sandroni, 1996, p. 140) – apontava a africanidade pan-latino-americana na esfera da música e da dança, do México e Cuba à região platina (Menezes Bastos, 2005).

Entendo que também o presente estudo traz evidências importantes no sentido de verificar a consistência da idéia acima referida: foi na Cidade Luz dos anos 20 do século passado – cidade mundial (capital cultural do mundo, para as elites brasileiras), sede de um universo de encontros musicais inter-nacionais (e plurilocais) de grandes dimensões – que a musicalidade d’Os Batutas pôde se desenvolver na direção da invenção de uma brasilidade musical que somente na década seguinte seria consagrada.

A esfera internacional das relações musicais envolvidas no engendramento da música popular brasileira, pois, tomado como superveniente na grande maioria dos estudos, em um caso a mais – e de extremo interesse –, evidencia-se como absolutamente congênita, tudo parecendo apontar para o fato de que o contato intermusical (como o intercultural em geral), ao contrário de se estabelecer como cenário apenas especial da gênese musical (e cultural em geral), parece constituir-se em um de seus cenários mais típicos.

Venho desenvolvendo em diversos trabalhos a proposição de que desde sua origem, no século XVIII, a música popular brasileira tem sido um espaço privilegiado de discussão das principais questões do país. O Estado – e sua atualização em governos concretos – e os costumes – envolvendo relações de classe, étnicas, inter-nacionais, de gênero, familiares e outras – têm sido alguns de seus temas centrais.

Essa vocação da música popular brasileira mostrou-se especialmente evidente durante os períodos críticos da história do Brasil como, por exemplo, nos anos de 1930 (Menezes Bastos, 1999b) –, quando a sociedade dividiu-se em posições irreconciliáveis. A música popular brasileira, assim, desde suas origens, é um universo dialógico crucial por meio do qual a sociedade brasileira discute o país e o mundo, negociando armistícios e os destinos da nação.

A jornada d’Os Batutas ora estudada parece também dar substância a esta idéia que venho desenvolvendo nos últimos anos: o debate ruidoso, suscitado acerca da legitimidade de um grupo de maioria negra que executava uma música indígena poder representar o Brasil na capital cultural do mundo, pode ser lido como um imenso diálogo sobre a identidade do país. Foi no encontro com o grande Outro musical, o jazz, tornado possível no cenário parisiense da década de 1920, que o que antes aparecia como um grande problema para o Brasil – a musicalidade negra pôde se transformar numa solução.

O caráter épico – hagiográfico até – com que as fontes setentistas do século XX constroem a excursão d’Os Batutas parece encontrar consistência exatamente nesta, por assim dizer, vitória do grupo em sua jornada ao centro do mundo civilizado, ali onde o negro era inventado como cerne da música popular do sistema mundial.

Parto da evidência de que na mesma época em que o samba carioca foi construído como gênero emblemático da música popular brasileira entre os anos 20 e 30 do século passado –, parece ter ocorrido fenômeno semelhante na Argentina com o tango (Grünewald, 1994), sendo os dois eventos sintomaticamente simultâneos ao desaparecimento, no Brasil, do então denominado tanguinho ou tango brasileiro (Tinhorão, 1991, pp. 97-102).

Em outros países da América Latina como em Cuba em relação à rumba (Alén, 1984; Daniel 1995) – parece ter acontecido processo análogo. Tudo isso aponta para o fato essencial de que esses processos não são simplesmente coincidentes, mas estão de maneira sistemática relacionados no interior do sistema internacional de Estados-nações modernos, envolvendo a América Latina e seus vínculos com a Europa ocidental e os Estados Unidos, o que só pode ser bem compreendido dentro de um quadro global de relações musicais com várias camadas, no qual os gêneros musicais personificam as formas de sociabilidade de cada localidade (cidades, regiões, países). Nesse sentido, Paris dos anos de 1920 teve um papel crucial como local de consagração de gêneros musicais nacionais emblemáticos da América Latina – samba, tango, rumba, entre outros –, mas não só.

Foi também ali e na mesma época que o jazz começou a se constituir como o novo kathólon musical do sistema mundial. Depois dos anos de 1930, esse papel parece ter migrado para os Estados Unidos.

————————–

(Você pode ler o artigo completo com notas e bibliografia neste link:
http://biblioteca.versila.com/3737012/les-batutas-1922-uma-antropologia-da-noite-parisiense

Congado dos Negros na Serra Antiga

•24/07/2016 • Deixe um comentário

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Congada fotografada por Augusto Riedel em Morro Velho, Minas Gerais em 1868 com marimbeiro ao centro.

Certa vez, aí pelo fim da década de 1970, já pesquisando no interior de Minas Gerais, fomos convidados eu e amigos do Grupo Vissungo, pelo mestre congadeiro José Caixeta (da cidade de Machado, MG ) para desfilar no terno dele. Decidi então desfilar na ala dos músicos, claro, tocando uma marimba que eu mesmo havia fabricado. Desfilei lá assim por uns cinco anos seguidos.

Me divertia muito quando identificava pelo olhar estupefato, um antropólogo pesquisador, olhando aquela fantástica marimba africana ali, inusitada. Ficava rindo escondido, moleque, imaginando a tese que o pobre do antropólogo desenvolveria para explicar aquela marimba ali, em pleno século 21.

Já sabia, claro, que xilofones africanos haviam sobrevivido no Brasil até bem perto da Abolição da escravatura. As provas, contudo, eu não havia encontrado nem mesmo em gravuras idealizadas de viajantes como Rugendas. Já havia encontrado em um ou outro livro de viajantes, sanzas (kalimbas) e muitos cordofones (harpas, alaúdes), a maioria, provavelmente angolanos, mas nunca havia visto uma foto sequer deles no Brasil e, de marimbas então, nem mesmo gravuras.

Achei esta imagem logo depois que a primeira edição do livro saiu, em 2011. Ela vai sair na segunda edição já na boca do forno, aí sim, única, maravilhosa marimba angolana (quiçá moçambicana) autêntica, vivinha ali no século 19! (Mostro aqui apenas um corte dela, com o marimbeiro destacado em foco, ao centro da imagem.)

A legenda da foto inteira, que publicarei no novo livro (já a publiquei aqui, tempos atrás, no facebook) dirá que a foto é de 1868 e é de autoria de Augusto Riedel, que viajou pela região de Morro Velho, MG (onde havia uma grande mina de diamantes) a serviço do imperador, grande entusiasta da arte da fotografia.

(A foto que Rudel fez da mina de diamantes, aliás, pode ser vista também em detalhes yyyyno link deste post que publiquei bem recentemente)

O que a legenda oficial diz é um pouco vago. O grupo fotografado é na verdade – sei agora – uma congada clássica da época em em Minas Gerais. A dúvida que persiste em mim sobre a sua origem africana ser angolana ou moçambicana vem do fato de ter encontrado há pouco tempo atrás uma grávida do praticamente desconhecido artista francês jean-rennè Moreaux um par de autênticas marimbas do inhanambane, miçambique, em plena Cirte do rio nesta mesma época (meados de 1860)

Verdadeiro teatro popular, as congadas desta região eram, ou representações faladas, cantadas e dançadas das estrepolias de “Carlos Magno e os 12 pares de França” contra os mouros, enredo dramático que narrava incidentes ocorridos durante as Cruzadas (enredo disseminado no Brasil em livretos de cordel, como instrumento de doutrinação), ou estrepolias semelhantes envolvendo um conflito entre dois reinos africanos (um sendo o Reino do Kongo, no caso) interpretados no pelo pessoal da congada com elementos mistos, extraídos de práticas culturais e de crônicas da história oral do reino do Kongo africano, o real, guardadas na memória popular.

Percebe-se, claramente na foto, os dois grupos oponentes, organizados, cada um, próximo a um comandante, um mouro, outro cristão (ou de um reino africano e de outro), ambos com suas espadas. Cultura negra do Brasil real. Esta que a antropologia convencional se nega, relutantemente reconhecer.

——————

A legenda oficial:

“Em 1868, o fotógrafo Augusto Riedel acompanhou Luis Augusto, Duque de Saxe, genro do Imperador Pedro II, em uma expedição ao interior do Brasil. Durante uma visita à cidade de Morro Velho, em Minas Gerais, o grupo assistiu a apresentação de uma festa afro-brasileira que misturava tradições religiosas católicas e africanas. A celebração apresentava a coroação do “Rei do Congo” e também rendia homenagem à Nossa Senhora do Rosário.”
(A Coleção Thereza Christina Maria é composta por 21.742 fotografias, reunidas pelo Imperador Pedro II ao longo de sua vida e por ele doadas à Biblioteca Nacional do Brasil. A coleção inclui uma grande variedade de assuntos. Documenta as conquistas do Brasil e do povo brasileiro no século XIX, e também inclui muitas fotografias da Europa, África e da América do Norte.)

Certa vez, aí pelo fim da década de 1970, já pesquisando no interior de Minas Gerais, fomos convidados eu e amigos do Grupo Vissungo, pelo mestre congadeiro José Caixeta (da cidade de Machado, MG ) para desfilar no terno dele. Decidi então desfilar na ala dos músicos, claro, tocando uma marimba que eu mesmo havia fabricado.
Desfilei lá assim por uns cinco anos seguidos.

Me divertia muito quando identificava pelo olhar estupefato, um antropólogo pesquisador, olhando aquela fantástica marimba africana ali, inusitada. Ficava rindo escondido, moleque, imaginando a tese que o pobre do antropólogo desenvolveria para explicar aquela marimba ali, em pleno século 21.

Já sabia, claro, que xilofones africanos havia sobrevivido no Brasil até bem perto da Abolição da escravatura. As provas, contudo, eu não havia encontrado nem mesmo em gravuras idealizadas de viajantes como Rugendas. Já havia encontrado em um ou outro livro de viajantes, sanzas (kalimbas) e muitos cordofones (harpas, alaúdes), a maioria, provavelmente angolanos, mas nunca havia visto uma foto sequer deles no Brasil e, de marimbas então, nem mesmo gravuras.

Achei esta imagem logo depois que a primeira edição do livro saiu, em 2011. Ela vai sair na segunda edição já na boca do forno, aí sim, única, maravilhosa marimba angolana (quiçá moçambicana) autêntica, vivinha ali no século 19! (Mostro aqui apenas um corte dela, com o marimbeiro destacado em foco, ao centro da imagem.)

A legenda da foto inteira, que publicarei no novo livro (já a publiquei aqui, tempos atrás, no facebook) dirá que a foto é de 1868 e é de autoria de Augusto Riedel, que viajou pela região de Morro Velho, MG (onde havia uma grande mina de diamantes) a serviço do imperador, grande entusiasta da arte da fotografia.

(A foto que Riedel fez da mina de diamantes, aliás, pode ser vista também em detalhes no link de um pist que publiquei bem recentemente)

O que a legenda oficial diz é um pouco vago. O grupo fotografado é na verdade – sei agora – uma congada clássica da época em em Minas Gerais. A dúvida que persiste em mim sobre a sua origem africana ser angolana ou moçambicana vem do fato de ter encontrado há pouco tempo atrás uma grávida do praticamente desconhecido artista francês jean-rennè Moreaux um par de autênticas marimbas do inhanambane, miçambique, em plena Cirte do rio nesta mesma época (meados de 1860)

Verdadeiro teatro popular, as congadas desta região eram, ou representações faladas, cantadas e dançadas das estrepolias de “Carlos Magno e os 12 pares de França” contra os mouros, enredo dramático que narrava incidentes ocorridos durante as Cruzadas (enredo disseminado no Brasil em livretos de cordel, como instrumento de doutrinação), ou estrepolias semelhantes envolvendo um conflito entre dois reinos africanos (um sendo o Reino do Kongo, no caso) interpretados no pelo pessoal da congada com elementos mistos, extraídos de práticas culturais e de crônicas da história oral do reino do Kongo africano, o real, guardadas na memória popular.

Percebe-se, claramente na foto, os dois grupos oponentes, organizados, cada um, próximo a um comandante, um mouro, outro cristão (ou de um reino africano e de outro), ambos com suas espadas. Cultura negra do Brasil real. Esta que a antropologia convencional se nega, relutantemente reconhecer.

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A legenda oficial:

“Em 1868, o fotógrafo Augusto Riedel acompanhou Luis Augusto, Duque de Saxe, genro do Imperador Pedro II, em uma expedição ao interior do Brasil. Durante uma visita à cidade de Morro Velho, em Minas Gerais, o grupo assistiu a apresentação de uma festa afro-brasileira que misturava tradições religiosas católicas e africanas. A celebração apresentava a coroação do “Rei do Congo” e também rendia homenagem à Nossa Senhora do Rosário.”
(A Coleção Thereza Christina Maria é composta por 21.742 fotografias, reunidas pelo Imperador Pedro II ao longo de sua vida e por ele doadas à Biblioteca Nacional do Brasil. A coleção inclui uma grande variedade de assuntos. Documenta as conquistas do Brasil e do povo brasileiro no século XIX, e também inclui muitas fotografias da Europa, África e da América do Norte.)

O Crioulo e a língua do Crioulo. Lorenzo Dow Turner no Brasil.

•31/05/2015 • 3 Comentários

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Lorenzo Dow Turner, brilhante etnolinguísta é, tardiamente ‘descoberto” pela academia (e pela imprensa) do Brasil.

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 Parece coisa de crioulo doido, só que não.

Passei boa parte do dia e a noite desta última sexta feira devorando informações sobre Lorenzo Dow Turner, etnolinguísta norte americano, praticamente desconhecido no Brasil até recentemente, descoberto entre outros pelo acadêmico francês Xavier Vatin, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Li – lemos – uma matéria esclarecedora sobre isto dia desses, cuja fonte, o instituto de linguística IPOL, foi reproduzida por alguns blogs, entre os quais o Geledés, especializado em ativismo e cultura negra.

Já havia tocado de leve na figura de Lorenzo Dow Turner , citando-o num post como um dos personagens do boom de estudos sobre os africanos no Brasil ocorrido em Salvador, Bahia no início da década de 1940, por injunção do Congresso Afro Brasileiro de 1937, coordenado por Edison Carneiro, entre outros. Leia o post do Titio neste link: “A Guerra, Academia e a impureza a Nagô“.

Me instiga nesta busca por dados mais completos sobre Dow Turner as relações, eventualmente existentes entre a invisibilidade brasileira de seu trabalho e o mesmo fenômeno ocorrido com o trabalho do etnólogo baiano Antônio Joaquim de Souza Carneiro (para os que desconhecem, pai de Edison Carneiro), vítima de uma intensa campanha de difamação e desqualificação intelectual, por parte de ilustres acadêmicos da mesma época, o incensado Arthur Ramos à frente.

O fato de Turner e Souza Carneiro serem ambos negros, intelectuais brilhantes e, do mesmo modo, terem tido suas pesquisas desprezadas e/ou ignoradas pela empáfia da academia tupiniquim da época, sempre me intrigou, intriga e tem me instigado a escrever vários inflamados artigos e posts (outros por certo se seguirão a este).

Recolhi neste intento, ontem, empolgado com a biografia de Lorenzo Dow Turner, que fui descobrindo pouco a pouco, a medida em que a noite avançava, muito material – muito mesmo – sobre as pesquisas e fontes de Lorenzo e já havia até começado um animado artigo sobre o etnolinguísta, quando, logo ao acordar, me deparo com esta excelente matéria no caderno Verso e Prosa de O Globo: “Gravações raras de linguísta americano revivem passado do candomblé

Bolívar Torres disse tudo!

Na verdade, a maioria destes dados, com exceção dos áudios, aos quais o jornalista de O Globo, sei lá como, teve acesso, já que publicou um exemplo (ouça a voz de Meninha do Gantois no link original da matéria, logo aí em cima) estão disponíveis a qualquer um no site do Arquivo de Musica Tradicional da Indiana University, fonte principal para quem gosta do tema.

Só achei impróprio na luminosa matéria de Bolívar Torres o uso da expressão “repatriada“, ao se referir á vinda de cópias do material de Turner para cá. Dispensável ufanismo.

Ora, afinal os registros de Lourenzo Dow Turner, como qualquer etnologia, são universais, os dados neles contidos, pertencem a toda a humanidade e só nos são tão desconhecidos até hoje, por conta talvez de nossa conhecida incúria acadêmica e o mal disfarçado pouco caso diante de tudo que se refere á presença de negros africanos por aqui.

(Lembrem-se que, ao que sabe, os pares de Lourenzo Turner na cidade de Salvador de 1941, notadamente Arthur Ramos e Edison Carneiro, testemunhas quase oculares das preciosas coletas de Turner, praticamente (salvo engano), nenhum uso ou citação fizeram sobre a existência deste precioso material, como se sabe, descoberto por acaso muito recentemente por um pesquisador estrangeiro.

E vejam, o mesmo ocorreu com as coletas do norte americano Stanley Stein em Vassouras, RJ, em 1949, descobertas do mesmo modo, recentemente e que continham preciosos registros de Jongo, Folias de Reis, Samba Rural e outras manifestações típicas dos ex escravos do Vale do Paraíba do Sul, RJ, solenemente ignoradas pelas sumidades do ramo até então)

Surpreendente e promissor, portanto, para os (supostos) modos algo racistas de ser desse grande jornal, que tão brilhante matéria seja publicada. Bons sinais também, devo admitir, a ascensão de jornalistas negros (as) (como Flavia de Oliveira, por exemplo) nas pautas recentes de O Globo – algumas marcadas até por um não dissimulado ativismo.

Estas coisas muito animam o Titio.

Brumas vão se dissipando e o que elas iam encobrindo, meio por  incúria ignorante, meio por tolo desprezo racista, começa a se revelar. O certo é que descartei meus escritos preliminares, bem genéricos, os que postaria hoje, por achar o assunto já bem claramente expresso na matéria de Bolívar Torres. Coloco ou reitero aqui apenas dados suplementares.

Outros dados, também preciosos tenho ainda aqui comigo, por elaborar, num novo artigo, para o deleite dos interessados. Os dados: Lorenzo Dow Turner – a matéria de O Globo já ressalta – é um dos precursores dos estudos linguísticos sobre o negro africano na Diáspora (sempre bom ressaltar as coletas em partituras, realizadas por Aires da Mata Machado Filho em 1928, em Diamantina, MG). 

Revisando a resenha sobre o acervo de Lorenzo Turner, aliás encontrei a inusitada citação “angolan funeral songs”, que corresponde, quase exatamente aos vissungos recolhidos por Aires da Mata em 1928. A resenha não enumera Minas Gerais no trajeto das viagens, mas sugere, fortemente a relação de Lorenzo Turner com os vissungos em 1940/41 numa coleta até hoje desconhecida, anterior, portanto,  a de Luiz Heitor Correa de Azevedo, esta em 1944.

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Africanos de Serra Leoa, presumo, ouvem divertidos a gravação de suas vozes por Lorenzo Dow Turner.

O material das coletas de Lorenzo Turner ao qual a matéria se refere, ao que parece, no caso do acervo do AMT da Indiana University, acabou não sendo considerado prioritário no âmbito geral do trabalho do etnolinguísta, talvez por esta razão não conste ainda do acervo da Indiana University a sua digitalização.

Presumo que estas digitalizações da Bahia já existam no Melville J. Herskovits Library of African Studies na Northwestern University Library ou outro acervo ao qual Bolívar Torres teve acesso (li qualquer coisa sobre o etnomusicólogo Carlos Sandroni estar trabalhando nisso aí.)i

Sobressaíram mais, contudo as coletas de Turner na Costa Leste norte americana e coletas feitas no Caribe e na África ocidental. Aguardamos ansiosos.

Na resenha do AMF/UI sobre os arquivos de Turner diz-se o seguinte:

“Lorenzo Dow Turner Gullah Collection Fonte: Arquivos de Música Tradicional da Universidade de Indiana, EUA.

Registros de campo realizados por Lorenzo Dow Turner Na Georgia e Carolina do Sul e Sea Islands em 1932 e 1933, versando sobre o dialeto crioulo afro americano conhecido como “Gullah”, falado nesta região dos EUA. Formato: 154 discos de aluminio.

Lorenzo Dow Turner (1890-1972) foi um linguísta afro americano, que ficou conhecido como o pai dos estudos sobre o “Gullah” após publicação em 1949 dos africanismos contidos no dialeto Gullah, a primeira grande descrição científica deste dialeto.

Esta publicação da ATM/IU, (resenhada por este texto) um grande recurso para pesquisadores, contém diversas transcrições de gravações de Turner.

O trabalho de Lorenzo Dow Turner ajudou a construir uma fundação para estudos sobre a diáspora africana e contestou a noção que prevalecia há muito tempo de que a cultura afro-americano era simplesmente uma derivação da cultura norte americana branca. Turner mostrou que haviam retenções culturais significativas de culturas africanas entre os afro-americanos. Seu teabalho de campo adicional no Caribe, Brasil e África Ocidental fundamentou ainda mais estas ideias.

Os Arquivo de Música Tradicional da Indiana University contêm várias coleções de gravações etnográficas e linguísticas feitas por Turner, que foram gravadas em 836 discos de alumínio e laca. As gravações feitas nos verões de 1932 e 1933 compõem a coleção de discos de Gullah, compostas por 154 discos de alumínio e documentos de textos com cantos de trabalho, histórias, spirituals e contos de escravidão, recolhidos com 50 falantes de Gullah.

A ATM/IU possui também gravações das pesquisas de campo de Turner no Brasil (Salvador, Bahia em 1941: nota do Titio), África Ocidental, Louisiana do Sul, e várias outras partes dos Estados Unidos.

A coleção Gullah digital foi preservada como parte do Projeto Sound Directions Project.”

Ouça em primeira mão no Brasil, neste link do texto original da Indiana University, duas canções recolhidas por Lorenzo Dow Turner neste projeto dos “Gulah:

http://www.indiana.edu/~libarchm/index.php/collections/highlights/lorenzo-dow-turner-collections.html

——————

Tema para muitas mangas. Me aguardem. Titio volta já

Spírito Santo  Junho 2015

“Dont tread on me”. Ecos do pré cotas. As Madalenas arrependidas pira

•18/06/2017 • Deixe um comentário

Tea party flagTea party  flag (para quem não conhece, o “Tea Party” é a corrente mais à direita do Partido Republicano norte americano.)

A turma do chá preto e as outras turmas ‘deles’.

(A analogia com a cobra traiçoeira – vocês logo verão – é pertinente e providencial).

Pode ser apenas impressão do tio, mas o que chamarei aqui de “turma do chá preto”, adeptos tardios do anti cotismo racial está se tornando um must na internet, nas redes sociais, na imprensa convencional, nos meios de comunicação em geral.

Sacudiram o bambuzal e espantaram das sombras cobras sapos e lagartos. Impressionante!

O que mais me chama a atenção, impressiona mesmo é que esta onda de anti cotismo racial radical extrapolou até mesmo o nível de reação anterior à aprovação da ação afirmativa pelo STF, como se houvesse uma ‘maioria silenciosa’, enrustida, na espreita se apoiando numa vanguarda dos radicais contando com a força de sua omissão. Um batalhão de ‘joões sem braço’ torcendo contra, na sombra.

E vejam que contradição maravilhosa: Se esta popularidade enrustida do anti cotismo racial tivesse andado às claras, teria sido percebida pelo STF como uma força legítima e poderosa e – ai meu Deus! – teria ameaçado seriamente a aprovação da medida.

Ai! Que mole que deram! Deixaram Ali Kamel e a turma do chá preto à míngua, isolados como cegos em tiroteio. Agora ficam por aí, madalenas arrependidas, chorando pelos cantos, alisando os velhos tijolos do seu muro de lamentações.

Sempre achei – e muita gente acha também – que um dos mais firmes sustentáculos do racismo à brasileira era o seu caráter de ação sub reptícia, solerte, a sua vocação para a dissimulação, aquela caraterística que os politicamente corretos chamam de ‘sutileza‘ (‘racismo sutil‘, por suposto)

Feito pata de elefante, sabem como é?

Aqui, antes da decisão do STF os racistas todos eram uns gatos pardos pingados. Na verdade, ‘NINGUÉM‘ era racista, ‘ninguém‘ colaborava, ‘ninguém‘ compactuava, apoiava ideias racistas, mas ele, o racismo, misteriosamente prosperava, recrudescia, ardendo cada vez mais na pele daqueles que a ele estavam e estão expostos.

Mistério revelado: É que agia na sombra, a ‘maioria’.

Saindo das sombras então, as Madalenas arrependidas agora acenam com a inutilidade das cotas raciais, para eles uma demagógica e inócua decisão, dizendo que o universo de beneficiados será tão ínfimo, tão ínfimo (entre 200.000 a 400.000) que a ação não fará nem cosquinha em nossa abissal desigualdade educacional.

Sei…sei. É como aquela fábula da raposa, ressentida por não ter conseguido as uvas, que dizia:

_ “Ah…Estão verdes!”

É que eles não conhecem – na verdade temem – a exponencialidade,  o poder multiplicador de medidas como esta. Se a taxa de negros nas universidades públicas era perto do zero antes das cotas raciais, claro que é formidável pular agora para centenas de milhares.

Infelizmente para eles a caravana passou.

Aliás, cá entre nós, este negócio de ficar tentando provar que não existem negros no Brasil é bem agressivo e ofensivo para quem é – ou se imagina – negro. Fica parecendo racismo enrustido quando nenhuma proposta alternativa FACTÍVEL e não protelatória é apresentada.

E vamos combinar: De onde vem afinal este ressentimento todo, esta bílis destilada contra a promoção ou a evolução social dos ‘não brancos’ em especial se, também em especial, estes mesmos ‘não brancos‘ são os excluídos?

Afinal a existência de um virulento racismo no Brasil é um fato mais do que reconhecido já, internacionalmente até.

Os anti cotistas raciais estão sendo mesquinhos, isto sim. Fazem uma conta ‘de menos’ que, ao fim de tudo propõe a manutenção de tudo como está (a conta da exclusão social eles não fazem nunca). A conta que valia a pena fazer, neste caso nem se trata destas que dizem se somos entre 5% e 51% os negros no país. Talvez os anti cotistas raciais não tenha entendido bem – se é que querem mesmo entender – o conceito ‘negro‘, que é apenas político e não racial.

Afinal a categoria ‘negro‘ no Brasil não pode ser aferida por este parâmetro aí, genético, como se fôssemos africanos legítimos, uma raça por suposto. Não é justo nem sério isto aí. Raças, afinal, não existem!

Negro‘ – todo mundo de boa vontade sabe – não é um conceito genético (e o uso deste parâmetro eugenista aí, é hoje inaceitável). Politicamente,o conceito “negros” – é preciso se reconhecer isto logo, sem cinismo – se refere à maioria dos excluídos do Brasil (pretos, índios, mulatos, ou qualquer outro nome que se queira dar aos que NÃO são considerados brancos na hora de exercer direitos de cidadania).

A premissa errada (a definição de quem é e quem não  é negro) foi usada ILEGALMENTE para instituir o racismo. Só o uso desta mesma premissa poderá ajudar a desamarrar este nó. É como usar o soro do veneno para curar a mordida da cobra venenosa.

E ao matar a cobra há sempre que se mostrar o pau.

Criaram o saco de gatos de todas as cores, separando os brancos num outro saco à parte e bem melhor. Agora, na hora de trazer os gatos brancos para o saco geral, querem separar, de novo, apenas os gatos pretos do saco já ruim para lançá-los onde? Num saco ainda pior?

Se nós, os não brancos nos assumíssemos ‘mestiços‘ eles iam vir com a mesma conversa reacionária contra cotas para ‘mestiços‘.

Cotas raciais para eles, só para brancos. Que doidos!

Se é esmagadoramente ‘branca‘ a minoria, a auto eleita elite dos incluídos, como poderíamos lutar contra a iniquidade de tantos serem preteridos, dominados por tão poucos, senão isolando os que se intitulam ‘brancos‘ num saco só? Os que se intitularam ‘brancos‘ para levar vantagens agora, perderam o bonde da história  e são agora uma reconhecida e identificável minoria. Azar o deles. Paciência. Demoramos muito a definir isto que agora é reconhecido por lei.

Esta conta de excluir negros, de novo, esta conta de negar ações afirmativas para negros pode ser chamada de que? Como classificar este reacionarismo anti negros que está pululando por aí?

Tem um nome isto. Nem preciso falar qual é.  Falem vocês.

Hora da verdade. Hora de deixar de ser branco para ser franco.

“Não pisa ni mim!”

Escolinha do Prof. Kamel. Aula extra de recuperação:

Já cansei de falar disto por aí: Ali Kamel, Ivone Maggie, Demétrio Magnoli, Rodrigo Constantino, o pessoal desta virulenta Cia. dos anti cotistas raciais mais radicais, embora acusem os pró cotistas de importar modelos norte americanos racialistas,  têm um guru, exatamente… norte americano. Sabiam?

Ele é o Tomas Sowell, um economista negão de Harvard (como o Obama, só que…de ‘alma branca’). É que Thomas é um dos principais ideólogos da direita do Partido Republicano (eu disse da Direita!). Bem, como sabemos por alto nós, os brasileiros, a direita norte americana é…racista, certo? No currículo dela estão a Ku Klux Kan, os linchamentos de negros e a oposição ferrenha às lutas pelos direitos civis na América, inclusive – caso direto de Thomas Sowell – uma campanha ferrenha contra as cotas raciais e às ações afirmativas em geral.

Pois bem. Thomas Sowell é o principal teórico da direita norte americana nesta cruzada anti democrática aí. Juntando os pontinhos, ligando Ali Kamel, Maggie, Fry et caterva a seu guru de ‘alma branca’ dá um quadro bem esdrúxulo, não dá não?

Nunca mais caí na conversa de vivandeiras neo racistas como o Kamel depois que descobri este rabo de cobra delas. Não querem cotas de espécie alguma porque são direitistas, elitistas anti democráticos. partidários do passado e do atraso. Cobras chocando ovos no cesto.

São o rabo daquela cobra da bandeira do Tea Party direitista norte americano que diz aí em cima:

“Dont tread on me”

Frases mui meigas de Thomas Sowell guru destas vivandeiras:
Defendendo a propriedade privada das leis de promoção socijal do governo Obama:

“Ambos os direitos de liberdade de expressão e direitos de propriedade pertencem legalmente aos indivíduos, mas sua real função é social, para beneficiar um grande número de pessoas que não se exercem estes direitos.

Defendendo posições contrárias as cotas raciais e as ações afirmativas em geral:

…O capitalismo sabe apenas uma cor: a cor é verde, tudo o resto é necessariamente subserviente a ele, portanto, gênero, raça e etnia não pode ser considerado em seu contexto.”

Defendendo a manutenção de valores conservadores na sociedade:

“…Cada nova geração nascida é na verdade uma invasão da civilização por pequenos bárbaros, que devem ser civilizados, antes que seja tarde demais.”

Manifestando-se contra a universalização de direitos legais numa sociedade:

…Se você sempre acreditou que todos deveriam jogar pelas mesmas regras e ser julgada pelos mesmos padrões, teria sido rotulado de radical há 60 anos, liberal há 30 e racista hoje.”

Defendendo o conservadorismo em geral:

…Grande parte da história social do mundo ocidental, ao longo das últimas três décadas, tem sido uma história de substituir o que funcionou pelo que soa bem.”


(Textos de Thomas Sowell, economista, como eu disse acima membro da ala direita do Partido Republicano, simpatizante do Tea party e cuja ficha de direitista anti Obama é ciosamente escondida por seus acólitos no Brasil (Kamel & Cia).

Detalhe: Thomas Sowell apoia hoje a ala direita do Partido Republicano nas eleições de 2012 cujo candidato Newt Gingrich vai mal das pernas e deve perder a indicação para Romey.

————-

Daí, um aluno mais panaca, lá no fundo da sala perguntou ao Prof. Kamel qual era a moral da história, da lição que Ali acabou de dar (e que eu contei aqui com as entrelinhas expostas), exaltando o Sowell :

Ali calou-se, rabinho entre as pernas. Se aproveitou da campainha que tocava no pátio e encerrou a aula. Fofoqueiro que sou, contudo, chamei o aluno panaca no corredor e entreguei:

_ “Se liga: O professor Kamel e seus colegas doutores daquela ‘tchiurma’ de neo racistas dele, não são apenas racistas não, rapaz. Eles são de Direita. Torcedores do ‘Tea Party”, do Reagan, da Sarah Palin, gente barra pesada. Cuidado com eles, brancaiada!”

Ao que o aluno panaca, cara de tonto, bem babaca, perguntou:

_” Tea Party? Mas o que é isto, tio? Alguma festa na Lapa? É hoje?

…Bem..Esqueçam. Vamos de agora em diante cultivar as virtudes da paciência. Eles ainda têm muito que aprender.

Nós – e o STF – pisamos no rabo deles. Vamos ter que esperar a dor de rabo deles passar.

Spírito Santo
Abril 2012/2017

“Dont Tread on me”. Ecos Pré-Cotas raciais. As Madalenas Arrependidas piram!

•17/06/2017 • 2 Comentários

Tea party flagTea party  flag (para quem não conhece, o “Tea Party” é a corrente mais à direita do Partido Republicano norte americano.)

A turma do chá preto e as outras turmas ‘deles’.

(A analogia com a cobra traiçoeira – vocês logo verão – é pertinente e providencial).

Pode ser apenas impressão do tio, mas o que chamarei aqui de “turma do chá preto”, adeptos tardios do anti cotismo racial está se tornando um must na internet, nas redes sociais, na imprensa convencional, nos meios de comunicação em geral.

Sacudiram o bambuzal e espantaram das sombras cobras sapos e lagartos. Impressionante!

O que mais me chama a atenção, impressiona mesmo é que esta onda de anti cotismo racial radical extrapolou até mesmo o nível de reação anterior à aprovação da ação afirmativa pelo STF, como se houvesse uma ‘maioria silenciosa’, enrustida, na espreita se apoiando numa vanguarda dos radicais contando com a força de sua omissão. Um batalhão de ‘joões sem braço’ torcendo contra, na sombra.

E vejam que contradição maravilhosa: Se esta popularidade enrustida do anti cotismo racial tivesse andado às claras, teria sido percebida pelo STF como uma força legítima e poderosa e – ai meu Deus! – teria ameaçado seriamente a aprovação da medida.

Ai! Que mole que deram! Deixaram Ali Kamel e a turma do chá preto à míngua, isolados como cegos em tiroteio. Agora ficam por aí, madalenas arrependidas, chorando pelos cantos, alisando os velhos tijolos do seu muro de lamentações.

Sempre achei – e muita gente acha também – que um dos mais firmes sustentáculos do racismo à brasileira era o seu caráter de ação sub reptícia, solerte, a sua vocação para a dissimulação, aquela caraterística que os politicamente corretos chamam de ‘sutileza‘ (‘racismo sutil‘, por suposto)

Feito pata de elefante, sabem como é?

Aqui, antes da decisão do STF os racistas todos eram uns gatos pardos pingados. Na verdade, ‘NINGUÉM‘ era racista, ‘ninguém‘ colaborava, ‘ninguém‘ compactuava, apoiava ideias racistas, mas ele, o racismo, misteriosamente prosperava, recrudescia, ardendo cada vez mais na pele daqueles que a ele estavam e estão expostos.

Mistério revelado: É que agia na sombra, a ‘maioria’.

Saindo das sombras então, as Madalenas arrependidas agora acenam com a inutilidade das cotas raciais, para eles uma demagógica e inócua decisão, dizendo que o universo de beneficiados será tão ínfimo, tão ínfimo (entre 200.000 a 400.000) que a ação não fará nem cosquinha em nossa abissal desigualdade educacional.

Sei…sei. É como aquela fábula da raposa, ressentida por não ter conseguido as uvas, que dizia:

_ “Ah…Estão verdes!”

É que eles não conhecem – na verdade temem – a exponencialidade,  o poder multiplicador de medidas como esta. Se a taxa de negros nas universidades públicas era perto do zero antes das cotas raciais, claro que é formidável pular agora para centenas de milhares.

Infelizmente para eles a caravana passou.

Aliás, cá entre nós, este negócio de ficar tentando provar que não existem negros no Brasil é bem agressivo e ofensivo para quem é – ou se imagina – negro. Fica parecendo racismo enrustido quando nenhuma proposta alternativa FACTÍVEL e não protelatória é apresentada.

E vamos combinar: De onde vem afinal este ressentimento todo, esta bílis destilada contra a promoção ou a evolução social dos ‘não brancos’ em especial se, também em especial, estes mesmos ‘não brancos‘ são os excluídos?

Afinal a existência de um virulento racismo no Brasil é um fato mais do que reconhecido já, internacionalmente até.

Os anti cotistas raciais estão sendo mesquinhos, isto sim. Fazem uma conta ‘de menos’ que, ao fim de tudo propõe a manutenção de tudo como está (a conta da exclusão social eles não fazem nunca). A conta que valia a pena fazer, neste caso nem se trata destas que dizem se somos entre 5% e 51% os negros no país. Talvez os anti cotistas raciais não tenha entendido bem – se é que querem mesmo entender – o conceito ‘negro‘, que é apenas político e não racial.

Afinal a categoria ‘negro‘ no Brasil não pode ser aferida por este parâmetro aí, genético, como se fôssemos africanos legítimos, uma raça por suposto. Não é justo nem sério isto aí. Raças, afinal, não existem!

Negro‘ – todo mundo de boa vontade sabe – não é um conceito genético (e o uso deste parâmetro eugenista aí, é hoje inaceitável). Politicamente,o conceito “negros” – é preciso se reconhecer isto logo, sem cinismo – se refere à maioria dos excluídos do Brasil (pretos, índios, mulatos, ou qualquer outro nome que se queira dar aos que NÃO são considerados brancos na hora de exercer direitos de cidadania).

A premissa errada (a definição de quem é e quem não  é negro) foi usada ILEGALMENTE para instituir o racismo. Só o uso desta mesma premissa poderá ajudar a desamarrar este nó. É como usar o soro do veneno para curar a mordida da cobra venenosa.

E ao matar a cobra há sempre que se mostrar o pau.

Criaram o saco de gatos de todas as cores, separando os brancos num outro saco à parte e bem melhor. Agora, na hora de trazer os gatos brancos para o saco geral, querem separar, de novo, apenas os gatos pretos do saco já ruim para lançá-los onde? Num saco ainda pior?

Se nós, os não brancos nos assumíssemos ‘mestiços‘ eles iam vir com a mesma conversa reacionária contra cotas para ‘mestiços‘.

Cotas raciais para eles, só para brancos. Que doidos!

Se é esmagadoramente ‘branca‘ a minoria, a auto eleita elite dos incluídos, como poderíamos lutar contra a iniquidade de tantos serem preteridos, dominados por tão poucos, senão isolando os que se intitulam ‘brancos‘ num saco só? Os que se intitularam ‘brancos‘ para levar vantagens agora, perderam o bonde da história  e são agora uma reconhecida e identificável minoria. Azar o deles. Paciência. Demoramos muito a definir isto que agora é reconhecido por lei.

Esta conta de excluir negros, de novo, esta conta de negar ações afirmativas para negros pode ser chamada de que? Como classificar este reacionarismo anti negros que está pululando por aí?

Tem um nome isto. Nem preciso falar qual é.  Falem vocês.

Hora da verdade. Hora de deixar de ser branco para ser franco.

“Não pisa ni mim!”

Escolinha do Prof. Kamel. Aula extra de recuperação:

Já cansei de falar disto por aí: Ali Kamel, Ivone Maggie, Demétrio Magnoli, Rodrigo Constantino, o pessoal desta virulenta Cia. dos anti cotistas raciais mais radicais, embora acusem os pró cotistas de importar modelos norte americanos racialistas,  têm um guru, exatamente… norte americano. Sabiam?

Ele é o Tomas Sowell, um economista negão de Harvard (como o Obama, só que…de ‘alma branca’). É que Thomas é um dos principais ideólogos da direita do Partido Republicano (eu disse da Direita!). Bem, como sabemos por alto nós, os brasileiros, a direita norte americana é…racista, certo? No currículo dela estão a Ku Klux Kan, os linchamentos de negros e a oposição ferrenha às lutas pelos direitos civis na América, inclusive – caso direto de Thomas Sowell – uma campanha ferrenha contra as cotas raciais e às ações afirmativas em geral.

Pois bem. Thomas Sowell é o principal teórico da direita norte americana nesta cruzada anti democrática aí. Juntando os pontinhos, ligando Ali Kamel, Maggie, Fry et caterva a seu guru de ‘alma branca’ dá um quadro bem esdrúxulo, não dá não?

Nunca mais caí na conversa de vivandeiras neo racistas como o Kamel depois que descobri este rabo de cobra delas. Não querem cotas de espécie alguma porque são direitistas, elitistas anti democráticos. partidários do passado e do atraso. Cobras chocando ovos no cesto.

São o rabo daquela cobra da bandeira do Tea Party direitista norte americano que diz aí em cima:

“Dont tread on me”

Frases mui meigas de Thomas Sowell guru destas vivandeiras:
Defendendo a propriedade privada das leis de promoção socijal do governo Obama:

“Ambos os direitos de liberdade de expressão e direitos de propriedade pertencem legalmente aos indivíduos, mas sua real função é social, para beneficiar um grande número de pessoas que não se exercem estes direitos.

Defendendo posições contrárias as cotas raciais e as ações afirmativas em geral:

…O capitalismo sabe apenas uma cor: a cor é verde, tudo o resto é necessariamente subserviente a ele, portanto, gênero, raça e etnia não pode ser considerado em seu contexto.”

Defendendo a manutenção de valores conservadores na sociedade:

“…Cada nova geração nascida é na verdade uma invasão da civilização por pequenos bárbaros, que devem ser civilizados, antes que seja tarde demais.”

Manifestando-se contra a universalização de direitos legais numa sociedade:

…Se você sempre acreditou que todos deveriam jogar pelas mesmas regras e ser julgada pelos mesmos padrões, teria sido rotulado de radical há 60 anos, liberal há 30 e racista hoje.”

Defendendo o conservadorismo em geral:

…Grande parte da história social do mundo ocidental, ao longo das últimas três décadas, tem sido uma história de substituir o que funcionou pelo que soa bem.”


(Textos de Thomas Sowell, economista, como eu disse acima membro da ala direita do Partido Republicano, simpatizante do Tea party e cuja ficha de direitista anti Obama é ciosamente escondida por seus acólitos no Brasil (Kamel & Cia).

Detalhe: Thomas Sowell apoia hoje a ala direita do Partido Republicano nas eleições de 2012 cujo candidato Newt Gingrich vai mal das pernas e deve perder a indicação para Romey.

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Daí, um aluno mais panaca, lá no fundo da sala perguntou ao Prof. Kamel qual era a moral da história, da lição que Ali acabou de dar (e que eu contei aqui com as entrelinhas expostas), exaltando o Sowell :

Ali calou-se, rabinho entre as pernas. Se aproveitou da campainha que tocava no pátio e encerrou a aula. Fofoqueiro que sou, contudo, chamei o aluno panaca no corredor e entreguei:

_ “Se liga: O professor Kamel e seus colegas doutores daquela ‘tchiurma’ de neo racistas dele, não são apenas racistas não, rapaz. Eles são de Direita. Torcedores do ‘Tea Party”, do Reagan, da Sarah Palin, gente barra pesada. Cuidado com eles, brancaiada!”

Ao que o aluno panaca, cara de tonto, bem babaca, perguntou:

_” Tea Party? Mas o que é isto, tio? Alguma festa na Lapa? É hoje?

…Bem..Esqueçam. Vamos de agora em diante cultivar as virtudes da paciência. Eles ainda têm muito que aprender.

Nós – e o STF – pisamos no rabo deles. Vamos ter que esperar a dor de rabo deles passar.

Spírito Santo
Abril 2012/2017

Menos Foucault mais Fu Kiau – Filosofia bakongo para iniciantes

•06/06/2017 • 15 Comentários

Creative Commons LicenseAtenção: Todo o conteúdo deste blog esta assegurado por uma licença Criative Commons.

Gráfico da cosmogonia bakongo (aproximadamente século 10) segundo estabelecido pelo etnólogo congolês Fu Kiau Benseki. Observem que, curiosamente a cruz como fundamento cosmológico já existia na cultura bakongo bem antes da chegada dos portugueses e seu cristianismo.
Contudo, não viaje demais por enquanto. Não especule além do que o entusiasmo pode ser relacionado á lógica. Não transforme em névoas religiosas o que é saber  a ser analisado, sistematizado um dia como ciência. Pense grande.

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Começando o papo

(Bem, se você é mais iniciante ainda do que eu, comece voltando atrás lendo o beabá bakongo neste link) .

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Só como introdução para ninguém se dizer desentendido: Bakongo é grosso modo, o povo formado pela junção – não me venham com esta conversa de mestiçagem, por favor – de gente migrante vinda lá de cima, de onde é hoje o Camarões para as férteis terras às margens do Rio Kongo, com as gentes que ali já estavam, ninguém sabe há quantos séculos e séculos amém.

Não se sabe tampouco de onde esta gente que desceu o continente veio para os Camarões. Eu mesmo me arrisco a presumir que eles podem ter vindo do nordeste do continente, num fluxo migratório que espalhou pessoas das fraldas do Egito, da Núbia, até a costa oeste da África mais remota, alguma civilização qualquer bem avançada, assentada em saberes sobre os quais foram fundadas todas as civilizações subsequentes, da África propriamente dita e suas proximidades até, bem mais tarde repercutirem na Europa, esta Europa sempre envergonhada , sabe-se lá porque, deste seu evidente – embora não único – passado africano.

E não sou eu que digo. Foi o Heródoto… O que? Não sabe quem é Heródoto? Aí já é ignorância demais. Não vou dizer. Perguntem ao Google.

O certo é que este povo altivo e portador de um mui antigo sistema de valores éticos, morais, civilizatórios enfim, depois de já amalgamado num conglomerado de potentados agregados, solidamente organizados em torno de um reino ou império central (uma confederação de reinos ) com um reino central denominado Reino do Kongo, estava em plena fase de desenvolvimento e prosperidade no momento em que foi visitado, invadido e por fim dominado pelos ‘Tugas’ (conhecidos também como ‘Putus’) povo vindo desta Europa predadora que se formou após as chamadas grandes navegações, esta Europa hoje centro de um mundo crente numa cosmogonia pra lá de questionável, fundada para justificar as imorais  iniquidades do trabalho escravo.

(E aqui um parêntes algo necessário: Hoje em dia o que conhecemos como povo bakongo é uma gente que ocupa uma área entre a fronteira sul do Zaire com Angola e as cercanias ao norte de Luanda.

Contudo, estamos nos referindo aqui , explícitamente à cultura matriz e predominante em toda a região que hoje conhecemos como República Popular de Angola, considerando-se que dali, de Mbanza Kongo a capital do reino do Kongo (dos Ba-Kongo, enfim) na ocasião em que o ‘tuga’ Diogo Cão chegou ao local, é que floresceu e se expandiu um conceito de cultura e nação muito mais extenso, geograficamente do que o território bakongo atual.

Esta nação (a Angola de hoje em dia)  é formada por várias  outras culturas, entre as quais as que mais nos importam, por conta dos fluxos de cativos que para o Brasil vieram, são os Mbundos (tanto os “Ovi”  quanto os “Ki”, prefixos que diferenciam, sutilmente, culturas vizinhas, primas, irmãs)

Esta história majestosa e trágica, que acontece a partir do século 10 ou 12 e transcorre heróica até o início do século 18, após a decapitação em 1665 de D. Antônio Nkanga Nvita, o rei do Kongo derrotado pelas tropas portuguesas comandadas por André Vidal de Negreiros (sim, ele mesmo!), tem profunda ligação com a história do Brasil, muito mais do que nos disse a memória a nós imposta pela escola convencional, que nos encheu os ouvidos e os olhos com caravelas e mais caravelas de fatos e eventos, vividos – ou inventados – pela nobreza portuguesa da qual fomos colônia tanto quanto foram estes mesmos bakongo e seus vizinhos, ainda hoje amalgamados – embora beliçosos – num belo país chamado República de Angola.

Conversa de pé de fogueira esta. Longa e molenga. O resto bem que pode ser contado amanhã. Fiz esta introdução apenas para vocês nem pensarem mais em chamar estas pessoas de gênese bakongo, nossas antepassadas de “crioulos” incultos e primitivos, nem muito menos submissos vassalos de Portugal e da igreja da cruz.

É que cruz eles, (“nós”) já tinham, todo um sistema filosófico baseado na idéia da cruz segundo se pode ver no cosmograma ilustrado acima: o “Kalunga”, meio líquido que divide o mundo físico do mundo espiritual, o mundo dos vivos, do mundo dos mortos, o real e o surreal enfim.

Se você conseguir se livrar da ideia preconceituosa de que existe um misticismo afro-negro primitivo, atrasado – algo absolutamente improvável dada a longevidade e a extrema gama de experiências civilizatórias portadas pelas culturas que formularam o conceito aqui apresentado – partindo do princípio óbvio de que todos os homens são rigorosamente iguais – se você conseguir discernir a diferença crucial que existe entre FILOSOFIA e RELIGIÃO – posto que uma sugere maneiras diversas de se explicar as coisas do mundo, enquanto que a outra afirma, dogmaticamente tudo poder explicar – por certo tirará grande proveito destas informações.

O tema é muito novo para a maioria de nós. Por isto, esta abordagem mais ampla ou genérica me pareceu, inicialmente mais aconselhável. Sugiro então apenas algumas linhas básicas, balisadoras do instigante debate que o tema pode sugerir.

Eu sei que é enfadonho insistir, mas entendam que a culpa é deste ‘nosso’ insidioso modo de ver tudo que não é fruto da cultura ocidental como ‘primitivo’ e ‘exótico’, rasamente ‘místico’ ou religioso, um pensamento arcaico, colonizado que, infelizmente predomina em nossas ciências sociais. A ressaltar apenas, neste ensejo, portanto os seguintes pontos:

– Os aspectos filosóficos, éticos, morais, etc. que no Brasil informam o que a gente chama de ‘cultura popular’ ou ‘tradicional’ (‘indígena’ também, mas no caso presente, principalmente africana) não são, de modo algum, fruto de uma visão de mundo empírica, ingênua posto que são o acúmulo de experiências muito amadurecidas no tempo e no espaço, complexas em si mesmas, sedimentadas por séculos e séculos de exercício. Afinal, estas culturas estão na base da formação do pensamento de toda a humanidade.

– O que torna difícil a compreensão deste fator – além de nosso recorrente racismo acadêmico – é que os mecanismos de registro e difusão destes saberes – no caso destas culturas mais ‘antigas’, ancestrais por se assim dizer – são baseados em procedimentos diversos daqueles tornados hegemônicos pela cultura cristã-ocidental – como é o caso evidente da escrita convencional (do ‘livro’, por suposto) no caso do ocidente – e não somente – inventada por Gutemberg.

– Dentre estes procedimentos subestimados, sobressalta-se, portanto a literatura oral e outras linguagens, digamos assim, mais ‘emocionais’, ‘orgânicas’, procedimentos que o cartesianismo do século 18 tratou de considerar impertinentes (como certa música ‘tradicional’, por exemplo).

– Uma compreensão equivocada que se tem da sabedoria humana, julgando-se erroneamente que só é válido e científico, aquilo que foi firmado e atestado por procedimentos de registro convencionais é, pois, um dos principais fundamentos destes preconceitos.

Isto tudo posto, leia os preceitos básicos da filosofia Bakongo pensando grande.

“… A formulação de Fu-Kiau, um pensador Bacongo contemporâneo, traduz para uma linguagem compreensível ao pensamento ocidental maneiras de entender o mundo que se ligam em muitos aspectos a formas de pensamento e a formulação de explicações que podem ser entrevistas já nos primeiros registros escritos de observadores estrangeiros, principalmente missionários católicos.

Por esses diversos registros fica evidente que desde os primeiros contatos com os portugueses no final do século XV até os dias de hoje, é básica para os Bacongo a divisão entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, os primeiros vivendo acima da linha do horizonte, os últimos existindo abaixo da linha do horizonte, mundos estes separados pela água, conforme as imagens mais recorrentes.

Acima da linha do horizonte estão os vivos, que são negros*; abaixo da linha do horizonte estão os mortos, de cor branca, e uma multiplicidade de espíritos da natureza que povoam a esfera invisível do mundo.

Essa organização está expressa no signo da cruz: o eixo horizontal da cruz liga o nascer ao por do sol, assim como o nascimento à morte dos homens, e o seu eixo vertical liga o ponto culminante do sol no mundo dos vivos e no mundo dos mortos (o zênit visível e o invisível), permitindo a conexão entre os dois níveis de existência.

A ligação entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, de onde vêm as regras de conduta e o auxílio para a solução dos problemas terrenos, como doenças, secas e o infortúnio de maneira geral, se dá por meio de ritos nos quais se evocam os espíritos e antepassados para que resolvam as questões que lhes são colocadas.

A cruz, no pensamento Bacongo, remete à idéia da vida como um ciclo contínuo, semelhante ao movimento de rotação efetuado pelo sol, assim como à possibilidade de conexão entre os dois mundos.

Segundo Fu-Kiau, o rito básico e mais simples a ser feito por todos aqueles que querem se tornar mensageiros do mundo dos mortos e condutores de seu povo ou clã é fazer um discurso sobre uma cruz desenhada no chão. Com isso, são frisados os poderes de todo chefe de fazer a conexão entre o mundo dos vivos e o dos ancestrais e espíritos.

Ao se colocar sobre a cruz, que representa o ciclo da vida humana e a divisão entre os vivos e os espíritos, o chefe afirma sua capacidade de fazer a conexão entre os dois mundos e assim conduzir de maneira adequada a comunidade que governa…”

(*Nota: “negro”, referindo-se à cor e não à raça, é bom frisar para os menos espertos ou mal intencionados)

1 “Evangelização e poder na região do Congo e Angola: A incorporação dos crucifixos por alguns chefes centro- africanos, séculos XVI e XVII”. Marina de Mello e Souza -Departamento de História /FFLCH/Universidade de São Paulo

———————

Muitos estudiosos da cultura bakongo hoje, já estão estabelecendo como se viu uma relação estreita entre este sistema filosófico ancestral e a quase imediata relação que este povo bakongo fez entre a cruz dos católicos e seu sistema filosófico. É bom frisar que esta relação – bastante plausível, aliás – é o argumento-chave utilizado para desqualificar a ‘africanidade’ dos povos bantu de certa parte da África, notadamente, no caso específico do Brasil, os próprios bakongo (e Kimbundos, e ovimbundos) propriamente ditos, enquanto povo ancestral da maioria dos africanos trazidos à força para o país.

Para estes racistas sutis, a África genuína, altiva, seria a estranha África ‘sudanesa’, Nigéria, Ghana, Dahomey, uma África cravejada de exotismo cultural, primitivismo e mistério em seus ritos ‘selvagens’, passíveis das mistificações que, por fim, se achou por bem banhá-la, redundando nas aberrações fake-antropológicas do cinemão de Hollywood e na adoção no Brasil de uma religião negra hegemônica calcada em crioulo-doidices bem constrangedoras, ridículas mesmo, um melê de referencias distorcidas, inventadas, do que seria a cultura negra ideal, reunidas neste Candomblé de falsas aparências.

Vão lendo aí e pensando sem simplismo barato, sem arrogância branca e, sobretudo não dando trela para a ignorância presunçosa dos ‘sabe-tudos’ de plantão.

Quando voltarmos o papo vai poder ser bem mais ‘buraco em baixo’, se bem me entendem.

Spírito Santo

Março 2011

Cadeia de memórias reparadas é um tenso fio

•29/05/2017 • Deixe um comentário

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Paulo Gomes Neto e Eu, amigos de cadeia, amigos para sempre. Ao fundo, entre nós, o  secretario de Direitos Humanos Antonio Carlos Biscaia, grande batalhador da reparação e do reconhecimento do valor de nossas lutas modestas, agora sim cobertas com alguma glória.

E eu, arquivo vivo vou queimando aos poucos

 …”Quinze minutos depois do avião da Cruzeiro do Sul levantar vôo do Rio de Janeiro com destino a São Paulo, no dia primeiro de julho de 1970, quatro jovens deixaram seus lugares e se dirigiram à cabina de comando. Lá foram breves: era um sequestro. Armados, eles obrigaram o piloto a voltar para o aeroporto do Galeão…

Quem sabe deste incidente aventureiro? É filme? É teatro? Não, foi fato. Foi sim. É que memórias são fios que se desfiam de um rolo para se embaralharem irremediavelmente, até não serem jamais meada nem medida, até não poderem mais ser enrolados em rolo algum.

A Reparação do irreparável Continue lendo ‘Cadeia de memórias reparadas é um tenso fio’

O Arrego. Crônica do Coletivo do pavor

•27/05/2017 • 1 Comentário

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Foi assim: Eu cochilando, na onda das cervejas bebidas no centro. Ônibus lotado, mas eu sentado no banco amarelo dos idosos, meu trono imperial.

De repente um reboliço explodindo. Ouvi, ainda meio cochilando uma ou duas rajadas de fuzil. Só aí me dei conta de que todos os passageiros (menos eu) estavam estirados no chão, uns sobre os outros, imóveis como mortos. Tentei deitar também, mas não havia espaço e, além disso meus velhos joelhos não dobram mais sem doer. Fiquei assim, ajoelhado, o medo dissipado pela visão inusitada, a cena surreal.

Cismei de fotografar. Porque não? _Rezar ou fotografar?_ cheguei a pensar. Mas que besteira! Nem sei direito como é rezar, entregar meu medo à deus? Isto não sei fazer. Se um tiro me pegasse, o que poderia de pior acontecer? Morrer? Ah…

O celular, dispositivo sensorial indispensável, memória portátil, caixa dois, auxiliar de pensamentos super indeléveis, logo percebi, é personagem importante nessas situações. Parece mórbido, puro sadomasoquismo, só que não.

Uns narram aos parentes, esposas e namoradas, o pânico em tempo real, em vídeo, outros tentam o consolo de dividir esse pânico com alguém de fora, numa conversa tensa de WhatsApp, o medo compartilhado numa rede social pirada e imensa, espalhando pela cidade num pânico sem sentido, pois, jogados no chão do ônibus, nenhum de nós, os narradores, vê nada do que se passa lá fora, além do som das rajadas dos fuzis automáticos.

A qualquer momento, uma ou mais balas disparadas, com direção ou à êsmo (como saber?) pode atingir o ônibus, matar alguém. _”Quem sabe flagrar um ferido agonizante e postar na página, ganhar mil curtidas?”_ Deviam pensar os mais sádicos…

_”Que não seja eu” _ pensei eu, contraditoriamente com o celular fotografando meus colegas reféns, aquele tapete de gente, cabeças e bundas largadas ao destino apavorante de, no prosaico e rotineiro desejo de voltar do trabalho para casa, chegar vivo ou, morto, nunca mais chegar.

O motorista, adrenalina á mil, como um pilôto de avião em queda livre, tentando comandar o terror dos passageiros, ali, diante do para brisa, tela panorâmica, de cara para a guerra suposta que as rajadas nos sugeriam. O pobre abria as portas para os que quisessem sair, mas logo, no meio de uma ensurdecedora gritaria, as fechava, rápido. É que havia em todos o pavor do ônibus ser invadido por garotos vândalos, com garrafas pet cheias de gazolina, saídos do nada que era o escuro e difuso interior da favela.

Mas não. Diante da gritaria dos deitados, uns pedindo que seguisse, outros pedindo que desse ré, o motorista percebeu que atrás dele, os carros todos haviam manobrado e fugido na contramão em desabalada carreira. Deu ré.

Escapamos por vielas e ruas desconhecidas, até que localizei a favela do Jacarezinho, nesse momento, tranquila. Me causava espanto também a entrada dos novos passageiros, do mesmo modo tranquilos, alheios, ignorantes do que havia acabado de ocorrer ali, no “coletivo”.

Só em casa pude me inteirar sobre o que havia, realmente ocorrido.

Deu em O GLOBO, a notícia oficial:

“…intenso tiroteio no Morro da Mangueira, na Zona Norte do Rio, assusta moradores da comunidade e arredores, na noite desta sexta-feira.

De acordo com a polícia militar, há uma operação em curso, comandada pelo Batalhão de Polícia de Choque (BPChq), e criminosos armados estariam resistindo à incursão policial. Pelo menos um deles já foi preso e teve sua arma apreendida. Estas são as informações preliminares divulgadas pela corporação.

Em meio ao confronto, os agentes vão contar com a ajuda de carros blindados.

O Centro de Operações da prefeitura do Rio informou que pode haver interdições na Rua Visconde de Niterói devido à operação policial.”
Logo desconfiei, na hora: “_Operação policial às 8 da noite, com o trânsito congestionado ainda, as pessoas voltando do trabalho? Não bate bem esta versão”

Até que deu numa conversa de whatsapp a notícia que me pareceu mais verosímil, a mais real e convincente.

“Sexta feira: Dia do “Arrego do Baile”, traduzindo: Dia no qual policiais militares incumbidos pelo comando do batalhão local, vão pegar a propina regular, cobrada pelo batalhão para liberar o Baile Funk.

Algum desentendimento ocorreu entre as partes e o conflito se generalizou. Segundo as mesmas fontes, blindados foram acionados para resgatar os policiais acuados na favela.”

Ah…Nem preciso comentar. Vocês sabem muito bem como contextualizar  esta narrativa, a moral dessa história.

Melhor assumirmos logo o nosso banditismo. Ele é, de cima a baixo, o modelo natural de nossa “Democracia”, nosso modelo de Governo.  O Brasil se embandidou de vez, “arregou”, a Constituição, o Poder e o Governo, são dos bandidos.

Que o piso do ônibus nos seja macio.

Spirito Santo
Maio 2017

Titio Congadeiro. O Objeto de Estudo no espelho

•12/04/2017 • Deixe um comentário

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A Pesquisa de Campo é a pesquisa de nós mesmos

 Nem me lembro a data exata. Final dos anos 1970, presumo, início dos 1980, no máximo, um ano remoto destes.Titio congadeiro em campo

Somos aí, na foto, parte do Grupo Vissungo, realizando pesquisa de campo sobre as congadas da região da cidade de Machado, Minas Gerais. Este já era o quinto ou sexto ano que eu frequentava esta “escola”.

Pesquisa de campo? Sim. Exatamente. A metodologia que o Titio e seus colegas, aplicava, por pura intuição era a da investigação, digamos assim…orgânica, uma emersão profunda, absoluta. Entrávamos, ano após anos, gradualmente dentro da intimidade dos grupos, do que se chama hoje em dia de “objeto de estudo” até nos transformarmos, nós mesmos, também em parte integrante desse objeto. Metamorfose cultural, algo assim.

Pesquisar congada para nós não podia ser de outro jeito, enfim, que não fosse virarmos congadeiros reais. Dançar na festa, cantar e tocar no terno, beber a mesma cachaça, comer a mesma comida, viver a mesmo vida, tudo por tudo enfim

(Aí!…Saudades do torresmo)

Afinal, descendentes de gente igual àquelas que pesquisávamos, estávamos mesmo, no fundo, pesquisando a nós próprios, cumprindo nossa sina. Bem sei que os pesquisadores de hoje em dia – principalmente os doutorandos ou doutorados – abominam, subestimam – desprezam até – este método (o folclorismo) considerado empírico, impreciso. Devem ter até um nome bem depreciativo para definir esta técnica.

(Nem se tocavam – ou se tocam – que, necessariamente usávamos, como usamos até hoje muitas referências bibliográficas e que,  de empíricas as nossas coletas não tinham nada.) Geraram conclusões diferentes sim, é claro, tão divergentes que eram as metodologias.

Ah os preconceitos elitistas! Quanta ignorância!

Existe por aí até uma conversa – bem fiada para mim, aliás – acerca de um tal de “distanciamento crítico” que sempre me intrigou por sua impertinência. Ora, afinal gente normal interage, vive de intercâmbios, se relaciona de forma absolutamente natural e atávica, irreprimível, numa simbiose que está na própria essência (ops!) de nossa natureza.

Afinal não se trata de estudar uma colônia de larvas ou de formigas, ou mesmo estrangeiros “nativos” (como alguns antropólogos -ou etnólogos, difícil diferenciá-los- têm a coragem de denominar seus “informantes”). Somos gente investigando gente para nos tornarmos gente melhor

Deste modo presunçoso deles, quaisquer relações entre pessoas em pesquisas etnológicas presenciais, só fariam sentido se fossem distanciadas, olhadas de cima para baixo.

Ora, trata-se de uma metodologia dos primórdios da antropologia colonial (à época,  ainda sem nome), no tempo daquele colonialismo abjeto, do viajante cronista, “homem branco” eurocentrado – muitas vezes um naturalista, um padre catequista – estudando a alma do “bom” selvagem, do Ser nativo, para melhor dominá-lo.

Me ocorre também no contexto desta crítica, convenhamos hoje bem recorrente, que nem nos passava pela cabeça na época, refletir sobre isto, sobre este preconceito acadêmico tão esnobe e ignorante que grassa as ciências sociais de lá até agora.

É que nestes luminosos anos 1970, esta prática de músicos pesquisadores era a coisa mais comum do mundo (toda a nossa MPB dos anos 1960/70, foi baseada nesse conceito). Ninguém teria a pachorra nesta época de patrulhar, questionar a legitimidade de pesquisas independentes, subestimá-las, tentando enquadrá-las no caixotinho mofado da “norma culta”.

Havia também muitos pesquisadores independentes, conhecidos como “folcloristas”, uma técnica de pesquisa antropológica hoje abominada, desprezada pelos doutores mais convencionais, na qual a meticulosa coleta, o registro apurado das características dos eventos ocorridos no campo, a fisiologia da coisa mesmo, registrada ocorrendo ali, ao vivo, servia de base para todas conclusões futuras (inclusive às dos antropólogos esnobes de hoje.).

(Hoje – pasmem! – uma rápida visitinha de três, quatro dias num “sítio etnológico” qualquer, serve de embasamento para uma tese de mestrado inteira, algumas com quase mil páginas de texto)

Embora a antropologia brasileira tenha sido fundada nos anos 1930/40, por aí, a área estava ainda dominada nos anos 1970 por um bolorento beletrismo, ambiente no qual a chamada “pesquisa de campo” passara a representar um elemento de apreensão e construção do conhecimento, secundário, quase desprezível (um comportamento, aliás, que infelizmente predomina até hoje).

Prioriza-se isto sim, uma estranha proeminência do esoterismo da Filosofia europeia do século 20, a escrita de alguma sumidade da moda, cujas elocubrações, viram panaceia metodológica, ferramenta analítica preferencial, bula, para  todas as abordagens, todas as petulantes epistemologias a partir daí criadas.

Mas não éramos assim. Éramos  livres. Nenhum compromisso com os cânones nos mobilizava. Eles que se danassem.

Os seminários rolavam na Roça

Convidados pelos Capitães José Caixeta e Benedito Lourenço, saudosos mestres do terno de congada de São Benedito, levei neste ano para Machado os outros músicos do grupo Leninha Codó (à direita na foto) e Carlinhos Codó (á esquerda). Samuka de Jesuss, ao meu lado ao centro já desfilava desde de anos anteriores

Os instrumentos (dois alaúdes de cabaça, uma cuíca de tonel de cachaça e a minha primeira marimba) foi o Titio mesmo quem construiu. Muito me divertia ver o pessoal na rua ouvindo aquele instrumento tão africano e inusitado que era a minha marimba, terçando harmonias com os acordeões do terno de José caixeta.

Anos depois, pesquisando, descobri que marimbas, exatamente iguais à minha, haviam sido muito comuns nos ternos de congada da área do Vale do Jequitinhonha, MG, no século 19 (vejam a imagem)

1868. Congadeiros de Morro Velho, MG, com marimba. Foto de Augusto Riedel

Seriam insights de memória genética, cintilando em nós?

Sei lá. Só sei que ando agora compartilhando com os interessados o tanto que aprendi e registrei destas viagens memoráveis ao fundo de mim mesmo (meu livro “Do Samba ao Funk do Jorjão” foi cimentado com estas memórias amarradas por uma bibliografia possível.)

(Compre o livro em http://rosasespiritos.wixsite.com/vendas)

Auê, Zambi!

Spirito Santo

Abril 2014/2017

Spirito Santo e o Carnaval no “Stad di Min’s”. Estrevista para o Jornal Estado de Minas

•24/02/2017 • Deixe um comentário

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Entrevista para o jornal Estado de Minas, publicada no caderno “Pensar” de hoje, 24 de Fevereiro de 2017, em edição especial de Carnaval.

Spírito Santo
Músico, escritor e pesquisador

Por Pablo Pires Fernandes*

Músico, pesquisador e escritor de 69 anos, Spirito Santo é autor de Do samba do unk do Jorjão (http://rosasespiritos.wixsite.com/vendas) e profundo conhecedor da história do carnaval e das raízes africanas e cantos vissungos. O livro busca refletir sobre as origens do samba e sua evolução. Foi professor em Viena, na Áustria, e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), onde criou e coordenou o projeto de extensão Musikfabrik, de criação de instrumentos para jovens. Compositor e instrumentista, já gravou com Milton Nascimento, Wagner Tiso, Tetê Espíndola e Clementina de Jesus e produziu trilhas de filmes. Nesta entrevista, Spirito Santo aborda alguns temas sobre o carnaval e suas transformações.

Como se distingue a imagem do Brasil como o país do carnaval e o que a festa de fato representa para o imaginário nacional?

O carnaval brasileiro tem sim um certo grau de simbolismo na for- mação de uma imagem de Brasil no exterior e é, digamos assim, um “símbolo nacional” por excelência. Mas isso, além de óbvio, dado ao gigantismo do espetáculo e seu grande impacto na mídia in- ternacional, não é exclusivo do Brasil, pois existem carnavais em outros lugares do mundo que, do mesmo modo, desempenham mais ou menos este mesmo papel.

E penso que nós, brasileiros (o “imaginário coletivo da nação”) exageramos um pouco esta nossa projeção como povo supercarnavalesco diante do mundo. Algo a ver com a nossa autoestima em baixa, que precisa desse tipo de afirmação nacionalista? Assim, no que diz respeito à nossa necessidade compulsiva de ter alguma projeção no exterior, no mundo “civilizado”, seja de que modo for (reflexo do chamado “complexo do vira-latas” que nos caracteriza), em se tratando de carnaval (e mantendo o espetáculo no campo da nossa cultura), ao abusar da espetacularização exacerbada, utilizando elementos fake de uma suposta cultura popular – mal copiada –, optamos por mostrar o nosso pior lado, embora altamente comercializável.

Como o carnaval reflete a sociedade brasileira?

Uma manifestação cultural desse porte sempre refletirá o ethos de quem a pratica. Mas devemos combinar logo de saída o que a nossa sociedade é, o que um espelho franco refletirá sobre nós quando nos colocamos diante dele, nus. Somos uma sociedade altamente excludente, do ponto de vista social, muito dividida e, esse rosto pintado um lado de branco outro de preto não consegue nos mascarar, esconder o que somos, mesmo no carnaval.

O carnaval é uma das manifestações culturais mais antigas da humanidade. Historicamente, pode-se dizer – sem exagerar, é claro – que tem a vocação para ser uma das festas mais democráticas. Mas como dissemos acima, é uma festa que, por suas dimensões, tende a refletir as idiossincrasias da sociedade que a pratica. O carnaval é, enfim, a democracia expressa como farsa.

Então o carnaval mascara esta divisão e o racismo?

O exemplo está bem diante de nós. No Brasil, a história do carnaval sempre foi muito marcada pela nossa cruel estratificação social. Começamos o carnaval de rua ainda no século 19, com escravidão rolando. Era um carnaval de rua estritamente africano, do qual os brancos, pobres ou da elite, participavam apenas praticamente lambuzando-se uns aos outros com as brincadeiras quase domésticas do entrudo, enquanto as “bandas de pretos” passavam.

Nas ruas, o que rolava mesmo eram, portanto, os cacumbis carnavalescos, numa linha de tempo que avançou para os ranchos, trazidos por ex-escravos da Bahia, até chegarmos nas escolas de samba, nascidas nos morros e comunidades periféricas mais remotas.

Ora, são todas elas, manifestações seminais do carnaval carioca, festas de pretos. Fazer o quê?

Importante frisar também que a elite, a classe média “branca”, sempre se manteve afastada deste processo festeiro mais democrático, o das ruas e calçadas sujas, ora promovendo desfiles de carros alegóricos na Zona Sul (“grandes sociedades”) ora se emperiquitando nos seus nababescos carnavais privados em grandes clubes ou teatros. Logo, o carnaval sempre foi de todos sim, mas no Brasil sempre foi na base do “cada um no seu quadrado”, um carnaval apartado, elitizado.

Nesse processo, como vê as ideias de “contaminação” e “apropriação”?

Há sim, também no nosso carnaval – o que me parece o seu aspecto mais significativo, enquanto representação do que seríamos como sociedade – o aspecto da “apropriação”. Não há como um grupo de elite não cair na tentação de subtrair a cultura do outro, seu antípoda social, quando lhe falta uma outra cultura, própria, originalmente nacional, para mostrar ao mundo.

É como o retrato de Dorian Gray.

O processo pode ser muito bem observado na evolução das escolas de samba que, ao longo de seus mais de 80 anos de existência, de manifestação popular dos extratos mais excluídos e desprezados da sociedade (negros pobres, a maioria descendentes de africanos escravos), à medida que foram obtendo mais projeção midiática, se tornando mais espetacularizáveis (no mau sentido), mais foram sendo “ocupadas” também pela classe média “branca”, processo que se agudiza na virada dos anos 1970 com a gradativa exclusão de muitos dos manifestantes originais, para os quais a participação foi se tornando, financeiramente, até proibitiva.

O conceito “apropriação cultural”, por isso mesmo, me parece estar sendo utilizado de forma muito superficial em certos contextos (de maneira até irresponsável, às vezes), criando falsas polêmicas. No geral, se “apropriar” da cultura alheia é uma impossibilidade em termos. A simbiose cultural é algo próprio da natureza humana. Por bem ou por mal, como por osmose, as culturas sempre se imiscuirão, desde que em contato umas com as outras, desde que estejam geograficamente próximas.

E isso nem depende das pessoas, além do que – é importante frisar – sem importar nem mesmo a “cor” delas, a sua suposta “raça”, pois cultura, a expressão dos modos de ser de grupos específicos de pessoas, é um fenômeno atávico, espontâneo – embora nunca seja da conta da genética.

No entanto, precisam estar presentes certas circunstâncias expressas acima para que se considere a cultura – o carnaval no caso – como um bem democrático e comum a todos numa sociedade, e essas circunstâncias, infelizmente, não estão presentes no Brasil. A ausência desses fatores muda – e muito – o sentido que se deve dar, de forma mais precisa, ao conceito “apropriação”.

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É possível falar de uma divisão de classes no carnaval?

A distinção de “cor” é, sim, um problema candente neste caso. As distinções de classe, permitam-me, não podem ser categorias separadas no caso do Brasil, pelas tantas razões que mencionei. O não reconhecimento dessa circunstância sociológica cabal faz desmoronar qualquer análise que se pretenda séria.

A exclusão social no Brasil está firmemente assentada na exclusão “racial”, pois o Brasil é, histórica e inegavelmente, uma sociedade racista. É fundamental reconhecer essa nossa incômoda característica de uma vez por todas.

O principal aspecto do aumento da participação da classe média “branca” – da ”elite” em si – no carnaval de rua no Brasil, notadamente nas grandes cidades – Rio, São Paulo, Salvador, Recife, Belo Horizonte –, tem crescido e se afirmado, infelizmente, por meio do afastamento exponencial dos antigos manifestantes (pobres, negros, habitantes de comunidades periféricas). Trata-se, claramente, da substituição de uns pelos outros, da “apropriação” com o sentido mais de “expropriação” mesmo, em que a chegada de uns afasta, necessariamente, a presença dos outros. É uma questão de mutação territorial, portanto, agravada pelos programas de reforma capitalista do espaço urbano, que geram gentrificação progressiva, fator que impacta fortemente a cultura de um local.

Como ocorreu isso no carnaval do Rio de Janeiro?

O boom dos blocos de rua no carnaval do Rio de Janeiro, cuja maioria esmagadora de foliões, hoje, são brancos, foi um fenômeno projetado, planejado e bancado por estruturas de renúncia fiscal via Ministério da Cultura, patrocínios de cervejarias etc., recursos de patrocínio aos quais os desestruturados  blocos de rua antigos, tradicionais, a maioria sediados nos subúrbios, jamais tiveram acesso. Nesse processo – do qual fui testemunha ocular – intenso, a partir dos anos 1990, ligado diretamente à recuperação das áreas degradadas do Bairro da Lapa, muitas incursões foram feitas, muitos mestres de samba, do Rio, e maracatu, de Olinda, por exemplo, foram con- tratados para promover workshops, até que se chegasse a estas megaestruturas atuais, numa verdadeira transferência de know-how.

A entrada do mercado, portanto, favorece esse tipo de exclusão?

São processos de mercantilização naturais, típicos do sistema sob o qual vivemos, mas é preciso discutir os aspectos ligados o alto grau exclusão sociorracial, perfeitamente visíveis, gerados por esses processos de espetacularização seletiva.

Como se dá esta evidente exclusão de “não brancos” nos blocos? Que filtros são utilizados? São, como todos os organizadores inquiridos afirmam, fruto de uma opção dos próprios negros de não participar? Estariam esses blocos de “brancos” preservando a “cultura negra” abandonada pelos negros, que “agora só querem saber do funk”, como um desses organizadores me afiançou?

Esse é aspecto crucial da questão, fulcro desse fenômeno, que é típico da sociedade que forjamos: A exclusão sociorracial, que vai se manifestar em todas as instâncias de nossas relações sociais e vem tomando, no campo da cultura, a forma de “apropriação” no sentido lato, com finalidades deliberadas, nada naturais. É uma patologia sociocultural, para a qual eu mesmo cunhei a expressão “cultura negra sem negros”.

Não se trata, portanto, de “negros” julgarem que o carnaval, o samba (os turbantes, ou seja lá o que for) sejam seu patrimônio cultural exclusivo. Trata-se de essas pessoas – que também, convenhamos, mal compreendem o que está acontecendo –, se sentindo usurpadas, protestarem contra o que, para elas, parece ser uma expulsão de “sua” própria festa, alijadas para uma periferia (geográfica ou simbólica) cada vez mais distante, barradas no baile.

*A entrevista contou com a consultoria do professor da Escola de Música da UFMG Carlos Palombini.
 
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