“Os pretos na festa de Nª Srª do Rosário”: Raízes ignoradas de um teatro popular brasileiro

•17/04/2014 • Deixe um comentário

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Congado de Uberaba 1889

Raízes ignoradas de um teatro popular brasileiro sempre desprezadas pelos especialistas do ramo.

Impressionante imagem. É uma congada mineira típica em 1889. Poucas referencias documentais ainda, além das aqui descritas pelo Titio, assim de relance, admirando os detalhes instigantes da foto e sugerindo ligações fortuitas.

Logo de início destaco os penachos e saiotes dos “africanos”, naturalmente representando gente do Congo (Angola) e os também muito curiosos soldados “brancos” (fardas modernas para a época, modelos da Guerra do Paraguai).

Isto tudo sugere um caráter de dança dramática para grupo, provavelmente uma “embaixada”, forma teatral africana mais antiga do que a maioria das pessoas imagina (remetem aos “Sangamentos”, teatralizações protocolares de embaixadas diplomáticas reais dos bakongo, que remontam ao século 17, segundo gravuras de padres capuchinhos que as presenciaram)

Estas “embaixadas” mais modernas, do século 19, tinham como enredo um conflito descrito no livreto “Carlos Magno e os doze pares de França”, enredo clássico de muitas congadas mineiras do passado, por influência católica ou mesmo, quem sabe, o outro enredo, mais clássico ainda das lutas da Rainha Jinga contra os portugueses o século 17 que certa vez presenciei numa forma de reisado do Rio Grande do Norte denominado “Reis do Congo”.

Destaque principal para o orgulhoso e posudo “capitão do terno” (grupo) sem esquecer das violas ou violões e dos enormes adufes (tambores quadrados) que podem indicar origens africanas bem remotas…ou não (adufes assim eram muito comuns em Portugal)

Spirito Santo
Abril 2014

E os interessantes comentários do post no facebook:

 

 

  • Que lindo!!!!
  • Warney Smith BarcelosemCampinas é a padroeira
  • Warney Smith Barcelosque foi “centro da escravaria”
  • Ana Maria BahianaSobre ” embaixadas”: toda a coreografia e movimentação dos Ïndians” de Nova Orleãs se centra exatamente no conceito de embaixada. Uma “tribo”visita/ se choca com outra e aí segue-se um elaborado ritual de desafios, bravatas, danças com gestos bélicos, para no fim tudo se resolver num “acordo”entre os dois Big Chiefs. Tudo lindo. O mundo é pequeno.
  • Salloma Jovino SalomãoEu sou Spirito Sanctus e carne preta. Parabens.
  • Spirito SantoAna Maria Bahiana, Pequeno nada! Deve a mesma origem, provavelmente. É que o tema é muito vasto, mas esta prática de “embaixadas”era muito antiga entre os bakongos, talvez bem antes de os portugueses chegarem. Grosso modo, tudo que os africanos desta região faziam (Angola, mas em outras áreas, como o Benin, por exemplo) era ritualizado com música específica, dança ou teatro, como neste caso. Todo soba ou rei tinha um séquito de artistas para esta função. Surgia uma demanda entre grupos, portugueses inclusive, antes de partir para a guerra, o soba manda um grupo assim parlamentar. Era a arte ritualizando tudo.

    Mario de Andrade foi genial forjando o conceito (nem sei se foi ele mesmo) “Danças Dramáticas”

  • Ana Maria BahianaA questão então, titio, é ver de onde na África veio o povo que construiu e fundou Nova Orleãs… A presença do Caribe , especialmente do Haiti, é forte mas é posterior à raiz mais antiga da população africana no delta do Mississipi.
  • Ana Maria Bahianavai vendo, titio (pra incrementar a congada..)

    Foto de Ana Maria Bahiana.
  • Salloma Jovino SalomãoTalvez as memórias dos corpos sejam mais longas que aquelas da expressões políticas?
  • Ana Maria BahianaOpa! Essa daqui tá em plena ação, no meio dos desafios:

    Foto de Ana Maria Bahiana.
  • Spirito SantoAna Maria Bahiana,

    Nunca estudei esta área aí não, mas a história da diáspora africana é a história do tráfico de escravos. O fluxo de gente da área Congo-Angola começa logo no início, século 15 e segue majoritária desde então.

    Esta população do Delta do Mississipi, veio de muitas regiões, colônias inglesas no norte da África, mas com certeza uma massa enorme veio da África central.

    Certa vez li por alto uma pequisadora norte americana que desenvolveu tese a respeito desta predominância congo-angola na escravidão daí.

    Sem se falar que esta mesma origem angolana, está imiscuída na cultura do Haiti, junto com a forte influência do Benin.

  • Salloma Jovino SalomãoOla Spirito, são pequenos tambores (adufes?) retangulares como os dos Agudás?
  • Spirito SantoSalloma, Exato! O que quero dizer é que adufes (tambores quadrangulares de corpo curto, quase só um bastidor) são instrumentos tipicamente árabes.

    São muito presentes na cultura ibérica (Espanha e Portugal) por causa das Cruzadas e vieram para as AméVer mais

  • Spirito SantoAna Maria, Que incríveis estas fotos e a semelhança.
  • Ana Maria BahianaPor isso é que essa cultura dos Indians me fascina, titio. Da primeira vez que vi pirei de batatas. Imediatamente vi os paralelos com a cultura africana no Brasil.
  • Ana Maria BahianaE olha essa turma aí no começo do século 20, titio. Um detalhe importante: havia escravidão na Louisianna, mas não em Nova Orleãs, que era uma colônia a parte dentro da região ocupada pelos franceses. A população negra de NO sempre foi constituida de pessoas livres.

    Foto de Ana Maria Bahiana.

 

 

———

A foto:

Grupo de pessoas na festa de congado de Nossa Senhora do Rosário, Uberaba (MG)
Foto de José Severino Soares (premiado com a medalha de menção honrosa na exposição nacional de 1875- Brasil.) 1889 – Fonte Arquivo Público Mineiro

(Cortesia do amigo pesquisador Daniel Jorge Jorge Marques Filho)

Abram alas pro Morro. Na Favela da OI o morro não tem vez

•13/04/2014 • Deixe um comentário

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favela da OI 3

Que queime no inferno este governo energúmeno!

A questão da desocupação truculenta da favela da OI (prédios abandonados da ex-Telerj, no Engenho Novo, Rio de Janeiro) vai custar caro aos governos Federal, Estadual e da Prefeitura. Quem mandou serem, além de corruptos e irresponsáveis…estúpidos?

A cidade do Rio de Janeiro –  já estou troncho de dizer isto por aí – é uma favelópole, um enorme conjunto de complexos de favelas, nas contas oficiais de 2010 cerca de 1.200 delas aglomeradas em blocos espalhados de norte a sul. Pelas evidências mais lógicas, num cálculo modesto seriam em média cerca de 5.000 pessoas por favela (uso como base o Complexo da Maré, com 130.000 habitantes divididos em 15 favelas, ou seja: incríveis 8.666 pessoas por favela!)

Os beócios, aprendizes de fascistas, não mediram a dimensão do problema que 5.000, 10.000 pessoas desesperadas podem trazer. Qualquer imbecil com uma calculadora destas de camelô pode entender a questão. É um problema elementar da física ginasial: Se dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço, quanto mais 10.000.

Calculei bem por baixo então, viram? Pois, façam as contas vocês mesmos.

1.200 favelas vezes 5.000 pessoas =  6.000.000 de almas! Quase TODA a população oficial da cidade que em 2013 era da ordem de 6.430.000 habitantes.

(Eu sei. Há problemas nesta estatística. Falta muita gente nesta conta. Provavelmente milhares, milhões de favelados não estão sendo computados pelo hoje um tanto aparelhado e cooptado IBGE)

De qualquer modo é mais ou menos óbvio – visível a olho nu até – que todo o espaço ocioso da cidade sem proprietários definidos, morros, várzeas, terrenos baldios, alagadiços, já foram ocupados por favelas. Eu mesmo posso lhes afiançar que as favelas tradicionais (as 1.200 citadas, concentradas nas zonas norte e sul) estão consumindo os bairros convencionais pelas bordas, como um câncer virulento que se alastra, inexoravelmente, sem cura. Ocorreu isto no meu bairro, já na zona oeste. Ocorre em muitos outros bairros cidade afora.

Mentiram, descaradamente com o lenga lenga eleitoreiro, cínico, cruel dos “bolsas famílias“, do “minha casa minha vida“, do “Brasil carinhoso“, lançaram na imprensa índices falsos, maquiados nas taxas de inflação e emprego e muitas outras putarias populistas. Queriam o quê? O que estavam esperando?

favela da OI 2Entendam. Não é nada difícil de compreender, pois é uma lei, uma cláusula pétrea da natureza: Um ser humano necessita, como condição sine qua non, de abrigo do tempo (um teto, como se diz) e comida. Já nem falo das demais necessidades acessórias, tão básicas quanto as outras (escola, saúde, vestuário, etc,)

Como não vivemos na selva, teto e comida envolvem, é claro, a necessidade de se ter um emprego, uma ocupação qualquer que seja, uma fonte de renda elementar que cobrirá estas necessidades de qualquer miserável existência – morar e comer –  indispensáveis para que um pobre diabo – assim como um cachorro, um gato ou um reles rato – sobreviva.

É instintivo: Na falta absoluta de acesso à recursos para viver, faremos, rigorosamente TUDO para sobreviver, até mesmo matar, roubar, tudo! E estaremos sempre cobertos de razão por que o instinto de sobrevivência, como se sabe é uma lei da natureza.

O que você faria sem um emprego? Isto te privaria obviamente de ter teto e comida. Moraria ao ar livre, debaixo de uma ponte? Comeria biscoitos de barro como os mais pobres comem no Haiti? Algumas pessoas, algumas poucas, efetivamente fazem isto, comem lixo, vivem em vãos de esgoto, mas não é viável esta solução para milhões.

Era bastante previsível, portanto que, sem emprego e neste desespero extremo, estes milhões de pessoas largadas ao Deus dará, se envolveriam em qualquer atividade que pudesse lhes render algo para comer e morar. Biscates, venda de sucata, de coisas recicláveis, até prostituição, assaltos, roubos, tráfico de drogas, o cacete. Vale tudo quando a outra alternativa é morrer de fome.

Vi ontem mesmo pessoas que ocupavam a  favela da Oi canibalizando veículos incendiados para arrancar material para vender em ferro-velhos. É enorme a quantidade de pessoas que vejo pelas ruas, famílias ás vezes, geralmente mulheres com seus filhos e filhas adolescentes, catando latas de alumínio e garrafas pet para comprar comida, algo para matar a fome insuportável á noite.

Me lembro muito bem que na minha adolescência, pessoas assim desvalidas de tudo eram raras por aqui. Elas saíam por aí pedindo na porta dos menos miseráveis “um prato de comida, por favor“.

Hoje há até prostituição juvenil – feminina, principalmente –  em favelas. É uma prostituição abjeta. Mocinhas magrelas e sem quadril ainda, mal saídas da puberdade ganhando migalhas para fazer “boquete” (sexo oral) em homens sexagenários ou se envolvendo com mulheres homossexuais, de meia idade tidas como “maridos” que as sustentam.

favela da OIGera-se assim um sistema social paralelo, marginal, com regras e leis próprias (inclusive uma economia autônoma) em total desacordo com as regras de convivência social mais convencionais.

Este sistema social marginal ou alternativo (sempre no campo da obviedade, da previsibilidade) até pela proximidade física mesmo, é claro que acabaria contaminando a cidade “normal“, competindo com ela, corrompendo, corroendo suas bases morais, éticas, etc. rumo á barbárie.

(A cumplicidade clássica entre polícia e traficantes no Rio de Janeiro, as estruturas da corrupção comezinha, generalizada no dia a dia, o contrabando desenfreado que alimenta o mercado das feirinhas de favelas, capitalizado com o dinheiro do tráfico de drogas, tudo isto é sintoma da decadência incontrolável da metrópole antes dita “maravilhosa” frente às suas mazelas postergadas.)

É ululante a obviedade. Era altamente previsível que, esgotados os espaços urbanos ociosos da cidade e da periferia, as pessoas passariam a invadir imóveis abandonados nos subúrbios. Isto já ocorria em São Paulo. Aqui já invadiram os prédios da OI (Telerj) na Zona Norte. Logo começarão a invadir, se existirem, imóveis abandonados na Zona Sul.

Escorraçadas destas ocupações, logo logo, por falta de alternativas, estas pessoas vão acampar pelas praças e ruas. O que a Prefeitura fará? Campos de Concentração para o excedente de pobres? Não existem abrigos para tanta gente.

Tempo esgotado.

Á Prefeitura não cabe mais esperar. É urgente encarar de frente e com inteligência o problema (haverá inteligência?), convocando os governos estadual e federal para que se manquem, dada a gravidade absoluta da situação, muito semelhante a uma concentração explosiva de refugiados de guerra num país africano, ou a um Haiti destes aí.

Ora, o Estado brasileiro do “Oiapoque ao Chuí” como se dizia antigamente, ignora, solenemente, desde sempre as necessidades mínimas de sobrevivência de milhões e milhões de seres largados ao Deus dará. É esta a lógica burra do Sistema pré capitalista que inventamos após a Abolição da Escravatura: Governar o Brasil grande para o usufruto de poucos (os brancos) e deixar para resto (os negros, os índios, os “não-brancos” enfim) o destino deplorável de se virar nas malhas da desilusão, tendo a morte como único destino, líquido e certo.

É tão óbvia esta necessidade, este direito das pessoas à vida, que está prevista até na nossa constituição – e a rigor na constituição de qualquer nação civilizada. É obrigação do Estado prover seu povo deste direito elementar á vida. Estado literalmente criminoso, portanto, este nosso, pois, além de não cumprir com a mais fundamental de suas obrigações, chega ao cúmulo de reprimir à bala as pessoas, cidadãs do país, por elas estarem apenas, desesperadamente tentando sobreviver.

Queriam o quê? Um povo ordeiro e pacífico, desalojando barracos com o rabo humilhado entre as pernas, diante de um oficial de justiça com um megafone gritando para a multidão, a escorraçando:

_”Rua! Rua! Ponham-se daqui pra fora, seus marginais!”

E agora? Chegou o fundo do poço, a gota d’água para milhares, talvez milhões de pessoas na cidade do Rio de Janeiro.

Investir em medidas de coerção, contenção e repressão policial ou militar, como já disse e tantos repetem por aí, é lançar gasolina na fogueira, suprema estupidez desta elite de merda e seus jagunços fardados, acuada atrás das grades de seus condomínios por culpa exclusiva de sua extrema e inacreditável iniquidade, seu egoísmo colonial.

Pronto. E agora? Na prática já temos um Estado enveredando para um modelo fascista.

Tropas do Exército brasileiro mataram ontem o primeiro cidadão…brasileiro. O paradigma da defesa da pátria contra seus inimigos externos, a qualquer custo, ontem foi quebrado. O povo subversivo é o inimigo da vez. Eu, você, qualquer um podemos ser mortos a tiros por um soldadinho do Exército, como ocorre numa ditadura militar.

É que a era do povo idiota e enganado eterno custou a acabar, mas acabou. Não por causa de nenhuma evolução ideológica. Foi porque a miséria atingiu níveis animalescos, intoleráveis, sabidamente sem nenhuma necessidade econômica, estrutural que os justifiquem. A resposta natural á ignorância estatal só poderia ser o apelo à barbárie, ao foda-se, ao vai tomar no cu, ao vai para o caralho.

Estado filho da puta!

Favelizando, roendo os bairros convencionais pelas beiradas, o morro enfim desceu. Os desvalidos logo saquearão mais supermercados. A desordem, o caos e a violência urbana só cessarão quando um forte investimento nacional em políticas de habitação e emprego for, efetivamente realizado.

Surdos à realidade, preferiam realizar um enorme esforço financeiro nacional para realizar uma medíocre Copa do Mundo, certo?  E agora? Vão acantonar os pobres excedentes em estádios de futebol?

Podem me prender, podem me bater que eu não mudo de opinião.

Prendam e arrebentem Deus, prendam e arrebentem a Natureza. São eles que estão mandando, insuflando:

_”Queimem, quebrem tudo! Fogo no rabo dos pulhas!

Esta é a única linguagem que os governos neo liberais energúmenos de hoje em dia entendem.

_”Queimem a porra toda! “

(…Mas olhem bem vocês: Quando derem vez ao morro, toda a cidade vai cantar.)

Spirito Santo
Abril 2014

(Vejam este vídeo)

O não silêncio adesista e constrangedor de Cacá Diegues

•06/04/2014 • Deixe um comentário

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“…Oposicionistas não percebem que as UPPs são uma política de Estado, e não de governo…”

(Os adesistas e governistas percebem, claro.)

Começa assim o longo sofisma do artigo do cineasta (abra o link) publicado ontem em O Globo. Cacá Diegues deve saber – claro que sabe! – que a simbiose entre bandidos e policiais no Rio de Janeiro – ou no Brasil – não é individualizada, mas sistêmica, estratégica.

A conivência da parte da polícia e de autoridades com o tráfico de drogas (a instituição) é representada pelas invisíveis relações estabelecidas entre chefões supremos do negócio do tráfico (aqueles acima, muito acima dos chefinhos ou “gerentes” acastelados nas favelas protegendo paióis) e comandantes de batalhões da PM, chefes de polícia e as tais altas autoridades governamentais mestras de todas as corrupções.

Logo, omitindo o caráter macro da corrupção de um sistema que tolera como cúmplice – o comércio da droga e a corrupção governista propriamente dita – Cacá  Diegues induz os leitores a uma avaliação totalmente equivocada do problema.

Ora, é completamente impertinente a comparação que o cineasta faz entre o agente do Estado, o torturador Paulo Malhães, assassino confesso de dezenas de militantes de esquerda, com o pé de chinelo psicopata Elias Maluco, a serviço de si mesmo. Quem quis entender sabe muito bem que Tim Lopes morreu por culpa da Rede Globo, que fazendo vista grossa, permitiu que ele se envolvesse, pessoalmente na obtenção de notícias que, eventualmente serviriam á polícia.

Do ponto de vista de Elias Maluco e seu bando, Tim se colocou então como um agente, um espião a serviço do Estado e foi flagrado, considerado um “X9″, alcaguete da polícia infiltrado na favela. Por isto foi assassinado.

Elias Maluco está preso numa penitenciária de segurança máxima. Paulo Malhães, criminoso a serviço do Estado, está leve, livre e solto, protegido por seus pares e pelo Sistema, totalmente impune, cinicamente descrevendo seus crimes por aí em audiências públicas, num escárnio só.

…”Mas a ditadura é o passado e os traficantes são o presente…”

Como pode, que direito tem um intelectual do prestígio, do nível suposto de Cacá Diegues de proferir sofismas tão toscos? Ou bem reduz o perfil trágico e as consequências indeléveis da Ditadura Militar ou exagera a importância dos bandos de traficantes pés de chinelo.

Ambas as assertivas colocadas por ele são falsas. A pergunta que salta aos olhos é: Com que finalidade Cacá Diegues distorce tanto assim uma realidade tão evidente que, com toda certeza conhece muito bem? Acho estranho demais este intrincado esforço intelectual do cineasta nivelando torturadores do Estado com traficantes fuleiros e pés rapados. Tudo muito questionável e suspeito.

Uma argumentação insidiosa, difícil de ser engolida.

O Brasil está mergulhado na lógica de um Regime, de um Estado corrupto, no qual o tráfico de drogas é um elemento financeiro chave, estruturante. Entre os investimentos que se pode fazer com dinheiro sujo, fruto da corrupção, as drogas são, provavelmente o mais rendoso. O sistema finge, mas não quer, de modo algum acabar com o mercado da droga. Quer “reformá-lo”, “modernizá-lo”, “profissionalizá-lo”, digamos assim.

Não é por outra razão que os órgãos de segurança minimizam ou fingem que não sabem da explosiva proliferação de milícias armadas na Zona Oeste da cidade. Observem bem que, com ou sem UPPs, com ou sem milícias o mercado de drogas no Rio de Janeiro nunca foi descontinuado e funciona de vento em popa.

“…Não posso compreender o silêncio, em relação às UPPs, dos candidatos a cargos eletivos no Rio de Janeiro…”

Vai ficando mais estranha ainda a argumentação. Como Cacá Diegues. “não pode compreender o silêncio em relação ás UPPs”? Não há silêncio algum! De onde ele tirou isto? Omite com desfaçatez toda a corrente de críticas veementes contra o projeto das UPPs, vindas inclusive da imprensa internacional.

Ao contrário, há um grito insistente CONTRA os descaminhos violentos do programa, a truculência incontrolável da PM, a ausência de serviços públicos e a recorrência de medidas, exclusivamente repressivas, voltadas apenas – quem não sabe? – para conter e reprimir a revoltada população das comunidades faveladas em época de grandes eventos turístico esportivos.

Os únicos interessados em propagar e defender o programa das UPPs são o governo federal do PT, o PMDB, o ex governador Sergio Cabral e seus asseclas. Lógico! Os adeptos fervorosos das UPPs são aqueles que usufruem ou usufruirão dos lucros – a maioria escusos, corruptos – dos eventos. Evidente! Os outros, candidatos de oposição ou cidadãos comuns são contra. Porque deveriam ser a favor?

Estes não estão calados nem omissos, estão em desacordo com a política, na defesa de seus próprios interesses, quiçá voltados para a chance de roubar também, vá lá que seja, mas jamais em silêncio. O que o cineasta deseja ou estaria sugerindo? Que todos devemos apoiar incondicionalmente as UPPs?

É fácil constatar que as UPPs e a política de segurança pública que as justificam, na prática são muito providenciais para a população classe média da Zona Sul do Rio. As UPPs isolam e controlam os guetos, criando um cinturão de defesa, num higienismo social, aliás, bem deplorável.

É compreensível, portanto que haja anuência neste extrato de nossa população branca e “gente fina“, egoísta, esnobe, em pânico com o aumento exponencial da violência popular  (como a classe média de 1964 estava em pânico com os “comunistas“), mas isto é um comportamento típico de reacionários, direitistas clássicos. Não é um comportamento aceitável para indivíduos que se afirmam progressistas e “de esquerda”.

Porque esta defesa extremada do cineasta de um programa tão controverso? Parece propaganda eleitoral, não é não?

“…Apesar das lambanças privadas e consequentes constrangimentos públicos, a gestão de Sérgio Cabral foi uma das melhores na história do estado…”

Pronto. Acabei de falar: Cacá assume aqui, claramente seu apoio a Sergio Cabral Filho, um político execrado por tantos, suspeito de falcatruas de alto porte, alvo de violentas manifestações populares contra seus desmandos e ações suspeitas, único governante da nossa história recente que teve a residência sitiada aos gritos de “Fora!

“…As UPPs, por exemplo, não são uma panaceia. Elas são apenas uma porta que se abre para que o Estado entre nas comunidades…”

Acho de um cinismo deslavado de Cacá chamar as UPPs de “porta que se abre para que o Estado entre nas comunidades”. Todos, mesmo os mais ingênuos já sabem que “saúde, educação, saneamento, cultura, diversão”, tudo isto “que ainda falta” nestas comunidades jamais virá por este caminho. A política das UPPs por ser optativa, claramente exclui a possibilidade de outras políticas serem implementadas. Reprimir e conter é mais prático…e bem mais barato.

Constrangedor. Me envergonho com estes artifícios usados por esta torpe “esquerda” do Brasil, esta trupe de intelectuais adesistas, humanistas de fancaria. Que acanalhamento inesperado! Quanta hipocrisia!

“…Eu também quero saber onde está Amarildo…”

A parte mais deprimente de toda a fala do cineasta é esta tentativa tosca de subestimar, minimizar incidentes dantescos – e recorrentes – como a tortura e morte de Amarildo de Souza e o assassinado covarde e bárbaro de Claudia Silva Ferreira, como se fossem apenas uma espécie de efeito colateral, fatos esporádicos, episódicos quando são na verdade – e as inúmeras rebeliões contra as UPPs por parte da população favelada são veementes neste sentido – eventos paradigmáticos, exemplares do quanto esta política de segurança pública é deletéria e equivocada.

“…Muitos PMs têm morrido atuando nas UPPs, todos com menos de 30 anos de idade…”

Esta parte da argumentação do cineasta, infelizmente se assemelha muito com o discurso dos defensores do golpe militar, da ditadura e de seus carrascos – como Paulo Malhães, por exemplo – exigindo a condenação dos crimes cometidos por militantes de esquerda, quando todos sabemos que a maioria das mortes de agentes da ditadura por parte de militantes de esquerda foi episódica e, geralmente em combate, nunca se comparando à covardia inominável dos agentes da ditadura, a serviço do Exército, da Polícia, do Estado, torturando até a morte centenas de presos indefesos e executando prisioneiros, não menos indefesos como se fez com os brancaleônicos guerrilheiros da selva do Araguaia.

Embora lamentáveis sim, as mortes de PMs nas UPPs são em número irrisório diante dos massacres cometidos contra centenas de bandidos traficantes – geralmente negros magrelos e adolescentes – muitos apenas suspeitos, supostos meliantes, defendidos pelas famílias, sinceramente ofendidas em sua moral nunca desagravada.

São sim memoráveis, tanto quanto revoltantes as sanguinolentas cenas exibidas nos jornais populares de pilhas de cadáveres de jovens, trucidados, abatidos a tiros, pelas costas, do alto de helicópteros como ratos desprezíveis em becos de favelas.

Me espanto com a frieza com que estas mortes são assimiladas, ignoradas por esta “esquerda” sórdida, como se fossem ovos quebrados de um omelete macabro. Como comparar assassinatos em massa com a morte em serviço de uns poucos PMs diante de quadros de verdadeiro genocídio como estes que ocorrem nas favelas?

“…Como é possível ficar em silêncio, insensível a isso tudo, só porque os candidatos são hábeis e espertos, precisam do voto de eventual oposição?..”

Preciso ser franco: Não acredito mais, absolutamente na sinceridade ideológica de intelectuais como Cacá Diegues nesta extremada defesa das UPPs e do governo do trânsfuga Sergio Cabral Filho. O que o cineasta diz não faz sentido e seus argumentos, como disse acima, são sofismáticos, ardilosos, omitindo cuidadosamente elementos fundamentais do problema – como esta farsesca e desmedida ocupação do Complexo da Maré pelas Forças Armadas – simplificando grosseiramente fatores cruciais de um debate que apenas começou.

É preocupante como vai se tornando comum no Brasil a propagação de ideias e discursos cínicos como este, por parte de gente que se diz “de esquerda“, justificando a manutenção do status quo como meros reacionários pequeno burgueses do século passado. Um gosto estranho daquele adesismo canalha, muito semelhante ao papo alarmista da oportunista classe média de 1964, abrindo caminho para uma ditadura de direita que durou mais de 20 anos.

Não ouso especular quais são os interesses que podem estar por trás de discursos falsamente ambíguos como este de Cacá Diegues. Apenas declaro que só interesses ocultos – quiçá escusos, oportunistas quem sabe – podem explicar a defesa de políticas e práticas governistas, políticas e partidárias tão evidentemente execráveis.

Sem tirar nem por é como se em 1964 o CPC da UNE, os jovens cineastas do Cinema Novo - movimento do qual Cacá foi destacado precursor – tivessem aderido ao golpe militar, “com a Família, com Deus e pela liberdade”.

Na dúvida, Cacá Diegues entra assim na minha lista dos defensores de interesses que, absolutamente não são os meus, nem – presumo -  da maioria de nós.

Assim de relance, vendo as notícias sobre a saída de Sergio Cabral do governo anteontem, dando lugar ao seu candidato, o enigmático  e indecifrável ainda “Pezão” (Cabral tentará se eleger para o Senado), fiquei desconfiado da providencial publicação deste artigo do cineasta justamente ontem.

Seria a deflagração de uma campanha disfarçada? Uma declaração de apoio implícito, subliminar, exigida por conta de compromissos ou interesses, acordos passados ou promessas negociadas? Vai saber.

Época revoltante esta nossa, de tantas máscaras caindo e tanta gente que se declara ainda solidário humanista mostrando a verdadeira face de direitistas, fascistas de ocasião.

(São apenas desconfianças de um velho cabreiro, cansado de ser enganado, mas as vezes esta minha geração me envergonha por demais. Ô raça!)

Spirito Santo

Março 2914

http://oglobo.globo.com/opiniao/um-silencio-constrangedor-12099164

O Orgulho amargo da pitonisa

•05/04/2014 • Deixe um comentário

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Brasil haiti duplo

1-Toussaint L’Overture, líder da revolução haitiana no século 18. 2- Lula da Silva e Renèe Preval, presidente do Haiti no século 21

 Luiz Ignacio hoje e Henry Christoffe ontem:

Que o o Haiti nunca seja aqui.

(O presente artigo enviado para publicação no jornal on line ‘Observatório da Imprensa’ em meados de 2005, no auge da crise do mensalão foi ‘derrubado’ pelo editor-chefe ou seja, considerado irrelevante ou inoportuno para a pauta daquela edição)

Em 05 de março de 2003, ainda no embalo da euforia generalizada que se abateu sobre a população brasileira com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, escrevi, como colaborador do OI, um artigo o qual, de forma um tanto impertinente talvez, intitulei “ Lula-lá- A classe média enfim vai ao paraíso”, A impertinência do título, por alguma razão editorial, não sobreviveu ao crivo do jornal e o artigo acabou sendo publicado mesmo sob um título menos enfático – ou mais politicamente correto para a época- : “Governo Lula –A mídia viu e fingiu não ver” [1]

Haviam contudo, muitas outras impertinências na primeira versão do texto original daquele artigo, do qual, usando o meu próprio e sensato crivo, sugeri para publicação apenas uma versão abrandada[2], que tinha uma relação mais direta com o comportamento estranhamente adesista da mídia– mais precisamente da imprensa brasileira – ás propostas visivelmente difusas e mal alinhavadas de um governo eleito no bojo de um fenômeno político eleitoral ainda mal explicado, além de ligado, demasiadamente talvez, á força da propaganda, do marketing, do poder avassalador da mídia.

Hoje, relendo o referido artigo, mais ainda, comparando-o com o auto censurado artigo original, só posso definir o que sinto, como uma espécie de orgulho amargo por ter sido uns daqueles poucos que, já naquela primeira hora, teve a petulância de exprimir impressões pessimistas, com relação ao obscuro destino de um governo apenas recém eleito.

É também de cabo de guarda chuva o gosto da surpresa com a quase absoluta propriedade da maioria de minhas considerações na época. Fica até valendo a pergunta: Como foi possível a um observador leigo, um não jornalista, portanto, acertar tanto em suas meras suposições, quase pressentimentos? Não seria por que a cobertura da candidatura e da eleição de Lula, por parte da imprensa, foi tão condescendente, tão superficial que acabou funcionando mesmo como mera propaganda?

O artigo em sua época: 2005:

“A renovação da atração popular por símbolos políticos de natureza midiática, ocorrida logo após a ditadura, talvez tenha sido reforçada no imaginário dos brasileiros pela saturação da ideologização estéril ocorrida no processo da campanha pelas Diretas Já, logo seguida pela frustração e a ressaca que sobreveio com a morte de Tancredo Neves e a chegada do tsunami inflacionário que marcou a chamada era Sarney. O certo é que foi mais ou menos por aí que surgiram, como faces de uma mesma moeda, os produtos midiáticos Fernando Collor de Melo e Luiz Ignácio Lula da Silva.

Aliás, na inevitável comparação entre estes dois espetaculares fenômenos eleitorais, ambos amparados quase que totalmente na mídia e na propaganda, chama a atenção a contradição absoluta existente entre o perfil dos personagens-produtos, entre os quais, de semelhante, existe apenas o bom talho dos ternos, a embalagem, o lado fashion, tipo Armani.

Em Fernando Collor o modêlo assumido para vender o produto foi o perfil do jovem galã holywoodiano, descaradamente copiado dos presidentes norte americanos (Kennedy e Clinton, principalmente), um símbolo ridículo, porém, caro ao nosso ingênuo eleitorado urbano, principalmente feminino (pelo menos segundo afirmavam as pesquisas de opinião da época.

Pouco importava o suposto passado de Fernando como Bad boy de Brasília, de algum modo ligado, segundo se dizia, ao rumoroso caso Araceli, de triste memória[3]. A propaganda e a mídia importou apenas facilitar a eleição do príncipe, quando ele se revelou um reles sapo, já era tarde e deu no que deu.

Em Luiz Ingácio Lula da Silva, talvez por conta da imagem de propaganda enganosa indelevelmente colada no perfil do produto anterior, o modelo para o merchandising foi radicalmente alterado, passando a ser o sindicalista baixinho e barrigudo, iletrado e popular.

Era sintomático também o fato de o PT, partido escalado para ser ungido com o poder, ter deixado espertamente de propagandear quase todas as suas históricas propostas de esquerda, mantendo no ar apenas as de maior apelo emocional, tais como a estrela vermelha, a “mulher negra e favelada” e o “mutilado operário nordestino“, herói improvável de uma conservadora nação.

Uma contradição assaz evidente para um bom observador instalava-se aí, para quem quisesse ver. Afinal o que teria havido, na fase do “Lulinha paz e amor”, com a antiga perspicácia de nossa valorosa imprensa livre, efusivamente expressa nos episódios, não menos a eletrizantes, do impedimento do bon vivant Fernando Collor?

Teria sido nossa imprensa conivente, omissa durante o processo de montagem e manutenção desta complexa máquina de corrupção desvendada agora, e sobre a qual a imprensa internacional já lançou apecha de maior escândalo político eleitoral da história?

O que teria feito esta eventual conivência da mídia subitamente se esgotar, lançando a lama de Lula no ventilador? Tardios arroubos de ética jornalística ou mero reflexo da impaciência, da frustração dos formadores de opinião – consumidores preferenciais das notícias pagas – com os resultados pífios de um governo que, prometendo levar a classe média enfim ao paraíso acaba é mesmo, exatamente como o outro, saqueando os cofres da nação?

É curiosa a constatação de que, este tipo de adesismo oportunista, este comportamento às vezes irresponsável de nossa imprensa – e dos extratos médios da população aos quais esta parece representar – esteve sempre presente como cúmplice ou co-responsável por nossas mais dramáticas crises institucionais. A mesma mão que afaga é aquela que apedreja, dizia o poeta.

Quem não se lembra da campanha jornalística contra o “Mar de lama”, estrelada, entre outros, pelo jornalista Carlos Lacerda, que teve como culminância o suicídio de Vargas, o “Pai dos Pobres“, até agora o mais trágico desfecho de nossas recorrentes crises institucionais.

E a alarmista campanha de marchas d’ “A Família com Deus pela Liberdade” marcada por milhares de velas acesas nas janelas dos apartamentos da orla do Rio, passeatas chics de contritas madames do lar, marchando contra o perigo comunista que ameaçava se apossar solertemente de nossas instituições?

Talvez a mais hipócrita das justificativas para a deposição de Jango, esta campanha essencialmente midiática (segundo padrões da época), ajudou decisivamente a empurrar o Brasil para o longo mergulho na mais triste e obscura ditadura de nossa história.

Com medo de perder os anéis numa radical distribuição de renda supostamente socialista, jogou-se o Brasil numa radical concentração de renda supostamente capitalista.

Mais do que ontem, com certeza, cabe-nos prestar, portanto bastante atenção à natureza, geralmente, oportunista, deste tipo de campanha de opinião, nestes tempos de muito marketing e pouca ética. Nestes casos, está provado que, quase sempre, nos vendem gato por lebre.

A cineasta Lúcia Murat em carta ao jornal O Globo e mais ou menos na mesma linha de raciocínio do nosso artigo de março de 2003, afirma enfática que todos vimos o fausto da campanha de Lula sem nada opinar a respeito.

Na verdade e infelizmente, podemos constatar hoje em dia que havia na época da eleição de Lula muitas outras coisas vistas e sabidas por nossos briosos intelectuais e formadores de opinião – massa crítica seminal do PT vitorioso- talvez omitidas e esquecidas, em nome de um pragmatismo eleitoreiro que, mais ou menos como a casca do ovo da serpente citado pelo sociólogo Francisco de Oliveira, num pertinente artigo publicado na época, ajudou decisivamente na gestação deste gigantesco e monstruoso polvo da corrupção petista.

Os supostos culpados por esta grave crise político institucional que é, parafraseando o presidente, “jamais vista em toda a história republicana” deste país, já estão sendo perfilados para o fuzilamento moral.

Os mais bem talhados para o papel de bodes expiatórios, voluntários  – como Marcos Valério e Duda Mendonça – ou compulsórios – como José Genoíno, Delúbio Soares e Sílvio Pereira- já foram para o abate. Depois de tentarem por várias artimanhas e chicanas jurídicas escapar da fila de espera, Zé Dirceu, Roberto Jefferson danaram-se. De pé ainda, blindado, como se diz, por uma intrincada rede de rabos presos e acordos escusos, indeciso diante de uma candidatura que pode micar, o suposto capo da crise: ele, o “Lulinha paz e amor”.

(Ressalvando que o parágrafo anterior, como todos narra o contexto da época antes da segunda eleição ganha afinal por Lula – nota minha – 2014)

É provável, no entanto que o paredão moral precise ser muito mais extenso do que se imagina. Talvez estejamos mesmo todos, de algum modo, com os pés atolados no lamaçal desta crise, irresponsáveis que temos sido, desde que, portugueses, negros e índios, fomos nos acanalhando em meio ás espúrias relações havidas entre escravos e senhores, mantendo por além da conta as nossas imorais maneiras de ser, levando vantagem em tudo – na hoje quase pudica Lei de Gerson – equilibristas sociais a ser, ao mesmo tempo, heróicos paladinos da democracia em palcos, praças, redações, estúdios e câmaras parlamentares, enquanto nos mantemos, no recôndito de nossos lares como doutores de Land Rover ou madames do lar, omissos e sisudos patrões de mucamas modernas, horistas, diaristas, folguistas, pedreiros e motoristas, gastando mais com cães de raça, do que com seres humanos.

Assim, como reza a nova “lei de Jefferson“, atire a primeira pedra quem, ao eleger lula, não sonhou, mesmo modestamente, com algum tipo de vantagem social imoral, algum tipo de mensalão inconfessável.

Até mesmo ele que, pairando acima de todos, como um fantasma de si mesmo, é aquele em nome de quem todo o mal foi feito: Luiz Ignácio, o representante do povo, suposta vítima desta impagável tragédia.

O escritor Aimè Cesárie (na peça teatral “A tragédia de Henri Christoffe”) e o cineasta Gilo Petecorvo (no filme “Queimada”), cada um a seu modo, nos contaram um incidente histórico muito significativo, emblemático até, para quem quer se aprofundar nos conteúdos sociológicos desta crise brasileira.

As histórias, ambientadas ali por volta do século 18, contam os detalhes da inusitada ascensão ao poder no Haiti de um grupo de líderes de uma vitoriosa rebelião de escravos africanos, após um longo e sangrento processo de guerrilhas no qual, com a expulsão do colonizador francês, se instalou um estado negro independente, comandado, entre outros, por Toussaint L’Overture (o líder máximo, logo assassinado) e Henri Christoffe (um dos desafortunados sucessores) em pleno auge da era colonialista.

A princípio tolerados pela aristocracia mulâtre (mulata, mestiça), por força de precários acordos e alianças (imperativo da governabilidade), a frágil estabilidade institucional foi sendo rapidamente consumida, sabotada de fora pelas potências colonialistas (para as quais a existência de uma república independente, governada por escravos era intolerável) e, de dentro, por uma emergente classe média, antiga aristocracia (para quem um governo popular independente, era do mesmo modo inaceitável).

Num rápido processo de desestabilização com uma sórdida crônica de maquinações, corrupção, chantagens e traições, a recomposta aristocracia mulâtre mata, corrompe ou coopta os líderes escravos até que, a caricata república escrava se transforme na série de estúpidas ditaduras que culminaram no miserável país-favela que é o Haiti atual.

O triste fim de Henri Christoffe (o líder corrupto) isolado no fausto de seu palácio tropicalista, cercado de inimigos, miséria e violência por todos os lados, é uma imagem por demais evocativa – simbólica, é claro- de nossa crise atual. Seria a história se repetindo (como farsa, é claro, até porque Lula não é um negão ).

É como um aviso piscando ao longe, voltado para os que nos sucederem:

“Que o Haiti nunca seja aqui! Que o Haiti nunca seja aqui! Que o Haiti nunca seja aqui! “

(Eu, Spirito Santo, em 2005 ainda me assinando com o nome civil):

Antônio José do Espírito Santo / Músico e pesquisador

————-

Notas:

[1] A data de 05 de Março de 2003 refere-se á edição de o “Observatório da Imprensa’ on line, na qual o referido artigo original foi publicado.

[2] Um dos argumentos usados pelo jornal para “derrubar’ (não publicar) esta nova matéria, não me lembro bem, mas parece que foi este: Não havia enviado a matéria original na íntegra, e logo não poderia afirmar ter previsto tudo, como afirmei. O argumento seria válido para uma revisão no texto mas, jamais para um veto total como ocorreu.

[3] Para o esclarecimento dos mais jovens: Araceli era uma menina com cerca de 12 anos, filha de uma mulher de programa de Brasília que, segundo a imprensa da época, estava junto com a mãe numa orgia de sexo e drogas protagonizada por filhos de senadores da República, importantes bad boys da capital federal, entre os quais o jovem Fernando Collor, filho do então senador Lindolfo Collor. Ao fim da orgia Araceli apareceu morta misteriosamente, ao que tudo indicava, por estupro. O jornalista José Louzeiro fez um excelente livro- reportagem sobre o assunto: “Araceli, meu amor”

Vissungos d’Angola ou do Brasil?

•14/03/2014 • 4 Comentários

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Na foto, Alessília, mulher de Pedro Lucindo ("Pedro de Alessília") com gesto significativo indica para o pesquisador (o Titio, com uma equipe de cinema) o que fazer para que Pedro cantasse vissungos e desse uma entrevista: Só dando "um dinheirinho"  A verdadeira "corrida do ouro" de estudiosos acadêmicos, principalmente da UFMG á região de Diamantina, á cata de faladores ou cantadores de " língua benguela", provocou um interessante e deletério fenômeno antropológico: A corrupção das fontes.

Na foto, Alessília, mulher de Pedro Lucindo (“Pedro de Alessília”) com gesto significativo indica para o pesquisador (o Titio, com uma equipe de cinema) o que fazer para que Pedro cantasse vissungos e desse uma entrevista: “Só dando um dinheirinho”, disse.

A verdadeira “corrida do ouro” de estudiosos acadêmicos, principalmente da UFMG á região de Diamantina, á cata de faladores ou cantadores de ” língua benguela”, provocou um interessante e deletério fenômeno antropológico: A corrupção das fontes.

Ter um pezinho na cozinha não explica tudo, mas ajuda muito ao pesquisador.

O mote deste post é um comentário do Titio replicado pelo amigo historiador Rafael Galante com “provocações” instigantes e interessantíssimas. Você entenderá, perfeitamente o contexto do debate lendo apenas este post aqui, mais é altamente recomendável ler o post original.

A explicação para elaborar uma tréplica tão gigantesca é simples: Este tema  - “Vissungos” – é a mãe de todas as pesquisas do Titio: A música dos escravos angolanos ditos “benguela” em Minas Gerais e no Brasil

_”Padi Nosso cum Ave Maria! Auê, Nzambi!”

Rafael Galante (e demais convivas)

(Ressalvo que adoro estes questionamentos porque me instigam a aprofundar minhas reflexões, mesmo nas limitações de um post de facebook)

Vamos lá:

São ambas, a minha e a de Rafael Galante traduções possíveis de um ponto de Vissungo. Foi exatamente o que quis ressaltar em minha resposta, apontando o caráter provisório e questionável destas tentativas de se entender o texto de uma canção tradicional numa língua estrangeira.

Não compreendo, contudo como se pode discordar do fato – para mim óbvio – de que uma cultura, reconhecidamente estrangeira não pode ser, devidamente compreendida sem um estudo comparativo de seus aspectos originais, ancestrais, ainda mais quando o eixo do estudo é linguístico, semiológico (elementos de cultura oral, no caso)

Como traduzir textos de tal origem sem uma compreensão ampla e abrangente da história e da cultura remota destes povos, tão mais antigos quanto diferentes de nós? De onde sai esta presunção acadêmica brasileira de que se pode desvendar enigmas tão antigos da cultura da África partindo apenas de elementos, esparsamente recolhidos no Brasil?

Não lhes parece – e principalmente a você, Rafael Galante, um historiador – uma ideia simplificadora acerca da cultura alheia?

Sempre me pergunto porque este valor metodológico basilar é tratado de forma tão diferente quando se trata do estudo da cultura indígena brasileira, por exemplo, na qual elementos mais intrinsecamente ligados à ancestralidade cultural – os mais remotos como a herança pré colombiana, por exemplo são tão – quase super – valorizados.

Porque será que se trata a cultura dos africanos no Brasil de maneira tão displicente e simplificadora, subestimando-a, criando esta dicotomia tão improvável entre os aspectos originais africanos e sua extensão no ambiente escravista, no Brasil?

Esta renitente recusa, aliás, típica da historiografia brasileira tem, me parece fundamentos ideológicos bem estranhos. É como se pudesse admitir a ocorrência de um hiato, uma amnésia, um mal de Alzheimer paralisante que fizesse todo negro apagar de sua memória o passado africano, assim que cruzasse o “umbral do kalunga“, reduzindo sua cultura anterior à “sobrevivências” esparsas, meras “reminiscências“.

Carecem de lógica ou relevância, portanto, pelo menos para mim estudos que subestimam a pesquisa da cultura negra do Brasil também nas pontas de suas origens. Trata-se de um nó transatlântico como disse, o mesmo que caracteriza o estudo da cultura das colônias alemãs do sul do Brasil, por exemplo.

Por outro lado, o que você, Rafael chama de “benguela“, na verdade, como imagino que já saiba, é basicamente um idioma chamado “Mbundo“, falado na parte sul de Angola. O termo “benguela“, aliás, se refere, com efeito ao porto de onde estes africanos embarcaram para cá, oriundos de vários grupos étnicos vizinhos (e nem sempre “indígenas“, “selvagens“, como se costuma imaginar.)

A língua falada por estas pessoas, estou completamente convencido, veio para a região de Diamantina e Serro Frio, íntegra e diversos fatores que não cabem aqui neste comentário a mantiveram perene até, pelo menos 1928, quando da pesquisa de Aires da Mata Machado Filho, ou mesmo 1942, quando das gravações de Luiz Heitor Correa de Azevedo para a biblioteca do congresso norte americano. E digo “perene” com a ressalva de que em 1928 já haviam poucos falantes sobreviventes.

Pode-se por esta razão supor que o Mbundo-kimbundo, com pequenas variações dialetais, foi língua fluente na região. Enquadro o estudo de todos os pontos de vissungo em Mbundo (pelo menos) por esta simples razão metodológica, no contexto de “música africana“, “angolana“, mais precisamente. As razões musicológicas para esta minha constatação, além das etimológicas, a estrutura das escalas, a rítmica , etc. são mais evidentes ainda.

(Não é o que se faz, estranhamente com os pontos de candomblé, tratados todos como música africana, nigeriana por suposto?)

Sobre o “benguela” ser falado também em outros contextos, isto é óbvio. Era a língua daquelas pessoas em todos os aspectos de sua vida. Não era, evidentemente um “dialeto” de garimpeiros. Neste sentido mais interessante seria se constatar a forma curiosa como o repertório de cantos específicos, “de trabalho” como se diz, assim que as razões técnicas de seu uso se extinguiram, migraram para manifestações religiosas ou recreativas como os catupés em toda a região (na verdade em todas as Minas Gerais)

Outra obviedade é que veio gente oriunda do Porto de Benguela para o Brasil (aportavam no Cais do Valongo) de forma maciça no século 19 inteiro, quando o Porto do Benguela se transformou no maior exportador de escravos para o Brasil.

Por esta razão já cheguei a deduzir que há semelhanças morfológicas muito intensas entre a cultura de negros do garimpo de Minas Gerais e negros das fazendas de café do Rio de Janeiro. A semelhanças entre a prosódia do Jongo e das “cantigas de mofa ou insulto” recolhidas por Aires da Mata em São João da Chapada são candentes. Ambos os grupos de escravos falavam – fácil se constatar – o mesmo idioma Mbundo-kimbundo.

Maria Miúda e Pedro "de Miúda" relatam sua vida de descendentes de angolanos do Benguela

Maria Miúda e Pedro “de Miúda” relatam sua vida de descendentes de angolanos do Benguela (foto: Spirito Santo)

Outro esclarecimento é sobre os repetidores de vissungo citados, Ivo Silvério e Pedro de Alessília. Ora, não se trata absolutamente de desqualificá-los, mas ao contrário qualificá-los mais precisamente. Conheço bem os dois e pude avaliar, facilmente que suas habilidades, digamos linguísticas têm sido por demais superestimadas, de forma irresponsável até por pesquisadores que começaram a se dirigir ao local em verdadeira “corrida do ouro” a partir do ano 2000, por aí.

Há muito romantismo e, infelizmente, muito oportunismo acadêmico envolvendo as pesquisas na região. Foi o que pude constatar em minha última viagem.

Ivo e Pedro são informantes importantes sobre as práticas culturais locais, mas não são, absolutamente “falantes do idioma benguela“. Mantêm por perspicácia (e pela indução esperta dos pesquisadores), a mística de “faladores do idioma“, mas repetem apenas a fonética portuguesa aproximada de certos vocábulos, tentando e sugerindo traduções, como disse, estapafúrdias e sem sentido que vão aparecendo numa ou noutra tese doutoral, criando o tal “cipoal de equívocos” que aludi no comentário anterior.

Mesmo Crispim Viríssimo, já falecido e para mim o último verdadeiro vissungueiro (talvez tenha sido o professor de Ivo), já não dominava o idioma com total fluência, embora fosse um rigoroso cultor da pertinência linguística (tive acesso a um caderno-vocabulário que ele finalizava)

O fato é que não ocorreu em São João da Chapada, Milho Verde e adjacências, pelo menos de forma perceptível, uma “crioulização” do idioma “benguela” o que, obviamente impossibilita o estudo dos textos de Vissungo apenas no Brasil. A língua original, por falta de falantes, se diluiu no português, irremediavelmente.

Sobre dicionários e fontes escritas, claro que elas existem. São dezenas de dicionários, centenas de teses, livros, etc. (a maioria, ressalte-se de fora do país). Mas o tema é muito complexo. A exata tradução de um texto, um vocábulo que seja, exige o cruzamento de verbetes de vários dicionários e vocabulários, de variadas épocas.

Isto sem se falar nas complicações oriundas do fato de serem línguas morfologicamente bastante diferentes do português e dos textos serem muitas vezes metafóricos, com a semântica atrelada, de forma direta a um contexto geográfico ou histórico muito específico, muitas vezes intangível.

Ora, línguas são estruturas vivas, dinâmicas. O que se está fazendo com estas traduções supostas,

por todas as razões técnicas que mencionei, não passam muito de rasas suposições.

Sobre o parágrafo que Rafael Galante assinala, aludindo ao meu suposto “kongocentrismo”, desculpe mas não procede a crítica, chega a ser leviana até e vou tomá-la como uma simpática provocação.

Como bem sabemos o debate está restrito à questões ligadas exclusivamente ao contexto do Kongo, certo? Não sei porque reduzir o conteúdo da conversa a esta crítica tão fora de propósito. Estamos falando de que afinal? Não é da cultura kongo-Angola? Fica parecendo uma defesa impertinente deste nagocentrismo recorrente e já meio fora de moda, tão renitentemente defendido pela academia branca ou preta, sem noção.

Nas mesmo assim, pacientemente explico “de onde tirei” esta afirmação assinalada:

Tirei de pesquisas, meus caros, de aspectos históricos da formação do Reino do Kongo com ênfase na formação da língua local (o Ki-Kongo). Não sei se vocês sabem, mas a língua do povo que ocupou esta região denominada Kongo, começou a se formar no século 12, ou antes até. Uma parte destas pessoas originais veio do Camarões, se fixando nas margens do Rio Zaire, onde outro povo já se encontrava.

Num processo que também pode ser entendido ou medido por meios historiológicos, por volta do século 17, a língua surgida da junção das duas culturas irmanadas no que chamamos de Kongo, foi sistematizada. Sim: Sistematizada!

Num fato pouco sabido ou estudado por nossa historiologia por razões que já sugeri acima, uma elite intelectual congolesa foi formada por jesuítas (num colégio instalado em Mbanza Kongo, capital do Reino). Foi um intelectual desta elite local quem criou as bases eruditas do idioma kikongo, levantando uma gramática e escrevendo um dicionário (kikongo-espanhol-kikongo). Este estudioso se chamava Manoel Raboredo e foi capelão do manikongo D.Antonio Nkanga a Nvita, morto decapitado na batalha de Mbwila em 1665.

É a esta língua erudita, pois – sem kongocentrismo algum e por conta desta sistematização que descrevi grosso modo – que chamo de “Kikongo clássico“.

(Façam uma analogia com o estado de formação do português no século 16 ao 17
que encontrarão muita similaridade no processo congolês, a rigor comum na formação de qualquer língua humana).

Por injunções históricas bem óbvias, este Kikongo se espraia para o sul, no âmbito da geopolítica colonial, formando na época da hegemonia de Luanda como sede da colônia, uma língua denominada “Kimbundo“, uma espécie de kikongo popular, uma “língua da plebe“.

Evidente que ao estudarmos aspectos gerais de nossa cultura negra neste período (escravos oriundos do Porto de Luanda) nos séculos 16 (final) e 17 (todo) a língua de referência será este Kimbundo.

Foi com o deslocamento dos interesses econômicos da colônia mais para o sudeste de Angola que entramos no contexto linguístico do Mbundo, que é uma variação local do Kimbundo do centro oeste de Angola que, como vimos se formou como variação do que chamei de “Kikongo clássico“. Um processo longo e complexo, pois, ocorrendo no tempo e no espaço, gerou duas outras línguas tributárias daquele Kikongo seminal, misturado a línguas locais, de origem mais remota.

Sobre o surgimento da cultura Mbundo-kimbundo na região das Minas Gerais, Brasil, a entrada de escravos angolanos nesta região, de modo mais evidente começa mesmo com a descoberta de ouro e diamantes na área, ali por volta da virada do século 17 para o 18 passando a ser muito intenso este fluxo de meados para o fim do século 18 (vide Chico Rei em Vila Rica e Xica da Silva – natural de Milho Verde – em Diamantina)

(Observe-se que depois da derrota do Reino do Kongo em 1665, Portugal descobre que não há ouro em Angola decidindo lançar todas as suas fichas no ouro descoberto nas Minas Gerais do Brasil)

Este fluxo de mão de obra escrava se torna mais intenso ainda até o início do século 19, quando se reduz, drasticamente com o fim da Real Extração e Diamantina e a transferência do nosso eixo econômico para o Rio de Janeiro com a entrada do ciclo do café (Vale do Paraíba do Sul)

Espero ter sido claro, mesmo nestas breves colocações, apesar de achar óbvio demais todo este processo.

2009. Titio com meninos e meninas descendentes do povo Benguela de São João da Chapada, cercanias de Diamantina, Minas Gerais.

2009. Titio com meninos e meninas descendentes do povo Benguela de São João da Chapada, cercanias de Diamantina, Minas Gerais. (foto: Felipe Mantovan)

Sobre as digressões sobre as nossas traduções supostas, a minha e do Rafael, me poupo de comentar por enquanto por que elas só demonstram a impossibilidade de se traduzir Vissungos a partir de meras suposições com palavras soltas. Afinal, por exemplo, de onde você, Rafael, tirou este sentido de “velocidade” para a palavra “ondoró“? Em qual dicionário você encontrou esta grafia para “ondoró“. Não existe esta forma em Kimbundo, nem em Mbundo! Este fonema “on”, invariavelmente é o “n”’ ou “m‘ bilabiais, sendo que o “r” vibrante não existe nestas línguas (como não existe em japonês) daí eu sugerir “Ndolo“, palavra mais aproximada da fonética em português)

A superficialidade desta abordagem vocabular, enfim é por demais evidente.

Esta minha suposição para o garimpo clandestino (o texto do ponto é que, supostamente fala em garimpo “depois do sol se por“) se baseia em dados históricos estabelecidos, bem conhecidos e em fontes orais idôneas também, recolhidas na região, que enfatizam, fortemente a prática de garimpo clandestino por parte de escravos, de maneira muito recorrente (Aires da Mata em seu livro clássico, traz muitos dados sobre isto)

Aludindo ao caráter metafórico (eventual) do texto, este “garimpar após o sol se por” pode ter também outro sentido menos literal, aspecto que também deve ser considerado.

Contudo, observe que não faço afirmações peremptórias, apenas sugeri que se abordasse de maneira menos superficial e subestimativa os aspectos complexos de nossas origens africanas transatlânticas, infelizmente ainda tratadas com tanto preconceito e parcimônia, sabe-se lá porque.

Vocês têm ouvido música popular angolana ultimamente? Prestem muita atenção em quantos “auês” vocês vão ouvir por aí, falamos algum Mbundo-kimbundo sem o sabermos. Que mal haveria em melhor saber?

Finalizo com uma última provocação:

Esta tendência dos estudiosos e acadêmicos brancos (e pretos sem noção) de enquadrar tudo quem é da cultura negra no escaninho reducionista do “mágico“, do “místico” ou do “religioso“, reflete a mesma metodologia geral calcada neste inaceitável preconceito, uma tendenciosa vocação para reduzir tudo que é africano ao campo do primitivismo, do barbarismo e do empirismo mais improváveis.

Muito pouco de científico nisto aí. Hora de quebrar esta redoma.

No mais grande abraço a todos e muito obrigado ao Rafael Galante pelas instigações de sua postagem.

(Em tempo: Existe por aí uma regravação deste disco “Canto dos Escravos” em que o Titio – sim, eu mesmo! – apareço cantando duas composições minhas (uma cantada junto com a Clementina que faz aí sua última aparição em estúdio). As faixas foram extraídas do vinil da trilha do filme Chico Rei, de Walter Lima Júnior, gravado pela Som Livre)

Spírito Santo

Março 2014

O Cais do Valongo deu no “The New York Times”

•09/03/2014 • 3 Comentários

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Os navios negreiros no século 19, atracavam no cais de pedra enorme na Rua do Valongo, exposto por arqueólogos perto do porto do Rio de Janeiro. Foto Lianne Milton para o The New York Times .)

Os navios negreiros no século 19, atracavam no cais de pedra enorme na Rua do Valongo, exposto por arqueólogos perto do porto do Rio de Janeiro. Foto Lianne Milton para o The New York Times .)

(Da série “Eu não disse?Eu não disse?Eu não disse?”)

Titio fez aqui no seu blog uma profícua série de posts sobre o assunto Cais do Valongo. Já faz tempo. O artigo principal se chamava “A arqueologia do Caô Caô” (leia a série completa a partir deste link: “A Lama do Valongo. Arqueologia do Caô Caô”

Tomei uns cascudos de gente omissa, ignorante ou oportunista, envolvida com os graves fatos que os posts denunciavam: A completa e suspeita indiferença carioca pela surpreendente importância arqueológica da região compreendida pelo Cais do Valongo e o chamado cemitério dos pretos novos, descobertas arqueológicas do acaso.

Titio falou também do caráter, muitas vezes raso das pesquisas relacionadas aos achados, e, principalmente do desinteresse das autoridades da Prefeitura e seu Porto Maravilha, preocupadas muito mais em esconder do que revelar as descobertas, numa ação que denominei “desarqueologia”.

Validando minhas afirmações sobre a importância histórica e arqueológica dos sítios fiz uma relativamente bem acurada pesquisa, chegando a conclusões muitas vezes inéditas, consideradas por muitos como tresloucadas ilações de um pesquisador piradão, mas vistas como pertinentes por quem sabe, pelo menos fazer um “o” com um copo.

Pois sim. Rindo a toa agora. Não é que hoje mesmo, tudo que o Titio concluiu, junto a uns poucos gatos pingados, acaba de sair, quase que literalmente levantado por uma excelente matéria, nada menos que do…THE NEW YORK TIMES?

E agora? Colonizados que são vão dizer o que os omissos e os oportunistas de plantão?

“Corrida do Rio rumo ao futuro atropela passado escravo”

(Por Simon Romero para o “The New York Times” – 8 de Março de 2014

Fotos de Lianne Milton – Tradução livre de Spirito Santo )

“RIO DE JANEIRO – Vindos da costa angolana, do outro lado do Atlântico, os navios negreiros atracavam no Rio de Janeiro no século 19 num enorme cais de pedra onde deixavam sua carga humana para as “casas de engorda” na Rua do Valongo. Cronistas estrangeiros descreveram a degradação deste mercado de escravos sempre superlotado, incluindo as lojas que vendiam crianças africanas magras e doentes.

Os corpos dos escravos recém-chegados que morriam antes mesmo de iniciada a sua labuta nas minas do Brasil, eram carregados para serem enterrados em valas comuns nas proximidades do cais. Os cadáveres eram deixados ao ar livre para se decomporem em meio a pilhas de lixo. Como se plantassem flores imperiais os escavadores do Cemitério dos Pretos Novos esmagavam os ossos dos mortos, para abrir lugar para “plantarem” milhares de novos cadáveres.

Agora, com equipes de construção civil demolindo enormes áreas do Rio de Janeiro para as obras dos grandes eventos da Copa do Mundo deste ano e dos Jogos Olímpicos de Verão de 2016, descobertas arqueológicas impressionantes estão sendo feitas no entorno dos canteiros de obra, oferecendo uma nova visão sobre a brutalidade que imperava na cidade do Rio no tempo em que ela era o centro nervoso do tráfico transatlântico de escravos.

Petrúcio Guimarães dos Anjos e sua esposa, Ana de la Merced Guimarães, em sua casa. Foto: Lianne Milton para o The New York Times

Petrúcio Guimarães dos Anjos e sua esposa, Ana de la Merced Guimarães, em sua casa. Foto: Lianne Milton para o The New York Times

Mas, apesar disto as empreiteiras avançam pelos arredores do porto de escravos recém descoberto com seus projetos futuristas, como o Museu do Amanhã, que custa cerca de US $ 100 milhões e foi projetado na forma de um peixe pelo arquiteto espanhol Santiago Calatrava.

Esta frenética reforma urbana está desencadeando um debate sobre se o Rio está negligenciando seu passado histórico na corrida consumista para construir o seu futuro.

“Estamos descobrindo sítios arqueológicos de importância mundial e, provavelmente, muito mais extensos do que o que foi escavado até agora, mas em vez de priorizar essas descobertas nossas autoridades estão prosseguindo com a sua reconstrução grotesca do Rio”, disse Sonia Rabello, um jurista eminente e ex-vereadora.

A cidade instalou placas indicativas nas ruínas do porto de escravos e um mapa de um circuito da herança africana. Os visitantes podem agora caminhar pelo local onde estava localizado o mercado de escravos. Ainda assim, os estudiosos, ativistas e moradores do porto argumentam que tais ações são muito tímidas em comparação aos projetos urbanísticos de bilhões de dólares que vão tomando conta de todo o espaço.

Além do Museu do Amanhã, criticado por ser um empreendimento de custo muito elevado, as empreiteiras e as autoridades estão tocando ali numa série de outros projetos bombásticos, como um complexo de arranha-céus em homenagem a Donald Trump e um condomínio fechado para a moradia de juízes olímpicos.

Ao mesmo tempo, os descendentes de escravos africanos que vivem como posseiros em prédios decadentes ao redor do porto de escravos, estão se organizando num esforço para obter títulos para suas casas, colocando-se em conflito com a Ordem Franciscana da Igreja Católica, que reivindica a posse das propriedades.

“Sabemos que os nossos direitos”, disse Luiz Torres, 50, um professor de história e líder do movimento dos direitos de propriedade. Com as ruínas do mercado de escravos perto de sua casa, como testamento, ele acrescentou: “Tudo o que aconteceu no Rio foi moldada pelas mãos dos negros.”

(Foto: Ossos humanos esmagados de um cemitério foi descoberto na casa de Petrúcio Guimarães dos Anjos e Ana de la Merced Guimarães durante uma renovação. Crédito Lianne Milton para o The New York Times)

Os estudiosos dizem que a escala do comércio de escravos no Rio de Janeiro foi impressionante. De acordo com o banco de dados do Trans-Atlantic Slave Trade, um projeto da Universidade de Emory, o Brasil recebeu cerca de 4,9 milhões de escravos através do comércio atlântico, enquanto que a América do Norte importou apenas cerca de 389.000 durante o mesmo período.

Acredita-se que o Rio de Janeiro tenha importado mais escravos do que qualquer outra cidade das Américas, superando lugares como Charleston, Carolina do Sul; Kingston, Jamaica e Salvador, Bahia. Ao todo o Rio recebeu mais de 1,8 milhões de escravos africanos, ou 21,5 por cento de todos os escravos que desembarcaram nas Américas, disse Mariana P. Candido, historiadora da Universidade de Kansas.

“Os horrores cometidos aqui são uma mancha na nossa história”, disse Tânia Andrade Lima, arqueóloga chefe das escavações que expuseram o Porto do Valongo, construído logo após o príncipe regente de Portugal, D. João VI, fugir dos exércitos de Napoleão, em 1808, transferindo a sede da seu império de Lisboa para o Rio.

Ativistas dizem que as descobertas arqueológicas mereciam, pelo menos um museu e as escavações deveriam ser muito mais extensas, a exemplo de projetos similares de outros lugares, como o Museu Slavery International, na cidade portuária britânica de Liverpool, onde os navios negreiros eram preparados para as viagens, o Museu Old Slave Mart em Charleston e Castelo de Elmina, um entreposto para o comércio de escravos na costa de Gana.

O Cais do Valongo funcionou até a década de 1840, quando as autoridades resolveram soterrá-lo sob um cais mais elegante concebido para receber a nova imperatriz do Brasil da Europa. As duas construções foram finalmente soterradas, passando a fazer parte de um bairro residencial popular conhecido vulgarmente como “A Pequena África“.

Muitos descendentes de escravos se estabeleceram na área onde o mercado de escravos funcionava e suas línguas africanas eram faladas na região ainda no início do século 20. Apesar do bairro ter conquistado amplo reconhecimento como berço do samba, uma das tradições musicais mais apreciados do Brasil, ele foi por muito tempo negligenciado pelas autoridades.

“Sabemos dos nossos direitos”, disse Luiz Torres, 50, um professor de história e líder do movimento dos direitos de propriedade. Com ruínas do mercado de escravos perto de sua casa, como testamento, ele acrescentou: “Tudo o que aconteceu no Rio foi moldada pelas mãos de negros.”

(Foto
Navios negreiros no século 19, atracavam no cais de pedra enorme na Rua do Valongo, exposto por arqueólogos perto do porto do Rio de Janeiro. Crédito Lianne Milton para o The New York Times .)

(Foto: Artefatos do antigo cais onde os navios negreiros aportavam. Crédito Lianne Milton para o The New York Times)

O Dia da Consciência Negra é comemorado anualmente no Brasil em 20 de novembro, para que se reflita sobre as injustiças da escravidão. Em 2013 Sonia Rabello, observou que o prefeito Eduardo Paes, que está supervisionando a maior reforma da cidade em décadas, diante das pesadas críticas não compareceu à cerimônia no Valongo, onde os moradores começaram uma campanha para que o cais seja reconhecido como um Patrimônio Mundial da Unesco.

Para complicar o debate sobre a forma como o passado histórico do Rio precisa ser tratado no processo desenfreado de reconstrução da cidade, algumas famílias ainda vivem em cima dos sítios arqueológicos, ocasionalmente fazendo escavações por sua própria conta.

“Quando eu vi pela primeira vez os ossos, eu pensei que eram o resultado de um assassinato horrível envolvendo inquilinos anteriores”, disse Ana de la Merced Guimarães, 56, o proprietária de uma pequena empresa de controle de pragas que vive em uma casa velha quando os trabalhadores que realizavam uma reforma no imóvel descobriram os restos de uma vala comum em 1996.

Merced Guimarães descobriu assim que estava vivendo em de um vazadouro de corpos de escravos mortos que foi usado por décadas, até por volta de 1830. As estimativas variam, mas os estudiosos dizem que cerca de 20.000 pessoas foram enterradas nestas sepulturas, incluindo aí muitas crianças.

Merced Guimarães e seu marido optaram então por permanecer em sua propriedade, criando uma modesta organização sem fins lucrativos no local, onde os visitantes podem ver partes da escavação arqueológica. As autoridades têm planos para construir uma via expressa na rua de Merced, o que pode levar a mais descobertas.

“Este era um local de crimes indescritíveis contra a humanidade, mas é também o lugar onde vivemos”, disse Guimarães em sua casa, reclamando que os órgãos públicos têm fornecido pouco apoio a sua organização.

Washington Fajardo, um assessor do prefeito do Rio de Janeiro sobre questões de planejamento urbano, disse que alguns passos importantes foram tomados nos sítios arqueológicos, incluindo a designação do porto de escravos como uma área de proteção ambiental. Ele disse também que existe um plano em estudo para criar um laboratório de arqueologia urbana, onde os visitantes poderão ver resíduos e objetos arqueológicos e acompanhar o trabalho dos arqueólogos que estudam o material dos sítios.

(Foto

A casa em ruínas perto de onde o mercado de escravos Valongo, no Rio de Janeiro, uma vez funcionou. Crédito Lianne Milton para o The New York Times)

Washington Fajardo também enfatizou que em outro novo empreendimento no porto, o Museu de Arte do Rio, moradores da região representam mais de metade do pessoal contratado.

“Nós gostaríamos de fazer mais”, disse ele, referindo-se ao cemitério de escravos. “É complexo, porque há pessoas que residem sobre os sítios. Se eles querem ficar, temos de respeitar os seus desejos” ‘

Ao longo da cidade do Rio, outras descobertas estão sendo feitas. Perto de um projeto de expansão de uma linha de metrô, os pesquisadores descobriram recentemente relíquias pertencentes a Pedro II, último imperador do Brasil, antes de ser derrubado em 1889. Perto do porto de escravos, os arqueólogos encontraram também canhões usados como parte de um sistema de defesa marítima da cidade com quatro séculos de idade.

Mas nenhuma das descobertas foi tão marcante como a do Cais Valongo em 2011 e as escavações anteriores do cemitério em casa de Merced Guimarães. Além das grandes pedras do cais, os arqueólogos encontraram itens que ajudaram a reconstruir o cotidiano dos escravos, incluindo peças de cobre, talismãs e dominós usados como jogos de azar.

Entre o porto de escravos e o cemitério, os visitantes também podem ver a Ladeira do Valongo, onde os depósitos de mercado de escravos do Rio de Janeiro, horrorizavam viajantes estrangeiros. Um visitante, Robert Walsh, clérigo britânico que veio para o Brasil em 1828, escreveu o local e as transações que ali ocorriam.

“Eles são mal tratados pelo comprador que os descreve citando as diferentes partes de seus corpos, exatamente como eu já vi açougueiros descrevendo um bezerro”, disse ele. “Já vi algumas vezes grupos de mulheres bem vestidas comprando escravos aqui, exatamente como havia visto senhoras inglesas se divertindo em nossos bazares.”

O legado de escravidão é evidente em todo o Brasil, onde mais da metade dos seus 200 milhões de pessoas se definem como negros ou pardos, tendo o país mais pessoas de ascendência africana do que qualquer outro país fora da África. No Rio, a grande maioria dos escravos veio do que é hoje Angola, disse Walter Hawthorne, um historiador da Universidade Estadual de Michigan.

“O Rio era uma cidade de forte e vibrante cultura africana”, disse Hawthorne. “As pessoas comiam, se vestiam e tudo o mais, tinham modos e hábitos enfim, em grande medida influenciados por práticas culturais angolanas”

Brasil aboliu a escravidão em 1888, tornando-se o último país das Américas a fazê-lo. Agora, a abordagem relativamente displicente em relação às presentes descobertas arqueológicas está levantando dúvidas se as autoridades estão mesmo,dispostas a rever esses aspectos da história do Brasil.

“Os arqueólogos estão expondo as bases de nossa sociedade desigual, enquanto nós assistimos a uma tentativa perversa de refazer a cidade em algo semelhante a Miami ou Dubai”, disse Cláudio Lima Castro, um arquiteto e estudioso de planejamento urbano….Estamos perdendo uma oportunidade de nos concentrarmos em detalhes importantes do nosso passado, e talvez até mesmo aprender com ele.”

(Taylor Barnes, contribuiu com esta reportagem.)

(Agradecimentos especiais ao amigo Vincent Rozemblatt que me repassou o original da matéria, a qual quem quiser pode ler neste link: “Rio’s Race to future intersects  slave past. Com o perdão pela esforçada tradução do Titio)

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Spirito Santo

Março 2014

Mané Kongo: Tição botô fogo na mata

•10/02/2014 • 2 Comentários

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Arcozelo 30

Equipe deflagra projeto de montagem do Auto do Manoel Kongo no Vale do Café

Velho Caxambuzeiro:

_”O ambiente tá pesado por aqui nesta fazenda da Freguesia. O capitão-mor, o dono…mandou feitor fazê guarda na frente da senzala dia e noite…Inda mês passado mataram um feitor por aqui…As coisa são falada a boca pequena que é pra guarda nacional não saber…O capitão-mor tem medo que o Werneck, chefe da Guarda Nacioná, de Valença, mancomunado com os Avellar, o Correa e Castro, o Leite e todos os seus inimigos, arranjem um jeito de ferrar ele. Vão querer botá tropa nas terras dele. Vão ter um prato feito para arruinar Manoel Francisco Xavier…”

(Velho segue)

_”…E o que ele fez? Botou polícia interna, falou com os capanga e com os feitor que daqui não sai negro nenhum, nem vivo nem morto, pra fazê quilombo…O Werneck da guarda nacioná já tá inteirado. Investigou que lá pros lado do Pilar, a polícia prendeu um mascate sabe com o que? Uns tres barril de pórvora encomendado pelos preto daqui…Num se sabe com que dinhêro, nem com que intenção. Pórvora, sô! Só pode ser pra fazê furdunço!..Botar nas espingarda e matá branco…Virge Nossa Senhora!..Mas…tá bom. A gente sabe mais que eles, né? Só que vamos ficar como diz João Angola…de boca lacrada!”

                                   (Auto do Manoel Kongo de Spirito Santo, fragmento)

Foi muito mais do que eletrizante conhecer a antiga Fazenda da Freguesia, atual Aldeia Arcozelo, em Paty de Alferes, núcleo do qual se originou toda a ocupação e o fausto do chamado Vale do Café (Vale do rio Paraíba do Sul) no século 19.

Por uma destas coincidências mágicas da vida, destino escrito sei lá, ali por volta de 1966, aí com os meus 18, 19 anos e já mexendo com estas coisas de teatro e por conta de um prêmio que o meu grupo suburbano (o MOCA) recebeu, havia visitado a Aldeia Arcozelo.

Não fazia a menor ideia até então de que aquele lugar havia sido a maior fazenda de escravos da primeira metade do século 19 na qual foi deflagrada uma das maiores insurreições de escravos da Diáspora americana.

Cheguei a conhecer Pascoal Carlos Magno o dono e principal incentivador daquilo que era uma formidável iniciativa de fomento do teatro brasileiro. Tenho uma vaga lembrança da exuberância e do bom estado de conservação do complexo, tanto que me deu uma certa tristeza revoltada, ver a degradação do local, principalmente a velha casa grande, com partes desabadas e ameaçadas de ruir.

Arcozelo 7Na entrada do complexo vimos uma grande placa da Funarte, atual administradora da Aldeia de Arcozelo, mas no interior nenhum sinal de obras de manutenção ou restauração do que se trata de um dos complexos arquitetônicos do século 19 (as construções iniciais remontam o século 18) mais importantes das Américas.

Os funcionários e contatos locais nos informaram que um presidente e outras autoridades da Funarte já estiveram por lá em solenidades e vistosas visitas, mas nada de concreto ainda ocorreu. Fala-se em verbas emendas parlamentares e recursos de um novo PAC, mas nada realmente conclusivo.

Não compreendi, enfim como está sendo encaminhada a questão da salvação deste patrimônio inestimável, seriamente ameaçado, por parte do Iphan, do governo brasileiro enfim, já que a Funarte, embora sendo uma herdeira natural do sonho teatral de Pascoal Carlos Magno – um dos aspectos relevantes do valor do espaço como bem cultural imaterial – não tem, absolutamente nenhuma relação com a preservação de patrimônio arquitetônico e histórico, da cultural material deste importante lugar.

Tampouco jamais poderia imaginar que tantos anos depois me veria envolvido com a pesquisa e a criação de um espetáculo teatral que narra, em minúcias historicamente bem realistas os incidentes principais da revolta. Afinal foi ali que estes tumultuosos incidentes ocorreram. Exatamente ali os personagens todos do Auto do Manoel Kongo viveram conspiraram, se rebelaram e morreram no calor da refrega numa mata próxima ou mais tarde, cansados de cativeiro, moídos de velhos ali pela fazenda mesmo, onde muitos estão enterrados.

Dá bem para vocês entenderem a emoção indescritível que senti caminhando pelos espaços, pátios, alpendres e cômodos onde os personagens da história que escrevi, efetivamente existiram.

“…O tenente-coronel Gil Francisco Xavier herdou a fazenda Freguesia com a morte de sua mãe adotiva, Francisca Elisa Xavier, primeira baronesa da Soledade, viúva de Manuel Francisco Xavier. Endividado pelo jogo, Gil Francisco Xavier cedeu ou vendou a fazenda para o médico português Joaquim Teixeira de Castro que mudou o seu nome para fazenda Arcozelo, que era onde ficava a quinta de sua família em Portugal (freguesia de São Miguel de Arcozelo, concelho de Vila Nova de Gaia). Joaquim Teixeira de Castro recebeu do rei D. Luís I de Portugal, em 1874, o título de visconde do Arcozelo.

“…A partir da década de 1930, o excelente clima da região passou a ser conhecido nacionalmente com a propaganda feita grande médico infectologista Miguel da Silva Pereira. Isto atraiu muitos turistas de veraneio procedentes da cidade do Rio de Janeiro e, assim, a fazenda foi transformada em hospedaria em 1945.

Finalmente, a fazenda foi loteada e a parte com as edificações tornou-se propriedade de João Pinheiro Filho, que, em 1958, a doou ao embaixador Pascoal Carlos Magno com o propósito de ali criar uma escola de teatro e local de retiro de artistas.

O centro cultural Aldeia de Arcozelo foi inaugurado em 1965.”

                           (Wikipedia)

Arcozelo 15

A impactante emoção influenciou então fortemente o plano da montagem, já que o complexo arquitetônico tipicamente do século 19, de maneira incrível se presta maravilhosamente à encenação do Auto, contendo em seu contexto todos os cenários constantes da itinerância do formato que eu, o autor estou propondo, com cenas ocorrendo num curto trajeto percorrido pela plateia.

O fato de serem cenários absolutamente reais, torna a ideia de montar o espetáculo na antiga fazenda da Freguesia, absolutamente irrecorrível.

Assim, depois de uma animada e bem sucedida rodada de encontros com secretários de cultura e pessoas representativas da região saímos de lá decididos a promover uma série de espetáculos em, pelo menos duas ou três cidades do Vale do Café.

Uma conspiração virtuosa foi deflagrada e os quilombolas buscam as armas para subir e ocupar a Serra.

O Quilombo de Manoel Kongo, vive!

“…Mané Kongo botô Paty pra queimá…
….Matou, incendiou, fez tudo pra fugir
do cativêro de Paty…”

_Tição botô

(coro) Fogo na mata

_Vagalume alumiou

(Coro)Toda a mata…”

(Jongo do Mané Kongo, música tema do Auto)

Spirito Santo
Fevereiro 2014

Arcozelo 39E a equipe é:

Spirito Santo ( autor)

Miguel Pinheiro (Direção Geral)

José Luiz Menezes Júnior (Secretario de Cultura de Vassouras)

 
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