Rheinlandbastarde. Os bastardos da Renânia

•22/04/2016 • Deixe um comentário

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Soldados franceses no campo de prisioneiros de guerra de Luckenwalde

 Uma outra ponta da mesma meada black alemã

(Leia, fazendo os descontos de praxe)

“Bastardos de Renania é a denominação usada na Alemanha nazista para classificar crianças descendentes da união entre homens africanos e mulheres alemãs. De acordo às teorias racistas dos nazistas estas crianças representavam uma minoria inferior e recomendava-se que fossem objeto de uma campanha de esterilização para evitar que, com o tempo, se misturassem com a população geral e que seus genes se disseminassem entre os membros da sociedade, supostamente ariana da Alemanha.

A denominação “Bastardos de Renania” aparece numa época imediatamente posterior à Primeira Guerra Mundial, quando, como parte dos tratados que a Alemanha teve que assinar como nação derrotada no conflito, as tropas francesas ocuparam a região ao oeste do Rio Rin Renania (Rheinland).

Alguns destes militares franceses eram negros já que proviam de colonias francesas na África. Muitos casaram-se com mulheres alemãs e outros simplesmente, mesmo sem se casar, acabaram por gerar filhos naturalmente mestiços, de onde vem a estigmatizante classificação de “Bastardos”.

Até hoje a história dos negros que viviam na Alemanha antes da subida dos nazistas ao poder permanece um tanto desconhecida. Naquela época, não era apenas através da cultura que os negros se sobressaíam, mas também por meio de sua simples presença nas ruas: imigrantes do Caribe, africanos, norte-americanos negros que haviam fugido da crise econômica nos EUA para a Alemanha, diplomatas, imigrantes das colônias e marinheiros. Peter Martin, da Fundação de Incentivo à Cultura e Ciência, de Hamburgo, estima em 10 mil o número de pessoas ‘de cor’ residentes na Alemanha naquela época.

Eram negros e negras que haviam construído suas vidas na Alemanha, se casado com alemães e alemãs e com eles gerado filhos – os chamados Rheinlandbastarde (bastardos da Renânia). Muitos deles foram mais tarde esterilizados à força pelos nazistas. A máquina de propaganda nazista atacava as pessoas de cor que eram rotuladas como uma perigosa peste. E assim elas foram sumindo da vida pública. O que restou foi uma montanha de papéis da burocracia. As pessoas simplesmente desapareceram, segundo Martin, que há anos dedica-se à história da minoria negra na Europa.

O denuncismo, sobretudo através da imprensa, estava na ordem do dia. Cartazes apresentavam os negros como um perigo para as mulheres alemãs. O que aconteceu com a maioria deles, de 1933 a 1945, é difícil de saber. Muitos conseguiram deixar o país a tempo. Outros foram enviados para os campos de concentração. Não poucos serviram de cobaias para pesquisas dos nazistas.

Talvez tenham sido centenas, possivelmente milhares os que morreram. Em apenas 15 a 20 casos os historiadores encontraram provas de assassinato por nazistas, ressalta Martin, que conseguiu montar a atual mostra graças a donativos financeiros de Jan Philipp Reemtsma, realizador da polêmica exposição Crimes da Wehrmacht.”

(Pensando bem, excetuando-se os exageros do contexto nazista – a esterilização dos crioulinhos ‘bastardos’, por exemplo – me digam: Parece ou não parece um pouco com o que ocorre com os pretos do Brasil?)

Das Afrika Schau
Mais uma ponta da negra meada alemã

“Quando questionados sobre os negros no Terceiro Reich, os alemães costuma m falar sobre a mostra Afrika Schau (‘Show africano’). Em seu livro Hitler’s Black Victims (As vítimas negras de Hitler, em tradução literal), o pesquisador norte-americano Clarence Lusane descreve Afrika Schau como uma mostra itinerante iniciada em 1936.

Os responsáveis pelo “show” eram Juliette Tipner, cuja mãe era da Libéria, e seu marido alemão Adolph Hillerkus. O objetivo do “espetáculo” era exibir a cultura africana na Alemanha.

Em 1940, a Afrika Schau foi retomada pela SS e por Joseph Goebbels, que “esperava que isso fosse útil não só para propaganda e fins ideológicos, mas também como forma de reunir todos os negros do país sob um mesmo espaço” , escreve Lusane (sabe-se lá já pensando em uma espécie de solução final também para este grupo: Nota do autor).

Para seus participantes, o Afrika Schau tornou-se muito mais um meio de sobrevivência para negros na Alemanha nazista.”

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Cartaz deste ‘Wölkerschau’ (‘show dos povos’) africano assumidamente colonialista sugere que o modelo ‘Afrika Schau’ surgiu bem antes de 1936

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O tema como se vê é vasto e complexo, além de inédito. Você pode enveredar por qualquer uma de suas trilhas, puxar qualquer uma destas meadas que vai encontrar, certamente fatos novos e mais surpreendentes ainda.

(Só como palpite me ocorreu agora mesmo, por exemplo que o modelo de espetáculo artístico criado com o Afrika Schau, quando inserido no contexto da ampla propaganda colonialista da segunda metade da década de 1930, pode ter alguma ligação fortuita com o surgimento nos anos 40 e 50 de uma série de grupos artísticos similares, promovendo shows de variedades, algo voltados para a difusão de certa cultura tradicional africana (ou afro-descendente) oficial, ‘chapa branca’, circulando pela Europa e outras partes do mundo nos anos posteriores.

Entre estes grupos talvez sucedâneos podemos assim de relance, citar o balé do Senegal e outros tantos balés nacionais africanos (no âmbito das colônias européias na África) e, até mesmo o nosso velho e bom grupo ‘Brasiliana’, de Haroldo Costa que, fundado com toda certeza com intenções nada colonialistas (e muito menos nazistas) , pode ter sido impulsionado ou inspirado pela grande recorrência do modelo Afrika Schau tão famoso nas décadas anteriores.

É sempre assim. Sabem como é: Depois que alguma natureza – mesmo a mais insana – o cria, ninguém sabe bem no que um bicho vai dar.

Panos e mais panos para mangas de colocar racistas em sérios palpos de aranha.

Spirito Santo
Maio 2010

A múmia de Lênin

•18/04/2016 • 3 Comentários

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“Esquerdismo, doença infantil do comunismo”

(A frase, inserida em nosso contexto, faria a múmia de Wladimir Ilicht se revirar na urna.)

O quadro que se afigura é vergonhoso para a esquerda do Brasil que, historicamente sempre fracassa, fragorosamente quando chamada à luta política real. Talvez nunca tenhamos tido, a vera, uma esquerda no Brasil. Porque será?

A esquerda que, depois de inventar o PT rompeu com ele, a partir do primeiro governo Lula, depois da descoberta das primeiras evidências de atos de corrupção, se fazendo de ética, ao que parece, enganou, decepcionou seu eleitorado vergonhosamente.

(Não devia ser inusitado o fato simbólico de ter sido um emérito e solitário fundador do PT, o jurista Hélio Bicudo, um dos coveiros da arrogância de um partido de oportunistas que se apossou das bandeiras da esquerda com tamanha desfaçatez. Talvez seja porque se trata mesmo, em nosso caso, de uma esquerda de fancaria, um mero comunismo de aparências)

Me lembro – e relato assim por alto, sem pretensões de ser analista ideológico – os descompassos dessa “esquerda” nos idos da década de 1960, naqueles momentos cruciais nos quais, começando com o golpe militar de 1964, avançamos, rapidamente para os sofrimentos e a insegurança provocados pela radicalização da ditadura, que assumindo a tortura e o assassinato de opositores, alegava estar fazendo isso em reação a radicalização de parte da esquerda, que adotara a brancaleonica luta armada como opção a partir de 1968.

Talvez seja mesmo verdade.

Até que ponto a violência da ditadura teria assumido o caráter insano que assumiu, se não tivesse tido diante de si a reação armada (de algum modo heróica, vamos reconhecer, mas não menos insana) de um punhado de jovens brancos de classe média? Digo isso de cadeira pois eu estava lá. Fui um desses jovens…Só não era branco.

Para quem não sabe, grosso modo, tínhamos em 1964 como alternativa à instalação da ditadura militar, depois do fracasso da radicalização política tentada por Brizola e Arraes (com a anuência leniente de Jango) as caquéticas propostas de luta política clandestina do velho Partidão (PCB) atrelado, apelegado à matriz soviética, dependente das ordens de Moscou.

(Me lembro bem dos esotéricos textos de formação ideológica que lia, canhestras traduções de textos comunistas russos, chineses, cubanos, que nós, os militantes mais crus e comuns, mal compreendíamos)

As tentativas do PCB de um golpe comunista no Brasil no governo getulista, apoiado por agentes internacionais enviados por Moscou a pedido (ou impostos) por Luis Carlos Prestes, um pouco antes da segunda guerra mundial, haviam fracassado (incidente que inaugura, de certo modo, a prática da tortura por parte do estado brasileiro, contra presos políticos). Esta derrota, entre outros motivos, deixara o dogmático PCB gato escaldado diante de soluções militares, armadas.

Ainda narrando grosso modo, o que ocorreu foi que esta atitude considerada por parte da nova esquerda estudantil, como excessivamente passiva, omissa, do PCB diante da ditadura, acabou produzindo um racha que, a princípio gerou duas “tendências” ou facções comunistas mais radicais:

O PCdoB (o original) e o o PCBR (revolucionário), ambos com opções claras pela luta armada, mas com uma pequena diferença estratégica que os dividia entre a opção prioritária pela guerrilha urbana, defendida por uma facção como fase inicial para acumular forças e recursos para uma posterior luta geral (opção do PCdoB) e, por outro lado, a luta no campo, a partir de pequenos focos guerrilheiros que, conquistando apoio das populações rurais, formariam um exército proletário que, engrossando suas fileiras com a adesão dos operários nas cidades, esmagaria o poder burguês (opção inspirada na discutível proposta cubano-guevarista do “foquismo”, que fracassou no Congo e na Bolívia, além do Brasil)

(Essas duas ramificações iniciais, se fragmentaram em diversas micro-“organizações”, tais com a ALN, Colina, Var Palmares, POC, Polop, etc.)

Utopias, absolutamente piradas, prepotentes, presunçosas que tiveram, como sabemos, consequências dramáticas para os doidos francos como o Titio, que se meteram nessas aventuras, de curtíssima duração. Entre tantos fatores, eu participante da maluquice posso apontar um que parece decisivo:

Esta esquerda pós partidão, era formada, exclusivamente por jovens da classe média branca de nossas grandes cidades, comandados por comunistas mais cascudos, radicais da velha guarda. Em suma, uma espécie de aristocracia vanguardista, pretensiosamente se julgando capaz de ensinar, doutrinar e comandar o povo, na prática um mero coadjuvante, soldado do processo de tomada do poder.

Bem…deu no que deu. Parece que nada aprenderam com o passado. Excetuando o uso das armas, alguém vê alguma diferença entre aquela e a ideologia dessa esquerda atual?

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A alegoria do “golpe” como boneco inflado. 

A esquerda brasileira do século 21 e seu tiro no pé.

Lamentável. A votação do pedido de impeachment de Dilma Rousseff, mostrou um quadro bem nítido do caráter fake dessa esquerda. PSOL e REDE, os coadjuvantes principais da esquerda “crítica”, na hora do “vamos ver”, retiraram a naftalina das velhas roupas e os signos vermelhos do armário e correram imediatamente para debaixo da saia da mamãe, o PT.

As gravatas e echàrpes vermelhas dos militantes, pretensos “dissidentes” do PT na narrativa anterior, nesta votação do impeachment tiveram um peso simbólico decepcionante. Quem pode confiar agora em Marina Silva, em Chico Alencar como líderes de uma esquerda limpa, dissidente, depois de terem abraçado totalmente as falácias petistas como tábua de salvação?

Eram até ontem alternativas possíveis para a sobrevivência da combalida esquerda brasileira. Mas não, optaram pelo apoio cego a um regime em fase terminal, desmoralizado perante a maioria da população como sujo, indigno, imoral e desastroso para o país. Um equívoco afinal, histórico, porém recorrente desta aristocrática e petulante esquerda brasileira: o corporativismo branco-pequeno-burguês.

Cairam assim no abraço do afogado do PT e se desmascararam perante o eleitorado geral. Lançaram a esquerda (as ideias de esquerda, quero dizer) na caixa escusa da desmoralização política e da consequente inviabilidade eleitoral.

Se tínhamos nos anos 1960/70 uma esquerda jovem e voluntariosa, classe média e branca sim, envolvida numa tresloucada e suicida estratégia de conquista do poder pela força, é necessário reconhecer que tínhamos também na época, nessa esquerda, um senso de ética e moral inquebrantável. Não mentíamos, não tergiversávamos, não manobrávamos com uma propaganda de inspiração nazi-fascista, baseada em sofismas toscos.

(Pelo menos a princípio, antes de iniciarmos a tática das “expropriações”, os assaltos aos bancos e fundos secretos, como o cofre do governador de São Paulo, Adhemar de Barros, um de nossos corruptos seminais, inspiração da máxima que os petistas de hoje parecem acreditar: “Rouba mas… faz”.)

Faço a ressalva porque tenho a convicção de que todo o pesadelo dessa roda viva da corrupção petista (da esquerda como um todo, podemos dizer agora) tem como o seu pecado original aqueles assaltos sob a égide imoral da tese das “expropriações” que dizia: “ladrão que rouba ladrão…”. Muitos não resistiram à tentação.Alguns foram até julgados e justiçados como ladrões.

Do mesmo modo, tenho certeza de que, infelizmente a maior parte do apoio ao PT por parte de intelectuais e artistas, tem como raiz esta mesma fragilidade moral e ética de parte dessa classe média brasileira mais voluntarista, tributária direta da aristocracia colonial, tão oportunista, indiferente ao escravismo no passado, tanto quanto é hoje omissa em relação a exclusão social da maioria.

(No caso dessa esquerda brasileira o egoísmo e a presunção são tantos
os que se esqueceram até de que existe um povo real, uma população imensa vendo tudo pela televisão)

Sim, senhoras e senhores. Esqueceram de que a única maneira de se chegar ao poder hoje para implementar políticas sociais progressistas, por enquanto, é ganhando eleições. Quem votará numa esquerda mancomunada com corruptos da laia desses petistas flagrados? Quem pode garantir que esta esquerda pretensamente reciclada terá mesmo condições de governar e gerar prosperidade efetiva, além de meras migalhas assistencialistas?

(Quem não os conhece que os compre.)

Não sei qual é o plano. Será que decidiram largar a “via democrática” e optaram pela retomada da ultrapassada e tardia revolução…pelas armas? Não creio. Já ficou claro que esses, os da Lapa, são uma “esquerda” pequeno burguesa, classe média, do mesmo modo que a suposta “direita” da Av. Paulista. Farinha do mesmo saco.

E os vícios burgueses das lideranças? Como vão saciar? E as malhas da justiça? O bonde sem freio da Lava Jato? Como vão escapar? E o futuro? Qual é o plano afinal?

Será que vão expurgar e/o justiçar (passar nas armas) por fuzilamento exemplar os corruptos líderes petistas que acobertam hoje? Será que vão largar a cerveja gelada do carnaval da Lapa e se embrenhar numa mata amazônica? Quem pode, enfim, agora nessa gente acreditar?

É algo que muito teremos que lamentar num breve futuro: Um país promissor, tendendo para a direita por culpa de uma minoria “de esquerda”, historicamente inepta e hoje imoral, que diante da oportunidade inédita de ter o poder, meteu os pés pelas mãos e se acumpliciou com a farsa mais imunda da dilapidação do tesouro da nação.

Vão reclamar de que? Perdeu, playboy!

Shanana (by Spirito Santo & Musikfabrik-2001)

•04/04/2016 • Deixe um comentário

Patrimônio Turístico e Cultural: Conceito e preconceito -Um texto do Titio “acadêmico”

•02/03/2016 • Deixe um comentário


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Nazare da Mata - Ensaio sobre o Maracatu Rural Cambinda Brasileira, no Engenho Cumbe durante os anos de 2012/2013. - FOTO: ALEXANDRE SEVERO

Nazare da Mata – Ensaio sobre o Maracatu Rural Cambinda Brasileira, no Engenho Cumbe durante os anos de 2012/2013. – Foto: Alexandre Severo

Cultura / Políticas Públicas: a conexão acadêmica – 12 a 14 setembro 2012 UFRJ / UERJ– Comunicação

Por Spirito Santo

(Uma das poucas inserções do Titio no mundo acadêmico. Convidado por Samuel Araújo, Diretor do Laboratório de Etnomusicologia da UFRJ, Titio fez uma comunicação escrita sobre o tema em epígrafe)

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“A academia é a questão. Como não sou acadêmico, se me permitem, julgo que as minhas respostas às perguntas da mesa terão que ser, necessariamente respostas transversas.

Me parece que o papel mais útil a ser representado por mim aqui, será o de tentar contribuir com uma visão de fora para dentro, uma visão de ‘estranho no ninho’, digamos assim, o leigo olhando a academia meio de banda. Este meu ‘olhar de banda’ aliás, tem me rendido muitos cascudos e críticas, principalmente de antropólogos ligados diretamente ao estado e às políticas públicas voltadas para a cultura neste contexto do patrimônio imaterial.

Mas isto, reconheço, faz parte.

É que sou um autodidata quase absoluto. Samuel Araújo meu colega de curso com o maestro Guerra Peixe lá no início é que sabe me explicar melhor. O fato é que tenho, por razões que mal compreendo (uma mistura de curiosidade obsessiva e sorte sei lá) uma longa inusitada estrada neste rumo aí, por conta disto me acho no pleno direito de opinar e faço isto com paixão. Comecei a mexer com estas coisas em 1973, na época em que me transformei numa espécie de músico pesquisador (do Grupo Vissungo).

Até hoje, são quarenta anos nesta militância, quando decidi juntar tudo que recolhi por aí, pensar a respeito e escrever – até mesmo um livro consegui cometer – tentando contar e opinar e lançar ao debate de quem quiser debater o que investiguei.

Para encurtar a história, trouxe aqui para vocês alguns enxertos de textos que andei publicando no livro e na internet nos últimos anos, inclusive tendo a oportunidade de viver novas pesquisas de campo que me deram mais lenha para esta minha fogueira crítica que tenta ser isenta e embasada, mas não está atrelada a nenhuma corrente porque vive no mato sem cachorro.

É com estes fragmentos de textos que pretendo responder às solicitações da mesa.

Patrimônio Turístico e Cultural Conceito e preconceito

(Isto foi logo que começaram a falar em ‘tombar’ bens culturais imateriais no Brasil na virada para o ano 2000)

Turismo como se sabe é um conceito ligado à territorialidade, a um lugar específico para o qual os habitantes acharam por bem passar a atrair visitantes, motivados por alguma razão de natureza às vezes emocional (como amor por sua cidade) ou mesmo pragmática, como por exemplo, gerar recursos para melhorar a vida da coletividade, através da utilização de algo especial que o lugar tem, algo que atraindo interesse dos de fora, dos estrangeiros (que são chamados, vulgarmente, no caso, de ‘turistas’) possa ser explorado em benefício daquela coletividade.

Esta finalidade de utilidade pública está associada, portanto à existência deste certo ‘algo mais’ que os habitantes presumem possa gerar algum valor intrínseco ao ser visto e usufruído, algum atributo que está relacionado, como vimos – e de forma imperativa inclusive – a uma qualidade especial qualquer que o lugar, a cidade, o país ou o vilarejo tem, pode voltar a ter (ou mesmo nunca ter tido e passar a ter). Assim, o conceito Turismo prescinde sempre de uma razão, de um adjetivo, algo sugestivo ou atrativo, um chamariz, um elemento motivador, que traga os turistas para a intimidade de uma comunidade e justifique o desejo deles de estarem ali e não em outro lugar qualquer.

As possibilidades são inúmeras desde as inconvenientes como o chamado Turismo Sexual, por exemplo (armadilha na qual algumas cidades do Brasil como o Rio de Janeiro e Recife, por exemplo, já estiveram, infelizmente, associadas), até as mais simpáticas como Agro Turismo (o lugar tem uma pecuária de alto nível e promove rodeios e feiras), o Eco Turismo (o lugar tem uma flora exuberante e recursos naturais belíssimos) e muitas outras motivações…turísticas, como se pode deduzir.

(Neste particular chamamos, fortemente a atenção para o fato de que a expressão ‘prostituição’, pode ser atribuída também, de forma genérica é claro, a qualquer aviltamento ou banalização desta motivação turística original, seja ela qual for.)

É fundamental, portanto que, ao propor que um lugar se abra ao Turismo, à visitação de estranhos, os habitantes tenham muita clareza daquilo que querem mostrar, expor à visitação não só do aspecto do impacto que esta exposição trará para a sua vida cotidiana, como também de que modo este ‘chamariz’ ou fato turístico, poderá ser mantido íntegro, patrimônio social que, efetivamente passou a ser (bem comum a ser preservado).

O grau de apreço com que uma comunidade trata a integridade deste ‘algo mais’ que a localidade tem – e que ela elegeu como sendo um fator turístico em si – é, pois, proporcional ao nível de degradação que este fator turístico sofrerá quando desprezado ou exposto ao desleixo e ao descaso. Um exemplo claro disto (embora nem sempre óbvio) é a necessidade de se manter limpo um rio que deságua numa cachoeira exuberante.

Se houver qualquer descuido da comunidade (usando um exemplo bem corriqueiro) diante de uma ameaça de poluição deste rio mais cedo ou mais tarde os turistas abandonarão o balneário e o valor do que era um patrimônio eco turístico inestimável, se esvairá.

Preservar, conservar e manter o patrimônio de uma coletividade íntegro e perene, mobilizar a consciência turística de uma coletividade é, pois, sinal de inteligência comunitária, condição essencial para merecermos o nome de indivíduos civilizados. Tocar neste assunto quando o bem a ser preservado é de natureza imaterial como manifestações culturais tradicionais (algo intangível), por exemplo, é contudo um assunto bem mais complexo.

Considerando-se no entanto os exemplos acima citados, o conceito preservação em geral até que não é tão complicado assim. Podemos continuar a exemplificar também no caso das imaterialidades, sem dificuldade usando estas mesmas simples analogias.

Se a intenção for tornar algo patrimônio de uma comunidade, ser um bem material ou imaterial importa pouco, do ponto de vista do inventariamento, do processo do julgamento de seus atributos. Neste sentido, outro exemplo prático para se entender melhor a questão é quando este bem cultural, passível de ser utilizado com finalidade turística, é o patrimônio arquitetônico do lugar (algo tangível, portanto).

Prédios e edificações antigas, construídas em estilos que representam tendências de uma época, de um estágio tecnológico, de um modo de vida: edificações que, afora o seu significado estético, formal, representam também um espaço memorável, onde ocorreram fatos e incidentes emblemáticos, relacionados à história do local, ou onde certos aspectos da cultura da região ou do país, do mesmo modo ocorreram são, pois, bens culturais por excelência.

Conscientes destas particularidades como lidar então com este patrimônio histórico arquitetônico? Em primeiro lugar é preciso identificá-lo, atestar a legitimidade de sua condição histórica, mediante uma avaliação técnica criteriosa.

É por meio deste reconhecimento, desta comprovação de sua autenticidade atestada por evidências técnicas irrefutáveis, que se poderá ‘tombá-lo’, inventariá-lo ou reconhecê-lo, oficialmente como um bem histórico evidente, patrimônio público por suposto, bem coletivo a ser conservado.

É a partir deste reconhecimento público formal que surge então, me parece, a obrigatoriedade, também pública, de restaurá-lo quando degradado pelo tempo – ou mesmo pelo vandalismo de alguns- e mantê-lo preservado, íntegro, função geralmente assumida, como precípua, por alguma instituição pública, vocacionada para tal (como é o caso do Iphan, pelo menos neste aspecto).

A maior parte das críticas que recebo quando tento associar patrimônio material com imaterial está ligada a esta suposta visão estática de patrimônio que eu teria, atributo que a Cultura, coisa feita por gente em trânsito pela vida, não poderia ter. Eu também sei: A Cultura está sempre sendo feita e por se fazer. Quem não sabe disto? O fato é que as pessoas não perceberam que a crítica que faço, geralmente não é à maneira como a patrimonialização de bens culturais está sendo feita. A minha crítica é contra esta patrimonialização de bens imateriais em si.

Radiografando o patrimônio imaterial (o intangível não é invisível)

“… E esta pré noção invencível, mas invencível, de que o Brasil, em vez de se utilizar da África e da Índia que teve em si, desperdiçou-as, enfeitando com elas apenas a sua fisionomia, suas epidermes, sambas, maracatus, trajes, cores, vocabulários, quitutes… E deixou-se ficar, por dentro, justamente naquilo que, pelo clima, pela raça, alimentação, tudo, não poderá nunca ser, mas macaquear, a Europa.”

( Mário de Andrade no diário de “ O Turista Aprendiz” do dia 8 de maio )

Por este viés de nossa avaliação algumas conclusões preliminares podem ser entabuladas.

A primeira delas – a mais evidente e dramática – é que a maioria dos grupos de cultura tradicional do Brasil, do ponto de vista de sua relação com o Estado, estão completamente desorganizados como tal e desarticulados entre si. Vivem à mercê das investidas de aventureiros de vários tipos, bem ou mal intencionados e, em sua maior parte, totalmente deseducados, aculturados, apartados dos significados e sentidos mais profundos da cultura tradicional de seu próprio país.

E este é um ponto crucial da crítica: os agentes do Estado incumbidos de inventariar bens culturais imateriais, por conta do renitente – e histórico – elitismo e descaso de nossa academia para com certos aspectos de nossa cultura popular, quase nunca estão preparados, não são efetivamente doutos naqueles temas sobre os quais ganharam o direito de arbitrar.

(Façam como eu e tentem montar um bibliografia densa e pertinente com livros, teses e dissertações acadêmicas sobre Jongo, Congada, Maracatu, qualquer coisa destas manifestações aí neste rol de registros e tombamentos. )

As razões desta desarticulação circunstancial e relativa dos grupos de cultura tradicional, da fragilidade de suas relações de intercâmbio com a sociedade em geral, só podem estar ligadas, portanto às históricas e caquéticas idiossincrasias do sistema social do Brasil que alija para a periferia da sociedade tudo que diz respeito ao que é chamado de popular, principalmente as suas oportunidades de acesso à educação. Alija, não: Torna invisível, ilegível todos aqueles aspectos cruciais de nossa experiência civilizatória que não sirvam ‘pra inglês ver’.

Nossa academia, com alguma certeza ainda hoje reflete este estado de coisas.

(Já disse uma vez por aí: Se a sociedade brasileira não fosse tão excludente e racista jamais teríamos uma cultura popular tão acentuadamente africana como temos)

Como disse, observem que, como não podia deixar de ser até mesmo a preservação do patrimônio cultural e emocional deste tal de povo é reiteradamente desprezado, subestimado do mesmo modo como são omitidas e desconstruídas, até mesmo as referências de seu passado histórico (bem entendido o passado histórico real do país, enquanto instância, evidentemente associada à nossa cultura, de maneira geral).

Fica do mesmo modo evidente que há, além da óbvia e recorrente contradição sócio econômica entre pobres e ricos, um imenso fosso ético se alargando no bojo destas relações entre elite e povo (‘agentes externos’ e população local, no caso) já que as mais iníquas investidas rumo à vocação turístico cultural de certas regiões, vista como oportunidade de ganhos financeiros para indivíduos e instituições estranhas às comunidades, segundo a maioria dos relatos disponíveis, costuma ser perpetrada sem nenhuma espécie de pudor etnológico.

Aparentemente intencionada, como disse, em alijar e excluir e, num segundo momento (por um mero imperativo político estratégico, talvez) usar, instrumentalizar a cultura dos grupos de cultura tradicional local, estas ações quase sempre são realizadas, portanto sem nenhum cuidado com os riscos que esta utilização irresponsável traria para a sobrevivência das manifestações aviltadas, após uma longa exposição

(É como naquele exemplo do rio de uma cidade que, assim como a Cultura está sempre em trânsito, mas precisa ser mantido livre da poluição senão perde o seu valor turístico ou patrimonial)

Fica ainda, no mesmo sentido atestado que há problemas terríveis também no que diz respeito à formação educacional de nossa juventude ‘incluída’ quando se percebe que na vanguarda desta elite predatória (turistas ‘ao contrário’, por se assim dizer), intermediando a ação dos ‘organizadores’ responsáveis por estas ações, estão jovens formados em universidades, muitas vezes em ciências sociais, antropologia, etc. matérias fundamentais nesta questão (inclusive em seu estrito sentido ético) jovens ‘bem’ formados estes que, não raro usam os supostos conhecimentos auferidos em sua formação para perpetrar este tipo de ação anti cultural esperta e não raro, oportunista, fazendo-nos refletir, desolados que diabos estamos fazendo com a nossa sociedade ‘letrada’.

É bastante difícil avaliar por isto mesmo, o grau de degeneração provocado por iniciativas culturais, pretensamente positivas e ‘boazinhas’. O cerne da questão é que o impacto de ações como estas costuma ser muito mais nocivo no campo da ética, porque acaba corrompendo as comunidades no âmago de seus valores morais mais caros.

Degeneração pura e simples, no sentido da banalização de um atributo emocional intrínseco a cultura das pessoas; deturpação da representação simbólica de toda uma maneira de ver e viver a vida que, pode ruir – e efetivamente rui – totalmente quando se depara com a constatação de que se pode trocar por alguns trocados a exibição de uns poucos dotes artísticos ancestrais (da mesma forma que se pode trocar um benefício mensal de um programa de ‘renda mínima’ por um voto). Degeneração ética como morte da tradição, como extinção do patrimônio cultural imaterial que se esgarça e se vulgariza.

(Tradição e Ética não enche barriga, diz-se hoje por aí).

Assim, com a insistência do aliciamento dos ‘aventureiros’, como a esmola viciando o cidadão, a exibição dos dotes ‘exóticos’ passa a se dar mesmo quando alguém, considerando os dotes originais ou tradicionais feios e desinteressantes (segundo as ocultas intenções de espetacularização do evento), alicia para alterar, para subverter, para fingir uma falsa tradicionalidade, que melhor apeteça ao turista freguês (também de algum modo lesado porque é levado a considerar cultura tradicional o que foi descaradamente maquiado, forjado).

Em meio a este descompasso moral, que mal haveria em mudar um passinho aqui, trocar uma saia branca por uma estampada acolá, cantar uma canção afirmada como sendo pretensamente folclórica, composta por sabe-se lá quem, corrompendo-se, prostituindo-se? Algum incômodo, alguma sensação vaga de ridículo haveria, algum mal estar sim, mas, e daí se isto tudo é… coisa que dá e passa?

Quem há de saber o rumo que estas coisas poderão tomar ou no que elas podem resultar no futuro? Pois não é assim mesmo, aviltando-se e corrompendo-se por força de um meio hostil que as coisas todas do mundo se extinguem?

A questão nuclear de tudo isto é que, se o conceito Turismo Cultural encerra a exibição (seja lá com que finalidade for) de certos atributos do patrimônio imaterial real de uma comunidade, o que ocorre, em certo prazo se estes valores forem corrompidos, aviltados acima do suportável? Mesmo que, materialmente ainda lhes restem traços, vestígios de sua forma original, simbolicamente nada mais restará de memorável, digno de ser exibido.

Tarde demais quando o que vendemos foi a nossa própria alma, pode ser a lição. Ou mesmo, lembrando o ditado mais comum de todas as guerras: Não queime as suas pontes (os vínculos emocionais com o seu passado) senão você não terá como recuar quando isto for a única sorte possível, questão de vida ou de morte.

“… Nos orgulhamos de ser o único grande (grande?) país tropical…. Isso é o nosso defeito, a nossa impotência. Devíamos pensar, sentir como indianos, chins, gente de Benin, de Java… Talvez então pudéssemos criar cultura e civilização próprias. Pelo menos seríamos mais nós, tenho certeza. ”

(Mário de Andrade no diário: “18 de maio)

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(Ah…Já ia me esquecendo: Vocês já sabiam que a palavra ‘Tombar’ vem de ‘registrar nos livros da Torre do Tombo’, antiga sede do arquivo Nacional português em Lisboa, não é mesmo?

Pois é. Aculturados somos ou nos… resignificamos?)

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Muito obrigado

Manoel Kongo, vive! A arqueologia da revolta

•27/02/2016 • 7 Comentários

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As rebeliões nas histórias mal contadas jamais são debeladas

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Equipe de pesquisadores planeja investigar como sítio arqueológico, a Fazenda Arcozelo, antiga “Fazenda Freguesia”, onde foi deflagrada uma das maiores insurreições de escravos das Américas: A Revolta de Manoel Kongo.

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Convidado pelo historiador da UFRJ Flavio Santos Gomes, especialista em escravidão, com a parceria do arqueólogo Luis Claudio Symanski da UFMG, do mesmo modo focado em sítios arqueológicos do período escravista, o Titio, orgulhosamente passa a integrar a equipe que, a partir de escavações arqueológicas, buscará memórias materiais da época em que nesta enorme fazenda, mandava o Capitão Mor Manoel Francisco Xavier, português, indicado pela Corte Imperial para ser a maior autoridade da região, onde se iniciava o boom das grandes plantações de café, que transferiram milhares de escravos para o Vale do Rio Paraíba do Sul, no Rio de Janeiro e São Paulo.

Titio Spirito Santo entra em cena por conta de sua pesquisa iniciada em 1994, baseada no esquadrinhamento quase forense, dos autos do processo de condenação de Manoel Kongo em 1839, a partir do qual escrevi um texto teatral denominado “Auto do Manoel Kongo/AMK”.

Enseja também a nossa parceria a participação de Flavio numa mesa de debates na PUC/Rio, com o Titio, por ocasião da exibição do filme “A Roça de Teresa” baseado também numa pesquisa que realizei em 1973, com uma ex escrava cuja família fugiu para um quilombo situado nesta mesma região.

A ideia nesse caso será encontrar registros documentais, certidões, etc. dos principais personagens citados na entrevista/filme de Teresa.
A fazenda Freguesia, origem da maioria dos rebelados capturados, data do final do século 18 e é uma das raras construções coloniais desta época, ainda de pé. Este fato é dramático porque o belo prédio da Casa Grande, com dois andares e ainda intacto, com traços originais preservados, encontra-se em ruínas, prestes a desabar.

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Um imbroglio típico da incúria das autoridades brasileiras responsáveis por financiar a preservação de nosso patrimônio arquitetônico, deixou indefinida a guarda do imóvel que, embora esteja oficialmente sob a responsabilidade da Funarte, se encontrava totalmente abandonado, interditado pela defesa civil.

A atual crise geral brasileira, que atinge em cheio instituições culturais governamentais ligadas à cultura, explica em muito o estado de abandono deste inestimável patrimônio, mas é de todo modo inexplicável a inação das autoridades governamentais superiores, pois, afinal a fazenda de Arcozelo/Freguesia (cujo abandono não é recente) tem importância histórica mundial. Junções junto a Unesco, que não se sabe se foram sequer tentadas, seria o mínimo a ser feito.

Esta nossa primeira viagem teve também quinhentos percalços, como se algo não quisesse nos deixar chegar lá. O carro, lá para as tantas, enguiçou por falta de bateria e, depois de empurrado e andar uns poucos quilômetros acabou apreendido numa blitz do Detran por filigranas burocráticas na documentação. Só depois de dois ônibus, um táxi e um longo trajeto chegamos no local.

Ainda assim, chegando lá mal podemos entrar: A defesa civil continuava a interditar o local e, para acabar de endireitar, um funcionário havia acabado de falecer em serviço, no pátio da fazenda. Fomos, gentilmente convidados a nos retirar, mal começada a nossa empolgada inspeção.

Mas nada disso incomodava os mosqueteiros.

A equipe formou bonito. Conversamos muito no trajeto, descobrimos que líamos as mesmas referencias bibliográficas e, o que é mais bacana: havíamos lido uns aos outros. Daí foi fácil. Viramos, rapidamente uma equipe animada e coesa.

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Contamos já também com algum apoio logístico da Secretaria de Cultura de Vassouras, por intermédio do jovem secretário José Luiz Júnior. Também já contactamos o escritório do IPHAN da região, sob a guarda da sempre parceira arquiteta Isabel Rocha, para as futuras consultas aos documentos do CDH/Centro de Documentação Histórica de Vassouras.

A Funarte, responsável pelo imóvel será também, evidentemente procurada para podermos viabilizar uma inspeção mais acurada do futuro sítio arqueológico.

A ideia central da equipe será realizar densos registros, com os resultados gerando produtos multidisciplinares, quiçá multimídia, os mais diversos. Desde um artigo acadêmico escrito a seis mãos, um livro eventual, uma encenação teatral ou, até mesmo um documentário, as ambições são as mais otimistas possíveis.

Talvez, quem sabe, até um pouco de rebelião neo acadêmica, epistêmica, seja lá o que isto quer dizer, pois…

...Manoel Kongo, vive!

Spirito Santo

Fevereiro 2016

Orson Welles, Titio pesquisador e a “Story of Samba”

•04/02/2016 • 2 Comentários

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 História, mais que ler, é ver para crer.

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Seção rítmica clássica do Samba de 1920 a 1940: Surdos de primeira e de segunda (não existia o de terceira), caixas (sem esteiras, corpos curtos) e repinique (corpo longo). Tambores antigos, toscos, denotando a perda por parte do povo, do excelente know how dos antigos tambores africanos. As peles eram então retesadas à tachinhas ou pregos e afinadas no calor (sol ou tochas de jornal). Os tambores de lata de carbureto, aparentemente tinham a pele costurada no corpo. Um notável e candente exemplo de resistência cultural.

 

As fotos que ilustram este post são frames do filme “Story of Samba” de Orson Welles, capturados por Hall Preston diretor de fotografia do documentário em 1942, nunca exibido completamente. Pesquisador sortudo, encontrei o filme durante a pesquisa para a segunda edição de meu livro “Do Samba ao Funk do Jorjão“.

É que uma das teses centrais do livro, era o estudo do processo de evolução organológica (instrumental) das baterias de escola de samba do Rio de Janeiro, as quais, por razões até então nunca estudadas, estranhamente usavam instrumental, diretamente extraído das seções rítmicas das bandas marciais e musicais de origem européia, da virada do século 19 para o 20. Desconstruo e construo este processo, meticulosamente no livro.

Desenvolvida na primeira edição, de forma convincente, a hipótese que considerava a exclusão sócio racial, o racismo enfim, como elemento crucial para a perda do know how para a fabricação de tambores africanos de alta performance, portado pelos descendentes de africanos até o início do século 20, faltava um elemento de prova concreto para transformar a hipótese em tese, um elemento que tornasse a teoria desta transição inquestionável.

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Organologia mista. Flagrando a transição em 1942: Tambores antigos, toscos, com pele retesada à tachinhas, afinadas no calor (sol ou tochas de jornal) e tambores de tarrachas, “modernos”, semi industrializados, usados desde o final século 19 por bandas militares.

A intuição e a investigação holística do Titio, atenta a qualquer pista, de qualquer origem, me entregaram a chave: A transição dos tambores rústicos e elementares do Samba carioca (e das demais manifestações musicais africanas Brasil a fora), se dera, EXATAMENTE na década de 1940. Ela podia – como foi – flagrada nas ruas, no carnaval de 1942.

Bingo!

Como provei? Com essa sequência de frames do filme de Orson Welles de fevereiro de 1942. Nele Hall Preston conseguiu captar, em detalhes, todas as caraterísticas fisiológicas desta transição. Assim, ao invés de descrever em sempre questionáveis palavras e mais palavras os detalhes da teoria, faço como São Tomé e publico as imagens.

Na prática, a teoria é outra.

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Tambores toscos, ainda normalmente inseridos no Samba de carnaval. O custo dos tambores “modernos”, deve ter atrasado bastante a utilização destes por parte da população negra, mais pobre, moradora em favelas.

“É tudo verdade” é um filme inacabado de Orson Welles composto por três histórias sobre a América Latina. “My Friend Bonito”, supervisionado por Welles e dirigido por Norman Foster no México, em 1941, “Carnaval” (também conhecido como “The Story of Samba“) e “Jangadeiros” (também conhecido como “Quatro Homens em uma jangada”) foram dirigidos por Welles no Brasil em 1942.

“É tudo verdade” era para ter sido o terceiro filme de Welles para RKO Radio Pictures, depois de “Cidadão Kane” (1941) e “The Magnificent Ambersons” (1942). O projeto foi uma co-produção da RKO e do Escritório do Coordenação de Assuntos Interamericanos dos EUA.

A produção não realizada foi o tema de um documentário de 1993 escrito e dirigido por Richard Wilson, Bill Krohn e Myron Meisel.

Enquanto algumas das filmagens de “É Tudo Verdade” foram reaproveitadas ou enviadas para bibliotecas de filmes de ação, cerca de 200.000 pés de negativos de nitrato em Technicolor , a maior parte do episódio “Story  of Samba”, foi lançado no Oceano Pacífico na década de 1960 ou 1970 .

Na década de 1980 uma caixa de negativos, grande parte em preto-e-branco, foi encontrado em um cofre e entregue ao UCLA Film and Television Archive. Um inventário de 2000 indicou que cerca de 50.000 pés de “É tudo verdade” tinham sido preservados, junto com aproximadamente 130.045 pés do negativo de nitrato de preservação ainda não garantidas.

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Tarol e repique “modernos”, de bandas militares, já inseridos, normalmente no Samba de carnaval

Ano passado (2015) no embalo da revisão de conteúdo para esta segunda edição do livro, voltei ao excelente site “Citizen Grave“, onde encontrei o filme desses frames. Pretendia compartilhar o link de todo o filme no livro. Decepcionado constatei que a maldita RKO (seus representantes) produtora original do filme de Orson, por ela amaldiçoado, havia retirado o dito do YouTube.

Azar o dela. Titio havia feito na primeira visita esses prints que, orgulhoso e satisfeito publico no livro e compartilho aqui.

Perdeu RKO! Valeu Orson Welles.

É tudo verdade!

Quer saber mais? Aguarde a segunda edição do livro do Titio para breve.

Spirito Santo
Fevereiro 2016

2185- O ano inesquecível

•25/01/2016 • Deixe um comentário

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(Agora é mesmo tarde. Não precisamos mais de Jules Verne, Isaac Asimov ou Arthur C. Clark para prever o nosso inevitável futuro. Acabo de receber, por meios que, honestamente, desconheço, uma mensagem alarmante, vinda do futuro. Veio de alguém que presumo ser meu descendente. Não posso me furtar a responsabilidade de partilhar esta mensagem com vocês. Chamei-a de O Diário de ‘O Turvo‘)

Dizia ele:

“O Airtrain passou pela minha janela agora, fazendo a vidraça trepidar levemente, num frêmito. Aquela mancha súbita, incômoda, era pior ainda à noite, quando a luz do letreiro da boate em frente tremeluzia, trôpego, me assustando como um fantasma fugidio.

Bobagem ainda acreditar em fantasmas a esta altura da vida, mas, fazer o que? Sou do tempo do crack tecnológico de 2098, a época em que o mundo parou por quase 3 anos, travado pela crise provocada pelo esgotamento súbito das reservas de biocombustíveis, que culminou com a desertificação parcial das terras do sul do planeta, levadas a beira da esterilidade total pela monocultura energética, e pelos efeitos catastróficos da Grande Enchente, no Norte.

Evento há muito tempo esperado, como resultado irremediável do aquecimento global, esta inundação catastrófica só ocorreu mesmo, subitamente, no ano novo de 2095.

A maior entre todas as tragédias da humanidade, na qual milhões de pessoas desapareceram, a Grande Enchente foi como se retornássemos ao dilúvio bíblico. Ao fim do processo, o refluxo das águas, incompleto, formou no centro da Europa, uma região aprazível, denominada Grandes lagos do Norte, onde os milionários do mundo e as grandes instituições que governam o planeta se fixaram. Tornada, no entanto a última opção de combustível abundante, capaz de dar vazão a grande demanda de consumo energético do modo nababesco de vida dos povos do Norte, a água dos Grandes Lagos, logo secou.

Ao Downtime, como ficou conhecido o apagão energético do mundo, se seguiu então a chamada Guerra da Água, conflito ocorrido nas Américas, com milhares de mortos e envolvendo os Estados Unidos e o México (associados às potências européias), contra os aliados Brasil, Venezuela, Colômbia e Bolívia, pela posse da bacia hidrográfica do Amazonas. A Guerra da Água foi de um barbarismo sem precedentes. Nela, pela primeira vez na história, foram usados combatentes zumbis, soldados induzidos á lutar até morte, com as mentes controladas por computadores.

Derrotadas, as nações do Sul passaram a ser obrigadas a comprar a sua própria água que, desviada pelo Aqueduto internacional para as terras do Norte, é vendida hoje em tonéis, cujo preço exorbitante torna o abastecimento de água para as populações dos desertos do Sul, um problema dramático.

A Guerra e o Downtime tiveram, contudo, alguns poucos resultados benéficos. Um deles foi volta de muitas de nossas crenças mais primitivas, hábitos culturais antigos – tais como este, de acreditar em fantasmas, em Deus ou mesmo na redenção do ser humano, esta coisa patética em que nos transformamos.

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Este incômodo com a mancha instantânea do Airtrain só me ocorre assim, nas noites de insônia. Quando mergulho nestes tristes e melancólicos pensamentos de saudade dos velhos e bons tempos que se foram, para sempre. Ah, quanto não daria para ter um copo de leite morno nestas horas. Deus do céu, entre todas, esta é uma das maiores e mais insuportáveis provações.

Não existe mais leite na Terra. As vacas há muito se foram deste mundo. Meu bisneto viu uma delas num holograma do VirtualZoo de sua escola. Teve pesadelos durante três dias. Disse que foi do nojo que sentiu, ao ver que as pessoas bebiam aquele líquido infecto, que saía das entranhas de um animal tão gordo e asqueroso.

Ah, uma gota, um sorvo só que fosse, deste líquido precioso e abençoado, que não provo há mais de quarenta anos. Acho que, como um elixir da juventude, este sorvo me remoçaria.

Parece mesmo loucura lembrar como as coisas eram antigamente. Quem poderia imaginar que não criaríamos mais animais para matar a nossa fome? Quem suspeitaria, há 100 anos que fosse, que esta história de cadeia alimentar seria, um dia, apenas mais uma das remotas lembranças de nosso passado biológico? E que, mesmo assim, o tardio da decisão de preservar a vida animal na Terra, nos tivesse privado da maioria das espécies que havia? Estas milhares de coisas exóticas que vemos agora nestes tristes e melancólicos hologramas dos VirtualZoos escolares.

Sim. Estamos quase sós no planeta, nossa velha natureza é agora mais pobre e medíocre do que jamais foi. Com força de vontade, se poderia enumerar, no máximo, umas seis espécies de animais ainda não extintas, e isto, contando conosco, é claro. Não é preciso nem pensar muito: Sobreviveram os Cães, os Pombos, os Corvos, os Ratos e as Baratas.

Vi na Hologram-Tv outro dia que há num certo canto remoto do Brasil, uma tribo que come os seus próprios cães e domestica seus ratos, segundo eles, os da tribo, excelentes farejadores de dejetos orgânicos, outro hábito cultural surgido na época do Downtime e praticado pelos endinheirados do Norte, pobres de espírito, que pagam caríssimo pelo produto, cuja venda é controlada por um grande cartel de traficantes denominado ‘The Monopol‘.

Os dejetos, conhecidos pelo estranho nome de Cocablood, distribuídos sob a forma líquida ou pastosa, são considerados uma iguaria afrodisíaca. Era de se esperar uma reação como esta diante do insípido hábito que adquirimos de ingerir pílulas. Asco. É por estas e outras que tenho desprezo profundo por estes tempos modernos. Principalmente por sua fauna.

Ontem saí de casa depois de seis meses de reclusão. A idade avançada reduziu bastante o meu apego pelos passeios, mesmo os noturnos. Não estou mais tão benevolente para aceitar ficar sendo observado, fotografado, quase tocado por estes inconvenientes jovens Seestrangers, que ficam postados em frente a minha janela; gente que nunca viu, assim de perto, um ser humano real, como éramos antes do Downtime. Definitivamente não me agrada ser este tipo de celebridade.

Na verdade sou mesmo quase um bicho raro. Como caminhamos para o ponto onde não existirão mais as antigas diferenças estéticas, biotípicas entre as pessoas, o aspecto que os seres humanos mais novos (‘normais’ como já se diz, com certo desprezo pelos mais velhos) adquiriram, é tão diferente de mim, que sou conhecido aqui no meu bairro como ‘O Turvo‘ (uma alusão ao tom pardo e baço da minha pele, bem diferente do tom claro e brilhante da pele dos mais jovens), sofrendo, todas as vezes que saio às ruas, os constrangimentos mais absurdos que se possa imaginar.

Meu bisneto tentou me convencer um dia destes a aceitar a proposta que um professor de sua escola lhe fez, para que eu, em troca de algum dinheiro – uma verdadeira fortuna, na verdade – posasse como modelo, para imagens holográficas a serem disponibilizadas aos alunos no VirtualZoo local.

_” Como as imagens da vaca?” – Indaguei, para que ele se lembrasse do que sentiu pelo bicho que dava leite e que tanta má impressão lhe causara. Ele não compreendeu a sutileza. Tive que rejeitar a idéia, veementemente, com argumentos bem mais diretos.

Não temo afirmar que a extinção total da diferença entre as raças, ocorrida em 2099, foi de um pragmatismo por demais cruel, (atributo que, infelizmente, se tornou corriqueiro entre nós). Determinados a abolir um componente de nossa humanidade, considerado então prejudicial á boa convivência entre os povos e as nações, os procedimentos científicos que iniciaram, ao fim de longo debate, a extinção das diferenças raciais foi, em quase cem anos, a decisão mais polêmica tomada pela Cúpula Planetária, instituição criada em substituição da ONU, um pouco antes do Downtime.

(Como se pode observar em qualquer VirtualBook, desmoralizada por um formidável esquema de corrupção, liderado por proeminentes membros do antigo Conselho de Segurança, envolvendo tráfico de armas e negociatas com mercenários, a ONU foi extinta em 2097).

Segundo os especialistas consultados, sociólogos e antropólogos em sua maioria, a diversidade étnica, entre outros inconvenientes (como a inevitabilidade do racismo, por exemplo) seria um recurso já totalmente ultrapassado, do tempo em que a humanidade, do ponto de vista de sua evolução biológica, apenas engatinhava.

O principal impulso a esta decisão, foram os avanços da engenharia genética no século 21, a partir da descoberta das células tronco, o que tornou viável a maravilhosa esperança – para eles –  que será o ser humano homogeneizado, o Homem Mestiço, sem qualquer traço de diferenciação racial. Segundo a minha modesta e suspeita opinião, mais uma aberração, entre tantas, que o homem criou depois que passou a se julgar o Deus de si mesmo.

O processo, no entanto se prevê, poderá incorrer em diversos inconvenientes e muitas consequências indesejáveis, como, por exemplo, já ocorre com o crescente surgimento de movimentos que preconizam a expulsão de pessoas contrárias á homogeneização para os distantes desertos do Sul.

Chamadas pela imprensa de Racialistas, estes grupos contrários á homogeneização, foram criados por clérigos progressistas do Norte, que fundaram o Movimento Racialista da Humanidade (conhecido como a última fronteira da religiosidade humana) que prega a manutenção da diversidade étnica e racial, afirmando que a homogeneização irá produzir uma praga genética pandêmica, que dizimará mais gente do que a Grande Enchente.

Logo após o Downtime, com a explosão dos movimentos migratórios para o Norte, a medida que boa parte do sul do planeta se desertificava, as pressões da Cúpula Planetária acabaram forçando ainda mais a expulsão em massa de racialistas para as áreas desérticas, onde já viviam as populações originais, largadas á própria sorte pelas potências do Norte.

Regredindo, com o decorrer dos anos, a um estágio de civilização primitivo, bem semelhante aos modos de vida dos humanos do início do século 21, a população destas terras do sul, atualmente são governadas pela irmandade dos clérigos racialistas e uma casta aristocrática de emigrados recentes, fugidos ou banidos do Norte, que pregam uma guerra violenta contra os povos do Norte.

As áreas desertificadas da Amazônia e do Sudeste asiático são os habitats mais característicos destes povos, entre os quais os Mulatos do Brasil e os PanChinos da Tailândia se destacam pela selvageria.

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A maioria dos seres humanos, muito em breve, será ‘Flex‘. Não existirão os gêneros humanos, homem, mulher, tais quais os conhecíamos. Serei um dos poucos exemplares vivos dos homens convencionais, Protohetero, como a ciência já nos classifica hoje. Mais um constrangimento que me faz pretender, para mais breve ainda, a minha partida deste mundo.

Os ‘Flex’ não serão homens nem mulheres. A evolução dos seres humanos para o estado ‘Flex’ se tornou um imperativo, na medida em que o intercurso sexual, com fins de procriação, se tornou uma prática totalmente desnecessária entre os humanos. A formidável evolução científica nesta área, possibilitou a implantação definitiva da gestação por meio da inseminação artificial de células tronco, permitindo que qualquer indivíduo, homem ou mulher, passasse a poder gerar e gestar filhos, naturalmente.

A revolucionária inovação, no entanto, não conseguiu abolir, absolutamente, o prazer que, desvinculado da necessidade de haver intercurso sexual, mesmo que simbólico, entre seres de gêneros diferentes, passou a ter exacerbados os seus aspectos mais primitivos,ancestrais, como vício mesmo, ou necessidade atávica cuja saciedade, apesar de transgredir regras sociais atualmente vigentes, precisa ser conseguida, irresistivelmente, a qualquer custo.

Foi assim que o sexo acabou se transformando em droga proibida, cuja comercialização assumiu proporções avassaladoras quando se descriminalizou a prática da pedofilia (outrora tolerada apenas quando praticada por ricos) para fins sexuais amplos, desde que normais e controlados.

A decisão, que causou grande polêmica entre a população, só foi tomada após um disputadíssimo referendo mundial. A vitória dos adeptos da Pedofilia Controlada, como não podia deixar de ser, provocou o surgimento de um mercado clandestino, dominado por traficantes e voltado para o atendimento á clientes viciados naquelas aberrações anteriormente toleradas, tais como a mutilação e/ou assassinato de crianças pra fins de canibalismo.

É comum aqui, por esta razão, a apreensão, quase diária, de comboios de Airtrains, carregados de jovens, meninos e meninas, criados nos desertos do Sul (principalmente no Brasil) exclusivamente, para alimentar este mercado abjeto do Norte.

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Mais um Airtrain passou agora mas não me animei ainda em pegar um. A hora está chegando, mas o esforço mental para pegar um veículo destes, mesmo com o confortável procedimento da Teletransportation, é tão grande – ainda mais na minha idade – que quase desfaleço, só de pensar.

O fato é que morro em breve. Posso saber disto, assim, com tanta convicção, porque as mortes perderam a inevitabilidade natural que tinham antigamente e precisam ser programadas hoje em dia. Como sempre foi com tudo na vida, vivem mais os que possuem dinheiro. Para os pobres a morte é líquida e certa.

Sempre achei este procedimento, chamado popularmente de Morte Legal, um total absurdo, mas, o departamento do governo que cuida do controle populacional já me comunicou: meu tempo se encerra daqui à três meses e exatamente às 16 horas do dia 5 de setembro de 2185 serei declarado oficialmente morto e terei que ser fisicamente apagado. Vivo ou morto, no entanto, 2185 será, com certeza, o meu ano inesquecível.

Por isto pegarei o Airtrain pela primeira e última vez ainda hoje. O processo é simples e indolor, posso garantir. Você mentaliza o seu desejo de embarcar no momento em que algum sinal da vinda do Airtrain se processa. Uma tremida da vidraça, o trepidar do assoalho, qualquer indício é o sinal. Assim que veículo passa pela sua janela, o embarque é instantâneo. Num átimo você está dentro do veículo rumo ao destino que mentalizou.

Sem que os funcionários da LifeDelete saibam, partirei. Os traficantes de matéria são facilmente encontrados no interior do Airtrain. Eles me teletransportarão para as terras do sul sem problemas, a um custo bem em conta, se julgarmos a enorme alegria que terei. Estou decidido a passar meus últimos dias numa tribo do Brasil, minha origem genética, perto de pessoas iguais á mim. Morrer naturalmente, definhando, é o que eu desejo.

Chego até a sonhar com alguém que reze por mim aquelas velhas rezas do passado. Velas acesas, flores. Gurufim com tambores. Talvez um velho Samba na voz da Clementina de Jesus. Incelenças, ladainhas. Pontos de Jongo ou de Macumba. Velhos rituais ancestrais do tempo em que tínhamos ainda resquícios de humanidade.

A vidraça tremeu. Não sei por que, no meio dos pensamentos de embarque, surgiu o rosto dela, daquela que foi a minha última mulher, exatamente como estava no dia em que nos conhecemos. O vestido estampado, as pequenas flores de flamboyant no cabelo. Linda. Ah! Como é doce esta felicidade. Aos meus sonhos mais antigos, portanto, satisfeito e conformado eu vou.”

Spírito Santo
em algum momento de 2008 (ou seria 2007?)

 
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