Black Blow Up. Nós na câmera da escravidão obscura.

•01/12/2013 • 2 Comentários

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Partida para a colheita de café com carro de boi- Vale do Paraíba do Sul - 1885. Marc Ferrez/ Coleção Gilberto Ferrez/ Acervo Instituto Moreira Salles.

Partida para a colheita de café com carro de boi- Vale do Paraíba do Sul – 1885.
Marc Ferrez/ Coleção Gilberto Ferrez/ Acervo Instituto Moreira Salles.

Esquadrinhando uma foto de Marc Ferrez

( Leia as elucidativas legendas passando o mouse pelas imagens)

Em meados dos anos 1970, ainda desenhista de arquitetura dos Correios e Telégrafos, mas já escalavrando sítios culturais por aí, saindo de uma inspeção numa agência da empresa em obras na Rua da Quitanda, no Rio de Janeiro, me vi lá pelas tantas diante de uma curiosa loja antiga, do século 19, com ares de um sebo literário, algo assim.

Casa Marc Ferrez”, estava escrito num letreiro.

Uma luz branca piscou na minha cabeça de negro. Um flash. Foto em Preto&branco. Havia acabado de enveredar pela pesquisa de fotos sobre a escravidão, coisa raríssima de se encontrar na época, restrita a algumas poucas coleções particulares, inacessíveis ou a uns poucos livros enormes, de capa dura, editados em edições limitadíssimas, mais inacessíveis ainda aos vis e duros mortais feito eu.

Havia visto já em algum lugar umas fotos desta época eletrizante, os primórdios da fotografia, assinadas por um dos mais famosos fotógrafos de então: Marc Ferrez. Liguei na hora os fatos: Casa Marc Ferrez, um estabelecimento remanescente de um outro do século 19 só podia ser a velha loja e laboratório do grande Marc Ferrez, sobrinho do outro Marc Ferrez vindo com a chamada Missão Francesa (na verdade um grupo de exilados bonapartistas) para o Brasil em 1816.

E era.

Entrei emocionado. Bem jovem ainda, jamais poderia imaginar que o passado pudesse ficar preservado assim, por tanto tempo. Foi ali que soube da existência de negativos de vidro, daguerreótipos, carte de visites e outros suportes fotográficos antes do papel. Logo abordado por um velho e atencioso senhor chamado Gilberto Ferrez, tão emocionado quanto eu, ouvi rápidas histórias sobre o legado de seu  avô. Confirmei ali que Marc fizera sim muitas fotos da escravidão, mas elas não estavam disponíveis em nenhuma publicação ainda.

Foi aí que o vírus de investigador e esquadrinhador de imagens foi inoculado em mim. Comecei a encontrar fotos de Marc por todo canto, mas sempre quase nada de suas imagens sobre escravidão.

Este hiato imperdoável, fruto evidente de nosso racismo residual, mas também motivado por fatores muito mais complexos, tais como o nível ainda excessivamente aculturado de nossa historiografia, aferrada demais à metodologias canônicas, que subestimam ainda a importância da iconografia (e da História Oral) como elementos de análise historiológica válidos, este hiato renitente enfim, está começando a ser preenchido.

Só agora, com a caixa de Pandora da internet arreganhada é que estas imagens começaram a afluir. Titio tem publicado na rede, entusiasticamente tudo que descobre neste campo. Me empolga demais quebrar estas vidraças egoístas. Vejam só por exemplo:

(O Museu de Arte Contemporânea da USP, em parceria com o IMS, abriu no dia 28 de outubro, a exposição Emancipação, inclusão e exclusão. Desafios do Passado e do Presente – fotografias do acervo Instituto Moreira Salles, com  fotografias de Marc Ferrez, Victor Frond e George Leuzinger, entre outros. A curadoria é de Lilia Schwarcz, Maria Helena Machado e Sergio Burgi.

A mostra com 74 imagens, inclusive originais de época, analisa o registro fotográfico feito sobre negros – livres, escravizados ou libertos – no Brasil, em um período em que vários fotógrafos estrangeiros atuavam no país com trabalhos com forte elaboração estética e formal. )

“…A fotografia de escravos e ex-escravos no Brasil tem uma particularidade: de um lado, a fotografia entrou cedo no país contando, já nos finais dos anos 1860, com clientela certa, que dentre outros incluía o imperador d. Pedro II; ele próprio um fotógrafo.

De outro lado, a escravidão tardou demais a acabar, guardando o Brasil a triste marca de ser o último país do Ocidente a admitir tal tipo de sistema. Dessa confluência resultou um registro amplo e variado desse sistema de trabalho e de seus trabalhadores.

 As crianças e os adolescentes, poupados da caminhada eram transportados na carroça, talvez para não atrasar a viagem. O garoto da extrema esquerda, já quase adulto, tem sinais de ter problemas renais. O da extrema direita está morto de sono. Todas as crianças olham para a câmera com certo ar de enfado, talvez já acostumados com poses para fotografia.

As crianças e os adolescentes, poupados da caminhada eram transportados na carroça, talvez para não atrasar a viagem. O garoto da extrema esquerda, já quase adulto, tem sinais de ter problemas renais. O da extrema direita está morto de sono. Todas as crianças olham para a câmera com certo ar de enfado, talvez já acostumados com poses para fotografia.

Por vezes tomados ao acaso, por vezes figurando como modelos exóticos ou tipos para a análise da ciência; ora como parte do cenário, ora como figuras principais, escravizados foram flagradas nas mais diversas situações. “

…”Mas se a operação de converter os indígenas em “objeto de estúdio” fazia parte dos cânones românticos de época, mais difícil era captar o dia a dia da escravidão e do trabalho forçado. Grande contradição do Império brasileiro, o sistema escravista foi abordado por diversos fotógrafos, autônomos ou apoiados pela Coroa.

Particularmente nos anos 1870 e 1880 proliferaram as fotos de escravizados, revelando, por sua regularidade, de que maneira o sistema andava naturalizado entre nós e disperso por todo país. Negros figurariam em cartes de visites, mas também nos documentos científicos.

Estariam também presentes nas fotografias de paisagem e na documentação do trabalho nas fazendas de café realizadas tanto por Victor Frond nos anos de 1859 e 1860, como por George Leuzinger por volta de 1860, e Marc Ferrez na década de 1880.  Em todos esses casos vemos a montagem da representação naturalizada da escravidão: tudo em seu lugar.”

“…Contando… com clientela certa”.

A afirmação expressa no texto da curadoria soa contraditória aos mais argutos quando entendida como um ensejo para “um registro amplo” de nossa escravidão. Ora, é por demais evidente que havia uma diferença enorme entre os interesses desta “clientela certa” (e dos fotógrafos a serviço dela) gente esnobe e escravista e os interesses dos escravos. Isto só poderia gerar uma iconografia travada, velada, de modo algum uma ‘variada visão’ do sistema de trabalho e de seus trabalhadores”

É onde peca, claudica a nossa historiografia mais convencional, sempre parcimoniosamente crítica, quase conivente. Uma simples comparação com a iconografia norte americana do mesmo período já nos dá a justa medida do quanto fomos -e somos- excludentes e seletivos (racistas, por suposto) também em nossa fotografia, nas imagens subalternas e comedidas que os nossos fotógrafos de antigamente (a maioria estrangeiros, diga-se) fizeram de nossa realidade escravista.

É pouco ainda. Observem que são apenas 74 imagens reveladas agora por esta exposição (algumas na verdade nem tão inéditas). Eu próprio já conhecia algumas há tempos, de ver aqui mesmo no internet, pesquisando para o meu livro “Do Samba ao Funk do Jorjão“.)

Nestas fotos nenhuma reportagem, nenhuma violência flagrada, nenhuma vítima acorrentada ou manietada num pelourinho, nem mesmo ferida, aleijada, nenhuma máscara de flandres no rosto de uma escrava, nenhum tronco, nenhum instrumento de tortura sequer insinuado num canto de cena, algemas, correntes, nada.

As expressões de todos os homens demonstram desagrado de estarem ali posando. Em alguns, os mais velhos (como este um pouco mais à frente) e o da extrema direita, o olhar é quase de ódio contido. Observem que o da extrema esquerda não esconde  a expressão de uma raiva sarcástica.  O homem ao centro (como o adolescente do corte 01) também tem no inchaço do rosto, sinais de ter problemas renais.

As expressões de todos os homens demonstram desagrado de estarem ali posando. Em alguns, os mais velhos (como este um pouco mais à frente) e o da extrema direita, o olhar é quase de ódio contido. Observem que o da extrema esquerda não esconde a expressão de uma raiva sarcástica. O homem ao centro (como o adolescente do corte 01) também tem no inchaço do rosto, sinais de ter problemas renais.

Isto tudo aí, anti ícones a serem escondidos está mal flagrado em gravuras, como se esta parte fosse uma iconografia do século 18, quando nem havia fotografia ainda. É que gravuras e desenhos não são dados “sérios“, exatamente críveis, qualquer um pode afirmar que aquilo ali descrito nunca existiu.

As imagens que legaram estes retratistas do século 19 foram sim, cuidadosamente controladas e censuradas, de modo algum representando, como dizem com ênfase equivocada nesta resenha, a tal visão “ampla e variada” de nossa escravidão.

É particularmente inquietante o fato de todas as imagens serem rigorosamente posadas, cenograficamente montadas, grande parte com figurino cuidadosamente produzido, muito mais do que flagrantes instantâneos da realidade, vocação precípua da arte fotográfica, uma espécie de arranjo congelado – e não refiro a baixa velocidade dos filmes da época – frames armados de uma ópera em slow motion, com os pobres atores imobilizados, amarrados por correntes invisíveis.

Nem mesmo as pitorescas cenas de rua, com escravos dançando ou amontoados em grupos de “negros de ganho”, tão comuns na obra de artistas como Rugendas e Debret, aparecem nestas fotografias, dando-nos a pertinente impressão de que uma meticulosa censura se não ocorreu na fonte, na captação destas imagens, ocorreu no controle dos proprietários dos acervos resultantes, ciosos de manter ocultas imagens mais constrangedoras e incômodas de nossa escravidão.

É prematuro, contudo se atribuir esta censura imagética a uma suposta conivência ou subordinação dos fotógrafos aos ditames de sua ‘clientela‘. Observemos que a maioria esmagadora destes registros aparecidos, são oriundos de acervos privados, ou seja quase nada foi ainda liberado para acervos públicos, livremente acessíveis à pesquisadores, que têm que se conformar com acervos privados, gradativamente tornados públicos por beneméritos como a família do banqueiro Walter Moreira Salles.

“…Mais uma vez, a forma precisa e estetizada se fazia presente nos cestos bem montados, nas vendeiras dispostas de maneira equilibrada e com panos das costas detalhadamente expostos, nos carregadores de liteiras bem postados. Aí estava novamente o espetáculo de uma escravidão pacífica e sem contestação. No entanto, essas fotos urbanas denunciam igualmente precariedade, indisciplina e certa ausência de controle do trabalho escravo nas cidades.”

Pode existir também – forçoso colocar – algum cuidado ou mal estar dos historiadores atuais de trazer a público imagens mais chocantes de nossa escravidão, que porventura lhes chegue as mãos, num momento em que a maioria dos historiadores ainda é gente branca, de algum modo marcada ainda por algum racismo ou preconceito residuais.

Não se têm por isto mesmo – e isto é um dado crucial nesta questão – a mais vaga ideia do volume de negativos ainda resguardados dos olhos de nós todos, objetos de heranças, aguardando o interesse de compradores ou simplesmente perdidos, esquecidos em gavetas familiares por aí.

É bastante provável por tudo isto, do mesmo modo como ocorreu com a iconografia sobre o negro dos EUA depois das lutas pelos direitos civis, que cenas mais realistas, jornalísticas de nossa escravidão comecem a aparecer na medida em que as cotas nas universidades aumentem o contingente de historiadores negros, interessados em revolver de vez estes inestimáveis dados de nosso passado e as bancas de mestrado e doutorado se tornem mais especializadas no assunto a ponto de ensejar pesquisas menos evasivas ou superficiais.

“… Entretanto, é a partir de uma atenção aos detalhes que os negativos fotográficos registraram, que podemos vislumbrar muitos momentos e ângulos de autonomia e de vontade própria por parte dos fotografados, possibilitando uma leitura a contrapelo ao sentido geral das imagens.

O fato é que a possibilidade atual de ampliar os negativos permitiu que trouxéssemos à tona o registro de detalhes de primeiro e de segundo planos. Hoje, com as novas técnicas é possível buscar ângulos recônditos das fotografias, muitas vezes desconhecidos pelo próprio artista que registrou a cena.

Embora o fotógrafo do XIX não pudesse revelar suas fotos em proporção mais ampliada, o negativo que ele nos legou permite, e é esse o convite que fazemos nessa exposição. A partir de recortes das imagens, vemos gestos e olhares que conferem singularidade aos indivíduos fotografados, fossem eles escravizados, libertandos ou libertos.”

É assim, seguindo as possibilidades instigantes deste novo caminho (na verdade e sem falsa modéstia devo reafirmar aqui que o Titio pode ser considerado um dos precursores mais animados desta abordagem iconográfica) que sigo esquadrinhando minúcias e blowups desta foto, descobrindo até, como faço aqui, agora, esfuziante como uma criança, detalhes que pouca gente ou ninguém viu.

Incrível! Acredite quem quiser (adeptos de São Tomé vão entender.)

Ai Jesus! Escravos brancos europeus?! Como assim.

As mulheres e seus bebês não são de modo algum aliviadas. Na verdade são mais prejudicadas que os homens na caminhada porque caminharão a pé com o peso da crianças e as bacias, nas quais, provavelmente carregam víveres e providenciais guarda chuvas. Calma! Já vi. É disto que estou falado: Tem um gajo inteiramente portuga ali no meio da negrada.

As mulheres e seus bebês não são de modo algum aliviadas. Na verdade são mais prejudicadas que os homens na caminhada porque caminharão a pé com o peso da crianças e as bacias, nas quais, provavelmente carregam víveres e providenciais guarda chuvas. Calma! Já vi. É disto que estou falado: Tem um gajo inteiramente portuga ali no meio da negrada.

Calma. Posso explicar tudo e exulto já de antemão diante da surpresa de vocês. Fiz um esquadrinhamento meticuloso desta maravilhosa foto de Marc Ferrez e posso, praticamente provar uma tese minha, antiga que sempre irrita os militantes negros mais xiitas: a de que o sistema de trabalho escravo não se confundia, exatamente com o sistema racista implantado e aperfeiçoado logo após a abolição.

Sim, sim! Escravos brancos, europeus! Uma descoberta surpreendente esta que eu – e sei lá mais quem – acabo de fazer.

Ninguém – nunca ouvi falar até hoje – viu o que vi porque…sei lá, talvez seja porque, normalmente olhamos numa fila de escravos, apenas negros africanos, uma massa amorfa de gente preta e nem ligamos para a humanidade ou a individualidade de cada uma das pessoas ali flagradas, nunca as olhamos nos olhos. E daí perdemos a parte melhor do filme.

Eu não. Cri cri, perdigueiro, amo os detalhes e as minúcias de paixão.

Quero entrar naquele tempo, ser uma daquelas pessoas, viver a história delas, mesmo que vá doer. Fiz assim alguma investigação para embasar o melhor possível esta minha mui inusitada afirmação. Macaco véio, estou vacinado já contra os narizes torcidos e a parcimônia dos mais doutos diante deste meu dom involuntário para descobrir fissuras e detonar o senso comum.

Aconselho, portanto a todos que afirmam que o Titio “viaja”, guardar o ceticismo para depois. Senão vejamos:

…Os imigrantes portugueses figuravam no estrato mais baixo da sociedade do Rio de Janeiro na segunda metade do século XIX, ao lado de negros e mulatos. Os portugueses e os negros habitavam o mesmo espaço geográfico, frequentemente dividindo o mesmo cortiço e compartilhavam da vivência na cidade…

…No caso da imigração portuguesa para o Rio de Janeiro, ela se intensificou quando o tráfico negreiro ainda estava em pleno funcionamento. Tratava-se, sobretudo, de uma imigração de jovens açorianos com idade entre 13 e 17 anos (a mesma média de idade dos escravos trazidos da África (grifos meus).

Na época, havia denúncias de que os navios negreiros também eram usados para trazer esses jovens portugueses para o Brasil, que eram chamados de engajados. Os jovens assinavam um contrato com o capitão do navio no qual, em troca da passagem de navio, se comprometiam a trabalhar para algum senhor no Brasil. O capitão do navio vendia o passe desses portugueses para o senhor, no valor da passagem e, ao pagar, o último adquiria esse trabalhador.

Os engajados tinham que pagar a soma do valor da passagem através de trabalho gratuito, cujo tempo era estipulado pelo próprio senhor, muitas vezes chegando a três ou cinco anos. Os imigrantes que se evadissem das terras antes do término do contrato eram tidos como “fugidos”. Todas essas características aproximavam os imigrantes portugueses da condição social dos escravos no Brasil.

As péssimas condições a que eram submetidos esses imigrantes portugueses no Brasil se refletiam nas estatísticas. Entre 1850 e 1872, a maioria dos adolescentes portugueses que desembarcavam no Rio de Janeiro morriam três anos após a chegada ao Brasil, vítimas de febre amarela, das más condições de moradia e das jornadas exaustivas de trabalho. Era a denominada “escravidão branca”, denunciada pela imprensa da época.

A maioria dos imigrantes portugueses na cidade era de adolescentes e jovens do sexo masculino, analfabetos, oriundos de zonas rurais de Portugal, completamente despreparados para enfrentar a vida numa metrópole do porte do Rio de Janeiro.

Fonte: “Dos fadistas e galegos. Os portugueses na capoeira” /Carlos Eugênio Líbano Soares:

Viram só? Quem diria? Como nunca nos apercebemos deste fato tão candente? Digo assim, de vê-lo fotografado, tão cabalmente demonstrando a tese de Líbano Soares. Alguém aí, algum outro historiador mais do ramo sabia disto, dos portugueses na foto de Ferrez? Se há algum bidu antes do Titio me responda: Porque diabos este flagrante andava escondido de nós, o pá?

Já cansei de dizer: Não tenho a menor pretensão de desmontar o estabelecido. Ocorrem comigo naturalmente estas coisas. Tirocínio de futucador, de bicho carpinteiro, faro, intuição, mero acaso, sei lá. Fazer o quê? Afinal era só olhar para ver.

No ensejo, abro para todos vocês o meu detetivesco e leigo método de esquadrinhamento de imagens antigas, que muito tem adiantado a minha vida de pesquisador, fatiando a foto em sub-fotos, micromilimetrando minúcias, desvendando em blowups os detalhes mais invisíveis aos olhos distraídos, supondo com insights e palpites para depois sair catando as provas por aí.

E aqui…Ai, Jesus! Outro escravo portuga! São dois os portugas!

E o portuga com cara de revoltado? Como seria a vida destes gajos ali no meio de gente tão diferente, pagando a aventura de emigrante com a servidão, melhor que os outros, já que tinha a alforria programada (mal sabia ele que apenas três anos depois a abolição para todos viria, de qualquer jeito.)

E o portuga com cara de revoltado? Como seria a vida destes gajos ali no meio de gente tão diferente, pagando a aventura de emigrante com a servidão, melhor que os outros, já que tinha a alforria programada (mal sabia ele que apenas três anos depois a abolição para todos viria, de qualquer jeito.)

Ah…Como viram, não resisti também de comentar corte a corte (passe o mouse nas imagens que as legendas aparecem), instigado em poder partilhar com vocês o olhar das pessoas da imagem, tateando a alma delas, agora liberadas para nos repassar suas mensagens cifradas naquele instante da foto, deixando de ser meros avatares de um sistema para serem de novo gente comum, como eu ou vocês, assim, num ampliador reveladas para o futuro, alforriadas.

Deixe então tudo de besta que traz dentro de si, a empáfia o ceticismo vazio e a arrogância, largue tudo na antessala deste senso comum embolorado. Entre vazio de certezas neste portal de forevers. Convido-os a cair dentro desta câmera obscura, para nos reconhecermos brilhando dentro dos olhos destas pessoas, quase a abraçá-las.

 E por fim...Ela, a mais nova e mais bela, a insolente e abusada. Entre todos a única pessoa que desafia a câmera. Que rebeldias terá feito na vida? E o portuga? Como seria a vida destes gajos ali no meio de gente tão diferente, pagando a aventura de emigrante com a servidão, melhor que os outros, já que tinha a alforria programada (mal sabia ele que apenas três anos depois a abolição para todos viria, de qualquer jeito.)

E por fim…Ela, a mais nova e mais bela, a insolente e abusada. Entre todos a única pessoa que desafia a câmera. Que rebeldias terá feito na vida?

E qual terá sido o final deste filme emocionante? De que importa? Blow Up não tem fim, como naquele filme do Antonioni, estão sabendo?

Spirito Santo

Dezembro 2013

Penachos de Nzambi a Npungo. O Misifio de Aruanda é do Kariri

•30/08/2015 • 1 comentário

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Minas Gerais, 1888/89. Grupo de Congada  (aparentemente um terno de catupé) em festa de comemoração da Abolição da escravatura, recém promulgada. A maioria dos participantes (tocadores de “ganzás”/reco recos) usam penachos indígenas. Atenção para o orgulhoso “capitão” do terno e as fardas dos “soldados (sendo um descalço) “, em modelito Guerra do Paraguai)

O mimetismo como princípio atávico da cultura preta, branca, humana enfim

Não é, de modo algum academicismo ingênuo, sexo dos anjos, bizantinice. O tema é que tem – como todo assunto-delícia – doses generosas de subjetividade. O prazer instigador das hipóteses, alimento essencial da construção do conhecimento humano.

Penachos, cocares de indígenas daqui e dali.

Detentores de um mistério ainda a ser revelado por novas pesquisas, os “caboclos” (“Índios“) parecem guardar uma estranha relação com os “nkisi“, entidades religiosas angolanas que aparecem, insistentemente sob esta forma ameríndia em cultos afros brasileiros desde, pelo menos o final do século 19.

(Para os leigos e os inocentes, Titio informa que “nkisi“, no vernáculo kikongo, língua angolana da qual a palavra é oriunda, significa, literalmente “imagem”, “Ídolo“. É, exatamente o mesmo sentido que tem a palavra “Orisa“(orixá), do vernáculo yoruba para os adeptos do candomblé.

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    Século 19 – “Nkisi” angolano com penacho

    Ídolo” com o sentido de representação gráfica ou escultórica ou mesmo teatral de uma entidade espiritual, o mesmo que “Santo” no catolicismo português. Uma imagem de “Santo Antônio”, por exemplo, como as encontradas em escavações de sítios arqueológicos ligados à escravidão nas Américas (inclusive, se não me engano, Palmares) pode, por isto mesmo ser chamada de “Nkisi”. Do mesmo modo, um devoto incorporado, tomado por uma entidade mística africana qualquer, pode se entender tomado “pelo seu santo”. É o mimetismo semântico provando que também as palavras, como as ideias e as memórias, se acasalam.

A classificação “caboclo-nkisi“, a propósito, pode parecer sim um tanto leviana, ou gratuita, quando consideramos que não deveria ser tão inusitado assim, termos manifestações culturais ameríndias nessas regiões do Brasil. Todo mundo sabe, ou intui sobre a enorme presença indígena na formação do povo nordestino, kariri, pataxó, potiguar, só para nos referirmos às etnias ameríndias mais recorrentes.

Mas estamos tratando aqui, mais precisamente é da enorme sintonia, quase simbiose observada entre diversos elementos da estética, do vestuário, da ritualística ameríndia e mais o que seja, com manifestações religiosas africanas no Brasil e, de certo modo, também no Caribe (“Caraíbas“).

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1950. Festa do Divino. Batuqueiros de penacho da Banda do 3o Batalhão da PM de Diamantina, MG

 

Destaque-se que, com efeito, esta intrigante profusão de índios (“caboclos”) em manifestações culturais ou religiosas, tipicamente africanas chamou muito a atenção de inusitados detratores: acadêmicos proto arqueologistas, reunidos em um Congresso Afro Brasileiro realizado em Salvador, Bahia em 1937. Ando falando muito disso por aqui (Edson Carneiro, Arthur Ramos, etc. esses acadêmicos canônicos, tão célebres)

Essas entidades religiosas denominadas “Caboclos”, com efeito, marcadas por esta espécie de simbiose com as práticas ameríndias citadas, representaram, pelo menos até a década de 1930, livremente (e representam ainda hoje, aqui e ali) uma verdadeira corrente espiritual afro-religiosa, paralela ao chamado “culto dos orixás” yoruba (como uma espécie de seu similar não canônico), corrente esta ligada, aliás, de forma simbiótica como constatamos, muito mais aos cultos afro religiosos de inspiração angolana do que a qualquer outra raiz étnica.

Considere-se também que práticas religiosas angolanas, já com esse processo de acasalamento com as ameríndias avançado na década de 1930, foram também expurgadas no mesmo ensejo, consideradas “impuras”, indignas da chancela de “religião puramente afro-brasileira“. A rubrica ‘Candomblé de Angola“, por exemplo, nada mais é, proponho, do que o enquadramento forçado de práticas originais kimbundo e ovimbundo à uma ortodoxia e ritualística jêje-nagô, como uma espécie de “linha secundária”, subalterna daquela.

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Década de 1950. Fortaleza, Ceará. Na foto integrantes do grupo de maracatu “Estrela Brilhante” . Índios em profusão.

O fato é que essas personagens afro-ameríndias, junto com personagens, entidades e práticas originais angolanas (de matriz kimbundo e ovimbundo, como disse), a partir dessa época, foram então sendo gradual e sutilmente alijadas das manifestações religiosas afro-negras nordestinas (a partir de supostas maquinações políticas que visavam dar um status oficial de “pureza africana” ao estabilishment afro-religioso local, dominado por personalidades nagô ou de ascendência nigeriana ou yoruba)

É a partir da década de 1950, que essas entidades místicas…indígenas (“caboclos-Nkisi”) já asiladas em cultos afro-religiosos denominados “Umbanda” (“Mbanda”) ou “Quimbanda” (“Ki-Mbanda“), tratadas como “magia negra”, charlatanismo barato por puristas do candomblé e da academia, passaram a ser mais encontradas no carnaval do nordeste (Bahia, Pernambuco, Ceará, etc.), com o nome de “Cordões de Índios“, integrando grupos de Maracatu ou mesmo, as vezes fora do carnaval, sob o nome de “Caboclinhos” uma prática cultural bem popular até hoje na Bahia e adjacências.

Esses “Caboclos” ou “Índios“, em contexto cultural digamos assim, profano, foram muito comuns também no carnaval do Sudeste do Brasil. Os mais velhos como este autor tiveram a chance de testemunhar, pessoalmente aqui no Rio, a exuberância dessas figuras típicas da selva, quase ancestrais, vestidas de forma hiper-realista, entre as quais as mais imponentes – e atemorizantes – eram os chamados “Caciques“.

Pesquisas ainda muito preliminares do Titio, atribuem essa proximidade estética entre entidades religiosas ameríndias e africanas, a um ainda suposto mimetismo característico da filosofia (ou da doutrina) dos nkisi da área Mbundo (Ovimbundo-Kimbundo) angolana, que, segundo algumas evidências e docs., podem (devem) assumir a forma, a estética e alguns maneirismos do ambiente onde, eventualmente se encontram.

O processo, aliás, é bastante semelhante ao ocorrido no Palo Mayombe do Caribe (Cuba, Jamaica, Suriname, Haiti) onde, aliás, aspectos rituais de origem Congo/Angola (bakongo, principalmente), alimentados por traços jéje (culturas Ewe/Fon do Dahomey/Benin) geraram marcas ritualísticas e estéticas muito semelhantes ao Vudu haitiano, por sua vez tão aparentado à nossa sobrevivente Umbanda (sem falar na “Casa das Minas” do Maranhão, claro) ou mesmo aos nossos pujantes candombes e nossas vibrantes congadas da angolaníssima Minas Gerais.

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“Gongá” (“ngonga”/altar) angolano-brasileiro com “caboclos” e “preto-velhos” reunidos.

Como se vê, esta simbiose entre culturas negras (e indígenas) de várias partes da África (as que para cá vieram, em maior número) vivem uma vívida sinergia histórica na diáspora negra americana, mascarada, omitida, talvez apenas aqui no Brasil.

Este mimetismo cultural tão claramente expresso nesses exemplos, suponho, pode ser a chave para explicarmos o complexo (e pouco estudado ainda, por puro preconceito) processo de franca expansão da cultura Congo/Angola na Diáspora americana, processo este oriundo talvez, de um idêntico e precursor mimetismo, ocorrido entre a cultura autócne dos bakongo do norte da Angola atual e o catolicismo português introduzido pelos padres jesuítas das expedições de Diogo Cão, ainda no século 15 e, posteriormente por padres capuchinhos, enviados á Angola pela Propaganda Fide do Vaticano, numa época em que o Catolicismo e Islamismo, desempenhavam no mundo, quase exatamente o mesmo papel ideológico que o Capitalismo e o Socialismo desempenharam para o “novo mundo” na Guerra Fria,

Falo portanto da possibilidade da cultura Congo-Angola (mas não apenas ela, quiçá todas as culturas humanas), possuir como uma de suas características fundamentais isto que eu chamei de Mimetismo Cultural, uma capacidade especial, inata de sobrevivência, de adaptação das culturas a um certo meio social, mesmo no contexto de privações inomináveis, quase insuportáveis, como foi a escravidão.

Por este entendimento do Titio, modernas teorias antropológicas ligadas á ‘Mestiçagem“, a “Crioulidade” ou ao ‘Hibridismo Cultural”, sutilmente eugenistas por terem seus pézinhos ainda assentados nas velhas teses (racismo “científico” reciclado, “democracia racial”, etc.) de Nina Rodrigues e Gilberto Freire, não passariam muito de obviedades irrelevantes, ideologicamente capciosas, não muito mais que chuva ácida no molhado da velha desigualdade sócio “racial” de sempre, uma espécie de teoria da manutenção ad infinitum do status quo.

Ora, vamos refletir: se não existem raças, não pode existir “mistura racial“, mesmo no campo estrito da Cultura. Logo não faz muito sentido supor, portanto, que possam existir “predisposições genéticas” identificáveis na cultura de grupos humanos isolados ou próximos, a ponto de se considerar discrepantes, esta ou aquela diferença ou especificidade nos traços culturais de brancos e negros, por exemplo, que possam ser atribuídas à constituição genética de uns ou de outros.

Juntos, porém nunca misturados. Sempre diversos, o que nos torna culturamente diferentes é o meio, as curcunstancias ambientais, a História, a vida enfim, ora!

Seria, naturalmente racista por isso mesmo, toda teoria que supõe ou sugere a possibilidade de existir algum tipo de possível dicotomia sócio “racial” (tal como: culturalmente brancos – só por serem brancos – seriam assim: “pragmáticos” e os pretos, por razão similar seriam assados: “intuitivos” – por exemplo), principalmente se estas suposições – mesmo insinuadamente – se basearem em algum tipo de parâmetro ligado à “pureza” ou à “impureza” eventualmente embutidas nas características étnicas de cada grupo.

A bibliografia em torno de temas dessa praia afro-brasileira tão encapelada de ondas turvas, está bastante contaminada por esses desvios…epistemológicos de seu passado. Ainda hoje nossos estudos acadêmicos, infelizmente se valem de uma bibliografia predominantemente racista (o monstro insiste em não morrer), embora cada vez mais sutil e ardilosa.

Falta-nos uma antropologia menos laudatória desses cânones rasos todos, mais interessada em sair em campo para quebrar seus mitos interesseiros e se assumir como ciência com probidade. Falta muito a investigar, pesquisar, atestar e escrever: A incúria de nossas ciências sociais em seus vícios coloniais e sua renitente mania de nos dividir para imperar é imensa e antiga.

A inusitada existência de penachos e cocares de indígenas americanos na cabeça de gente descendente de ex-indígenas africanos, bem como a sistemática exclusão destes do âmbito dos terreiros da Bahia, por parte da academia e da casta nagô, a partir de 1937, sob pretextos ideológicos deslavadamente puristas, pode nos dizer muita coisa sobre isso.

Pois é. Assim Titio vai aprofundando o assunto, por aqui ou, oportunamente por ali, um dia após o outro. Enquanto isso, reflita por si mesmo.

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Índios brasileiros reais visitam terreiro de Umbanda

Mas a saga maravilhosa do “Caboclo-Nkisi” não acaba assim, não acaba nunca.

Já nos provisórios finalmentes desse post, na hora mesmo de passar a régua de uma última revisão de conceitos, eis que me surge a visão do quão sem fim é este fio de meada tão enovelado na relatividade mais incrível dessa vida:

O que serão esses blocos de índio de Salvador, Bahia, gente? Alguém já estudou isso? Mas estudou mesmo? Sim, porque tem muita gente que pensa que a História avança aos saltos.

Nascidos, segundo consta no fim da década de 1960. Soube de ler por alto que foram inspirados dos grandes blocos de índios do Rio de Janeiro (Cacique de Ramos, por exemplo, que é o padrinho do Apaxes de Salvador) todos, vamos pensar bem, tanto em Salvador quanto no Rio, blocos tipicamente afro-brasileiros, com massa de foliões majoritariamente negra.

De onde veio isso? Claro que não pode ter nascido assim, do nada, sem fundamento ou passado.

Certo: São todos calcados nos índios do mainstream, índios de hollywood, por suposto, apaches, comanches, sioux, moicanos, mas vamos pensar, vejam lá como é hoje a estética dos “Caboclo-Nkisi” da nossa Umbanda…Vejam lá!

Comanches, sioux, moicanos, ovimbundos, kimbundos…African Red-Black indians, sei lá.

Só sei que é assim.

(A tese, o insight sobre o Mimetismo em especial (versus “hibridismo”, “mestiçagem” essas coisas)- até prova em contrário – é do Titio. Ninguém tasca.

Sobre penachos, diretamente ouvi pela primeira vez interessantes impressões de Rafael Galante e Maria Paula Adinolfi. Podem ser referendadas também como estando no bojo do assunto o trabalho de Ana Stella Cunha).

A propósito, convém enfatizar que os penachos de “nkisi”, ou mesmo em personagens humanos representando entidades, não são, exatamente muito comuns em Angola)

Spirito Santo

27/8/2015
Ano do 6.8 do Titio

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MOCA,1968: Subversão suburbana em pauta no JB

•07/08/2015 • Deixe um comentário

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A arte rebelde no “Refúgio dos infelizes” de infeliz não tinha nada.

Não lembrava, e assim jamais poderia imaginar que a inauguração desta minha sanha de artista, essa inquietude de bicho carpinteiro meio remédio, meio doença, tivesse sido registrada assim tão gloriosamente. Poucos são os que têm esta chance, esta sorte incrível de encontrar à mão portais de seu passado pessoal, uma janela virada para o quintal dos fundos da alma, assim, do nada.

O ensejo é simples e já até o esbocei aqui: Ex-preso político, ando ultimamente à cata de evidências materiais de minha efêmera subversividade, para juntar aos autos de meu pedido de anistia ao Ministério da Justiça. As maravilhas da Internet passaram a facilitar em muito essa busca, pois, acaba de surgir a hemeroteca da Biblioteca Nacional e é lá que inúmeros registros sobre as estrepolias do Titio vão aparecendo.

Minha fama fugidia (sim, porque sou um quase famoso nessa hemeroteca) está condensada em poucos anos, aqueles mais em brasa, os mais decisivos entre 1968 e 1970, com a parte mais traumática concentrada, principalmente no período entre Abril de 1968 – quando sei lá por que forças movido, ajudo a formar um alegre grupo cultural suburbano – e Janeiro de 1969, quando sou preso pela ditadura.

Pois é o virtual início dessa minha saga juvenil que acabo de encontrar, na página 5 do inesquecível Caderno B do Jornal do Brasil de 15 de Maio de 1968, na época o mais importante suplemento cultural o país.

A memória apagou sem deixar muitos vestígios este momento. O trauma da prisão, aliás, apagou quase tudo dessa época. Salva-me esta querida hemeroteca. Pelo que a página do JB sugere, uma jovem jornalista da área cultural do jornal partiu para os cafundós do subúrbio mais distante, muito afim de entrevistar os integrantes de um altamente improvável grupo cultural do fim do mundo, voltado, principalmente para o Teatro e a Música.

A época era a do recrusdecimento da resistência à ditadura militar que, com o racha do que seria o “Partidão” (Partido Comunista Brasileiro) e sua pulverização em várias micro organizações de esquerda, assumia já a forma de luta armada “no campo e na cidade”.

A resistência da classe artística à ditadura, que exercia, como se sabe, pesada censura sobre atividades culturais de qualquer tipo, já era sentida de forma intensa e presumo que foi a militância desta classe artística (conhecida, pejorativamente como “Esquerda Festiva“) que estimulou a jovem jornalista a sugerir essa pauta e ao editor autorizar sua ida, de certo modo arriscada, às cercanias de Padre Miguel, subúrbio tão distante que, na ocasião estava localizado ainda na região conhecida como Zona Rural da cidade do Rio.

A matéria, que ocupa um lugar de destaque no caderno B, é longa, bem escrita e reflete minuciosamente o que éramos – sem que nos déssemos conta – : uma inacreditável e destemida experiência de insubordinação política, praticada por jovens, praticamente adolescentes ainda, baseada na difusão da arte e da cultura num dos cantões mais remotos da cidade.

(E o Titio lá, exatamente como ainda está por cá.)

Passei boa parte do dia de ontem buscando dados sobre Stella Senra, a jovem jornalista autora do artigo. Surpreso, soube que ela ficou famosa, se tornando uma importante especialista em sociologia da imagem, teve uma carreira acadêmica brilhante, participou da Comissão da Verdade e tem uma obra teórica bastante profusa. Infelizmente os registros que encontrei sobre Stella e os desdobramentos de seu trabalho são de 2014 (Leia mais sobre essa admirável pessoa no fim desse post.)

As ações “subversivas” do MOCA, o grupo cultural criado pelo jovem Titio e seus intrépidos amigos quase guris, como não podia deixar de ser, evoluíram rapidamente para o meu engajamento num grupo da esquerda armada (a VAR Palmares), envolvimento este, de aprendiz de guerrilheiro, orgulhoso “pé-de-chinelo”, logo interrompido pela minha prisão numa madrugada chuvosa de uma rua de Padre Miguel.

(_Olha a “Mocidade” aí, gente!)

Como registro curioso do quanto era perigoso fazer arte e cultura naqueles anos, vejam este trecho de uma das matérias que saiu na imprensa da época sobre a minha prisão e o inquérito policial militar que ela gerou:

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A experiência do MOCA, mesmo assim, violentamente reprimida e precocemente interrompida, rendeu muitos frutos. Um dos mais importantes foi a invenção do gente boa Aurélio de Simoni, que se transformou num dos melhores iluminadores de teatro do país, justo ele, aluno do CPOR (um centro de formação militar) que no MOCA não tinha nenhuma vocação artística insinuada e em cuja casa o grupo se reunia. Sem falar nas crias: O MOITA do Méier, ainda de 1968, com um dos integrantes preso junto com o Titio e, que eu me lembre, logo a seguir e surgidos no mesmo subúrbio, o “Garra Suburbana” e o profícuo “Panela de Pressão” do bom amigo Sidnei Cruz, hoje um renomado diretor de teatro.

Feliz demais em re-constatar que nada fiz senão seguir com perseverança – e certa compulsão, confesso – aquela mesma missão do fim da adolescência. É assim que o jovem Titio idoso que sou, insiste:

_”Que bom sobreviver!”

Spirito Santo
Agosto de 2015 (mês dos 68 anos do Titio)

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MOCA, QUANDO A ARTE TAMBÉM VAI AO SUBÚRBIO
Por Stella Senra – 15 de Maio de 1968, para o caderno B do Jornal do Brasil

“No princípio era apenas um grupo de estudantes que viajava no mesmo trem entre a escola, o trabalho e casa. Depois eles começaram a se reunir nos fins de semana em festinhas na casa dos amigos. Moradores do subúrbio eles conheciam bem das limitações de seus bairros, mas foi então que descobriram que a escola lhes abria caminhos que nem todos os moradores do subúrbio podiam conhecer.

Assim nasceu a idéia. Porque não contribuir para que os moradores do subúrbio tivessem também acesso à cultura? Se não tinham condições econômicas para ver peças, ler livros ou ouvir música de boa qualidade, por que não levar até eles o teatro, a biblioteca, a discoteca, à preços acessíveis? A resposta a estas perguntas poderia parecer um tanto ousada para um grupo de jovens sem dinheiro, mas eles se puseram a trabalhar. Foi então que nasceu o MOCA, Movimento Cultural e Artístico. Sua finalidade: Através da arte, levar a cultura à população do subúrbio.

As reuniões do MOCA se realizam nos fundos da casa de um de seus membros, em Senador Camará*. Na parede um mural com recortes de jornal sobre os últimos acontecimentos – a morte de Lhuter King, os conflitos dos estudantes com a polícia do Rio, um crítica de televisão. Na mesa o projeto do cartaz da peça que o grupo está montando. É o rosto de um homem com o título: “Zé Menino, Vida e História“. Ao lado o símbolo do MOCA: Uma seta dentro de um quadrado.

Do pequeno jardim da entrada se escuta o barulho das vozes lá dentro. Risadas e muita conversa tumultuada antes de começar a reunião. Hoje estão presekntes 20 jovens. são os da ativa, os que trabalham para o MOCA em todas as suas horas de folga. Vestem-se muito simplesmente e as moças estão discretamente maquiadas. São os Moquinhas, 36 membros ao todo, moradores de subúrbio, principalmente Campo Grande, Bangu e Realengo. A maioria é de secundaristas, mas há alguns universitários.

Quase todos trabalham para se manter. Por isso só podem se reunir aos sábados e domingos:

_”Nós nos consideramos a classe privilegiada daqui, pois, a grande maioria da população daqui é semi-analfabeta. Conhecemos muito bem o nosso meio e dispomos dos elementos necessários para fazer um movimento que atinja as pessoas nas sua casa, no conforto de seu dia-a-dia e que as faça pensar um pouco. Isto é que é importante, fazer com que as pessoas se façam perguntas” _ explica um rapaz de calça Lee.

Para fazer as pessoas se perguntarem, o MOCA se organizou em três setores: Musical, Teatral e Literário, unidos por uma coordenação. Cada setor tem o seu coordenador e todos os elementos colaboram com ele.

A SOMA DA EXPERIÊNCIA

Antes do grupo começar a funcionar, organizou-se uma pesquisa de opinião pública abrangendo as áreas onde sua atuação seria mais presente. Vários grupos saíram às ruas, falando com as pessoas em suas casas, para conhecer melhor o pessoal, estudar a receptividade que seu movimento encontraria e procurar sugestões por parte dos interessados.

_”Foi uma experiência maravilhosa” _ conta um dos rapazes _ em alguns lugares éramos recebidos com o maior calor. Uma moça ficou tão contente em nos ouvir que acabou contando toda a sua vida. Numa outra casa a mulher de um metalúrgico fez sugestões que nos ajudaram muito. Um casal que estava brigando não quis receber as moças do grupo e o marido mandou-as embora. Depois a mulher pediu desculpas e contou todos os seus sofrimentos com o marido para um segundo grupo que a procurou.

A CONTRIBUIÇÃO DA MÚSICA

Antonio José do Espírito Santo é um dos compositores do grupo e o encarregado pelo seror musical. Sem nunca ter estudado música ou tocar qualquer instrumento já compôs várias músicas. Tem 20 anos, é secundarista e classificou duas músicas** no I Festival Estudantil ano passado: O “Samba de Morte” e “Roda de Sorrir”. Acompanhando-se com uma caixa de fósforos canta com uma voz bonita e sempre rindo a história se uma samba roubado no morro. É o Samba de Morte, que segue a linha de Noel Rosa, tem uma melodia simples e letra muito rica. De vez em quando o grupo canta em coro.

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Titio, com Norma Blum, todo pimpão com o prêmio no festival, três meses após a entrevista de Stella Senra com o MOCA

O plano do setor musical é montar um show para angariar fundos para o grupo. Eles têm dois violonistas, um trio vocal e compositores não faltam. A direção (musical: nota do Titio) da peça que o grupo está montando também está a cargo de Antônio.

O TEATRO ACESSÍVEL

Luiz Alberto Rodrigues tem 20 anos e é o autor (e diretor: nota do Titio) da peça “Zé Menino, vida e história”. Além dessa já escreveu mais duas, mas “Zé Menino” é a primeira a ser montada. Seu contato com o teatro é feito, principalmente a partir da leitura de peças, pois o dinheiro não dá para as entradas.

_”No máximo uma por mês” _ esclarece.

Agora Luiz Alberto está estudando Brecht e dirigindo sua própria peça.

A estréia de Zé Menino está marcada para fins de abril no Teatro Arthur Azevedo, em Campo Grande. Depois grupo pretende correr os diretórios acadêmicos, levar a peça aos clubes de subúrbio e às ruas. “Será cobrada uma entrada mínima, pois, no subúrbio ninguém pode pagar entrada”.

O encarregado pelo setor literário também é Antonio José. O grupo já conseguiu juntar uma biblioteca de cem volumes que deverá ir para as ruas. Futuramente eles gostariam de construir um barracão para ali instalar os livros e uma pequena biblioteca. O primeiro dinheiro que o grupo conseguir reverterá para a biblioteca. Também faz parte dos planos a instalação de um programa de alfabetização e as comissões já estão constituídas.

Stella Senra
15 de Maio de 1968, para o caderno B do Jornal do Brasil

Notas:
* Na verdade as reuniões eram em Guilherme da Silveira, bairro entre Padre Miguel e Bangu
**Havia classificado apenas uma música, que se chamava “Havia”. A música teve excelente desempenho, ficou em terceiro lugar, com o Titio cantor sendo o melhor intérprete

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A então jovem jornalista Stella Senra em foto recente

(Stella Senra é pesquisadora nas áreas de cinema, vídeo e fotografia, com textos publicados em livros, revistas especializadas e catálogos. Foi professora do curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Autora de O último jornalista – imagens de cinema (1997; Estação Liberdade), assina o posfácio de Abbas Kiarostami, de Youssef Ishaghpour (2004; Cosac Naify), e Marcados, da fotógrafa Claudia Andujar (2009; Cosac Naify).

O Orgulho amargo da pitonisa

•25/07/2015 • Deixe um comentário

Publicado originalmente em SPIRITO SANTO:

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Brasil haiti duplo 1-Toussaint L’Overture, líder da revolução haitiana no século 18. 2- Lula da Silva e Renèe Preval, presidente do Haiti no século 21

 Luiz Ignacio hoje e Henry Christoffe ontem:’

Que o o Haiti nunca seja aqui.

(O presente artigo enviado para publicação no jornal on line ‘Observatório da Imprensa’ em meados de 2005, no auge da crise do mensalão foi ‘derrubado’ pelo editor-chefe ou seja, considerado irrelevante ou inoportuno para a pauta daquela edição)

Em 05 de março de 2003, ainda no embalo da euforia generalizada que se abateu sobre a população brasileira com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, escrevi, como colaborador do OI, um artigo o qual, de forma um tanto impertinente talvez, intitulei “ Lula-lá- A classe média enfim vai ao paraíso”, A impertinência do título, por alguma razão editorial, não…

Ver original 2.061 mais palavras

Só Danço Samba (Pobre Samba meu)

•13/07/2015 • 3 Comentários

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Pixinguinha e Tom. Aparentemente (a foto é de uma série) Pixinguinha nesta ocasião ensina acordes de piano à Tom que também faz duetos na flauta, com Pixinguinha ao piano.

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A foto é muito emblemática. Ao que parece,  Tom Jobim e Chico Buarque usam os chapéus de Pixinguinha e João da Bahiana. As expressões e os sorrisos contidos de Pixinguinha e João podem denunciar que eles não “passaram”, voluntariamente os chapéus para os dois. Sutilezas.

O “sambismo” branco elegante da Bossa Nova posto em xeque.

“Pobre samba meu
Foi se misturando se modernizando, e se perdeu
E o rebolado cadê?, não tem mais
Cadê o tal gingado que mexe com a gente
Coitado do meu samba mudou de repente
Influência do jazz…”

————–

Gene Lees, grande crítico musical canadense, escreveu um artigo luminoso sobre a Bossa Nova e Tom Jobim sempre republicado por aí, mundo afora (embora quase nunca por aqui) O artigo sobre Antonio Carlos Jobim, que saiu provavelmente em 1987 ou 1993 na revista JazzLetter (escrita e editada por Lees)  foi também publicado no livro do mesmo Gene Lees “Singers & Song II (Nova Iorque : Oxford University Press, 1998) em um capítulo intitulado “Um abraço no Tom”.

Extraí, indiretamente desse artigo uma nota que publiquei em meu livro ‘Do Samba ao Funk do Jorjão“, muito polêmica porque denuncia a presunçosa arrogância elitista (claramente racista, diga-se) de Tom Jobim ao, desairosamente comparar numa entrevista a Lees, a Bossa Nova (dele e João Gilberto) com o Samba Negro (assim mesmo, adjetivado por ele) de todos nós.

Ora, repito insistentemente por aí, a suposta modernização do samba “negro“- cujo primitivismo é bastante questionável (ora, música é uma linguagem atemporal!) – esta fusão do Samba com o jazz, de autoria atribuída por Tom Jobim a ele mesmo, João Gilberto e a sua (deles) Bossa Nova é uma leviandade em todos os termos.

Quem não sabe que fique sabendo: esta “modernização” ocorrida, no mínimo na década de 1920, teve como precursores evidentes, entre outros, os “primitivos” crioulos Pixinguinha e Donga (e vejam: nesta fusion de ritmos africanos do Brasil e o jazz feita por Pixinguinha e os Oito Batutas, nem havia ainda o rótulo Samba, claramente expresso)

Convenhamos: Tom Jobim, um músico andado e viajado pela cena musical do Rio de Janeiro desde, pelo menos, o final da década de 1950, conhecia Pixinguinha, aprendeu até algo com ele e sempre soube disso. Logo, Tom foi, além de leviano, displicente em sua fala para um arguto crítico musical gringo. A nota que publiquei no livro (de 2011) causa ainda muito frisson nos meios mais laudatórios da obra de Tom Jobim.

A editora da primeira edição do meu referido livro, por exemplo, me chamou, gravemente a atenção sobre a temeridade que seria expor este lado tão politicamente incorreto – inacreditável para ela – de um monstro sagrado de nossa música popular, uma espécie de Villa Lobos da MPB.

Alguns leitores mais deselegantes, chegam mesmo a duvidar das minhas fontes que foram, inicialmente o livro “Sambeabá, o samba que não se aprende na escola”, de Nei Lopes e é agora (instigado por um comentário incrédulo de mais um leitor), diretamente extraída da fonte primária: o artigo de Gene Lees que compartilho aqui – com tradução livre do Titio com a ajuda de seu filhão Thiago Rosa – na íntegra para vocês. Antes, disponham do trecho da fala de Jobim que cito no livro, também no original:

“The authentic Negro samba in Brazil is very primitive. They use maybe ten percussion instruments and four or five singers. They shout and the music is very hot and wonderful.

“But bossa nova is cool and contained. It tells the story, trying to be simple and serious and lyrical. Joao [Gilberto] and I felt that Brazilian music had been too much a storm on the sea, and we wanted to calm it down for the recording studio.

You could call bossa nova a clean, washed samba, without loss of the momentum. We don’t want to lose important things. We have the problem of how to write and not lose the swing.”

Como se pode ver, os conceitos ‘negro“, associado à “primitivo” e “sujo“, associado a “Samba negro“, do qual, segundo Tom a Bossa Nova seria uma ‘depuração“, aparecem – verdade seja dita – bem nítidos na fala textual dele, revelada por Gene Lees, insuspeito por ser seu grande admirador. No bom sentido (e com todo respeito)

Titio quis apenas matar a cobra e mostrar o pau.

———-

Com a palavra, Gene Lees:

“A primeira música que ouvi de Jobim foi “Desafinado”. Dizzy Gillespie executou-a no Salão Sutherland em Chicago, no inverno de 1961-1962, quando Lalo Schifrin estava tocando com o grupo. Mais tarde, no meu apartamento, Lalo tocou a melodia novamente no meu piano, me mostrando as mudanças de acordes. Embora Lalo seja argentino, tinha vivido no Brasil e estava bem familiarizado com a nova música que havia surgido no Rio de Janeiro.

Logo depois eu ouvi um álbum de João Gilberto, a quem muitas pessoas consideram o pai da Bossa Nova (título que não significa nada mais do que ‘algo novo’), e isso só intensificou meu interesse por este notável e sutil balanço, seu acento lírico, particularmente nas músicas de Antonio Carlos Jobim.

Quando no início de 1962 apareceu uma oportunidade para eu passar seis meses na América Latina, incluindo o Brasil, agarrei a chance, em parte porque por muito tempo, nós da América não nos interessamos em saber  algo sobre os milhões de pessoas que dividem o Hemisfério Ocidental conosco .

A este respeito, as coisas não mudaram muito. Mas parte da razão que me instigava era saber mais sobre esta nova música, esta tal de Bossa Nova. E assim, em maio, na nossa primavera, outono no Brasil, eu estava no Rio de Janeiro.

A editora tinha me dado o número de telefone de João Gilberto. Ele não falava Inglês e passou o telefone para sua esposa Astrud. Ela me deu o telefone de Jobim para que eu o contatasse. Jobim me convidou naquela mesma noite para ir a sua casa, à uma curta distância da praia de Ipanema, uma longa faixa de areia em curva, que é uma das glórias daquela cidade. Quando entrei na pequena casa, João Gilberto estava sentado em um sofá cercado por um quarteto vocal chamado “Os Cariocas”.

Ele estava tocando violão e ensaiavam a harmonia de uma canção de Jobim chamada “Só danço Samba”. Eu tinha feito um estudo sobre as músicas de Tom Jobim, e entendia as letras em português. Ele e eu fomos para a cozinha e ele serviu uísque para nós dois. Lembro-me de estar de pé ao lado da geladeira com Jobim me dizendo:

“Eu sou doido, mas ele” – indicando João, na outra sala – “É muito mais doido”

No entanto a maior parte da nossa conversa foi em francês. Jobim falava pouco inglês e eu, pouco português. Sua ascendência era francesa, daí o seu sobrenome.

Eu lhe disse que acreditava que muitas de suas canções poderiam ser vertidas para o inglês e que sabia como fazê-lo. Ele me incentivou a tentar, e antes mesmo de sair do Brasil, eu já tinha escrito letras em inglês para ‘Corcovado “e” Desafinado “, que ficaram conhecidas, respectivamente como” Quiet Nights of Quiet Stars”e” Off Key “. Quando Jobim chegou a Nova York para um concerto no Carnegie Hall, eu o apresentei a Gerry Mulligan, cuja música – pelo testemunho de ambos Antonio e João – foi uma importante influência no desenvolvimento da Bossa Nova.

Na ocasião Jobim me disse:

“O samba autêntico negro do Brasil é muito primitivo. Eles usam talvez dez instrumentos de percussão e quatro ou cinco cantores. Eles gritam e a música é efusiva e maravilhosa demais. Mas a Bossa Nova é leve e contida. Conta uma história, tentando ser simples, grave e lírica.

João e eu sentimos que a música brasileira soava exagerada como uma tempestade no mar, e queríamos torná-la calma, mais adequada à gravação em estúdio. Você pode chamar bossa nova de um samba limpo, lavado, sem perda do clima.

Nós não queremos perder coisas importantes. Só temos o problema de como compor sem perder o balanço. “

E eles não perderam. Influenciaram o jazz americano quase tão profundamente quanto o jazz americano os havia influenciado Com o passar dos anos, Jobim continuou a se desenvolver. O samba não é, de modo algum o único ritmo tradicional do Brasil.

A influência de África é muito profunda, particularmente no norte e o folclore musical é muito rico. Nos anos seguintes Jobim passou a refletir em sua música esta tradição musical variada; os anos da bossa nova ficaram para trás. Cada vez mais suas canções passaram a refletir seu interesse pela ecologia do planeta e sua destruição.

“Estamos construindo um deserto, meu amigo”, ele me disse certa vez em Los Angeles.

Corcovado (Quiet Nights of Quiet Stars) é uma das primeiras canções de Jobim que ouvi. Na versão da letra tentei manter, não só o significado do original, mas também o ar fatalista, comum nas canções brasileiras e que, acredito deriva de fado português, remotamente oriundo da doutrina árabe do kismet. Corcovado é o nome da montanha na qual a estátua do Cristo Redentor foi erguida com os braços estendidos, como se abraçasse a cidade do Rio. A palavra significa corcunda, que é como os primeiros colonos chamavam a montanha.

“Só Danço Samba” foi a música que eu ouvi João Gilberto cantando no sofá de Jobim na noite em que conheci os dois. João cantou tão baixinho (mas tão perfeitamente!) que eu mal podia ouvi-lo, mesmo estando a poucos centímetros de distância.

Ele desenvolveu um estilo de um quase “vibrato less” (sem vibratos) uma forma de cantar que me fez lembrar, de uma só vez, o cantor francês Henri Salvador (o qual João disse tê-lo influenciado) e Chet Baker. A canção era sobre um rapaz que se diz cansado do twist, do calypso, e do cha-cha e que, de agora em diante” “Eu só danço samba”, que é o que o título significa.

A gravação, dessa música com Stan Getz, foi feita logo após a caravana de músicos brasileiros chegar à Nova York. A canção “Desafinado” (Off Key) é uma espécie de hino da bossa nova, pois aborda com humor a escola mais antiga de cantores e músicos do Brasil que se opuseram ao movimento da Bossa Nova, músicos mais velhos, críticos do bebop dos Estados Unidos.

Existe uma piada construída na harmonia desta canção: uma quinta bemol na segunda corda – um efeito harmônico que fazia parte do bebop. Os conservadores do Brasil disseram que a bossa nova tinha melodias tortuosas, mas a canção se tornou um hit internacional. “Grande amor” é uma das músicas menos conhecidas de Jobim, do início de sua carreira.

Ela foi incluída numa das sessões de gravação de Stan Getz com João Gilberto. A canção mantém a sua beleza melancólica, mesmo três décadas após a sua gravação. Insensatez (How Insensitive): A seqüência de acordes de abertura é copiada do “Prelúdio em Mi Menor de Chopin” e alguns de nós, ocasionalmente, brincávamos com Jobim sobre isso.

Gerry Mulligan foi tão longe com a gozação que propôs gravar o “Prelúdio em Mi Menor” em ritmo de samba.

Inútil Paisagern (Useless Landscape): Tirando o fato de achar essa uma das melhores músicas de Jobim queria também acrescentar o seu dueto com Elis Regina. Apesar dele tocar piano em muitas de suas músicas, isso não dá uma idéia real de quão bem ele tocava. Eu tenho uma fita dele com Gerry Mulligan gravada no final dos anos sessenta.

Jobim soa um pouco como Bill Evans na fita. O acompanhamento neste disco dá bem uma dica sobre sua forma de tocar. “

Gene Lees em junho 1993

© -Gene Lees, protegido por direitos autorais; todos os direitos reservados.

…”Quase que morreu
E acaba morrendo, está quase morrendo, não percebeu
Que o samba balança de um lado pro outro
O jazz é diferente, pra frente pra trás
E o samba meio morto ficou meio torto
Influência do jazz

No afro-cubano, vai complicando
Vai pelo cano, vai
Vai entortando, vai sem descanso
Vai, sai, cai… no balanço!

Pobre samba meu
Volta lá pro morro e pede socorro onde nasceu
Pra não ser um samba com notas demais
Não ser um samba torto pra frente pra trás
Vai ter que se virar pra poder se livrar
Da influência do jazz.”

(Influência do Jazz – Carlos Lyra)

Spirito Santo

Julho 2015

Zé Maria no Kalunga Ngombe. Tributo ao branco que foi grande

•11/07/2015 • Deixe um comentário

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 A descolonização da saudade de Zé Maria Nunes Pereira, o eterno mestre branco da minha negritude.

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…A raiz da minha história está na separação dos meus pais, quando eu tinha seis anos. Se desquitaram, fiquei com meu pai e fomos morar, primeiro, numa república de portugueses, depois,papai comprou um casarão enorme e fui criado por uma família negra: Mãe Lúcia, as irmãs e os meus dois irmãos de criação, que eram mais velhos e me protegiam..”

…”Fui um menino de bairro negro e de cais do porto; das minhas janelas eu via o cais. E mãe Lúcia teve muita influência em mim. Ela sempre se preocupava em dizer: “Você vai ser grande branco.”

…Ela era da ‘Casa das Minas’, mas nunca me levou para lá, escondia tudo o que era de culto. As nossas velhas de antigamente queriam que a nossa gente negra fosse criada no mundo dos brancos. Não era por alienação, era para vencer. Eu é que fazia ao contrário.

…Eu sempre fui um assimilado ao contrário, um sujeito africanizado desde muito cedo. Foi uma influência que pareceu depois esquecida, mas mais tarde veio a marcar muito a minha vida.

Agora, no dia 4 de dezembro, dia de Iansã, ela faria 100 anos se estivesse viva. Ela e papai morreram com dois meses de diferença. Eles se amasiaram, ele morreu, e ela morreu dois meses depois.”

(Entrevista concedida entre 15 e 28 de dezembro de 2006, no Rio de Janeiro, a Verena Alberti e Amílcar Araújo Pereira)

————

Não tenho na minha já velha memória nenhuma referência de mestre, sábio condutor de vidas, maior que este maranhense emotivo que soube hoje que se foi. Nem encontro palavras para descrever a perda irreparável que a alma vívida e intensa dele fará no rol de minhas memórias mais preciosas, na memória de todos que conviveram com ele.

No início dos anos 1970, eu jovenzinho ainda, o conheci na seção de Ipanema da Universidade Cândido Mendes. Ali, pela modesta injunção dele, em tumultuados, quase anárquicos encontros vespertinos, se urdia o que viria ser o refundado Movimento Negro Brasileiro.

Não vejo ninguém lhe dando este crédito merecido (quem sabe talvez por julgá-lo um branco a mais) mas no meu entender, ele é sim o principal instigador desta refundação daquilo que, aglutinando grupos diversos de negros, naqueles politizados, embora tensos anos da ditadura militar, acabou gerando sólidas instituições, o IPCN carioca e o MNU nacional, para citar apenas as mais bem sucedidas, inspiração para a criação de dezenas de outras instituições antirracistas, políticas, culturais e artísticas pelo Brasil afora.

Mas ele será sempre reconhecido por todos pelo seu incansável trabalho de intelectual militante pela descolonização e a libertação da África, ainda envolta em sangrentas guerras naquela época em que tive o enorme prazer de conhecê-lo.

Sem nenhuma dúvida, tudo que sou hoje, esta ligação com a pesquisa da cultura do negro no Brasil, a escrita, a música, tudo dessas mesmas coisas, o kissange e a marimba dos quais me tornei mestre fazedor e ensinador, o Grupo Vissungo, o Musikfabrik, meu textos meu livro, tudo que sou como intelectual orgânico, compulsivo, veio dele, espécie de pai do que me transformei:  José Maria Nunes Pereira.

A memória mais intensa que me vem dele agora, vivificada pela tristeza de perdê-lo, é a de uma daquelas tardes de sábado num pequeno quarto do apartamento da Rua Dois de Dezembro onde ele, dadivoso, com a intensa emoção que o caracterizava, abria mapas, tocava vinis, cedia cópias em fitas K7 (as quais guardo até hoje) emprestava livros, nos iniciando, ele, o branco, nas coisas da África negra – de Angola, principalmente- sua grande paixão.

A cena é ele, o querido Zé Maria, no calor do quarto, ás lágrimas cantando para nós, pobres rapazes negros ignorantes e atônitos, um poema de Agostinho Neto musicado por Rui Mingas que deixo aqui como tributo saudoso a esse branco que foi grande.

Mãe Angola
(Adeus à hora da largada)

Minha mãe
tu me ensinaste a esperar
como esperaste paciente nas horas difíceis
Mas em mim, a vida matou esta mística esperança
Eu não espero. Sou aquele por quem se esperar

A esperança somos nós os teus filhos
nascidos par uma fé que alimenta a vida

Nossas crianças nuas
nas senzalas do mato
Os garotos sem escola
a jogar bolas de trapos

Nos areais ao meio dia
Nós mesmos, os contratados
a queimar a vida nos cafezais

Os homens negros, ignorantes
que devem respeitar o branco
e temer o rico.

Somos os teus filhos
dos bairros de pobres
conforme concebes
com vergonha de te chamarmos mãe
com medo de atravessar a rua
com medo dos homens
Somos nós a esperança
em busca da vida.”

——–

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José Maria Nunes Pereira Conceição foi um dos fundadores, em 1973, do Centro de Estudos Afro-Asiáticos (CEAA) da Faculdade Candido Mendes, no Rio de Janeiro, uma instituição de referencia para assuntos ligados à África e suas relações com o Brasil. Nascido em São Luis do Maranhão (1937), estudou em Portugal (1947-1962) e participou dos movimentos de libertação das colônias ponuguesas na África.

Graduou-se em ciências sociais na UFF (1972), foi pro­fessor de história da África e editor da revista Estudos Afro-Asiáticos, do CEAA (1978-1986). Sua dissertaçáo de mestrado em sociologia, defendida na USP em 1991, teve como tema o centro de estudos que fundou: ”Os estudos africanos no Brasil e as relações com a África – um estudo de caso: o CEAA (1973-1986)”. A tese de doutorado, também defendida na USP, em 1999, intilulou-se “Angola: uma política externa em contexto de crise (1975- 1994)”.

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Spírito Santo
Julho 2015

_”Matem a macaca!” Uma jornalista negra é o alvo da vez.

•09/07/2015 • 2 Comentários

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O atirador é o racismo caolho de sempre.

Titio já disse: A invisibilidade midiática é o calcanhar de aquiles do racismo.

É uma tese simples: Negros visíveis, ocupando funções sociais proeminentes, normais, corriqueiras, desmontam a tese absurda de que os negros são intelectualmente inferiores e que por isso devem ocupar funções modestas e subalternas na sociedade.

Mas isto é um problema de nervo exposto, ferida aberta. A cabecinha de um negro ou negra aparece ali, acima da linha d’água e pronto, começam o ataque histérico, a celeuma, as pedradas.

Aflora aí, nos racistas – sempre na sombra, mas que são muitos e muitos no Brasil – uma espécie de complexo de inferioridade intolerável, uma consciência de culpa mau deglutida, um sentimento raso e ambíguo de ressentimento que assume a forma de ódio cego, desmedido.

(Franz Fanon explica)

É o que sempre ocorre em casos como o de Maria Júlia Coutinho. Os racistas fóbicos, radicais aparecem como uma matilha de cães raivosos se aproveitando de tudo para demolir a pessoa negra que ficou célebre, no afã de desconstruí-la, destruí-la, reinvisibilizá-la, devolvê-la ao limbo.

No fundo no fundo morrem mesmo é de medo, de cagaço, os coitados. São portadores de uma fobia colonial, um complexo de inferioridade bem psicótico, doentio.

(Nos estertores da escravidão brasileira, com a Abolição já dada como certa, inexorável, um medo pânico se espalhou pelas fazendas e pela Corte do Rio  – inclusive entre os abolicionistas, pretos e brancos – se apossando, preferencialmente dos brancos escravistas  – inclusive os pobres – por aí afora, temendo que os negros antes de serem libertos, impacientes, se rebelassem por si mesmos e pegando em armas, facas, mosquetes, catanas ou mesmo as próprias mãos crispadas, se lançassem sobre os brancos, sedentos de vingança:

A imprensa da época chegou até a chamar este clima paranóico de o “Terror Negro”.)

O caso do Joaquim Barbosa, o negro vingador insubmisso, ocorrido tanto tempo depois, praticamente ontem mesmo, é tão clássico quanto simbólico, do quanto a evocação deste passado escravocrata é ainda latente.

O ódio ideológico contra ele, por conta de sua firme condução do processo jurídico do Mensalão, rapidamente assumiu proporções absurdas, a feição de ódio racial exacerbado ficou clara para todos. Passaram a atacar a sua reputação, seu passado, sua família, tudo que dissesse respeito a ele foi…”denegrido“.

Foi o que fizeram – de forma chocante! – pessoas adeptas do PT, sintomaticamente brancas em sua maioria (negros petistas, inclassificáveis – não nos esqueçamos – também atacaram Joaquim) pessoas que julgávamos apenas equivocadas, porém, honestas e progressistas, “de esquerda”, mas que, máscaras caídas, começaram a se comportar como racistas fóbicos, direitistas mesmo, quase nazistas, no ensejo de desmoralizar, desqualificar o emérito juiz, mesmo sendo ele a maior autoridade jurídica do país.

_”Morte ao macaco!”_ Escreviam os mais estúpidos, insanos.

Para se ter uma ideia do quão virulento era este sentimento de ódio racial aflorado, basta lembrar que até ameaçado de morte Joaquim Barbosa foi, sendo obrigado a se aposentar e abandonar suas funções no STF, numa carreira promissora que ainda duraria muitos anos.

É este o contexto onde se pode encaixar o ódio ainda enrustido, mas já perceptível contra Maria Julia Coutinho, uma simples jornalista, apenas mais uma entre tantas belas mulheres escaladas para cobrir – com rara competência diga-se – notícias sobre o clima no Brasil no maior jornal de TV do país, mais uma “Moça do Tempo“, e daí? Mas…

“_Matem a macaca!”_

Escrevem no facebook jovens brancos imbecis. E um coro de brancos adultos, velhos, senhores e senhoras, surgem das sombras como fantasmas balbuciando por entre os dentes:

(_”Matem e…esfolem!”)

É por isso que sempre digo: A invisibilidade midiática é o calcanhar de aquiles do racismo.

Não basta ao negro ser eficiente, competente, irrepreensível. Vocês, nós todos precisamos entender que não somos mais escravos carentes da magnanimidade ou do reconhecimento do Sinhô.

A estratégia, a ideologia ideal não é este abolicionismo tardio e comedido das Seppirs, este assimilacionismo pai-joão de movimento negro elitista e pomposo, de ministras pretas de echàrpes bregas, de se submeter as regras de um sistema que não tolera negros fora de “seu lugar”… De-jeito-nenhum.

Sejamos resolutos, insubmissos. Sejamos VISÍVEIS e já que, pobres de espírito precisamos ainda de modelos edificantes: Sejamos heróis.

Simbolicamente…Matemos o Sinhô doente, psicopata que está encarnado, encruado em nós.

_Xô, xô, sinhô!

Spirito Santo
Julho 2015

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VISSUNGO, a Saga: Avaliando K I L O M B O L O K O!

•07/07/2015 • Deixe um comentário

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A carreira do Vissungo em revista

No fim desta sensacional turnê do Vissungo (40 anos de praia!) pela rede de lonas e arenas culturais da Secretaria Municipal de Cultura do Rio, muitas reflexões ocorrem ao Titio. Algumas, das mais ácidas, já esbocei num post anterior.

No fim do último show, eufóricos com o resultado artístico maravilhoso, fica a vontade de manter a azeitada máquina do Vissungo em moto contínuo, forever.

Um tanto surpreso e feliz com a nossa excelente forma de curtido vinho antigo, reflito sobre as perguntas de sempre, que nos invadem toda vez que terminamos uma jornada dessas, mais uma de nossa longa, longa, longa trajetória. Entre as perguntas surgidas aqui e ali da plateia ou de fãs curtidores das notícias da turnê, duas são chave:

_ “O CD! Cadê o CD!”_ Nos perguntou um grupo de ávidos novos fãs no final do penúltimo show desta turnê.

_ “Quando o Vissungo virá à minha cidade?”_ Nos perguntam outros fãs mais distantes, um pergunta que envolve questões muito mais instigantes e dubiosas.

Afinal, porque com um trabalho considerado artisticamente tão moderno e consistente, numa cancha que envolve trabalhos emblemáticos e premiados internacionalmente em trilhas sonoras para TV e cinema, com incursões tipo saga, por lugares e remotos do país (a pesquisa) ou em excursões por lugares europeus musicalmente importantes como a Itália e Áustria, carece tanto de visibilidade e projeção em seu próprio país?

Pois é.

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Estas perguntas sempre me inquietaram. Sempre reluto também em tentar respondê-las porque, fatalmente caio no lodo escuro da dúvida.

Será que o Mercado, o mainstream nos recusa espaço por alguma razão misteriosa? E esta é uma pergunta com resposta óbvia. Fôssemos atraentes ao mainstream e teríamos tido nesses 40 anos de carreira a nossa chance de gravar muitos LPs, CDs e estourar na praça, lógico!

Claro está também que a razão de fundo é mesmo muito misteriosa. Me ajudem a refletir, por favor: Que razão misteriosa seria esta?

A qualidade artística, musical de nosso trabalho, foi uma razão descartada logo de início, até porque o mercado nunca foi muito criterioso quanto a isto. Com muita frequência se pode observar que o sucesso de um artista medíocre ou relevante se dá, fulgurante, a despeito da qualidade chinfrim ou supimpa de seu trabalho.

A baixa apreciação do público também é outro fator descartável. Qualquer um que já assistiu um show ou a um ou outro clip do Vissungo e que esteja lendo este post agora, pode dar aqui testemunho do seu apreço, do seu prazer.

O que seria então? Nas centenas de entrevistas que já demos descrevendo assim ou assado o nosso trabalho, nas reportagens que abordaram aspectos de nossa carreira, nenhum jornalista se atreveu a nos sugerir uma resposta válida sequer para este enigma.

Por que o mercado sempre nos ignorou, descartou ou desprezou, assim tão renitentemente?

Com certeza, o fato de termos uma proposta artística fora dos padrões engessados dos escaninhos, dos nichos recorrentes do mercado: Samba, Rock, Funk, Sertanejo, Forró, patati patatá, é um fator relevante. Sim. Nossa música contêm, de algum modo, elementos de todos esses gêneros, mas os mesclamos de uma forma original, na lógica da música da Diáspora africana, nosso eixo temático fundamental.

Mas vejam, somos cria fiel da riquíssima música popular dos anos 1970, quando a regra principal e irrevogável do sucesso artístico era ser diverso, inusitado, original. Era pecado mortal naquela época alguém parecer demais com o outro. Imediatamente seria tratado, pejorativamente como “papel carbono” como se dizia na época. Havia um impulso dos produtores para encaixar as propostas num quadradinho estilístico inicial, mas ser cover, cover mesmo, jamais. O cover, o reles imitador, quase sempre amargava o limbo do mercado.

Que eu me lembre agora, dois exemplos são emblemáticos: a semelhança, então inaceitável entre Jorge Ben – hoje Benjor – e Bebeto e o certo jeitão de Milton Nascimento/Gilberto Gil misturados que tinha o Djavan do início. Com efeito ambos tiveram alguma dificuldade para emplacar. Dos dois, apenas Djavan conseguiu virar emblema de sucesso total.

O Vissungo, orgulhosamente não parece com ninguém, mas isto, estranhamente não nos beneficiou nos anos 1970, quando o inusitado era desejável. Porque teria sido?

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Quando surgimos, por exemplo, o “Afro Beat” era uma tendência musical generalizada no continente africano, mas completamente desconhecida no Brasil. O gênero consistia na inserção de elementos “afro” da Black Music da Motow (o Funk-Soul de James Brown, basicamente) na música tradicional, tribal mesmo da África seminal, incrementada por linhas contrapontísticas de baixo e guitarra desta Black Music mais visceral. Este original estilo africano, não entrava no Brasil de jeito nenhum.

Nossa experiência na Europa nos mostrou que existe ainda hoje – e desde os anos 1970 talvez – uma rígida divisão do mercado fonográfico da música popular mundial entre Europa e EUA. Nada, rigorosamente NADA da música negra bombada na Europa, abastecida pela riquíssima cena musical das ex colônias escravistas, tocará nas áreas de mercado subordinadas aos EUA e vice versa e temos aí neste quadrado americano o mercado brasileiro.

(E vejam, se liguem no paradigma: A chamada música pop internacional é uma invenção, claramente africana, gestada nas grandes cidades das Américas, no imediato pós abolição)

O estilo do Vissungo, formatado como “MPB negra” na origem , a partir dos anos 1980 (O samba, gênero bem sucedido no mercado na ocasião, o era apenas como um gênero tradicional, quase folclórico) o Vissungo assumiu enfim, francamente um formato “Afro-Pop“. Era uma tendência clara do mercado mundial, refletindo o explosivo sucesso comercial da luminosa gravadora Motown, ocorrido ainda nos anos 1970.

Mas havia um perceptível torcer de narizes dos críticos da época no Brasil que, furibundos nacionalistas, não admitiam uma música “negra” que não fosse tradicional por um lado, ou por outro (oh, contradição!), mero sucedâneo da Black Music gringa. Havia, isto sim, é um esforço enrustido de não estimular um música negra pop original, moderna, feita por negros.

Vai explicar!

Com efeito, o mercado musical brasileiro a partir do final dos anos 1970, em sua ideologia capitalista exacerbada (inserida na lógica da divisão de território mercadológico citada acima), pressionado por uma forte cena black (o fenômeno “Black Rio”), forjou e estimulou um produto negro musical mais voltado para o sucedâneo, o similar ao original, o cover enfim, aqui carimbado, sintomaticanente de…”Black Music“, com Tim Maia e Banda Black Rio nas cabeças.

Ora, o Vissungo também sempre tocou música popular fusion Afro Americana, só que optou fazer isso a partir do som da África que, historicamente dizia mais respeito ao Brasil: Angola, Moçambique, Guiné Bissau, Cuba, etc. uma música mais fácil de ser fundida com a música afro brasileira tradicional mais disseminada por aqui, o Samba, as Congadas, o Jongo e vejam: fazemos esta nossa fusion, exatamente com o Funk/Soul do inesquecível James Brown.

Tivemos um incidente curioso ligado a este paradoxo, recentemente. Foi quando insinuamos á amigos músicos mais jovens, a criação de uma “frente Afro-Beat” no Rio, visando a formação de uma plateia específica, tipo de movimento muito comum nos anos 1970.

Hum, pra quê? Fomos sutil e educadamente ignorados. Soubemos depois, sondando por aí, que não éramos bem vistos na cena por não sermos considerados uma banda de “Afro Beat”…”legítima” porque, simplesmente este rótulo passou a significar apenas aquilo que era cover de Fela Kuti, da música popular fusion da África Ocidental (Nigéria basicamente) com o formato bandão de sopros.

Pagamos no início o preço de sermos precursores. Pagamos nos anos 1980 o preço de não termos aquele sotaque da música negra norte americana mais recorrente. Pagamos na volta da Europa o preço de não sermos suficientemente “brasileiros” e continuamos a pagar ainda hoje o mesmo preço pela nossa insistência em sermos independentes e originais, não nos rendendo à “modinha” do Afro Beat do Fela Kuti, por exemplo.

Mas seria isto mesmo? De relance, as vezes, achamos que estamos mesmo é envoltos no manto de invisibilidade que cobre toda manifestação artística e cultural de negros no Brasil, enredados nesse racismo nosso de cada dia.

Com efeito, na crônica da música popular do Brasil, tem sido muito recorrente o ostracismo a que são relegados artistas negros com propostas não conformistas ou submissas às leis rasas do mercado local. Quantos não raparam fora para deslancharem suas carreiras no exterior?

“_Vocês não são crioulos? Toquem Samba tradicional, ora!”_ Nos diziam alguns produtores e críticos dos anos 1970/1980.

“_ Vocês não são crioulos? Toquem Fela Kuti, ora!_” Nos diz hoje a garotada branca que controla a incipiente cena musical “africana” do Rio de Janeiro.

Será que sermos, enfim uma verdadeira banda de crioulos musicalmente insubmissos, rebeldes é o verdadeiro “xis” do problema?

_” Vocês não se dizem crioulos rebeldes? Toquem Funk, ora!”_ Penso ouvir gritar pra mim um MC de “Proibidão’ na saída de um show no Complexo da Maré.

(Já nos mandaram tocar Raggae music também, claro!)

Afinal, porque esta cisma misteriosa do mercado com o Vissungo véio de guerra? Alguma pista para vocês nesta resenha sobre o perfil, supostamente maldito de nossa proposta? Jamais saberemos e por isto seguimos empávidos e felizes. Alguém, algum biógrafo que descubra .

Fica, portanto um conselho óbvio para vocês, amados fãs empedernidos de nossa rebeldia.

Visitem nossa página do Facebook. Falem de nossa saga, ouçam, vejam, divulguem, comprem, sugiram que comprem shows do Vissungo por este país afora.

_Alô, Brasília! Alô, São Paulo! Alô Belo Horizonte! Alô Salvador! Alô, Brasil!

Estamos em ponto de bala e os senhores do mercado para nós são…vocês.

Somos o VISSUNGO do K I L O M B O L O K O, morou?

(Fotos de Caio Rosa na Arena Cultural Dicró, na Penha em 04/07/2015. Veja o álbum)

Spirito Santo.
06/97/2015

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