O Crioulo e a língua do Crioulo. Lorenzo Dow Turner no Brasil.

•31/05/2015 • 3 Comentários

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Lorenzo Dow Turner, brilhante etnolinguísta é, tardiamente ‘descoberto” pela academia (e pela imprensa) do Brasil.

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 Parece coisa de crioulo doido, só que não.

Passei boa parte do dia e a noite desta última sexta feira devorando informações sobre Lorenzo Dow Turner, etnolinguísta norte americano, praticamente desconhecido no Brasil até recentemente, descoberto entre outros pelo acadêmico francês Xavier Vatin, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Li – lemos – uma matéria esclarecedora sobre isto dia desses, cuja fonte, o instituto de linguística IPOL, foi reproduzida por alguns blogs, entre os quais o Geledés, especializado em ativismo e cultura negra.

Já havia tocado de leve na figura de Lorenzo Dow Turner , citando-o num post como um dos personagens do boom de estudos sobre os africanos no Brasil ocorrido em Salvador, Bahia no início da década de 1940, por injunção do Congresso Afro Brasileiro de 1937, coordenado por Edison Carneiro, entre outros. Leia o post do Titio neste link: “A Guerra, Academia e a impureza a Nagô“.

Me instiga nesta busca por dados mais completos sobre Dow Turner as relações, eventualmente existentes entre a invisibilidade brasileira de seu trabalho e o mesmo fenômeno ocorrido com o trabalho do etnólogo baiano Antônio Joaquim de Souza Carneiro (para os que desconhecem, pai de Edison Carneiro), vítima de uma intensa campanha de difamação e desqualificação intelectual, por parte de ilustres acadêmicos da mesma época, o incensado Arthur Ramos à frente.

O fato de Turner e Souza Carneiro serem ambos negros, intelectuais brilhantes e, do mesmo modo, terem tido suas pesquisas desprezadas e/ou ignoradas pela empáfia da academia tupiniquim da época, sempre me intrigou, intriga e tem me instigado a escrever vários inflamados artigos e posts (outros por certo se seguirão a este).

Recolhi neste intento, ontem, empolgado com a biografia de Lorenzo Dow Turner, que fui descobrindo pouco a pouco, a medida em que a noite avançava, muito material – muito mesmo – sobre as pesquisas e fontes de Lorenzo e já havia até começado um animado artigo sobre o etnolinguísta, quando, logo ao acordar, me deparo com esta excelente matéria no caderno Verso e Prosa de O Globo: “Gravações raras de linguísta americano revivem passado do candomblé

Bolívar Torres disse tudo!

Na verdade, a maioria destes dados, com exceção dos áudios, aos quais o jornalista de O Globo, sei lá como, teve acesso, já que publicou um exemplo (ouça a voz de Meninha do Gantois no link original da matéria, logo aí em cima) estão disponíveis a qualquer um no site do Arquivo de Musica Tradicional da Indiana University, fonte principal para quem gosta do tema.

Só achei impróprio na luminosa matéria de Bolívar Torres o uso da expressão “repatriada“, ao se referir á vinda de cópias do material de Turner para cá. Dispensável ufanismo.

Ora, afinal os registros de Lourenzo Dow Turner, como qualquer etnologia, são universais, os dados neles contidos, pertencem a toda a humanidade e só nos são tão desconhecidos até hoje, por conta talvez de nossa conhecida incúria acadêmica e o mal disfarçado pouco caso diante de tudo que se refere á presença de negros africanos por aqui.

(Lembrem-se que, ao que sabe, os pares de Lourenzo Turner na cidade de Salvador de 1941, notadamente Arthur Ramos e Edison Carneiro, testemunhas quase oculares das preciosas coletas de Turner, praticamente (salvo engano), nenhum uso ou citação fizeram sobre a existência deste precioso material, como se sabe, descoberto por acaso muito recentemente por um pesquisador estrangeiro.

E vejam, o mesmo ocorreu com as coletas do norte americano Stanley Stein em Vassouras, RJ, em 1949, descobertas do mesmo modo, recentemente e que continham preciosos registros de Jongo, Folias de Reis, Samba Rural e outras manifestações típicas dos ex escravos do Vale do Paraíba do Sul, RJ, solenemente ignoradas pelas sumidades do ramo até então)

Surpreendente e promissor, portanto, para os (supostos) modos algo racistas de ser desse grande jornal, que tão brilhante matéria seja publicada. Bons sinais também, devo admitir, a ascensão de jornalistas negros (as) (como Flavia de Oliveira, por exemplo) nas pautas recentes de O Globo – algumas marcadas até por um não dissimulado ativismo.

Estas coisas muito animam o Titio.

Brumas vão se dissipando e o que elas iam encobrindo, meio por  incúria ignorante, meio por tolo desprezo racista, começa a se revelar. O certo é que descartei meus escritos preliminares, bem genéricos, os que postaria hoje, por achar o assunto já bem claramente expresso na matéria de Bolívar Torres. Coloco ou reitero aqui apenas dados suplementares.

Outros dados, também preciosos tenho ainda aqui comigo, por elaborar, num novo artigo, para o deleite dos interessados. Os dados: Lorenzo Dow Turner – a matéria de O Globo já ressalta – é um dos precursores dos estudos linguísticos sobre o negro africano na Diáspora (sempre bom ressaltar as coletas em partituras, realizadas por Aires da Mata Machado Filho em 1928, em Diamantina, MG). 

Revisando a resenha sobre o acervo de Lorenzo Turner, aliás encontrei a inusitada citação “angolan funeral songs”, que corresponde, quase exatamente aos vissungos recolhidos por Aires da Mata em 1928. A resenha não enumera Minas Gerais no trajeto das viagens, mas sugere, fortemente a relação de Lorenzo Turner com os vissungos em 1940/41 numa coleta até hoje desconhecida, anterior, portanto,  a de Luiz Heitor Correa de Azevedo, esta em 1944.

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Africanos de Serra Leoa, presumo, ouvem divertidos a gravação de suas vozes por Lorenzo Dow Turner.

O material das coletas de Lorenzo Turner ao qual a matéria se refere, ao que parece, no caso do acervo do AMT da Indiana University, acabou não sendo considerado prioritário no âmbito geral do trabalho do etnolinguísta, talvez por esta razão não conste ainda do acervo da Indiana University a sua digitalização.

Presumo que estas digitalizações da Bahia já existam no Melville J. Herskovits Library of African Studies na Northwestern University Library ou outro acervo ao qual Bolívar Torres teve acesso (li qualquer coisa sobre o etnomusicólogo Carlos Sandroni estar trabalhando nisso aí.)i

Sobressaíram mais, contudo as coletas de Turner na Costa Leste norte americana e coletas feitas no Caribe e na África ocidental. Aguardamos ansiosos.

Na resenha do AMF/UI sobre os arquivos de Turner diz-se o seguinte:

“Lorenzo Dow Turner Gullah Collection Fonte: Arquivos de Música Tradicional da Universidade de Indiana, EUA.

Registros de campo realizados por Lorenzo Dow Turner Na Georgia e Carolina do Sul e Sea Islands em 1932 e 1933, versando sobre o dialeto crioulo afro americano conhecido como “Gullah”, falado nesta região dos EUA. Formato: 154 discos de aluminio.

Lorenzo Dow Turner (1890-1972) foi um linguísta afro americano, que ficou conhecido como o pai dos estudos sobre o “Gullah” após publicação em 1949 dos africanismos contidos no dialeto Gullah, a primeira grande descrição científica deste dialeto.

Esta publicação da ATM/IU, (resenhada por este texto) um grande recurso para pesquisadores, contém diversas transcrições de gravações de Turner.

O trabalho de Lorenzo Dow Turner ajudou a construir uma fundação para estudos sobre a diáspora africana e contestou a noção que prevalecia há muito tempo de que a cultura afro-americano era simplesmente uma derivação da cultura norte americana branca. Turner mostrou que haviam retenções culturais significativas de culturas africanas entre os afro-americanos. Seu teabalho de campo adicional no Caribe, Brasil e África Ocidental fundamentou ainda mais estas ideias.

Os Arquivo de Música Tradicional da Indiana University contêm várias coleções de gravações etnográficas e linguísticas feitas por Turner, que foram gravadas em 836 discos de alumínio e laca. As gravações feitas nos verões de 1932 e 1933 compõem a coleção de discos de Gullah, compostas por 154 discos de alumínio e documentos de textos com cantos de trabalho, histórias, spirituals e contos de escravidão, recolhidos com 50 falantes de Gullah.

A ATM/IU possui também gravações das pesquisas de campo de Turner no Brasil (Salvador, Bahia em 1941: nota do Titio), África Ocidental, Louisiana do Sul, e várias outras partes dos Estados Unidos.

A coleção Gullah digital foi preservada como parte do Projeto Sound Directions Project.”

Ouça em primeira mão no Brasil, neste link do texto original da Indiana University, duas canções recolhidas por Lorenzo Dow Turner neste projeto dos “Gulah:

http://www.indiana.edu/~libarchm/index.php/collections/highlights/lorenzo-dow-turner-collections.html

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Tema para muitas mangas. Me aguardem. Titio volta já

Spírito Santo  Junho 2015

Ultrassonografia da Mbira

•07/05/2016 • Deixe um comentário

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A Mbira das Almas
Mbira dza vadzimu
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Lamelofone é o nome dado a instrumentos musicais compostos por um conjunto de finas lâminas, geralmente metálicas (ou de bambu) tensionadas sobre alguma plataforma, geralmente de madeira e amplificadas por meio do contato com algum recipiente ressonador ou por meio de captadores de contato (microfones) eletrônicos.

Existem outros tipos de lamelofones com fisiologia um pouco diferente da descrita acima, um exemplo clássico é o idiofônico europeu “guimbarde” (uma lâmina de aço tensa num pequenino arco rígido) conhecido no Brasil também como “berimbau de boca”, um nome um tanto impróprio, pois o “berimbau” (“Hungo” em Angola) é, na verdade um arco musical.

São lamelofones também as gaitas de boca, as sanfonas, bandoneons e os acordeons em geral, Nesse caso as lâminas, de dimensões mínimas, oclusas num recipiente, são postas em vibração por meio do ar sob pressão, emitido por foles externos ou por nossos próprios pulmões.

Dito isso, podemos classificar a Mbira como um lamelofone manual clássico (“thumb piano” para os europeus), tocado com os polegares, geralmente, ou com a ajuda de um ou dois dedos indicadores, nos modelos mais sofisticados, entre os quais se destaca a Mbira. Importante ressaltar, que o nome Mbira não serve para denominar todos os lamelofones de seu tipo. Mbira denomina apenas e especialmente um lamelofone da cultura Shona, notadamente em sua localização no Zimbabwe, antiga Rodésia dos tempos coloniais.

Existem, portanto, na África, um sem número de lamelofones manuais, com outros nomes em línguas regionais e ligeiras variações fisiológicas. Entre esses encontramos o “Kissangi”, o “likembe” e o “mbuetete” angolanos, a “Kalimba”, também de origem Shona, mais ocorrente na África do Sul, além das “Sanzas” genéricas.

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O nome “Kalimba”, aliás (extraído do lamelofone tradicional “Karimba”, da mesma região), a partir dos anos 1990, tem servido para definir os lamelofones manuais no mundo inteiro, depois do sucesso obtido por um modelo semi industrializado produzido dese is anos 1970 por uma fábrica criada no gueto de Soweto, Johanesjburg por Andrew Tracey, filho do grande etnomusicólogo Hugh Tracey (o mais destacado pesquisador de lamelofones africanos de todos os tempos).

Foi Andrew quem registrou a marca “Kalimba”, rotulada em cada peça vendida mundo a fora, assim popularizando o nome, tornado genérico a partir daí.

O nome genérico mais correto para se definir todos os lamelofones africanos, contudo, talvez seja “Sanza”, extraído do nome de um dos muitos modelos de lamelofones da região sul da África.

Tudo isto exposto, não podemos escapar da constatação definitiva, de que a Mbira Shona é o mais complexo tipo de Sanza de toda a África. Com alguma certeza, a julgar, exatamente por sua complexidade fisiológica, a Mbira talvez seja o mais antigo instrumento de sua espécie, ancestral direto do mais antigo lamelofone criado pelo homem, ressaltando-se que nunca se conseguiu registrar a existência de lamelofones manuais ou sanzas, fora da África.

A história oral do povo Shona, nos dá conta do uso comum da Mbira desde tempos muito antigos, remontando ao século 10. Esta época bate com o período das grande migrações do norte para o sul do continente africano, que originaram o ramo etnolinguístico Bantu, contexto onde se insere o povo Shona e todos os povos da África central para baixo, um contexto cultural muito amplo e diverso que engloba desde os Ibo, povo do sul da Nigéria atual, os Bakongo do Sul do Congo e do norte de Angola, descendo até o extremo sul do continente com os Shosa da África so sul, passando, evidentemente pelos Shona, que também habitam mais para o leste do Zimbabwe, entrando por Moçambique a dentro.

É bastante provável que, ainda nos reportando à sua complexidade fisiológica e musical, a origem da Mbira se estenda para época bem mais remota, originária de algum povo em estágio tecnológico mais “avançado” que o dos caçadores-coletores da floresta do Mayombe, por exemplo, algum povo da idade do ferro, já que a fisiologia da Mbira exige expertise tecnológico como a fusão de ligas metálicas e a manipulação do metal em forjas.

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A hipótese mais provável que estamos sugerindo, indica a origem da Mbira ao contexto de uma civilização da área sudanesa mais à nordeste, Kemet (Egito), algo assim, muitos mil anos antes de nós, tendo o complexo know how necessário à criação do instrumento evoluído com o tempo, e migrado junto com os povos que desceram para o sul da África, se instalando na região do Zimbabwe, de onde o instrumento teria se espalhado pelo continente.

As grandes ruínas de muralhas existentes no Zimbabwe, com efeito, são testemunhas candentes de que em época imemorial, um povo em estágio tecnológico avançado, se instalou ali, vindo não se sabe ainda de onde, sendo lícito se admitir que veio do norte.

A Mbira é, pois, mais do que um instrumento musical, um documento arqueológico cheio de informações sobre a história do sul africano. Nada como um tempo após o outro.

O Papel da Mbira na Cultura Shona

A Mbira (nome tanto do instrumento quanto a música) é tocada há mais de mil anos em algumas tribos do povo Shona, como vimos, um grupo que constitui a grande maioria da população do Zimbabwe, estendendo-se até Moçambique.

A Mbira permeia todos os aspectos da cultura Shona, tanto sagrados quanto profanos. Sua função mais importante é a de ser uma espécie de aparelho de comunicação com os espíritos. A Mbira é usada para entrar em contato tanto com os antepassados falecidos, quanto com os responsáveis tribais, em todas as noites cerimoniais (Mapira).

A Mbira é, pois, um instrumento de comunicação direta com os espíritos (“vadzimu“), a saber espíritos familiares (“midzimu“), espíritos do clã (“Mhondoro“) ou chefes falecidos com espíritos poderosos (“makombwe“). Nessa relação comunicativa dos humanos com os espíritos, os Shona obtêm orientações sobre assuntos de família, comunitários e maneiras de lidar com noções físicas, concretas, como o tempo e a saúde.

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A Mbira é necessária para trazer chuva durante a seca, para que a chuva pare durante as inundações, para trazer nuvens quando as culturas estão queimados pelo sol. A Mbira é usada também para afugentar espíritos nocivos e para curar doenças com ou sem um n’ganga (médico tradicional, adivinho). A Mbira está incluída em celebrações de todos os tipos, incluindo casamentos, a posse de novos chefes, e, mais recentemente, até eventos do governo, como o Dia da Independência e as conferências internacionais.

A Mbira também é necessária em cerimônias de morte, e é tocada por uma semana após a morte de um chefe antes que a comunidade seja informada de seu falecimento. Na cerimônia Guva, aproximadamente um ano após a morte física de uma pessoa, a Mbira é usada para acolher o espírito do indivíduo de volta à comunidade.

Em séculos anteriores, músicos da corte tocavam a Mbira para reis Shona e seus adivinhos. Embora o Mbira tenha sido, originalmente usada em um número limitado de áreas Shona, hoje ela é popular em todo o país.

A Mbira é muito admirada pelas as qualidades gerais que pode oferecer, tais como: mente calma e força diante das agruras da vida. A Mbira Shona também está, rapidamente se tornando conhecida em todo o mundo, devido a excursões de músicos tradicionais e bandas de Mbiras elétricas zimbabuenses que incluem o instrumento em suas performances.

Durante o período colonial no Zimbabwe (quando o país era conhecido como Rodésia), os missionários espalharam a crença de que mbira era do mau, devido à sua associação com espíritos ancestrais e daí a popularidade da Mbira no Zimbabwe diminuiu.

Desde a independência em 1980, contudo, a Mbira tem desfrutado de um grande ressurgimento de sua popularidade, e agora é considerada o instrumento nacional do Zimbabwe. Os músicos tradicionais lembram às suas comunidades que a Mbira é tocada para incentivar os espíritos a protegem a terra e o povo. Nem a Mbira, nem os espíritos devem ser negligenciadis se os zimbabuanos desejam desfrutar de saúde e tranquilidade.

A Mbira: O instrumento em si e sua fisiologia.

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O tipo de Mbira mostrado na maioria dessas fotos, característico do povo Shona, consiste em geral em 22 a 28 teclas de metal (existem Mbiras com até 56 lâminas) montado sobre uma “gwariva” (prancha de madeira de lei) extraída da árvore mubvamaropa (Pterocarpus angolensis). Embora as lâminas de metal fossem originalmente fundidas, diretamente de pedras de minério de ferro, agora elas podem ser feitas de molas de sofás, raios de bicicleta, molas do assento de automóvel, e outros materiais de aço reciclados ou novos.

(Importante se observar que as lâminas das Mbiras clássicas ou mais tradicionais, são feitas ainda com as pontas das lâminas achatadas na forja e retemperadas, a partir de finos vergalhões quadrangulares (cerca de 2 mm de lado) de ferro ou aço de baixa têmpera. A baixa têmpera do material exige lâminas com mais espessura, afim de poderem resistir à tração exigida para que as pontas das lâminas vibrem.

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Esta característica fisiológica torna os instrumentos tradicionais mais pesados, mais duros de tocar e com o volume mais tênue. Nos dias de hoje já se pode encontrar Mbiras com lâminas mais finas, de aço rápido de alta têmpera, notando-se que nesses casos há uma ligeira perda de harmônicos agudos, que dão um timbre cristalino às Mbiras tradicionais.

A Mbira é, geralmente colocada dentro de um grande ressonador de cabaça (denominado “Deze“). O mutsigo (um pino ou ponta de madeira) é utilizado para fixar a Mbira em segurança dentro do deze. A Mbira tradicional é tocada com os polegares nas notas médias e graves, flexionando-as para baixo e com o indicador da mão direita, nas notas mais agudas, flexionando as lâminas de baixo para cima.

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Anéis de metal são inseridos num fio de arame fixado numa placa de metal, presa na extremidade inferior do tampo da Mbira. Os anéis vibram em simpatia com a vibração das notas, acrescentando um zumbido, um efeito timbrístico ao instrumento, semelhante a um silvo cintilante e macio.

Tampas de garrafas ou conchas também são montadas no Deze (ressonador) para aumentar o o zumbido, que é considerado, como vimos, uma parte essencial do timbre da Mbira, necessário para limpar a mente de maus pensamentos e preocupações, para que a música Mbira possa preencher a consciência dos artistas e dos ouvintes.

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O zumbido acrescenta também profundidade e contexto para os tons claros das lâminas da Mbira, e podem ser ouvidos como vozes sussurrantes, cantando, batendo, como o vento ou a chuva. O zumbido também aumenta o volume da Mbira.

Muitas afinações ou “modos” diferentes de Mbira são utilizadas, de acordo com a preferência pessoal de cada músico. A única exigência é que, tradicionalmente, dois instrumentos tocados juntos estejam afinados em sintonia (no mesmo tom). Se uma mesma sequência de teclas é reproduzida, a música é considerada como sendo a mesma peça Mbira, mesmo que se toque em instrumentos com a ordem dos intervalos completamente diferente.

A Mbira tem qualidades muito superiores às Sanzas mais conhecidas. A principal dessas qualidades é a maior extensão da escala (três ou até quatro gamas) com um bom ganho em graves, por conta do excelente recurso da camada extra de baixos em oitavas (um degrau abaixo dos médios) principal diferença fisiológica diante das sanzas mais comuns, cuja escala é sempre linear, além das Mbiras oferecerem, por esta mesma razão, a possibilidade de se produzir acordes mais ricos, com até quatro notas.

As sete afinações da Mbira

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Rheinlandbastarde. Os bastardos da Renânia

•22/04/2016 • Deixe um comentário

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Soldados franceses no campo de prisioneiros de guerra de Luckenwalde

 Uma outra ponta da mesma meada black alemã

(Leia, fazendo os descontos de praxe)

“Bastardos de Renania é a denominação usada na Alemanha nazista para classificar crianças descendentes da união entre homens africanos e mulheres alemãs. De acordo às teorias racistas dos nazistas estas crianças representavam uma minoria inferior e recomendava-se que fossem objeto de uma campanha de esterilização para evitar que, com o tempo, se misturassem com a população geral e que seus genes se disseminassem entre os membros da sociedade, supostamente ariana da Alemanha.

A denominação “Bastardos de Renania” aparece numa época imediatamente posterior à Primeira Guerra Mundial, quando, como parte dos tratados que a Alemanha teve que assinar como nação derrotada no conflito, as tropas francesas ocuparam a região ao oeste do Rio Rin Renania (Rheinland).

Alguns destes militares franceses eram negros já que proviam de colonias francesas na África. Muitos casaram-se com mulheres alemãs e outros simplesmente, mesmo sem se casar, acabaram por gerar filhos naturalmente mestiços, de onde vem a estigmatizante classificação de “Bastardos”.

Até hoje a história dos negros que viviam na Alemanha antes da subida dos nazistas ao poder permanece um tanto desconhecida. Naquela época, não era apenas através da cultura que os negros se sobressaíam, mas também por meio de sua simples presença nas ruas: imigrantes do Caribe, africanos, norte-americanos negros que haviam fugido da crise econômica nos EUA para a Alemanha, diplomatas, imigrantes das colônias e marinheiros. Peter Martin, da Fundação de Incentivo à Cultura e Ciência, de Hamburgo, estima em 10 mil o número de pessoas ‘de cor’ residentes na Alemanha naquela época.

Eram negros e negras que haviam construído suas vidas na Alemanha, se casado com alemães e alemãs e com eles gerado filhos – os chamados Rheinlandbastarde (bastardos da Renânia). Muitos deles foram mais tarde esterilizados à força pelos nazistas. A máquina de propaganda nazista atacava as pessoas de cor que eram rotuladas como uma perigosa peste. E assim elas foram sumindo da vida pública. O que restou foi uma montanha de papéis da burocracia. As pessoas simplesmente desapareceram, segundo Martin, que há anos dedica-se à história da minoria negra na Europa.

O denuncismo, sobretudo através da imprensa, estava na ordem do dia. Cartazes apresentavam os negros como um perigo para as mulheres alemãs. O que aconteceu com a maioria deles, de 1933 a 1945, é difícil de saber. Muitos conseguiram deixar o país a tempo. Outros foram enviados para os campos de concentração. Não poucos serviram de cobaias para pesquisas dos nazistas.

Talvez tenham sido centenas, possivelmente milhares os que morreram. Em apenas 15 a 20 casos os historiadores encontraram provas de assassinato por nazistas, ressalta Martin, que conseguiu montar a atual mostra graças a donativos financeiros de Jan Philipp Reemtsma, realizador da polêmica exposição Crimes da Wehrmacht.”

(Pensando bem, excetuando-se os exageros do contexto nazista – a esterilização dos crioulinhos ‘bastardos’, por exemplo – me digam: Parece ou não parece um pouco com o que ocorre com os pretos do Brasil?)

Das Afrika Schau
Mais uma ponta da negra meada alemã

“Quando questionados sobre os negros no Terceiro Reich, os alemães costuma m falar sobre a mostra Afrika Schau (‘Show africano’). Em seu livro Hitler’s Black Victims (As vítimas negras de Hitler, em tradução literal), o pesquisador norte-americano Clarence Lusane descreve Afrika Schau como uma mostra itinerante iniciada em 1936.

Os responsáveis pelo “show” eram Juliette Tipner, cuja mãe era da Libéria, e seu marido alemão Adolph Hillerkus. O objetivo do “espetáculo” era exibir a cultura africana na Alemanha.

Em 1940, a Afrika Schau foi retomada pela SS e por Joseph Goebbels, que “esperava que isso fosse útil não só para propaganda e fins ideológicos, mas também como forma de reunir todos os negros do país sob um mesmo espaço” , escreve Lusane (sabe-se lá já pensando em uma espécie de solução final também para este grupo: Nota do autor).

Para seus participantes, o Afrika Schau tornou-se muito mais um meio de sobrevivência para negros na Alemanha nazista.”

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Cartaz deste ‘Wölkerschau’ (‘show dos povos’) africano assumidamente colonialista sugere que o modelo ‘Afrika Schau’ surgiu bem antes de 1936

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O tema como se vê é vasto e complexo, além de inédito. Você pode enveredar por qualquer uma de suas trilhas, puxar qualquer uma destas meadas que vai encontrar, certamente fatos novos e mais surpreendentes ainda.

(Só como palpite me ocorreu agora mesmo, por exemplo que o modelo de espetáculo artístico criado com o Afrika Schau, quando inserido no contexto da ampla propaganda colonialista da segunda metade da década de 1930, pode ter alguma ligação fortuita com o surgimento nos anos 40 e 50 de uma série de grupos artísticos similares, promovendo shows de variedades, algo voltados para a difusão de certa cultura tradicional africana (ou afro-descendente) oficial, ‘chapa branca’, circulando pela Europa e outras partes do mundo nos anos posteriores.

Entre estes grupos talvez sucedâneos podemos assim de relance, citar o balé do Senegal e outros tantos balés nacionais africanos (no âmbito das colônias européias na África) e, até mesmo o nosso velho e bom grupo ‘Brasiliana’, de Haroldo Costa que, fundado com toda certeza com intenções nada colonialistas (e muito menos nazistas) , pode ter sido impulsionado ou inspirado pela grande recorrência do modelo Afrika Schau tão famoso nas décadas anteriores.

É sempre assim. Sabem como é: Depois que alguma natureza – mesmo a mais insana – o cria, ninguém sabe bem no que um bicho vai dar.

Panos e mais panos para mangas de colocar racistas em sérios palpos de aranha.

Spirito Santo
Maio 2010

A múmia de Lênin

•18/04/2016 • 2 Comentários

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“Esquerdismo, doença infantil do comunismo”

(A frase, inserida em nosso contexto, faria a múmia de Wladimir Ilicht se revirar na urna.)

O quadro que se afigura é vergonhoso para a esquerda do Brasil que, historicamente sempre fracassa, fragorosamente quando chamada à luta política real. Talvez nunca tenhamos tido, a vera, uma esquerda no Brasil. Porque será?

A esquerda que, depois de inventar o PT rompeu com ele, a partir do primeiro governo Lula, depois da descoberta das primeiras evidências de atos de corrupção, se fazendo de ética, ao que parece, enganou, decepcionou seu eleitorado vergonhosamente.

(Não devia ser inusitado o fato simbólico de ter sido um emérito e solitário fundador do PT, o jurista Hélio Bicudo, um dos coveiros da arrogância de um partido de oportunistas que se apossou das bandeiras da esquerda com tamanha desfaçatez. Talvez seja porque se trata mesmo, em nosso caso, de uma esquerda de fancaria, um mero comunismo de aparências)

Me lembro – e relato assim por alto, sem pretensões de ser analista ideológico – os descompassos dessa “esquerda” nos idos da década de 1960, naqueles momentos cruciais nos quais, começando com o golpe militar de 1964, avançamos, rapidamente para os sofrimentos e a insegurança provocados pela radicalização da ditadura, que assumindo a tortura e o assassinato de opositores, alegava estar fazendo isso em reação a radicalização de parte da esquerda, que adotara a brancaleonica luta armada como opção a partir de 1968.

Talvez seja mesmo verdade.

Até que ponto a violência da ditadura teria assumido o caráter insano que assumiu, se não tivesse tido diante de si a reação armada (de algum modo heróica, vamos reconhecer, mas não menos insana) de um punhado de jovens brancos de classe média? Digo isso de cadeira pois eu estava lá. Fui um desses jovens…Só não era branco.

Para quem não sabe, grosso modo, tínhamos em 1964 como alternativa à instalação da ditadura militar, depois do fracasso da radicalização política tentada por Brizola e Arraes (com a anuência leniente de Jango) as caquéticas propostas de luta política clandestina do velho Partidão (PCB) atrelado, apelegado à matriz soviética, dependente das ordens de Moscou.

(Me lembro bem dos esotéricos textos de formação ideológica que lia, canhestras traduções de textos comunistas russos, chineses, cubanos, que nós, os militantes mais crus e comuns, mal compreendíamos)

As tentativas do PCB de um golpe comunista no Brasil no governo getulista, apoiado por agentes internacionais enviados por Moscou a pedido (ou impostos) por Luis Carlos Prestes, um pouco antes da segunda guerra mundial, haviam fracassado (incidente que inaugura, de certo modo, a prática da tortura por parte do estado brasileiro, contra presos políticos). Esta derrota, entre outros motivos, deixara o dogmático PCB gato escaldado diante de soluções militares, armadas.

Ainda narrando grosso modo, o que ocorreu foi que esta atitude considerada por parte da nova esquerda estudantil, como excessivamente passiva, omissa, do PCB diante da ditadura, acabou produzindo um racha que, a princípio gerou duas “tendências” ou facções comunistas mais radicais:

O PCdoB (o original) e o o PCBR (revolucionário), ambos com opções claras pela luta armada, mas com uma pequena diferença estratégica que os dividia entre a opção prioritária pela guerrilha urbana, defendida por uma facção como fase inicial para acumular forças e recursos para uma posterior luta geral (opção do PCdoB) e, por outro lado, a luta no campo, a partir de pequenos focos guerrilheiros que, conquistando apoio das populações rurais, formariam um exército proletário que, engrossando suas fileiras com a adesão dos operários nas cidades, esmagaria o poder burguês (opção inspirada na discutível proposta cubano-guevarista do “foquismo”, que fracassou no Congo e na Bolívia, além do Brasil)

(Essas duas ramificações iniciais, se fragmentaram em diversas micro-“organizações”, tais com a ALN, Colina, Var Palmares, POC, Polop, etc.)

Utopias, absolutamente piradas, prepotentes, presunçosas que tiveram, como sabemos, consequências dramáticas para os doidos francos como o Titio, que se meteram nessas aventuras, de curtíssima duração. Entre tantos fatores, eu participante da maluquice posso apontar um que parece decisivo:

Esta esquerda pós partidão, era formada, exclusivamente por jovens da classe média branca de nossas grandes cidades, comandados por comunistas mais cascudos, radicais da velha guarda. Em suma, uma espécie de aristocracia vanguardista, pretensiosamente se julgando capaz de ensinar, doutrinar e comandar o povo, na prática um mero coadjuvante, soldado do processo de tomada do poder.

Bem…deu no que deu. Parece que nada aprenderam com o passado. Excetuando o uso das armas, alguém vê alguma diferença entre aquela e a ideologia dessa esquerda atual?

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A alegoria do “golpe” como boneco inflado. 

A esquerda brasileira do século 21 e seu tiro no pé.

Lamentável. A votação do pedido de impeachment de Dilma Rousseff, mostrou um quadro bem nítido do caráter fake dessa esquerda. PSOL e REDE, os coadjuvantes principais da esquerda “crítica”, na hora do “vamos ver”, retiraram a naftalina das velhas roupas e os signos vermelhos do armário e correram imediatamente para debaixo da saia da mamãe, o PT.

As gravatas e echàrpes vermelhas dos militantes, pretensos “dissidentes” do PT na narrativa anterior, nesta votação do impeachment tiveram um peso simbólico decepcionante. Quem pode confiar agora em Marina Silva, em Chico Alencar como líderes de uma esquerda limpa, dissidente, depois de terem abraçado totalmente as falácias petistas como tábua de salvação?

Eram até ontem alternativas possíveis para a sobrevivência da combalida esquerda brasileira. Mas não, optaram pelo apoio cego a um regime em fase terminal, desmoralizado perante a maioria da população como sujo, indigno, imoral e desastroso para o país. Um equívoco afinal, histórico, porém recorrente desta aristocrática e petulante esquerda brasileira: o corporativismo branco-pequeno-burguês.

Cairam assim no abraço do afogado do PT e se desmascararam perante o eleitorado geral. Lançaram a esquerda (as ideias de esquerda, quero dizer) na caixa escusa da desmoralização política e da consequente inviabilidade eleitoral.

Se tínhamos nos anos 1960/70 uma esquerda jovem e voluntariosa, classe média e branca sim, envolvida numa tresloucada e suicida estratégia de conquista do poder pela força, é necessário reconhecer que tínhamos também na época, nessa esquerda, um senso de ética e moral inquebrantável. Não mentíamos, não tergiversávamos, não manobrávamos com uma propaganda de inspiração nazi-fascista, baseada em sofismas toscos.

(Pelo menos a princípio, antes de iniciarmos a tática das “expropriações”, os assaltos aos bancos e fundos secretos, como o cofre do governador de São Paulo, Adhemar de Barros, um de nossos corruptos seminais, inspiração da máxima que os petistas de hoje parecem acreditar: “Rouba mas… faz”.)

Faço a ressalva porque tenho a convicção de que todo o pesadelo dessa roda viva da corrupção petista (da esquerda como um todo, podemos dizer agora) tem como o seu pecado original aqueles assaltos sob a égide imoral da tese das “expropriações” que dizia: “ladrão que rouba ladrão…”. Muitos não resistiram à tentação.Alguns foram até julgados e justiçados como ladrões.

Do mesmo modo, tenho certeza de que, infelizmente a maior parte do apoio ao PT por parte de intelectuais e artistas, tem como raiz esta mesma fragilidade moral e ética de parte dessa classe média brasileira mais voluntarista, tributária direta da aristocracia colonial, tão oportunista, indiferente ao escravismo no passado, tanto quanto é hoje omissa em relação a exclusão social da maioria.

(No caso dessa esquerda brasileira o egoísmo e a presunção são tantos
os que se esqueceram até de que existe um povo real, uma população imensa vendo tudo pela televisão)

Sim, senhoras e senhores. Esqueceram de que a única maneira de se chegar ao poder hoje para implementar políticas sociais progressistas, por enquanto, é ganhando eleições. Quem votará numa esquerda mancomunada com corruptos da laia desses petistas flagrados? Quem pode garantir que esta esquerda pretensamente reciclada terá mesmo condições de governar e gerar prosperidade efetiva, além de meras migalhas assistencialistas?

(Quem não os conhece que os compre.)

Não sei qual é o plano. Será que decidiram largar a “via democrática” e optaram pela retomada da ultrapassada e tardia revolução…pelas armas? Não creio. Já ficou claro que esses, os da Lapa, são uma “esquerda” pequeno burguesa, classe média, do mesmo modo que a suposta “direita” da Av. Paulista. Farinha do mesmo saco.

E os vícios burgueses das lideranças? Como vão saciar? E as malhas da justiça? O bonde sem freio da Lava Jato? Como vão escapar? E o futuro? Qual é o plano afinal?

Será que vão expurgar e/o justiçar (passar nas armas) por fuzilamento exemplar os corruptos líderes petistas que acobertam hoje? Será que vão largar a cerveja gelada do carnaval da Lapa e se embrenhar numa mata amazônica? Quem pode, enfim, agora nessa gente acreditar?

É algo que muito teremos que lamentar num breve futuro: Um país promissor, tendendo para a direita por culpa de uma minoria “de esquerda”, historicamente inepta e hoje imoral, que diante da oportunidade inédita de ter o poder, meteu os pés pelas mãos e se acumpliciou com a farsa mais imunda da dilapidação do tesouro da nação.

Vão reclamar de que? Perdeu, playboy!

Shanana (by Spirito Santo & Musikfabrik-2001)

•04/04/2016 • Deixe um comentário

Patrimônio Turístico e Cultural: Conceito e preconceito -Um texto do Titio “acadêmico”

•02/03/2016 • Deixe um comentário


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Nazare da Mata - Ensaio sobre o Maracatu Rural Cambinda Brasileira, no Engenho Cumbe durante os anos de 2012/2013. - FOTO: ALEXANDRE SEVERO

Nazare da Mata – Ensaio sobre o Maracatu Rural Cambinda Brasileira, no Engenho Cumbe durante os anos de 2012/2013. – Foto: Alexandre Severo

Cultura / Políticas Públicas: a conexão acadêmica – 12 a 14 setembro 2012 UFRJ / UERJ– Comunicação

Por Spirito Santo

(Uma das poucas inserções do Titio no mundo acadêmico. Convidado por Samuel Araújo, Diretor do Laboratório de Etnomusicologia da UFRJ, Titio fez uma comunicação escrita sobre o tema em epígrafe)

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“A academia é a questão. Como não sou acadêmico, se me permitem, julgo que as minhas respostas às perguntas da mesa terão que ser, necessariamente respostas transversas.

Me parece que o papel mais útil a ser representado por mim aqui, será o de tentar contribuir com uma visão de fora para dentro, uma visão de ‘estranho no ninho’, digamos assim, o leigo olhando a academia meio de banda. Este meu ‘olhar de banda’ aliás, tem me rendido muitos cascudos e críticas, principalmente de antropólogos ligados diretamente ao estado e às políticas públicas voltadas para a cultura neste contexto do patrimônio imaterial.

Mas isto, reconheço, faz parte.

É que sou um autodidata quase absoluto. Samuel Araújo meu colega de curso com o maestro Guerra Peixe lá no início é que sabe me explicar melhor. O fato é que tenho, por razões que mal compreendo (uma mistura de curiosidade obsessiva e sorte sei lá) uma longa inusitada estrada neste rumo aí, por conta disto me acho no pleno direito de opinar e faço isto com paixão. Comecei a mexer com estas coisas em 1973, na época em que me transformei numa espécie de músico pesquisador (do Grupo Vissungo).

Até hoje, são quarenta anos nesta militância, quando decidi juntar tudo que recolhi por aí, pensar a respeito e escrever – até mesmo um livro consegui cometer – tentando contar e opinar e lançar ao debate de quem quiser debater o que investiguei.

Para encurtar a história, trouxe aqui para vocês alguns enxertos de textos que andei publicando no livro e na internet nos últimos anos, inclusive tendo a oportunidade de viver novas pesquisas de campo que me deram mais lenha para esta minha fogueira crítica que tenta ser isenta e embasada, mas não está atrelada a nenhuma corrente porque vive no mato sem cachorro.

É com estes fragmentos de textos que pretendo responder às solicitações da mesa.

Patrimônio Turístico e Cultural Conceito e preconceito

(Isto foi logo que começaram a falar em ‘tombar’ bens culturais imateriais no Brasil na virada para o ano 2000)

Turismo como se sabe é um conceito ligado à territorialidade, a um lugar específico para o qual os habitantes acharam por bem passar a atrair visitantes, motivados por alguma razão de natureza às vezes emocional (como amor por sua cidade) ou mesmo pragmática, como por exemplo, gerar recursos para melhorar a vida da coletividade, através da utilização de algo especial que o lugar tem, algo que atraindo interesse dos de fora, dos estrangeiros (que são chamados, vulgarmente, no caso, de ‘turistas’) possa ser explorado em benefício daquela coletividade.

Esta finalidade de utilidade pública está associada, portanto à existência deste certo ‘algo mais’ que os habitantes presumem possa gerar algum valor intrínseco ao ser visto e usufruído, algum atributo que está relacionado, como vimos – e de forma imperativa inclusive – a uma qualidade especial qualquer que o lugar, a cidade, o país ou o vilarejo tem, pode voltar a ter (ou mesmo nunca ter tido e passar a ter). Assim, o conceito Turismo prescinde sempre de uma razão, de um adjetivo, algo sugestivo ou atrativo, um chamariz, um elemento motivador, que traga os turistas para a intimidade de uma comunidade e justifique o desejo deles de estarem ali e não em outro lugar qualquer.

As possibilidades são inúmeras desde as inconvenientes como o chamado Turismo Sexual, por exemplo (armadilha na qual algumas cidades do Brasil como o Rio de Janeiro e Recife, por exemplo, já estiveram, infelizmente, associadas), até as mais simpáticas como Agro Turismo (o lugar tem uma pecuária de alto nível e promove rodeios e feiras), o Eco Turismo (o lugar tem uma flora exuberante e recursos naturais belíssimos) e muitas outras motivações…turísticas, como se pode deduzir.

(Neste particular chamamos, fortemente a atenção para o fato de que a expressão ‘prostituição’, pode ser atribuída também, de forma genérica é claro, a qualquer aviltamento ou banalização desta motivação turística original, seja ela qual for.)

É fundamental, portanto que, ao propor que um lugar se abra ao Turismo, à visitação de estranhos, os habitantes tenham muita clareza daquilo que querem mostrar, expor à visitação não só do aspecto do impacto que esta exposição trará para a sua vida cotidiana, como também de que modo este ‘chamariz’ ou fato turístico, poderá ser mantido íntegro, patrimônio social que, efetivamente passou a ser (bem comum a ser preservado).

O grau de apreço com que uma comunidade trata a integridade deste ‘algo mais’ que a localidade tem – e que ela elegeu como sendo um fator turístico em si – é, pois, proporcional ao nível de degradação que este fator turístico sofrerá quando desprezado ou exposto ao desleixo e ao descaso. Um exemplo claro disto (embora nem sempre óbvio) é a necessidade de se manter limpo um rio que deságua numa cachoeira exuberante.

Se houver qualquer descuido da comunidade (usando um exemplo bem corriqueiro) diante de uma ameaça de poluição deste rio mais cedo ou mais tarde os turistas abandonarão o balneário e o valor do que era um patrimônio eco turístico inestimável, se esvairá.

Preservar, conservar e manter o patrimônio de uma coletividade íntegro e perene, mobilizar a consciência turística de uma coletividade é, pois, sinal de inteligência comunitária, condição essencial para merecermos o nome de indivíduos civilizados. Tocar neste assunto quando o bem a ser preservado é de natureza imaterial como manifestações culturais tradicionais (algo intangível), por exemplo, é contudo um assunto bem mais complexo.

Considerando-se no entanto os exemplos acima citados, o conceito preservação em geral até que não é tão complicado assim. Podemos continuar a exemplificar também no caso das imaterialidades, sem dificuldade usando estas mesmas simples analogias.

Se a intenção for tornar algo patrimônio de uma comunidade, ser um bem material ou imaterial importa pouco, do ponto de vista do inventariamento, do processo do julgamento de seus atributos. Neste sentido, outro exemplo prático para se entender melhor a questão é quando este bem cultural, passível de ser utilizado com finalidade turística, é o patrimônio arquitetônico do lugar (algo tangível, portanto).

Prédios e edificações antigas, construídas em estilos que representam tendências de uma época, de um estágio tecnológico, de um modo de vida: edificações que, afora o seu significado estético, formal, representam também um espaço memorável, onde ocorreram fatos e incidentes emblemáticos, relacionados à história do local, ou onde certos aspectos da cultura da região ou do país, do mesmo modo ocorreram são, pois, bens culturais por excelência.

Conscientes destas particularidades como lidar então com este patrimônio histórico arquitetônico? Em primeiro lugar é preciso identificá-lo, atestar a legitimidade de sua condição histórica, mediante uma avaliação técnica criteriosa.

É por meio deste reconhecimento, desta comprovação de sua autenticidade atestada por evidências técnicas irrefutáveis, que se poderá ‘tombá-lo’, inventariá-lo ou reconhecê-lo, oficialmente como um bem histórico evidente, patrimônio público por suposto, bem coletivo a ser conservado.

É a partir deste reconhecimento público formal que surge então, me parece, a obrigatoriedade, também pública, de restaurá-lo quando degradado pelo tempo – ou mesmo pelo vandalismo de alguns- e mantê-lo preservado, íntegro, função geralmente assumida, como precípua, por alguma instituição pública, vocacionada para tal (como é o caso do Iphan, pelo menos neste aspecto).

A maior parte das críticas que recebo quando tento associar patrimônio material com imaterial está ligada a esta suposta visão estática de patrimônio que eu teria, atributo que a Cultura, coisa feita por gente em trânsito pela vida, não poderia ter. Eu também sei: A Cultura está sempre sendo feita e por se fazer. Quem não sabe disto? O fato é que as pessoas não perceberam que a crítica que faço, geralmente não é à maneira como a patrimonialização de bens culturais está sendo feita. A minha crítica é contra esta patrimonialização de bens imateriais em si.

Radiografando o patrimônio imaterial (o intangível não é invisível)

“… E esta pré noção invencível, mas invencível, de que o Brasil, em vez de se utilizar da África e da Índia que teve em si, desperdiçou-as, enfeitando com elas apenas a sua fisionomia, suas epidermes, sambas, maracatus, trajes, cores, vocabulários, quitutes… E deixou-se ficar, por dentro, justamente naquilo que, pelo clima, pela raça, alimentação, tudo, não poderá nunca ser, mas macaquear, a Europa.”

( Mário de Andrade no diário de “ O Turista Aprendiz” do dia 8 de maio )

Por este viés de nossa avaliação algumas conclusões preliminares podem ser entabuladas.

A primeira delas – a mais evidente e dramática – é que a maioria dos grupos de cultura tradicional do Brasil, do ponto de vista de sua relação com o Estado, estão completamente desorganizados como tal e desarticulados entre si. Vivem à mercê das investidas de aventureiros de vários tipos, bem ou mal intencionados e, em sua maior parte, totalmente deseducados, aculturados, apartados dos significados e sentidos mais profundos da cultura tradicional de seu próprio país.

E este é um ponto crucial da crítica: os agentes do Estado incumbidos de inventariar bens culturais imateriais, por conta do renitente – e histórico – elitismo e descaso de nossa academia para com certos aspectos de nossa cultura popular, quase nunca estão preparados, não são efetivamente doutos naqueles temas sobre os quais ganharam o direito de arbitrar.

(Façam como eu e tentem montar um bibliografia densa e pertinente com livros, teses e dissertações acadêmicas sobre Jongo, Congada, Maracatu, qualquer coisa destas manifestações aí neste rol de registros e tombamentos. )

As razões desta desarticulação circunstancial e relativa dos grupos de cultura tradicional, da fragilidade de suas relações de intercâmbio com a sociedade em geral, só podem estar ligadas, portanto às históricas e caquéticas idiossincrasias do sistema social do Brasil que alija para a periferia da sociedade tudo que diz respeito ao que é chamado de popular, principalmente as suas oportunidades de acesso à educação. Alija, não: Torna invisível, ilegível todos aqueles aspectos cruciais de nossa experiência civilizatória que não sirvam ‘pra inglês ver’.

Nossa academia, com alguma certeza ainda hoje reflete este estado de coisas.

(Já disse uma vez por aí: Se a sociedade brasileira não fosse tão excludente e racista jamais teríamos uma cultura popular tão acentuadamente africana como temos)

Como disse, observem que, como não podia deixar de ser até mesmo a preservação do patrimônio cultural e emocional deste tal de povo é reiteradamente desprezado, subestimado do mesmo modo como são omitidas e desconstruídas, até mesmo as referências de seu passado histórico (bem entendido o passado histórico real do país, enquanto instância, evidentemente associada à nossa cultura, de maneira geral).

Fica do mesmo modo evidente que há, além da óbvia e recorrente contradição sócio econômica entre pobres e ricos, um imenso fosso ético se alargando no bojo destas relações entre elite e povo (‘agentes externos’ e população local, no caso) já que as mais iníquas investidas rumo à vocação turístico cultural de certas regiões, vista como oportunidade de ganhos financeiros para indivíduos e instituições estranhas às comunidades, segundo a maioria dos relatos disponíveis, costuma ser perpetrada sem nenhuma espécie de pudor etnológico.

Aparentemente intencionada, como disse, em alijar e excluir e, num segundo momento (por um mero imperativo político estratégico, talvez) usar, instrumentalizar a cultura dos grupos de cultura tradicional local, estas ações quase sempre são realizadas, portanto sem nenhum cuidado com os riscos que esta utilização irresponsável traria para a sobrevivência das manifestações aviltadas, após uma longa exposição

(É como naquele exemplo do rio de uma cidade que, assim como a Cultura está sempre em trânsito, mas precisa ser mantido livre da poluição senão perde o seu valor turístico ou patrimonial)

Fica ainda, no mesmo sentido atestado que há problemas terríveis também no que diz respeito à formação educacional de nossa juventude ‘incluída’ quando se percebe que na vanguarda desta elite predatória (turistas ‘ao contrário’, por se assim dizer), intermediando a ação dos ‘organizadores’ responsáveis por estas ações, estão jovens formados em universidades, muitas vezes em ciências sociais, antropologia, etc. matérias fundamentais nesta questão (inclusive em seu estrito sentido ético) jovens ‘bem’ formados estes que, não raro usam os supostos conhecimentos auferidos em sua formação para perpetrar este tipo de ação anti cultural esperta e não raro, oportunista, fazendo-nos refletir, desolados que diabos estamos fazendo com a nossa sociedade ‘letrada’.

É bastante difícil avaliar por isto mesmo, o grau de degeneração provocado por iniciativas culturais, pretensamente positivas e ‘boazinhas’. O cerne da questão é que o impacto de ações como estas costuma ser muito mais nocivo no campo da ética, porque acaba corrompendo as comunidades no âmago de seus valores morais mais caros.

Degeneração pura e simples, no sentido da banalização de um atributo emocional intrínseco a cultura das pessoas; deturpação da representação simbólica de toda uma maneira de ver e viver a vida que, pode ruir – e efetivamente rui – totalmente quando se depara com a constatação de que se pode trocar por alguns trocados a exibição de uns poucos dotes artísticos ancestrais (da mesma forma que se pode trocar um benefício mensal de um programa de ‘renda mínima’ por um voto). Degeneração ética como morte da tradição, como extinção do patrimônio cultural imaterial que se esgarça e se vulgariza.

(Tradição e Ética não enche barriga, diz-se hoje por aí).

Assim, com a insistência do aliciamento dos ‘aventureiros’, como a esmola viciando o cidadão, a exibição dos dotes ‘exóticos’ passa a se dar mesmo quando alguém, considerando os dotes originais ou tradicionais feios e desinteressantes (segundo as ocultas intenções de espetacularização do evento), alicia para alterar, para subverter, para fingir uma falsa tradicionalidade, que melhor apeteça ao turista freguês (também de algum modo lesado porque é levado a considerar cultura tradicional o que foi descaradamente maquiado, forjado).

Em meio a este descompasso moral, que mal haveria em mudar um passinho aqui, trocar uma saia branca por uma estampada acolá, cantar uma canção afirmada como sendo pretensamente folclórica, composta por sabe-se lá quem, corrompendo-se, prostituindo-se? Algum incômodo, alguma sensação vaga de ridículo haveria, algum mal estar sim, mas, e daí se isto tudo é… coisa que dá e passa?

Quem há de saber o rumo que estas coisas poderão tomar ou no que elas podem resultar no futuro? Pois não é assim mesmo, aviltando-se e corrompendo-se por força de um meio hostil que as coisas todas do mundo se extinguem?

A questão nuclear de tudo isto é que, se o conceito Turismo Cultural encerra a exibição (seja lá com que finalidade for) de certos atributos do patrimônio imaterial real de uma comunidade, o que ocorre, em certo prazo se estes valores forem corrompidos, aviltados acima do suportável? Mesmo que, materialmente ainda lhes restem traços, vestígios de sua forma original, simbolicamente nada mais restará de memorável, digno de ser exibido.

Tarde demais quando o que vendemos foi a nossa própria alma, pode ser a lição. Ou mesmo, lembrando o ditado mais comum de todas as guerras: Não queime as suas pontes (os vínculos emocionais com o seu passado) senão você não terá como recuar quando isto for a única sorte possível, questão de vida ou de morte.

“… Nos orgulhamos de ser o único grande (grande?) país tropical…. Isso é o nosso defeito, a nossa impotência. Devíamos pensar, sentir como indianos, chins, gente de Benin, de Java… Talvez então pudéssemos criar cultura e civilização próprias. Pelo menos seríamos mais nós, tenho certeza. ”

(Mário de Andrade no diário: “18 de maio)

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(Ah…Já ia me esquecendo: Vocês já sabiam que a palavra ‘Tombar’ vem de ‘registrar nos livros da Torre do Tombo’, antiga sede do arquivo Nacional português em Lisboa, não é mesmo?

Pois é. Aculturados somos ou nos… resignificamos?)

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Muito obrigado

Manoel Kongo, vive! A arqueologia da revolta

•27/02/2016 • 7 Comentários

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As rebeliões nas histórias mal contadas jamais são debeladas

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Equipe de pesquisadores planeja investigar como sítio arqueológico, a Fazenda Arcozelo, antiga “Fazenda Freguesia”, onde foi deflagrada uma das maiores insurreições de escravos das Américas: A Revolta de Manoel Kongo.

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Convidado pelo historiador da UFRJ Flavio Santos Gomes, especialista em escravidão, com a parceria do arqueólogo Luis Claudio Symanski da UFMG, do mesmo modo focado em sítios arqueológicos do período escravista, o Titio, orgulhosamente passa a integrar a equipe que, a partir de escavações arqueológicas, buscará memórias materiais da época em que nesta enorme fazenda, mandava o Capitão Mor Manoel Francisco Xavier, português, indicado pela Corte Imperial para ser a maior autoridade da região, onde se iniciava o boom das grandes plantações de café, que transferiram milhares de escravos para o Vale do Rio Paraíba do Sul, no Rio de Janeiro e São Paulo.

Titio Spirito Santo entra em cena por conta de sua pesquisa iniciada em 1994, baseada no esquadrinhamento quase forense, dos autos do processo de condenação de Manoel Kongo em 1839, a partir do qual escrevi um texto teatral denominado “Auto do Manoel Kongo/AMK”.

Enseja também a nossa parceria a participação de Flavio numa mesa de debates na PUC/Rio, com o Titio, por ocasião da exibição do filme “A Roça de Teresa” baseado também numa pesquisa que realizei em 1973, com uma ex escrava cuja família fugiu para um quilombo situado nesta mesma região.

A ideia nesse caso será encontrar registros documentais, certidões, etc. dos principais personagens citados na entrevista/filme de Teresa.
A fazenda Freguesia, origem da maioria dos rebelados capturados, data do final do século 18 e é uma das raras construções coloniais desta época, ainda de pé. Este fato é dramático porque o belo prédio da Casa Grande, com dois andares e ainda intacto, com traços originais preservados, encontra-se em ruínas, prestes a desabar.

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Um imbroglio típico da incúria das autoridades brasileiras responsáveis por financiar a preservação de nosso patrimônio arquitetônico, deixou indefinida a guarda do imóvel que, embora esteja oficialmente sob a responsabilidade da Funarte, se encontrava totalmente abandonado, interditado pela defesa civil.

A atual crise geral brasileira, que atinge em cheio instituições culturais governamentais ligadas à cultura, explica em muito o estado de abandono deste inestimável patrimônio, mas é de todo modo inexplicável a inação das autoridades governamentais superiores, pois, afinal a fazenda de Arcozelo/Freguesia (cujo abandono não é recente) tem importância histórica mundial. Junções junto a Unesco, que não se sabe se foram sequer tentadas, seria o mínimo a ser feito.

Esta nossa primeira viagem teve também quinhentos percalços, como se algo não quisesse nos deixar chegar lá. O carro, lá para as tantas, enguiçou por falta de bateria e, depois de empurrado e andar uns poucos quilômetros acabou apreendido numa blitz do Detran por filigranas burocráticas na documentação. Só depois de dois ônibus, um táxi e um longo trajeto chegamos no local.

Ainda assim, chegando lá mal podemos entrar: A defesa civil continuava a interditar o local e, para acabar de endireitar, um funcionário havia acabado de falecer em serviço, no pátio da fazenda. Fomos, gentilmente convidados a nos retirar, mal começada a nossa empolgada inspeção.

Mas nada disso incomodava os mosqueteiros.

A equipe formou bonito. Conversamos muito no trajeto, descobrimos que líamos as mesmas referencias bibliográficas e, o que é mais bacana: havíamos lido uns aos outros. Daí foi fácil. Viramos, rapidamente uma equipe animada e coesa.

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Contamos já também com algum apoio logístico da Secretaria de Cultura de Vassouras, por intermédio do jovem secretário José Luiz Júnior. Também já contactamos o escritório do IPHAN da região, sob a guarda da sempre parceira arquiteta Isabel Rocha, para as futuras consultas aos documentos do CDH/Centro de Documentação Histórica de Vassouras.

A Funarte, responsável pelo imóvel será também, evidentemente procurada para podermos viabilizar uma inspeção mais acurada do futuro sítio arqueológico.

A ideia central da equipe será realizar densos registros, com os resultados gerando produtos multidisciplinares, quiçá multimídia, os mais diversos. Desde um artigo acadêmico escrito a seis mãos, um livro eventual, uma encenação teatral ou, até mesmo um documentário, as ambições são as mais otimistas possíveis.

Talvez, quem sabe, até um pouco de rebelião neo acadêmica, epistêmica, seja lá o que isto quer dizer, pois…

...Manoel Kongo, vive!

Spirito Santo

Fevereiro 2016

Orson Welles, Titio pesquisador e a “Story of Samba”

•04/02/2016 • 2 Comentários

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 História, mais que ler, é ver para crer.

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Seção rítmica clássica do Samba de 1920 a 1940: Surdos de primeira e de segunda (não existia o de terceira), caixas (sem esteiras, corpos curtos) e repinique (corpo longo). Tambores antigos, toscos, denotando a perda por parte do povo, do excelente know how dos antigos tambores africanos. As peles eram então retesadas à tachinhas ou pregos e afinadas no calor (sol ou tochas de jornal). Os tambores de lata de carbureto, aparentemente tinham a pele costurada no corpo. Um notável e candente exemplo de resistência cultural.

 

As fotos que ilustram este post são frames do filme “Story of Samba” de Orson Welles, capturados por Hall Preston diretor de fotografia do documentário em 1942, nunca exibido completamente. Pesquisador sortudo, encontrei o filme durante a pesquisa para a segunda edição de meu livro “Do Samba ao Funk do Jorjão“.

É que uma das teses centrais do livro, era o estudo do processo de evolução organológica (instrumental) das baterias de escola de samba do Rio de Janeiro, as quais, por razões até então nunca estudadas, estranhamente usavam instrumental, diretamente extraído das seções rítmicas das bandas marciais e musicais de origem européia, da virada do século 19 para o 20. Desconstruo e construo este processo, meticulosamente no livro.

Desenvolvida na primeira edição, de forma convincente, a hipótese que considerava a exclusão sócio racial, o racismo enfim, como elemento crucial para a perda do know how para a fabricação de tambores africanos de alta performance, portado pelos descendentes de africanos até o início do século 20, faltava um elemento de prova concreto para transformar a hipótese em tese, um elemento que tornasse a teoria desta transição inquestionável.

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Organologia mista. Flagrando a transição em 1942: Tambores antigos, toscos, com pele retesada à tachinhas, afinadas no calor (sol ou tochas de jornal) e tambores de tarrachas, “modernos”, semi industrializados, usados desde o final século 19 por bandas militares.

A intuição e a investigação holística do Titio, atenta a qualquer pista, de qualquer origem, me entregaram a chave: A transição dos tambores rústicos e elementares do Samba carioca (e das demais manifestações musicais africanas Brasil a fora), se dera, EXATAMENTE na década de 1940. Ela podia – como foi – flagrada nas ruas, no carnaval de 1942.

Bingo!

Como provei? Com essa sequência de frames do filme de Orson Welles de fevereiro de 1942. Nele Hall Preston conseguiu captar, em detalhes, todas as caraterísticas fisiológicas desta transição. Assim, ao invés de descrever em sempre questionáveis palavras e mais palavras os detalhes da teoria, faço como São Tomé e publico as imagens.

Na prática, a teoria é outra.

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Tambores toscos, ainda normalmente inseridos no Samba de carnaval. O custo dos tambores “modernos”, deve ter atrasado bastante a utilização destes por parte da população negra, mais pobre, moradora em favelas.

“É tudo verdade” é um filme inacabado de Orson Welles composto por três histórias sobre a América Latina. “My Friend Bonito”, supervisionado por Welles e dirigido por Norman Foster no México, em 1941, “Carnaval” (também conhecido como “The Story of Samba“) e “Jangadeiros” (também conhecido como “Quatro Homens em uma jangada”) foram dirigidos por Welles no Brasil em 1942.

“É tudo verdade” era para ter sido o terceiro filme de Welles para RKO Radio Pictures, depois de “Cidadão Kane” (1941) e “The Magnificent Ambersons” (1942). O projeto foi uma co-produção da RKO e do Escritório do Coordenação de Assuntos Interamericanos dos EUA.

A produção não realizada foi o tema de um documentário de 1993 escrito e dirigido por Richard Wilson, Bill Krohn e Myron Meisel.

Enquanto algumas das filmagens de “É Tudo Verdade” foram reaproveitadas ou enviadas para bibliotecas de filmes de ação, cerca de 200.000 pés de negativos de nitrato em Technicolor , a maior parte do episódio “Story  of Samba”, foi lançado no Oceano Pacífico na década de 1960 ou 1970 .

Na década de 1980 uma caixa de negativos, grande parte em preto-e-branco, foi encontrado em um cofre e entregue ao UCLA Film and Television Archive. Um inventário de 2000 indicou que cerca de 50.000 pés de “É tudo verdade” tinham sido preservados, junto com aproximadamente 130.045 pés do negativo de nitrato de preservação ainda não garantidas.

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Tarol e repique “modernos”, de bandas militares, já inseridos, normalmente no Samba de carnaval

Ano passado (2015) no embalo da revisão de conteúdo para esta segunda edição do livro, voltei ao excelente site “Citizen Grave“, onde encontrei o filme desses frames. Pretendia compartilhar o link de todo o filme no livro. Decepcionado constatei que a maldita RKO (seus representantes) produtora original do filme de Orson, por ela amaldiçoado, havia retirado o dito do YouTube.

Azar o dela. Titio havia feito na primeira visita esses prints que, orgulhoso e satisfeito publico no livro e compartilho aqui.

Perdeu RKO! Valeu Orson Welles.

É tudo verdade!

Quer saber mais? Aguarde a segunda edição do livro do Titio para breve.

Spirito Santo
Fevereiro 2016

 
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