Mundão Véio sem Porteira



Creative Commons License

 
 

 

Divulgação / Todos os direitos reservados

 

Capa do disco com a trilha sonora de `Salutos`, filme de Walt Disney.

Xenofobia e sexo dos anjos“…obviamente o Overmundo não advoga um nacionalismo retrógrado e isolacionista, nem é contra – por exemplo – debates mais estritamente políticos ou sobre a produção cultural internacional”Hermano Vianna- Observatório do Overmundo – 4/2/2007Começou assim, com esta defesa algo enfática no Overmundo diante de alguma inusitada acusação de xenofobia. A conversa no Observatório do site, ainda restrita a alguns poucos adeptos da discussão, escorregou naturalmente para temas afins entre os quais, a esta altura de uma conversa que promete ser longa, dois se destacam: A já mui citada Xenofobia e o que poderíamos chamar de Xenomania, palavra improvisada para um tema que não ousa dizer seu nome, evitado como uma espécie de tabu e que aparece ainda cifrado na maioria das conversas sobre cultura brasileira: A aculturação.

A conversa no fórum anda bem, mas há sempre o risco de se mergulhar naquela velha discussão de 1922: Tupi or not Tupi? Seria o velho maniqueísmo simplista de sempre, querendo dar as caras? Estaríamos mesmo divididos entre os que são, de um lado, supostamente ingênuos defensores da pureza imaculada do folklore nacional e, de outro, aqueles moderninhos que consideram tudo na cultura brasileira lixo subdesenvolvido, que o Brasil precisa mesmo é de um up grade, um bom banho de civilização primeiro mundista? Menos! Menos! É preciso urgentemente relativizar, rapaziada!

É para ajudar a desarmar esta triste arapuca que mando este meu franco e emocionado post.

Posso começar dizendo que aquele papo antigo de ‘união entre três raças tristes’, sugerido num dos comentários do fórum, precisa ser definitivamente superado. O que ocorreu aqui, no Brasil, não foi exatamente um congraçamento harmônico e feliz entre índios, africanos, europeus, árabes e outras galeras. Temos agora mesmo no Rio de Janeiro, comunidades inteiras sendo enclausuradas em guetos urbanos, dominados por ‘milícias’. Houve na nossa história a submissão pela força bruta e o seqüestro de populações inteiras, massacres bárbaros; houve o exílio de muitos dos que vieram para cá em fuga de conflitos externos, do mesmo modo bárbaros (vieram também uns em maior número do que outros, o que é um fator crucial para se configurar a Cultura de um lugar).

De esquisito mesmo só o fato deste caldeirão fervente, esta quizumba sem tamanho, ter dado num país tão culturalmente integrado quanto é o Brasil. Seriam os bons frutos da diversidade?

…”É um país onde as crianças gostam de anime e jogam Playstation, ouvem samba e música eletrônica, comem mandioca e sushi no mesmo dia, e assistem programas estadunidenses na TV a cabo”

Polemizando com o mesmo comentário do observatório (citado acima), enfatizo que, infelizmente, esta é a realidade de uma ínfima minoria de nossas crianças (aliás, o comentário toca num ponto crucial à nossa discussão quando define o perfil do que seria a criança padrão do Brasil: aquelas que comem sushi e tem TV à cabo). Mesmo que não tenha sido exatamente isto o que se tenha querido dizer, acho que faria muito bem ao Overmundo manter este aspecto do papo na roda, sem omiti-lo (como seria de melhor tom à proverbial cordialidade aparente de nossas relações sociais). Por que não?

Se bem lembrarmos, plena de hipocrisia, a prática da Xenofobia sempre serviu mesmo foi como pretexto para justificar insidiosas manobras anti-democráticas. Remember a função espúria desta prática no contexto do Nacional Socialismo alemão da década de 40, do Estado Novo Getulista, da Revolução Cultural de Mao Tse Tung e por aí vai.

Mas não se esqueçam porém de buscar a mesma hipocrisia – mais contida e melhor camuflada mas, também ali, presente – por exemplo, na intensa campanha feita pelo congresso norte americano nesta mesma década de 40 (pré segunda guerra mundial) quando, apavorados com a suposta influência das idéias alemãs sobre o governo Getúlio Vargas, os congressistas ‘yanques’ instituíram a chamada ‘Política de boa vizinhança’, caracterizada, no campo da cultura, pelo envio de missões culturais ao Brasil e pela arregimentação de intelectuais brasileiros como adeptos, eventualmente interessados em difundir os ideais do ‘American Way of live’ por estas bandas. Mui amigos.

Não seriam Ary Barroso, Carmem Miranda (disseram na época que ela voltou americanizada), Zé Carioca, e outros bambas, de algum modo, signos desta suposta Xenomania insuflada por interesses geopolíticos na alma de tantos artistas destes nossos Estados Unidos do Brasil?

Mas precisamos sempre relativizar porque foram muitas as vantagens que obtivemos desta troca de interesses. Sem muito esforço poderíamos citar por exemplo, as jóias da pesquisa etnomusicológica que nos legaram esta ‘política da boa vizinhança’. Já se falou aqui neste Overmundo: Luiz Heitor Correa de Azevedo, nosso grande etnólogo realizou com apoio norte-americano um inestimável registro da música do Brasil mais profundo. No mesmo âmbito diplomático a época é também da viagem do maestro Leopold Stokowski (autor das trilhas sonoras para Walt Disney, pai do Zé Carioca) que, auxiliado por Villa Lobos e Ernesto dos Santos, o nosso Donga, fez exatamente em 1940, um antológico registro da obra de Pixinguinha, do mesmo Donga, de Cartola e outros, no navio-estúdio U.S. Uruguay, ancorado no porto do Rio (o disco é o ‘Native Dance’ da Colúmbia records e a história pode ser lida por inteiro em http://daniv.blogspot.com).E o que dizer da suposta e propalada adesão do mesmo Heitor Villa Lobos aos ideais pró nazistas do Estado Novo? Xenomaníaco entreguista? Xenófobo nacionalista? Ah… qual o quê.

Por tudo isto, acho que definir a cultura característica de um país não é uma tarefa tão difícil assim, mesmo com a velocidade absurda das mídias de hoje (um pretexto tipicamente ‘xenomaníaco’). Os processos são, limitadamente, humanos e logo, muito recorrentes. O Espaço, o âmbito das trocas culturais é sempre este nosso velho e alquebrado mundo. O que muda é o Tempo. Agora é a internet, os quase instantâneos downloads de arquivos MP3, antes eram os livros e as partituras chegadas, meses e meses depois de enviadas, num navio.

O fato é que, de um modo ou de outro, inevitavelmente, a ‘Polska’ e o ‘Shotisches’ (como o Funk, como Drum’n bass e sabe-se lá o que mais) chegariam ao Brasil. De um modo ou de outro, a classe musical local predominante (naquela época músicos negros, com fortes ‘vícios’ e maneirismos étnicos fruto de sua origem africana) chamariam a coisa de ‘Polka’ e a tocariam um pouco diferente do que as partituras indicavam, acabando por criar (meio ‘sem querer querendo’) esta coisa tão brasileira que a gente chama hoje de Chorinho. O ‘Mundão véio sem porteira’ era e talvez seja – queira Deus – sempre assim.

Agora, de uma coisa acho que não é bom a gente fugir: estes processos culturais são muito interativos. Não são espontâneos, automáticos, harmônicos. Fazer cultura estrangeira no Brasil é uma coisa. Fazer cultura brasileira a partir das influências externas que nos cheguem, seja lá de onde for, é outra coisa bem diferente (esta foi meio Mariodeandradiana, sacaram?).

Cultura nacional sem xenofobia pode ter a ver com Personalidade, Orgulho, Identidade, sem ignorância. Além disso, Cultura é um produto de muito valor financeiro no mercado mundial. Significando (como disse aqui outro dia a nossa Ilhandarilha) divisas, grana, distribuição de renda, emprego, além da felicidade geral da nação. Definitivamente, não seria inteligente portanto entregar o ouro assim, de mão beijada, para o ‘bandido’. Controlemos, batalhemos por regras e leis, coloquemos rédeas nesta coisa.

No entanto, se recomenda cuidado. O melhor de nossa cultura pode acabar mesmo é sendo escrito por linhas tortas.

Para finalizar, e enfatizando a proposta de Diversidade no Overmundo, considero que estas questões estão ligadas sim, diretamente, à liberdade de expressão, ao acesso à informação, ao direito de difundi-la, transformá-la, ao fim de certo tempo, numa coisa de algum modo parecida com a matriz que nos chegou um dia no interior de um navio ou de uma navegada na internet, mas como coisa nossa – do maior número de pessoas possível – na mais completa acepção da palavra.

Quanto mais amplamente forem garantidos estes direitos, mais bacana, original e brasileiro – e universal – será este nosso Overmundo, não acham?