JONGO! Patrimônio imaterial?


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 Foto-litografia de Victor Frond e Sebastien Sisson - séc19

 

Fazenda com escravos no Vale do Paraíba do Sul

Foi logo no início das nossas colaborações por aqui. O Boletim Famaliá, no qual o tema apareceu, atraindo o meu comentário, já freqüentava a minha caixa de e.mail bem antes disso. Andava me dedicando ao tema há muitos anos e ele sempre tinha sido, pelo menos para mim, um mistério irresistível, coisas antigas, daquela que mãe da gente conta assim, por entre os dentes, no meio de uma conversa fortuita sobre assombrações: O Jongo!Quem sabe o que é isso exatamente? Para nos situarmos na conversa reproduzo aqui o link do verbete (que eu, fiel à memória do que aprendi e vivi sobre o assunto, criei e disponibilizei no sistema criative commons).Veja em http://pt.wikipedia.org/wiki/Jongo.A natureza das contribuições dos grupos, comunidades e instituições envolvidas no processo deste inventário e, principalmente, o grau de ligação real (conhecimento de causa) dos envolvidos, com relação a uma manifestação cultural tão antiga quanto o Jongo, não estão explicitados no corpo do artigo. Não se pode deixar de aludir que o Jongo, uma manifestação até bem pouco tempo vagamente conhecida por nossa etnologia, é um tema muito complexo, ligado a uma espécie de ‘elo perdido’ – e sistematicamente subestimado por nossa academia: O caráter fundamental das particularidades das culturas africanas originais que informaram a cultura negra existente no Brasil.

Esta impossibilidade de se fazer uma avaliação criteriosa sobre o assunto atrapalha bastante a formação de um juízo de valor, uma opinião definitiva a respeito de uma ação de tamanha envergadura, podendo atrapalhar a própria decisão da comissão incumbida de legislar sobre a questão. É importante se frisar também que se está propondo a implementação de políticas públicas (de certo modo invasivas), ações governamentais que produzirão um impacto importante sobre o caráter de uma manifestação cultural que, cá entre nós, vivendo há mais de um século esquecida na roça, por alguma razão, de repente ‘caiu na moda’.

“No decorrer do processo de inventário foi fundamental o apoio da Universidade do Rio de Janeiro (UniRio), do Grupo Cultural Jongo da Serrinha, da Rede da Memória do Jongo, do Grupo Cachuêra e de lideranças de várias comunidades jongueiras…”

O pleito pela transformação do Jongo em patrimônio imaterial (objeto da matéria do Boletim Famaliá neste link: http://www.overmundo.com.br/blogs/artigo-jongo-patrimonio-imaterial-brasileiro) – por sua inusitada relevância nos dias de hoje – me parece um tema por demais polêmico. Fico mesmo surpreso que ele não esteja sendo amplamente debatido, pelo menos em seu âmbito mais direto.

Eu penso que patrimônio cultural material ou imaterial são conceitos bastante óbvios; patrimônio material mais ainda, porque neste caso, geralmente, estamos nos referindo a artefatos, obras concretas, acabadas, que não são muito passíveis de intervenção, transformação, ou mesmo apropriação. O grande X da questão na verdade é mesmo esta palavra de peso tão forte: Apropriação.

Afinal, por que se apropriar? Quem tem necessidade de se apropriar? Ninguém tem necessidade de se apropriar de sua própria cultura, conclusão pra lá de óbvia, não é mesmo? Logo ‘alguém’, por alguma razão (que não discuto ainda) só pode querer se apropriar da cultura do ‘outro’, daquele culturalmente diferente, claro!

‘Nós’ e os ‘outros’. A velha dicotomia. Temos um problema bem controvertido aí, vocês não acham?

Esta mesma questão nos leva à outra: O Registro. Parece óbvio mas vale a pergunta: Por que registrar? Já veiculamos e registramos cultura por intermédio das chamadas linguagens artísticas, melhor entendidas, a grosso modo, como Arte, Mídia, ou seja lá o que for. Parece que, de uma forma ou de outra, o homem sempre encontrou maneiras, muito eficientes e sofisticadas até, de veicular (transmitir, disseminar, etc.) seus pontos de vista, pensamentos, sentimentos, sua cultura enfim. São estas formas de comunicação que acabam cristalizando certos aspectos de uma manifestação cultural, gerando os tais ‘registros’, imprecisos, geralmente codificados em intrincadas simbologias, esoterismos, etc. (como os da literatura oral, por exemplo) mas que, mesmo no caso das mídias mais modernas, não passarão jamais de ‘flash backs’, imagens virtuais do que já foi, do que ‘já era’.

Neste aspecto do Registro e como argumento preservacionista, a discussão costuma se basear também na comparação entre mídias ‘modernas’ e ‘arcaicas’. A transmissão oral (a memória das pessoas contidas em sua arte) seria a mídia imperfeita, frágil, enquanto que a literatura ‘culta’, a Internet e suas diversas mídias correlatas seria o processo ‘novo’ e, por conseqüência, perfeito. Por meio da transmissão oral perderíamos gradualmente o foco, a manifestação se esmaeceria e perderíamos uma peça de nosso ‘patrimônio’ cultural. Patrimônio? Imaterial? Numa sociedade tão corrupta como o Brasil vale perguntar: Patrimônio Imaterial de quem,“cara pálida”?

O fato é que, ao que parece, não é correto intervir muito nestas coisas, assim como donos da verdade, como um grupo social isoladamente – uma ‘elite’ portanto -, decidindo que aspectos da cultura de uma sociedade devem e quais não devem ser preservados. Isto é menos correto ainda quando não pertencemos àquele meio cultural específico, ou quando somos de contexto social diferente daquelas pessoas que praticam aquilo que estamos querendo ‘preservar’. Aí o perigo é muito grande porque, quando dominamos meios de registro rápidos, modernos, estando diante de culturas cujo principal mídia ainda é a transmissão oral, acabamos nos iludindo e achando que ‘copiar’ Cultura’ é o mesmo que ‘fazer’ Cultura.

É quando nos arriscamos a entrar no campo da apropriação (copiando a Cultura do ‘outro’ com estranhos fins) ou, o que é pior, participando da criação de um modelo ‘fake’ daquela cultura, ‘desvirtuando-a’ completamente e aí sim contribuindo, decisivamente, para neutralizá-la e destrui-la. Com efeito, a parte crucial – e surprendente- da matéria (extraída do documento oficial do Iphan) é aquela que, a título de melhor justificar a pertinência do pleito, diz o seguinte:

…”As crianças, por exemplo, que durante muito tempo não podiam freqüentar as rodas de jongo, hoje são estimuladas a aprender o canto e a dança de seus ancestrais. E em muitas comunidades, hoje em dia, não é mais necessário ser filho de jongueiro para ser considerado jongueiro. A aproximação de pesquisadores e estudiosos, bem como, mais recentemente, de jovens das camadas médias urbanas, fez com que a participação em uma roda de jongo não seja mais limitada aos membros das comunidades jongueiras. Além disso, algumas comunidades passaram a fazer apresentações artísticas, nas quais as rodas de jongo acontecem sob a forma de espetáculo.”

Este tipo de processo de apropriação, como o se processa agora com o Jongo, com o alegado intuito preservacionista, costuma ser muito comum em países onde a sociedade é muito desigual, muito dividida (como é o caso do Brasil). Aliás o fenômeno anda se tornando por demais ocorrente em grandes centros urbanos, envolvendo outras manifestações tais como o Samba tradicional carioca, o Maracatu e outras manifestações tradicionais, outrora exclusivamente ‘populares’. De um lado pessoas com muitas posses e pouca ou nenhuma identidade cultural, engolfadas e, de certo modo, envergonhadas de seu ‘verniz’ ‘estrangeiro’. De outro, pessoas muito pobres mas com uma cultura tradicional, muito original e de grande personalidade, reconhecida academicamente como… Cultura ‘Nacional’ brasileira.

Acabam uns querendo se apropriar (geralmente com os tais estranhos fins, geralmente pecuniários) da Cultura dos outros.

Afora outros comentários possíveis acerca da pouca relevância dada no texto do Iphan à essencialidade antropológica das tradições expressas pelo suposto passado do Jongo (que justificariam, por exemplo, a participação apenas de iniciados), afinal de contas, como justificar a pertinência do pleito pela transformação de uma manifestação cultural em patrimônio imaterial (um atributo apenas justificável se comprovada sua perenidade e autenticidade) se, ao mesmo tempo se ressalta – ou na verdade quase se propõe – a sua completa descaracterização, o seu ‘aviltamento’ sociocultural, sua banalização travestida de popularização?

O fato é que não adianta muito gravar um DVD sobre a exótica cultura de pessoas muito diferentes da gente ou tentar convencer estas pessoas a praticar a Cultura que nós, do alto de nossa suposta ‘sabedoria acadêmica’, achamos que elas devem praticar. No final serão sempre elas, as pessoas, que decidirão. Se quisermos praticar também a cultura que elas praticam, tudo bem, que entremos na dança pois, mas nunca sem antes mergulhar de cabeça no jeito de vida delas, se possível nos transformando nelas também.

Afinal há que se pagar o preço da travessia, perder o ‘verniz’, ‘trocar a pele’ (já que, aparentemente, não existe neutralidade em Cultura). O certo é que não dá pra se ter um pé na sala e o outro na cozinha. É melhor procurar, com ética e sinceridade, a nossa turma. Um saião de chita estampada não fará jamais de uma garota de Ipanema uma jongueira ou uma caixeira do Divino.

Há também o recurso natural de se incorporar elementos extraídos da cultura tradicional em nossa cultura pop, relendo, fundindo, criando novos gêneros híbridos, um recurso que sempre gerou excelentes resultados artísticos em nossa música popular ou ‘contemporânea’.

O que não se pode, de jeito nenhum, é sub-repticiamente trocar a cultura do ‘outro’ por uma ‘adaptação’, de modo a trocar a cópia pelo original (que passa a ser o ‘falso’, o impuro), ocupando no contexto da cultura tradicional de uma sociedade, o lugar que era do ‘outro’ , justamente no que diz respeito a auferir algum tipo de benefício, verbas, patrocínios, etc.

Não seria o caso de se debater mais profundamente o assunto, antes que seja tarde demais?

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~ por Spirito Santo em 03/03/2007.

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