O Bonde

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 O Bonde do Mal
e o Bondinho do Bem

Tenho trabalhado há dois anos com crianças bem novinhas, entre os 8 e os 12 anos, moradoras de um destes mui complexos agrupamentos de favelas aqui do Rio. Faço musicalização com elas.

Construtivista leigo que sou, desde criancinha, o método pedagógico que utilizo é ensiná-los a fabricar seus próprios instrumentos (um montão de coisas podem ser ensinadas durante o processo) e a tocar uma música possível, extraída do universo cultural deles mesmos, com estes instrumentos.

Não é difícil de prever que, a música possível para o repertório destes meninos, envolve o Samba e o Funk (não este Funk do mainstream, falsamente engajado e violento, para inglês ver, mas, o Funk, como eles dizem ‘Pesadão’).

É óbvio que trabalho muito a partir dos textos de um repertório formado por letras criadas pelos próprios garotos, mas também, muitas vezes, de letras extraídas do que podemos chamar, precisamente, de folclore urbano local (é só lembrar dos schotisches e os quase-baiões cantados pelo bando de Lampião e tirar a expressão ‘folclore’ do mofado invólucro que a encobria no passado).

Então, com vocês, um Funk ‘proibidão’, cantado com fervor cívico por um grupo de crianças negras e faveladas, de 8 aos 12 anos. O tema, gravado num CD clandestino com uma coletânea de funks idênticos, é um hit dos bailes nas favelas e até em festas de condomínio, de bairros de classe média baixa do Rio de Janeiro.

O Bonde

Funk ‘proibidão’ – Domínio público, Rio de Janeiro, século 21

“Já veio o ‘toque’ da cadeia
convocando os irmão
Pra invadir ‘de bonde’
a favela dos ‘alemão’

O patrão já deu o papo
Que quer ‘geral ’ reunido
Mas só vai partir pra guerra
Os ‘braço’ que são bandido

E na madruga o bonde parte
cada um portando um ‘kit’
preparado pra ‘D20’
Meteram bala nos ‘verme’
Explodiram o ‘caveirão’
Detonaram a cabine
Mataram 5 ‘alemão’

O primeiro tomou na cara
O segundo tomou nos peito
O terceiro ficou fudido
O quarto morreu de medo
O quinto pediu perdão
O Bonde não perdoou
tacou dentro do latão
Boladão, pesadão

Isso é Comando Vermelho
Mas se bater de frente
Toma logo tiroteio’

Glossário:‘Toque’- Aviso, ordem
‘Bonde’- Comando, escolta
‘Geral’ – Todo mundo
‘Alemão’- Inimigo
‘Braço’- membro do grupo
‘Kit’- Equipamento (fuzil e munição)
‘D20’ – Viatura policial tipo ‘Blazer’
‘Verme’- Policial militar
‘Caveirão’ – Blindado da polícia militar
‘Latão’ – Container de lixo
‘Boladão’ – Concentrado, decidido
‘Pesadão’ – Forte, compacto, implacável

A ambiguidade nos trilhos

No bonde de nossa realidade, os passageiros mais comuns são a Iniqüidade, a crueldade e a ambigüidade, características típicas da sociedade brasileira. O único passageiro com alguma coisa de aproveitável para o nosso papo, talvez seja a ambigüidade.

Neste sentido, entre o bem e o mal do conturbado contexto social em que vivemos, a quem interessar possa, algumas breves informações podem ser acrescentadas, assim, como luz no fim do túnel, balão de oxigênio, bonança.

O Caveirão nem acabou de atirar ainda, mas já sei que alguém perguntará, por exemplo, no que consiste o método de musicalização aplicado neste caso. Na busca de um conceito, fomos logo, a grosso modo, lá em cima, associando nosso método ao Construtivismo mas, a partir daí a conversa podia sair, totalmente, do seu foco humanista, para cair no território pantanoso da tergiversação teórica, acadêmica. Não pretendemos entrar, exatamente, por aí.

Mais elucidativo, talvez seja aquele significado expresso pelo dístico que costumo usar como slogan do projeto Musikfabrik  do qual o trabalho com esta meninada é um elemento crucial, o fio da meada:

‘Cuide dos sentidos que os sons cuidarão de si mesmos’

O autor é Lewis Carroll, o livro é o famoso ‘Alice no país das Maravilhas’, e o personagem que fala a enigmática frase, só poderia ser a Duquesa.Vários sentidos podem ser atribuídos à frase (e é esta curiosa ambiguidade que me fascina), a pedagogia criada – como método sim – a partir do imponderável, dos estímulos vividos naquele instante, sem referência bibliográfica alguma em que se apoiar, sem rede de segurança, aprendida ali, na hora mesmo em que se ensina, estas coisas todas que a gente leu num livro do Paulo Freire, do Vigowsty, mas, que só aprendeu mesmo quando o queixo caiu diante de uma criança cantando, eufórica, um funk que fala do cadáver do inimigo, jogado num latão de lixo.

Não gosto, nem um pouco, de fazer citações e referências bibliográficas. Arrotos de erudição, para mim, são sempre sinal de pouca educação (ou pouca inteligência para criar suas próprias frases e conceitos). Mas tenho sim, devo confessar – entre outros, é claro- um ídolo que merece ser amplamente citado aqui, como referência metodológica (até por que se enquadra perfeitamente nos amplos significados da frase da Duquesa, de Lewis Carroll): Ele é o linguista norte americano Noam Chomsky.

Acho que ele, à sua maneira, é o educador insuperável, porque nos ensinou que o ser humano é uma coisa simples, como tudo na natureza. Um pobre ser comum, que só é capaz de aprender por meio de seus sentidos básicos mais elementares: Ver, Ouvir e Sentir, ou seja, se exprimir e compreender apenas a partir daquelas mensagens transmitidas por meio dos Sons, das Formas e Cores e dos Afagos (do contato direto com outras coisas).

Daí, tudo se transformando, ‘magicamente’, em Emoções, que foram configuradas, instantaneamente, em Endorfinas, Adrenalinas, Dopaminas e todo este fantástico mistério bioquímico que é a vida.Educação poderia ser isto. Para todos. O resto, pode ser firula elitista, com todo o respeito e se me permitem.É esta enfim a natureza do tal método, a mágica que se materializa quando os meninos batucam seus tambores e cantam o seu Funk Pesadão.

O método tem a função de gerar uma energia que contém em si mesma, atributos, conteúdos muito fortes para motivar estes meninos a ansiar por conhecimento sobre tudo que os cerca, a fim de se tornarem menos frágeis e indefesos, poderosos portadores (para o bem ou para o mal) de uma irresistível sede de liberdade.

Isto tudo pode ser música

A percussão é a linguagem mais recorrente para eles, mas, como muitos devem saber, a maioria dos instrumentos musicais, que o ser humano inventou é de algum modo, de percussão (inclusive o piano). O leque de opções é, portanto, enorme.Logo de início, se deve apresentar as diversas possibilidades existentes, para que eles possam demonstrar a que mais lhes interessa. Qualquer motivo é um bom motivo (e esta é uma regra determinante do método).

Não é difícil deduzir, no entanto, que o fascínio deles por tambores é preponderante. Em qualquer caso, contudo, há que se motivá-los, usando o gancho da pobreza evidente e do acesso quase nulo que eles têm a recursos, estimulando-os no uso de materiais de fácil acesso na rua, reutilizáveis, recicláveis, estas soluções até bem recorrentes hoje em dia.

Esta parte é a mais fácil porque, afinal, criar, imaginar, inventar é pura paixão para crianças em geral.

A tarefa, no entanto, é muito difícil para muitos educadores porque, nesta hora, é preciso desencarnar a criança que eles carregam, aprisionada, dentro de si (e esta é uma regra indispensável ao sucesso do método).

No processo, as crianças precisam aprender a operar máquinas e ferramentas comuns, destas que os adultos usam (e com as quais, invariavelmente, brincam, simulando fuzis e pistolas).

Precisam aprender também a medir coisas, a raciocinar quantidades, calcular medidas e proporções, compreender noções complexas da física tais como tração, pressão, tensão, elasticidade, etc. Precisam também calcular áreas a partir de diâmetros (compreender para que serve o ‘Pi’, lembram?).Para construir um simples instrumento musical eles precisam aprender, em suma, quase tudo que a escola deveria lhes ensinar, mas, não ensina. A escola brasileira não foi criada para ensinar a todos. Só a alguns. Como ali não é aquela escola hostil, brincando eles aprendem, constroem-se a si mesmos, apesar de tudo.

E sendo música, é Linguagem

Na decoração dos corpos dos instrumentos podemos usar muita coisa, às vezes até folhas de revistas velhas, desde que, coloridas. Enquanto as imagens são escolhidas e coladas, muitas questões podem ser debatidas. Pré-adolescentes que são – precocemente, muitas vezes – podemos debater com eles, por exemplo, sobre sexualidade, livremente, num papo descontraído (os meninos, escolhem sempre mulheres lindas, seminuas, mas, são inocentes de dar pena.

As meninas preferem galãs da TV e imagens românticas,mas, podem já estar, em alguns casos, expostas ao aliciamento adulto para se tornarem prostitutas).A idéia básica do método é abrir janelas de diálogo, sejam elas quais forem, e daí espiar a realidade deles que, depois de compreendida, vai alimentar o processo de aprende-ensina-aprende, sempre em duas vias (como tem que ser na vida real)Simples assim: Abertas as janelas, é só participar, dialogar em cima da realidade, sem meias palavras, sem hipocrisia e sem censura.

Pronto, o instrumento musical, por a sua forma, seu som, seu timbre, etc. passa a conter uma História, no sentido sociológico, antropológico mesmo do termo, ou seja, a técnica de tração (afinação), de execução, o tipo de música característico, os ritmos ou escalas mais recorrentes, para este ou aquele instrumento, tudo isto nos remete para uma cultura determinada, uma época, um lugar qualquer do mundo (a África, por exemplo, ou o Nordeste do Brasil, a índia, o Japão), alguma Geografia, portanto.

Daí surgirá um mundo de outras possibilidades. O caso do repertório possível também é importante porque, se poderá discutir a realidade dos meninos, a partir de conceitos palpáveis, concretos (os pais da maioria deles, por exemplo, neste local em especial, foram, em sua maioria assassinados pela polícia ou mortos em confrontos com comandos rivais).

Os textos também podem nos remeter a outros aspectos metodológicos interessantes, desde motivação para a transmissão de códigos de escrita ‘culta’, até a valorização de códigos de linguagem ‘errada’ que podem adquirir relevância literária, se compreendida como ‘dialeto’, linguagem simbólica, com valor artístico particular (os idiomas estão vivos, certo?).Um mundão de coisas largadas para a gente ir pegando, desde que não se tenha a arrogância de pensar que dá para pegar o bonde andando.

…Até porque, a fila anda.

Spírito Santo

Agosto 2007

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~ por Spirito Santo em 29/07/2007.

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