Mar de Barbados

Creative Commons LicenseTodo o conteúdo deste blog está assegurado por uma licença Criative Commons

mar-de-barbadosFoto: Spirito Santo

Mar de Barbados
Conto

Nervosa, demais da conta. Atormentada por capetas íntimos e desconexos, ela precisava mesmo espairecer. Foi por isto que lhe fiz o favor.

Desanuviador de mentes conturbadas que me fiz ali, naquela época, peguei meu fusca velho de guerra e fui, levei a pobre para conhecer a estrada da vida e se fazer mais calma. Gosto de uma boa conversa com ela. Amigos íntimos que éramos, ela também gostava, além da conversa, de chão e de estrada.

Gasolina cara (pelo menos para mim, que andava duro feito casco de cabra, naquele tempo), rodamos não mais do que um tanque até que o carro – ou a vida – parou, ali mesmo, entre um pedágio e uma reta margeada por uma verdejante imensidão. Havia chovido, bem fininho, e o verde era limpo, brilhante. Olhar aquilo espremia a alma de tão bom. Fazer o que?

Achamos bom sim. Os dois. Vida parada sempre foi igual à história dando partida e seguindo célere, ao rumo imprevisível que as histórias transcorrendo têm.

“Mar de Barbados”

Estava escrito num cartaz destes de turismo, velho e amarelado, pregado num canto escondido do restaurante, ao lado do pedágio. O cartaz acabou sendo o fio da meada da história que resolvi contar ali, algo assim, exagerado, parecendo verdade, como documentário do Discovery Chanel. Disse a ela que ia lhe contar um caso acontecido – não comigo, frisei, para dar veracidade a prosa – com alguém, meu conhecido.

Daí, depois que comecei não dava mais para parar. De início, mentindo, fui contando como se o fato narrado dissesse a mim mesmo respeito. Quando bem me dei conta da fantástica credibilidade que conseguira incutir nela e nos expectadores (sim, porque, a esta altura, todo mundo no restaurante estava ligado, grudado na história, como insetos inocentes num papel de pegar moscas)

Fui, assim, perdendo inteiramente o juízo do que era verdade ou mentira. Pronto, sem saídas, também pego pelo pega-moscas das inverdades verossímeis, fui enveredando, me enredando, eu mesmo, naquela história toda, cabeluda, descabelada mesmo que só vendo.

Mar de Barbados?

O que poderia significar isto? – Pensei eu. Uma imensa multidão de homens barbudos? Um mar tormentoso, encapelado? Ou uma misteriosa história de amor transbordado de algum mar simbólico destes, esparramado por aí?

De raiva pela longa espera, enfiei na história algumas mulheres ruins que conheço (entre as quais não está ela de modo algum), no papel das bandidas, das vilãs, algozes de alguém. Nem fui eu, a vítima, fui logo dizendo, para lavar, e deixar bem limpinha, alguma dúvida. Qualquer coincidência será, portanto, mera semelhança.

Vocês vão sentir, no transcorrer da história, uma dificuldade imensa em reconhecer as insanas e cruéis criaturas, instigadoras de despeitos, líquidos e certos, como profecias. Elas, as bruxas malvadas, personagens indelevelmente feitos, exatamente, como praga de mãe.

Podia dizer aqui que elas, de tão poucas, nunca existiram, mas, não digo. Existiram sim. É que quero purgar a raiva que tenho delas, aqui, impunemente.

O mais não afirmo ser verdade. Nem que sim nem que não. Deixo fluir.

O fato é que, verdade ou mentira, tempo de história flue mesmo, tão rápido que nem se vê. Quando é mentira, melhor ainda porque a mufa que o contador queima para dar consistência e conteúdo às mentiras mais deslavadas que conta, anima a história de fogos e chispas maravilhosas, mais ou menos como quando riscamos curvas sinuosas com um tição em brasa, formando aquela cobra de fogo que inscrita no ar, se move louca, apesar de nem existir.

Eletricidade pura sem eletricidade ser. Energia cheia de nada que não seja beleza inexplicável. Lindeza primitiva como cinema de homem das cavernas de Cro-Magnon.

Foi assim que então, enfim, era uma vez:

Mar de Barbados

Teria existido mesmo aquela minha tia esquizofrênica que, falando pelos cotovelos, me contou aquela história doida? Teria sido ela uma rendeira de mão cheia, lá em Ribamar das Farinhas, uma cidade sem homens, no litoral do Maranhão?

Teria ela se amasiado mesmo, com um gordo pescador, nascido nos mares do Caribe e, sabe-se lá porque, aparecido justo ali no Maranhão, o qual – bela coincidência que os unia – tecia lindas tramas em redes de pesca como ninguém mais por ali?

Caribe? Maranhão? Ora direis: Dizeis mentiras. Mas não. Caribe e Maranhão, posso jurar: Tudo a ver.

Encontraram-se por conta de um acidente marítimo. Deu até no jornal de São Luiz do Maranhão de 25 de maio de 1983. Podem ver, conferir, recortar, se quiserem. Ele retirado, desfalecido, encharcado, depois de caído de uma traineira naufragada, veio arrastado pelas correntes até, sem mais nem menos, dar nas praia do Maranhão.

Foi o que se deu.

(E o fusca velho lá, paradão)

Minha amiga e os espectadores do bar, já neste comecinho da história, se entreolhando curiosos com a dúvida atroz que os atormentava: Longe, muito longe dali, mar à dentro, se o homem da história não engasgou com os filhotes de sardinha, dos diversos cardumes que o atropelaram, num daqueles glub glubs do seu afogamento; se também não boiou, porque não tinha consciência para o querer; se afundou, de pronto; se gordo como era, nem se o espetassem com um arpão como uma baleia jubarte, emergeria daquele afundamento; se condenado estava a ficar lá em baixo, como uma âncora ou uma coluna do colosso de Rhodes, desmoronada no fundo do oceano, ou mesmo um galeão espanhol pesadão, apesar de não conter tesouro algum; como foi que se salvou do mar?

Calma. Vamos chegar lá. Nem tudo é bem o que parece.

Foi assim: Algo o despertou do desmaio profundo e o impeliu à tona, segundos antes da morte definitiva. Tambores na água, graves e profundos, ecoando na cabeça, a cada vez que afundava e emergia para sorver algum ar. Sem sonhos com sereias, o que perseguia mesmo, a cada flash de olhar por sobre a lâmina cambiante e louca das ondas, era uma tábua, algum destroço qualquer em que se agarrar, como aquela lasca de convés a qual, por fim, se agarrou até chegar á praia.

‘Barbados island ’ estava escrito na esfarrapada camiseta dele. Passou algum tempo para que a professora Maria José da Conceição Duarte, a boa moça mestre-escola da vila, chegasse e dissesse que o pobre, talvez viesse de Barbados, uma ilha paradisíaca, localizada mar à fora, um pouco longe dali.

Com efeito, o homem, embora se falasse inglês em sua ilha, espanholava, atabalhoadamente, as palavras como se bêbado de água do mar estivesse. Gordo como barril de rum parecia confundir no transe, os últimos momentos do naufrágio com a beleza que vira logo, assim de relance, no verde dos olhos dela, aquela que o acudira, antes de todas, a primeira que ele viu quando acordou na praia. Ela sim, a minha tia Almerinda.

_ “Oh, Oxalá! Iemonjá!”

Balbuciou ele, o marujo naufragado, confundindo-a com estas amazing beatifull ladies, de longos cabelos negros, que os crentes no culto dos yoruba – ou os angolanos com suas Kiandas – pensam que são sereias encantadas; ou os céticos vendo meras baleias magras; tubarões fêmeas famintos para os apavorados; peixes voadores para os destrambelhados, avoados, ou mesmo, como em nosso caso, uma mulher linda de lindos olhos, para aqueles que, embriagados pelas águas marinhas (como o nosso naufragado), pensam que morreram afogados e que, sem contabilizar sequer um dos pecados, já se sentem de antemão aceitos, compulsoriamente, nas camas do paraíso.

Minha tia pegou a mão do gordo com toda a vontade de revivê-lo. Se para si ou se para o mundo, não se podia saber ainda. As outras pessoas que chegaram, todas elas mulheres, já passadas nos anos, do mesmo modo afoitas e curiosas, viram o afã de minha tia, porém, pensaram que, certamente, ela só o queria salvar para o mundo.

Tia Almerinda, sestrosa como sempre fora, bonita mesmo, embora passada pelo tempo, não iria, de modo algum, se apaixonar assim, à primeira vista, por um estranho qualquer, um reles marinheiro gordo e esfarrapado. Foi o que as amigas rendeiras, no fundo no fundo, pensaram, entre os cochichos.

Mas foi. Apaixonou-se, perdidamente. Não se sabe se por algo que ele lhe falou ao ouvido, ali, na hora do transe, na quase morte. Não se sabe se alguma bendição trazida pelo vento, pela maresia, o certo é que daí em diante, minha tia só teve olhos para o gordo barbadiano esfarrapado.

E foi, de fato, aquele calor do tato dela a força que o salvou. O calor dela, afogueada de paixão. O tênue calor dela, subindo pelos punhos enregelados dele, pelos braços, pelos ombros e avançando, já como fogo puro, pelo pescoço dele, fazendo seus olhos se abrirem, hirtos, para aquela visão dos olhos verdes dela, que eram, aquela altura, apesar das finas rugas que ele ainda não via, a mais pura aparição de uma virgem africana do céu: Yemonja! Kianda! Sim, foi isto que o salvou.

E minha tia até remoçou, ali mesmo. Ruborizada, se viu fazendo, de novo, quinze anos.

E o fuscão velho lá…

Lá, no tempo. Visto através da vidraça do restaurante, emoldurado pelo lancinante verde da paisagem. Parado, tenso, sedento no seu vício de gasolina a ser saciado sabe-se lá quando e por que meios.

O dia passava, isto sim. Entretidos na história que eu ia entabulando aos poucos, nem víamos o sol se pondo, nem pensávamos na noite que vinha escurecer o verde daquela já chata paisagem.

De que jeito sairíamos dali, retornando a modorrenta vidinha de sempre que levávamos? Antes tristes como quaisquer solitários oriundos de uma cidade grande como a nossa, sem ninguém de interessante para rever, não tínhamos mesmo razão alguma para voltar. Para que?

Ali, enovelados na embriagante trama de minha tia louca, sem nos confessarmos ainda entediados, não nos interessava mesmo mais nada, senão ficar por ali, viajando naquela surrealidade boa e pagã, ainda sem final algum previsto.

——————

John Winfred era o nome dele, do barbadiano, pelo que se conseguiu entender. John Marshal Winfred II, para ser mais exato, como estava escrito no documento que caiu do seu bolso, salvo do esfarrapado de suas roupas imprestáveis. Magro, negro e bonitão no retrato que, talvez, quem sabe, tenha tido lá suas implicações sobre o bem querer dela.

Pudica e comedida, ela relutou um pouco, quando as amigas sugeriram que o levassem para casa dela. Por que logo para lá? Pensou. Única casa quente e acolhedora disponível, pensaram todas. Viúva sim, há tantos anos. Sem filhos, pelo menos que do paradeiro tivesse conhecimento, mas, o que faria com um homem em casa, depois de quinze anos sem ninguém? O que diriam as outras, as carolas da vila, as não rendeiras, solteironas, inimigas das mulheres que, pelo menos um dia na vida, tiveram maridos?

Mas logo decidiu que mandaria tudo aos quintos dos infernos. Pescara o homem. Gordo, estranho, barbadiano, mas, um homem quente e bom, como estava escrito nos olhos dele.

Sem se fazerem de rogadas, as carolas chegaram à praia, logo depois, justo quando o grupo de rendeiras levava o náufrago numa rede, para a casa dela. Na confusão, suspeitosas e rancorosas que eram, pegaram, sem ninguém amigo ver, a carteira do homem, que levaram para alguma eventualidade maldosa qualquer.

…E o pobre fusca lá, coitado, curtindo no sereno

Que se danassem as vidas e os passos passados. Arranjaríamos uma hora dessas alguma gasolina emprestada, alguma carona num ônibus daqueles que chegavam e partiam, hora sim hora não, escritos no para brisa a giz, qualquer horário para qualquer itinerário: ‘Rio-para-Não-sei-adonde’, ‘Não-sei-adonde-para-Rio‘, ponto a ponto, mais hora menos alguns minutos, assim que a história se esgotasse e nos retirasse daquela felicidade dos quartos e quintos do céu.

Disse quartos? Ah, sim, foi ato falho, claro. Disse-o sem pensar. De amigos íntimos que éramos, nisto, de sexo, nem pensávamos (pelo menos assim, de demonstrar, abertamente), O que admitíamos e que nos apetecia mesmo, era aquele ventinho morno que se seguia a cada pancada de chuva de verão e o milagre que achávamos ver no capim ficando verdinho, ali, na nossa cara, instantaneamente, como uma safada mágica de Deus (pensando bem, cá entre nós, até que isto era como sexo sim. Dava gozo de ver).

Não sabíamos também – e isto, devo confessar, nos excitava – o quanto de mentiras ou verdades a história começada ainda poderia ter. Queríamos sim, desejávamos até, secretamente, é que a história se prolongasse o tempo que fosse, e nos permitisse – pelo menos isto – partilhar no fim da noite, o calorzinho do balcão do restaurante da estrada, os salgadinhos folheados, o misto quente… ah, os nescaus quentinhos das paradas de ônibus de madrugada, quem poderia a eles resistir.

———————–

Minha tia ardentemente devota de seu achado, recuperou-o da febre, dos lanhos da tábua de salvação, dos beliscões dos peixes e das queimaduras de água viva. Com ele ainda dormindo, reparou na pele de um dos braços, uma perfuração estranha, parecendo de bala de revólver. Não se importou, nem comentou sobre aquilo com ninguém.

_”Tank you, honey! Jamás te olvidarè, querida.!”

Era o pouco que entendia do que ele dizia, sempre inglesando, espanholadamente, como um Nat King Cole solfejando boleros.

Com ele curado de tudo, mais gordo ainda, amasiaram-se. Ele, safado como que. Minha tia, remoçada, rápida nos bilros, tecendo as toalhas de mesa e as colchas mais brancas e delicadas deste mundo. Ele, braço enfaixado ainda, sorriso branco e largo, tecia as tramas mais precisas, das redes mais perfeitas de todos os estranhos mares em que vivera, os de lá e os daqui. Estranho pescador que era, contudo, não pescava nunca. Enjoara, mareara, diziam as amigas rendeiras solidárias.

O certo é que viveram felizes, enquanto deu

Até o dia em que as carolas apontaram lá na ponta da praia, com o sol a pino, os pés descalços guinchando na areia como ratos briguentos, seguidas por cinco homens. Homens ali? Só podiam ser da polícia. E eram: Polícia Federal, disseram.

_ ‘O Sr se chama John Marshal Winfred? ‘– Disse o que parecia ser o chefe dos policiais.

O gordo fechou o sorriso e fez que sim com a cabeça, dizendo ok, conformado. Pelo que ela entendeu, a Capitania dos Portos de São Luiz, de posse da carteira dele, levada pelas carolas, passou um rádio para a polícia de Barbados, que identificou John Marshal como sendo o único homem que escapara de um ataque de uma lancha da Drugs Esforcement Agency, o DEA norte americano, a um barco de traficantes, que partira de da ilha de Barbados com meia tonelada de cocaína.

Quando viu o último amor de sua vida partindo algemado, de volta para o mar (e por assim se dizer, desnaufragado) foi o coração de minha tia que naufragou e afundou, para sempre. Ela, que já não era muito boa da cabeça, destrambelhou de vez. As tramas de suas rendas passaram a ser, em vez de flores e ondas do mar, aranhas caranguejeiras, tecidas com linha preta, como teias letais. Na mente conturbada dela, como um mar encapelado, a única história que fazia sentido, e que, por isto mesmo, podia ser contada, era esta que eu contei aqui.

Pena que ninguém nunca acreditava nela, coitada.

Sempre achei, só por ter tido a sorte de viver este romance, que minha tia morreu rabugenta, porém, plenamente satisfeita de felicidades.

Tarde demais. O pobre fusca já não podia mais esperar

Acerca do que se contaria, portanto, quem ficou com a última hipótese foi mais feliz: “História de amor transbordado de algum mar simbólico destes, esparramado por aí”, foi esta a idéia que desfiei aqui, para ela, a minha amiga íntima, ainda tensa, atenta ainda aos capetinhas de sua própria alma, mas, já se acalmando, aos poucos. Como minha tia.

Foi para todos, no entanto que contei a história que nunca ninguém contou pra mim, inventada que talvez tenha sido, agora mesmo, entre uma golada e outra de uma cerveja amarga de tanto esperar aquela calma dela que, enfim, veio, escorrendo por entre os seus olhos que, desconfiando do descabelado da trama, pouco a pouco foram sorrindo, soltos, exatamente como eu os queria, límpidos. Lindos olhos incrédulos rindo para mim.

Meio tonto de cerveja, olhei meio de lado para ela e pensei na urgência de um futuro mais real para nós dois. Me espreguicei, me fingindo tranquilo e, tomando coragem, fui.

Pois foi assim também, emocionadamente, pegando afoito e corajoso a mão oferecida dela que, de amigos íntimos que éramos, viramos, desde então, enfim, amantes verdadeiros.

Voltamos para o fusca, abraçados, abastecidos com vários litros de gasolina emprestados pelos outros espectadores da história que, olhos marejados, nos aplaudiam tocados, muito mais pelo nosso mais que inusitado final feliz, do que pela história que teve aquele fim assim assim.

Acho que ela não quis, de modo algum, acabar sozinha, igual à minha tia.

E o velho fusca rangeu, grunhiu, tossiu e partiu.

… Ah, o poder insofismável que as histórias mal contadas têm.

Spírito Santo

Setembro 2007

Anúncios

~ por Spirito Santo em 18/09/2007.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: