Jongo, Nongo, Jinongo

Creative Commons License
Batuque Angolano com marimbas (Extraído de www.diamang.org)
batuque_angola_com_marimbas

Desamarrando os nós do Caxambu


Você já ouviu, pelo menos por alto, falar em Jongo, certo? Pois este será o longo papo do enredo #02 da série ‘Crioulo doido revisitado’.

A nos motivar o fato de, a começar pelo nome, Jongo ser um tema controverso, misterioso, sobre o qual pairam algumas sombras, um prato cheio, portanto, para os fazedores de mitos, diligentes construtores de engodos e mistificações.

Se você não sabe tudo sobre o assunto vamos ver se eu acerto, pelo menos, o que você, já sabe . Depois a gente vai em frente.

Conceito e Charada

Abrindo a roda do Jongo

Jongo é uma dança de negros, correto?

Certo, mas convenhamos, saber disso não é lá saber muita coisa. Afinal, contam-se às dezenas, talvez centenas, os tipos de dança de ‘negros’ neste país. Jongos, Catupés, Ticumbis, Congadas, Samba de roda, Samba disso, Samba daquilo, Afoxé, Baião, Maculelê, Lundu, Capoeira, mais todos os eteceteras possíveis e imagináveis, para ficar só naquelas danças mais antigas, manjadas.

Isto sem falar que este papo de dança de negros não é lá muito politicamente correto. Danças Afro-brasileiras cairiam bem? Danças ‘afro-descendentes’? Talvez fosse até melhor. Não sabe? Muito menos eu.

(Enigmas são sempre tabus cabeludos. Difícil ser politicamente correto nestas horas).

Ademais, Jongo não é só uma dança. É muito mais…O que?…Ah, claro, claro, você se lembrou agora que sabe um pouco mais sobre Jongo.

Oh, que legal! Quer dizer que, aqui mesmo neste site, você aprendeu que o Jongo não só é uma dança de negros como é praticada no sudeste do Brasil, e cuja principal característica é ser uma dança de umbigada, ou seja, as pessoas, enquanto dançam, chamam umas às outras, para a contradança, com um toque de corpo, geralmente encostando uma a barriga na outra?

Boa esta descrição, mas, ela satisfaz ao que você sabe sobre o assunto? Não? Sabe mais um pouquinho ainda? …Ah, sim! Você até já assistiu a uma apresentação deste tal de Jongo, num palco.

Caraca! Jongo num palco?! É mesmo? Esta eu preciso ver. Descreva você mesmo então. Como? Se quero que conte…‘antropologicamente’? Não… pode ser do seu jeito mesmo:

_ Um grupo racialmente misto, de jovens; as mulheres, invariavelmente, com saiões estampados e homens também jovens, com calças brancas, ‘pelas canelas’ (‘calças de escravos’ como se diz), saracoteando e dando estas umbigadas, ao som de cantigas muito curtas e características, acompanhadas por dois ou três tambores, semelhantes aos de ‘macumba’.

Como um admirador do gênero, você reparou que havia uma estranha diferença, além dos tambores, no ritmo, no modo de dançar e nas roupas dos grupos mais humildes (aqueles mais da roça, que tinham maior número de pessoas velhas e muita gente pobre e preta) e os demais grupos (aqueles nos quais rodopiavam faceiras, as tais meninas de saião e os rapazes de calças ‘pescando siri’).

Com este reparo aliás (longe está você de criticar qualquer coisa), a sua impressão sobre este aspecto do evento, foi até bastante positiva.

Aposto, contudo, que você ficou intrigado com o fato de as jovens moçoilas usarem sempre – que diabo! – aquele mesmo saião estampado, exatamente o mesmo que usam outras jovens moçoilas nos novos grupos de Maracatu, Caixeiras do Divino, Boi Bumbá e tantas outras danças tradicionais ‘urbanizadas’ que pululam hoje em dia nas grandes cidades do Brasil. Não ficou intrigado ?

Mas notou, com certeza, que no grupo dos ‘véios’ não tinha nada disto não. Deve até ter se perguntado, ingenuamente, porque não se usa no Jongo (como acontece com os indefectíveis saiões) aquelas impressionantes alfaias ‘tradicionais’ usadas em todos os outros gêneros deste ‘neo-folklore’. Quer saber o que quer dizer ‘Alfaia’? Tá, eu explico: Se for para ser tradicional mesmo, alfaia não teria mesmo nada a ver com Jongo. Alfaia é de Maracatu, menino. É tambor nordestino, ibérico, árabe, e só nestas ‘praias’ lá ‘de riba’ poderia ser considerado ‘tradicional’.

– Tradicional! Tradicional!Pufff!

Não gosta deste papo de tradicional? Pois quer saber? Honestamente? Nem eu. É por isto que eu fico batendo nesta tecla.

Jongo fashion night

Brincando com o fogo

Uma coisa no entanto, é certa (se é que você ainda está ligado no assunto). Já observou que o MinC atual tem dado muita atenção a esta manifestação (o Jongo) e existiu até um movimento bem sucedido junto ao IPHAN que efetivamente transformou a dança em patrimônio imaterial da humanidade. Até mesmo eu já comentei sobre este assunto aqui neste sítio.

Está claro e sabido para você que, sendo uma dança hoje assim, tão reconhecidamente ligada às nossas raízes africanas (e, providencialmente, agora tão prestigiada por nossos órgãos de defesa e fomento da cultura nacional), o Jongo tende a ser objeto de muitos projetos de preservação e divulgação, tendência esta que, também se pode deduzir facilmente, pode ser o que estimula a existência hoje de tantos grupos de Jongo, organizados até, num enorme coletivo de ‘Jongueiros’ que se reúne todos os anos, num concorrido encontro financiado pela Petrobrás.

Bem, como não poderia deixar de ser, você chegou a notar também que já há uma curiosa ‘mistura social’ vislumbrada na, digamos assim, composição social destes grupos ‘neo-tradicionais’, certo? As tais moças e os tais moços muito jovens, aparentemente são de extrato social bem diverso daquele do qual são oriundas as ‘véias’ e os ‘véios’ jongueiros da roça, negros em sua esmagadora maioria, tipos bem característicos dos grupos de Jongo antigos, jongueiros ‘autênticos’, como dizíamos antes deste boom do Jongo ‘contemporâneo’ dar as suas caras. Seria resultado dos bons ventos da democratização do país?

Se você se enquadra no perfil do meu imaginário interlocutor, prepare-se para se surpreender com o que saberá a seguir. Se souber um pouco mais que eu, não se avexe não, contribua com a evolução da brasilidade latente de nossa galera e não nos esconda nada.

Por enquanto, sobre Jongo (como diria o Caetano Veloso, enquanto era vaiado naquele festival dos anos 60) vamos fingir que…:

__ Vocês não sabem de nada!

O Jongo e o mito na Wikipédia

Na Wikipédia? Oh God! Mon Dieu!

Conheço, não exatamente por acaso, o autor do verbete da Wikipédia para ‘Jongo’ (que poucas alterações recebeu até hoje, quando lá fui para reler e conferir ).

Como ainda não é crime revelar o autor de uma colaboração voluntária em uma enciclopédia da internet (além de ser tachado de cabotino, é claro) confesso: Fui mesmo o autor da maior parte do verbete, ora vigente na Wikipédia sobre “Jongo”. Porque confesso? É que acabo de descobrir, algo indignado, que o tema de nossa conversa desta série de posts – Mitos e mistificações no estudo da Cultura negra do Brasil – está sendo perpetrado, imaginem só, agora mesmo lá, naquela internacional, glamourizada e globalizada ‘enciclopédia’ on line, bem nas nossas barbas.

(Havia um outro verbete sobre Jongo lá, antes do meu, mas achei ele tão equivocado e desprovido de consistência e, aparentemente, tão atrelado aos interesses de um certo grupo de neo-jongueiros, que, me animei em ir lá escrever o que escrevi.)

Dureza. Missão quase impossível.

Saibam que a maioria dos administradores ‘especialistas’ da Wikipédia lusófona (gente boa, que aceita debater francamente), aparentemente, se encaixa no seguinte perfil: Jovens de Lisboa (desconfio que acadêmicos, recém graduados em Coimbra ou no Porto) com pouco ou nenhum conhecimento sobre cultura brasileira (o que é natural), porém, em relação a nós, brasileiros, cada um se achando mais saramago que o outro.

O problema poderia ser facilmente solucionado, pelo menos em parte, com o apoio dos poucos coordenadores ‘especialistas’ brasileiros que por lá existem (eu sei, não seria lá estas coisas, mas, vá lá que seja), havia, no caso do verbete do Jongo, contudo, um problema bem mais especializado e complicado: Além de se tratar de cultura negra (um problema para intelectuais tupiniquins em geral, como se está concluindo aqui) tratava-se de – oh deus! – cultura angolana no Brasil.

Ora, Angola, além do trauma da escravidão, é um problema quase psicopatológico para lusitanos mais nacionalistas. Para eles Angola é uma terra de perdas de dimensões marítimas, camonianas, diante da qual, por razões compreensíveis até, os portugueses têm ressentimentos profundos, por conta de graves seqüelas sentimentais deixadas pela derrota do exército dos ‘Putos’, dos ‘Tugas’ naquela sangrenta guerra colonial terminada na recente década de 1970.

Como já dizia o bardo deles: ‘Navegar – e esquecer – é, cada vez mais, preciso’.

Acossado portanto por este tipo de ‘especialista’ ressentido, arrogante e presunçoso, tive que duelar semanas à fio (em embates intelectuais homéricos, às vezes) para conseguir implantar, ás custas de muita verve, argumentos ‘irrefutáveis’ e caudalosas referências bibliográficas, os meus modestos verbetes de negão (um dos quais – este sobre o Jongo – é o objeto deste nosso post)

Nestes casos, sobra, naturalmente, a alternativa de voltar a encarar as turras homéricas com os ‘especialistas’ luso-brasileiros e corrigir o verbete, mas, isto, convenhamos, é coisa de quem não o tem mais que fazer. Parei com eles por causa disso.

Vamos fazer então aqui e agora a autópsia do verbete enxovalhado. Teórico de conspirações que, assumidamente, sou, me arrisco a supor que o conteúdo do verbete foi adulterado para atender a interesses ligados a desqualificação do fator tradicionalidade da manifestação (do Jongo, no caso) aqueles elementos e evidências que, se constassem do laudo do IPHAN, desautorizariam certos grupos ‘neo-tradicionais’ de se auto-intitularem representantes legítimos do Jongo… tradicional.

(Tradição sendo, neste caso, igual a requisito para o tombamento de um bem cultural da humanidade classificado como imaterial. Bem tombado sendo igual à habilitação para reivindicar recursos de patrocínio público e privado. Sacaram a malandragem?)

Vejam vocês – e deduzam por si mesmos – as entranhas de uma mistificação sendo urdida agora mesmo. E que Nzambi, Alá, Jeovah e os outros deuses todos me lancem no limbo mais escuro se eu não tiver razão.

(Os conceitos contidos no verbete, servirão para embasar o nosso debate, exceto as tais intervenções marotas que algum misterioso colaborador inseriu ali, com as intenções que apenas insinuo aqui, as quais, obviamente, estarão abaixo, devidamente, assinaladas em negrito):

Jongo (in Wikipédia)

O contexto

(atenção para as armadilhas conceituais em negrito que, por pura ‘maldade’, inseri no texto do verbete originalmente publicado)

“Jongo é uma manifestação cultural essencialmente rural diretamente associada à cultura africana no Brasil e que influiu poderosamente na formação do Samba carioca, em especial, e da cultura popular brasileira como um todo.

Inserindo-se no âmbito das chamadas ‘danças de umbigada’ (sendo portanto aparentada com o ‘Semba’ ou ‘Masemba’ de Angola), o Jongo foi trazido para o Brasil por negros bantu, seqüestrados nos antigos reinos de Angola e do Congo, na região compreendida hoje por boa parte do território da República de Angola.

…” Dançado e cantado outrora com o acompanhamento de urucungo (arco musical bantu, que originou o atual berimbau), viola e pandeiro, além de três tambores consagrados, utilizados até os nossos dias, chamados de Tambu ou ‘Caxambu’, o maior – que dá nome a manifestação em algumas regiões – ‘Candongueiro’, o menor e o tambor de fricção ‘Ngoma-puíta’ (uma espécie de cuíca muito grande), o Jongo é ainda hoje bastante praticado em diversas cidades de sua região original: o Vale do Paraíba na Região Sudeste do Brasil, ao sul do estado do Rio de Janeiro e ao norte do estado de São Paulo”….

Jongo (in Wikipédia)

O Conceito

…”Composto por música e dança características, animadas por poetas (inserção de algum colaborador misterioso e mais’ lúdico ’- menos lúcido, talvez – do que eu que, no original, havia grafado ‘cantadores’) que se desafiam por meio da improvisação, ali, no momento, com cantigas ou pontos enigmáticos (‘amarrados’) , o Jongo tem, provavelmente, como uma de suas origens mais remotas (pelo menos no que diz respeito á estrutura dos pontos cantados) o tradicional jogo de adivinhas angolano, denominado Jinongonongo

…”Este fator relaciona-se a normas éticas e sociais bastante comuns em diversas outras sociedades tradicionais – como as indígenas americanas – baseadas no respeito e obediência a um conselho de indivíduos ‘mais velhos’ e no ‘culto aos ancestrais‘.

Pesquisas históricas indicam que o Jongo possui, na sua origem, relações com o hábito recorrente das culturas africanas de expressão bantu, durante o período colonial, de criar diversas comunidades, semelhantes a sociedades secretas e seitas político-religiosas especializadas, dentre as quais podemos citar até mesmo irmandades católicas, como a Congada. Estas fraternidades tiveram importante papel na resistência à escravidão, como modo de comunicação e organização, e até mesmo comprando e alforriando escravos”…

(Esta tese do Jinongonongo, que eu tirei de Ladislau Batalha, aguarda debatedores para ser ou não legitimada. Veja mais abaixo parte da minha argumentação: )

Jongo (in Wikipédia)

O Conceito fraudado

Aqui, no seguimento do verbete logo abaixo – muita atenção leitores! – no longo trecho em negrito, há uma curiosa inserção, proposta – e aceita pela Wikipédia – por algum misterioso colaborador que, ao que parece distorce, intencionalmente, um conceito fundamental da manifestação (Jongo) que é o caráter seletivo dos participantes logo abaixo, pela minha proposta, explicitado.

Se liguem nos detalhes (as inserções espúrias), em negrito portanto:

” Uma característica essencial da linguagem do Jongo é a utilização de símbolos que, além de manter o sentido cifrado, possuem função supostamente (sic) mágica, provocando, supostamente (sic), fenômenos paranormais. Dentre os mais evidentes pode-se citar o fogo (?), com o qual são afinados os instrumentos; os tambores, que são consagrados e considerados como ancestrais da comunidade (?); a dança em círculos com um casal ao centro, que remete à fertilidade(?); sem esquecer, é claro, as ricas metáforas utilizadas pelos jongueiros para compor seus “pontos” e cujo sentido é inacessível para os não-iniciados..(!)”.

…”Hoje em dia podem participar do Jongo homens e mulheres mas esta participação, em sua forma original era rigorosamente restrita aos iniciados ou mais experientes da comunidade…”

(Um primor de incongruência esta oposição criada pelos adulteradores do verbete entre ‘homens e mulheres’ e ‘iniciados/‘mais experientes’, querendo significar é claro, embora canhestramente, que hoje já não seria mais necessário ser ‘iniciado’ ou ‘mais experiente’ para participar do Jongo, abolindo um aspecto crucial à tradicionalidade da manifestação: a condição de participante dos grupos efetivamente tradicionais.

Vejam no original:

...” Da manifestação do Jongo podem participar homens e mulheres, mas esta participação, em sua forma original, sempre esteve, rigorosamente, restrita aos iniciados ou mais experientes da comunidade…”

Ao que tudo indica, desprovidas de fundamento que são, as distorções, claramente, visam autorizar a inclusão de certos grupos ‘neo-tradicionais’ dentro do conceito de ‘tradicionalidade’ que antes, no verbete original era afirmado como sendo restrito e determinado, ou seja:

Do Jongo tradicional, não deveriam participar indivíduos não iniciados. Jongo seria uma manifestação de ‘mais-velhos’ (um conceito ainda usado em Angola e no Brasil).

Estariam aptos a ser objeto de tombamento, apenas grupos, efetivamente, tradicionais (segundo os critérios de tradicionalidade – Conceito e Contexto – determinados) que, são, exatamente, aqueles grupos descritos como sendo ‘da roça’, integrados pelos ‘véios’ e véias’ (as que não usam aqueles saiões estampados).

São inseridos também no verbete, aleatoriamente, uma lista de símbolos substitutos daqueles, originalmente, descritos no verbete original, símbolos estes, que possuem relação com antecedentes angolanos, entre os quais os mais conhecidos são a bananeira e a fogueira (e não exatamente o fogo) além de outras práticas ancestrais, que remontam ao passado africano da manifestação, plenamente identificáveis por observadores mais especializados no assunto aqui e na África)

Jongo (ainda in Wikipédia)

O Jongo se urbaniza (e agoniza) numa boa

A seguir, o verbete original (em sua parte preservada), relata o surgimento de recriações de Jongo, posteriormente, realizadas, por descendentes de escravos do Vale do Paraíba do Sul, que migraram para o Rio de Janeiro após a abolição, frisando de modo enfático, o surgimento desta linha que seria o final de um caminho evolutivo que, do modo como foi descrita a manifestação no contexto de suas finalidades históricas e sociais mais importantes, representaria o ponto de extinção (naquele novo contexto) daquela vertente.

…”A cidade do Rio de Janeiro, na região compreendida pelos bairros de Madureira e Oswaldo Cruz, já nos anos imediatamente posteriores à abolição da escravatura, centralizou durante muito tempo a prática desta manifestação na zona rural da antiga Corte Imperial, atraindo um grande número de migrantes ex-escravos, oriundos das fazendas de café.

Entre os precursores da implantação do Jongo nesta área se destacaram a ex-escrava Maria Teresa Bento da Silva muitos de seus parentes ou aparentados além de diversos vizinhos da comunidade, entre os quais Mano Elói (Eloy Anthero Dias), Sebastião Mulequinho e Tia Eulália, todos eles intimamente ligados a fundação da Escola de Samba Império Serrano”…

…”A partir de meados da década 70, no mesmo Morro da Serrinha, o músico percussionista Darcy Monteiro ‘do Império’ (mais tarde conhecido como Mestre Darcy), a partir dos conhecimentos assimilados com sua mãe, a rezadeira Maria Joana Monteiro (discípula de Vó Teresa), passou a se dedicar á difusão e a recriação da dança em palcos, centros culturais e universidades estimulando por meio de oficinas e workshops, a formação de grupos de admiradores do Jongo que, embora praticando apenas aqueles aspectos mais superficiais da dança, deslocando-a de seu âmbito social e seu contexto tradicional original, dão hoje a ela alguma projeção nacional”…

Pois é, exatamente, desta ‘vertente final’, surgida da mística criada em torno do nome do Morro da Serrinha, que surgem as distorções enumeradas acima.

E o que são estas novas manifestações jongueiras? Jongo requentado, para ‘inglês ‘ver ou Jongo evoluído, modernizado, adaptado ao século 21?

E o tal do Jongo das ‘véias’ e ‘véios’, vivíssimo ainda na Roça, aquele Jongo efetivamente tradicional, que não se adaptando aos ‘novos’ tempos, será atropelado pelos ambígüos laudos do IPHAN, o que será dele? Agüentará o tranco?

Jongo à vera

Fechando a roda por hora

Além do que já se disse, o que viria a ser o Jongo afinal?

A palavra ‘Nongo’ em Kimbundo significa, exatamente, enigma, adivinhação, (Ji-nongonongo = jogo de adivinhas, de charadas) segundo o etnolingüista suíço Hèli Chatelain que escreveu em Angola, ali por volta de 1887, sobre a língua e os costumes angolanos, compatíveis com a época da vinda de escravos desta região para as fazendas de café do vale do Paraíba do Sul (citadas no verbete).

“Nongo (no plural = ji- nongo), nongo-nongo (plural=ji-nongonongo).

Jogo de adivinhas, de caráter talvez sócio-educativo, praticado pelos ‘mais velhos’ (sociedades secretas) de uma comunidade, com finalidades outras, de caráter ainda indefinido, porém, talvez insinuado nos elementos sobreviventes no Jongo do interior (Jongo tradicional).

Ji-Nongo= J’nongo =J’ongo, como dedução lógica.

Logo, sendo Jongo uma manifestação muito antiga, de caráter transnacional, bem mais complexa do que imaginávamos, podemos concluir também que a dança devia ter importância apenas acessória nos eventos (talvez até, meramente eventual) no âmbito de um atividade social, francamente, africana, muito ocorrente no Vale do Rio Paraíba do Sul, de meados do século 19 até hoje.

Muita coisa ainda para se descobrir e estudar sobre o assunto, portanto.

(Esta dança – chamada de Jongo, por extensão ao nome da manifestação – caracterizadamente uma dança de umbigada – um tipo de ‘ma-Semba’ – é um caso a parte que pretendemos abordar no post seguinte.)

Dizem que o Jongo, tendo uma suposta ligação com o Semba angolano, teria sido uma espécie de ancestral direto de nossa dança preferência nacional: o Samba velho de guerra.

Ancestral direto? Seria este um conceito válido em Cultura, esta coisa tão dinâmica?

Semba e Samba. Algo a ver? Sei não. Fique amarrado nesta história.

Spirito Santo

Novembro de 2010

Anúncios

~ por Spirito Santo em 13/05/2008.

4 Respostas to “Jongo, Nongo, Jinongo”

  1. E vejam só isto:

    Ao que parece, estamos assistindo a legitimação de um conceito para Jongo. O texto a seguir (veja original neste blog), é uma tradução para o inglês do tal verbete que o anônimo que vos fala inseriu na Wikipédia, para domínio público.

    “The Jongo as a traditional play has one of most remote origins (at least what concerns structure of the sung points) of Angolan adivinhas, so-called Jinongonongo. An essential characteristic of the language of the Jongo is the use of symbols that, besides maintaining the encoded sense, have a role supposedly magic, on purpose to evocate paranormal phenomena. Among them, the most obvious it is possible to quote the fire, used to tune the instruments. The drums, which are consecrated and been considered as ancestors of the community, the dance in circles with a couple in the center, which refers to the fertility. We cannot forget the rich metaphors used by the jongueiros to compose their “points”, which sense is inaccessible for the non-initiates.”

    Tomara que não apareça um ‘outro’ autor para esta história.

    Curtir

  2. Célia,

    Apesar de parecer enigmático, o seu comentário (ou fina ironia, talvez não intencional)respondo assim: Ninguém pratica Jinongonongo por aqui (nem por lá, presumo). Aqui se pratica Jongo (alguma pouca coisa da manifestação e muito da dança). Jinongonongo em Angola é uma coisa vista por lá no século 19 (o post fala tudo isto)

    Quanto a ‘negras quilombbolas que atuem com encantamentos espirituais’ isto por aí tem aos milhares já que, a rigor, todo gueto negro (‘comunidade’, no português corrente) é um quilombo em potencial e neles sempre tem uma rezadeira, uma macumbeira, um mãe de santo ou de gente, de plantão.

    Abs

    Curtir

  3. Se muitos tentassem como você tentou decifrar este tema, não haveria tanta tolice espalhada no Brasil. Pediria o favor de avisar-me se souber quem pratica o Jinongonongo no Brasil e também , se sabe onde posso achar negras idosas quilombolas que atuem com encantamentos espirituais. Muito obrigada, Mãe Célia.

    Curtir

  4. Estou pesquisando o tema para o Mestrado e confesso que fico bastante desesperado com o material bibliográfico. O fato de o verbete ter sido modificado não me assusta, pois quem acompanhou com olhos críticos os 3 últimos encontros de jongueiros viu muita diferença… No último havia mais de 500 jongueiros. Com tanta gente e movimentação e recursos e patrocínios e visibilidade midiática claro que rolam vaidades e “interesses não republicanos” (só para lembrar o diálogo Zé Dirceu-Roberto Jefferson).Ouvi da boca de um pesquisador seriíssimo o fato de tomar cuidado para não se ter o grupo especial do jongo…

    Curtir

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: