Eu vi a cara feia do rei


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Como início, aquelas coisas notórias que os sabidos dizem que sabem…de ler:


…” A Europa está devastada pelo furacão Napoleão que mexeu em todos os tronos europeus e, no fim de 1807, está chegando em Portugal. É a madrugada de 27/11/1807 e a corte, desesperada, se atropela com pressa e desordem no cais de Belém para embarcar, filhas sem pais, mulheres sem marido, pessoas da mais alta nobreza que esperam subir a bordo com a roupa do corpo e com pouco ou nenhum dinheiro.

D. João chegou acompanhado de D. Pedro Carlos, infante de Espanha, primo de Carlota Joaquina, e tomam a nau capitânia Príncipe Real com 67 m. de comprimento que recebe mais de 1.000 passageiros e é a sala do trono flutuante da monarquia portuguesa, logo depois chegam Dona Carlota, D. Pedro, as infantas e o infante D. Miguel, e se dividem em 4 navios, por questão de segurança dinástica, D. Pedro e D. Miguel embarcam com o pai; dona Carlota e 4 filhas embarcam na fragata Alfonso de Albuquerque; espera-se a rainha, Dona Maria 1a, a Louca, com 73 anos que aos urros entremeados de lamúrias e exclamações de Ai Jesus!, Ai Jesus!, se recusa a embarcar, pois quer ficar com o povo e resistir e, finalmente, é carregada nos braços pelo comandante da frota real e embarca no Príncipe Real.

As 2 princesas do meio embarcam no Rainha de Portugal enquanto a tia e a cunhada de D. João embarcam no Príncipe do Brasil. Trazem consigo, metade do tesouro português, algo em torno de 80 milhões de cruzados, a outra metade já fora quase toda gasta para comprar a neutralidade com a França de Napoleão, sequiosa dos tronos europeus, e o que resta em Lisboa, cerca de 10 milhões de cruzados, não dava para mover o reino e pagar as dívidas, o que fará o general Junot derreter toda a prataria das igrejas e palácios para pagar a manutenção das tropas francesas em Portugal na guerra que se seguirá e que matará 250.000 portugueses, ou seja, 1/12 da população portuguesa.


(
A Corte Portuguesa No Brasil – Aníbal de Almeida Fernandes: Novembro, 2007 – Historianet.com.br.)

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TRIBUNA D’ANTANHO
Informativo do Ultramar do Augusto Reino de Portugal e Algarves
Lisboa – Editado no dia e no ano da graça de 10 de Agosto de 1808

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Sinos repicaram no Brasil. Foi no Dia daquele que logo de lá e daqui será Rei, o que se foi, o que se escafedeu. O mundo todo sabe o que aconteceu nesta memorável ocasião, mas, o como é que se deu de suceder a tal coisa é que são outros quinhentos.

Pintores insignes revelarão, já se sabe, em majestosas telas, pranchas e mil cores, a chegada (saído de a cá em desabalada carreira, como dizeis) de Sua Majestade o Príncipe Regente D. João à colônia. Eles, os artistas, bajuladores contumazes, já estavam aqui, a zanzar pelos salões do palácio, ainda antes mesmo da semana do embarque, a conferir com medidas de dedos e olhares argutos, admirando-lhe as fuças e a bajular a pança enorme do Rei.

Desde a travessia, ainda nos conveses sacolejantes dos navios, sem nojo e sem pejo, já estavam a fazer os esboços da glória ao Rei nas alturas e a de sua família Real. Interrompiam as puchasaquices costumeiras, tão somente, para verter os bofes e as tripas, estropiados pelos inconstantes enjôos do mar.

Pintores muitos, de empanturrar museus no futuro, mas, algum gajo macho por aí houve de vos descrever como é que se ficou por a cá na nossa Lisboa, largada e alquebrada cidade? Decerto que não. Nós, a ex-corte desprezada, abandonada, esbordoada de boatos e desencantos, entregue ao mais medonho e constrangedor dos Deus-darás, como ficamos? Órfãos de Rei?

Ouviram falar por aí deste tal de Napoleão, o Bonaparte, mas, e de Junot, o general que nos desvirginou a soberania, neste naufrágio que foi a ocupação de nossa pátria querida. Do caçador de João Fujão quem ousou falar? Deste gajo invasor francês quem ousou falar?

Sabe-se lá. Cala-te boca. Nós, os de Lisboa que nos confessemos qualquer coisa de verdadeira, uns aos outros, por nossa própria conta e risco, um dia. Por ora, cuidemos nós de saber sobre como é visto o nosso Rei pelos de lá, do além mar, já que é o Brasil, que neste caso em tela, tem pra nós a ver, porque de resto a única coisa que sabemos, é que quem se abaixa demais, as nádegas põe à mostra (ou, como os negros dizem: ‘a bunda oferece’)

Com que então, assim é que a Tribuna d’Antanho, este velho seu conhecido e incansável informativo das coisas do Ultramar do Reino de Portugal, num momentoso esforço de reportagem, traz até vocês um testemunho, verdadeiramente ocular, de vis a vis, diretamente da ex-colônia hoje metrópole do Rio de Janeiro.

Para vossas mercês, a voz do cafre angolano Simeão Cambinda, um ‘Tigre’, como se diz por lá, um negro merdeiro e muito fuxiqueiro daquelas, penso eu, turbulentas ruas da (falsa) Corte do Reinado de Portugal e Algarves no Brasil.

Eu, que em 04 de Agosto de 1808, ano da graça de nosso senhor Jesus Cristo escrevi, e dou a público, desde a cá desta minha querida e triste Lisboa, nesta mais que eletrizante reportagem a que chamei “Eu vi a cara feia do Rei”.

Ass: Adalberto Fagundes de Suspincança Oliveira e Manso
Tribuna d’Antanho, Proprietário registrado

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De resto as coisas não sabidas nas quais os espertos podem crer ou não:

(Inquirimento com Simeão, em carta trazida por um amigo nosso e da imprensa, por meio de navio)

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Nos fale de vossa mercê e acerca de vossa religião

Simeão, o escravo tigre fala, cortando a sede da colônia, pelo meio, cruzando ruas estreitas, rumo a praia onde se vertem os dejetos:

_… De Rei num gosto puruquê sou eskravo. Nem de kôrte gosto pru kausa de que sou da roça. Quem não gostá do que eu digo aqui que se rasgue todo, azá! Prus êrro que eu kometê nesta história eu digo, kom todas as letra: Se dane! Vá se katá!Kala a boka já morreu, quem manda aki sou eu. Num sô brigado a falá língua de tuga, mais perfeito do que já falo aqui, kumo ocêis tão veno. Purukê falá? Se nem os konde e os marquês desta fedida kolônia sabe falá putoguês sem gaguejá, pru quê haveria de sê logo eu o perfeito faladô?”

…”Pra kem quisé ouvir estranjêro, eu falo a minha fala de kafre, de afrikano, ké?Num ké não? Pois é mêmo aquela ‘língua do kão’ de sempre, konformi disse o nhô páruko de certa vez, de enkuando eu xamei êie de xibungo, samango, kambrokotô.

…”Xingo mêmo. É só me azukriná. Depois tomo aguardente e fiko manso, feito kandandumba serena.”

…”Ora, ora! Displante! Abuzo! Me benzê? Num benze não. De jeito maneira. Que nada, num gosto. Vão pros kinto dos inferno! Katóliko sô, mas, num sô. Sô de konviniênça, puruquê fui obrigado a deixar êie, o páruko seboso me kuspir no kengo akela água amarela, que eu nem sei bem de adonde, de quá xafariz imundo êie foi katá. Pensei que até que fosse mijo. “

…”E nem me xamo Simeão. Se ocêis qué mêmo sabê… “

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E assim é que, sempre falante, Simeão seguindo agora vai, já apontando ali pela Rua da Cadeia, pelas bordas da Detrás do Carmo, se esgueirando com vergonha dos amigos do Ganho, fulo da vida com aquele barril de merda equilibrado na cabeça, ‘tigre que era, listrado pela bosta mole, privada, então tornada pública, que lhe escorria pelo dorso, vinda da casa de algum senhor nobre – quiçá, falido – com o mais fedidos dos reis na barriga (antes assim porque senão, como era antes, o nobre verteria a merda sua pela janela mesmo, por sobre a casaca de um transeunte qualquer, um padre, um carroceiro). Conta Simeão que ainda hoje é assim em alguns sítios do Rio de Janeiro.

Contrate um merdeiro. Melhor assim.

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…”Conto o que vi procêis, purukê um outro pódi contá destrambelhada a história que, mesmo sendo komo é, sem pé nem kabeça, pode ser emtrambelhada sim, pru kausa de que, eu mêmo katei os pedaços dela, akêis que kortaro, que eskondero da vista púbrica, pra só mostrar os mais bonito. Katei os kako neste meu kaminhar de merdeiro com os óio que tudo vê. São êis mêmo, os fato da xegada do Rei Fujão, estes que eu rekonto prossêis nesta ora. Qué sabê? Simeão conta. Simeão é akêie que viu a cara feia do Rei.”

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Simeão assim foi seguindo e falando, agitado, rumo as bandas do ancoradouro. Largou o barril vazio por lá mesmo, enxaguou-se um pouco numa beirada de mar e seguiu. A galeota do rei, observada pela multidão, já vinha se chegando lentamente, os remos ritmados fazendo aquela marola cívica, de ondinhas que já batiam, de leve, nas bordas cravejadas de cracas do ancoradouro.

E os fogos rebombando no céu, chuviscando luz na cidade engalanada.

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Nos conte então sobre Carlota, a feia.

....Komeçô kom um estrondo kê se deu assim que eu levantô a kabeça, as dispôis de esvaziá o barril de merda no mar, na beiradinha do kais. Fogos de estrondá o chão. Um piska piska dos inferno rasgando o céu e bordando babado de luz no ar, feito anágua de bahiana da procissão dos ourive. Foi quando eu vi…”

…”Mêmo do kais já dava pra se apercebê que a tal rainha Karlota Filismina, Marvina, Severina, Joakina (que eu lá nem sabia mesmo o nome da dita kuja), tinha no kokoruto um turbante eskandaloso de mais da konta, de envergonhar pavão. Um penaxo feioso, kom umas pena de avestruz desbotada e uns broxe e uns brokado kravados no meio da kabeça, eskrita eskritinha um mamão maxo kum uma das ponta podre – que era a kareka dela – eskondida numa toalha de mesa enrodilhada. Um vaso de flor de enterro, koroa de defunto, sem tirá nem pô. Assim tava ela, assim na história fikô sendo a kabeça dela, da tal que o povo dizia sê a rainha, Karlota Filismina, Joakina sabe-se lá num sei o que das quanta”.

… Pelo povo, mal falada logo na xegada. Kabelo nas venta, kobra kaninana, xave de xilindró, surukuku tapete pronta pra dar o bote no kristão (mesmo que este kristão fosse o próprio rei) eram as pouka e boa que sobre ela se dizia”.

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Na sua língua lá dele, diz Simeão que, de primeiro, se dizia mesmo que a tal espanhola majestade era careca de nascença, mas, depois, com a galeota já quase atracando, é que o povo, pelos cochichos que fez, pode ficar sabendo que o que houve mesmo é que punhados de lêndias e piolhos cresceram na cabeleira da dita, muitos, tantos que, em sendo uma praga, deu também de nascer outros piolhos, também em punhados, na cabeça de quase todos os nobres e cortesãos da comitiva (só não se soube de alguém que falasse de piolhos na cabeleira do Rei)

_”Piolhos Reais!” _

Me disse Simeão, o Tigre, naquela sua assaz grosseira picardia africana.

Disse, seguiu e contou, no que o reproduzimos, sem julgar haver no que falava, nem um pouco de descalabros (decerto que também em nós de a cá, pouca afeição se há de ter para com a gaja espanhola, matrona assim tão arrogante quanto sagaz)

”Os pé da kuja era feio, mas, tão feio, tanto que doía os óio só de vê. Mais feio até do que os pé kravado do Kristo de ocêis krucifikado. Pelos kalombos que eskapava das xinela de pano enkarnado, dava pra se apercebê que a galega sofria muito kom os joanete. Ela, o estrupíço- rainha, tinha também um bigodin ralo, junto do quá, quase no narigão, uma verruga preta e kabeluda, krescia como uma jabotikaba esturrikada, brilhante komo uma azeitona de Potugá.

Kruzemkredoavemaria! Isto tudo junto, era assim de ninguém querê vê num quadro pintado, puruquê seria puro assustamento, tudo junto fazia a kara da dita se parecê muito mais kum a kara de uma bruxa dessa, de pesadêlo, do que kum o rosto dessas rainha de gravura de armanake (que era komo kontaro que ela era pra nóis, o povo e os eskravo). Dito isto, devo dizê também que a pobre (ainda que rika) fedia um pouko a enxofre (que era, kontudo, um xeiro bem mió do que este ki eu, Simeão Merdeiro karrego na kabeça um dia sim o outro também). Merda é santa. Enxofre – komo diz ocêis – é do diabo.

Isto sem dizer que a louka, a rainha-mãe Maria, aquela de que nenhum pintô ousou siqué pedi pra fazê um quadro, um rabisko que fosse, quando se viu de perto, se viu que também kagada estava, quase tanto quanto eu, Simeão Cambinda, eskravo merdeiro das novas terras do Rei.

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Nos conte agora também sobre a nunca bem dita Sé do TeDeum.

Contou-nos Simeão, contudo, que o próprio Rei, coitado, da feiúra extrema da mulher não ficava atrás. Simeão o viu, no cais, sempre de relance. Viu que ele tropeçou num degrau ao descer da galeota e quase foi ao chão, momento no qual, rasgou as calças. Cansado, esgotado, deu a perceber.

Amarfanhadas, as roupas não faziam juz ao que povo – até a escravaria- dizia sobre ele, o Príncipe Regente, louro herdeiro de um verdadeiro império de ultramar.

... Da Rua Direita para baixo, de adonde eu vinha desceno, voltano, vindo do kais, kruzei a Rua dos Latoeiro e fui indo, pelas gretas da cidade, ainda um pôko fedido da merda, mas, animado kom o furdunço. Da Rua Direita, desci pela Detrás do Karmo. Na Rua da Kadeia resfoleguei de kalor e me alembrei, aliviado, da bika do xafariz da Karioka, onde me lavei de novo e me refresquei.

…”Pronto. Dali, zum! Seguindo a Barbono, cheguei Largo da Mãe do Bispo onde parei, pra tomar meu aguardente de kada dia. Foi de onde eu vigiei as tropas se ekipando, os mosquete desembainhado, sei lá purukê, que era só uma festa que nóis fazia pra komemorar a xegada do Rei de Portugá.

E foi assim, de pronto. Sorrateiro fui me enfurnando pela Mata Kavalos, fugindo dos meganha que tentava desviar o povo. Dali desci pela Lavradio, kortei a Rua do Kano e cheguei, glorioso, na Rua da igreja do Rosário.

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A missa do Te Deum foi _ e permitam-me interromper a narrativa de Simeão para vos contar _ um rebuliço sem tamanho entre os cortesãos da Colônia porque, como seria possível que a missa em glória da feliz e são e salva travessia do próprio Rei para a sua nova Corte, se desse ali, na Igreja de Nossa Senhora do Rosário e de São Bendito dos Homens Pretos, de fato á época, a verdadeira Sé da cidade ainda agora, nestes dias, pois se sabe, de há muito, que a Sé velha, a do Carmo, andava em obras, já de tempos passados, há mais de dez anos pouco menos ou mais? Um Rei ali, naquela igreja da escravaria?

Do pouco que conheço da afetação dos artistas de todas as Corte da Europa, posso presumir que os pintores lá, nesta igreja de pretos não estarão jamais. Nem mortos. Haverão de pintar outra missa qualquer, de modos que as imagens para o porvir, sejam as da nova Sé branca e renovada, ali, quase ao lado de onde trancafiaram Maria, a louca, a poucos passos do Paço Real.

Soube Simeão, assim por alto, pelo próprio pároco de sua freguesia, que solicitaram ao pároco do Rosário, que desse um jeito, para que os negros da irmandade fizessem das tripas coração, para que se espantasse a negrada da paróquia neste dia, para outra freguesia, para bem longe do Rei. Logo se pode perceber, contudo que, talvez mais por curiosidade do que por devoção ou mesmo revolta, a notícia da vinda gloriosa do Rei à Igreja dos pretos, se espalhou como um rastilho de pólvora aceso.

O chafariz da Carioca ficou deserto. Bodegas desertas, tudo deserto além do caminho do Rei. A notícia se alastrou, principalmente, entre a negraria do Ganho, gente ruidosa, que vivia solta, quase à forra, e que fechou os dois lados da rua da igreja, com o arfante bafo de sua ansiedade e pelo cheiro forte de seu suor, por conta de não usarem os negros, ao contrário dos patrícios, nenhuma casaca de lã escura, nenhuma polaina, nenhuma roupa quase (idéia de gente sabida, convenhamos, naquele escaldante sol da Colônia).

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E sobre o Rei? O que direis?

”E foi assim e ali que eu vi a kara balofa e feia do Rei. Assim, de pertinho mêmo, komo quem vê, mesmo sem krê, um milagre do Deus de ocêis, este que se diz que tudo vê. Vi êie, o Rei, de kara a kara, enquanto enfiado estava por trás do korredor de gente marrom komo eu, que se formou por todas as rua por adonde a prossissão do Rei passou”.

…”Balofo feito uma porka assada pra festa do Dia de Nossa Senhora de Sant’Anna. É êsse o vosso rei. Se viu o retrato, quebre, apague, sábi ocêis komo é os artista, né? Ganha pra desenfeiar aquêis que lhe dá a glória e as patakas de dinhêro..se bem que este Rei, não vai dar pra desenfeiar não. Feio de assustar mon’ndengue, krianssinha. Zambiampungo nos protegei! Pra sê pior, o tal do príncipe agora Rei de ossêis, além de ser aquele sako de banha enfeitado, usava uma kalssola justa ensebada, antes branka, imunda da viagem, suja de tudo que é sujeira ki se pódi imaginá (dito isto por mim, que sou merdeiro, ocêis vai podê mêmo imaginá).

…”Tinha a boka mole, kaída, pra baixo do beisso de cima, komo a boka de boi kansado e, komo tava, pru konta dos dente saltado pra fora, kalado, babava mêmo, sempre ki fikava mudo, komo tava akela hora, por kausa talvez do susto de vê tanta gente preta, eskrava, de tá perdido, eskorraçado das oropa pressas terra do Brasil.

…”Mudo tava, mudo fikava, sem nada atiná pra falá. Assim foi que a kasaka real toda manxada daquela baba de boi real passou adiante de mim e de todo mundo. O Rei suado, amuado, apagado. Filho de kem era, da louka, dava até pra se pensar, se seria êie mêmo o Rei ou se o tá de Napolião nos havia mandado um príncipe frako kualké, um kabrunko desses, xêio de kalundu, um abobado, papé pra mais que assertado, prum kuase Rei fujão. Um Rei kagão.

…”Rei Bufão ou bobo da Kôrte, do pôko que sei, digo procêis que é este o príncipe fundadô do Brasil. Fundadô de uma Kôrte quissá eterna, que vai sê muito difíce de se akabá.

…”Vi. Konto pru que sei ki foi akontecido assim mêmo komo kontei. Não tenho esperança nem vontade alguma de eskondê o que vi, nem de prová que vi. Ke se dane o Rei, que se morra toda esta gente dessa kôrte sem eira, essa gente xibunga, xinfrin, kambrokotó.

Xingo sim. Komo xinguei o páruko quereno me enfiá o deus dêie pela minha guela. Sei que nenhum de ocêis de aqui da kôrte, vai me tirá dessa vida de kaxorro, pra isso konto somente kum o kalunga, um dia desse quarqué me dado a mim por Nzambi.

A não sê pelos fuxiko que fiz, não tô aqui para sê merdeiro de Rei. Não sô mêmo talhado pra sê um‘Tigre’ Reá.

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Em 25 de Março de 2008, eu, Spírito Santo, plebeu na corte do Rio de Janeiro que em nome do quase Conde Suspicança de Oliveira e Manso, humildemente, transcrevi.

Rodando a baiana post #01


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Duas baianas da Irmandade da Boa Morte, BA. A mais velha NÃO é a Tia Ciata como muitos afirmam…e nem mesmo a mais nova.

(Livremente extraído do livro ‘DO SAMBA AO FUNK DO JORJÃO” 

O Mito da baianidade do Samba

_ “O que?! Este jurado de bateria, filho de uma égua deu nota 9,5 pra a Mangueira?… Tá comprado! Ta vendido! Pra qual escola este filho da mãe torce? Mocidade? Ah… Logo vi… O que?… Não acredito! O maluco deu 9,5 pra a Mocidade também?.”

Jurado? Bateria? Você sabe o que é uma bateria de Escola de Samba, claro, mas, conhece as mumunhas, os critérios usados para se julgar estas coisas? Não? Pois é bom saber. Vamos a eles então:

Para começar, saibam vocês que as ruidosas baterias de hoje em dia não nasceram com as Escolas de Samba. Não. Na verdade elas são um fenômeno até novo nos desfiles (talvez seja mesmo a última novidade a ser incorporada a este hoje gigantesco espetáculo, que começa a acontecer, com este nome, ali pelo início dos anos 30).

É que das Escolas eram acompanhadas, no início, por pequenos conjuntos de choro. Isto mesmo: Bucólicas flautas transversas, violões, cavaquinhos, tendo bem ao fundo uma modesta ’cozinha’ formada por um pandeiro, um tamborim e, talvez, um discreto chocalho. Tudo isto, junto com o cantor do Samba e seu coro de ‘pastoras’ (guardem bem este nome), cobertos por um pálio, espécie de barraca móvel, toda enfeitada, carregada, placidamente, por quatro homens suados, mas felizes.

Só por esta imagem já dá para a gente considerar então que, ali por volta de 1915/20, o que, mais tarde, se chamaria de Samba, como gênero musical, não estava nem firmado ainda (até porque como tal, nem mesmo existia).

A bossa nova da época, depois de ter sido o Lundu, era agora o Maxixe, ambas exóticas danças de escravos, trazidas da roça, adaptadas e adotadas pela elite mundana da ex-corte imperial e quase espécies de Funks pesadões ou Danças-do-Créu da Belle Èpoque, que, transbordantes de sensualidade (pelo menos aos olhos do puritanismo cínico daquela elite branca azeda) incendiavam os salões.

Nas ruas, onde o Carnaval também pegava fogo, a onda era outra: O dolente Rancho Carnavalesco, trazido para cá por uma grossa leva de gente, chegada da Bahia no fim do século 19.

É este, portanto, o contexto da nossa conversa, na qual tentaremos responder à seguinte – e capciosa – pergunta:

Afinal, em relação ao Samba e ao nosso Carnaval, honras e glórias de nosso orgulho carioca, o que é mesmo que a Bahia – ou a bahiana* – tem?

O ano era 1997. O cenário a Av. Marquês de Sapucaí, a afamada Passarela do Samba. O Jurado, vilipendiado, amaldiçoado (até mesmo pelo revoltado dirigente da Liga Independente das Escolas de Samba)? Este criado que vos fala, o filho da mãe assumido e confesso que, por via das dúvidas, assinalou na súmula, os argumentos (óbvios e quase irrefutáveis) de sua decisão que foram, mais ou menos, os seguintes:

O break e o Funk do Jorjão

Que parada é esta mermão?

A bem da verdade, dizia-se à boca pequena que alguns jurados mais… ‘pragmáticos’, costumavam lavar as mãos, dando notas 10 para todas as grandes escolas e pronto, mas, esta prática escapista, ‘brasileira’ e malandra a mais não poder, já estava começando a dar na vista.

Excelentes baterias de pequenas Escolas, há muitos carnavais, estavam sendo injustamente penalizadas por este ‘jeitinho’ impune de ser, dos jurados. Considerei, portanto – e, devo confessar, ingenuamente – que, pelo fato de as baterias de Samba estarem passando por uma fase de indigência criativa assim tão flagrante (naquela época em especial) premiar o conjunto mais ousado artisticamente, talvez fosse uma forma de estimular um aumento da qualidade geral do espetáculo.

A mais bem sucedida bateria daquele desfile havia sido, sem dúvida, a Unidos do Viradouro, conduzida por um excelente mestre que, entre outros ‘grooves’ ou levadas e traquinagens eletrizantes, realizou, de forma rigorosamente precisa, uma arrepiante ‘paradinha’ Funk. O nome dele era Mestre Jorjão, grande artista, discípulo dileto do decano e guru de todos os mestres de bateria do Brasil: Mestre André, exatamente, o inventor da ‘paradinha’, lá em Padre Miguel (é claro) ali pelo início da década de 1970.

(É por estas e outras que o livro que fiz inspirado por esta, entre outras histórias se chama, exatamente, ‘Do Samba ao Funk do Jorjão).

A primeira destas, também ótimas, baterias, agraciadas por mim com o segundo lugar, havia realizado um desfile embora sem erros, apenas burocrático. Como Mocidade Independente era o seu nome, dolorosamente, dei a minha nota (9,5) considerando que, pelo menos, no que diz respeito ao meu comportamento ético, a história me redimiria.

A outra bateria ficou sendo o monstro sagrado Estação Primeira de Mangueira, por conta, além de ter apelado para o mesmo burocratismo do chamado ‘desfile técnico’, ter incorrido, mais um vez, num erro clássico, em seu caso, uma armadilha congênita, contida talvez no seio de suas próprias ‘raizes’.

Mas, Deus do céu! Como é mesmo esta história de ‘raízes’? Como é que uma bateria de Samba, poderia incorrer no erro crasso de não tocar… Samba? E espera aí… como isto poderia se dar, exatamente, por culpa de suas próprias origens? Se estas baterias são conjuntos de percussão especializadíssimos neste ritmo, tão característico da mais profunda ‘raça’ afro-brasileira, como poderia se dar este paradoxo? O crioulo teria endoidado de vez?

Calma, gente! Posso explicar.

Reparem bem: Para início de conversa, não ousei afirmar que a bateria da Mangueira fora ruim, ou mesmo inferior à maioria dos conjuntos. Afirmava apenas que havia um algo menos na evolução de sua rítmica, ‘uma qualquer coisa estranha’ – como diria o Mário de Andrade – que, por força talvez de ardilosas pressões comerciais ocorridas ao longo do tempo, no desenrolar de vários Carnavais, com a aceleração absurda do andamento, da cadência dos desfiles, fazia a Mangueira – mais do que das outras – abrir mão de todas as características rítmicas mais elementares, do que se costumava chamar de Samba.

Em se mantendo as características do seu estilo – as tais ‘raízes – só reduzindo o andamento da bateria nos desfiles, a Mangueira conseguiria voltar a tocar, exatamente, Samba. Ou seja, para mim a bateria da Mangueira andava, já há algum tempo, tocando… Marcha.

Uma ‘levada’ portuguesa com certeza, com certeza uma ‘levada’ portuguesa.

Não toque em velhas chagas

Ou o triste fim de um jurado 40 dias antes da quaresma.

Chagas?Tabus?Mitos? Aquilo me subiu à cabeça. Como se já não bastasse a nossa proverbial falta de ética na política, a corrupção da ‘coisa pública’ carcomendo as nossas instituições, quer dizer que era assim que se desenvolviam os juízos de valor, às vezes, tão determinantes à evolução, à preservação, de uma manifestação cultural popular, tão tradicional e importante à afirmação de nossa (vá lá que seja…) nacionalidade, como são as Escolas de Samba do Rio de Janeiro?

Foi aí que eu, como um Policarpo Quaresma tardio, mais realista que o rei, bati o pé, dei mole para os fanáticos de plantão e… ’sambei’.

O fato é que nunca se soube exatamente as alegações que justificaram o meu afastamento sumário do júri da Liga Especial de Escolas de Samba do Rio de Janeiro naquele mesmo ano. A carta lacônica que comunicava o meu desligamento vinha assinada pelo novo presidente da instituição: Ele era, como de praxe, o presidente de uma das grandes escolas, uma mui tradicional… Sabem qual? Isto mesmo: A GRES Estação Primeira da Mangueira.

_Ai Jesus!

Minha família quase me linchou e não era para menos: Perdemos o direito a assistir, todo ano, de camarote, com mordomias quase nababescas, ao maior espetáculo da terra. E eu ainda era remunerado por aquilo! Meus já um tanto distantes amigos de Padre Miguel, no afã de apagar o gosto amargo da afronta imperdoável que eu lhes infringira, me riscaram dos seus caderninhos, com rabiscos raivosos.

Pelo sim pelo não, para mim o que ficou mesmo foi a forte sensação de ter cometido mesmo alguma indiscrição imperdoável naquela súmula. Teria eu ‘sambado’ do júri por ter esbarrado – e assinando em baixo – em mais um mito-tabu de nossa vã etnologia?

Como o pessoal da Mocidade, além de me xingar, protocolarmente, de nada mais se queixou, não duvido nem um pouco que, mais do que ter tido a petulância de dar uma nota menor que 10 àquelas duas baterias, naquele inesquecível desfile, a razão por trás de tão radical decisão, foi mesmo o fato de eu ter citado na súmula –fazer o que?- as tais ‘raízes históricas’ lusitanas da Mangueira.

… Ou, o que é pior (ou melhor, sei lá): Raízes luso-bahianas.

E que misteriosas e indiscretas origens seriam estas? Estão afim de saber o enredo deste samba? Então vamos lá:

_Simbora gente!

Lá em cima tem um tiru liru liru…

…mas, lá em baixo tem um tiru liru lá.

Na verdade, se a gente fosse mesmo levar este questionamento, como seria justo, ao pé da letra, deveríamos colocar pingos nos is também (e digo isto protegendo a cabeça das inevitáveis pedradas que virão) na própria existência de uma negritude transcendental na gênese das primeiras Escolas de Samba (as que chamei no livro de ‘matrizes’).

Falo de uma forte e legítima influência de uma inefável branquitude lusitana, tão, parodoxalmente, negada ou omitida por mitômanos de todas as castas e raças, em nome de um purismo pra lá de suspeito, que se utiliza de forma, como sempre, oportunista, aquela máxima que diz:

‘Em terra de cego, quem tem um olho é rei”.

Poderia até ser considerado da minha parte, um comportamento ‘traíra’, meio ‘pai joão’, assim como um requentado ‘elogio à mestiçagem’ (ao que, em se tratando deste seu criado, alguns mal avisados poderiam dizer: “Ora, ora…quem diria!”)

Afinal, os tempos são os das justas ações afirmativas e reivindicações por cotas de acesso para negros nas universidades – e na sociedade brasileira em geral – tempos de afirmação do conteúdo acentuadamente africano de nossa cultura, sacramentado até numa lei, a 10.639, que rege a obrigatoriedade do ensino da cultura negra em nossas escolas, etc. e tal, pois então?

(Viu, pessoal? Não é bem aquilo lá em cima não).

É que nada pode ser mais edificante – e pertinente – na afirmação da cultura de um povo, do que ele reconhecer e se orgulhar de suas origens, das matrizes que forjaram a sua personalidade ‘assim-assim’, aquela sua cara de povo original, bendito fruto, entre todos os outros frutos culturais deste nosso pequeno planeta, sejam lá quais forem estes frutos-matrizes. Deve ser esta a jurisprudência criada, o espírito intrínseco da tal bendita lei.

E é legítimo que assim seja, não é não? Aliás, nunca é demais lembrar, que sempre que nos referimos à cultura lusitana, o fazemos ressaltando a sua não menos indefectível herança árabe-muçulmana, de certo modo africana portanto, ou seja, existe também uma inefável e indelével, negritude lusitana, ora pois, pois. Alhos combinados com bugalhos, ora pá…(e que os mais doutos não me venha julgar um lusotropicalista freiriano)

Avancemos para além das aparências, por favor!

Em se tratando de Samba, portanto, para mim, matrizes são aquelas escolas surgidas na área da “Pequena África”, em período próximo aos anos 30; nascidas sob a influência das casas de macumba e candomblé de um lado e, de outro, pelo contato com a cultura da baixa classe média do Rio de Janeiro da época, cujas referências musicais principais eram, além dos grupos de Lapinha e Ranchos Carnavalescos citados, o Lundu, o chamado Tango brasileiro e o Maxixe.

Ou seja, o must para todo mundo – inclusive a negrada – durante o Carnaval, era o Rancho, filho dileto dos Pastoris, das festas de Reis ou Reisados, herdeiras legítimas das ‘Lapinhas’ trazidas pelos baianos que, por sua vez, as herdaram de nossos bigodudos ’patrícios’ de trás-os-montes’, ô pá!

Que se toquem então – os que ainda não se tocaram – que foi do Rancho Carnavalesco, esta pitoresca manifestação cultural, tipicamente, ibérica – ou européia – que as nossas Escolas de Samba herdaram quase tudo, inclusive, a própria estrutura organizacional dos desfiles e a maioria dos personagens, como é o caso evidente do Mestre Sala e da Porta Bandeira, do hoje extinto… (lembram-se do nome que pedi para guardar)…’’Coro de Pastoras’ (antes chamadas, lusitanamente, de ‘Saloias’), das alegorias de mão (os carros alegóricos vieram das ‘Grandes Sociedades’), etc. e tal…

…Além do indefectível e mouro pandeiro, é claro que, todo enfeitadinho de fitas, estava sempre a chacoalhar nas mãos de uma ‘saloia‘ ou de uma ‘Diana’ destas da vida, desde lá da santa terrinha, ora, pois, pois, pois.

Ah… e isto sem esquecer de revelar que as cores verde e rosa da Mangueira, não são, exatamente, como muitos pensam por aí, fruto de alguma misteriosa visão poético-filosófica de um inspirado sambista. Verde e Rosa eram as cores de um dos Ranchos Carnavalescos mais famosos da Mangueira, ali por volta de 1910: o “Príncipe da Floresta” talvez, paixão adolescente de Carlos Cachaça, talvez de Cartola e de muitos dos integrantes do seminal ‘Bloco dos Arengueiros’, embrião da futura grande Escola de Samba.

Está certo, mas, e daí? O que é mesmo que a bahiana tem?

(Continua agora mesmo no Post #2)

Spírito Santo
Junho, 2008

(E assim, com este ‘postão’ dividido em dois, iremos fechando a tampa da eletrizante série “Crioulo Doido revisitado”)

Rodando a bahiana post #02


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(Livremente extraído do livro ‘DO SAMBA A FUNK DO JORJÃO” deste autor)

Já leu o post #01?

…Então vamos que vamos!

Quer dizer que, a serem verdadeiras as alegações que fizemos no post #1, a tão propalada originalidade sambística mangueirense, a negritude seminal do povo do ‘Santo Antônio’, da ‘Chalé’ e do ‘Buraco quente’, cantada em verso e prosa, pelos quatro cantos, como a mais tradicional entre as tradicionais Escolas de Samba do planeta, pode não ser isto tudo que se vê e sim, muito pelo contrário, um pouco mais? Ou será como diz aquele Samba:

“…Sei lá, não sei…
Sei lá, não sei não.
A Mangueira é tão grande
que nem cabe explicação..”

Um gajo bate Bá! O outro gajo bate Bum!

A ‘levada’ Afro – Luso – Bahiana’ da Mangueira

Não fosse por tudo que já se disse, a forte ligação do Morro da Mangueira com a cultura portuguesa (além da bahiana), poderia ser, facilmente, explicável também por outro fator decisivo: As terras daqueles arrebaldes, vizinhas à Quinta Imperial, haviam sido cedidas pela Coroa portuguesa ao impoluto cidadão lusitano, Francisco de Paula Negreiros Saião Lobato, o Visconde de Niterói que, por sua vez as cedeu ao amigo, também lusitano, Tomás Martins que alugou para seus empregados (grande parte deles, a princípio, também portugueses) vários barracos no local. A existência de tantos portugueses no local era motivada, basicamente, pela existência, ao lado da Quinta, de um quartel do do exército Imperial, com uma grande cavalariça e muitos soldados.

Um pouco mais para cá, Nelson do Cavaquinho, ainda contava uma história engraçadíssima, de seu tempo de polícia montada, quando numa certa noite, fazendo a ronda em sua jurisdição, acabou se esquecendo da vida e, se enturmando numa roda de samba no alto da Mangueira, ficou tão bêbado que o cavalo se viu obrigado a voltar sozinho para o quartel, no sopé do Morro, sabe-se lá se o mesmo quartel dos tempos primordiais da Quinta Imperial.

O certo é que logo muitos outros portugueses se tornaram proprietários de vendas, olarias, novos barracos, inclusive casando ou se amasiando com negras e mulatas da localidade. A eles veio se juntar um pessoal mais pobre, vindo naquela leva de negros bahianos que, em seu extrato mais… digamos assim…remediado, representado pelo pessoal da Tia Ciata, ocupou a Praça Onze.

É com este pessoal bahiano que vem a festa da Lapinha, o Pastoril, evoluído aqui para o chamado Rancho carnavalesco.

Os exemplos desta simbiose luso-bahiana na Mangueira são inúmeros. Como se sabe, um dos mais importantes e respeitados sambistas dos primórdios daquela então pacata comunidade chamava-se… Alfredo Português que, segundo dizem, era o pai de Albino Pé Grande, esposo e grande amor de Clementina de Jesus.

Eu mesmo cheguei a conhecer, de relance, este mulato Albino, exímio passista, filho do insígne e mais bamba ainda lusitano – e nunca redundante – Alfredo Português.

Era uma tarde ensolarada de domingo. Enquanto nós, do Grupo Vissungo,  ensaiávamos, garimpando o baú profundo das memórias de Clementina, entrevado numa cama por um grave derrame, o homenzarrão não perdia um lance da conversa, revirando os olhos e sugerindo ou corrigindo detalhes, a boca torta emitindo animados grunhidos, que só a carinhosa Clementina compreendia.)

Ai jesus!

Mas, não é este Alfredo o mesmo que foi pai adotivo do grande Nelson Sargento? Sim. Claro! Além do que, tinha o também português Tomás Martins (o tal que arrendara as terras do morro do Telégrafo ao seu dono, o Visconde de Niterói) que, por sua vez, era padrinho de Carlos Cachaça como se sabe, uma figura seminal da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira. Tudo em família, como se vê.

A rápida adesão da população da Mangueira aos Autos de Lapinha que, após a criação do ‘Rei de Ouro’, agremiação do bahiano (na verdade pernambucano) Hilário Jovino, se transformaram nos inúmeros Ranchos carnavalescos que proliferaram na cidade, tinha, portanto, razões muito fortes para ocorrer.

Não trazendo, portanto grandes transformações estéticas para o animado carnaval de rua, que já se fazia desde o fim do século 19, A única inovação decisiva que as Escolas Samba ‘matrizes’ (Mangueira e Deixa Falar) empreenderam, pelo menos de forma perceptível, foi musical, caracterizada pela adoção, a certa altura, de uma radical alteração no acompanhamento, saindo da monotonia rítmica da Marcha Rancho, da Valsa ou do acento arrastado do Maxixe (as bandas dos Ranchos usavam vários gêneros musicais nos desfiles), para assumir como exclusiva, a cadência característica do Samba que, já mesclado a uns poucos elementos do Lundu, do Tango brasileiro e do Candomblé e todos os outros temperos já curtidos por anos e anos de herança africana na diáspora, assume de vez, a hegemonia rítmica característica, do que chamamos hoje de Escola de Samba.

Esta mudança rítmica paradigmática, não veio, contudo, absolutamente, dos lados da Bahia. Ela nos veio sim, na forma de uma nova onda cultural, irremediável e avassaladora, trazida pelo grande êxodo de milhares de negros angolanos e moçambicanos e seus descendentes, ex-escravos oriundos das decadentes fazendas e café do Vale do Rio Paraíba do Sul, onda esta que, no aspecto cultural, firmando-se como a melhor opção de amálgama musical no âmbito da ainda por demais diversificada cultura negra da cidade do Rio de Janeiro, se cristaliza enfim naquilo que se passou a chamar de Samba de fato.

Era a chegada da batida perfeita (no caso). A batida do Ka-Lundu e do Jongo da Roça, o toque mágico e feiticeiro, do Caxambu.

Mas isto já é outra história.

Meses depois do Carnaval, naquele mesmo ano de 1997, num seminário sobre escolas de Samba na Uerj, convidado a integrar uma mesa sobre o tema Baterias (com os saudosos José Carlos Rego e Mestre Louro, da bateria do Salgueiro), além do Wilson das Neves, fui, levemente, hostilizado pela platéia, em sua maioria gente do Morro da Mangueira, que fica ali, bem ao lado do campus.

Na saída, Acyr Explosão, justamente, o mestre de bateria da Mangueira a quem eu ‘agraciara’ com aquele 9,5 fatídico, insistiu em me acompanhar até a saída, para me confidenciar o seguinte:

_“ Concordo com o que você disse em gênero, número e grau, mas, se você disser que eu disse, vou negar até a morte.”

Acy, realmente, morreu, assassinado no morro, pouco tempo depois. É como diria o mangueirense Geraldo Pereira, naquele samba clássico:

…” A polícia procura o matador
mas em Mangueira, não existe delator”.

O que haveriam de ter estas cachopas da Bahia?

Enfim, tudo que o tabuleiro da bahiana* tem.

Tudo bem. Falamos poucas e boas da Bahia e dos portugueses, mas afinal, onde é que entra a tal bahiana do título nesta história? Sim, porque, pelo menos isto gostaríamos de confirmar: Nada mais característico numa Escola de Samba do que sua Ala das bahianas, certo?

Não. Sinto muitíssimo, mas, nem este mérito a nossa brasilidade carnavalesca vai poder continuar a reivindicar As tais bahianas não são aqui mais do que um etecétera e tal.

É que o conceito ‘Ala das bahianas’, quando observado mais meticulosamente, na sua mais pura origem (que é muito mais remota do que se poderia imaginar) não tem, rigorosamente, nada a ver com Escola de Samba. Nem mesmo com o Rancho, muito menos ainda com Carnaval e, logicamente, nada – ou quase nada, vá lá – (pelo menos diretamente) com Brasil.

Existem relatos sobre uma longa tradição africana, de mulheres proeminentes de algumas daquelas  sociedades, usarem badulaques, patuás, panos e turbantes, como símbolo de status social.

Pura africanidade portanto neste look das bahianas, este aspecto assaz fashion de seu figurino.

Aliás, não repararam não? Este figurino (ou básico dele) ao que me perece, era formado mesmo, em boa parte por, nada mais nada menos, que as roupas de baixo, as anáguas, os corpetes e aquelas outras quase lingeries que as brancas senhoras da época, dispensavam, não queriam mais. Customização, minha gente. No tabuleiro da bahiana havia este tipo de astúcia também.

O certo é que, tirando a astúcia, como bem se vê, já neste aspecto, se tem uma coisa que bahiana, definitivamente, não tem é brasilidade.

Surpresos? Pois vejamos então o buraco um pouco mais embaixo ainda:

Numa descrição surpreendente e assaz meticulosa, bem ao estilo do grande cronista de costumes que foi, Manoel Antônio de Almeida (no clássico ‘Memórias de um sargento de milícias’) nos dá conta de um dado, a respeito das Alas de Bahianas, do qual só os mais argutos especialistas em Samba devem ter tido conhecimento.

Atente o leitor para a delícia dos detalhes:

“ …A que primava entre todas era a chamada procissão dos ourives (…) achavam todos meios de vê-la. Alguns haviam tão devotos que não se contentavam vê-la só uma vez; andavam da casa deste para a casa daquele, desta rua para aquela, até conseguir vê-la desfilar de princípio ao fim duas, quatro e seis vezes, sem o que não se davam por satisfeitos. A causa principal de tudo isto era, supomos nós, além talvez de outras, o levar esta procissão uma coisa que não tinha nenhuma das outras: (…)

Queremos falar de um grande rancho chamado – Das Bahianas – que caminhava adiante da procissão, atraindo mais ou tanto quanto como os santos, os andores, os emblemas sagrados, os olhares dos devotos; era formado este rancho por um grande número de negras vestidas á moda da província da Bahia, donde lhe vinha o nome, e que dançavam nos intervalos dos Deo-gratias uma dança lá a seu capricho.

Para falarmos a verdade, a coisa era curiosa: se não a empregassem como primeira parte de uma procissão religiosa, certamente seria mais desculpável. Todos conhecem os modos porque se vestem as negras da Bahia; é um dos modos de trajar mais bonitos que temos visto (….) Um país em que todas as mulheres usassem deste traje (…) seria uma terra de perdição e de pecados. Procuremos descrevê-lo:

As chamadas bahianas não usavam de vestido. Traziam somente umas poucas saias presas á cintura, e que chegavam pouco abaixo do meio da perna, todas elas ornadas de magníficas rendas; da cintura para cima apenas traziam uma finíssima camisa, cujas golas e mangas eram também ornadas de rendas; ao pescoço punham um cordão de ouro ou um colar de corais, os mais pobres eram de miçangas; ornavam a cabeça com uma espécie de turbante a que davam o nome de trunfas, formado por um grande lenço branco muito teso e engomado; calçavam umas chinelinhas de salto alto, e tão pequenas, que apenas continham os dedos dos pés, ficando de fora todo o calcanhar; e além de tudo isto envolviam-se graciosamente em uma capa de pano preto, deixando de fora os braços ornados de argolas de metal simulando pulseiras”’.

Delícia de relato, não é mesmo? Mais ainda por atiçar as pulgas atrás de nossas orelhas:

Segundo se pode concluir pela descrição de Almeida, essas Alas de Bahianas já estariam ativas como destacadíssimas componentes de procissões católicas, desde o tempo de D. João VI, ali por volta da década de 1820 (Almeida narra fatos, supostamente, ocorridos em sua juventude). Escravas de fato e não sendo, como se pode supor, exatamente, pessoas abastadas (pelo menos tanto quanto muitas aparentavam ser, com seus inúmeros balagandans de ouro e prata), seriam estas formidáveis bahianas, mostruários ambulantes, camelôs pré-modernos, inventados nos desvãos de uma sociedade escravocrata? É o que me ocorreu, fortemente.

Como explicar esta tão íntima relação entre negras escravas bahianas e os ourives da Corte, tradicionalíssima categoria profissional – na verdade  uma seita medieval – de grande prestígio social no Reino de Portugal, desde os primórdios do Império Lusitano?

Triste fado, tristes trópicos

A nos salvar as tantas e incontidas alegrias

E o mais curioso de tudo é o quanto esta conversa me lembrou a Carmem Miranda. Sacaram a relação? Não? Pois vejam só:

Carmem não foi uma mulher branca, portuguesa, travestida de bahiana, dançando como uma rumbeira, cheia de badulaques? Não foi ela quem ficou rica na América, vendendo uma imagem de Brasil que não tinha quase nada a ver com o Brasil?

Pois bem, podemos hoje reconhecer também que ela, a nossa americanizada ‘Brazilian bomb shell’ , no final das contas tinha mesmo, quase tudo aquilo que, agora bem sabemos – toda bahiana tem.

E fim de papo

Um abraço

E o crioulo doido, enfim recuperado, redimido e em paz com seus botões, dorme, mesmo azucrinado, pelo barulho destes baticuns.

Brasil profundo, over mundo de inusitados significados soterrados. Pobres dos homens de boa vontade – e dos jurados – nesta terra onde se calam os mensageiros de notícias inconvenientes, mesmo quando elas não passam de prosaicos relatos sobre as origens de um certo jeito nosso de cantar e de dançar.

…É o que sempre dizem por aí. No fim das contas, no Brasil, tudo acaba mesmo em Samba.

Spírito Santo

Junho, 2008

*Nota impertinente: Notaram como grafo ‘bahiana’ e ‘bahiano’, teimosamente com ‘h’? É que penso que se Bahia é com agá, porque diabos a bahiana  ou o bahiano tem que ser sem? Tiraram o agá do nativo numa reforma ortográfica destas aí, mas deixaram o ‘h’ na ‘nação’. Qual é a lógica desta norma inculta aí?