Rodando a baiana post #01

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Duas baianas da Irmandade da Boa Morte, BA. A mais velha NÃO é a Tia Ciata como muitos afirmam…e nem mesmo a mais nova.

(Livremente extraído do livro ‘DO SAMBA AO FUNK DO JORJÃO” 

O Mito da baianidade do Samba

_ “O que?! Este jurado de bateria, filho de uma égua deu nota 9,5 pra a Mangueira?… Tá comprado! Ta vendido! Pra qual escola este filho da mãe torce? Mocidade? Ah… Logo vi… O que?… Não acredito! O maluco deu 9,5 pra a Mocidade também?.”

Jurado? Bateria? Você sabe o que é uma bateria de Escola de Samba, claro, mas, conhece as mumunhas, os critérios usados para se julgar estas coisas? Não? Pois é bom saber. Vamos a eles então:

Para começar, saibam vocês que as ruidosas baterias de hoje em dia não nasceram com as Escolas de Samba. Não. Na verdade elas são um fenômeno até novo nos desfiles (talvez seja mesmo a última novidade a ser incorporada a este hoje gigantesco espetáculo, que começa a acontecer, com este nome, ali pelo início dos anos 30).

É que das Escolas eram acompanhadas, no início, por pequenos conjuntos de choro. Isto mesmo: Bucólicas flautas transversas, violões, cavaquinhos, tendo bem ao fundo uma modesta ’cozinha’ formada por um pandeiro, um tamborim e, talvez, um discreto chocalho. Tudo isto, junto com o cantor do Samba e seu coro de ‘pastoras’ (guardem bem este nome), cobertos por um pálio, espécie de barraca móvel, toda enfeitada, carregada, placidamente, por quatro homens suados, mas felizes.

Só por esta imagem já dá para a gente considerar então que, ali por volta de 1915/20, o que, mais tarde, se chamaria de Samba, como gênero musical, não estava nem firmado ainda (até porque como tal, nem mesmo existia).

A bossa nova da época, depois de ter sido o Lundu, era agora o Maxixe, ambas exóticas danças de escravos, trazidas da roça, adaptadas e adotadas pela elite mundana da ex-corte imperial e quase espécies de Funks pesadões ou Danças-do-Créu da Belle Èpoque, que, transbordantes de sensualidade (pelo menos aos olhos do puritanismo cínico daquela elite branca azeda) incendiavam os salões.

Nas ruas, onde o Carnaval também pegava fogo, a onda era outra: O dolente Rancho Carnavalesco, trazido para cá por uma grossa leva de gente, chegada da Bahia no fim do século 19.

É este, portanto, o contexto da nossa conversa, na qual tentaremos responder à seguinte – e capciosa – pergunta:

Afinal, em relação ao Samba e ao nosso Carnaval, honras e glórias de nosso orgulho carioca, o que é mesmo que a Bahia – ou a bahiana* – tem?

O ano era 1997. O cenário a Av. Marquês de Sapucaí, a afamada Passarela do Samba. O Jurado, vilipendiado, amaldiçoado (até mesmo pelo revoltado dirigente da Liga Independente das Escolas de Samba)? Este criado que vos fala, o filho da mãe assumido e confesso que, por via das dúvidas, assinalou na súmula, os argumentos (óbvios e quase irrefutáveis) de sua decisão que foram, mais ou menos, os seguintes:

O break e o Funk do Jorjão

Que parada é esta mermão?

A bem da verdade, dizia-se à boca pequena que alguns jurados mais… ‘pragmáticos’, costumavam lavar as mãos, dando notas 10 para todas as grandes escolas e pronto, mas, esta prática escapista, ‘brasileira’ e malandra a mais não poder, já estava começando a dar na vista.

Excelentes baterias de pequenas Escolas, há muitos carnavais, estavam sendo injustamente penalizadas por este ‘jeitinho’ impune de ser, dos jurados. Considerei, portanto – e, devo confessar, ingenuamente – que, pelo fato de as baterias de Samba estarem passando por uma fase de indigência criativa assim tão flagrante (naquela época em especial) premiar o conjunto mais ousado artisticamente, talvez fosse uma forma de estimular um aumento da qualidade geral do espetáculo.

A mais bem sucedida bateria daquele desfile havia sido, sem dúvida, a Unidos do Viradouro, conduzida por um excelente mestre que, entre outros ‘grooves’ ou levadas e traquinagens eletrizantes, realizou, de forma rigorosamente precisa, uma arrepiante ‘paradinha’ Funk. O nome dele era Mestre Jorjão, grande artista, discípulo dileto do decano e guru de todos os mestres de bateria do Brasil: Mestre André, exatamente, o inventor da ‘paradinha’, lá em Padre Miguel (é claro) ali pelo início da década de 1970.

(É por estas e outras que o livro que fiz inspirado por esta, entre outras histórias se chama, exatamente, ‘Do Samba ao Funk do Jorjão).

A primeira destas, também ótimas, baterias, agraciadas por mim com o segundo lugar, havia realizado um desfile embora sem erros, apenas burocrático. Como Mocidade Independente era o seu nome, dolorosamente, dei a minha nota (9,5) considerando que, pelo menos, no que diz respeito ao meu comportamento ético, a história me redimiria.

A outra bateria ficou sendo o monstro sagrado Estação Primeira de Mangueira, por conta, além de ter apelado para o mesmo burocratismo do chamado ‘desfile técnico’, ter incorrido, mais um vez, num erro clássico, em seu caso, uma armadilha congênita, contida talvez no seio de suas próprias ‘raizes’.

Mas, Deus do céu! Como é mesmo esta história de ‘raízes’? Como é que uma bateria de Samba, poderia incorrer no erro crasso de não tocar… Samba? E espera aí… como isto poderia se dar, exatamente, por culpa de suas próprias origens? Se estas baterias são conjuntos de percussão especializadíssimos neste ritmo, tão característico da mais profunda ‘raça’ afro-brasileira, como poderia se dar este paradoxo? O crioulo teria endoidado de vez?

Calma, gente! Posso explicar.

Reparem bem: Para início de conversa, não ousei afirmar que a bateria da Mangueira fora ruim, ou mesmo inferior à maioria dos conjuntos. Afirmava apenas que havia um algo menos na evolução de sua rítmica, ‘uma qualquer coisa estranha’ – como diria o Mário de Andrade – que, por força talvez de ardilosas pressões comerciais ocorridas ao longo do tempo, no desenrolar de vários Carnavais, com a aceleração absurda do andamento, da cadência dos desfiles, fazia a Mangueira – mais do que das outras – abrir mão de todas as características rítmicas mais elementares, do que se costumava chamar de Samba.

Em se mantendo as características do seu estilo – as tais ‘raízes – só reduzindo o andamento da bateria nos desfiles, a Mangueira conseguiria voltar a tocar, exatamente, Samba. Ou seja, para mim a bateria da Mangueira andava, já há algum tempo, tocando… Marcha.

Uma ‘levada’ portuguesa com certeza, com certeza uma ‘levada’ portuguesa.

Não toque em velhas chagas

Ou o triste fim de um jurado 40 dias antes da quaresma.

Chagas?Tabus?Mitos? Aquilo me subiu à cabeça. Como se já não bastasse a nossa proverbial falta de ética na política, a corrupção da ‘coisa pública’ carcomendo as nossas instituições, quer dizer que era assim que se desenvolviam os juízos de valor, às vezes, tão determinantes à evolução, à preservação, de uma manifestação cultural popular, tão tradicional e importante à afirmação de nossa (vá lá que seja…) nacionalidade, como são as Escolas de Samba do Rio de Janeiro?

Foi aí que eu, como um Policarpo Quaresma tardio, mais realista que o rei, bati o pé, dei mole para os fanáticos de plantão e… ’sambei’.

O fato é que nunca se soube exatamente as alegações que justificaram o meu afastamento sumário do júri da Liga Especial de Escolas de Samba do Rio de Janeiro naquele mesmo ano. A carta lacônica que comunicava o meu desligamento vinha assinada pelo novo presidente da instituição: Ele era, como de praxe, o presidente de uma das grandes escolas, uma mui tradicional… Sabem qual? Isto mesmo: A GRES Estação Primeira da Mangueira.

_Ai Jesus!

Minha família quase me linchou e não era para menos: Perdemos o direito a assistir, todo ano, de camarote, com mordomias quase nababescas, ao maior espetáculo da terra. E eu ainda era remunerado por aquilo! Meus já um tanto distantes amigos de Padre Miguel, no afã de apagar o gosto amargo da afronta imperdoável que eu lhes infringira, me riscaram dos seus caderninhos, com rabiscos raivosos.

Pelo sim pelo não, para mim o que ficou mesmo foi a forte sensação de ter cometido mesmo alguma indiscrição imperdoável naquela súmula. Teria eu ‘sambado’ do júri por ter esbarrado – e assinando em baixo – em mais um mito-tabu de nossa vã etnologia?

Como o pessoal da Mocidade, além de me xingar, protocolarmente, de nada mais se queixou, não duvido nem um pouco que, mais do que ter tido a petulância de dar uma nota menor que 10 àquelas duas baterias, naquele inesquecível desfile, a razão por trás de tão radical decisão, foi mesmo o fato de eu ter citado na súmula –fazer o que?- as tais ‘raízes históricas’ lusitanas da Mangueira.

… Ou, o que é pior (ou melhor, sei lá): Raízes luso-bahianas.

E que misteriosas e indiscretas origens seriam estas? Estão afim de saber o enredo deste samba? Então vamos lá:

_Simbora gente!

Lá em cima tem um tiru liru liru…

…mas, lá em baixo tem um tiru liru lá.

Na verdade, se a gente fosse mesmo levar este questionamento, como seria justo, ao pé da letra, deveríamos colocar pingos nos is também (e digo isto protegendo a cabeça das inevitáveis pedradas que virão) na própria existência de uma negritude transcendental na gênese das primeiras Escolas de Samba (as que chamei aqui de ‘matrizes’).

Falo de uma forte e legítima influência de uma inefável branquitude lusitana, tão, parodoxalmente, negada ou omitida por mitômanos de todas as castas e raças, em nome de um purismo pra lá de suspeito, que se utiliza de forma, como sempre, oportunista, aquela máxima que diz:

‘Em terra de cego, quem tem um olho é rei”.

Poderia até ser considerado da minha parte, um comportamento ‘traíra’, meio ‘pai joão’, assim como um requentado ‘elogio à mestiçagem’ (ao que, em se tratando deste seu criado, alguns mal avisados poderiam dizer: “Ora, ora…quem diria!”)

Afinal, os tempos são os das justas ações afirmativas e reivindicações por cotas de acesso para negros nas universidades – e na sociedade brasileira em geral – tempos de afirmação do conteúdo acentuadamente africano de nossa cultura, sacramentado até numa lei, a 10.639, que rege a obrigatoriedade do ensino da cultura negra em nossas escolas, etc. e tal, pois então?

(Viu, pessoal? Não é bem aquilo lá em cima não).

É que nada pode ser mais edificante – e pertinente – na afirmação da cultura de um povo, do que ele reconhecer e se orgulhar de suas origens, das matrizes que forjaram a sua personalidade ‘assim-assim’, aquela sua cara de povo original, bendito fruto, entre todos os outros frutos culturais deste nosso pequeno planeta, sejam lá quais forem estes frutos-matrizes. Deve ser esta a jurisprudência criada, o espírito intrínseco da tal bendita lei.

E é legítimo que assim seja, não é não? Aliás, nunca é demais lembrar, que sempre que nos referimos à cultura lusitana, o fazemos ressaltando a sua não menos indefectível herança árabe-muçulmana, de certo modo africana portanto, ou seja, existe também uma inefável e indelével, negritude lusitana, ora pois, pois. Alhos combinados com bugalhos, ora pá…(e que os mais doutos não me venha julgar um lusotropicalista freiriano)

Avancemos para além das aparências, por favor!

Em se tratando de Samba, portanto, para mim, matrizes são aquelas escolas surgidas na área da “Pequena África”, em período próximo aos anos 30; nascidas sob a influência das casas de macumba e candomblé de um lado e, de outro, pelo contato com a cultura da baixa classe média do Rio de Janeiro da época, cujas referências musicais principais eram, além dos grupos de Lapinha e Ranchos Carnavalescos citados, o Lundu, o chamado Tango brasileiro e o Maxixe.

Ou seja, o must para todo mundo – inclusive a negrada – durante o Carnaval, era o Rancho, filho dileto dos Pastoris, das festas de Reis ou Reisados, herdeiras legítimas das ‘Lapinhas’ trazidas pelos baianos que, por sua vez, as herdaram de nossos bigodudos ’patrícios’ de trás-os-montes’, ô pá!

Que se toquem então – os que ainda não se tocaram – que foi do Rancho Carnavalesco, esta pitoresca manifestação cultural, tipicamente, ibérica – ou européia – que as nossas Escolas de Samba herdaram quase tudo, inclusive, a própria estrutura organizacional dos desfiles e a maioria dos personagens, como é o caso evidente do Mestre Sala e da Porta Bandeira, do hoje extinto… (lembram-se do nome que pedi para guardar)…’’Coro de Pastoras’ (antes chamadas, lusitanamente, de ‘Saloias’), das alegorias de mão (os carros alegóricos vieram das ‘Grandes Sociedades’), etc. e tal…

…Além do indefectível e mouro pandeiro, é claro que, todo enfeitadinho de fitas, estava sempre a chacoalhar nas mãos de uma ‘saloia‘ ou de uma ‘Diana’ destas da vida, desde lá da santa terrinha, ora, pois, pois, pois.

Ah… e isto sem esquecer de revelar que as cores verde e rosa da Mangueira, não são, exatamente, como muitos pensam por aí, fruto de alguma misteriosa visão poético-filosófica de um inspirado sambista. Verde e Rosa eram as cores de um dos Ranchos Carnavalescos mais famosos da Mangueira, ali por volta de 1910: o “Príncipe da Floresta”, paixão adolescente de Carlos Cachaça, talvez de Cartola e de muitos dos integrantes do seminal ‘Bloco dos Arengueiros’, embrião da futura grande Escola de Samba.

Está certo, mas, e daí? O que é mesmo que a bahiana tem?

(Continua agora mesmo no Post #2)

Spírito Santo
Junho, 2008

(E assim, com este ‘postão’ dividido em dois, iremos fechando a tampa da eletrizante série “Crioulo Doido revisitado”)

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~ por Spirito Santo em 04/06/2008.

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