Rodando a bahiana post #02

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(Livremente extraído do livro ‘DO SAMBA A FUNK DO JORJÃO” deste autor)

Já leu o post #01?

…Então vamos que vamos!

Quer dizer que, a serem verdadeiras as alegações que fizemos no post #1, a tão propalada originalidade sambística mangueirense, a negritude seminal do povo do ‘Santo Antônio’, da ‘Chalé’ e do ‘Buraco quente’, cantada em verso e prosa, pelos quatro cantos, como a mais tradicional entre as tradicionais Escolas de Samba do planeta, pode não ser isto tudo que se vê e sim, muito pelo contrário, um pouco mais? Ou será como diz aquele Samba:

“…Sei lá, não sei…
Sei lá, não sei não.
A Mangueira é tão grande
que nem cabe explicação..”

Um gajo bate Bá! O outro gajo bate Bum!

A ‘levada’ Afro – Luso – Bahiana’ da Mangueira

Não fosse por tudo que já se disse, a forte ligação do Morro da Mangueira com a cultura portuguesa (além da bahiana), poderia ser, facilmente, explicável também por outro fator decisivo: As terras daqueles arrebaldes, vizinhas à Quinta Imperial, haviam sido cedidas pela Coroa portuguesa ao impoluto cidadão lusitano, Francisco de Paula Negreiros Saião Lobato, o Visconde de Niterói que, por sua vez as cedeu ao amigo, também lusitano, Tomás Martins que alugou para seus empregados (grande parte deles, a princípio, também portugueses) vários barracos no local. A existência de tantos portugueses no local era motivada, basicamente, pela existência, ao lado da Quinta, de um quartel do do exército Imperial, com uma grande cavalariça e muitos soldados.

Um pouco mais para cá, Nelson do Cavaquinho, ainda contava uma história engraçadíssima, de seu tempo de polícia montada, quando numa certa noite, fazendo a ronda em sua jurisdição, acabou se esquecendo da vida e, se enturmando numa roda de samba no alto da Mangueira, ficou tão bêbado que o cavalo se viu obrigado a voltar sozinho para o quartel, no sopé do Morro, sabe-se lá se o mesmo quartel dos tempos primordiais da Quinta Imperial.

O certo é que logo muitos outros portugueses se tornaram proprietários de vendas, olarias, novos barracos, inclusive casando ou se amasiando com negras e mulatas da localidade. A eles veio se juntar um pessoal mais pobre, vindo naquela leva de negros bahianos que, em seu extrato mais… digamos assim…remediado, representado pelo pessoal da Tia Ciata, ocupou a Praça Onze.

É com este pessoal bahiano que vem a festa da Lapinha, o Pastoril, evoluído aqui para o chamado Rancho carnavalesco.

Os exemplos desta simbiose luso-bahiana na Mangueira são inúmeros. Como se sabe, um dos mais importantes e respeitados sambistas dos primórdios daquela então pacata comunidade chamava-se… Alfredo Português que, segundo dizem, era o pai de Albino Pé Grande, esposo e grande amor de Clementina de Jesus.

Eu mesmo cheguei a conhecer, de relance, este mulato Albino, exímio passista, filho do insígne e mais bamba ainda lusitano – e nunca redundante – Alfredo Português.

Era uma tarde ensolarada de domingo. Enquanto nós, do Grupo Vissungo,  ensaiávamos, garimpando o baú profundo das memórias de Clementina, entrevado numa cama por um grave derrame, o homenzarrão não perdia um lance da conversa, revirando os olhos e sugerindo ou corrigindo detalhes, a boca torta emitindo animados grunhidos, que só a carinhosa Clementina compreendia.)

Ai jesus!

Mas, não é este Alfredo o mesmo que foi pai adotivo do grande Nelson Sargento? Sim. Claro! Além do que, tinha o também português Tomás Martins (o tal que arrendara as terras do morro do Telégrafo ao seu dono, o Visconde de Niterói) que, por sua vez, era padrinho de Carlos Cachaça como se sabe, uma figura seminal da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira. Tudo em família, como se vê.

A rápida adesão da população da Mangueira aos Autos de Lapinha que, após a criação do ‘Rei de Ouro’, agremiação do bahiano (na verdade pernambucano) Hilário Jovino, se transformaram nos inúmeros Ranchos carnavalescos que proliferaram na cidade, tinha, portanto, razões muito fortes para ocorrer.

Não trazendo, portanto grandes transformações estéticas para o animado carnaval de rua, que já se fazia desde o fim do século 19, A única inovação decisiva que as Escolas Samba ‘matrizes’ (Mangueira e Deixa Falar) empreenderam, pelo menos de forma perceptível, foi musical, caracterizada pela adoção, a certa altura, de uma radical alteração no acompanhamento, saindo da monotonia rítmica da Marcha Rancho, da Valsa ou do acento arrastado do Maxixe (as bandas dos Ranchos usavam vários gêneros musicais nos desfiles), para assumir como exclusiva, a cadência característica do Samba que, já mesclado a uns poucos elementos do Lundu, do Tango brasileiro e do Candomblé e todos os outros temperos já curtidos por anos e anos de herança africana na diáspora, assume de vez, a hegemonia rítmica característica, do que chamamos hoje de Escola de Samba.

Esta mudança rítmica paradigmática, não veio, contudo, absolutamente, dos lados da Bahia. Ela nos veio sim, na forma de uma nova onda cultural, irremediável e avassaladora, trazida pelo grande êxodo de milhares de negros angolanos e moçambicanos e seus descendentes, ex-escravos oriundos das decadentes fazendas e café do Vale do Rio Paraíba do Sul, onda esta que, no aspecto cultural, firmando-se como a melhor opção de amálgama musical no âmbito da ainda por demais diversificada cultura negra da cidade do Rio de Janeiro, se cristaliza enfim naquilo que se passou a chamar de Samba de fato.

Era a chegada da batida perfeita (no caso). A batida do Ka-Lundu e do Jongo da Roça, o toque mágico e feiticeiro, do Caxambu.

Mas isto já é outra história.

Meses depois do Carnaval, naquele mesmo ano de 1997, num seminário sobre escolas de Samba na Uerj, convidado a integrar uma mesa sobre o tema Baterias (com os saudosos José Carlos Rego e Mestre Louro, da bateria do Salgueiro), além do Wilson das Neves, fui, levemente, hostilizado pela platéia, em sua maioria gente do Morro da Mangueira, que fica ali, bem ao lado do campus.

Na saída, Acyr Explosão, justamente, o mestre de bateria da Mangueira a quem eu ‘agraciara’ com aquele 9,5 fatídico, insistiu em me acompanhar até a saída, para me confidenciar o seguinte:

_“ Concordo com o que você disse em gênero, número e grau, mas, se você disser que eu disse, vou negar até a morte.”

Acy, realmente, morreu, assassinado no morro, pouco tempo depois. É como diria o mangueirense Geraldo Pereira, naquele samba clássico:

…” A polícia procura o matador
mas em Mangueira, não existe delator”.

O que haveriam de ter estas cachopas da Bahia?

Enfim, tudo que o tabuleiro da bahiana* tem.

Tudo bem. Falamos poucas e boas da Bahia e dos portugueses, mas afinal, onde é que entra a tal bahiana do título nesta história? Sim, porque, pelo menos isto gostaríamos de confirmar: Nada mais característico numa Escola de Samba do que sua Ala das bahianas, certo?

Não. Sinto muitíssimo, mas, nem este mérito a nossa brasilidade carnavalesca vai poder continuar a reivindicar As tais bahianas não são aqui mais do que um etecétera e tal.

É que o conceito ‘Ala das bahianas’, quando observado mais meticulosamente, na sua mais pura origem (que é muito mais remota do que se poderia imaginar) não tem, rigorosamente, nada a ver com Escola de Samba. Nem mesmo com o Rancho, muito menos ainda com Carnaval e, logicamente, nada – ou quase nada, vá lá – (pelo menos diretamente) com Brasil.

Existem relatos sobre uma longa tradição africana, de mulheres proeminentes de algumas daquelas  sociedades, usarem badulaques, patuás, panos e turbantes, como símbolo de status social.

Pura africanidade portanto neste look das bahianas, este aspecto assaz fashion de seu figurino.

Aliás, não repararam não? Este figurino (ou básico dele) ao que me perece, era formado mesmo, em boa parte por, nada mais nada menos, que as roupas de baixo, as anáguas, os corpetes e aquelas outras quase lingeries que as brancas senhoras da época, dispensavam, não queriam mais. Customização, minha gente. No tabuleiro da bahiana havia este tipo de astúcia também.

O certo é que, tirando a astúcia, como bem se vê, já neste aspecto, se tem uma coisa que bahiana, definitivamente, não tem é brasilidade.

Surpresos? Pois vejamos então o buraco um pouco mais embaixo ainda:

Numa descrição surpreendente e assaz meticulosa, bem ao estilo do grande cronista de costumes que foi, Manoel Antônio de Almeida (no clássico ‘Memórias de um sargento de milícias’) nos dá conta de um dado, a respeito das Alas de Bahianas, do qual só os mais argutos especialistas em Samba devem ter tido conhecimento.

Atente o leitor para a delícia dos detalhes:

“ …A que primava entre todas era a chamada procissão dos ourives (…) achavam todos meios de vê-la. Alguns haviam tão devotos que não se contentavam vê-la só uma vez; andavam da casa deste para a casa daquele, desta rua para aquela, até conseguir vê-la desfilar de princípio ao fim duas, quatro e seis vezes, sem o que não se davam por satisfeitos. A causa principal de tudo isto era, supomos nós, além talvez de outras, o levar esta procissão uma coisa que não tinha nenhuma das outras: (…)

Queremos falar de um grande rancho chamado – Das Bahianas – que caminhava adiante da procissão, atraindo mais ou tanto quanto como os santos, os andores, os emblemas sagrados, os olhares dos devotos; era formado este rancho por um grande número de negras vestidas á moda da província da Bahia, donde lhe vinha o nome, e que dançavam nos intervalos dos Deo-gratias uma dança lá a seu capricho.

Para falarmos a verdade, a coisa era curiosa: se não a empregassem como primeira parte de uma procissão religiosa, certamente seria mais desculpável. Todos conhecem os modos porque se vestem as negras da Bahia; é um dos modos de trajar mais bonitos que temos visto (….) Um país em que todas as mulheres usassem deste traje (…) seria uma terra de perdição e de pecados. Procuremos descrevê-lo:

As chamadas bahianas não usavam de vestido. Traziam somente umas poucas saias presas á cintura, e que chegavam pouco abaixo do meio da perna, todas elas ornadas de magníficas rendas; da cintura para cima apenas traziam uma finíssima camisa, cujas golas e mangas eram também ornadas de rendas; ao pescoço punham um cordão de ouro ou um colar de corais, os mais pobres eram de miçangas; ornavam a cabeça com uma espécie de turbante a que davam o nome de trunfas, formado por um grande lenço branco muito teso e engomado; calçavam umas chinelinhas de salto alto, e tão pequenas, que apenas continham os dedos dos pés, ficando de fora todo o calcanhar; e além de tudo isto envolviam-se graciosamente em uma capa de pano preto, deixando de fora os braços ornados de argolas de metal simulando pulseiras”’.

Delícia de relato, não é mesmo? Mais ainda por atiçar as pulgas atrás de nossas orelhas:

Segundo se pode concluir pela descrição de Almeida, essas Alas de Bahianas já estariam ativas como destacadíssimas componentes de procissões católicas, desde o tempo de D. João VI, ali por volta da década de 1820 (Almeida narra fatos, supostamente, ocorridos em sua juventude). Escravas de fato e não sendo, como se pode supor, exatamente, pessoas abastadas (pelo menos tanto quanto muitas aparentavam ser, com seus inúmeros balagandans de ouro e prata), seriam estas formidáveis bahianas, mostruários ambulantes, camelôs pré-modernos, inventados nos desvãos de uma sociedade escravocrata? É o que me ocorreu, fortemente.

Como explicar esta tão íntima relação entre negras escravas bahianas e os ourives da Corte, tradicionalíssima categoria profissional – na verdade  uma seita medieval – de grande prestígio social no Reino de Portugal, desde os primórdios do Império Lusitano?

Triste fado, tristes trópicos

A nos salvar as tantas e incontidas alegrias

E o mais curioso de tudo é o quanto esta conversa me lembrou a Carmem Miranda. Sacaram a relação? Não? Pois vejam só:

Carmem não foi uma mulher branca, portuguesa, travestida de bahiana, dançando como uma rumbeira, cheia de badulaques? Não foi ela quem ficou rica na América, vendendo uma imagem de Brasil que não tinha quase nada a ver com o Brasil?

Pois bem, podemos hoje reconhecer também que ela, a nossa americanizada ‘Brazilian bomb shell’ , no final das contas tinha mesmo, quase tudo aquilo que, agora bem sabemos – toda bahiana tem.

E fim de papo

Um abraço

E o crioulo doido, enfim recuperado, redimido e em paz com seus botões, dorme, mesmo azucrinado, pelo barulho destes baticuns.

Brasil profundo, over mundo de inusitados significados soterrados. Pobres dos homens de boa vontade – e dos jurados – nesta terra onde se calam os mensageiros de notícias inconvenientes, mesmo quando elas não passam de prosaicos relatos sobre as origens de um certo jeito nosso de cantar e de dançar.

…É o que sempre dizem por aí. No fim das contas, no Brasil, tudo acaba mesmo em Samba.

Spírito Santo

Junho, 2008

*Nota impertinente: Notaram como grafo ‘bahiana’ e ‘bahiano’, teimosamente com ‘h’? É que penso que se Bahia é com agá, porque diabos a bahiana  ou o bahiano tem que ser sem? Tiraram o agá do nativo numa reforma ortográfica destas aí, mas deixaram o ‘h’ na ‘nação’. Qual é a lógica desta norma inculta aí?

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~ por Spirito Santo em 04/06/2008.

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