Pinguilim


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Foto: Spirito Santo

Sou
Pinguilim
Pirlimpimpim
de anseios e fissuras
Indeléveis purpurinas puras
piscinas azuis
onde boiam pirilâmpadas
estrelinhas cintilando no quengo
como bicadas de rouxinol

(Mas, como assim?
Do nada?
Pensei que no quengo
estrelinhas só cintilassem
na base da porrada)

————-

Pinguilim

Blim blim de sininho
sem fadinha alguma na pista
Pisca pisca de funkão distante
gambiarrazinha
de árvore de natal
sem natal algum à vista
só tontura colorida de cheiros
na calma das risadinhas
roucas, fracas

como motorzinho à pilha
fracassando
fracassan…
fracas…

(Barulho de latas na cabeça
Chiado de fungadas tristes)

————

Pinguilim
mesmo de dia vê
faróis e rouxinóis
Letrinhas da cama de folha de jornal
tremeluzindo a vista
confundindo o estômago
e a vitamina mista

Vivo ou sonho?

Sono ou fome?
Frio ou calor?

Este bafão no meu cangote
é bicho, homem
ou lobisomem?

(Em noite de Pinguilim
todos os bafos
são baços desejos

de velhos gatos
ratos safados)

Ta ligado?
Atividade!

(Se ficar o bicho come
Se ralar o bicho some).

Tá ligado?

Por isto fui, Tia.
Mesmo no oco da noite
Sem ai nem ui
Pinguilim cambaleante
chupando o dedo
Fui!

Spírito Santo
Julho 2008

O Rato Construtivista


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Havia na Escola Modelo uma cerca metálica, nova em folha como tudo naquela construção moderna e acolhedora.

Fora da cerca, ao lado da Escola, havia um terreno baldio. Ali, todo o bairro lançava o seu lixo, num mal ajambrado monturo de tudo quanto é coisa que sobra ou apodrece ou que acondiciona coisas que as pessoas usam antes de apodrecer. Lixo humano, insano em suma.

Em torno do terreno baldio, a miserável vida do bairro: Aqui, os enferrujados brinquedos de um mafuá fazendo às vezes de parquinho de diversões. Ali, a birosca imunda vendendo cachaça falsa e bugingangas sem nenhum valor. Atrás de paredes pichadas, o quartel-general dos traficantes de drogas, os ‘novos ricos’ do lugar.

Acolá a panorâmica imagem marcada pelo alaranjado sujo dos tijolos, de um aglomerado disforme de velhas construções inacabadas.

Afora as pessoas desvalidas, a fauna local era bem modesta: Ratos, vira-latas e urubus. Alguns pássaros talvez, nada muito além, contudo, do que esfaimados e cinzentos pardais.

A Escola Modelo era por isto mesmo, o território livre, incólume, onde se construiria com e para as crianças, o conhecimento de toda a realidade externa e as formas definitivas de transformá-la em algo, pelo menos, um pouco melhor.

‘_Olha o Construtivismo aí, gente!‘_ Diriam os orgulhosos idealizadores de tão humanista, quiçá socialista proposta educacional.

O lírio floresceria no lodo. Esta era a idéia básica da coisa, o programa do sonho.

Como todo organismo vivo porém, a Escola também produzia dejetos. Os funcionários, zelosos, velhos habitantes daquela mal construída comunidade externa, por hábitos culturais já enraizados, acharam por bem lançar o lixo daquela imaculada Escola, no terreno baldio ao lado. Não seriam os excrementos, tudo aquilo que não nos servindo mais, tem que ser expelido para fora de nós mesmos, a qualquer custo?

Fosse ou não fosse, não possuíam nenhuma solução melhor à vista. A prefeitura local já demonstrara, em repetidas gestões temerárias, ser completamente incapaz de recolher os detritos do bairro.

Afinal, sendo já os próprios bairros dejetos dos bairros ricos da grande cidade, como seria possível recolher tudo? Casas-dejetos, Pessoas-dejetos, tudo lançado no terreno baldio ao lado, no monturo infecto do lixão-Brasil, metáfora literalmente impressa naquela paisagem de magricelas e carecas árvores empoeiradas.

Foi quando num destes dias apareceu um rato. Nos outros dias também.

Como quem não quer nada, a família do rato começou a habitar ali, ao lado da cerca metálica, a fronteira entre o ideal renovador da Escola e o caos do monturo de lixo lançado pela mesma Escola.

Arisco, o rato observava a movimentação das crianças no pátio, a severidade dos professores e funcionários nas rampas, o cansaço das cozinheiras no refeitório. O olfato agudo lhe ensinava a hora do almoço, do lanche e do jantar. Definia assim a carga horária de sua espera pelo lançamento dos dejetos, entre os quais os noturnos eram os mais ansiados, por causa da tranqüilidade enorme que poderia desfrutar na hora de digeri-los. Paz de rato saciado, sem o estresse absoluto do dia, breve justiça a eles, feita pela natureza, enfim.

Foi assim, animado pelos bons augúrios de sua estada por ali que, na noite seguinte, com os olhinhos arregalados de emoção e pavor, ele cavou sob a grade da Escola a passagem vestibular magnífica.

Paralisado por instantes, mirou sorrindo a dimensão enorme de sua ousadia:

Havia ingressado numa Escola Modelo!

Esgueirando-se instantâneo pelos cantos do interior da cerca, viu a grandeza olímpica das rampas, o acinzentado uniforme dos pilares, apontando lá em cima lajes acachapantes, vigas monstruosas e luzes ofuscantes. Na coragem de encarar tudo aquilo residia a possibilidade de ser bem sucedido no acesso e na fuga, sempre que quisesse, invasor soberano daquela arquitetura gigantesca.

Tarde da noite, o burburinho da saída dos jovens do supletivo o fez correr para um buraco qualquer, espavorido. Fugiu, no entanto, guerrilheiramente, construindo no seu mísero cerebrozinho de rato suburbano, uma estratégia brilhante para uma nova investida na noite seguinte, quem sabe?

Localizada a fonte dos detritos – a cozinha- transferiu para as proximidades dali o seu principal tunelzinho de solerte invasor. Nas noites seguintes e nas muitas investidas posteriores, foi amadurecendo o sonho de residir dentro da Escola Modelo. Porque não?

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Foi já como Rato-Residente que começou a explorar o universo complexo da Nova Escola. Aluno brilhante, aprendia rapidamente, cada vez aprofundando mais as suas múltiplas habilidades para trafegar pelos meandros do prédio e de seus bem arquitetados anexos.

Aprendeu, por exemplo, que a Escola funcionava em horário integral. Tentava-se ali ocupar todas as pessoas na transformação do pensamento coletivo, para dali, o bairro, a cidade, o estado, ou quem sabe, até mesmo o país, fossem um dia reciclados, exatamente, como uma Ong do local, todo ano, prometia fazer com o lixo explícito e geral que cercava a Escola.

Enquanto isto sua família crescia. Eram já várias as gerações e ramificações de parentes. Entre Ratos-bebês e Ratos-avôs enfileiravam-se Ratos-primos, Ratos-comprades, Ratos-tios e até mesmo Ratazanas-madrinhas e Ratas-vizinhas, algumas até bem jovens, que iam se encostando assim e assim, num ou noutro Rato da família, mais cordato, espertamente interessadas em também subir na vida, galgando pelo acasalamento importantes degraus da escala social da rataria.

Um ramo da família se especializou em roer livros. Outro consumia, vorazmente, plástico e polímeros e geral. Um dos clãs devorava, profissionalmente, toalhas, panos de chão e camisetas suadas, nesta ordem de prioridade. Todos ocupavam acolhedores espaços subterrâneos sob os pilares, cujas sapatas serviam de pontos de referência geográfica ou de sinais de trânsito, dando sentido àquela intrincada rede de túneis minúsculos que crescia anarquicamente como um sub-complexo de sub-favelas.

_Viva a Sociedade alternativa! _ diriam os ratos jovens mais românticos.

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Foi quando a movimentação, natural e prevista das turmas nos entre-turnos, foi substituída pelo pânico das turmas. As professoras corriam apavoradas, nos momentos mais inusitados, para a quadra, para o pátio e, até mesmo para a rua, gritando, histericamente por socorro, chegando mesmo a assustar os ratos menos intrépidos.

Zero. Desafogos e desabafos sem resultado algum. O que não tem remédio, desenganado está.

Eficientíssimos em seu próprio projeto político pedagógico, eles, os ratos, roíam, decididamente, um programa educacional, penosamente construído. Especializando-se naquela rápida fabricação da desordem, iam evoluindo, mais e mais, à medida em que os conteúdos assimilados e os conhecimentos adquiridos iam lhes dando detalhes mais aprofundados e detalhados sobre os pendores e os humores daquela Escola Modelo.

À noite, o burburinho dos adolescentes passou a ser substituído pelos chiados e os pios de ratos envolvidos em brigas de trânsito, confusões domésticas e guerras violentas por território e comida. Era o caos sub-urbano na acepção mais asquerosa da palavra.

O Vigia da Escola, aquele que na qualidade de Funcionário-residente, cuidava das crianças órfãs do bairro, arranjou três gatos. Os felinos salvadores, no entanto, de tanto saborearem os mais tenros ratinhos, logo viraram um trio de obesos gatos de história em quadrinhos, perdendo totalmente a capacidade para exercer, dignamente, as suas funções de raticidas exterminadores.

Pois era mesmo inútil o intento. Nem mesmo uma milícia inteira de gatos pretos treinados como bopes-peêmes, seria capaz de empreender com sucesso qualquer tipo de Solução Final.

Lúdicos por dever de ofício, os Arte-Educadores da Escola Modelo planejaram atividades de teatro-do-oprimido nas quais era sempre ele, o Rato, o vilão horrendo, personagem central do drama, aquele que travestido de professor de escola tradicional, político clientelista, acadêmico teórico em educação, ou qualquer outro inimigo assumido da Nova Escola, seria declarado, em tese, expulso da sociedade, desmascarado por algum tipo de praga ideológica ou condenação simbólica á morte sem perdão.

Lúcidos por natureza, os jovens das turmas noturnas, do Supletivo, organizaram um eficiente grupo de extermínio (de ratos, é claro). Auto-denominaram-se ‘Gatos Corredores”, orgulhosa tropa de assassinos que expunha, como troféu de cada noite de caçada, longas fieiras de corpos de ratos estraçalhados.

Estúpidas chacinas. Mortandade mais que vã.

Tarde demais. O que esperar do exemplar epílogo das fábulas, numa sociedade inteiramente sem moral?

Primeiro, já abandonada pelas bibliotecárias e parcos leitores, ruiu, fragorosamente, a biblioteca.

Num triste dia chuvoso, num grande estrondo igual ao de um terremoto, o paralelogramo que constituía o prédio principal da Escola Modelo, tombou para um lado, lançando um pesado tufo de poeira para o alto.

Pufff!

O bairro inteiro acorreu aos portões, temeroso por vítimas. A enlamaçada rua em frente ficou coalhada de guardas chuvas rotos, os guarda-chuvas pretos, masculinos, denunciando aqui e ali, a presença de pais desempregados.

Nenhum morto ou ferido humano à lamentar. Tombado alguns centímetros para a direita, o prédio da Escola Modelo caíra sobre a malha de túneis abertos pelos Ratos-residentes que imóveis e silenciosos, deviam estar em êxtase, suando de prazer.

Assim ficou o prédio ali, deserto e caído como um Titanic de quinta categoria, evacuado dos passageiros da sua única e terceira classe, naufragado sob um temporal que lavou durante dias, para o riozinho imundo que ladeava o campinho de futebol, toda a poeira e os dejetos do bairro.

Como um iceberg medíocre e infame, o monturo de dejetos naquele que é um futuro terreno baldio, por certo, de novo se formará.

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Naquela noite, na assembléia dos Ratos-Residentes (que contou com milhares de entusiasmados presentes) o Rato-Precursor – O patriarca da raça- foi proclamado o presidente da primeira Ong de bichos do país: a SIRCB, Sociedade Independente dos Ratos Construtivistas do Brasil.

…ou Destrutivistas, porque não?
(Escrito em 1993 e publicado, originalmente, em 2008 em www.overmundo.com.br)

Spírito Santo
Setembro 1993

Crioulo doido revisitado – ‘Palinhas’ do livro do Titio


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crioulo-doido-mocambique_timbila_8
Timbila (Rito de passagem- puberdade) Moçambique

Enredo #01

(As partes entre aspas e em itálico deste post são enxertos do livro do Titio “Do Samba ao Funk do Jorjão“)

“O ‘Samba do Crioulo doido’, único samba feito aqui pelo neto do Dr. Armindo, colocou Stanislaw nas paradas de sucesso. O Samba conta a história de um crioulo que ficou doido de tanto fazer samba-enredo para a sua escola contando episódios da História do Brasil. O crioulo já estava misturando estação, quando pediram que ele fizesse mais um samba, desta vez usando a atual conjuntura. Aí o crioulo endoidou de vez.

Endoidou e fez um samba que é um amontoado de incongruências sobre episódios históricos. A única verdade está no primeiro verso que diz: ‘Foi em Diamantina, onde nasceu JK”…

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“Sergio Porto, o sarcástico jornalista e cronista autocodenominado de Stanislaw Ponte Preta, crítico mordaz de nossos costumes políticos e institucionais mais controvertidos é quem vos fala acima, ali por volta de 1969 em seu livro ‘Na terra do Crioulo doido’.

Stanislaw criou o clássico ‘Samba do Crioulo doido’ (citado na nota), com a intenção bem medida de, em plena ditadura militar, ironizar nossa incúria intelectual, também de forma inpagável resenhada na série-sigla humorística ‘ FEBEAPÁ’ (FEstival de BEsteiras que Assola o PAís’).

Nas entrelinhas de seu ‘samba-enredo’ pode-se, contudo, enxergar outras nuances e conceitos, também muito populares no Brasil, entre as quais, a controversa – e talvez subliminar – associação entre gente negra e ignorância, criada a partir daí, por certos setores da elite intelectual brasileira, atitude a qual Ponte Preta, um arguto crítico da estupidez flagrante de nossos costumes sociais, certamente, repudiaria…”

Não houve jeito. O mito muito popular, a despeito de ser preconceituoso a mais não poder, surgiu e vicejou como mais um epíteto racista, passando a classificar como ‘samba-do-crioulo-doido’ tudo aquilo que é mal resolvido, confuso, sem pé nem cabeça.

Encurtando então esta conversa, usada apenas como introdução, a questão que este post pretende colocar na roda é se a culpa desta nossa incúria intelectual pode mesmo ser atribuída, ainda que simbolicamente, ao nosso múltiplo e valoroso criouléu.

Ou, simplesmente, não haveria incúria intelectual alguma, não passando tudo de fruto de uma mania de perseguição de uma teoria da conspiração destas,que acomete, vez por outra, o nosso estressado criouléu, passageiro compulsório deste bonde de neuroses que é o Brasil do século 21?”

Eu, modestamente, diria que não. Muito pelo contrário, aliás. E você?

Senão, vejamos:

Kizomba ou Que Zona?

Mitos e mistificações na cultura negra do Brasil

“Penso que a chamada cultura negra do Brasil tem sido estudada, com raríssimas exceções, a partir de premissas, estranhamente, equivocadas. O maior de todos estes curiosos equívocos, seguramente, é a subestimação com que certos círculos acadêmicos mais conservadores (entre outros círculos intelectuais, progressistas até), tratam a questão das origens, dos fundamentos históricos, sociais, antropológicos enfim, da cultura daquele enorme contingente de nossa população descendente de escravos africanos.

Há nestes estudos uma inexplicável e incômoda impropriedade, uma superficialidade tão evidente, uma omissão tão flagrante dos preceitos mais comezinhos da objetividade científica (aqueles que consubstanciam o conceito Ciências Sociais) que nos sentimos motivados a propor aqui, mais uma vez, a sua discussão.

As razões para este evidente ‘descaso acadêmico’ – ou intelectual – são mais ou menos óbvias, sendo atribuídas, geralmente ao que uns, com certo eufemismo e sutileza, costumam chamar de Eurocentrismo (Etnocentrismo para os íntimos) e outros, mais incisivos, insistem em chamar simplesmente, de Racismo. Causa e efeito um do outro, sabe-se lá, entre os dois conceitos, o que é o que (ou quem é quem).

De um modo ou de outro, o fato é que num primeiro momento, este provável ‘descaso acadêmico’ se funda em linhas de pesquisa e estudo, insistentemente, determinadas, embora sejam, sabidamente, linhas já superadas, desde o momento em que os embrionários processos de descolonização da África, iniciados com a aceleração da gradual abolição da escravidão colonial no fim do século 19 (para ficarmos num exemplo que nos diz respeito, diretamente) se instalavam, afim de dar lugar – e passar a justificar – ao que se convencionou chamar, um pouco mais tarde, de neo-colonialismo.

Definindo assim, a grosso modo, qual teria sido o paradigma ideológico que justificava, moralmente, a escravidão? A declaração oficial da organização religiosa (ideológica) hegemônica – o Catolicismo, no caso – de que o negro africano seria desprovido de alma, não estando por conta disto subordinado às leis de Deus ou às regras morais da humanidade.

Bestas, apenas semelhantes à seres humanos – como o são os chimpanzés e os orogotangos – perfeitamente afeitas ao trabalho compulsório, portanto.

Com o neo-colonialismo, o paradigma se alteraria ligeiramente: Embora reconhecido já como portador de uma ‘essência’, uma ‘alma’, promovido que havia sido à condição de membro da espécie humana, o negro africano passaria, contudo, a ser considerado ainda assim, resultado da rasa evolução de civilizações ainda muito ‘primitivas’, propiciadoras de ‘culturas atrasadas’, em estágio evolutivo muito inferior ao das demais civilizações (à frente as européias, é claro), definidas, racialisticamente, como ‘caucasianas’ e superiores, por um determinismo científico muito característico da época (início do século 20).

‘Silvícolas’, ‘indígenas’, ‘bons selvagens’, semelhantes aos demais seres humanos sim, porém, apenas fisiologicamente, já que, mental e intelectualmente seriam inferiores e, por isto mesmo, perfeitamente afeitos ao trabalho compulsório, portanto (ou, no mínimo, sub-remunerado).

Às metrópoles ocidentais neste caso, num gigantesco, desinteressado e ‘meritório’ esforço, caberia a missão de ‘colonizar’ (ocupando, é claro) o território e os ‘espíritos’ daqueles a quem a igreja católica antes chamara de ímpios, alçados agora à categoria de ‘gente inculta’, ‘ingênua’, ‘povos tradicionais’, carentes enfim do verniz brilhante da ‘civilização’

(Curioso se constatar que o que chamamos hoje de antropologia – ou etnologia, mais precisamente – nasceu deste espírito de ‘missão civilizatória’, praticado, a princípio por religiosos e depois por briosos funcionários de agências ‘do Ultramar’, enviados para as colônias em missões ‘científicas’).

Com efeito – e reflexo, é claro – dos modelos de promoção e estratificação social adotados entre nós até hoje, estes processos de desqualificação da cultura africana atingiram no Brasil – muito mais do que nas demais metrópoles coloniais – níveis de quase paroxismo.

A partir de procedimentos metodológicos, expontaneamente, criados talvez (um ‘modus operandis’ social) passou-se a fazer com que, em todas as áreas de estudo nas quais a cultura fosse o elemento catalizador (história, etnologia, antropologia, etnomusicologia, etc) a subestimação de determinados valores desta herança cultural, se transformasse em premissa, criando um arcabouço teórico consistente, porém falso, uma espécie de antítese ou versão ‘chapa branca’, oficial, da cultura negra do Brasil.

Peças bibliográficas contendo esta retórica acadêmica especializada, dedicadas, às vezes militantemente, à desconstrução dos elementos estruturais mais complexos desta cultura ancestral, foram sendo montadas, construindo em seu lugar, um complexo sistema de mitos e mistificações que tem servido, até hoje, para tentar ‘provar’ uma relativa inferioridade cultural da parcela de nossa população chamada hoje – com certa ironia até – de ‘afro-descendente’.

Como se fosse possível a esta vertente da cultura negra do Brasil, se desvincular de sua intrínseca ligação com o seu remoto passado, florescendo do nada ou nascendo – como se diz de filhos de pai ou mãe desconhecidos – de um reles ‘pé de repolho’.

Desqualificando-se a si mesma, isto sim, neste processo patológico de negação do outro, a produção intelectual brasileira neste campo, foi se tornando muito defasada em relação ao que já realizou a produção acadêmica das demais ex-metrópoles coloniais (Inglaterra, França, Portugal, Alemanha, Espanha, etc.). Para se constatar isto, basta tentar achar referências bibliográficas aprofundadas – e confiáveis – sobre cultura negra brasileira, produzidas recentemente aqui no país, numa simples busca na Internet.

Rarefeita será a seara encontrada já que, a maior parte do material, seguramente, dirá respeito ao Candomblé (com uma grande contribuição francesa, representada pelas pesquisas de Roger Bastide, por exemplo) e temas correlatos, variantes sobre o mesmo assunto recorrente: A chamada cultura dos yorubas e Jêjes (Ewe do antigo Dahomey, hoje Benin), descrita ou idealizada, numa série enfadonha de releituras e revisões dos textos clássicos mais famosos, a maioria escrita nas longínquas décadas de 1930, 1940 e 1950.

É a esta tendência, este círculo vicioso da antropologia sobre o negro no Brasil que denominamos ‘Reducionismo Nagô’.

O assunto, como se pode observar facilmente, é vasto e controverso. Havendo interesse expresso dos leitores, pretendo mesmo fazer uma série de posts-debates a partir deste que é apenas, o mito ‘aperitivo’, como se diz.

Vamos então tocar aqui, apenas de leve, na questão – que, como já disse em outra ocasião já foi objeto de um livro deste mesmo autor – iniciando pela exposição do que nos parece ser o mito-gênese de todo esta montanha de mistificações e equívocos, que – falando sério – não podem ser atribuídos, de modo algum, a todo este imenso coletivo de crioulos que, como eu, apesar de quase sempre serem doidos (com toda razão), até que não são tão ignorantes assim.”

Com vocês então, como uma espécie de releitura de mim mesmo:

‘Reducionismo Nagô’

Nina Rodrigues e o seu ‘pézinho na cozinha’

Retornemos ao final do século 19. A escravidão acabou, em termos históricos, há pouquíssimos anos. Nosso maior estudioso do assunto, o mais proeminente intelectual, chama-se Nina Rodrigues, um médico especializado numa ciência muito recente ainda, por esta época: A Medicina Legal. Nina Rodrigues reside então na França, para onde se transferiu, a fim de aperfeiçoar seus estudos.

Frisemos que Nina era um fervoroso seguidor das idéias de Cesare Lombroso, uma figura que é sempre bom descrever em detalhes, porque está no cerne do pensamento antropológico até hoje em voga no Brasil, por conta, exatamente, da enorme influência que exerceu em nossos antropólogos e etnólogos precursores.

…”Cesare Lombroso foi um professor e criminologista italiano, nascido a 6 de novembro de 1835, em Verona. Tornou-se mundialmente famoso por seus estudos no campo da caracterologia, ou a relação entre características físicas e mentais”…

…”A principal idéia de Lombroso foi parcialmente inspirada pelos estudos genéticos e evolutivos no final do século XIX, e propõe que certos criminosos têm evidências físicas de um “atavismo” (reaparição de caracteristicas que foram apresentadas somente em ascendentes distantes) de tipo hereditário, reminiscente de estágios mais primitivos da evolução humana. Estas anomalias, denominadas de estigmas por Lombroso, poderiam ser expressadas em termos de formas anormais ou dimensões do crânio e mandíbula, assimetrias na face, etc, mas também de outras partes do corpo.

Posteriormente, estas associações foram consideradas altamente inconsistentes ou completamente inexistentes, e as teorias baseadas na causa ambiental da criminalidade se tornaram dominantes.

Apesar da natureza inconsistente destas teorias, Lombroso foi muito influente na Europa (e também no Brasil) entre criminologistas e juristas…”

Contextualizemos juntos então:

Lombroso – um gênio em seu tempo – utilizou como um dos principais elementos de seus estudos antropológicos-forenses, a natureza das precárias condições sanitárias e de higiene de comunidades camponesas italianas, bem como as especiais características dos seus modos de ser e de viver. Saúde (doenças mentais, entre elas o ocultismo, o espiritismo e a possessão ‘demoníaca’, etc) e Cultura; Criminalidade e Cultura; estes foram conceitos embrionários, imiscuídos num mesmo campo de estudo, relacionado à nascente Antropologia de então.

Por analogia com a obra do mestre, onde então teria ido Nina Rodrigues, brasileiro e bahiano, desenvolver suas pesquisa de campo? No seio da população negra da Bahia, classe subalterna do Brasil de então, portadora de uma curiosa e, a esta altura, ainda exótica cultura, praticada, inclusive, por muitos ex-escravos, nascidos na África.

Podemos combinar então que a ‘moderna’ antropologia sobre o negro brasileiro, se inicia portanto, inteiramente contaminada por estas novíssimas e controversas idéias de Medicina legal e Antropologia Forense.

A partir daqui atentem, por favor, para as significativas analogias que foram propostas entre certas características biotípicas de indivíduos negróides e a criminalidade – uma adequação ‘tropicalista’ das experiências de Lombroso com camponeses italianos, como se pode deduzir – ‘atestando’ em meticulosas tabelas antropomórficas, uma suposta tendência dos negros para a prática de delitos psicosociais (linha que aparece, claramente, nos estudos de Nina Rodrigues).

Providencialmente, é na mesma época, inclusive – não podemos nos esquecer – que Arthur de Gobineau publica “Desigualdade das raças Humanas”, livro no qual a existência de uma suposta raça “ariana”, superior a todas as outras (com apenas algumas “impurezas” produzidas pela miscigenação com raças inferiores) passa a ser, veementemente, defendida.

Tão eletrizantes para os intelectuais e acadêmicos da Europa da época quanto as lúgrubes idéias de Lombroso, o pensamento de Gobineau influencia, poderosamente, o pensamento de Nina Rodrigues (e vários de seus seguidores no Brasil, como Arthur Ramos, por exemplo.

A antropologia rudimentar de Lombroso e Gobineau, lançando as bases e fundamentos ‘científicos’ do racismo moderno tem, portanto, tudo a ver, com o raciocínio desenvolvido por Nina Rodrigues (que, segundo más línguas, teria um ´pezinho na cozinha’). Pelo menos é este o ideário expresso em seu único e derradeiro livro ‘Os Africanos no Brasil’ de 1906 que, nestes termos, visto por este ângulo, lança portanto as bases ideológicas do racismo à brasileira que, se definindo ali por volta da década de 1940, não sofre reavaliações importantes até hoje.

Você leu algo sobre isto no Brasil? Quase nada? Pois é. Tal é a lógica insana desta nossa sociedade de insuspeitados subterfúgios.

Em linhas gerais e bem elementares (o tema é muito rico e quem quiser pode aprofundar o quanto puder) a linha de pensamento, ou ideologia sugerida pelo pensamento de Nina Rodrigues – a qual estamos, efetivamente, apontando como a base principal para a maioria dos ‘desvios de rota’ ocorridos com a antropologia do negro brasileiro – foi a seguinte:

1- A população escrava oriunda da África do Norte (ou seja, gente vinda do Golfo do Benin e da Nigéria, basicamente) predominante no perímetro urbano da cidade de Salvador, Bahia, cultora do Candomblé (uma mitologia, segundo se diz, “tão bem” estruturada quanto a grega), por ser, supostamente, de ascendência próxima aos Camitas, ligeiramente aparentada com os ‘brancos’, portanto (traços fisionômicos um pouco similares aos de indivíduos caucasianos – nariz afilado, etc.), seria um extrato populacional semi-civilizado – no caso dos malês (islamizados), gente inclusive ‘letrada’-, apta, de modo geral, a serviços domésticos e afeita à educação e a assimilação social, podendo, em certa medida, viver no convívio em associação com os brancos.

2- A população escrava restante –esmagadora maioria -, originária da costa ocidental da África, basicamente o antigo Reino do Congo, que corresponde, mais ou menos, á atual república popular de Angola e adjacências (além, é claro, de Moçambique, na costa oriental da África) de ascendência predominantemente bantu, seria a parte mais baixa da pirâmide social brasileira, a raça inferior portanto, talhada para ser mantida em condições similares a que era mantida durante a escravidão (recentemente abolida à época de Nina). Os traços originais da ascendência africana desta parte da população negra, considerados rudimentares, teriam se diluído no contato com a cultura portuguesa ou com a propalada ‘pujança’ e superioridade da cultura nagô.

Podemos concluir, portanto, que os argumentos que, naquela época e neste contexto, justificaram o pensamento de Nina Rodrigues sobre a suposta superioridade da cultura Jêje-Yoruba (‘nagôs’) e conseqüente inferioridade dos negros Bantu (Angolanos, Moçambicanos, etc.), apesar de poderem ser vistos hoje, como rematadas tolices, por alguma razão prevaleceram.

Observe-se que, no caso específico da Bahia, berço e campo de pesquisa principal destes estudos recorrentes, chegou-se ao cúmulo de ignorar, quase que completamente, (por ser da outra matriz africana), a cultura tradicional de todo o vasto recôncavo (de forte presença angolana), geradora de manifestações emblemáticas para a cultura brasileira, como são a Capoeira e o Samba de Roda.

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O certo é que, a despeito de serem rematadas, estas tolices de modo algum estão mortas, figurando ainda hoje, renitentemente, como fundamentos da antropologia brasileira ‘oficial‘ sobre o assunto.

Você já leu alguma coisa sobre isto no Brasil? Pois eu também não. Encontrei estas informações em textos angolanos, editados em Portugal. Entre as quais os do antropólogo de Luanda José Maianga é, particularmente, importante, por conter uma aguda e abalizada crítica ao ‘Lusotropicalismo’, teoria (já citada aqui antes) engendrada por Gilberto Freyre, adotada pelo Salazarismo como política de dominação e controle populacional em suas colônias, sob o nome de ‘Assimilacionismo’.

O aspecto mais grave e irônico da questão – além do impasse absoluto que significa para a pesquisa acadêmica brasileira atual (em se tratando do passado remoto das culturas desta matriz africana) ter que se basear numa bibliografia tão inconsistente, soterrada sob camadas sucessivas de erros elementares – é que, por injunções históricas, políticas e geográficas, notórias e sabidas, a maioria esmagadora dos escravos que vieram para o Brasil (notadamente em épocas mais próximas ao nosso tempo), é de origem Bantu, angolanos em sua maioria, portadores de uma cultura que, apesar de ser muito mais antiga até que a própria existência do Brasil, é ainda hoje, quase que, completamente, desconhecida, desqualificada e desprezada que tem sido, por culpa das razões acima aludidas.

Desconhecendo neste aspecto, quase que completamente, a nossa origem real, neste patológico intuito de negar a nossa natureza de cultura descendente de uma certa África, efetivamente negra, de uma cultura rica e sábia, tributária de gente oriunda de civilizações tão originais, antigas e relevantes quanto qualquer uma destas Grécias ou Portugais da vida, vamos assim nos aculturando, nos aviltando, a cada século ficando mais incultos, menos crioulos e mais doidos, sambando um Samba ‘atravessado’ e sem raiz.

Os sinais evidentes (etimológicos, toponímicos) desta nossa, senão majoritária, pelo menos bastante relevante descendência, estão todos aqui e ali no além mar angolano, salpicados por este Brasil simbólico a fora, cravejados na literatura oral desta nossa gente, numa espécie de ‘antropologia popular’, uma ‘etnografia possível’, sem prepostos, nós mesmos homens-livros dançando por aí os nossos jongos e ticumbis, cada um página viva de sua própria história, em si – e por si – mesmo escrita: Bichos-bibliotecas que somos, filhos de nossa memória.

Podemos estar vivendo também numa palavra incompreensível qualquer, gritada como interjeição de alegria – ‘Auê!’ -; num fragmento de melodia – ‘Andambi, ukumbi uá ntunda!’ -, no nome de um rio ou de montinho de terra vermelha – ‘Mu-lundu!’ -; no tempero acre de uma comida ou no jeito de carregar uma lata na cabeça; um Atlântico inteiro de luzes e sentidos a espera de nós aqui e ali está, para ser juntado, catado, linkado, buscado e desvendado enfim.

Um mesmo nome de deus gritado – Nzambi!’ – significando um mesmo modo de adorar e atribuir sentido – ou lógica – às coisas, usos e manejos deste mundo. A revelação enfim do nosso íntimo ser – Mu-ntu! Ba-ntu!’ -, de nós mesmos apartado, pela negação do espelho, está no nosso espírito verdadeiro –‘Nzumbi! -, em todos os seus significados transcrito, pela única marca indelével que nos sobrou:

Nossa língua de homens e mulheres que somos, assim como fomos dantes –‘Ki-Mbundu!

Spírito Santo

Abril 2008

Veja aqui o Enredo#02 = Jongo, Nongo, Jinongo