Brasil Bandido

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(O post é velhusco pra caramba. Para ser exato, foi escrito antes mesmo de lançarem o primeiro filme Tropa de Elite. Com esta moda de UPPs, tanto quanto o filme o post parecia superado, mas eis que – ê brazilzinho dinâmico às avessas! – do nada volta tudo à vaca fria. A tentativa de explicar a história de nossa insegurança pública voltou então à baila. O chato é ter que dizer: Viu só? Eu avisei!)

Junte os pontinhos e veja o país da “transpolítica”

”…Pensadores pós-modernistas franceses inventaram o termo “transpolítica” para se referir ao ultrapasse da política tradicional por formas novas de esvaziamento da democracia representativa. A “parapolítica” é outra coisa: não um termo reflexivo, mas a realidade da transformação de ações marginais ou ilegalistas em poder político…”

(Muniz Sodré)

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Vocês podem dizer que não estão nem aí ou que não é com vocês, mas, as notícias mais eletrizantes da região onde moro são as seguintes:

Notícia Um (locutor mascarado de touca ninja):

– O mais cotado candidato a vereador, com chances de ser um dos mais votados do Rio é, todo mundo sabe, o chefe-gerente da milícia local (preposto de alguém que nenhum de nós conhece, um grande capo, pior que os do cinema, com certeza).

Notícia Dois:

O mais cotado candidato a ser eleito como prefeito da cidade é um senador, suposto bispo de uma milionária seita evangélica inventada ontem mesmo. A ideologia desta seita é meramente pecuniária, baseada que é na máxima do ‘é dando (dinheiro) que se recebe (dinheiro)”. Esta ideologia espertalhona paira hegemônica sobre os corações e mentes da miserável população carioca, como uma praga pior do que as saúvas citadas pelo Mário de Andrade.

Notícia Dois e meio:

Este poderoso senador apóia, entusiasticamente, o tal vereador miliciano, chegando até mesmo a defendê-lo chamando-o de ‘jovem honesto, esforçado e trabalhador’. Supõe-se, por óbvia dedução, que toda a máquina coercitiva das milícias, que domina já, a base de chacinas quase diárias, praticamente, toda a cidade ‘maravilhosa’, tenha o Senador como seu candidato preferido, amigo ‘do peito’.

Notícia Três (esta, apesar de velha, revista agora mesmo na TV, no programa eleitoral gratuito):

_ Este candidato a prefeito– e, por extensão, toda a sua eventual futura entourage de vereadores milicianos – é, segundo o reiterado depoimento do próprio vice-presidente da república, “o candidato preferido e do coração do presidente Lula”.

(Corte rápido. Pela minha assustada e conturbada mente passa, de relance, a imagem embaçada e trêmula de uma enorme fila de eleitores vestindo toucas ninjas)

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Que os sensatos e comedidos insistam sempre, pacientemente, que é muito mais recomendável (faz bem à saúde) focar com melhores olhos os pixels azulados e edificantes da rede, do que ficar remoendo os tons marrons da malha suja, onde estão entranhadas as chagas mais comezinhas do dia à dia torpe deste nosso país.

Eu sei. Eu sei. Eu sei.

É exatamente por saber de tudo isto que entabulei esta conversa para lhes falar, assim, no sapatinho, acerca da impressão que se tem de que o Brasil está gestando em si mesmo, um certo tipo de sociedade mucho loca, com sintomas daquelas carcomidas por interesses bandidos de todo tipo, divididas em guerras entre grupos políticos mafiosos, que confundem o trato da causa pública com seus mais inconfessáveis interesses, com o beneplácito, no início pragmático e, logo depois, acovardado dos cidadãos ‘de bem’.

Sabem a Itália siciliana? Sabem a Colômbia de Medellín?

Pois é. A realidade brasileira às vezes, é mesmo complexa demais, difícil de decifrar, não é mesmo? Se avexe não. Sabe aqueles joguinhos de ‘junte os pontos’, nos quais, depois de todos os pontinhos juntados aparece uma figurinha graciosa qualquer, um coelhinho, um gatinho? Faça como eu: Relaxe jogando um desses joguinhos?

Não se garante ao final graciosidade alguma às figurinhas, mas que é diversão garantida, lá isto é. Tiro mais que certeiro no stress.

Juntemos os pontinhos pois:

Pontinho 01
A revolta dos mercenários

C’os diabos! O meu exército escafedeu-se!

Ano de 1822.

Nos momentos decisivos da chamada Guerra de independência do Brasil, a repatriação de oficiais e soldados do exército português derrotado, criou um problema para D.Pedro I: Como manter a integridade territorial, a segurança do Império recém criado após a dissolução do exército anterior?

Ainda no calor da luta, o governo se viu obrigado a improvisar a organização de uma força armada de transição, não só para eliminar de vez a resistência portuguesa, mas também para se incumbir das demais tarefas de manutenção da integridade do império.

Sem povo – pelo menos, confiável – para montar um exército nacional, a ‘brilhante’ solução encontrada foi a compra de armas e navios além da contratação de mercenários europeus criando em 18 de janeiro de 1822 o Corpo de Estrangeiros, instituído como uma divisão do exército, formada por mercenários alemães (arregimentados pelo major Georg Anton von Schäffer na Europa), além de imigrantes suíços recrutados na própria Corte.

A segurança da Corte ficou à cargo de gajos germânicos, que formavam o 27o Batalhão de Caçadores de Alemães, conhecidos como “Os diabos brancos”, aquartelados na Praia Vermelha e dos outros gajos estrangeiros, suíços em sua maioria, que formavam o Batalhão de Granadeiros estrangeiros, cujo quartel era o atual (êpa!)…Palácio Duque de Caxias.

Não queriam, de jeito nenhum um exército composto de ‘diabos negros’ ‘prata da casa’ e aí… deu no que deu:

“…Em junho de 1828, no Rio de Janeiro, durante o governo de D. Pedro I, (a Revolta dos mercenários) constituiu-se numa sublevação de tropas militares compostas por mercenários alemães e irlandeses. Iniciada em 09 de junho, ela foi reprimida quatro dias depois por soldados brasileiros e populares, entre os quais se incluíam muitos escravos capoeiristas da cidade…”

Fernando K. Dannemann nos conta:

…” Revoltados (com atrasos dos soldos e com os castigos físicos a que eram submetidos)…dirigiram-se ao palácio imperial, no bairro de São Cristóvão, pretendendo apresentar queixa contra o oficial e pedir sua demissão imediata…A partir daí…os mercenários praticaram todo o tipo de desordem e confusão, culminando por invadir e tomar conta do ministério do exército, (Palácio Duque de Caxias)… Ali eles…apossaram-se das armas…e se entrincheiraram…o comandante das Armas ordenou que as forças legais investissem…contra os rebeldes, procedimento que contou com o apoio de marinheiros franceses e ingleses cujos navios se encontravam atracados no porto, de populares e escravos (leia-se capoeiristas) na emergência, ali compareceram armados… Ao final do confronto, 12 mercenários estavam mortos e 50 deles feridos…”

Êpa, êpa! Mas o palácio invadido não é o mesmo Palácio Duque de Caxias, recentemente, apedrejado pela população do Morro da Providência?

Êpa! E sacaram também aquela outra citação sobre escravos capoeiristas? Como assim?

Pois é isto mesmo: Um jogo de juntar os pontinhos. Já havia avisado a vocês lá em cima.

Pontinho 02
As Milícias escravas

Uma ‘flor’ de gente

Carlos E. Líbano Soares falando:

“…O discurso contra a capoeira no século 19 se assemelha ao discurso contra o crime organizado, o tráfico de drogas. Um crime rendoso, com uma rede de proteção muito grande, com pessoas da alta sociedade envolvidas, protegendo e mantendo esses grupos e por isso garantindo a impunidade deles.

“…Cada freguesia do Rio tinha um grupo…Quando outro invadia seu espaço, era a senha para o confronto. Havia um controle informal, uma geografia inquieta semelhante à atual guerra das drogas. Assim como hoje há, no Rio, o Comando Vermelho e o Terceiro Comando, havia na época nagoas e guaiamus. Os nagoas dominavam a periferia, são grupos de origem africana, e os guaiamus dominavam o centro da cidade…”

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Ali por volta de 1870 o problema da violência urbana e do caos político-social protagonizado pelas maltas de capoeiras, compostas, em sua maioria, por adolescentes (escravos fugidos e negros de ganho desocupados), ficou tão agudo que a solução foi desmobilizar, violentamente os bandos, enviando os capoeiras, em massa, para a guerra do Paraguai. Com o regresso destes ‘involuntários da pátria’, livres da escravidão por direito, fardados, mas, ainda revoltados, o problema da violência urbana voltou, mais intenso ainda.

“…O Flor da Gente era um poderoso grupo de capoeira do Rio de Janeiro no século XIX. O grupo era tão poderoso que chegou a ser contratado por Duque Estrada Teixeira quando candidato ao governo da província do Rio de Janeiro. Para que Duque Estrada contratou o grupo de capoeira Flor da Gente? Na época, as eleições eram decididas no tapa mesmo e quem não votasse em Duque Estrada era ameaçado pelo grupo Flor da Gente…”

Na crônica da Revolta da Chibata (1910), junto com os degredados enviados pelo governo para serem escravizados – ou comidos pelos bichos – nos cafundós da selva amazônica, constavam dezenas, talvez centenas de capoeiristas.

Já conseguiram enxergar o esboço da figurinha que começa a aparecer no nosso jogo? Não? Pois siga em frente e junte mais pontinhos então.

Pontinho 03
O Cimento Social

(Agora mesmo, em pleno século 21)

Uma tropa de militares, sob a alegação de que um Projeto federal denominado Cimento Social era ‘obra do Exército’, fazia policiamento ostensivo do Morro da Providência, exercendo, literalmente, a função de uma milícia privada, desalojando, sabe-se lá como sem um único tiro, os traficantes que mantinham o controle do local.

No incidente amplamente divulgado pela imprensa, esta milícia, estranhamente formada por soldados regulares, segundo afirmam seus integrantes diretamente envolvidos no incidente, aprisionaram e espancaram três jovens da comunidade por motivo fútil (teriam sido xingados) e os entregaram a misteriosos bandidos de uma favela próxima, pretensos rivais da comunidade a que os jovens pertenciam.

Foi daí que a milícia…digo, a patrulha do Exército se encontrou com outra milícia…ou melhor, um grupo de traficantes do Morro da Mineira e negociou a entrega dos jovens (segundo as famílias dos mortos, pela quantia de 60 mil reais). Não se sabe ainda por que misteriosas razões, os jovens foram torturados e chacinados pelos nunca identificados traficantes, sendo os seus corpos lançados numa caçamba de lixo da própria favela para aparecerem, dias depois, num lixão num município vizinho.

Revoltada a população (da qual faziam parte, inclusive, os operários da obra), impediu a continuação dos trabalhos e rejeitou os pedidos de desculpas das autoridades, cercando o Palácio Duque de Caxias, sede do Comando Militar do Leste, a quem a tropa estava subordinada.

(Êpa, êpa! Mas não é este o mesmo Palácio Duque de Caxias, no passado, invadido pelos mercenários gringos, os tais ‘Diabos Brancos’?)

O escândalo se agravou quando a imprensa divulgou a natureza estranha do convênio entre tão altas instancias do governo federal e um candidato a prefeito da cidade. O projeto do senador era, literalmente, uma ‘obra de fachada’, já que apenas as fachadas das casas-barracos, visíveis do centro da cidade, seriam reformadas e pintadas de verde.

Pressionado pelo escândalo, em solenidade no Rio de Janeiro, o presidente da República recebeu os familiares das vítimas que, surpreendentemente, se mantiveram na firme posição de não admitir desculpas nem a presença do Exército no Morro.

Nitidamente contrariado, o governo federal decidiu então, numa insidiosa represália talvez, abandonar o morro e as obras inacabadas, deixando a população ao Deus dará.

Vocês sabem quem era o candidato envolvido neste lamentável incidente, não sabem? Ele mesmo: o bispo-senador, preferido do coração do nosso presidente.

Pontinho 04
Luta Democrática

A máfia nordestina e outras máfias

…Tenório Cavalcanti foi um dos muitos migrantes que vieram do Nordeste para a Baixada. Lá, enriqueceu e tornou-se uma poderosa figura política, criando um sistema clientelista e apoiando-se na violência como estratégia de conquista e manutenção do poder tanto econômico quanto político. A sua volta, montou-se uma “densa rede de relações pessoais, de amizade, parentesco e patronagem, trançada pela reciprocidade, a dependência, a lealdade e a deferência, tendo no líder seu fio central”…

Em torno de sua pessoa, criou-se toda uma mistificação, apoiada na construção de uma personagem para Tenório, que passou a ser conhecido pelo uso de suas inseparáveis capa preta e sua metralhadora “lurdinha”, bem como pela fama de “ter o corpo fechado”, por ter conseguido escapar ileso de uma série de conflitos a bala.

“…Para complementar ainda mais essa imagem, um episódio ocorrido em julho de 1962, que ficou conhecido como o “quebra-quebra”, ocupou por semanas as páginas dos noticiários, associando a região à falta de segurança e à prática da violência. Na verdade, a sucessão de depredações e saques ocorridas na Baixada no dia 5 de julho de 1962 fizeram parte de um contexto histórico de “revoltas populares” em todo o estado do Rio de Janeiro.

“…Este episódio, segundo Marlúcia dos Santos Souza, teria marcado o surgimento de milícias pagas pelos comerciantes locais para garantir a segurança de seus estabelecimentos. ‘… em 62, com o saque, as polícias privadas atuaram como repressores das revoltas e como mantenedoras da ordem.’ A partir deste contexto, marcou-se o início da ação de “grupos de extermínio” na região, como vão demonstrar Josinaldo Aleixo Souza e José Cláudio Alves Souza.

Segundo este último, “desde o golpe de 1964, sobretudo a partir de 1967, a Polícia Militar vinha assumindo um papel coadjuvante na repressão montada pela ditadura …”, o que a levaria a atuar diretamente na formação de “grupos de extermínio”. A ação desses grupos, porém, se efetivaria de forma mais veemente a partir da década de 70…”

(Extraído de favelatemmemoria.com.br

Pontinho 05
Welcome to Congo!

Ano de 1998

O Rio de Janeiro é uma cidade com um explosivo problema de segurança pública localizado, exatamente, em suas áreas mais carentes (segundo diz o velho ramerrão, por falta de políticas públicas), áreas estas que foram sendo, progressivamente, ocupadas por grupos armados, a princípio identificados, genericamente, como Comandos de Traficantes (em bom português, milícias armadas, portanto).

De uns tempos para cá, a situação, por si só já muito dinâmica, por culpa da renitente e oportunista omissão das ‘autoridades constituídas’, evoluiu para o perigoso estágio da cooptação ou da simples corrupção de indivíduos integrantes das forças de segurança convencionais (Polícias Militar e Civil) que passaram a se mancomunar com as facções criminosas tradicionais.

A tal dinâmica dos acontecimentos tinha, inclusive, um viés tenebroso, prenúncio do que viria: Engrossando o caldo do equilibrado conflito entre Comando vermelho e Terceiro Comando, aparecia como uma cunha para fracionar a clássica dicotomia polícia-bandido, uma nova facção denominada, sugestivamente, A.D.A ou ‘Amigos Dos Amigos’ ou seja, uma organização que poderia abrigar integrantes de qualquer uma das partes em conflito, inclusive policiais, desde que partidários de um pacto de cooperação (é esta mesma facção a que controla a favela onde os jovens da Providência, supostamente, foram torturados e mortos).

E assim ‘evoluímos’ para um estágio no qual passou a não existir mais diferença perceptível alguma entre os modos de agir de policiais e bandidos (no que diz respeito à prática de delitos criminosos, roubos, assaltos e assassinatos, bem entendido).

Chegamos então, infelizmente, no curto espaço de menos de cinco anos, se muito, a um ponto de difícil retorno, no qual as próprias instituições policiais se organizaram (ou se ‘desorganizaram’) em braços clandestinos, que a população denominou a princípio de Polícia ‘Mineira’.

Logo denominadas pela imprensa mais apropriadamente, de ‘Milícias’, estas ‘Mineiras’ (o nome – que evoca a truculência da polícia de Minas Gerais em décadas anteriores – se popularizou na Baixada Fluminense na década de 70) são instituições paramilitares que, estimuladas pela ‘vista grossa’ da classe média, cada vez mais rapidamente, vão usurpando, sob o pretexto de cuidar da segurança privada, do controle de todos os tipos de serviços públicos, historicamente negligenciados pelas autoridades legalmente constituídas (além de serviços privados, é claro).

No contexto desta situação dramática, alguns especialistas em segurança pública (omitindo o fato da falta de políticas públicas ser a causa evidente de todos estes males) vêm solicitando há tempos, a intervenção das forças armadas. O governo federal, por intermédio do Ministério da Defesa, do congresso Nacional e do próprio Exército, tem relutado, alegando não ser esta função constitucional das forças armadas (embora elas atuem com esta função no Haiti, por solicitação da ONU e –cala-te boca- tenham atuado, exatamente, assim no incidente aqui narrado, ocorrido no Morro da Providência.)

Para agravar o quadro, estas autoridades constituídas, começam a assumir, a partir do Governo Collor de Mello, cada vez mais claramente, modus operandis muito semelhante ao de instituições de caráter mafioso, criando uma espécie de sociedade bandida, anômala, um tanto parecida – se projetarmos a evolução do problema e guardadas as devidas proporções – com a de certos países africanos modernos (como o Congo atual, por exemplo)

Duvidam? Vão pagar pra ver?

Bye Bye Brasil
Este é um país que vai pra frente?

Como se sabe o fenômeno não é simples. Possui fundas raízes no arcaísmo de nossa estrutura social, sempre calcada na injustiça social a qualquer custo, gerando tudo que aí está, há séculos e séculos, amém.

Se juntarmos mais ainda os pontinhos, veremos as figurinhas do misticismo político-religioso de Conselheiro e do Padre Cícero, ligados com os do proto-comunismo da Coluna Prestes, passando pelo banditismo do capitão Lampião. A cada conjunto de pontinhos juntados, quantas e quantas elucidativas imagens vamos conseguindo formar. É o Brasil Bandido mostrando a sua cara feia.

O curioso é que os pontinhos mais incríveis – principalmente, por suas inquietantes ligações com a nossa conversa – são aqueles ligados ao místico Conselheiro.

Ele foi, todo mundo sabe, aquele beato piradão, espécie de bispo de uma seita inventada ali, na época, um ícone invertido do senador de nossa história. Ele mesmo, o líder da cidadela rebelde (a primeira favela mítica), guarnecida por uma milícia popular, que lutou contra as mesmas injustiças sociais clássicas, vigentes no modelo social brasileiro, enfrentando encarniçadamente o Exército Brasileiro até ser massacrada.

Pois não é que foi aqui, no Rio de Janeiro– santa coincidência! – que alguns soldados veteranos daquelas mesmas batalhas contra o Conselheiro, desengajados, sem soldo e largados à própria sorte pelo Exército Brasileiro, não tendo outra alternativa de sobrevivência ocuparam as encostas de um certo morro bem perto da perímetro urbano da Corte?

O morro passou a se chamar ‘da Favela’, em alusão à presença na vegetação do morro da ‘fava d’anta’ (dimorphandra mollis Benth), leguminosa típica do cerrado brasileiro, também conhecida, no diminutivo, como favela, da qual os veteranos soldados tinham muitas lembranças dos tempos de Canudos, por causa da localidade existente na região dos combates chamada, pela mesma razão, Alto da favela.

Com a generalização do nome Favela, por conta da pauperização do Brasil urbano e a palavra passando a denominar qualquer conjunto de habitações miseráveis, o local fundado pelos veteranos de Canudos, mudou de nome, passando a se chamar, não Nova Canudos, como deveria, mas… Morro da Providência’.

Êpa, êpa! De novo? Mas não é aquele mesmo Morro da Providência no qual uma tropa do mesmo Exército seqüestrou e levou à morte três jovens, no incidente que levou a população do local (em certa medida descendente dos veteranos de Canudos), a invadir o Palácio Duque de Caxias, sede do comando militar leste, outrora (e bota outrora nisto) também invadido pelos mercenários europeus, logo após a nossa independência?

Roda viva. Círculo vicioso: Independência, favela, nordeste, Canudos, Lampião, Exército, providência, presidentes, bispos, seitas, máfias, seqüestros e chacinas, balas achadas e perdidas, num verdadeiro suflê de sangue, suor e lágrimas.

Viram só, que incríveis coincidências formam o nosso ‘muderno’ Brasil profundo? Bastou juntar os pontinhos.

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Existem algumas maneiras de escapar de uma situação como esta. Você pode se deitar na calçada e esperar mais um tiroteio passar; você pode fugir pelo bosque escuro da floresta da Tijuca e deixar marcado o caminho percorrido com bolinhas de miolo de pão; pode mostrar para a bruxa que te seqüestrou, o delgado rabo de um ratinho, para ela pensar que você está muito magrinho ainda para ser comido; pode sair correndo em zig zag; pode enfim, esbugalhar os olhos e se fingir de morto, sei lá tantas coisas…

Tomara que eles, já perdendo o controle da situação, não venham com a idéia de jerico de contratar, de novo, uma milícia de mercenários estrangeiros.

(Se bem que, a esta altura dos acontecimentos, juro que até eu -como D.Pedro I – iria adorar ter um exército para chamar de meu).

Spirito Santo

Sei lá quando de 2007 (ou seria 2008?)

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~ por Spirito Santo em 31/08/2008.

2 Respostas to “Brasil Bandido”

  1. Valeu Zé!

    Grande contribuição ao debate (que, ironicamente, tornará o texto mais longo ainda)

    Grande abraço

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  2. A branquela disse que vc tá certo, mas achou um pouco longo o texto.Como ela sabe que tá na moda não porque seja ano eleitoral – época em que pobre e favelado fica em evidência – mas porque o consumidor C,D e E se tornaram com as políticas do Lula, consumidores. Mas esta salada conjuntural pode ser também focada na perspectiva teórica com doses pós-modernistas daqueles que apontam a criminalização da pobreza como a grande política de controle social que se consagra nestes novos tempos. Em que na modernidade atravessada pela pós-modernidade, nós já esperimentávamos desde o final do XIX a questão social como caso de polícia. As milícias seriam a fase de desregulamentação da “segurança pública” nas zonas socias excluídas da presença do Estado.
    A referência então é o Zigmunt Bauman: O Mal-estar da pós-modernidade, J. Zahar ed.especialmente o Os estranhos na era do consumo: do bem-estar à prisão.

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