Boladinho foi à luta


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Conto

Trabalho com meninos, muitos, todos os dias. Tanto que, às vezes, até me
confundo e penso que sou menino. Eles também se confundem e, das duas
uma: ou me faltam com o respeito devido, me zoando, como se eu fosse
mesmo mais um entre eles, ou me seguem, cegamente, como se eu fosse o
mais esperto, o líder deles. O cara.

Acho que foi por isto que resolveram me lotar aqui, nesta delegacia, a DPCA.
Este que vocês estão vendo, sentadinho ali, no banco, é um desses da rua,
entre muitos, nem tantos assim eu diria. Está murchinho no seu canto, mas,
não se iludam. Não é flor que se cheire. Ainda ontem, ou anteontem, esbarrei
com ele na Praça XV:

_”Aí, ô tio! Dá uma força aí. Só pra mim comer um negóço.”

Fazer o quê? Paguei uns saquinhos de amendoim pra ele. Do jeito que estava
com thinner e crack até na alma, não ia arrumar nada. Disse isto pra ele, mas, qual o
quê. Só grunhiu meio que dizendo:

_” Qual é, tio? Tô legal. Só tô com fome.”

Quando cheguei, hoje cedo na delegacia ele já estava lá, dormindo no banco.
O pessoal da noite me disse que ele foi pego no Leblon, doidão, no meio de um
assalto num sinal de trânsito. Essas coisas. Tropeçou na fuga, caiu e ficou ali.
Foi fácil pegá-lo. Tiveram que trazê-lo no colo. Chegou dormindo, chupando o dedinho. Só se mexeu de manhãzinha, quando alguém me chamou, gritando:

_” Detetive Ronaldo! Detetive Ronaldo! Telefone!”

Vou tomar o depoimento dele agora mesmo, antes que durma de novo, a
praga. Os senhores e as senhoras esperem aqui, por favor. Não demora muito
não porque é sempre a mesma história. Já sei de cor e salteado. Esta aqui é a
famosa DPCA. Anh? Já falei? Pois é isto. Fiquem à vontade. Por favor.

Vou lá acordar o coitadinho. Dou um tapinha no ombro, de leve, só pra ele
ficar esperto e espero. Ele vai me olhar meio assustado, com aquela cara de
criança, que eles só mostram assim, nestes momentos distraídos, entre o sono e a morte. Vai limpar o olho remelento, me olhar com uma cara de enfado,
maior do que o meu. Tédio e tudo o mais. Saco, desdém. E só aí vai se
levantar.

Pronto. Levantou-se enfim. Licença. Vou lá interrogar a peste.

————————-

_” Fala moleque. Conta aí.”

Boladinho fala:

_” Tem madame que desvia de mim que nem diabo desvia da cruz. Acreditam
nessas histórias de que os dimenor carrega caco de vidro, gilete, estilete,
estas coisas todas para cortar as vítima. Vítima? E eu? Sou o que então, assim magrelinho, com os cambitos fininho, andando pela rua sem que nem
porque?Agora então é época. Frio. Os dente batendo igual aos de uma caveira. Os cambito estalando, um no outro, igual a dois graveto balançando no vento.

Tréc, tréc, tréc! Vareta de pipa sem papel, sacumé?

Ah… Não fui eu não! Quer dizer, pode até ter sido, mas, se foi, foi sem querer.
Doidão do jeito que eu tava… De que? De thinner, sacumé? Que é que o
doutor queria que eu fizesse? Cheirado eu faço coisas que até Deus duvida.

Abilolado, berimbolado, Faço qualquer negóço. Até com caneta Bic eu já
roubei, sacumé? As madame acha que eu vou furar a goela delas e pronto.
Ficam gelada, paralisada. Dão bolsa, dão relógio, dão sapato, dão óculos. Se
insistir dão até as calcinha. Madame se assusta fácil. Madame vê muito filme, muita televisão.

A primeira vez que fui para o Padre Severino foi assim. Sorte que eu, sem
querer, agredi a vítima. Cheguei no Severino cheio de moral, sacumé? Escapei de virar mulherzinha de um daqueles, mais velhos. A madame que me perdoe, mas, desta sorte, por conta de ter agredido a pobre, eu escapei.

E chamam aquilo lá sabe de que? De Escola! Vai entender? Lá tem corredor
gradeado, tem cela, tem cama de cimento. Tem guarda com pastor alemão.
Tem fuga e tem rebelião. Escola de que? Fala sério doutor. É igualzinho
adonde meu pai tá guardado, Bangu 1, 2, 3, sei lá quantos Bangu tem.

Agora não. Tomei prumo. Magrinho do jeito que eu tô, com esta fraqueza no
pulmão, no coração, não dá pra ficar tirando muita onda por aí. Uma moça aí outro dia, uma médica, doutora, enfermeira, não sei bem, me disse que se eu continuar nessa de thinner, meu coração vai estourar. Tá. Tô estoporado, mas, e daí? Thinner e crack mata a fome. Se eu não matar ela, é ela quem vai me matar, ora. Sacumé?

Ontem rodei na Lapa, em Copa, no Leblon e sabe o que comi? Um pedaço de
pizza que estava aparecendo na borda da lata de lixo. Dividimos em três.
Ainda tivemos que espantar uns vira lata, que olhavam de olho comprido pra pizza. Sai pra lá, mermão! Vocês são cachorro. Nós é gente, rapá! Sai! Sai!

Tô fraquinho mesmo. De vez em quando falta ar. A cabeça revira. Esta noite
mesmo, lá nos Arcos, tava rindo à toa com a rapaziada, cheiradão e, de
repente caí, tombei, sumi. Desmaiei ou dormi, nem sei.

Quando eu vejo um bichinho assim, que nem eu tô, osso só, com os olhos
fundos, eu fico triste. Dou uns afagos, uns agrados, uns carinhos. Não estes
vira lata de ontem. Isto não. Ali era eles ou nós. Eu digo assim, quando estou numa boa. Eu faço carinho sim. Agora, vê só essas madame. O que elas fazem? Enxotam a gente. Fecham o vidro do carro, só faltam cuspir, jogar pedra. Será que nós é bicho e elas é que são gente?

Pô, doutor! Medo nós também tem, mas, é gato contra rato, sacumé? A gente também tem direito de sobreviver.

———————–

O pessoal que espera olha para mim, impaciente. São como eu. Não estão
muito interessados em historinhas de menores carentes, infratores,
transgressores, em risco social ou em conflito com a lei. Querem uma solução
das autoridades. Pronto.

Vocês esperem só um instantinho, por favor. Já estou terminando aqui, tá
bom?

Boladinho, o seguinte: Vou te liberar, tá legal? Aqui é a DPCA, meu filho.
Daqui, com a bronca que tu meteu, com a queixa que a madame fez contra tu,
cheia de testemunhas… Vai voltar é pro Padre Severino, meu chapa. Sem
choro nem vela. E lá, sabe Deus o que te espera. Tu não vale nem um picolé.
Não quero este remorso na minha vida. Mas, me faz um favor. Sai da minha
área, tá? Some do meu caminho. Vai à luta!

————————

Pronto, pessoal. Detetive Ronaldo às ordens. Podem falar. Sentem-se, por
favor. É queixa de assalto, não é? Já estou sabendo. Como era o moleque?
Preto? Branco? Como este que saiu daqui agora? Teve agressão? Alguma
vítima ferida? Podem falar. Aqui é a DPCA, Delegacia de Proteção à Criança e
ao Adolescente.

(Boladinho saiu de mansinho. Pegou o cobertor que havia largado no chão, ao
lado do banco e desapareceu. Mas antes, O detetive Ronaldo se lembrou de
uma coisa essencial. Importante demais para o inquérito)

Boladinho! Fala aí moleque! Qual é mesmo a tua idade?

_ “Ah.. Não sei direito. Acho que uns sete pra oito. Já tô velho nesta vida,
Doutor. Tchau, Valeu aí, tá? Vou à luta!

Spírito Santo
Rio, Maio 2007

Um, Dois, Feijão com Arroz


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Hibridismo Cultural e Mestiçagem

“_O conceito de Hibridismo Cultural converge com a idéia de Mestiçagem que você combate?”…

“_Não. O conceito Hibridismo Cultural não converge, de modo algum, com a idéia de Mestiçagem que eu combato, além do que…”

(Eu, respondendo à alguém que, num dia destes, escreveu a pergunta na borda de uma página do jornal O’ Globo, acerca de duas matérias sobre a questão racial no Brasil)

A resposta – de longa e cabeluda – virou este post.

Culturas híbridas por natureza
Por falar em Diversidade…

Para começar, Hibridismo cultural poderia ser visto como um conceito apenas proposto, descoberto, porque tudo indica que sempre foi uma lei da natureza, tendo a ver, diretamente e no geral com Diversidade.

(Uma idéia puxa outra que puxa a outra que puxa outra… e por aí vai).

O brilhante antropólogo Néstor Garcia Canclini estaria citado aqui sim, com todos louros àquele que, a partir das pistas salpicadas aqui e ali por seus antecessores, capturou com clareza o sentido de um fenômeno social bastante complexo, sistematizando-o no âmbito de sua inovadora antropologia, sempre na intenção de explicar de modo mais aberto e franco possível, o sentido fugidio da natureza humana neste nosso confuso e admirável Mundo Novo.

É por conta desta lenta, porém, segura evolução do pensamento do homem sobre si mesmo expresso na obra de Canclini, entre outros, que hoje já podemos, pelo menos sugerir que a Cultura humana deve – e a Educação também deveria – significar diferentes maneiras de se abordar ou compreender uma mesma coisa, ou vários modos de se realizar uma mesma tarefa, diversos caminhos para se chegar a um mesmo lugar (que, afinal, é quase sempre uma encruzilhada), ou em algum daqueles muitos caminhos que levam à Roma (mesmo para quem não está nem aí para ver o Papa), nesta nossa eterna busca por um destino mais feliz.

–“O Caos e Acaso são a mola e o dínamo do universo!” – Diria aquele sujeito velho e barbudo que assistiu, de camarote ao Big Bang.

O Hibridismo cultural parece ser mesmo uma atitude humana atávica sim porque, pelo que nos poderiam dizer neurocientistas como o Oliver Sachs , ou linguistas como Noam Chomsky, por exemplo, está relacionado à plasticidade maravilhosa do cérebro humano, nossos sentidos, transformando informações apreendidas aqui e ali, num turbilhão de emoções que, por sua vez, se transformando nos mais variados tipos de sinapses e memórias, multiplicadas aos milhões, se transfiguram em nexos, linguagens e conceitos, dos mais concretos aos mais abstratos ou absurdos.

E assim como são as pessoas, seriam as comunidades, as sociedades.

O conceito pode ser considerado, intrinsecamente, humano também porque Cultura sempre pressupõe feedback, transmissor+receptor interagindo, alternando-se, confundindo-se por vias expressas e inversas (porém, nunca estanques).

Mão e contra mão. O Meio virando a Mensagem (e vice versa). Sinergia, movimento, vida.

Gosto muito, nestes momentos, de citar a Música, uma linguagem onde conceitos como Primitivismo e Modernidade carecem, absolutamente de sentido porque a Música (o Som) é um fenômeno que se dá, concomitantemente ao longo do Tempo e do Espaço, área difusa onde o que é passado pode ser também, do mesmo modo, presente ou, até mesmo, futuro.

O fenômeno do hibridismo cultural é pois assim, como a Lei da Relatividade (que já existia antes de Einstein a descobrir). Atemporal e imponderável. Arte e Ciência. Mágica e lógica, ao mesmo tempo.

Seria inconcebível um mundo feito de energia funcionar de outra forma. Uma coisa sempre conteve um pouco da outra. Sim, tudo na natureza – e na cultura dos homens, por extensão – é como carne e unha.

No Socialismo, no Capitalismo, na pré ou na pós-modernidade sempre foi – e, ao que parece, sempre será – mais ou menos, assim (e que novas tecnologias de inteligência artificial não nos contradigam um dia)

_…” As coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender.”_ Já dizia Paulinho da Viola, naquele samba clássico.

Toda mentira tem perna curta
Mas, nem sempre têm um fundo de verdade

Miscigenação não. Aí já se está falando de um conceito artificial, inventado (ou imposto), um conceito desumano (no sentido espúrio da palavra) porque fere, deliberadamente, os princípios mais elementares de nossa natureza.

Transitando por este mesmo assunto, tentei dizer isto naquela outra matéria chamada ‘Salada Mista’ .

É que a velha fonte destas ‘modernas’ teses sobre miscigenação no Brasil, parece mesmo ser a teoria, genericamente, conhecida como Elogio à mestiçagem que propõe, no fundo – nem tão no fundo assim – a diluição das raças, supondo, diabolicamente, que possa haver algum tipo de ganho ou ‘evolução biológica’ (e, conseqüentemente, social, cultural, enfim), a partir de uma ‘mistura’, uma ‘química’, na qual dois elementos, se fundindo, acabariam por se anular, mutuamente, gerando um terceiro elemento ‘melhorado’ e, portanto, geneticamente ‘superior‘ aos dois outros que o geraram.

(Cavernosa teoria. Que tipo de pessoa seria capaz de ficar arquitetando e mastigando idéias assim tão ácidas e venenosas? Com que interesses ou intenções?)

Observem, atentamente, que o ser resultante desta ‘química’, no caso, o Mestiço (aquele que não é nem uma coisa nem outra) ou o Mulato (literalmente o cruzamento entre uma mula e um cavalo), anunciado como sendo superior, geneticamente, aos elementos que o geraram, é sem dúvida, uma entidade, eminentemente racial.

(Homoracial, poderíamos dizer, já que é o inverso da diversidade genética antes existente).

Uma quimera , um frankeinstein social, para usar uma imagem mais enfática.

Ora, vista sob este prisma, a teoria da Mestiçagem é ou não é, tecnicamente, uma tese racista?

A partir da criação artificial de um biotipo ‘menos negro’ (a abolição física do negro, portanto), sub-repticiamente, de mistura em mistura sobreviveria apenas uma raça. Qual? Bingo! A Branca.

Este aspecto sutil, esta subliminaridade contida nesta proposta de mestiçagem, pode denotar a intenção velada, de se destruir apenas um dos elementos da equação, anulando a alegada diferença entre as duas supostas raças.

Ontem o pretexto era acabar com a nossa inferioridade biotípica nacional. Fracassado o projeto de extinção das diferenças raciais no Brasil (previsto no século 19 para durar 100 anos), hoje, a causa é desqualificar a pertinência da adoção de ações reparadoras dos males e seqüelas sociais resultantes da escravidão e do racismo perpetuado (cuja manutenção foi, aliás, ironicamente justificada por estas mesmas teorias).

Como Meio, a deposição da diversidade, a evolução fraudada. Como Fim, a perpetuação de privilégios coloniais.

Por isto, é bom se ressaltar também que, no campo de debate, digamos assim, mais acadêmico, a confusão estabelecida entre Hibridismo Cultural e Mestiçagem é, pelo menos para mim, completamente artificial e propositalmente criada para confundir mesmo (no que aliás, tem sido bem eficiente, pelo menos com os mais crédulos).

_”‘Uma insanidade digna de tarados”_ Diria alguém mais desprovido de fino trato.

O Sofisma de Galton
O primo rico e o primo pobre

Pois saibam os que ainda não sabiam – e fiquem de cabelo em pé sem medo de vexame –  que Charles Darwin , gênio da Teoria da Origem e da Evolução das Espécies, apóstolo da Diversidade, tinha um primo (dizem que também cunhado) que era grande admirador da extraordinária obra do parente. Ele (pobre apenas de genialidade já que, na verdade, era tão rico quanto Darwin) se chamava Francis Galton e foi quem criou a teoria da Eugenia ou do ‘depuramento genético’, que aparece como marca indelével na alma destas teorias de miscigenação aqui aludidas.

(Idéia pela qual, como já disse em outra oportunidade, além de figuraças como Chamberlain , Gobineau e Lombroso, militaram também, entre outros brasileiros adeptos de primeira hora, Nina Rodrigues e Gilberto Freire).

Segundo esta estapafúrdia teoria (grosseiramente baseada no trabalho de Darwin, mas, muito calcada nas teses de Gregor Mendel) se poderia ir identificando supostos defeitos genéticos em certos tipos humanos ‘degenerados’ e, gradativamente, ir se criando restrições à procriação destes indivíduos, portadores destes eventuais ‘defeitos de fábrica’, criando obstáculos legais para o casamento entre eles, esterilizando-os, ou mesmo assassinado-os em genocídios programados como mais tarde fizeram os nazistas, a partir destas mesmas idéias….‘científicas’ (e os admiradores de Galton, curiosamente afirmam que ele não teve nada a ver com isto).

(Pesquisando, agora mesmo, algumas imagens sobre o tema, tive que parar a busca por causa da náusea e dos engulhos provocados pela visão de tantas aberrações perpetradas em nome destas teorias)

Desta forma, segundo o outrora respeitadíssimo Galton, se iria depurando a espécie humana (vejam bem, só por aí, a que tipo de armadilha social pôde nos levar a ‘admiração‘ de Galton pela obra do primo).

Darwin, como sabemos, propôs em 1859 – e provou – que a natureza, através de um processo muitíssimo lento e meticuloso, ao longo de milhares, milhões de anos às vezes, iria selecionando o melhor de cada uma das espécies existentes na natureza. Era a evolução flagrada, testemunhada, a partir de uma lógica de um sistema planetário, ecológico, inquestionável.

Galton (não se sabe se por admiração ou para suplantar o primo-cunhado), se propôs a fazer a partir de 1865, exatamente, a mesma coisa, só que, apenas com…gente, e bem rapidinho, substituindo a lógica da natureza pela discricionária vontade de um grupo qualquer (uma elite de cientistas, talvez) que tivesse poder sobre os demais. Uns decidindo quais características biológicas, genéticas (e, portanto‘ raciais’) mereceriam se tornar hegemônicas na humanidade.

Sacaram aí onde se poderia encaixar, facilmente, a teoria da mestiçagem?

(Curiosamente este processo – conhecido, a grosso modo, como Engenharia Genética – é muito utilizado hoje em dia na produção de alimentos na indústria e na agricultura, como no caso dos transgênicos).

O mais surpreendente é que Galton não tenha se dado conta da estupidez flagrante desta sua tal de Eugenia, mesmo depois de ter descoberto – sim, ele mesmo! – a papiloscopia, eficiente e, até hoje, insuperável recurso utilizado na identificação de criminosos, ou mesmo indivíduos em geral, baseado na análise de vestígios conhecidos como impressões digitais, prova cabal de que nós, seres humanos, apesar de semelhantes, somos seres individualizados, realmente únicos, inigualáveis, o que cria obstáculos insuperáveis para que se possa controlar, cientificamente, o resultado de uma mistura de gente assim com gente assado.

A teoria do Galton, logo se viu (pelo menos para nós humanos), era lixo puro. Deveria ter desaparecido com Joseph Mengele, mas, como se vê, ela sempre ressurge como uma hidra reciclada, a nos assombrar com a suas mil cabeças e sentidos maquiavélicos.

Hoje em dia, no calor de discussões sobre a necessidade de se reparar ou não (e de que forma) danos e injustiças evidentes de um sistema social iníquo que, surgido sob as bases do sórdido escravismo colonial, por intermédio da subalternização de pessoas, a partir de então identificadas – e hierarquizadas – pelos traços físicos e evidências de sua maior ou menor ancestralidade africana ou indígena (ou não branca, em suma) como vetustos fantasmas eruditos, as bases mais evidentes daquelas teorias parece que estão sendo ressuscitadas por aí.

Alguns subestimam as evidências, julgando-as mera ‘teoria da conspiração’, mas há que se refletir bastante, acerca das reais intenções de reações e oposições que, se apoiando, de forma muitas vezes capciosa, em sofismas evidentes (além de certas distorções semânticas), podem ser classificadas como causa militante de um articulado grupo que chamo, simplesmente de  Anti-abolicionistas tardios.

Então, recapitulando só para clarear:

1- O conceito Miscigenação ou Mestiçagem (no sentido estrito com que a palavra é utilizada nesta discussão) parece ter relação direta com as teorias racistas que distorceram – com o intuito talvez de embasar, teoricamente, o neo-colonialismo – o conceito Diversidade, inaugurado por Charles Darwin, fundado, como se sabe, no princípio da Evolução Natural das Espécies, modernamente inserido nas discussões sobre a degradação ambiental do planeta, sob o nome de Bio-Diversidade.

2-‘Elogio à mestiçagem’, ‘Evolução artificial’ ou ‘Eugenia positiva’, se parecem com formas, espertamente, abrandadas de se definir aquelas mesmas ideologias racistas, que julgamos, até prova em contrário, varridas da história da humanidade, por culpa de suas perniciosas e notórias consequências, devidamente atestadas no passado.

3- O conceito Hibridismo, entendido aqui como um processo cultural contemporâneo, ligado ou não à modernidade de nossa civilização ora globalizada, não contradiz o princípio Diversidade porque Híbrido em nenhum aspecto NÃO quer dizer, de modo algum, diluído, misturado.

“Híbrido designa um cruzamento genético entre duas espécies vegetais ou animais distintas, que geralmente não podem ter descendência devido aos seus genes incompatíveis. Este fenômeno foi estudado pela primeira vez em plantas por Kölreuter durante o século XVIII, embora existam citações mais antigas sobre esse assunto, tanto em plantas como em animais.

Algumas dessas novas espécies ainda são produzidas até hoje através do cruzamento entre espécies, essencialmente para serem usadas como atrações de shows e locais turísticos. Atualmente, os cientistas estão tentando recriar o mamute, animal pré-histórico, através de inseminação artificial de sêmen destes animais (que foram encontrados congelados em algumas partes do planeta) em fêmeas de elefante, que são seus parentes modernos. Se conseguirem, este animal será um híbrido de elefante com mamute, e provavelmente também será estéril.”

(Confira em wikipédia)

As aparências…

(Fico surpreso mesmo é que exista tão pouca gente debatendo, contrapondo, publicamente, as afirmações equivocadas e perniciosas desta gente aqui no Brasil, principalmente em órgãos da imprensa como o jornal O’ Globo).

———–

O mesmo Charles Darwin, coerentemente, quando esteve no Brasil em 1832, manifestou a sua firme decepção diante da nossa aguda crueldade social (indignado com a escravidão).

Incrível que já se tenham passado bem mais de cento e cinqüenta anos sem que, quase nenhuma alteração em nossas relações sócio-raciais possa ser, claramente, vislumbrada no horizonte.

Nenhum pequeno navio chamado ‘Beagle’ ancorado ao largo. Nenhuma espécie de real evolução à vista.

Spírito Santo

Janeiro 2008

(Êpa! Alto lá! Porque você não leu os links? Saiba que o molho do post está neles)

BEBA ALUÁ!



Creative Commons License
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(publicado, originalmente em
www.overmundo.com.br)

“A palavra almanaque ou Almanach do árabe al-mana_kh). Segundo o historiador Stephanos Demetriou Stephanou Neto, al- manakh (literalmente `lugar em que o camelo se ajoelha`) era o ponto de reunião dos beduínos para conversar e trocar informações sobre o dia- a – dia.

Essa palavra adquiriu no Brasil, o significado de uma obra impressa de conteúdo científico, literário e humanístico. O primeiro e, provavelmente, mais duradouro dos almanaques brasileiros foi o Laemmert, publicado entre 1843 e 1937..”
(Verbete da Wikipédia – e de outra fonte linkada – para ‘Almanaque’)

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Achei o meu exemplar do Almanaque do Aluá número 1 de 1998 por acaso. Remexendo livros (estes sítios-lugares remotos e arcaicos de onde, espanando a poeira, ainda hoje nos saem tantas lembranças, luzes e informação).

Por acaso sim, como quem não quer nada, me deparei com aquilo que era a quase perfeita recriação dos almanaques de minha infância. Lembrei de muitos almanaques. Lembrei até, não sei porque, do Monteiro Lobato e seu espírito essencialmente ‘almanárquico’, contido no seu Sítio do Pica Pau Amarelo, nos informando sobre tudo que havia no mundo por intermédio de suas fantásticas fábulas…ou melhor: sei sim, por que Lobato: foi por causa do Almanaque Biotônico Fontoura (um ‘fortificante’, na verdade um vinhozinho-delícia que eu tomava em colheradas felizes, até quase me embriagar).

Foi este almanaque do grande Monteiro Lobato que lançou o nosso Jeca Tatu, que junto com o Macunaíma, forma a dupla tão indesejada quanto amada, de heróis de nossa raça brasileira, vocês se lembram?

Lembrei vivamente também dos ‘Anuário das Senhoras’, o grosso almanaque de onde minha mãe costureira tirava muitos e muitos modelos de vestidos para suas modestas clientes.

Foi vendo uma foto do ‘Anuário das Senhoras’ de 1953, eu acho, que tomei uma das decisões mais imbecis da minha vida que foi, no ensejo de aliviar a dura vida de minha mãe viúva e seus três filhos (eu o mais velho), pedir e insistir para que ela me colocasse num colégio interno, julgando, infantilmente, que todo colégio interno era igual ao daquela foto do ‘Anuário’: Uma freira costurando carinhosamente um botão caído do casaco de um rosado menino americano (ou europeu, sei lá).

Ledo engano. Nem um pouco europeu e muito menos rosado, amarguei – se bem me lembro durante oito longos anos – a dura vida de menino interno no SAM, desditosa instituição da década de 50, apenas um pouco menos ruim do que aquela famigerada Funabem que a sucedeu, até chegarmos às cada vez piores unidades ‘sócio-educativas’ de hoje em dia, tenebrosos presídios onde se encarceram crianças (odiosa invenção brasileira pela qual pagaremos um preço bem alto algum dia).

Sofri ali calado, sem fugir, o mais que pude, até um dia, já adolescente, tomar coragem e ‘pedir pra sair’.

Teria sido culpa do imaginário maravilhoso criado em nosso espírito pelos almanaques ou teria sido mesmo coisa do meu inexorável destino?

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Na confusão toda que se estabeleceu em mim, com este turbilhão de lembranças, me ocorreu também uma questão que talvez interesse a vocês:

Teria a enrustida alma deste sítio em que nos encontramos – o Overmundo mesmo, é claro- algo a ver com um almanaque? Teria este nosso webSítio, a esta altura dos nossos novos acontecimentos, vocação para ser um almanaque on line? Senão vejamos:

“…Mas desde o século XVIII, mesmo antes, o almanaque é um gênero ao mesmo tempo literário e editorial utilizado para difundir textos de natureza extremamente diferente. Daí o sucesso perpetuado de um livro que pode ser, ao mesmo tempo, útil e prazeroso, didático e de devoção, tradicional e “esclarecido”. Essa diversidade organiza a tipologia das obras, dos simples calendários, que indicam os santos de cada dia e as fases da lua, até os almanaques poéticos ou enciclopédicos. Ela se encontra igualmente no seio de muitos almanaques compostos de textos capazes de responder a todas as demandas, de satisfazer a todas as necessidades. …todos (os almanaques brasileiros, no caso:Nota do autor) foram ou são distribuídos gratuitamente pelos farmacêuticos; todos aceitam cartas, as contribuições de seus leitores, assim transformados em co-autores do livro. Sua importância para a cultura brasileira se mede em suas enormes tiragens de dois ou três milhões de exemplares e sua forte presença nas lembranças de leitura, ou de escuta, dos mais modestos leitores”.

(Extraído de ‘Bibliotecavirtual.clacso.org)

…”Segundo Correia e Guerreiro , o primeiro almanaque editado em Portugal data de 1496 : Almanach Perpetuum de Abrãão Zacuto, impresso em Leiria. Fornecia tábuas astronómicas e indicações para a sua utilização. No século XIX, sobretudo nas sua segunda metade, que os Almanaques se impõem em quantidade, e incontestável importância, se bem que completamente distanciados do avanço científico e técnico. De acordo com os seus públicos, podem ser um pequeno folheto, dirigido à população rural, e dos arredores das cidades, ou, então, aumentar o número de páginas, tornando-se num instrumento de divulgação de conhecimentos quer para um público geral, mais burguês e citadino, quer junto de algumas camadas sociais diferenciadas por ideários políticos, religiosos ou por outros interesses muito específicos…”

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A edição do Almanaque do Aluá/1 é primorosa. Consegui achar o site dos autores do projeto gráfico , onde descobri que só oito anos depois (2006), os responsáveis pela publicação conseguiram colocar na rua o número 2, que talvez possa ser ainda encontrado por aí (ironicamente, já um almanaque quase tão adolescente quanto eu, quando saí do SAM).

A leitura dos almanaques, espécie de revistas de variedades do tempo do ‘Ronca’, devia ser por regra leve e divertida – no que o Aluá é um exemplo perfeito e acabado. A política editorial mais rigorosamente seguida era a da diversidade, ou seja, nada de seções exclusivas, estanques ou limitações de tipo ‘nacionalistas’ ou mesmo regionalistas. Um almanaque brasileiro era, simplesmente, aquele escrito e editado por brasileiros.

Nos almanaques, portanto, a globalização da cultura, das idéias e dos conceitos já estava em voga, desde sempre (o que reitero aqui, é algo que dá o que pensar no caso deste nosso sítio). O Almanaque Aluá 1 aliás, tem como tema central a globalização (da cultura inclusive)

Coordenado e editado pela ong Sapé – Serviços de Apoio à Pesquisa em Educação do Rio de Janeiro (sape@ax.apc.org) e o Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular da FUNARTE, o Aluá tem em seu conselho editorial, entre outras valorosas figuras, o grande Claudius Ceccon, cartunista histórico da luta contra a ditadura, principal diretor do CECIP , instituição que, entre outros inestimáveis serviços, foi uma precursoras das TVs comunitárias no Brasil.

Para mim, o CECIP era, principalmente, a inusitada e heróica TV Maxambomba: Uma Kombi, uma câmera, um monitor e um telão. Filé e Lara, dupla dinâmica e equipe, fazendo sua TV mambembe ao vivo, em alguma praça ou rua da Baixada Fluminense (RJ), debatendo os problemas da população. Quem esqueceria?

Cuidadosa e amorosamente, escaneei algumas páginas desta preciosa publicação para vocês. Apreciem as imagens e leiam. Parece ou não parece um pouquinho com um certo site que vocês conhecem?

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Eu sei. Tem gente careca de saber, mas, tenham paciência e vejam também – com duplo sentido, por favor- este verbete da Wikipédia para a palavra ‘Site’

“Site é um termo inglês derivado de website ou Web site. Além de site, o conjunto de páginas também é chamado de website, Web site, www site ou, em Portugal, de sítio (às vezes websítio, sítio web ou sítio na Internet).

…Quando a World Wide Web foi criada, ela recebeu esse nome de seu criador Tim Berners-Lee. [1] Ele comparou a sua criação com uma teia, “web” em inglês. Cada nó dessa teia é um local onde há hipertextos. Como a palavra inglesa para local é site (também derivada do latim situs: “lugar, local”), quando as pessoas queriam se referir a um local da teia, elas falavam, web site. Assim um novo nome surgiu para designar esse novo conceito de nó onde há um conjunto de hipertextos: Web site….”

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Neste momento em que todos nós estamos meio que procurando uma luz no fim do túnel, envoltos em dúvidas atrozes sobre a morte da bezerra, talvez fosse o caso deste nosso webSítio se espelhar no belo exemplo editorial do Almanaque do Aluá e de seus empoeirados avós: Qualidade, beleza gráfica e máxima diversidade editorial, desde mil oitocentos e lá vai fumaça.

Seria maluquice ou impertinência sonhar que o Overmundo um dia pudesse se transformar, um pouquinho que fosse (até porque já se parece bastante) com uma espécie de novo e high tech Almanaque do Biotônico Fontoura?

(Eu ia dizer num novo Sítio do Pica Pau amarelo, mas, temi que alguns poucos não entendessem o espírito transcendental do trocadilho)

Simbolicamente, beduínos de todas as tribos conversando num lugar em que os seus camelos se ajoelham.

Monteiro Lobato iria adorar esta imagem, não é mesmo?

Spírito Santo

Janeiro 2008

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Em tempo (como nos almanaques)

Você sabia que o Aluá (o nome vem do doce árabe heluon) é uma bebida refrigerante (que alguns julgam ser indígena, mas, não é) trazida para o Brasil pelos portugueses, feita com a fermentação do abacaxi ou do milho moído?

Beba Aluá. Refresca, não engorda e faz crescer.

Notas finais: A capa de Claudius Ceccon é sobre o quadro Árvore da Humanidade de Paulo Sérgio da Silva, reproduzido do catálogo da bienal Näifs do Brasil, realizada pelo SESC em Piracicaba

A distribuição do Almanaque Aluá 1 foi gratuita e controlada

A Bula e o Escrevinhador


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Um não-Manual para contadores de histórias e afins

O tema é bem simples. Mais simples ainda do que o aspecto a que se refere: A mitologia e a mania dos seres humanos viverem, incansavelmente, contando e ouvindo histórias.

Como surgem as histórias? De onde elas vêm? Para que servem? Uns acham que elas pairam por aí, desde que o mundo é mundo, contaminando as mentes, se infiltrando nos sonhos de alguns loucos que as registram para que se perpetuem como retratos, exemplos, lições para a humanidade.

Outros acham que elas são construídas de forma cerebral, pragmática, a partir de fórmulas precisas, que capturam o modo de ser das pessoas, a maneira como elas percebem os fatos do cotidiano, e se emocionam, ficando fascinadas por eles, como diante de truques de mágica.

Os dois conceitos parecem exatos. E são. Ao que se sabe, o conhecimento humano só se estabelece assim, aos trancos e barrancos, por intermédio de saltos e tropeços ao acaso.

Pragmatismo e empirismo. Ciência e acaso. Razão e emoção. Sendo este, para o bem e para o mal, o sentido de nossa existência, é esta também a energia que nos impulsiona no ato de contar, ler e ouvir histórias.

Estudiosos das linguagens humanas como Noam Chomsky, por exemplo, são enfáticos em afirmar que o que nos move, em todos os aspectos de nossa vida, são os impulsos emocionais, a reação irreprimível que temos diante de uma ação ou agressão do meio. Talvez não seja um acaso que um dos mestres absolutos da literatura fantástica John Ronald Reuel Tolkien (‘Senhor dos Anéis’), tenha sido um lingüista como Chomsky.

Todas as linguagens, ou seja, toda a capacidade que temos de interagir com a natureza, transformando-a, comunicando-nos uns com os outros e, da mesma forma, nos transformando também, por intermédio da fala, da música, dos signos escritos, das cores, etc. estaria relacionada, diretamente à reações emocionais muito básicas, gravadas há séculos e séculos, no nosso cérebro primitivo. Simples como água corrente.

Segredos e truques de linguagem, uns adquirem com o tempo – talvez o melhor mestre desta arte – outros, obtém seus macetes a partir de um (sempre acessório) método.

Histórias. O prazer de escrevê-las não devia ser conspurcado por nenhum frio método científico e, realmente, não é isto o que propomos aqui. A razão é mais do que evidente: É impossível. Ninguém vira um escritor, ao menos razoável, seguindo apenas métodos. A bula não é a cura. A receita não contém todos os segredos do bolo. Há que se ralar, ralar e ralar e se conformar com o fato, inquestionável, de que todas as histórias já foram criadas e contadas. Há muito tempo.

É com este modesto propósito que decidimos trazer até vocês – aqueles que não conhecem, é claro – o trabalho fantástico de dois mestres contadores de histórias que se dedicaram, juntos, um a partir do outro, a definir como e porque as histórias são contadas. No processo, eles nos ensinam também a tirar o melhor proveito do ato de contá-las, nos dando pistas de como elas funcionam enfim; como as mil faces ou versões de um mesmo fato podem resultar numa experiência sensorial inebriante e inesquecível, ou num enfado decepcionante.

Simplificado sob sua forma mais elementar, o sistema de autoria de Chistopher Vogler baseado na obra de Joseph Campbel, reproduzido a seguir, não é, absolutamente, um manual. São estruturas narrativas extremamente flexíveis que podem – e na verdade devem – ser alteradas sempre, segundo as particularidades de cada história, de cada platéia, de cada tipo de leitor. A ordem estabelecida pode ser invertida ou alterada de inúmeras maneiras. Algumas partes podem, inclusive, ser suprimidas, apenas insinuadas ou subentendidas em entrelinhas, etc.

Deve-se levar em conta, sobretudo, que as estruturas narrativas mudam muito com o tempo e no espaço. Para se conquistar e reter a emoção de leitores ou platéias, o fator surpresa é sempre fundamental. O uso de estratagemas, cada vez mais inusitados, é uma regra constante. Os mapas da estrutura narrativa aqui expostos, bem como o papel desempenhado por cada um dos arquétipos citados neste contexto, devem estar a serviço, portanto, da narrativa, do desenrolar de seu transcurso, que precisa ser sempre surpreendente.

A melhor chave para se entender a proposta de Joseph Campbel (‘O homem das mil faces’ ou ‘A Jornada do Herói’) e Christopher Vogler (‘A Jornada do Escritor’) talvez seja compreender que, apesar de serem muitas, quase infinitas, as variações possíveis no ato de se contar uma história, no fundo, estamos contando sempre as mesmas caquéticas e míticas histórias, de uma mesma Jornada Ancestral que pode ser concebida como uma saga-matriz, única, comum a todos os seres humanos, que é a seguinte:

“Um homem (ou mulher), faminto e sem alternativa, sai de sua caverna em busca da comida que terá que conseguir a qualquer custo” ou “Um herói (ou heroína) sai de seu seguro mundo comum para se aventurar num mundo hostil e estranho”.

Tudo nesta proposta é simbólico. A ‘Jornada’ pode ser externa ou interna, íntima, ou seja, pode ser uma aventura física propriamente dita, com heróis, vilões, etc. ou uma história que se passa na mente e/ou coração do personagem. O que se segue, a história em si, são as surpresas ocultas nas curvas – a Vida – até se chegar ao destino inexorável do homem – a Morte.

A seguir, as etapas da Jornada do Herói, seguindo o roteiro criado por Christopher Vogler, dirigido à roteiristas e escritores em geral.

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A Jornada do Escritor

1- Mundo comum

A maioria das histórias leva o personagem principal para fora do seu mundo comum, cotidiano, em direção a um mundo especial, novo e estranho. Antes de mostrar alguém fora de seu ambiente costumeiro, obviamente primeiro deve-se mostrá-lo em seu mundo comum, para traçar um contraste nítido entre esse universo ordinário e o mundo especial no qual este alguém adentrará.

2 – Chamado à Aventura

Ao herói é apresentado um chamado à aventura, um desafio de grande risco. Uma vez apresentado esse chamado, o herói não pode mais permanecer indefinidamente em seu mundo comum.

3 – Recusa do chamado

É normal qualquer herói sentir medo após ser chamado à aventura. Quando o herói recusa, é necessário que em algum momento surja alguma influência para que ele vença esse medo. Pode ser um encorajamento do mentor; uma nova mudança na ordem natural das coisas. Quanto maior for o medo do herói em entregar-se à aventura, maior será o vínculo emocional do espectador com a ‘aventura’.

4 – Encontro com o Mentor

Nesse ponto da história, o herói já deve ter encontrado um mentor. A relação entre o mentor e o herói é um dos temas mais comuns na mitologia. A função do mentor é preparar o herói para enfrentar o desconhecido quando ele atravessar o primeiro limiar. O Mentor só pode ir até certo ponto com o herói, a partir do qual o herói deve prosseguir sozinho ao encontro do desconhecido. É importante frisar: Um herói pode ter vários mentores.

5 – Travessia do Primeiro Limiar – fim do primeiro ato

O herói encorajado ingressa enfim no mundo especial, dispõe-se a enfrentar a s conseqüências de lidar com o problema ou o desafio apresentado pelo chamado á aventura. Este limiar geralmente marca a passagem do primeiro para o segundo ato

6 – Testes, Aliados e Inimigos

O herói encontra seres, coisas ou elementos que o experimentam, desafiam ou estimulam a seguir na aventura, aprende em suma as regras deste mundo especial no qual ingressou. Estes testes e encontros com aliados, geralmente, se dão em espaços físicos especiais, espécies de ante-salas de ‘postos de fronteira’ entre o mundo comum e o outro mundo.

7 – Aproximação da Caverna Oculta

O grande portal da aventura, local ou estado onde os maiores desafios podem ou devem estar à espreita do herói. Segundo limiar a ser atravessado este deve ser um lugar aterrorizante que não pode ser evitado por que é lá que está escondido o objeto da aventura, aquilo que o herói precisa conquistar para que a sua aventura faça sentido.

8 – Provação Suprema

Rito de passagem. O herói entra na caverna oculta e passa por seu maior desafio ou sofrimento, no qual quase sucumbe. É o momento de vida ou morte, de maior suspense porque o expectador não sabe se o herói conseguirá escapar da força hostil contra a qual está se defrontando.

9 – Recompensa – Fim do segundo ato

Momento de alívio. Conseguindo sobreviver á provação suprema o herói adquire o direito de se apossar da recompensa, o objeto de toda a aventura. Momento de esclarecimento, compreensão, lucidez, encontro de uma solução para todos os dramas e dúvidas vividos pelo herói até aqui. Redenção.

10 – Caminho de volta

Obstáculos e novos desafios representados pela perseguição que o herói passa a sofrer das forças vingadoras, remanescentes daquelas contra as quais combateu que, em geral não foram totalmente destruídas. Momento no qual o herói decide que precisa voltar ao mundo comum, de qualquer modo, e que existem ainda novos desafios em sua vida, daqui para frente.

11 – Ressurreição

O herói precisa passar ainda pela última grande provação que é destruir definitivamente as forças vingativas que o perseguiram e o encontraram. Novo momento de vida ou morte no qual o herói vence com louvor e cruza enfim o terceiro limiar sendo totalmente transformado pela experiência.

12 – Volta com o Elixir – Fim 3o ato

O herói retorna ao mundo comum com uma bênção ou um tesouro que beneficia este mundo comum. Caso não traga este elixir, esta prova material de que viveu e venceu a aventura, o herói terá que recomeçar seu caminho de novo.

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Os arquétipos

1. Arauto – aquele que anuncia ou chama a mudança, o que motiva. Nova energia, pessoa, condição ou informação que desequilibra de vez o herói, obrigando-o a tomar a decisão de enfrentar o desafio principal. É o arquétipo do arauto que entrega ao herói ‘o chamado á aventura’. O Arauto pode ser, portanto, uma pessoa boa ou má, ou mesmo uma força, um elemento da natureza.

2. Camaleão– aquele que introduz a dúvida, a confusão, que imprime suspense na história porque não se sabe exatamente de que lado ele está- aquele que não é o que aparenta ser, volúvel. Mais uma função dramática do que um arquétipo comum, o camaleão pode ser usado por qualquer personagem segundo as necessidades da história.

3. Guardião de limiar– obstáculos, empecilhos (humanos, animais, físicos ou não, como neuroses, medos, demônios interiores ou exteriores, vícios, dependências psicológicas, limitações pessoais) que se antepõe ao herói diante de um importante ponto da jornada que precisa ser ultrapassado- capatazes do vilão ou mesmo aliados do herói com a função de testar sua disposição para os desafios que virão.

4. Herói – Palavra grega = ‘proteger e servir’. disposto ao sacrifício para beneficiar o próximo – ego, ser distinto dos demais- o que se destaca, distinto do grupo, aquele que se separa da tribo para defendê-la. Função de ser a janela através da qual se enxerga a história e que deve possuir características variadas tantas quanto pode possuir uma pessoa (mistura de características universais). Crescimento, processo, ser em transformação- aquele que mais cresce com a experiência da jornada – disposto a tudo ou relutante de tudo que por fim se decide ou é levado a se decidir pelas circunstâncias. Solitário, solidário ou catalizador. Ser que se acha separado em várias partes que precisam ser incorporadas para se tornar um ser integral.

5. Mentor– velha ou velho sábio. Aquele que guia- inspiração divina, deus ou aquele que entusiasma (‘en theos’) id (dentro de nós) consciência, um dos pais- madrinha ou padrinho – professor, mestre, aquele que presenteia e recompensa (dá a chave, o segredo) com o talismã – provedor, inventor – motivador- o que planta e inicia (inclusive sexualmente)- aquele que dá o exemplo (bom ou mau). Mentores podem ser ‘caídos’, relutantes e patéticos, continuados (designam missões), múltiplos (vários mentores, um por cada missão), cômicos (como amigos confidentes)- xamãs, flexíveis (pode estar conjugado em qualquer outro arquétipo).

6. Pícaro– aquele que zomba com sabedoria da ordem mal estabelecida, do que não é real ou não deve ser levado a sério. Inimigo natural do status quo. Aquele que alerta que é necessária uma mudança. Aquele que alivia as tensões que estão prestes a produzir uma explosão fora de hora. Geralmente, os pícaros são coadjuvantes, mas, em muitos casos podem ser utilizados como muito acerto como heróis (heróis picarescos), neste caso costumam ser heróis catalisadores, que mudam o caráter dos outros personagens sem mudar a si próprios.

7- Sombra– entidade conflitante, energia do lado obscuro, aspectos não expressos, irrealizados ou rejeitados de alguma coisa, ou ser, partes obscuras de nossa personalidade, recalques escondidos. Estas qualidades, do ponto de vista do herói, aparecem, normalmente, nos antagonistas, inimigos e vilões, mas, podem ser também aliados que discordam da forma como o herói se conduz na história e tentam fazer de outra forma, criando um conflito. Como o Camaleão o Sombra pode ser utilizado como função dramática em qualquer personagem.

(Publicado, originalmente, em www.overmundo.com.br)

Garça Parda


(Foto Spírito Santo)
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Conto

Curioso. Já havia passado por ali mil vezes e nunca havia visto aquela estátua.

Túnica verde escura, azinhavrada pelo tempo, rígida – de bronze que era – leve e diáfana porém, como se uma brisa fosse,  a qualquer momento revelar totalmente, o frêmito arrepiado das pernas lisas da outrora ninfa, hoje mulher grega amadurecida, de tanto com o cântaro ir à fonte.

Feia sim, mas se via lá alguma graça naquele jeito só seu de ser miss de maratona em desfile no Parthenon.

É. Linda ela não era, que as gregas destas estátuas geralmente nunca o são. Nariz adunco, pescoço curvo, tudo a fazê-la muito mais harpia do que garça, naquela sem-gracice toda do feminismo lívido, às avessas, que dizem ser o das mulheres de Atenas, aquelas dos maridos ausentes, sem um Ricardão que seja para lhes encher de enlevo os dias, quiçá as noites de solidão.

Beleza mesmo só naquelas sandalinhas de tiras finas que usava, de um couro que mesmo sendo fundido no bronze, alguma coisa de delicado tinha; como também eram delicadas as solinhas rasteiras, de mínima espessura, quase a lhes deixar o calor do chão queimar a planta dos pezinhos de fada-mulher. Quem não há de os querer ver e admirar? Quem?

E não é por isto mesmo que ela está ali, submissa estátua de jardim?

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Pois foi assim mesmo, saída do enlevo desta visão súbita e sensual de uma ex-ninfa de bronze no jardim, que aquela, a outra, me apareceu – sei lá de onde nem quem era, pois nem havia lhe visto rosto ainda – num susto, me pedindo, não me lembro bem o que.

Estava sobre os saltos toscos e imensos de um sandalhão cravejado de pregos dourados, como se calçar aquelas plataformas elevatórias a fizesse magnífica, rainha entronizada de poderes inquestionáveis, impregnada de uma belezura qualquer, destas de magazines fashionistas. Pois sim.

Sem levantar os olhos ainda, as sandálias dela o que me lembravam mesmo, eram aquelas espécies de próteses que as acometidas pela poliemielite de antigamente usavam, uma perna curta outra comprida, um solado bem grossão (como o da aparição magrela), e o outro fino fininho (como a solinha da ex-ninfa estátua), a compensar o andar “deixa-que-e-chuto” delas.

Como, sem os solões, as coitadas das aleijadinhas rebolariam? Como arranjariam maridos? Sem aquela correção de status, de nível, o caminhar delas ficava como uma destrambelhada dança de braço de roda de locomotiva, “chaca …chuco”, “chaca …chuco”, ou como aqueles toc sim, toc não, soando na calçada, no fim da madrugada, fazendo a gente, meio que dormindo ainda, pensar:

“_Ai!..Lá vai a coitada da solteirona aleijadinha comprar pão!”

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E ela ali, com as mãos nas cadeiras, quase mesmo – ou pouco mais do que – uma aleijadinha compensada, pude perceber, quando levantei os olhos para a sua aparição esquálida e ainda estranha demais, me sorrindo um sorriso meio sem sentido, já que não havia em mim – ou no lusco-fusco cinzento daquele dia – nada que tivesse tanta graça, algo a mais, de fazer alguém sorrir, insinuante, como gatinha filhote a se imaginar pantera, felinamente, miando assim, à toa.

No banco da praça atônito estava, atônito fiquei, ainda sem compreender inteiras as nuances daquela visão embaçada, ouvindo ela falar coisas que eu não ouvia. Com o que ela se parecia? Cobra não. Harpia não, já que não grasnara ainda ofensa alguma, talvez até por não compreender ainda o que o fel cruel das maledicências são.

Onça? Não, que nada. Algum bicho pernalta talvez, pensei confuso; garça esfaimada sim, a precisar, como todas, fisgar no lago algum cardume de gerinos, engulir algum peixinho dourado mais desavisado, uma rãzinha nervosa, sei lá, alguma dessas coisas que as garças, por costume ou por necessidade, engolem quase sem comer.

Mas, não. Misteriosa demais, a garça era suja e pardacenta como estava o dia, e uma das coisas que sei nesta vida, é que pardacentas e sujas – as garças definitivamente, não são.

_”Quer tio? Quer tio? Eu faço!”

Não havia mão alguma estendida, pedindo um trocadinho, um real, um salgadinho. Apenas a altivez desastrada de uma criança de sandalhão, como aqueles malabaristas magricelas de sinal de trânsito, um em cima do outro, pirâmide desumana quase a se desconjuntar, desmoronar, por uns trocados. Saltimbancos maltrapilhos a trançar lançados limões murchos para o ar.

Por nada.

Isto: A altivez do sandalhão era altivez de coisa nenhuma, de estima alguma pelo que vai acontecer no outro dia, no amanhã que Deus, por certo, ao que todos os indícios anunciam, não dará.

A única diferença era mesmo esta: a magrela garça parda era uma meninazinha de rua.

De nada.

Tinha um sorriso maroto manchado de um barato baton carmim-melado; saiotinho também de nada, apenas encobrindo o ainda nenhum quadril. Os cambitos de coxas-gravetos marcados de lanhos, escoriações generalizadas, porém, marcas indolores de antigas quedas e rusgas, nas meio que brincadeiras meio que brigas de pique-esconde, queimada; as canelas finas, mais afinadas ainda pelos remelexos da dança do Créu.

E – Deus meu! – constrangedoramente, tremelicava a língua para mim, em meio ao tlec tlec de um chiclete gosmento que mascava (de fome mesmo talvez), macaqueando micro sinuosidades de minhoca querendo ser mulherzinha-serpente, a se pensar prety baby, ninfeta femme fatale de filme noir classe C da TV.

E cheirava um cheiro de tinta fresca, embora estivesse suja. Ratazana ou gata de rua? Comida de si mesma? Os olhos, engazeados por alguma inebriante coisa ruim qualquer, assustados com não sei o que, não combinavam mesmo, nada nada, com aquele sorriso de menininha meretriz de 11 anos, balbuciando no tremelico de língua, já impaciente:

_”Quer tio? Quer tio? Eu faço!”

Foi quando meus olhos compreenderam naquele retrato de lolita imunda, o mundo-cão que emergia ali, daninho, matando toda a grama nova do jardim. No fundo, bem no fundo dos olhos dela, dava para se ver um determinismo de morte, ali mesmo, no interior da sua ainda minúscula imagem, eu via uma fumacinha branca de crack saindo e uma borra de sangue hiv positivo manchando a blusa, por todas as mazelas contaminada, sabe-se lá por que venenos picada: Bauretes? Boquetes? Croquetes?

Porco corredor curto da morte, a fumaça na chaminé de barro sem apito de fábrica de tecidos. Como naquelas imagens judias de campo de concentração – Jardim ou Campo? Arbeit macht frei, parecia estar escrito agora na grade de ferro do portão do jardim.

Jardim conspurcado, o ar a nossa volta foi tomado então pelo cheiro insuportável do thinner que ela cheirara e tive náuseas; uma sensação estranha de vergonha e remorso, no meio de uma vontade enorme de fugir logo dali, o mais depressa que pudesse.

_”Quer tio? Quer tio? Eu faço!”

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E fugi.

Passarei mais mil vezes por ali sim, pelo jardim, mas, agora com outros olhos, paixão irresistível – e escapista – que passei a sentir pelas estátuas de mulheres gregas, agora sim, para sempre lindas de morrer.

Platônicas. Bem longe daqui e de mim que as adoro helenas serenas, daquelas que antes ninfas meninas, tiveram tempo de crescer e se fazerem mulheres maravilhas; sem dolo, sem desconsolo; sem pressa e sem secura no canto da boca; nenhum abandono que não seja aquele de se deixar ficar, tolamente imóveis, tal e qual estátuas de Parthenon sem dono e sem mecenas, esperando num jardim qualquer os seus não menos tolos, como descritos, efêmeros e desenganados maridos…

…e ainda assim sem morrer de desamor.

Spirito Santo
Maio 2008