Garça Parda

(Foto Spírito Santo)
garca_parda
Conto

Curioso. Já havia passado por ali mil vezes e nunca havia visto aquela estátua.

Túnica verde escura, azinhavrada pelo tempo, rígida – de bronze que era – leve e diáfana porém, como se uma brisa fosse,  a qualquer momento revelar totalmente, o frêmito arrepiado das pernas lisas da outrora ninfa, hoje mulher grega amadurecida, de tanto com o cântaro ir à fonte.

Feia sim, mas se via lá alguma graça naquele jeito só seu de ser miss de maratona em desfile no Parthenon.

É. Linda ela não era, que as gregas destas estátuas geralmente nunca o são. Nariz adunco, pescoço curvo, tudo a fazê-la muito mais harpia do que garça, naquela sem-gracice toda do feminismo lívido, às avessas, que dizem ser o das mulheres de Atenas, aquelas dos maridos ausentes, sem um Ricardão que seja para lhes encher de enlevo os dias, quiçá as noites de solidão.

Beleza mesmo só naquelas sandalinhas de tiras finas que usava, de um couro que mesmo sendo fundido no bronze, alguma coisa de delicado tinha; como também eram delicadas as solinhas rasteiras, de mínima espessura, quase a lhes deixar o calor do chão queimar a planta dos pezinhos de fada-mulher. Quem não há de os querer ver e admirar? Quem?

E não é por isto mesmo que ela está ali, submissa estátua de jardim?

————–

Pois foi assim mesmo, saída do enlevo desta visão súbita e sensual de uma ex-ninfa de bronze no jardim, que aquela, a outra, me apareceu – sei lá de onde nem quem era, pois nem havia lhe visto rosto ainda – num susto, me pedindo, não me lembro bem o que.

Estava sobre os saltos toscos e imensos de um sandalhão cravejado de pregos dourados, como se calçar aquelas plataformas elevatórias a fizesse magnífica, rainha entronizada de poderes inquestionáveis, impregnada de uma belezura qualquer, destas de magazines fashionistas. Pois sim.

Sem levantar os olhos ainda, as sandálias dela o que me lembravam mesmo, eram aquelas espécies de próteses que as acometidas pela poliemielite de antigamente usavam, uma perna curta outra comprida, um solado bem grossão (como o da aparição magrela), e o outro fino fininho (como a solinha da ex-ninfa estátua), a compensar o andar “deixa-que-e-chuto” delas.

Como, sem os solões, as coitadas das aleijadinhas rebolariam? Como arranjariam maridos? Sem aquela correção de status, de nível, o caminhar delas ficava como uma destrambelhada dança de braço de roda de locomotiva, “chaca …chuco”, “chaca …chuco”, ou como aqueles toc sim, toc não, soando na calçada, no fim da madrugada, fazendo a gente, meio que dormindo ainda, pensar:

“_Ai!..Lá vai a coitada da solteirona aleijadinha comprar pão!”

————-

E ela ali, com as mãos nas cadeiras, quase mesmo – ou pouco mais do que – uma aleijadinha compensada, pude perceber, quando levantei os olhos para a sua aparição esquálida e ainda estranha demais, me sorrindo um sorriso meio sem sentido, já que não havia em mim – ou no lusco-fusco cinzento daquele dia – nada que tivesse tanta graça, algo a mais, de fazer alguém sorrir, insinuante, como gatinha filhote a se imaginar pantera, felinamente, miando assim, à toa.

No banco da praça atônito estava, atônito fiquei, ainda sem compreender inteiras as nuances daquela visão embaçada, ouvindo ela falar coisas que eu não ouvia. Com o que ela se parecia? Cobra não. Harpia não, já que não grasnara ainda ofensa alguma, talvez até por não compreender ainda o que o fel cruel das maledicências são.

Onça? Não, que nada. Algum bicho pernalta talvez, pensei confuso; garça esfaimada sim, a precisar, como todas, fisgar no lago algum cardume de gerinos, engulir algum peixinho dourado mais desavisado, uma rãzinha nervosa, sei lá, alguma dessas coisas que as garças, por costume ou por necessidade, engolem quase sem comer.

Mas, não. Misteriosa demais, a garça era suja e pardacenta como estava o dia, e uma das coisas que sei nesta vida, é que pardacentas e sujas – as garças definitivamente, não são.

_”Quer tio? Quer tio? Eu faço!”

Não havia mão alguma estendida, pedindo um trocadinho, um real, um salgadinho. Apenas a altivez desastrada de uma criança de sandalhão, como aqueles malabaristas magricelas de sinal de trânsito, um em cima do outro, pirâmide desumana quase a se desconjuntar, desmoronar, por uns trocados. Saltimbancos maltrapilhos a trançar lançados limões murchos para o ar.

Por nada.

Isto: A altivez do sandalhão era altivez de coisa nenhuma, de estima alguma pelo que vai acontecer no outro dia, no amanhã que Deus, por certo, ao que todos os indícios anunciam, não dará.

A única diferença era mesmo esta: a magrela garça parda era uma meninazinha de rua.

De nada.

Tinha um sorriso maroto manchado de um barato baton carmim-melado; saiotinho também de nada, apenas encobrindo o ainda nenhum quadril. Os cambitos de coxas-gravetos marcados de lanhos, escoriações generalizadas, porém, marcas indolores de antigas quedas e rusgas, nas meio que brincadeiras meio que brigas de pique-esconde, queimada; as canelas finas, mais afinadas ainda pelos remelexos da dança do Créu.

E – Deus meu! – constrangedoramente, tremelicava a língua para mim, em meio ao tlec tlec de um chiclete gosmento que mascava (de fome mesmo talvez), macaqueando micro sinuosidades de minhoca querendo ser mulherzinha-serpente, a se pensar prety baby, ninfeta femme fatale de filme noir classe C da TV.

E cheirava um cheiro de tinta fresca, embora estivesse suja. Ratazana ou gata de rua? Comida de si mesma? Os olhos, engazeados por alguma inebriante coisa ruim qualquer, assustados com não sei o que, não combinavam mesmo, nada nada, com aquele sorriso de menininha meretriz de 11 anos, balbuciando no tremelico de língua, já impaciente:

_”Quer tio? Quer tio? Eu faço!”

Foi quando meus olhos compreenderam naquele retrato de lolita imunda, o mundo-cão que emergia ali, daninho, matando toda a grama nova do jardim. No fundo, bem no fundo dos olhos dela, dava para se ver um determinismo de morte, ali mesmo, no interior da sua ainda minúscula imagem, eu via uma fumacinha branca de crack saindo e uma borra de sangue hiv positivo manchando a blusa, por todas as mazelas contaminada, sabe-se lá por que venenos picada: Bauretes? Boquetes? Croquetes?

Porco corredor curto da morte, a fumaça na chaminé de barro sem apito de fábrica de tecidos. Como naquelas imagens judias de campo de concentração – Jardim ou Campo? Arbeit macht frei, parecia estar escrito agora na grade de ferro do portão do jardim.

Jardim conspurcado, o ar a nossa volta foi tomado então pelo cheiro insuportável do thinner que ela cheirara e tive náuseas; uma sensação estranha de vergonha e remorso, no meio de uma vontade enorme de fugir logo dali, o mais depressa que pudesse.

_”Quer tio? Quer tio? Eu faço!”

————-

E fugi.

Passarei mais mil vezes por ali sim, pelo jardim, mas, agora com outros olhos, paixão irresistível – e escapista – que passei a sentir pelas estátuas de mulheres gregas, agora sim, para sempre lindas de morrer.

Platônicas. Bem longe daqui e de mim que as adoro helenas serenas, daquelas que antes ninfas meninas, tiveram tempo de crescer e se fazerem mulheres maravilhas; sem dolo, sem desconsolo; sem pressa e sem secura no canto da boca; nenhum abandono que não seja aquele de se deixar ficar, tolamente imóveis, tal e qual estátuas de Parthenon sem dono e sem mecenas, esperando num jardim qualquer os seus não menos tolos, como descritos, efêmeros e desenganados maridos…

…e ainda assim sem morrer de desamor.

Spirito Santo
Maio 2008

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~ por Spirito Santo em 19/09/2008.

2 Respostas to “Garça Parda”

  1. E foi meio por sua sugestão que eu desencavei esta minha prosa. Não estou certo, quando digo que a literatura de ficção tem mais poder de persuasão do que o jornalismo e a crônica?

    Obrigado e abs

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  2. Grande Spírito, arrancas-me lágrimas ! Até quando, camarada, até quando ?

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