BEBA ALUÁ!


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(publicado, originalmente em
www.overmundo.com.br)

“A palavra almanaque ou Almanach do árabe al-mana_kh). Segundo o historiador Stephanos Demetriou Stephanou Neto, al- manakh (literalmente `lugar em que o camelo se ajoelha`) era o ponto de reunião dos beduínos para conversar e trocar informações sobre o dia- a – dia.

Essa palavra adquiriu no Brasil, o significado de uma obra impressa de conteúdo científico, literário e humanístico. O primeiro e, provavelmente, mais duradouro dos almanaques brasileiros foi o Laemmert, publicado entre 1843 e 1937..”
(Verbete da Wikipédia – e de outra fonte linkada – para ‘Almanaque’)

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Achei o meu exemplar do Almanaque do Aluá número 1 de 1998 por acaso. Remexendo livros (estes sítios-lugares remotos e arcaicos de onde, espanando a poeira, ainda hoje nos saem tantas lembranças, luzes e informação).

Por acaso sim, como quem não quer nada, me deparei com aquilo que era a quase perfeita recriação dos almanaques de minha infância. Lembrei de muitos almanaques. Lembrei até, não sei porque, do Monteiro Lobato e seu espírito essencialmente ‘almanárquico’, contido no seu Sítio do Pica Pau Amarelo, nos informando sobre tudo que havia no mundo por intermédio de suas fantásticas fábulas…ou melhor: sei sim, por que Lobato: foi por causa do Almanaque Biotônico Fontoura (um ‘fortificante’, na verdade um vinhozinho-delícia que eu tomava em colheradas felizes, até quase me embriagar).

Foi este almanaque do grande Monteiro Lobato que lançou o nosso Jeca Tatu, que junto com o Macunaíma, forma a dupla tão indesejada quanto amada, de heróis de nossa raça brasileira, vocês se lembram?

Lembrei vivamente também dos ‘Anuário das Senhoras’, o grosso almanaque de onde minha mãe costureira tirava muitos e muitos modelos de vestidos para suas modestas clientes.

Foi vendo uma foto do ‘Anuário das Senhoras’ de 1953, eu acho, que tomei uma das decisões mais imbecis da minha vida que foi, no ensejo de aliviar a dura vida de minha mãe viúva e seus três filhos (eu o mais velho), pedir e insistir para que ela me colocasse num colégio interno, julgando, infantilmente, que todo colégio interno era igual ao daquela foto do ‘Anuário’: Uma freira costurando carinhosamente um botão caído do casaco de um rosado menino americano (ou europeu, sei lá).

Ledo engano. Nem um pouco europeu e muito menos rosado, amarguei – se bem me lembro durante oito longos anos – a dura vida de menino interno no SAM, desditosa instituição da década de 50, apenas um pouco menos ruim do que aquela famigerada Funabem que a sucedeu, até chegarmos às cada vez piores unidades ‘sócio-educativas’ de hoje em dia, tenebrosos presídios onde se encarceram crianças (odiosa invenção brasileira pela qual pagaremos um preço bem alto algum dia).

Sofri ali calado, sem fugir, o mais que pude, até um dia, já adolescente, tomar coragem e ‘pedir pra sair’.

Teria sido culpa do imaginário maravilhoso criado em nosso espírito pelos almanaques ou teria sido mesmo coisa do meu inexorável destino?

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Na confusão toda que se estabeleceu em mim, com este turbilhão de lembranças, me ocorreu também uma questão que talvez interesse a vocês:

Teria a enrustida alma deste sítio em que nos encontramos – o Overmundo mesmo, é claro- algo a ver com um almanaque? Teria este nosso webSítio, a esta altura dos nossos novos acontecimentos, vocação para ser um almanaque on line? Senão vejamos:

“…Mas desde o século XVIII, mesmo antes, o almanaque é um gênero ao mesmo tempo literário e editorial utilizado para difundir textos de natureza extremamente diferente. Daí o sucesso perpetuado de um livro que pode ser, ao mesmo tempo, útil e prazeroso, didático e de devoção, tradicional e “esclarecido”. Essa diversidade organiza a tipologia das obras, dos simples calendários, que indicam os santos de cada dia e as fases da lua, até os almanaques poéticos ou enciclopédicos. Ela se encontra igualmente no seio de muitos almanaques compostos de textos capazes de responder a todas as demandas, de satisfazer a todas as necessidades. …todos (os almanaques brasileiros, no caso:Nota do autor) foram ou são distribuídos gratuitamente pelos farmacêuticos; todos aceitam cartas, as contribuições de seus leitores, assim transformados em co-autores do livro. Sua importância para a cultura brasileira se mede em suas enormes tiragens de dois ou três milhões de exemplares e sua forte presença nas lembranças de leitura, ou de escuta, dos mais modestos leitores”.

(Extraído de ‘Bibliotecavirtual.clacso.org)

…”Segundo Correia e Guerreiro , o primeiro almanaque editado em Portugal data de 1496 : Almanach Perpetuum de Abrãão Zacuto, impresso em Leiria. Fornecia tábuas astronómicas e indicações para a sua utilização. No século XIX, sobretudo nas sua segunda metade, que os Almanaques se impõem em quantidade, e incontestável importância, se bem que completamente distanciados do avanço científico e técnico. De acordo com os seus públicos, podem ser um pequeno folheto, dirigido à população rural, e dos arredores das cidades, ou, então, aumentar o número de páginas, tornando-se num instrumento de divulgação de conhecimentos quer para um público geral, mais burguês e citadino, quer junto de algumas camadas sociais diferenciadas por ideários políticos, religiosos ou por outros interesses muito específicos…”

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A edição do Almanaque do Aluá/1 é primorosa. Consegui achar o site dos autores do projeto gráfico , onde descobri que só oito anos depois (2006), os responsáveis pela publicação conseguiram colocar na rua o número 2, que talvez possa ser ainda encontrado por aí (ironicamente, já um almanaque quase tão adolescente quanto eu, quando saí do SAM).

A leitura dos almanaques, espécie de revistas de variedades do tempo do ‘Ronca’, devia ser por regra leve e divertida – no que o Aluá é um exemplo perfeito e acabado. A política editorial mais rigorosamente seguida era a da diversidade, ou seja, nada de seções exclusivas, estanques ou limitações de tipo ‘nacionalistas’ ou mesmo regionalistas. Um almanaque brasileiro era, simplesmente, aquele escrito e editado por brasileiros.

Nos almanaques, portanto, a globalização da cultura, das idéias e dos conceitos já estava em voga, desde sempre (o que reitero aqui, é algo que dá o que pensar no caso deste nosso sítio). O Almanaque Aluá 1 aliás, tem como tema central a globalização (da cultura inclusive)

Coordenado e editado pela ong Sapé – Serviços de Apoio à Pesquisa em Educação do Rio de Janeiro (sape@ax.apc.org) e o Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular da FUNARTE, o Aluá tem em seu conselho editorial, entre outras valorosas figuras, o grande Claudius Ceccon, cartunista histórico da luta contra a ditadura, principal diretor do CECIP , instituição que, entre outros inestimáveis serviços, foi uma precursoras das TVs comunitárias no Brasil.

Para mim, o CECIP era, principalmente, a inusitada e heróica TV Maxambomba: Uma Kombi, uma câmera, um monitor e um telão. Filé e Lara, dupla dinâmica e equipe, fazendo sua TV mambembe ao vivo, em alguma praça ou rua da Baixada Fluminense (RJ), debatendo os problemas da população. Quem esqueceria?

Cuidadosa e amorosamente, escaneei algumas páginas desta preciosa publicação para vocês. Apreciem as imagens e leiam. Parece ou não parece um pouquinho com um certo site que vocês conhecem?

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Eu sei. Tem gente careca de saber, mas, tenham paciência e vejam também – com duplo sentido, por favor- este verbete da Wikipédia para a palavra ‘Site’

“Site é um termo inglês derivado de website ou Web site. Além de site, o conjunto de páginas também é chamado de website, Web site, www site ou, em Portugal, de sítio (às vezes websítio, sítio web ou sítio na Internet).

…Quando a World Wide Web foi criada, ela recebeu esse nome de seu criador Tim Berners-Lee. [1] Ele comparou a sua criação com uma teia, “web” em inglês. Cada nó dessa teia é um local onde há hipertextos. Como a palavra inglesa para local é site (também derivada do latim situs: “lugar, local”), quando as pessoas queriam se referir a um local da teia, elas falavam, web site. Assim um novo nome surgiu para designar esse novo conceito de nó onde há um conjunto de hipertextos: Web site….”

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Neste momento em que todos nós estamos meio que procurando uma luz no fim do túnel, envoltos em dúvidas atrozes sobre a morte da bezerra, talvez fosse o caso deste nosso webSítio se espelhar no belo exemplo editorial do Almanaque do Aluá e de seus empoeirados avós: Qualidade, beleza gráfica e máxima diversidade editorial, desde mil oitocentos e lá vai fumaça.

Seria maluquice ou impertinência sonhar que o Overmundo um dia pudesse se transformar, um pouquinho que fosse (até porque já se parece bastante) com uma espécie de novo e high tech Almanaque do Biotônico Fontoura?

(Eu ia dizer num novo Sítio do Pica Pau amarelo, mas, temi que alguns poucos não entendessem o espírito transcendental do trocadilho)

Simbolicamente, beduínos de todas as tribos conversando num lugar em que os seus camelos se ajoelham.

Monteiro Lobato iria adorar esta imagem, não é mesmo?

Spírito Santo

Janeiro 2008

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Em tempo (como nos almanaques)

Você sabia que o Aluá (o nome vem do doce árabe heluon) é uma bebida refrigerante (que alguns julgam ser indígena, mas, não é) trazida para o Brasil pelos portugueses, feita com a fermentação do abacaxi ou do milho moído?

Beba Aluá. Refresca, não engorda e faz crescer.

Notas finais: A capa de Claudius Ceccon é sobre o quadro Árvore da Humanidade de Paulo Sérgio da Silva, reproduzido do catálogo da bienal Näifs do Brasil, realizada pelo SESC em Piracicaba

A distribuição do Almanaque Aluá 1 foi gratuita e controlada

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