Os Caras


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Um cara:

(adrenalina a mil, trincadão, falando sem parar)

_ Aí, o seguinte: Perdeu, meu! Não levou fé e nem sentiu firmeza, né? Pensou que fosse esmola, foi? Tu tava era me achando assim um otário, um mané desses aí, qualquer nota, que estão sempre batendo cabeça, como se tu fosse um qualquer coisa dessas aí, assim, importante pra caramba, um doutor desses, das colunas de jornal. Percebeu o ferro? O cagaço prateado? O argumento frio do dedo no gatilho? E aí? Vai encarar? Quer sentir o cano duro na espinha? E agora? Gelou, não foi? Apertou o fiofó? Não passa nem agulha, certo? Dá pra ver pela tua cara de bundão, sem chão onde pisar. Seu merda.

Achou que eu era um cara bom, do bem, mas se danou, mermão. Eu sou mau, mau, mau, bem pior do que um pica pau, cheio daquelas picardias passadas pelas crueldades desta vida, sacumé? Muito pé descalço e sacanagem. Rodado. Sou o que sou. Vai fazer o que?

Abre! Abra a porra do vidro, anda! Achou que era um moleque desses de sinal, di menor ainda, inofensivo, só que meio grandão, não é? Algum sujinho, imundo, pacato malabarista de limão murcho? Errou no diagnóstico da parada, tu viu a situação, assim… de forma… cumé que tu diz?…equivocada, morou? Vacilou, doutor bobão. Já era.

Trabalhar é o caralho! Me arrepio só de dizer este nome feio, baixo calão, chulo, palavrão. Não sabia? Pois vira esta boca rota pra lá, rapá! Nem pensa. Li no teu olho. Deus que te livre e guarde. Nem pensa em pensar tal blasfêmia aqui, na minha frente, que eu posso até, de nervoso, raivoso, apertar o dedo em ti, e aí sim, tu babáu, morreu, seu língua solta. Vê se me tem respeito, tá legal?

Trabalho pra mim é chongas, palavra sem sentido. Pesadelo. Me dá ânsia de vômito só de me imaginar, cumprindo a maldita rotina de, cinco horas acordar, cinco e quinze sair, cinco horas acordar, cinco e quinze sair, cinco horas acordar, cinco e quinze sair…

Dia após dia.

Num meio tempo qualquer desses aí, aturar o mal humor da mulher caída, canhão, baranga, dragão, semi adormecida, que me acompanha na vida de cão cachorro sem vergonha que eu, se fosse um desses, relevaria, perdoando o mal humor dela, por que sei que ele vem daquelas bolhas ardentes que ela carrega no punho, feito um bracelete, bolhas e bolhas de óleo respingado da frigideira preta, de toda santa madrugada fritar aquele ôvo mínimo e solitário, olhando, meio dormindo ainda, aquela porra de clara branca espalhada, aquele arroz branco empapado, achatado na marmita de tapeware esbranquiçada, aquela gema feito a coroa amarelo-dourada de algum rei de sonho, faminto rei torto do meio-dia, comendo sofregamente a sua comida, depois de cumprir metade de uma batalha de merda, sem glória nenhuma pra justificar a fome de leão.

Vomito só de pensar: Tomar um banho as cinco e as cinco quinze partir, pegar um ônibus cata-corno desses, lotado, empanturrado de otários e choacalhar pela Avenida Brasil, feito um côco ensacado, num saco mal amarrado, em tempo de rolar pelo asfalto e um carro atropelar, alguém chutar. Vê só. Olha pra mim… – não, não olha não, senão tu morre, mané! – Só pensa. Pára pra pensar: Dá pra eu me enquadrar neste perfil?

Detesto insufilm, não deixa eu ver tua cara. Abre! Abre logo a porra do vidro, caralho! Anda!

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_ Eu disse pra não olhar, pera lá…Que olhar de banda é este? Ai ai ai! Tá me esnobando, é, bebé? Tem grana aí? Já percebi. Filmei. Deu mole, mané. Ah, sim. Beleza! Então. Tanto melhor pra tu, seu babaca. Já tinha visto pela tua elegância de pato de galocha que tu é besta pra dedéu.

Ah, é? Não abaixa a crista não é? Então tá. Me dá, porra! Me dá logo este tablet! O celular também! Agora! Me irritou esta pachorra tua de levantar os olhos pra mim, tipo que nem é contigo, que não te interessa a vida do otário operário que eu te contei como é que era.

E se fosse mesmo eu, o tal do operário? E se fosse o meu passado que eu estivesse te contando assim, pra tu, na boa, na maior, confidentemente? Tu é frio, cara! Tu é sangue ruim, sangue de cazuza, logo se vê.

Tu não é um duro, certo? Não tivesses um qualquer aí, pra me dar, e ia ver só a merda em que estava se enfiando. Tiro na bunda, seu mofino filho da puta! E na cara. Duro tu seria um duro morto, agora mesmo – Foda-se! – Diria eu. Podes crer. Pra teu governo, por isto mesmo, não se esqueça e não se iluda com a parada.

Lembra que eu não sou, nem nunca fui e nem vou ser, jamais, este otário personagem bonzinho que trabalha duro. Destes que abaixam os olhos pra tu, arriam as calças pra tu, abrem a porta pra tu, servem cafezinho pra tu, que quase lambem o teu cú. Não.

Não sou. Sou de outra laia. Outra qualidade, morou? Sou o bicho solto, cão-raivoso-chupando-manga no meio da noite escura do teu destino de zé mané, que é o que tu é, bundão, bundão! Bundão! Mil vezes bundão!

Dou mais de mil graças ao céu de não ter sido nunca, nem de longe, um panaca assim triste e obediente como tu vai ter que ser agora, na hora de me dar tudo que tu tem aí, e que de hoje em diante será do malandro aqui, que sou eu, Euzinho da Silva.

Tá vendo os outros caras ali, de cobertura. São os meus ‘braços’? Pois é. É nóis. É eles e eu, o bam bam bam da parada, o dono de tudo aquilo que um dia foi teu. Ah, ah! Agora tu morou direitinho qual é a da parada. Morou ou não morou?

———————

_ Perdeu meu chapa! Passa o carro. A mala, a pasta, tudo! O quê? Que documento o caralho. Eu sei que tu tem uma grana preta aí, seu, mané! É ou não é? Tu acha que eu sou ladrãozinho de celular, é? Tira o terno. Sim é isto mesmo. É isto aí. Pelado no meio da rua. Humilde, uma mão na frente a outra atrás. O quê? A rua tá escura? Alguém pode te matar? Qualé, cumpádi? Tá cheio de cupincha teu aí, nos carros. Teu dia ainda não é hoje não. Se bem que, vivo ou morto tu já foi, mané! Tu já era. Agora é nóis!

Tchau. Te deixo vivo por que eu sou legal.

Fui!

————————

O outro cara:
(em pânico. No mesmo lance, pensando rápido num jeito de se safar)

Puta que pariu! Fudeu! É assalto. Só pode ser. Olha só jeitão do cara, me olhando. Parece até a porra um bicho armando o bote. Caralho de sinal que não abre. Olha só o tamanho do braço do negão, meu irmão! Forte pra caramba! Um armário, tirando esta onda de pedinte de rua? Sei não.

Escola, nem pensar. Não tem ânimo, não tem cara de ficar afim. Deve ter fugido da sala de aula de algum Ciep morfético desses aí, há mais de dez anos. Melhor fechar o vidro e fingir que não é comigo, que nem vi. Adianta o que pagar imposto? Me digam. Não tem um policial sequer na pista. A gente que é cidadão, fica assim, inteiramente, à mercê desses camaradas mal encarados. Nós, desamparados, sem ter em que se segurar, em que se valer.

O que ele está pensando? Que eu sou rico? Pô! Imagina. Técnico de contabilidade. Um ferrado, por assim dizer. E este Pálio, velho, caquético, é de rico, por acaso? Tá na prestação. Este mês nem deu pra pagar. E se eu dissesse que eu trabalho numa Ong que ajuda pra caramba esta garotada que, como ele, tá por aí ao Deus dará?

Será que cola? Tá legal. Mentira descarada. Minha mina é que trabalha nesta praia de Ong, trabalho que aliás ela detesta, coitada, mas, e daí? Quem é que vai saber?

Furada. Ele não está com nenhuma bolinha de tênis na mão. Nem limão. Nenhum nariz de palhaço, nenhuma flanelinha, nenhum rodinho de raspar sabão de parabrisa. O que é que ele tem ali? Parece um… é um… Ai meu Deus! Olha lá! Ele está portando um revólver, dá pra ver debaixo da camisa. Uma arma prateada. Caralho! Tô fudido!

_Tá doido! Abro! Abro, sim! Já abri, pronto!

Só mesmo dizendo pra mim mesmo: Controle-se! Segura a onda. Não faça nenhum gesto brusco. Ai que vontade de mijar. Puta que pariu. Pára de tremer, porra! Para de tremer, seu imbecil!

O problema da minha mina com estes caras é este aí. A verdade está aqui, na minha cara. A gente dá um montão de alternativas pra eles, dá aula de ética e cidadania, circo, teatro, música, o cacete a quatro. Explica o que é internet, word, excel, email, what zap. Tá certo, eles quase não têm um computador em casa, mas, e daí? Televisão eles tem, não tem? Nós também não tínhamos computador, ninguém tinha.

A gente ensina como elevar a auto estima desses caras que, mal sabem ler e escrever e eles ficam marmanjos e acabavam se voltando contra a gente. Ingratos. Ora, que diabo. A gente faz o que pode. Se eles não tem trabalho a culpa é de quem? Nossa é que não é. A gente paga imposto pra ter tranquilidade e segurança. É ou não é?

Ai que vontade de mijar, caralho!

Trabalhar não quer, o vagabundo. Vai você, mesmo sem precisar, oferecer um biscatinho para um cara desses. Um serviço de pedreiro, um quintal pra capinar, umas sacolas de mercado para carregar. Pensam que ele aceita? Que nada. É soberbo. Se ofende. É o memso que xingar a mãe dele. Vai querer me bater, me matar. Afinal, alguém precisa dizer pra ele que todo trabalho é digno. A pessoa deve fazer o que pode para sustentar a família. A sociedade não pode ficar bancando vagabundo assim não. Onde é que a gente vai parar?

_Ai meu Deus! O que foi agora. Vai atirar? Vai me me matar? Calma! Calma! O que foi que eu fiz? Eu não falei. Eu só pensei. Fiz uma cara de que? Que cara?

Será que ele lê pensamento? Ai meu Deus! Mostra pra ele que eu não estou debochando de nada não. É o meu jeitão de ser. Fico assim quando estou em pânico. Pelo amor de Deus! Ai que vontade de mijar, caralho!

Ontem mesmo eu vi, de noitinha, uma mulher enfurnada num container de lixo catando papel, latinhas, garrafas Pet, o que pudesse. Deve vender o que arrecada à noite, pelos becos, pra poder comprar comida para levar para casa. É feio? É deprimente? Tá. É sim, mas, fazer o que? Aquele garimpo é o trabalho dela, ora. Trabalho honesto. Deus a recompensará um dia.

Eu mesmo, se tivesse uma situação melhor, se morasse numa Barra da Tijuca destas, da vida, pegava esta mulher e contratava como empregada doméstica. Já pensou? Honesta e trabalhadora como parecia ser. Um dia desses até carteira assinada ela ia ter. Depois, era só ir evoluindo, um aumentozinho aqui, outro ali, uma bolsa família para completar o orçamento. Ia longe a moça.

————–

_ Não! Não! Que é isto? Não atira não!

Ai me acuda, meu Deus! Ele tá puto! Deve estar drogado. Vai atirar! Vai atirar!…

_ Tá legal, toma o tablet, toma o celular, toma minha carteira, toma tudo logo!

Ladrão filho da puta. Ralei feito um corno pra comprar este celular de câmera. Este Tablet…

_ O que? Não! Isto não!

Não posso nem pensar. Ele pode desconfiar.

_ O que? Tá legal. Dou a pasta. Toma. O que? A mala não! A mala não!

Ai meu caralho. O dinheiro do caixa dois da empresa. Vai me fuder a vida! Vai me fuder de verde amarelo! Como é que vai ser? O patrão vai querer que eu dê conta. Vai pensar que eu armei com a porra deste ladrão.

_ Calma! Calma! Nada de pânico. Vou sair! Vou sair do carro! Calma!

Deus me ajude que ele não me mate.

_ O terno? As calças, toma! Toma o paletó, está bom assim? Ficar só de cuecas? Nem cuecas? Puta que pariu! Quer me desmoralizar de vez, me esculachar, cara? Quem são estes caras vindo aí?

Caralho! Lotaram o carro!

_…Ei! Já vou, já vou!…Tá bom, tá bom….Calma aí! Calma aí! Não vai não. Não vai não.

Pronto. Lá se foram. Fudeu.

—————

O que é? O que é vocês estão olhando. Nunca viram ninguém pelado não? Vão se fuder, vocês também. Vão todos pro caralho! Fizeram porra nenhuma para me ajudar. Ficaram aí, olhando, se cagando de medo. Mais de cem carros aí, parados, imóveis, no maior silêncio, assistindo eu me fuder, de camarote. Olha lá os ladrões filhos-da-puta com o meu carro. Liberou geral. Parece até que sinal abriu só pra eles. Alguém aí vai testemunhar a meu favor? O senhor? Não? A senhora? Também não? Seus escrotos! Eu sabia. Não precisava nem falar.

É por estas e outras que o Brasil não vai pra frente. Porra! Caralho! Cacete! Merda! Puta que pariu!

Spírito Santo
Setembro 2007 (com notas esparsas em 2016)

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~ por Spirito Santo em 23/09/2008.

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