Boladinho foi à luta

boladinho1
Conto

Trabalho com meninos, muitos, todos os dias. Tanto que, às vezes, até me
confundo e penso que sou menino. Eles também se confundem e, das duas
uma: ou me faltam com o respeito devido, me zoando, como se eu fosse
mesmo mais um entre eles, ou me seguem, cegamente, como se eu fosse o
mais esperto, o líder deles. O cara.

Acho que foi por isto que resolveram me lotar aqui, nesta delegacia, a DPCA.
Este que vocês estão vendo, sentadinho ali, no banco, é um desses da rua,
entre muitos, nem tantos assim eu diria. Está murchinho no seu canto, mas,
não se iludam. Não é flor que se cheire. Ainda ontem, ou anteontem, esbarrei
com ele na Praça XV:

_”Aí, ô tio! Dá uma força aí. Só pra mim comer um negóço.”

Fazer o quê? Paguei uns saquinhos de amendoim pra ele. Do jeito que estava
com thinner e crack até na alma, não ia arrumar nada. Disse isto pra ele, mas, qual o
quê. Só grunhiu meio que dizendo:

_” Qual é, tio? Tô legal. Só tô com fome.”

Quando cheguei, hoje cedo na delegacia ele já estava lá, dormindo no banco.
O pessoal da noite me disse que ele foi pego no Leblon, doidão, no meio de um
assalto num sinal de trânsito. Essas coisas. Tropeçou na fuga, caiu e ficou ali.
Foi fácil pegá-lo. Tiveram que trazê-lo no colo. Chegou dormindo, chupando o dedinho. Só se mexeu de manhãzinha, quando alguém me chamou, gritando:

_” Detetive Ronaldo! Detetive Ronaldo! Telefone!”

Vou tomar o depoimento dele agora mesmo, antes que durma de novo, a
praga. Os senhores e as senhoras esperem aqui, por favor. Não demora muito
não porque é sempre a mesma história. Já sei de cor e salteado. Esta aqui é a
famosa DPCA. Anh? Já falei? Pois é isto. Fiquem à vontade. Por favor.

Vou lá acordar o coitadinho. Dou um tapinha no ombro, de leve, só pra ele
ficar esperto e espero. Ele vai me olhar meio assustado, com aquela cara de
criança, que eles só mostram assim, nestes momentos distraídos, entre o sono e a morte. Vai limpar o olho remelento, me olhar com uma cara de enfado,
maior do que o meu. Tédio e tudo o mais. Saco, desdém. E só aí vai se
levantar.

Pronto. Levantou-se enfim. Licença. Vou lá interrogar a peste.

————————-

_” Fala moleque. Conta aí.”

Boladinho fala:

_” Tem madame que desvia de mim que nem diabo desvia da cruz. Acreditam
nessas histórias de que os dimenor carrega caco de vidro, gilete, estilete,
estas coisas todas para cortar as vítima. Vítima? E eu? Sou o que então, assim magrelinho, com os cambitos fininho, andando pela rua sem que nem
porque?Agora então é época. Frio. Os dente batendo igual aos de uma caveira. Os cambito estalando, um no outro, igual a dois graveto balançando no vento.

Tréc, tréc, tréc! Vareta de pipa sem papel, sacumé?

Ah… Não fui eu não! Quer dizer, pode até ter sido, mas, se foi, foi sem querer.
Doidão do jeito que eu tava… De que? De thinner, sacumé? Que é que o
doutor queria que eu fizesse? Cheirado eu faço coisas que até Deus duvida.

Abilolado, berimbolado, Faço qualquer negóço. Até com caneta Bic eu já
roubei, sacumé? As madame acha que eu vou furar a goela delas e pronto.
Ficam gelada, paralisada. Dão bolsa, dão relógio, dão sapato, dão óculos. Se
insistir dão até as calcinha. Madame se assusta fácil. Madame vê muito filme, muita televisão.

A primeira vez que fui para o Padre Severino foi assim. Sorte que eu, sem
querer, agredi a vítima. Cheguei no Severino cheio de moral, sacumé? Escapei de virar mulherzinha de um daqueles, mais velhos. A madame que me perdoe, mas, desta sorte, por conta de ter agredido a pobre, eu escapei.

E chamam aquilo lá sabe de que? De Escola! Vai entender? Lá tem corredor
gradeado, tem cela, tem cama de cimento. Tem guarda com pastor alemão.
Tem fuga e tem rebelião. Escola de que? Fala sério doutor. É igualzinho
adonde meu pai tá guardado, Bangu 1, 2, 3, sei lá quantos Bangu tem.

Agora não. Tomei prumo. Magrinho do jeito que eu tô, com esta fraqueza no
pulmão, no coração, não dá pra ficar tirando muita onda por aí. Uma moça aí outro dia, uma médica, doutora, enfermeira, não sei bem, me disse que se eu continuar nessa de thinner, meu coração vai estourar. Tá. Tô estoporado, mas, e daí? Thinner e crack mata a fome. Se eu não matar ela, é ela quem vai me matar, ora. Sacumé?

Ontem rodei na Lapa, em Copa, no Leblon e sabe o que comi? Um pedaço de
pizza que estava aparecendo na borda da lata de lixo. Dividimos em três.
Ainda tivemos que espantar uns vira lata, que olhavam de olho comprido pra pizza. Sai pra lá, mermão! Vocês são cachorro. Nós é gente, rapá! Sai! Sai!

Tô fraquinho mesmo. De vez em quando falta ar. A cabeça revira. Esta noite
mesmo, lá nos Arcos, tava rindo à toa com a rapaziada, cheiradão e, de
repente caí, tombei, sumi. Desmaiei ou dormi, nem sei.

Quando eu vejo um bichinho assim, que nem eu tô, osso só, com os olhos
fundos, eu fico triste. Dou uns afagos, uns agrados, uns carinhos. Não estes
vira lata de ontem. Isto não. Ali era eles ou nós. Eu digo assim, quando estou numa boa. Eu faço carinho sim. Agora, vê só essas madame. O que elas fazem? Enxotam a gente. Fecham o vidro do carro, só faltam cuspir, jogar pedra. Será que nós é bicho e elas é que são gente?

Pô, doutor! Medo nós também tem, mas, é gato contra rato, sacumé? A gente também tem direito de sobreviver.

———————–

O pessoal que espera olha para mim, impaciente. São como eu. Não estão
muito interessados em historinhas de menores carentes, infratores,
transgressores, em risco social ou em conflito com a lei. Querem uma solução
das autoridades. Pronto.

Vocês esperem só um instantinho, por favor. Já estou terminando aqui, tá
bom?

Boladinho, o seguinte: Vou te liberar, tá legal? Aqui é a DPCA, meu filho.
Daqui, com a bronca que tu meteu, com a queixa que a madame fez contra tu,
cheia de testemunhas… Vai voltar é pro Padre Severino, meu chapa. Sem
choro nem vela. E lá, sabe Deus o que te espera. Tu não vale nem um picolé.
Não quero este remorso na minha vida. Mas, me faz um favor. Sai da minha
área, tá? Some do meu caminho. Vai à luta!

————————

Pronto, pessoal. Detetive Ronaldo às ordens. Podem falar. Sentem-se, por
favor. É queixa de assalto, não é? Já estou sabendo. Como era o moleque?
Preto? Branco? Como este que saiu daqui agora? Teve agressão? Alguma
vítima ferida? Podem falar. Aqui é a DPCA, Delegacia de Proteção à Criança e
ao Adolescente.

(Boladinho saiu de mansinho. Pegou o cobertor que havia largado no chão, ao
lado do banco e desapareceu. Mas antes, O detetive Ronaldo se lembrou de
uma coisa essencial. Importante demais para o inquérito)

Boladinho! Fala aí moleque! Qual é mesmo a tua idade?

_ “Ah.. Não sei direito. Acho que uns sete pra oito. Já tô velho nesta vida,
Doutor. Tchau, Valeu aí, tá? Vou à luta!

Spírito Santo
Rio, Maio 2007

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~ por Spirito Santo em 25/09/2008.

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