LUZ DE ANNABEL


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Foto:Spirito Santo

(para minha neta recém-nascida)

Ela nasceu
assim bela como jamais duvidei
que seria a outra vida
de daqui para adiante
nunca mais ser assim
menino tão sozinho

O que me encobre
a palha de aço branco dos cabelos
é o céu – ou o véu- diáfano de ser agora
o avô-senhor todo poderoso
de uma posteridade linda e radiante

E sendo como sou agora
deus de todas as coisas do mundo
abraço meu colega,
Deus-avô de todas as épocas e universos,
abrindo o meu mais largo sorriso
de ser
também
O rei do céu de um império
onde o sol nunca se põe
nem jamais se porá.

(É deste nunca sol se por
que olho para a eternidade do porvir
como sendo o alvorecer da cor divina
da menina Annabel)

Eu realizado
perpetuado no feminino
e pequenino ser
que para sempre será ela
aquela que nasceu AnnA
(um nome onde o que é começo
também é fim)

Bela Anna
aquela que
de uma simbólica cabana africana
(iluminada agora por uma luz
inusitadamente inglesa)
explode como a luz rainha
vitória de todos os meus mares
luz que ofuscando
o colonial passado de nós todos
qual metropolitana
luz soberana
o futuro, magnânima
navegará

————-

Mandei uma esquadra inteira
iluminar com canhões
a tua vinda ao mundo

Tiros de crisântemos brancos
balaços de orquídeas negras
confeti em pétalas
e serpentinas multicoloridas
para clarear o céu dos caminhos
da menina Annabel
enfim
chuviscos de lágrimas felizes
mandei

Para as mais britânicas
e absurdas distâncias imperiais
de todos os muçulmanistas
(e racistas)
desígnios dos homens
mandei também ordens
de queimar todas as burcas
demolir todas as prisões turcas
e delegacias de todos os Parás

E em nome do prazer
de todas as filhas e meninas
todas as circuncisões bani
dediquei a todas as mulheres
um Manah de bel prazeres
dos favos do mel que fluem
dos sons dos nomes
das que amamos
quando falamos
Annabel

————-

E só então deixei escorrer
em todas as minhas lágrimas
o meu desmedido amor
por todas as mulheres
(exceto uma)
principalmente duas:
as meninas Annabel
e sua mãe embevecida
de ver de si mesma
a posteridade nascida
apesar de tudo
linda

É que flagrei na foto nos olhos adormecidos dela
O fio de lã da novela
dos olhos de minha avó quase de Angola,
Maria Josephina rediviva
minha saudosa mãe Geny reconduzindo
as mãezinhas meninas,
todas elas revividas
nelas
as londrinas

————–

Nelas
elas todas
alegres como lontras
saindo do rio

Quase todas elas
minhas mulheres lagartas
fartas de prazer
virando borboletas
escrevendo as letras
vivas, amarelas, miúdas
da nova vida sortuda
de mim mesmo,
avô daqui para adiante,
a nunca mais ser assim
menino tão sozinho.

Spírito Santo

Dezembro 2007

Maria & Santería


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Um Conto

Tudo eu não posso contar (ainda mais assim, a bico seco e sangue frio).

Se de início me apresso em dizer que ela não se chamava Maria mesmo, assim de verdade, é porque o tema é tabu tão cabuloso que a família até hoje prefere não falar. Pensemos em Magnólia, quem sabe Walkíria, Úrsula ou Brígida talvez, um nome desses assim, bem antigo.

Maio de 1955. Dizem que deu até no jornal.

Casou de véu e grinalda como sonhara – ou como prometera, à beira do túmulo da mãezinha – sei lá, nem se lembrava mais, de tanto que esperou por esta enfim chegada hora que o sino da igreja tanto bimbalhava.

_”Ai como é bom de ouvir! Ai como é bom de ouvir!” _ Pensava sobre o sino, de si para si, contrita.

Cheiro de naftalina. O véu já meio puído, aqui e ali, encardido de tanto ficar na gaveta da prima que o noivo abandonou ao pé do altar.

A prima infeliz, como num samba-canção, quase morrera, coitada, besuntada por aquele pegajoso fel da rejeição, tanto que até hoje é filha de Maria, tão devota, dessas que rezam novenas para tantos anseios, que numa destas estreladas noites de verão, naquela sua fé meio confusa, acordou febril depois de ter sonhos eróticos com Jesus.

Mas véu é véu, nunca estará sujo ou conspurcado. Protege a noiva contra todas as pragas e maledicências, mesmo aquelas mais viscosas das solteironas, tão ressentidas e más que até condenadas já foram (sabe-se lá se por Ele ou por Aquele) a para todo sempre não achar mais homens que as queiram usufruir, o que dirá para lhes servirem como maridos.

E era por isto, pela danação eterna que as solteironas carregavam entranhadas em si, que as suas maledicências todas, assim como fluíam, se esvaíam, escorrendo pela impermeável calçada da boa fama, daquela que, enfim, contra todas as maldições desta inveja encruada das primas, vai sim, vai se casar sim e está acabado.

“_ Viu só? Donzelinha, donzelinha!”

Era só o que podia dizer a prima, por entre os dentes, cuspindo sarcasmos e ironias porque, futricas mesmo, diretas, assim de constranger a família da outra, nem pensar.

Véu branco. Pronto. Encardido que fosse tinha lá o seu peso… reputacional, como diria Oswaldo Advogado, tio orgulhoso por parte de mãe, da feliz noivinha.

‘_ Reputacional ?’...

As solteironas quando ouviam aquilo sentiam uma irresistível ânsia de morrer de rir. Ô palavrinha! Parecia até que o tio, piadista famoso, um gozador desses de botequim de esquina, queria com aquilo dizer, nas entrelinhas, alguma coisa que elas, no fundo no fundo, sabiam muito bem o que.

Isto!Isto! Prestando bem atenção, havia certo borrado no batom, um desengonçado nervoso das pernas, nos saltos altos demais, um jeito esquisito dela, a noiva, desmunhecar os pulsos, aquelas unhas enormes, vermelho-sangue, descascadas, meio reviradas, quase dando voltas, como as daquelas feiticeiras de gibi.

Tinha também aquela risadinha sem que nem porque que ela dava nas festas, que as primas solteironas diziam ser (por experiência própria, vale dizer) uma charada barbada, fácil de decifrar.

Claro!Claro! Só podia ser aquele nervosinho elétrico de quem não agüenta mais esperar. Sofreguidão, frenesi, angústia sim, pelo gozo ansiado, travado pela virgindade que, mesmo se falsa, era dolorosa e jejuada demais da conta, a mais não poder, explosiva esperança de, enfim, poder como uma lagartixa subir pelas paredes, no último patamar, nos píncaros de um… sei-lá-o-que, um êxtase, um nirvana, um… como se diz?.. Um… ui, ui, ui…

E foi assim, com este tom de ui-ui-ui, que ela, respondendo ao padre, gritou vitoriosa:

“_ Sim! Sim! Sim!”

————

Depois do silêncio emocionado dos presentes, ouviu-se o que parecia ser… soluços da noiva. Soluços? Onde já se viu? Como assim? Era outra coisa, só podia ser, mas, o quê? Espasmos? Ataque de epilepsia? Creio em Deus padre todo poderoso sim, mas, devo admitir mesmo que aquilo era… Deus do céu!.. A noiva gargalhava. Em surdos e contidos surtos sim, mas gargalhava ali, bem na cara de Deus.

E não parecia ser nenhuma gargalhada de felicidade não, até porque, a qual, embora tão fora de propósito fosse, seria entendida como… coisa de donzela.

Mas era como se ela tivesse engolido ‘algumas-e-outras’, num ímpeto de relaxar, escondida na copa da igreja, e agora estivesse fingindo que se engasgou com a água-de-flor-de-laranjeiras, com a maracujina, ou algum outro daqueles calmantes de mulher.

O certo é que, com a noiva ainda no altar, zás! Uma chispa chicoteada, uma eletrizante chibatada perpassou o púlpito e ricocheteou sibilante por toda igreja, gelando a espinha de um convidado aqui, arrepiando os cabelos de outro convidado acolá.

Lá no fundo uma voz de mulher de meia idade, sem se saber de que nem porque, soltou uma risada longa, fininha como riso de menina, mas, alta, desbragadamente alta, como uma torneirinha estourada, uma cadelinha desvairada que se alivia (me arrepio agora mesmo, só de lembrar).

Foi então que o padre Geraldo, à beira já do mais estupefato pânico, olhou para o exército de estátuas sacras apinhadas no altar, como a pedir socorro e revirou os santos olhos para a vela, justo aquela vela, a maior de todas, que bruxuleava trêmula, a ponto de quase se apagar.

E o pobre do padre foi quem primeiro apagou.

Daí as velas todas foram se apagando. Como desenho animado, até as lampadinhas vermelhas que contornavam os quadrinhos dos santos, também piscaram, um lapso sim um lapso não, até morrerem.

Uma a uma também as lâmpadas incandescentes grandes agonizaram, assim como se os filamentos delas, novinhas em folha, compradas que foram ontem mesmo para o casório há tanto tempo esperado, se desfilamentassem do nada, se desenroscassem sozinhas dos soquetes, caindo de gambiarras balançando na chuva de vento, se estilhaçando na escuridão do chão.

E a prima solteirona lá – sim, era uma delas! – quase a se esvair de rir ao fundo, emudecendo todos os ‘Dominus vobiscum’ e os ‘Et cum spiritu tuo’ que o desesperançado padre Geraldo, já reanimado por um lenço molhado com vinagre, balbuciava aos céus.

A solteirona exultava histérica, entre as lágrimas esguichadas intercalando com o seu riso frouxo, destrambelhado.

_’Eu não disse? Não disse? Não disse?”

————-

Foi quando – já não era sem tempo – os cândidos olhos do desditoso recém esposo, saindo ainda surpresos dos esgazeados olhos de sua ex-fina dama, repararam nela qualquer coisa estranha, um que de inusitada sensualidade naquilo que antes sendo uma pudica gola, de repente, virara um espetaculoso decote, rasgado por ela – virgem Maria! – logo no início do surto.

Ousadia demais seria dizer pouco, para a ocasião.

Parecia mesmo uma meretriz de filme do Oscarito aquela ex-doce noiva, com uma sem-vergonhice insuspeitada até ali, pulsando, latejando, quase a explodir e a se espalhar em purpurinas e confetes pelo salão da igreja.

O que dizer então – como ele não havia reparado antes? – das rendas em ‘fru fru’ a lhe avolumar ainda mais as já vastas tetas?

E aquelas manchas violáceas no dorso e no cangote, que agora apareciam, piscando como faróis?

De onde será que vinham aqueles chupões escandalosos no pescoço, se ele noivo respeitador e ‘Caxias’ como sempre fora, não havia jamais, absolutamente, nunca dantes em tempo algum, chupado ou mesmo sequer beijado, o apessegado pescocinho dela?

Deus era testemunha muda de que jamais ousara (embora agora soubesse que disso muito se arrependeria). Custava Deus ter-lhe dado uma dica ao menos, uma pista?

_” Custava sim!” _ Diria Deus, ‘na lata’, injuriado _ “Pois sabeis vós melhor que nós que este tal de amor é cego.”

O certo é que – tarde demais – viu que agora, como os do padre, eram os olhinhos dela que se reviravam, o corpo se recurvava, para frente e para trás, toscamente, como se estivesse em meio a uma tortuosa ânsia de tossir para fora alguma coisa, como uma espinha de tainha enviesada na garganta, algum corpo ou persona estranha, como uma alma que não era dela.

Ou que, pensando bem, uma alma que era dela sim, mas que vivia enrustida no íntimo da outra alma dela, trancada na falsa persona de donzela, que ela alimentara estoicamente, até aqui, no firme afã de não morrer titia.

Foi quando, de súbito, a fina risada da prima – esta sim, solteirona julgada e condenada – lá no fundo, esmoreceu.

Tio Oswaldo Advogado, que desaparecera á primeira risada da solteirona, assomou no altar como outro raio salvador.

– “É o exorcista!” – logo pensaram todos, aliviados.

Vinha ninguém sabe de onde, dos quintos do céu ou do inferno, sabe-se lá por que cruz-credo-em-cruz-ave-maria invocado.

Cuidadoso, pôs as sábias e justas mãos na fronte da sobrinha que, por uns breves momentos pareceu se acalmar. Burburinho, buchicho, até que alguém fez psssiu!

No silêncio da igreja atônita, todo mundo pode então ouvir limpinho o balbuciar sibilante da noiva em transe, incorporada, possuída talvez por um destes belzebus da vida.

“_ Ebande êh! Kandebon gexá! Eiô! Eiô!”

Cabalísticas palavras, ao que pareceu, umbandísticas palavras, mais precisamente, presumiram todos os fiéis tementes a Deus ali presentes, benzendo-se várias vezes, hirtos como se, sem pai nem mãe, a beira do cadafalso – ou da crucificação eminente – estivessem.

“_ Ebande êh! Kandebon gexá! Eiô! Eiô!”

Mas não. Tio Oswaldo não fora invocado, chamado, coisíssima nenhuma. Difícil de acreditar, mas aquilo era nada mais nada menos que uma… ‘abrição de caminho’, uma evocação a uma entidade, um santo destes com aspas, sabe-se lá quem, chamado por uma espécie de hospitaleiro ‘venha a nós o vosso reino’ kimbandista, exatamente, o inverso de um exorcismo de verdade, de um descarrego em si.

Insondáveis são os desígnios de Deus.

“_Para sempre seja louvado!”

—————–—–

Só podia ser isto sim porque, lá pelas tantas, Oswaldo Advogado tirou um charuto imenso do bolso interno do paletó, acendeu a coisa com o seu barulhento isqueiro ‘ronson’ e colocou nos lábios túrgidos da tresloucada dama, delicadamente.

Clec-clec!

E todos puderam ver aquela boca carnuda com o batom borrado – agora sabemos bem porque – tragando, fundamente aquele chumaço gordo, roliço, marrom e fálico, voluptuosamente, como se a fumaça do fumarento tabaco, fosse para o seu corpo ensandecido, o mais puro e perfumoso ar.

E gargalhou secamente, a princípio quase sem som, depois bem alto. Sob o coro irreverente das velas e lâmpadas que bruxuleavam todas, sem perdão ou respeito algum pela casa de Cristo Nosso Senhor.

(Também, respeito ali, com o ato profano consumado… nem adiantava mais).

Até porque foi muito rápida a apoteose: Ela aspergiu a fumaça numa nuvem ampla, rebolando as belas ancas com as mãos nas cadeiras, espalhando a névoa branca do charuto por todo o altar, benzendo-o às avessas por assim dizer, já que, no fundo no fundo, para todos os efeitos, todo ritual religioso serve sempre para cultuar o mesmo profético e recorrente criador de todas as coisas, cujo codinome é Deus.

E soltando então a sua última e mais posessa gargalhada, a inusitada e escrachada dama por fim gritou poderosa:

_ ‘Eparrei, Iansã!’

————-

Foi assim, juro que foi.

O então marido conformou-se logo de ter casado com uma Pomba Gira, às vezes endiabrada e amancebada dama – quiçá simbólica – de deus e o mundo (sim porque discretos e comedidos, dos muitos supostos homens dela, jamais algum achou de se manifestar).

Maria Padilha ela sempre fora, Fazer o que? Mas só o era nas horas mortas, quando montada como um cavalo de umbanda, incorporada pela entidade, sempre que sacudida por alguma irresistível ou irrecorrível emoção.

Por isto nunca casara, se escondendo como o diabo da cruz da fama de reles mulher-da-vida que o estigma da sua sina lhe impregnara, esperançosa de que, mais dia menos dia, a paixão sincera de um homem bom, por fim, como um bálsamo, desvanecesse o seu karma mediúnico e como o amor de um príncipe desencantado a redimisse, virando ele sim, o seu cavalo, servo conformado por se assim dizer.

O que eu sei mesmo é que, custasse o que custasse aos noivos, se sacramentado estava o casamento, sacramentado ficou. Foram felizes para sempre, tentem acreditar.

———————–

Oswaldo Advogado manteve a cara mais cínica deste mundo durante os acalorados – e até abusados – comentários que rolaram no botequim sobre sua sobrinha. Mas, sabem como é: Doutor que é doutor não ensina… aconselha:

Pedindo silêncio, sempre o último a falar, Oswaldo Advogado vaticinou:

“_… Sabe gente? Por dúvida das vias, tragam sempre à mão um bom charuto, de preferência, um ‘puro’ de Havana, que possa apetecer tanto a Ele (ou, a Ela) quanto a… Àquele. É que nunca se sabe da vida pregressa, dos antecedentes, da situação, digamos… reputacional enfim, da alma que se quer advogar. E data vênia tenho dito, amém!”

Spírito Santo
Out 2008

Arapuca de Nfofó


1176238614_galinha_dangolaAi que saudades da bivó

Minha bisavó era praticamente uma criança quando veio para o Brasil. Era uma negrinha magricela, mas, tão magricela que, quando os brancos chegaram, tremia tanto de medo que não conseguiu nem correr.

Ela dizia que eles chegavam de mansinho, como quem não quer nada, como que cercando uma caça mansa qualquer e ficavam acenando lenços encarnados, escondidos no meio do capinzal.

Quando os benguela mais curiosos (ô gente curiosa estes benguela! Chegavam a perder os dentes de tanto morder as coisas que não conheciam, só para sentir o gosto que elas tinham) iam ver do que se tratava… Pou! O laço caía, o benguela trupicava, esperneava, até que, amarrado com os outros numa fila, ia seguindo por uma trilha da selva, até chegar na praia, até chegar no navio que, depois da eternidade mais comprida deste mundo, chegava aqui no Brasil.

Esta história que conto pra vocês agora (como gostava de contar história a velhinha de quem eu tive o que puxar) é uma história que ela contou pro meu avô que contou pro meu pai que contou pra mim e que eu, repassador de histórias que sou, conto pra todo mundo que quiser ler o que escrevo aqui.

(Até ontem isto era segredo de família, mas deixa pra lá. Isso era uma vez e segredo de três o diabo fez).

A incrível história da arapuca Nfofó

Vocês conhecem o Nfofó? Não? Pois o Nfofó (numidasimilus meleagris) era uma espécie de galináceo vistoso, primo-irmão da galinha d’angola (numida meleagris) – vocês conhecem a galinha d’angola?- pois o nfofó era um pouco maior, com a penugem mais escura, com umas pintas amarronzadas como ferrugem ou pinta de leopardo. Uma belezura de bicho, se poderia dizer.

Dizem que era uma ave arisca a mais não poder, cismada. Quando assustada tentava, mas, não voava mais que meio metro, coitada. Não se acostumava em viver perto de gente de jeito nenhum e por esta razão era considerado um bicho chucro, selvagem (não que fosse bicho brabo não, muito pelo contrário). O certo é que os Nfofós viviam em bandos, escondidos no meio do mato.

Um detalhe importantíssimo, interessante mesmo para os meus parentes benguela (cuja vasta consciência ecológica não chegava ao ponto de se descuidar de sua prioridade absoluta: a própria sobrevivência) era, sem dúvida nenhuma, a saborosa carne do Nfofó.

Foi por esta prosaica razão, entre outras, que os Nfofós foram rareando, rareando, até se tornarem apenas uma deliciosa lembrança gustativa nos sonhos senis de minha bisavó.

Mas, a culpa da extinção dos Nfofós não foi de forma alguma – é preciso ressalvar – só dos benguela ou de qualquer outro ser humano que um dia teve o glorioso prazer de comer aquela iguaria.

Foi o que minha bisavó defendeu até à morte.

O cronista austríaco Kurt Böhler Hoffbauer que visitou o território benguela em fevereiro de 1883, a serviço do Kaiser Franz Josef, nos conta, cabalmente, que o cheiro dos ovos do Nfofó era muito forte, insuportável mesmo, porém, na mesma medida, irresistível aos homens, provocando neles uma estranha sensação afrodisíaca.

A lenda dizia, no entanto que este odor característico ficava impregnado no corpo de quem comesse os ovos por dias e dias, á fio, semanas talvez. Depois de dissipado do corpo, o cheiro maldito continuava, para sempre na mente das parceiras de quem comeu os ovos, impossibilitando qualquer contato íntimo para o resto da vida. Era, obviamente, um castigo atroz para os benguela, fornicadores contumazes e notórios que eram (ou ainda  são até hoje, quem sabe). Hoffbauer observou nas notas de seu relato que:

“… Der kraft schmertz die manner hunger anreidzend, über unwiderstehlicht form, aber die gegessen später, in der schweiB unbeweglich eine grosse abneigung in der frauen mache…” na tradução livre:…” (O forte odor dos ovos estimulava, de forma irresistível, a gula dos machos humanos mas, após a sua ingestão, impregnado no suor de que os comeu, provocava uma aversão maior ainda nas fêmeas…)”

(in ‘Das Angolanisches ganze leben’, Hoffenabuer, K.B.
GanzeWelt Verlag – Köln, Deustschland 1883)

Aquele talvez fosse um inteligente e caprichoso artifício da natureza para a preservação dos Nfofós: Salvavam-se os ovos ou o hábito de comê-los extinguiria de vez com raça dos benguela. No entanto, do jeito que os humanos gostam de tudo que é proibido (como se sabe, em nós a inteligência e estupidez são atributos gêmeos) a solução da natureza era um frágil artifício.

É o que veremos á seguir.

Minha bisavó dizia que, embora os mais jovens fugissem dos ovos de Nfofó com sabedoria digna dos mais velhos (a quem eles deixavam o castigo de comê-los) muitos benguela se lixavam para a lenda. Com o tempo então, a maldição dos ovos teve que ser repassada também para a carne do Nfofó, ou seja, para o Nfofó como um todo.

Hoffbauer chega a reproduzir em seu livro, uma gravura benguela da época (na verdade uma gravura flamenga, muito antiga), retratando o Nfofó como uma espécie de entidade maligna e assustadora. Nada disso, contudo, adiantaria por que, entre todos os nossos tolos instintos, o da sobrevivência sempre foi o mais estúpido: mesmo sabendo que podemos morrer disso, se é só isto que temos para comer, na ânsia de sobreviver, é exatamente isto que comeremos e é, fatalmente, disto que morreremos.

Gravura 1856 - in ‘Das Angolanisches ganze leben’, Hoffenabuer, K.B.

Gravura 1856 – in ‘Das Angolanisches ganze leben’, Hoffenabuer, K.B.

Ficava o dito pela lenda como não dito então.

O fato é que se comia muito fartamente Nfofós naquele tempo. Para comê-los, tínhamos que caçá-los, saber seus hábitos e suas manias, para então poder inventar uma armadilha para apanhar o bicho. Daí a arapuca do Nfofó cuja minuciosa descrição cuido de relatar a seguir.

O nome Nfofó, como vocês já devem ter intuído, é onomatopéico, ou seja, vinha do som que ele emitia quando estava com medo, assustado. Como ele era, apesar de arisco, um bicho danado de curioso, levava muitos sustos em sua curta vida.

Esta curiosidade atávica, hábito mais característico do Nfofó, foi como também se pode intuir, a sua ruína.

Com know how desenvolvido pelos benguela em muitos anos – séculos talvez – a Arapuca de Nfofó (‘nfobulobulo’ em idioma benguela), tinha no tempo de minha bisavó a forma de uma caixa triangular de gravetos habilmente atados com um cipó especial, chamado por eles de ‘lukululu’ (‘ngnosis selvaticus’). Havia na caixa uma portinhola á guiza de guilhotina, firmemente tencionada por uma vara longa, que os benguela chamavam pelo curioso nome de ‘kalapulo’ (de provável procedência lusitana).

Nestes aspectos até que a arapuca de Nfofó era uma armadilha bem comum. O que a tornava única, era o fato de ser profusamente enfeitada com penas de pássaros locais, de variadas cores, além de muitos chocalhos, feitos com pequeninas cabaças contendo sementes, muito leves, que faziam ruído a qualquer brisa ou vento que soprasse.

Diante de um chamariz e de uma armadilha, ao mesmo tempo, era curiosidade então que pegava o Nfofó pelo pé.

Um dos dados mais curiosos da tática de caça ao Nfofó era que, ao invés de esconder o nfobulobulo como deveria fazer com qualquer arapuca, a prática mais comum era deixá-lo bem visível, próximo á vegetação cerrada onde os bandos de nfofós se escondiam. Um deles sempre percebia a arapuca e tomado de insuportável atração, corria para ela aos berros:

_”Nfofó! Nfofó! Nfofó!”

Todo o bando, mesmo escondido, entrava a em polvorosa gritando num especial alarido, chamando a atenção do caçador que, podia estar a alguns metros dali, tranquilamente dedicado a outros afazeres. A cena que se seguia, até há pouco tempo, enchia de água a boca de minha querida bisavózinha:

O nfofó precursor, aquele que primeiro viu a arapuca, olhava por alguns instantes para ela, extasiado de pavor. Espevitado, abria o bico em desespero, repetindo:

_”Nfofó! Nfofó! Nfofó! Te digo! Te digo! Te digo!”

(Este ‘te digo’ era outra sutil diferença entre os sons onomatopéicos do nfofó e da galinha d’angola que, como se sabe fala ‘Tô fraco’ Tô fraco! Tô fraco!”)

Logo em seguida, o Nfofó precursor corria para o bando e voltava correndo para a arapuca, acompanhado agora por mais um curioso. O caçador, neste exato momento, punha a arapuca para funcionar e pronto, o primeiro nfofó ficava ali, estrangulado, enquanto o histérico sobrevivente corria para o bando, no mesmo ritual:

_”Nfofó! Nfofó! Nfofó! Te digo! Te digo! Te digo!”

Pegava-se assim, um a um, todo o bando de pobres nfofós.

Hoje em dia – é claro – não existem mais nfofós em Angola. Minha bisavó dizia também (mas isto eu não consegui provar ainda) que vem do nome nfofó a palavra brasileira fofoca que, neste caso, seria mais uma interessante contribuição das línguas africanas ao português falado no Brasil.

Pelo menos no que diz respeito ao jeito da arapuca pegar o nfofó (no caso dos fofoqueiros em si, dos ‘disse-me-disses’, dos ‘língua-de-trapos’, dos ‘leva-e traz’ e dos incontáveis ‘um-sete-uns’ e trambiqueiros deste nosso Brasil, bem que a minha bisavó podia ter razão.

Spírito Santo

Rio, 24 de julho de 1993
(com ligeiros retoques em 2007)

NOTA IMPORTANTÍSSIMA!

Caro favor leitor, leia por favor as notas abaixo (o terceiro comentário a este post) que são do seu absoluto interesse para a compreensão total deste texto:

Saudades de Quelimane


quelimane_mocambique4
(Lendo um postal africano)

(”…Escreva-me, sim? Preciso muito
escrever com mais vagar)
mas fica para amanhã…

…Beijos dos seus filhinhos, saudades do Carlos
para todos e para si muitas abraços e beijos

De sua irmã muito sua amiga
Alice …”)

——————-

1916
Quelimane é onde?
Existe?
É longe?
Ou muito longe?

Mais ainda?

É assim, demais da conta,
da idade amarelada
e colonial
de um postal
no qual
não se pode
dizer nada além
do pouco que se disse ali?

1916
Quelimane é onde?

Se viram de novo?
a saudade antiga
doída
sabe-se lá
por que ondas
parida
urdida
foi matada?

Quelimane é onde?
Moçambique
Índicos mares
Onde?

(Só sei que em sofreguidão

naquelas maresias
um dia
se carregaram muitas vidas
e mortes
de lá para cá).

————

1916
Quelimane é onde?

Quando tempo se passou
para que as duas irmãs
amigas
uma onda da outra
derramadas
irmanadas
em lágrimas
aos abraços e beijos
(se houveram)

chegassem?

Estavam tão longe
e agora?
Quelimane é onde?
O quanto mais longe estão?
1916 é onde?

Spírito Santo
Set 2008