Maria & Santería

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Um Conto

Tudo eu não posso contar (ainda mais assim, a bico seco e sangue frio).

Se de início me apresso em dizer que ela não se chamava Maria mesmo, assim de verdade, é porque o tema é tabu tão cabuloso que a família até hoje prefere não falar. Pensemos em Magnólia, quem sabe Walkíria, Úrsula ou Brígida talvez, um nome desses assim, bem antigo.

Maio de 1955. Dizem que deu até no jornal.

Casou de véu e grinalda como sonhara – ou como prometera, à beira do túmulo da mãezinha – sei lá, nem se lembrava mais, de tanto que esperou por esta enfim chegada hora que o sino da igreja tanto bimbalhava.

_”Ai como é bom de ouvir! Ai como é bom de ouvir!” _ Pensava sobre o sino, de si para si, contrita.

Cheiro de naftalina. O véu já meio puído, aqui e ali, encardido de tanto ficar na gaveta da prima que o noivo abandonou ao pé do altar.

A prima infeliz, como num samba-canção, quase morrera coitada, besuntada por aquele pegajoso fel da rejeição, tanto que até hoje é filha de Maria, tão devota, dessas que rezam novenas para tantos anseios, que numa destas estreladas noites de verão, naquela sua fé meio confusa, acordou febril depois de ter sonhos eróticos com Jesus.

Mas véu é véu, nunca estará sujo ou conspurcado. Protege a noiva contra todas as pragas e maledicências, mesmo aquelas mais viscosas das solteironas, tão ressentidas e más que até condenadas já foram (sabe-se lá se por Ele ou por Aquele) a para todo sempre não achar mais homens que as queiram usufruir, o que dirá para lhes servirem como maridos.

E era por isto, pela danação eterna que as solteironas carregavam entranhadas em si, que as suas maledicências todas, assim como fluíam, se esvaíam, escorrendo pela impermeável calçada da boa fama, daquela que, enfim, contra todas as maldições desta inveja encruada das primas, vai sim, vai se casar sim e está acabado.

“_ Viu só? Donzelinha, donzelinha!”

Era só o que podia dizer a prima, por entre os dentes, cuspindo sarcasmos e ironias porque, futricas mesmo, diretas, assim de constranger a família da outra, nem pensar.

Véu branco. Pronto. Encardido que fosse tinha lá o seu peso… reputacional, como diria Oswaldo Advogado, tio orgulhoso por parte de mãe, da feliz noivinha.

‘_ Reputacional ?’...

As solteironas quando ouviam aquilo sentiam uma irresistível ânsia de morrer de rir. Ô palavrinha! Parecia até que o tio, piadista famoso, um gozador desses de botequim de esquina, queria com aquilo dizer, nas entrelinhas, alguma coisa que elas, no fundo no fundo, sabiam muito bem o que.

Isto!Isto! Prestando bem atenção, havia certo borrado no batom, um desengonçado nervoso das pernas, nos saltos altos demais, um jeito esquisito dela, a noiva, desmunhecar os pulsos, aquelas unhas enormes, vermelho-sangue, descascadas, meio reviradas, quase dando voltas, como as daquelas feiticeiras de gibi.

Tinha também aquela risadinha sem que nem porque que ela dava nas festas, que as primas solteironas diziam ser (por experiência própria, vale dizer) uma charada barbada, fácil de decifrar.

Claro!Claro! Só podia ser aquele nervosinho elétrico de quem não agüenta mais esperar. Sofreguidão, frenesi, angústia sim, pelo gozo ansiado, travado pela virgindade que, mesmo se falsa, era dolorosa e jejuada demais da conta, a mais não poder, explosiva esperança de, enfim, poder como uma lagartixa subir pelas paredes, no último patamar, nos píncaros de um… sei-lá-o-que, um êxtase, um nirvana, um… como se diz?.. Um… ui, ui, ui…

E foi assim, com este tom de ui-ui-ui, que ela, respondendo ao padre, gritou vitoriosa:

“_ Sim! Sim! Sim!”

————

Depois do silêncio emocionado dos presentes, ouviu-se o que parecia ser… soluços da noiva. Soluços? Onde já se viu? Como assim? Era outra coisa, só podia ser, mas, o quê? Espasmos? Ataque de epilepsia? Creio em Deus padre todo poderoso sim, mas, devo admitir mesmo que aquilo era… Deus do céu!.. A noiva gargalhava. Em surdos e contidos surtos sim, mas gargalhava ali, bem na cara de Deus.

E não parecia ser nenhuma gargalhada de felicidade não, até porque, a qual, embora tão fora de propósito fosse, seria entendida como… coisa de donzela.

Mas era como se ela tivesse engolido ‘algumas-e-outras’, num ímpeto de relaxar, escondida na copa da igreja, e agora estivesse fingindo que se engasgou com a água-de-flor-de-laranjeiras, com a maracujina, ou algum outro daqueles calmantes de mulher.

O certo é que, com a noiva ainda no altar, zás! Uma chispa chicoteada, uma eletrizante chibatada perpassou o púlpito e ricocheteou sibilante por toda igreja, gelando a espinha de um convidado aqui, arrepiando os cabelos de outro convidado acolá.

Lá no fundo uma voz de mulher de meia idade, sem se saber de que nem porque, soltou uma risada longa, fininha como riso de menina, mas, alta, desbragadamente alta, como uma torneirinha estourada, uma cadelinha desvairada que se alivia (me arrepio agora mesmo, só de lembrar).

Foi então que o padre Geraldo, à beira já do mais estupefato pânico, olhou para o exército de estátuas sacras apinhadas no altar, como a pedir socorro e revirou os santos olhos para a vela, justo aquela vela, a maior de todas, que bruxuleava trêmula, a ponto de quase se apagar.

E o pobre do padre foi quem primeiro apagou.

Daí as velas todas foram se apagando. Como desenho animado, até as lampadinhas vermelhas que contornavam os quadrinhos dos santos, também piscaram, um lapso sim um lapso não, até morrerem.

Uma a uma também as lâmpadas incandescentes grandes agonizaram, assim como se os filamentos delas, novinhas em folha, compradas que foram ontem mesmo para o casório há tanto tempo esperado, se desfilamentassem do nada, se desenroscassem sozinhas dos soquetes, caindo de gambiarras balançando na chuva de vento, se estilhaçando na escuridão do chão.

E a prima solteirona lá – sim, era uma delas! – quase a se esvair de rir ao fundo, emudecendo todos os ‘Dominus vobiscum’ e os ‘Et cum spiritu tuo’ que o desesperançado padre Geraldo, já reanimado por um lenço molhado com vinagre, balbuciava aos céus.

A solteirona exultava histérica, entre as lágrimas esguichadas intercalando com o seu riso frouxo, destrambelhado.

_’Eu não disse? Não disse? Não disse?”

————-

Foi quando – já não era sem tempo – os cândidos olhos do desditoso recém esposo, saindo ainda surpresos dos esgazeados olhos de sua ex-fina dama, repararam nela qualquer coisa estranha, um que de inusitada sensualidade naquilo que antes sendo uma pudica gola, de repente, virara um espetaculoso decote, rasgado por ela – virgem Maria! – logo no início do surto.

Ousadia demais seria dizer pouco, para a ocasião.

Parecia mesmo uma meretriz de filme do Oscarito aquela ex-doce noiva, com uma sem-vergonhice insuspeitada até ali, pulsando, latejando, quase a explodir e a se espalhar em purpurinas e confetes pelo salão da igreja.

O que dizer então – como ele não havia reparado antes? – das rendas em ‘fru fru’ a lhe avolumar ainda mais as já vastas tetas?

E aquelas manchas violáceas no dorso e no cangote, que agora apareciam, piscando como faróis?

De onde será que vinham aqueles chupões escandalosos no pescoço, se ele noivo respeitador e ‘Caxias’ como sempre fora, não havia jamais, absolutamente, nunca dantes em tempo algum, chupado ou mesmo sequer beijado, o apessegado pescocinho dela?

Deus era testemunha muda de que jamais ousara (embora agora soubesse que disso muito se arrependeria). Custava Deus ter-lhe dado uma dica ao menos, uma pista?

_” Custava sim!” _ Diria Deus, ‘na lata’, injuriado _ “Pois sabeis vós melhor que nós que este tal de amor é cego.”

O certo é que – tarde demais – viu que agora, como os do padre, eram os olhinhos dela que se reviravam, o corpo se recurvava, para frente e para trás, toscamente, como se estivesse em meio a uma tortuosa ânsia de tossir para fora alguma coisa, como uma espinha de tainha enviesada na garganta, algum corpo ou persona estranha, como uma alma que não era dela.

Ou que, pensando bem, uma alma que era dela sim, mas que vivia enrustida no íntimo da outra alma dela, trancada na falsa persona de donzela, que ela alimentara estoicamente, até aqui, no firme afã de não morrer titia.

Foi quando, de súbito, a fina risada da prima – esta sim, solteirona julgada e condenada – lá no fundo, esmoreceu.

Tio Oswaldo Advogado, que desaparecera á primeira risada da solteirona, assomou no altar como outro raio salvador.

– “É o exorcista!” – logo pensaram todos, aliviados.

Vinha ninguém sabe de onde, dos quintos do céu ou do inferno, sabe-se lá por que cruz-credo-em-cruz-ave-maria invocado.

Cuidadoso, pôs as sábias e justas mãos na fronte da sobrinha que, por uns breves momentos pareceu se acalmar. Burburinho, buchicho, até que alguém fez psssiu!

No silêncio da igreja atônita, todo mundo pode então ouvir limpinho o balbuciar sibilante da noiva em transe, incorporada, possuída talvez por um destes belzebus da vida.

“_ Ebande êh! Kandebon gexá! Eiô! Eiô!”

Cabalísticas palavras, ao que pareceu, umbandísticas palavras, mais precisamente, presumiram todos os fiéis tementes a Deus ali presentes, benzendo-se várias vezes, hirtos como se, sem pai nem mãe, a beira do cadafalso – ou da crucificação eminente – estivessem.

“_ Ebande êh! Kandebon gexá! Eiô! Eiô!”

Mas não. Tio Oswaldo não fora invocado, chamado, coisíssima nenhuma. Difícil de acreditar, mas aquilo era nada mais nada menos que uma… ‘abrição de caminho’, uma evocação a uma entidade, um santo destes com aspas, sabe-se lá quem, chamado por uma espécie de hospitaleiro ‘venha a nós o vosso reino’ kimbandista, exatamente, o inverso de um exorcismo de verdade, de um descarrego em si.

Insondáveis são os desígnios de Deus.

“_Para sempre seja louvado!”

—————–—–

Só podia ser isto sim porque, lá pelas tantas, Oswaldo Advogado tirou um charuto imenso do bolso interno do paletó, acendeu a coisa com o seu barulhento isqueiro ‘ronson’ e colocou nos lábios túrgidos da tresloucada dama, delicadamente.

Clec-clec!

E todos puderam ver aquela boca carnuda com o batom borrado – agora sabemos bem porque – tragando, fundamente aquele chumaço gordo, roliço, marrom e fálico, voluptuosamente, como se a fumaça do fumarento tabaco, fosse para o seu corpo ensandecido, o mais puro e perfumoso ar.

E gargalhou secamente, a princípio quase sem som, depois bem alto. Sob o coro irreverente das velas e lâmpadas que bruxuleavam todas, sem perdão ou respeito algum pela casa de Cristo Nosso Senhor.

(Também, respeito ali, com o ato profano consumado… nem adiantava mais).

Até porque foi muito rápida a apoteose: Ela aspergiu a fumaça numa nuvem ampla, rebolando as belas ancas com as mãos nas cadeiras, espalhando a névoa branca do charuto por todo o altar, benzendo-o às avessas por assim dizer, já que, no fundo no fundo, para todos os efeitos, todo ritual religioso serve sempre para cultuar o mesmo profético e recorrente criador de todas as coisas, cujo codinome é Deus.

E soltando então a sua última e mais posessa gargalhada, a inusitada e escrachada dama por fim gritou poderosa:

_ ‘Eparrei, Iansã!’

————-

Foi assim, juro que foi.

O então marido conformou-se logo de ter casado com uma Pomba Gira, às vezes endiabrada e amancebada dama – quiçá simbólica – de deus e o mundo (sim porque discretos e comedidos, dos muitos supostos homens dela, jamais algum achou de se manifestar).

Maria Padilha ela sempre fora, Fazer o que? Mas só o era nas horas mortas, quando montada como um cavalo de umbanda, incorporada pela entidade, sempre que sacudida por alguma irresistível ou irrecorrível emoção.

Por isto nunca casara, se escondendo como o diabo da cruz da fama de reles mulher-da-vida que o estigma da sua sina lhe impregnara, esperançosa de que, mais dia menos dia, a paixão sincera de um homem bom, por fim, como um bálsamo, desvanecesse o seu karma mediúnico e como o amor de um príncipe desencantado a redimisse, virando ele sim, o seu cavalo, servo conformado por se assim dizer.

O que eu sei mesmo é que, custasse o que custasse aos noivos, se sacramentado estava o casamento, sacramentado ficou. Foram felizes para sempre, tentem acreditar.

———————–

Oswaldo Advogado manteve a cara mais cínica deste mundo durante os acalorados – e até abusados – comentários que rolaram no botequim sobre sua sobrinha. Mas, sabem como é: Doutor que é doutor não ensina… aconselha:

Pedindo silêncio, sempre o último a falar, Oswaldo Advogado vaticina:

“_… Sabe gente? Por dúvida das vias, tragam sempre à mão um bom charuto, de preferência, um ‘puro’ de Havana, que possa apetecer tanto a Ele (ou, a Ela) quanto a… Àquele. É que nunca se sabe da vida pregressa, dos antecedentes, da situação, digamos… reputacional enfim, da alma que se quer advogar. E data vênia tenho dito, amém!”

Spírito Santo
Out 2008

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~ por Spirito Santo em 16/10/2008.

2 Respostas to “Maria & Santería”

  1. Spirito, você conhece um conto do Muniz Sodré chamado “Vovó vem para o jantar”? Pelo título, já dá pra imaginar, né? Se não conhece, te envio. Abordagem diferente da tua mas, lógico, alguns aspectos temático comuns. Me lembrou. É sempre muito bom ler textos teus! Um abraço!

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  2. Nota:

    Evidentemente, os significados disponíveis para uma correta identificação desta interessantíssima entidade afro-brasileira – inclusive os do site aqui linkado – não são, etnologicamente, nada ‘científicos’. Faça como o autor: Contente-se com o lado poético e místico da apaixonante figura, por enquanto.

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