Na Lapa de Makemba #01

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Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos pretos de Milho Verde-MG / Foto de Spírito Santo -Jan 2009

O translado fantástico da música morta-viva

Depois de ansiosos dias, parti em 02 de janeiro deste 2009, de mala e cuia para o alto da Serra do Espinhaço, MG, na região do antigo Serro Frio (Diamantina e adjacências). Voltei lá quase 30 anos depois, desta vez a convite do documentarista paulista Cassio Gusson, para coordenar a pesquisa que subsidiará um filme longa-metragem sobre os ‘Vissungos do Tijuco’, protagonizado por seus cantadores remanescentes (e seus eventuais sucessores) todos descendentes de escravos e quilombolas mineradores de diamante trazidos de Angola para cá, a maioria a partir de meados do século 18.

A viagem, com origem em São Paulo (Cassio Gusson, o diretor, Felipe Mantovan, o camera-man e Paulo Genestreti, fotógrafo) e Rio de Janeiro (eu mesmo) cobriu um extenso roteiro no qual, depois de nos encontrarmos em Belo Horizonte, cruzamos de carro pequenos trechos de estrada asfaltada, descambando num sem fim de barrentas estradas vicinais, atoleiros, córregos e – a pé – trilhas de montanha, cruzando desconjuntadas porteiras que se abriam para o não-sei-o-que que avidamente procurávamos: As sobrevivências dos cantos africanos denominados Vissungos.

Assim, atropelando cobras e observando, extasiados o vôo de gaviões, carcarás sobre recorte pré histórico do relevo local, atravessamos as cidades do Serro, Diamantina (nossa base financeira), Conceição do Mato Dentro e, já no trecho da chamada Estrada Real (hoje ainda tão intransitável quanto no período colonial), nos baseamos na cidade de Milho Verde (onde nasceu Chica da Silva), já no contexto da extensa área de nossa coleta: Um conjunto de minúsculos vilarejos onde outrora, entre os séculos 18 e 19 se concentraram milhares e milhares de pessoas, funcionários, soldados portugueses, aventureiros brasileiros livres e escravos, todos empenhados na extração e no garimpo (clandestino) de ouro e diamantes.

Visitamos assim também os povoados de Ausente de Baixo, Ausente de Cima e Baú (verdadeiros ermos formados por quilombos ali estabelecidos nos velhos tempos da Extração), São João da Chapada (outrora a sede das tropas portuguesas), culminando com a visita ao incrível lugarejo Quartel de Indaiá, onde as condições de vida dos antigos quilombolas da região podem ser ainda vislumbradas, como se o tempo ali tivesse sido congelado no século 19.

As minhas conclusões, ainda muito preliminares sobre o tema, complementando emocionados e muito particulares estudos iniciados em 1975 – coincidentemente, meu pai era descendente de escravos da mesma região – e interrompidos em 1981 são, posso garantir, muito interessantes – e inusitadas até – mesmo para aqueles já familiarizados com o assunto.

Um dos momentos sem dúvida mais emocionantes desta viagem – fantástica em todos os sentidos – foi mostrar a foto que havia tirado há 27 anos atrás de uma dupla de moradores do quilombo de Quartel de Indaiá, a uma alegre senhora de São João da Chapada conhecida como ‘Miúda’ (a primeira pessoa que me recebeu à porta) e vê-la sair correndo atrás dos óculos, já com os olhos marejados exclamando:

_” Meu Deus do céu! Mas este é… é o meu irmão Francisco Xavier!”

Coincidência, acaso ou obra de Deus? O que eu sei é que foi mesmo de chorar vê-la se embrenhando pela casa, a esta altura apinhada de parentes, todos envolvidos com a folia de Reis que brincava o seu último dia deste ano (6 de janeiro), mostrando a foto que passando de mão em mão, ensejava novas emocionadas exclamações:

_” Olha aqui! É o meu vô Chico!”

_” Olha aqui! É o meu tio Chico!”

_” Ah, cristo!.. Mas é o meu pai, gente!”

Soube ali que Chico Xavier (na foto, à direita, cabisbaixo e Paulo, seu parceiro numa caçada que faziam na ocasião) ambos, de algum modo quilombolas e vissungueiros, tinham falecido há tempos e as famílias não tinham nenhuma imagem deles para avivar as lembranças.

Vivo de novo, Chico Xavier abriu então todos os nossos caminhos.

Chico Xavier e Paulo-vissungueiros - Foto Spirito Santo 1981

Chico Xavier e Paulo-vissungueiros – Foto Spirito Santo 1981

Viviam todos em 1981 ainda em Quartel de Indaiá, pequena povoação formada por quilombolas que, chefiados em certa época por um tal de Makemba, dominavam as elevações do pedregoso relevo da área, gretado de lapas (grutas) de onde atacavam as tropas de mulas (carregadas de víveres, ouro e diamantes) escoltadas por tropas do exército colonial (‘dragões’).

Com a desativação da Real Extração na área do Arraial do Tijuco e a transferência das tropas já ali por volta da primeira metade do século 19, os quilombolas desceram da serra e passaram a ocupar uma espécie de várzea onde ficava um dos quartéis construídos na região para combatê-los: O Quartel de Indaiá, nome inspirado numa curiosa e selvagem palmeira muito abundante no local.

Vitoriosos, os descendentes de Makemba e seu pessoal tomaram o quartel de assalto, por se assim dizer.

…O morro mais próximo do quilombo é conhecido como Makeba. Palavra de origem Banto (Makemba, mais precisamente, do Kimbundo angolano: nota do autor). Segundo os moradores, no período escravagista, o morro Makeba era usado por escravos fugidos para esconderem dos fazendeiros e da fiscalização.

Os escravos fugidos praticavam assaltos na região para poderem sobreviver e escondiam o fruto do roubo no morro Makeba. Segundo o morador Expedito: “Na comunidade havia um túnel que dava no morro do Makeba.

Ele fazia o túnel que saia na beira da estrada. Da estrada saia para a beira do rio e de lá era tocado no mato do Makeba. Assim assaltavam a tropa. O carregamento de diamante era jogado dentro do túnel. Quando o tropeiro chegava, o dono da tropa, ao local todo o carregamento já estava vazio.

Antes o morro do Makeba era chamado por muitos de esconderijo. O túnel não era muito grande. A cera era carregada misturada ao ouro e diamante, fazia-se um bolo de cera para que pudesse passar despercebidos, a passagem era feita dentro do mato.”

(Texto do Centro de Documentação Eloi Ferreira da Silva de Minas Gerais, acerca da comunidade quilombola de Quartel de Indaiá)

Facilmente indicada pelos informantes locais, enorme e plenamente visível no horizonte de São João da Chapada, à chamada ‘Serra do Makemba’ pode enfim ser filmada e fotografada. Filmamos a imponente serra do pátio barreado do rancho de Pedro, que é Vissungueiro ‘respondedor’ como seu irmão Paulo (o mesmo parceiro de Chico Xavier da foto de 1981).

Na casa de Pedro Vissungueiro (Pedro Lucindo ou “de Alexina”), um autêntico rancho quilombola de séculos atrás, sobre o fogão de lenha na tosca cozinha, um enorme tatu (morto pelo cachorro) era defumado. Fizemos ali uma emocionada entrevista que, enevoada pela fumaça do fogão de lenha, juntou dois velhos Pedros (um deles o nosso guia) e suas lembranças.

É de Pedro “de Alexina” eletrizante descrição do fim do líder quilombola Makemba, atraiçoado e morto numa emboscada com um ardil baseado em sua própria tática de guerrilha, que consistia em dar sumiço no menino que guiava a coluna de burros (interrompendo a marcha da tropa) e se apossando da carga de algumas mulas, sem ser visto.

A gruta (ou túnel) suposta morada de Makemba e seu grupo, descrita de forma mítica naquilo que pensávamos ser apenas uma lenda, só não foi visitada porque seu acesso estava inteiramente coberto pela mata (segundo os informes, o corpo de Makemba teria sido sepultado dentro da gruta após ter sido morto pela tal emboscada armada pelos Dragões da Real Extração).

serra-do-makemba

O empecilho não impediu, contudo que a equipe visitasse e filmasse uma gruta (‘lapa’ como se diz por lá) idêntica que, por mais incrível que possa parecer, foi habitada durante 18 anos (!) pelo nosso guia, o sereno mestre de folia de reis Pedro ‘da Miúda’ (ela mesma, a irmã de Chico, o Vissungueiro da foto de 1981, aquela que, não resistindo à emoção que a saudade do tempo da gruta lhe suscitava, de novo ficou com os olhos marejados.)

Garimpeiros todos os personagens de nossa história, viramos garimpeiros nós outros também.

Que viagem!

a-forca-da-memoria

Foram muitas as surpresas, as redescobertas e, principalmente as perguntas respondidas gerando novas perguntas, um infinito novelo de perguntas, naquela que foi uma coleta de campo voltada para esclarecer, pelo menos em parte, um emaranhado formidável de pistas dispersas, a maioria delas, apesar de, recorrentemente discorridas em teses, livros e dissertações de mestrado, por uma quantidade razoável de pesquisadores, envoltas na névoa que ainda hoje turva quase tudo relacionado à cultura dos escravos trazidos da África para o Brasil.

Vissungos do Tijuco: História oral, musical, ansiando por se tornar visível: audiovisual. Tudo ainda carecendo de ser ouvido, lido e melhor entendido para poder enfim ser descrito ou escrito com os detalhes e minúcias que merece toda história que, subestimada como mero conjunto de mitos e crendices de povos bárbaros, vai ficando cada vez mais clara, menos lenda de negros supostamente incultos, cada vez mais assumindo o seu caráter de história de gente real.

Kurima de Vera

Lavra de Vissungos e diamantes

E o que seriam estes chamadosVissungos do Tijuco’, curiosa prática de origem africana, muito discutida no Brasil desde a década de 1940?

“Vissungo em etnografia, se refere à música de caráter responsorial praticada por escravos utilizados nas lavras de Diamante na região compreendida, entre outras, pelas periferias das cidades brasileiras de Diamantina, Serro e São João da Chapada em Minas Gerais.

Tal música era entoada raramente em língua portuguesa, prevalecendo línguas africanas principalmente o Kimbundo e o Mbundo (chamadas de língua Benguela pela população local) e relacionadas a idiomas até hoje falados na atual República Popular de Angola.”

(O verbete na enciclopédia on line Wikipédia)

Ao que nos consta, por tudo que podemos reunir sobre o assunto (e a despeito de ser esta uma afirmação ainda hoje discutível) Os cânticos dos Vissungos são mesmo uma prática musical rigorosamente africana.

Mais ainda: No âmbito das manifestações de inspiração africana introduzidas no Brasil, talvez os Vissungos sejam o único elemento (ao lado, talvez, apenas da música de Candomblé) com tal grau de integridade – autenticidade, diríamos com todo o peso que a palavra contém – podendo representar, do ponto de vista etnomusicológico, sem nenhum exagero, um verdadeiro elo perdido entre as estruturas da música tradicional de certa região de Angola (notadamente aquela praticada nos séculos 18 e 19) e suas referências ou ocorrências atuais, tanto em África quanto aqui na América do Sul.

Por conta destas especiais circunstâncias (que tentaremos enunciar, mais detidamente, no decorrer deste artigo) considerando-se obviamente, que não havia ainda na época, nada sequer parecido com o que hoje conhecemos como música tradicional brasileira, sabe-se hoje, com alguma certeza, que houve pouca ou, praticamente nenhuma simbiose deste gênero musical (Vissungos) com qualquer outra influência, mesmo portuguesa, durante todo o processo de sua longa existência (bem entendido que afirmamos isto do ponto de vista estritamente musical)

Circunscritos – pelo menos com esta denominação – à vasta região do antigo Serro Frio e Diamantina, em Minas Gerais, havendo sido praticados desde tempos idos (talvez desde a segunda metade do século 18, com a intensificação da mineração em larga escala na região) e ainda relembrados, até o final da segunda década do século 20, por várias razões (entre as quais algumas discorremos aqui), os Vissungos permaneceram, portanto, por curiosas e particulares razões, e sob quase todos os aspectos legitimamente africanos.

Afora esta surpreendente longevidade, há que se considerar, contudo que, sendo música socializada (ou ‘socialmente interessada’, no dizer exato de Mário de Andrade), ou seja, música com motivações, diretamente relacionadas às especiais condições do trabalho praticado por aquelas pessoas naquela região (garimpo de ouro e diamante sob regime de total escravidão), embora estejam relacionados à práticas culturais talvez ainda hoje ocorrentes na África, os Vissungos podem ser considerados – mais ainda a partir dos recentíssimos indícios que tivemos a oportunidade de recolher in loco – como estando, praticamente extintos no Brasil.

Devemos observar também que, neste curioso – apesar de natural – processo de extinção (hoje, sem sombra de dúvida, em seu curso definitivo) enquanto cantos específicos, aparentemente os elementos mais característicos dos Vissungos foram se diluindo ao longo do tempo, num processo paralelo ao desaparecimento daqueles modos e meios de produção do regime de trabalho escravo que os motivavam e caracterizavam.

“Estes cantos de trabalho ainda hoje são chamados de Vissungos… Pelo geral se dividem em Vissungos de boiado, que é o solo tirado pelo mestre sem acompanhamento nenhum, e o dobrado, que é a resposta dos outros em côro, às vezes com acompanhamento de ruídos feitos com os próprios instrumentos usados na tarefa.

Alguns são especialmente adequados ao fim e acompanham fases do trabalho nas minas. Outros parecem cantos religiosos adaptados à ocasião…”

(Aires da Mata Machado Filho em 1944 em‘O negro no garimpo em Minas Gerais’)

Por outro lado, as raízes destas práticas de garimpo, do ponto de vista tecnológico, apropriadas que foram, pragmaticamente pelos portugueses, podem ter sido algo similares àquelas técnicas, muito antigas, utilizadas na África remota, pelo menos a partir do século 12.

A época é indicada como sendo, aproximadamente a da fixação dos Bakongo nas margens do Rio Kongo, povo do ramo etnolinguístico bantu, que descendo da região do Camarões, se tornou a matriz étnica de quase todos ‘reinos‘ da região do antigo Kongo (entre os quais o chamado reino do Benguela).

Este fator (a integridade ancestral da cultura destes povos) também pode ter contribuído bastante para a longevidade, quase perenidade, da manifestação dos Vissungos entre nós.

É bastante provável enfim, que o formidável estado de preservação destes cantos (pelo menos enquanto duraram) ouvidos ainda hoje, fragmentariamente tanto tempo após a extinção do trabalho escravo e a interrupção do fluxo de angolanos para a região, esteja relacionado à manutenção, mais ou menos inalterada, de certas condições sociais e culturais por parte dos negros fixados ali.

Entre estas condições, podem figurar também certos modos de organização sócio-familiar ancestrais, favoráveis à perpetuação de núcleos ou agrupamentos populacionais em estado de relativo isolamento.

Foram exatamente estes grupos que, com a extinção do trabalho escravo passaram a se dedicar à prática do garimpo clandestino ou qualquer outra forma de economia de subsistência ou sobrevivência, independente da economia convencional da área, mantendo-se, culturalmente arredios até uma ocasião próxima aos nossos dias (na verdade até hoje, como podemos constatar na coleta de campo atual – veja as fotos).

Os detalhes suscitados por esta viagem de coleta, relacionados a uma análise acurada de todo o material anteriormente disponível sobre o assunto (entre os quais, formidáveis registros em áudio) é objeto desta série de artigos e – queiram os deuses de Makemba – do filme que mais dia menos dia realizaremos.

Kurima de vera (muita coisa mesmo a se lavrar e garimpar).

( Leia a pesquisa integral, revista e aumentada de  ‘Na Lapa de Makemba’ no site Scribd)

(Continuação eletrizante deste post em Lapa do Makemba parte #02 e #03.

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~ por Spirito Santo em 18/01/2009.

7 Respostas to “Na Lapa de Makemba #01”

  1. A vida é esta viagem mesmo, para frente e para trás, infinda.

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  2. Caramba…. é coisa demais… riqueza demais… obrigada! Vou lendo aos poucos. Mas dejá agradeço! Fico por aí que eu vou estar por aqui! Abraços!

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  3. lindo

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  4. E eu achava que sabia!
    Sua descrição é uma carona pra visualização da viagem.
    Deve ter sido uma experiência marcante olhar nos olhos dos remanescentes quilombolas , se encontrando naquelas origens.
    Vou continuar essa viagem amanhã. Imperdível.

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  5. Só complementando, quero dizer que sua experiência deve ter sido uma coisa incrível em termos pessoais por conta de você já ter ido, voltar tantos nos depois, com uma nova bagagem, com uma nova visão et. – e, claro, porque os vissungos fazem parte da sua história de maneira muito especial, se me permite tal conclusão.

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  6. Pobres de nós se não existisse, pelo menos a chance de dar umas enlouquecidads dessas, de vez em quando. Eu já estava achando que, depois destes 27 anos jamais voltaria lá. Voltei e a piração foi mil vezes maior. Bom demais viver.

    Abraços

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  7. Spirito, que viagem! Se, para nós, leitores do belo documento que você está produzindo, é uma loucura, imagino que a sua experiência pessoal seja ainda mais incrível. Na = verdade, nem me dou ao direito de imaginar. Mas fico aqui sonhando em fazer algo assim um dia. Ansiosos pela parte 2, esperamos. Um abraço!

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