Sowell por Kamel: O Preto no Branco


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(Cartaz racista contra a adoção do voto negro na campanha eleitoral para o governo da Pennsylvania em 1866 – Arquivo USA Library of Congress)

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Acabo de ler em O’ Globo de hoje, 26 de junho de 2009, um artigo assinado por um tal de Rodrigo Constantino ,exatamente igual a um artigo do Ali Kamel que eu me lembrava, vagamente de ter lido há muitos anos atrás (inclusive com as mesmas citações ao caquético livro do intelectual direitista norte americano Thomas Sowell “Ação afirmativa ao redor do mundo. Um estudo empírico“).

Acabei caindo no site do Observatório da Imprensa (via google) onde me deparei surpreso com um artigo por mim mesmo escrito naquela ocasião debatendo a cruzada contra as cotas que o jornalista Ali Kamel começava empreender no jornal O’ Globo já naquela época.

Época do artigo para ‘O Observatório da Imprensa’: Julho de 2004.

A sensação de estar num circulo vicioso foi o que mais me constrangeu. Apesar de todo o acesso que temos tido hoje à informação e a meios ágeis para o debate de qualquer questão, eu tinha dado com os burros na água naquele mesmo debate, depois de incríveis cinco anos (!) para constatar que não havia ainda, rigorosamente nada de novo para acrescentar à conversa.

Água fria. Não havíamos avançado um milímetro sequer no esclarecimento da questão.

O texto do tal Rodrigo Constantino, rebarbativo a mais não poder, publicado em destaque, sabe-se lá por que méritos editoriais (na minha pauta leio para mim mesmo um sonoro ‘cala-te boca’) num jornal tão importante como O’ Globo, dá bem a medida do ponto a que chegou o jornalismo no Brasil nestes tempos de ética zero (e nem se pode atribuir ainda a culpa ao fim da exigência do diploma).

Outra coisa que me causou muita estranheza também foi a grande afinação que se começa a perceber no discurso destas pessoas (é impressionante, mas eles se repetem quase… ipsis leteris), a similaridade de suas teses e de suas rasas referências, digamos… bibliográficas são impressionantes, dando-me a nítida e desagradável impressão de que são uma espécie de instituição organizada, uma confraria dedicada à uma causa arraigada e fundamentalista. Sei não…

Para deixar patente o surpreendente destas minhas conclusões, decidi então reproduzir aqui o artigo de cinco anos atrás d’O Observatório da Imprensa também…ipsis leteris.

(Com o perdão do estilo ainda claudicante – os títulos e chamadas foram criadas pelo editor do site- peço desculpas também por estar talvez repetindo coisas que já disse por aqui, mas é que na época acho que o Overmundo (nota em 2012: Hoje eu diria “O facebook“) sequer existia. Com o perdão antecipado de vocês inseri também irresistíveis notinhas sarcásticas e atuais em itálico no texto antigo).

É verdade: O Brasil não anda mesmo para a frente.

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COTAS NAS UNIVERSIDADES

Argumentos de uma cruzada frágil

Por Antônio José do Espírito Santo em 6/7/2004 (pois é: o Tio ainda com seu nome civil)

Tem causado muita celeuma o empenho quase militante do jornalista Ali Kamel em sua cruzada em O Globo contra a adoção de cotas raciais no ingresso na universidade pública brasileira… (isto eu sei que já disse aqui, mas ao que me parece ninguém deu muita bola para este detalhe, o caráter… militante do empenho do cara, principalmente em se tratando de um jornalista).

Enfática, facilitada talvez pelo fato de ele exercer um cargo proeminente na maior rede de mídia do país, o que chama mais a atenção na cruzada do jornalista é a incrível contradição entre o amplo espaço de mídia de que ele dispõe e a superficialidade por demais evidente de sua argumentação, atributo no mínimo estranho no texto de um jornalista tão veementemente determinado a expor suas idéias sobre o assunto.

Em seu último – e extenso – artigo sobre o tema, Ali Kamel(ao que me parece até hoje, ele anda escrevendo desde 2004 aquele mesmo artigo sobre o tema) … já começa afirmando assim, sem mais nem menos que, ao adotar as cotas raciais, o Brasil estaria “rompendo com a tradição legal de tratar brasileiros sem distinção de raça ou cor”. Ora, qualquer brasileiro medianamente informado sabe que esta referida tradição jurídica só tem, de tradicional, o fato de ter sido, há muito tempo, transformada em letra morta, desmoralizada pelo desuso, como o foram tantos e tantos outros artigos e parágrafos de nossas leis, principalmente quando tratavam de corrigir injustiças sociais históricas, como o racismo, por exemplo.

Logo em seguida, Ali se vale do trabalho “Ação afirmativa ao redor do mundo. Um estudo empírico“, de Thomas Sowell, segundo ele “um dos mais renomados intelectuais americanos”… (você aí conhece ou já ouviu falar da impoluta figura?).

Não conhecemos nada sobre Thomas Sowell … (hoje, graças ao São Google, já sabemos que ele é um pensador de direita norte americano, eminente quadro do Partido Republicano, integrante da equipe do governo Ronald Reagan entre outras peças deste nipe barra pesada)… Por conta disso não podemos aferir seu alegado renome ou, mesmo, atestar a propriedade de suas idéias contra as ações afirmativas em geral (idéias, a propósito, consideradas “demolidoras” por Kamel). Seria, no entanto o caso de se perguntar: que importância tão transcendental poderia ter um estudo, assumidamente empírico, realizado por um estudioso americano sobre matéria tão especificamente ligada à realidade brasileira atual e imediata, em detrimento do tanto que já se escreveu sobre o tema por aqui?

Para início de conversa, a avaliação dos desacertos (onde foram parar os acertos?) de políticas afirmativas ou de isonomia social não poderia ser realizada assim, de forma tão generalizadora.

Relembrando Bill Clinton, não se pode ser contra políticas deste tipo só por que se pode ser. Tem gente olhando.

Assim sendo, o que teriam em comum realidades sociais tão diferentes quanto Sri Lanka e Nigéria, Índia, Malásia e Estados Unidos, utilizadas por Kamel (citando Sowell) como base de sua argumentação?

Não é tão simples se afirmar peremptoriamente, mas, ao que tudo indica, a essência dos problemas sociais no contexto das eventuais políticas afirmativas empreendidas na Malásia, no Sri Lanka expressa, na maior parte dos casos, a existência de distorções e disputas étnicas, cuja solução ou reparação poderia vir a auxiliar algum tipo de unidade nacional, territorial ou mesmo a realização de aspirações nacionalistas ou separatistas recorrentes. Reflexos de disputas inter-étnicas, em suma, entre outras complexidades.

(Tudo bem. Posso estar sendo também tão rebarbativo quanto o Constantino pois, na época – veja logo abaixo – eu já comentava o mesmo tema levantado pelo Sowell e reverberado por Kamel, mas é que – cá entre nós – ver o mesmo descuido… analítico, aparentemente sendo cometido num artigo acadêmico, especializado, ‘de ponta’ dói, não é não?

É que acabei encontrando também no São Google um artigo de 2005 de uma renomada professora do Departamento de Antropologia da USP, comentando o mesmo artigo de Sowell. Se quiser leia na íntegra para conferir.

Seria impressão minha ou o artigo, aparentemente ponderando a questão – advogando para o Diabo – acaba mesmo, é referendando, de certo modo, o raciocínio torto de Sowell?. Veja os trechos que eu – do mesmo modo com notinhas sarcásticas em negrito- destaquei :

…”O tema tem gerado uma série de livros, sendo que um dos mais recentes acaba de ser editado entre nós: Ação Afirmativa ao Redor do Mundo: um Estudo Empírico, de Thomas Sowell……Autor de vários livros, Sowell é um pensador conservador e influente – … Além do mais, pertence a uma das minorias que estuda: trata-se de um pesquisador negro (êpa! Será que se alude aqui ao mito do ‘preto de alma branca’ repaginado?).

…Sowell chama as políticas afirmativas de “mitologias políticas”, assim como as denuncia enquanto um conjunto de “suposições, crenças e arrazoados”… lança mão dos exemplos de países como Estados Unidos, Índia, Nigéria, Sri Lanka e Malásia, a fim de demonstrar que, nessas nações, tais políticas teriam favorecido um grupo delimitado…provocado conflitos e guerras. Na Índia, nação que teria aplicado políticas de ação afirmativa desde os tempos coloniais ingleses (ações afirmativas colonialistas? Gente de Deus! Como assim?)… Na Malásia, teria favorecido uma maioria, contra uma minoria dinâmica, como os chineses, emigrados mais recentes (‘minoria’…chinesa?.. ‘mais’ dinâmica? Estaria Sowell insinuando o conceito ‘ minoria superior’? Sendo assim, ‘superior’ a quem? Às demais ‘etnias’? Hum!! Isto cheira tão mal. É tão… eugenista). No Sri Lanka, a conseqüência seria a radicalização entre cingaleses e tâmeis e a própria guerra civil.

O conflito civil da Nigéria também teria sido motivado pela tentativa de retirar de uma etnia, os hauçás, os direitos entregues a outra: os iorubas…” (de novo as historicamente impensáveis ‘ações afirmativas colonialistas’ . Como assim?)

Ora, não nos parece necessário ser especialista em antropologia para perceber que os conflitos inter-étnicos descritos por Sowell, claramente identificáveis como notórias e velhacas ‘armações’ colonialistas – ou neo-colonialistas sei lá – de inspiração maquiavelistas como afirmo abaixo, nada têm a ver com o conceito Ação Afirmativa. Menos que argumentos, as teses de Sowell seriam – como as de Kamel são – meros sofismas.

Bem…siga lendo abaixo o meu papo de 2004:

O papel do invasor

Aliás, a confusão inexplicável que Kamel faz dos conceitos raça e etnia chega a ficar esdrúxula quando ele evoca o candente exemplo da Guerra de Biafra, na qual, sabidamente, poderosos interesses do colonialismo inglês insuflaram uma cruenta guerra separatista, a partir de divergências étnicas históricas e muito antigas entre os povos haussa, yoruba e ibo. Ora, a guerra na Nigéria nada teve a ver, diretamente, com a questão das ações afirmativas. O que houve por lá, todos se lembram, foi uma guerra. Os então inimigos yoruba (conhecidos como nagôs no Brasil) e ibo (os massacrados biafrenses) são rigorosamente povos da mesma raça (tendo até alguns de seus descendentes entre os protagonistas no debate atual pela adoção de cotas raciais no Brasil).

A única relação que os referidos conflitos na Ásia ou na África poderiam ter com cotas raciais seria talvez o fato de que, em muitos casos, as contradições étnicas ou nacionalistas que elas visavam resolver terem sido insufladas pelos poderosos interesses geopolíticos do maquiavélico colonialismo das potências brancas ocidentais, que inventaram o racismo, este eficiente sistema de cotas ao contrário: divide et impera.

O mais curioso inclusive é que em sua inexplicável simplificação de um fato histórico tão notório, Kamel, sabe-se lá por que razão (seguindo, cegamente sabe-se agora, a tese truncada de Sowell) omite completamente o papel do invasor inglês, pivô evidente de toda aquela tragédia que, se previu algum tipo de cota, foram as contas macabras da fome e do extermínio.

Nem corpo mole nem mão beijada

Falando agora realmente de cotas raciais, o que teria a ver no discurso de Kamel a eventual ascensão social de um pequeno contingente de imigrantes chineses e japoneses na América com o racismo perpetrado pelos brancos americanos contra seus próprios cidadãos negros? Em que dados afinal Kamel se baseia para afirmar, tão categoricamente, que os emigrantes asiáticos na América teriam ascendido socialmente “apenas por esforço próprio”, sem nenhum tipo de mecanismo de promoção social que os estimulasse? Aliás, é muito forte e incômoda a sensação de que, ao insistir tão enfaticamente nesta tese de uma eventual eficiência oriental Ali Kamel, por extensão, possa estar sugerindo uma espécie de incompetência ou inferioridade negra, historicamente improvável e, logo, preconceituosa. Algo parecido com esta perigosa analogia são as ilações que o jornalista faz sobre as cotas raciais nos EUA.

É bom que se recorde que foi muito árdua, complexa e, por que não dizer, controvertida a luta dos negros americanos por seus direitos civis, luta que foi a inspiração mais evidente do moderno conceito de ação afirmativa hoje em voga no Brasil e no mundo.

Não se pode dissociar os enforcados do Alabama, as grandes marchas pelos direitos civis e os assassinatos de Martin Luther King, Malcom X ou dos irmãos Kennedy das ações afirmativas ou leis de cotas que os precederam. Típico caso de ação e reação causa e efeito, em suma. Desconhecer, subestimar ou ignorar a relação direta entre estes fatos seria o mesmo que tripudiar da história e de suas vítimas. Não houve, há que se frisar, corpo mole nem mão beijada. Nem lá nem aqui.

Intenção protelatória

Ao contrário do que, surpreendentemente afirma Ali Kamel em seu artigo, o que fez o número de conflitos raciais crescer na década de 70 na América não foi a adoção das cotas mas, ao contrário, a violenta repressão policial estimulada pelos segregacionistas e demais ferrenhos opositores da integração racial e das ações afirmativas em geral (grupo no qual, infelizmente, Ali Kamel parece que de algum modo se coloca, levando Thomas Sowell de contrapeso).

Aliás, quando trata da questão das cotas nos Estados Unidos, Kamel omite também a enorme e segregadíssima população hispânica (sobretudo mexicanos e porto-riquenhos), além da árabe (sobretudo os muçulmanos, excluídos da vez no pós-11 de Setembro) e para os quais muitas ações afirmativas, por certo, ainda terão que ser empreendidas um dia.

Voltando enfim ao foco principal da questão, sejamos francos: o sistema de ensino no Brasil é, em todos os níveis, excludente em sua própria essência. Excluir, garantir a pouca farinha para o pirão de poucos, esta tem sido a sua principal razão de ser.

Delfim Neto, famoso ex-ministro da Fazenda no auge da ditadura militar, teria afirmado certa vez, acerca da extrema desigualdade na distribuição da renda no país, que era preciso primeiro “aumentar o bolo” para só então distribuí-lo entre os despossuídos. A tese de Kamel de que “é preciso primeiro melhorar a qualidade do ensino básico” para só aí, e pelos meios atuais, autorizar o ingresso de negros e pobres na universidade, vista por este prisma, parece ter esta mesma intenção protelatória.

Excedentes indesejáveis

É óbvio que será necessário melhorar a qualidade do ensino básico, mas uma coisa absolutamente não anula a outra. Há que se intervir radicalmente, e desde já, nos procedimentos de acesso à universidade pública, a fim de demolir seus mecanismos de exclusão tão arraigados. Quebrar seus funis.

É óbvio que a adoção de cotas, neste como em outros casos, objetiva a correção de distorções eminentemente sociais. Ocorre, no entanto que o fato de os negros serem as vítimas mais evidentes destas distorções faz com que as cotas raciais sejam um critério claramente pertinente, um grande facilitador na implementação destas políticas. O resto é tergiversação.

Sofismas na acepção da palavra, os procedimentos atuais que regulam o acesso ao ensino universitário, por exemplo – notadamente os chamados exames vestibulares – são do mesmo modo excludentes por natureza, não representando, a rigor, procedimento de aferição de conhecimento algum que não seja a simples apreensão de senhas, regras e códigos de acesso, decodificados em apostilas.

São, portanto o que o seu próprio nome diz: mecanismos “vestibulares“, portas reguladoras do acesso para os que tiverem mais “bala na agulha”, aqueles que, por ascendência socioeconômica (de certo modo o mesmo que sócio racial no Brasil), terão o direito à educação plena que o Estado brasileiro não consegue a disponibilizar para todos, necessitando de, por meio destes eficientes mecanismos, excluir os excedentes indesejáveis.

Não compreenderam

Se há tão profundos níveis de desigualdade social no Brasil, é óbvio que semelhante sistema educacional não visa – ou não precisa visar – necessariamente educar, desenvolver país algum. Quem liga?

É por estas e outras que, se formos mesmo rigorosos quanto a isto, veremos que não existem ainda provas realmente cabais de que a universidade pública brasileira é excelente em si mesma. Um oásis de excelência a ser preservado da invasão de bárbaros pés-rapados.

É provável mesmo que, num ranking mundial, não estejamos em posição tão vantajosa quanto poderíamos estar se tivéssemos uma universidade realmente democrática. Como se sabe hoje que raça e condição econômica não são, de modo algum, sinônimos de maior inteligência ou maior aptidão intelectual, é óbvio que estamos utilizando, ainda hoje, mais de um século depois do fim da escravidão, algum tipo de complexo mecanismo de exclusão, que faz com que sejam admitidas na universidade uma maioria esmagadora de pessoas brancas e relativamente ricas, caracterizando um perfeito sistema de cotas raciais, portanto.

Se soubermos o verdadeiro sentido do conceito educação, concluiremos que o que temos no Brasil hoje é um sistema educacional ineficiente, além de doente e anacrônico. A sociedade brasileira está cheia de “mecanismos vestibulares” como este (ações negativas). No serviço público, no esporte, na dramaturgia televisiva, e até no jornalismo, talvez. São estes mecanismos que as ações afirmativas visam demolir, independentemente de quaisquer outras ações que o Estado ou a sociedade venham a empreender em prol da democratização do país.

É isto que pessoas como o jornalista Ali Kamel não compreenderam ainda.

(… ou não querem acreditar, acrescentaria eu hoje em dia, um tanto ou quanto cético quanto a honestidade ideológica desta gente)

Spirito Santo
julho 2004/ Junho 2009

Nota:
(Trecho parcialmente traduzido do
São Google a partir das referenciais descrições do cartaz)

Ilustrando esta matéria um cartaz racista atacando expoentes do Partido Radical Republicano que apoiaram o direito de voto para os negros (emenda Constitucional” de maio de 1866). O cartaz caracteriza o candidato democrata Hiester Clymer como adepto da plataforma “Homem branco”, representado pela idealizada cabeça de um jovem homem (Clymer pregava a supremacia racial dos brancos), em oposição a uma estereotipada cabeça de um negro representando o adversário de Clymer, James White Geary (que também era branco) e apoiava o voto para negros.

(Observem que, ao contrário do que ocorre com o ‘retrato’ de Clymer, no dístico que classifica o homem negro – supostamente Geary – não consta a expressão ‘man’ – ‘homem’).

Os cartazes foram espalhados na Pennsylvania durante a campanha pelo governo do estado em 1866. Geary acabou sendo o mais votado (307.274 votos) do que o racista Clymer (290.096 votos). Geary governou a Pensilvânia por dois mandatos, de 1867 a 1873.

O Camelo na Agulha


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Cerimonia na Escola Mitre 27 agosto 1918 Foto Augusto Malta
(Teste da ‘agulha no palheiro’: Procure os ‘wallys‘ nas fotos e ganhe um doce – o ‘wally’ no caso é um aluno – ou aluna – afro-descendente)


…”O que diferencia o sofisma da falácia, é que, embora ambos sejam basicamente raciocínios errados, a falácia é involuntária. Ao passo que o sofisma tem como objetivo induzir a audiência ao engano, o raciocínio falacioso decorre de uma falha de quem argumenta. Quem usa sofismas, sabe o que está fazendo quando, por exemplo, tenta nos empurrar uma conclusão para a qual não dispõe de dados ou demonstrações suficientes. ….”
Othon M. Garcia

(Comentando o artigo “Cotas” por Ali Kamel publicado no jornal O Globo em 27/05/2008 e ainda tão atual e recorrente hoje em dia)

Ali Kamel assim falou e disse:

Sofisma número 01:

” A Uerj, a primeira universidade brasileira a adotar o sistema de cotas raciais, divulgou um estudo bastante revelador. No vestibular do ano passado, foram oferecidas 1.048 vagas para negros, mas apenas 673 estudantes se inscreveram. Desses, 439 passaram.
No ano anterior, o mesmo fenômeno já tinha acontecido. Foram oferecidas 1.031 vagas para negros, mas apenas 753 se inscreveram (as aprovações foram de apenas 432 alunos). Antes, havia mais candidatos inscritos do que vagas, mas o cenário mudou completamente nos últimos dois anos. A Uerj anunciou, então, um amplo estudo, a ser concluído até o fim deste ano, para descobrir as causas.”

(O baixo índice de inscrições bem como a taxa de cerca de 60% de aprovações, baixa pela insinuação do autor, ao contrário do que ele induz o leitor a concluir, são fatores previsíveis e compatíveis com a natureza perversa da exclusão sócio racial no Brasil. Estes números não provam, de forma alguma, que não há demanda de vagas para negros ou mesmo que a oferta é superior à esta demanda. O que provam é que o sistema de cotas, pelo menos no caso da Uerj, é sério no que se propõe e atende, em grande medida suas finalidades)

Mas Ali, não se faz de rogado e sem salamaleques, segue:

“Eu pergunto: precisa?
Para mim, esses dados são eloqüentes e provam, de maneira cabal, que, se os negros e os pardos não estão nas universidades na mesma proporção que ocupam na população geral, o motivo não é o racismo. “

(Ficando atestado que os rasos dados apresentados por Ali NÃO são eloquentes e nem provam nada de maneira CABAL, a afirmação do autor de que a razão do negro não estar na universidade não é o racismo, não se confirma. A afirmação inicial, tema central de toda a argumentação do autor no artigo, portanto, não procede)

E ainda assim Ali Kamel segue:

Sofisma número 02:

“Se, mesmo com 20% de vagas reservadas, não há inscritos suficientes, isso é um sinal claro de que a política de cotas é um instrumento ineficiente para abrir as portas do ensino superior. Se a Uerj decidisse ampliar a reserva de vagas para, digamos, 40%, o único resultado seria uma ociosidade ainda maior”

(A afirmação baseada numa argumentação infundada, segue sendo inconsistente. Aliás, a cega insistência nas afirmações infundadas é um artifício de argumentação usado pelo autor de forma, irritantemente insistente:)

“…O que esses números dizem de uma maneira irrefutável é que o ensino médio não forma alunos negros em número suficiente, o que impede até mesmo uma simples inscrição no vestibular (o certificado de conclusão do ensino médio é requisito para entrar na universidade) “

(Não está claramente demonstrado de onde o autor tirou esta conclusão, logo nada em seu discurso é ‘irrefutável’. O baixo índice de inscrições, provavelmente só atesta que uma grande parte dos alunos negros não se sente ainda, suficientemente preparada ou mesmo, confiante para tentar o vestibular.

Outros fatores tais como impossibilidades sócio econômicas definitivas, necessidade de ingressar logo no mercado de trabalho, também são fatores óbvios que poderiam ter sido considerados pelo autor.)

Renitente, Ali segue seu arrazoado:

Sofisma número 03:

“Antes, havia mais inscritos do que vagas, porque havia um estoque de alunos formados em anos anteriores, estoque esse que, com o tempo, se esgotou. Hoje, faltam formandos oriundos do ensino médio. Como para freqüentar o ensino médio e o ensino fundamental não há nenhum pré-requisito, não se pode dizer que haja neles um gargalo que atinja especificamente os negros”

(Mesmo ignorando o primarismo do discurso – inusitado para um jornalista da posição do autor – a argumentação, não pode deixar de ser criticada por sua leviandade flagrante: São inúmeras as dificuldades interpostas aos jovens negros – e consequentemente pobres – para vencer a barreira do ensino médio e mesmo do ensino fundamental.

Na verdade, a natureza cruel destas dificuldades tão evidentes está na raiz de toda a discussão que, reconhecendo a existência de racismo no Brasil, justifica como sendo urgentes e necessárias as ações afirmativas específicas para negros, sem prejuízo de outras ações de caráter mais universal, as quais os negros do mesmo modo teriam direito. )

…Cego e surdo Ali vai em frente:

“…Neste país, negro, pardo, branco ou amarelo, todos têm livre acesso às escolas públicas . Em outras palavras, não é o racismo que impede os negros de se formarem no ensino médio e, formados, de passarem no vestibular, mesmo tendo a vida facilitada por cotas”

(De novo o primarismo do discurso. Como todo mundo sabe e não discorda, o livre acesso à péssima escola pública brasileira – como o próprio autor de maneira contraditória, argumenta em outras situações – não é garantia alguma de livre acesso ao vestibular e, muito menos à universidade por razões mais do que óbvias.

A argumentação principal que justifica as cotas está ligada, diretamente ao fato de que o sistema educacional brasileiro é excludente por sua própria natureza, havendo criado um odioso filtro denominado exatamente ‘vestibular’, um gargalo na acepção da palavra ao qual só têm acesso aqueles que podem pagar por uma espécie de ‘treinamento’ que os habilita a ingressar na universidade pública – que assim, elitizou-se de forma inaceitável já que, por clara definição, deixou de ser para todos.

Afora todas as mazelas e empecilhos que os jovens negros – e consequentemente pobres, repetimos – já sofrem para ultrapassar a barreira do ensino fundamental e do ensino médio, ainda são excluídos do acesso ao vestibular por não terem poder aquisitivo para pagar este ‘treinamento‘ específico de acesso.)

Segue Ali a sua trilha santa:

“O que os impede de estar bem preparados é a pobreza. São os pobres, de todas as cores, que freqüentam as nossas escolas públicas, a maioria esmagadora delas de péssima qualidade”.

(A afirmação são pobres de todas as cores‘, ponto recorrente da argumentação do autor, ignora de maneira aparentemente oportunista, o fato de no Brasil – e no Rio de Janeiro em especial – a maioria esmagadora dos pobres ser formada por negros e que são a estes pobres-negros que as nossas escolas de ‘péssima qualidade’ se destinam, ou seja, ignora o autor que há uma clara relação de causa e efeito – intencional supõe-se – entre a péssima qualidade das escolas e a clientela a qual elas se destinam.

Por outro lado no caso deste elemento recorrente da argumentação do autor – a afirmação de que os pobres têm cores – é bastante sintomático, o fato de focar, tão especificamente, exatamente os indivíduos de raça negra como sendo os que ele propõe – e apenas a eles – que se negue as cotas)

Por Alah!Tomado por sua estranha e insana razão, ainda assim, Ali prossegue:

Sofisma número 04:

“Os mesmos números da Uerj comprovam o que estou dizendo. A universidade também destina cotas para estudantes da rede pública: no ano passado, foram oferecidas 1.048 vagas, e os inscritos foram 1.292 alunos. Mas apenas 787 passaram, mesmo com as cotas. No ano anterior, 1.581 alunos da rede pública se inscreveram nas 1.031 vagas oferecidas nas cotas, mas, novamente, apenas 830 alunos conseguiram entrar. Por que há mais alunos inscritos na cota para alunos de escolas públicas? A lei que instituiu as cotas na Uerj, diferentemente de outras leis, não diz que negros são os negros propriamente ditos e os pardos. Fala apenas em negros, e ordena num outro parágrafo que a universidade crie mecanismos para combater fraudes”

(A identificação de quem é ou não é negro no Brasil é uma questão de natureza muito controversa, mas a culpa disto (ou o ônus) não pode ser atribuída aos ‘negros’ ou aos ‘pardos’. A rigor, contudo, é óbvio que o critério (criado pela própria cultura do racismo à brasileira), é o da aparência.

Aqui, é negro quem parece ser negro já que este é o estigma, a condição que identifica e determina quem será excluído. A questão se tornou bem mais confusa ainda quando, institucionalmente por ocasião de alguns recenseamentos se adotou a prática do ítem cor autodeclarado que, atendendo a um interesse específico da elite brasileira, reduziu drasticamente – e de forma claramente enganosa – a taxa de negros no país.

Em geral, ao lidar com o problema, os especialistas tentam diluir a população num infinito mosaico de cores sem, contudo, justificar a misteriosa razão que faz com que a nossa elite econômica continue a ser, quase que inteiramente ‘branca’.

O mais exdrúxulo dos equívocos de nossos demógrafos, contudo é aquele que denuncia que nas estatísticas de cotistas brasileiros, na categoria dos ‘pardos’, estão computados os nossos milhões de descendentes de índios. Ora, não podemos nos esquecer que, no ensejo de serem também excluídos no passado, os índios do Brasil também eram classificados como ‘negros’.

Foi para corrigir esta distorção odiosa (mascarava a possibilidade de se alegar racismo) que se começou a computar os ‘pardos’ como pertencendo ao mesmo contingente social dos negros.

Constatou-se que, do ponto de vista do racismo à brasileira, discriminava-se os ‘pardos’ tanto quanto se discriminava os ‘negros’. É este critério que orienta e justifica a adoção de cotas chamadas de ‘raciais’. O critério é – sob o ponto de vista ético inclusive – perfeitamente legítimo.)

Ainda assim Ali segue com a palavra:

“Num país miscigenado como o nosso, é muito provável que os pardos de várias tonalidades tenham medo de se inscrever como negros e passar o vexame de ou ver a inscrição negada ou, pior, ser punidos como fraudadores. Devem estar optando pela cota mais segura, aquela que está isenta de qualquer tribunal racial, a cota para alunos de escolas públicas”.

(De novo as expressões ‘miscigenados‘ e ‘pardos de várias tonalidades‘ são usadas de forma capciosa. As expressões, maquiavélicas (‘divide et impera‘) a mais não poder, admitem a existência de ‘pardos’ – ‘mestiços‘ – novamente com a nítida intenção de reduzir – ou mesmo anular, extinguir – a existência de negros, excluindo desta forma furtiva, a possibilidade de se alegar a existência de racismo no Brasil.

O aspecto mais frágil da argumentação do autor, contudo é que ele não explica que apenas aqueles que alegam ser pardos, mas têm inegavelmente a aparência de brancos– que se supõe ser um número mínimo de pessoas – são os que têm medo de passar por fraudadores no sistema de cotas.

A questão é obviamente ética. É o ônus que devem pagar aqueles que, mesmo nunca tendo sido considerados negros, estão tentando tirar partido de uma situação se valendo do fato dela ser, naturalmente ambígua.

Como o critério do racismo à brasileira, como já se disse acima, é sempre a aparência, supõe-se que, do ponto de vista da lei das cotas, este contingente precise ser tratado como um caso à parte, um caso omisso, com implicações éticas e jurídicas que não podem, de modo algum, ser consideradas uma falha importante do sistema já que, mesmo juridicamente, toda regra tem exceção.)

e com a platéia já meio que bocejando segue Ali impassível :

Sofisma número 05:

“Mas o trágico é que em ambas o índice de reprovação é altíssimo: 35%, na cota para negros, e 39%, na cota para alunos da rede pública. Um sinal óbvio de que o problema reside no péssimo ensino que nossas escolas dão aos seus alunos, os filhos pobres do país. Uma tragédia”

(Como já se afirmou acima – e como o próprio autor, em suas próprias entrelinhas admite – os ‘filhos pobres do Brasil’, em sua esmagadora maioria, não são ‘brancos’. São tecnicamente tratados, discriminados e excluídos dos processos educacionais – entre outros processos – por não serem brancos, sendo, portanto simbolicamente ‘negros’ – mesmo se sabendo que a afirmação, usada de maneira política, não possui base científica alguma (não existem raças, cientificamente, mas todo mundo que não é cínico sabe que existe racismo no Brasil e raças inventadas para justificá-lo).

“Diante desses números, só há uma conclusão possível: as universidades só estarão coalhadas de alunos de todas as cores quando o nosso ensino público for de qualidade”.

(A afirmação parte do princípio de que o ensino das escolas privadas – ou dos cursinhos pré vestibulares – tem qualidade per si. Esta qualidade, contudo, excetuando algumas poucas escolas da alta classe média branca, de elite, portanto, não está devidamente atestada já que o acesso à universidade ainda se dá por intermédio de um sistema de avaliação muito questionável, no que diz respeito ao nível de capacitação do candidato. Há que se atestar também a qualidade da universidade brasileira em relação a de outros países para se ter uma justa medida de valor do sistema e da eficiência de seus mecanismos de acesso. )

...Só quando galinha criar dentes…

Sofisma número 06:

“Hoje, segundo dados oficiais, 75% das escolas de ensino fundamental no Brasil não têm sequer biblioteca, 91% não têm laboratório de ciências, 80% não têm sala de vídeo, 62% não têm computadores, 83% não têm laboratório de informática e 80% não têm acesso à internet. Não há uma só reportagem feita em uma escola pública típica, seja de cidade grande, pequena ou média, de área urbana ou de interior, em que o quadro não se repita: prédios caindo aos pedaços, livros didáticos de baixíssima qualidade, professores mal remunerados e mal preparados. Enquanto esse quadro persistir, os pobres brasileiros continuarão barrados às portas das universidades, mesmo daquelas que tentaram o atalho fácil das cotas. Haverá menos inscritos do que vagas oferecidas, e a reprovação continuará a ser grande”

(A constatação do autor ‘chove no molhado‘. Como todo mundo está cansado de saber a péssima qualidade da escola pública do Brasil atinge em cheio os pobres do país. O que o autor, estranhamente insiste em negar é que no Brasil a grande maioria dos ‘negros’ é pobre, ou seja, está sendo ainda excluída dos processos de evolução e promoção social, mais intensamente do que a parcela dos pobres em geral, por ser descendente de escravos que, como todo mundo também sabe, foram largados à margem da sociedade brasileira com a abolição (como se pode constatar facilmente, uma ínfima porção de pessoas reconhecidamente ‘brancas’ é realmente pobre no país).

Como convém ressaltar, historicamente este procedimento excludente tem sido usado de forma renitente pela elite beneficiária da situação – que decidiu manter o sistema vigente até hoje, reservando aos filhos, netos e bisnetos daquela gente escrava este mesmo hediondo lugar na sociedade, na mesma medida em que reserva (num evidente sistema de cotas ao contrário) os melhores lugares da sociedade para os seus (inclusive aqueles financiados com dinheiro público – como ainda ocorre no caso das universidades estaduais e federais.

É isto que precisa ser reparado já (como se faz em qualquer sociedade democrática e civilizada) com medidas e ações afirmativas e reparadoras. É esta a verdadeira natureza da proposta de cotas raciais no Brasil. Igualdade de oportunidades para todos de algum modo que não seja tardio, com métodos que não sejam meros sofismas protelatórios como os propostos, tão genericamente pelo autor.

Ou bem adotamos cotas para ‘negros’ ou abolimos as cotas para ‘brancos’. Tanto faz. Negando todos os sofismas do autor, deveríamos afirmar: Sim, somos racistas. Ponto. A questão nova deveria ser: Quando e como vamos deixar de sê-lo?)

Seria o fundamentalista ‘anti-racialismo’ de Ali uma espécie de… Neo racismo? Senão vejamos:

“Não vê quem não quer. E quem não quer ver são os racialistas, aqueles que querem transformar a nossa sociedade miscigenada numa nação racialmente dividida a fórceps entre negros e brancos. Em vez de analisarem os números e admitirem que é a pobreza, muito mais do que o racismo, a responsável pela falta de acesso de negros às universidades, preferem escrever manifestos em que repetem os mesmos falsos argumentos estatísticos de sempre. Desfiam uma série de números mostrando que negros e pardos encontram-se em situação pior, na média, do que os brancos, mas omitem que as estatísticas não permitem deduzir que isso seja fruto de racismo. É fruto da pobreza. O estudo da Uerj é apenas uma prova a mais, dentre muitas. A sanha racialista é de tal ordem que o Ipea chega a divulgar com pompa e orgulho que, este ano, os negros serão maioria entre os brasileiros. Nada contra, se fosse verdade. Não é. O que os dados do IBGE mostram inequivocamente é que o Brasil caminha para ser a maior nação mestiça do mundo. É isto o que temos de comemorar, é a prova mais evidente de que, no Brasil, não existem grupos estanques, todos se misturam”. É a nossa novidade diante do mundo, contra a qual lutam os racialistas”.

(O fim da argumentação constrangedora do autor é voltado para a enfatização do sofisma-chave de seu discurso ideológico: O Elogio à mestiçagem, a eufemística tese da Democracia Racial tão caquética e arcaica quanto desmoralizada em sua impropriedade, atestada pela simples observação dos fatos de nosso selvagem cotidiano e por sua evidente finalidade (desde Graça Aranha até Gilberto Freire) de servir de pretexto político para manter, ad infinitun, as coisas como estão na sociedade brasileira que, todo mundo também já deve saber, é uma das mais desiguais do planeta.

Ou não?

Até aí tudo poderia se resumir a um simples debate entre opiniões eventualmente divergentes, mas há de se considerar que no caso do jornalista existe um componente inaceitável – e pouco ético, na verdade – que é o fato dele, no ensejo de ocupar a sua triste tribuna, se valer da privilegiada posição que ocupa a frente dos maiores veículos de comunicação do país, contaminando todo o noticiário com editoriais e matérias em nome de sua estranha campanha contra ações afirmativas para negros no Brasil.

Não nos parece sério negar – ainda mais assim com argumentos tão ultrapassados – a existência no Brasil de procedimentos sociais exercidos por uma elite autodeclarada, caracterizados pela adoção de mecanismos de exclusão de certos grupos sociais sob a suposta – e oportunista – alegação de que estes pertencem a uma raça inferior (traduzindo : Racismo).

Menos sério ainda é fazer isto por meio de um arrazoado teórico tão primário, contraditório e desprovido de consistência.

A julgar por este seu tom de cruzada militante – e ao que parece pessoal – movimentando forças formadoras de opinião tão poderosas quanto as Organizações Globo, especificamente contra negros e pardos, talvez se devesse traduzir o suposto anti-racialismo do autor como sendo uma atitude meramente… racista (ou… neo racista talvez). Uma espécie de anti- abolicionismo tardio, como eu mesmo já disse em certa ocasião.

Informando para quem ainda não sabe:

ALI KAMEL se declara apenas jornalista, mas, além disto, é o Editor Chefe do jornal impresso O Globo, de onde dispara editoriais – obviamente apócrifos – contra as cotas para negros e Editor Executivo do Jornal Nacional e de todos os telejornais da TV Globo, de onde pauta – e endossa – matérias do mesmo modo tendenciosas e opinativas contra ações afirmativas para negros no Brasil. Quem decide, portanto quais, como e quando opiniões favoráveis às cotas raciais serão publicadas nestes grandes veículos, é ele mesmo: Ali Kamel.)

Ou seja: É o camelo que passou pelo buraco da agulha, e está, injustamente com toda a banca no reino dos céus.

Mas não há de ser nada:

_Alah u Akbar!

Spírito Santo
Junho 2009