Crioulize-se já! Somos todos negões


Creative Commons LicenseTodo o conteúdo deste blog está assegurado por uma licença Criative Commons
racismo imagem boa

Crioulize-se já!

Você ainda não notou? Somos todos vira-latas, crioulos, ‘crilouros’, nativos, silvícolas trazidos ou vindos para cá, misturados com uns gatos pingados degredados, bandidos, inimigos do rei de Portugal, de algum rei títere do Kongo, de algum desses reis aí, de ocasião, personas não gratas, estorvos despachados de alguma escura paragem remota da terra como párias, sem-terras, renegados, ‘dalits’ que almejam voltar um dia a ser gente ‘normal’.

Simbolicamente portanto – mal comparando – somos todos negões.

Sendo assim, que história é esta de sermos contra o que nos redime, o que nos integra num mundo decente de igualdade e de justiça social?

Que papo é este de sermos contra o que pode vir a nos tornar (posto está que, infelizmente ainda não somos), gente uma igualzinha à outra, sem distinção, todos no mesmo quadrado, sem tirar nem por?

Se duvidar, faça você mesmo junto comigo, a comparação com os conceitos Racismo, Segregação, Apartheid, etc.:

“O apartheid, que quer dizer separação na língua africâner dos imigrantes europeus, atingia a habitação, o emprego, a educação e os serviços públicos, pois os negros não podiam ser proprietários de terras, não tinham direito de participação na política e eram obrigados a viver em zonas residenciais separadas das dos brancos”

(aqui as mesmas limitações são impostas – inclusive as ‘zonas residenciais separadas’ – por meio da severa restrição de acesso à educação e ao emprego).

“Os casamentos e relações sexuais entre pessoas de raças diferentes eram ilegais (aqui são reprimidos ou desestimulados por meio de sutis mecanismos sociais). Os negros geralmente trabalhavam nas minas, comandados por capatazes brancos e viviam em guetos miseráveis e superpovoados “

(aqui as condições nestes aspectos são, praticamente as mesmas, com o agravante de que, para a maioria, quase sempre não há trabalho, nem mesmo em minas)

_”Ah…mas há o Bolsa-família!” _ Diria um engraçadinho ao que eu responderia:

_”Ah…Fala sério!”

Afinal, vamos combinar: Aqui a farinha NÃO é pouca e não há direito algum na terra que justifique que o pirão de uns tem que vir primeiro que o do outros.

Ih! Ai, ai, ai…Racismo de novo? Porque falo nisto ainda?

É que o tema veio de novo bater na minha cabeça, martelado pelos mesmos agentes do mesmo ramerrão terrorista, a mesma conversa fiada, a mesma tecla gasta de que, ao se falar de racismo, cotas raciais e ações afirmativas em geral, estaríamos criando a cizania, a dissolução dos costumes, levantando do túmulo a praga transilvanica do racismo que sociedade sem castas e raças que seríamos, entre nós nunca teria existido (ahan, ahan, ah…sei…sei…), evocá-lo nos levaria a danação eterna do fraticídio e da dissolução social, o fim de nossa mui meiga e fraterna civilização, tão justa, tão igualitária, patati patatá (ahan, ahan, ah…sei…sei…).

Menos. Primeiro pare para pensar.

(Mas também, num país onde basta uma cara inventar uma igreja e se autointitular bispo para todo mundo sair dando dinheiro, carros e propriedades para o sabichão, vocês queriam o que? Haja paciência e compreensão. Deus, perdoai-os. Eles não sabem o que fazem.)

E não é não? Veja, por exemplo a incrível discussão sobre o Racismo à Brasileira e a pertinência – ou a impertinencia – das políticas de ação afirmativa no Brasil. Veja como ela confunde analistas e especialistas dos mais abalizados.

Existem discursos anti cotas para todos os gostos: Dos sofismáticos, fundamentalistas de direita, quase racistas como os do jornalista Ali Kamel (este mesmo, aquele que afirma:”Não somos racistas”) e seu parceiro Demétrio Magnoli (este por mais estranho que pareça, um doutor em sociologia e demógrafo) até os messianicos supostamente epistemológicos dos antropólogos (doutores especialistas em…Cultura Negra do Brasil) Ivone Maggie e Peter Fry.

Bem, voltando à vaca fria então: O aspecto que vamos abordar hoje é emblemático e só volto ao tema por isto (não sei vocês, mas eu achei absolutamente incrível, fiquei pasmo mesmo quando constatei que o agente do presente ‘alerta vermelho’, era um historiador brilhante como o José Murilo de Carvalho.

O mesmo muito curioso como a questão embanana o pensamento de gente das mais preparadas e modernas.

Até aqueles que se dizem progressistas, ‘de esquerda’ mesmo, no que tange esta questão espinhosa incrivelmente acabam, clara ou sub repticiamente cerrando fileiras com posições quase fascistas, como as levantadas por gente como a família Bolsonaro, por exemplo, parlamentares militaristas, com origem ideológica alinhada com a vetusta ditadura militar, a qual pertence o vereador Flavio Bolsonaro, autor da lei que tenta abolir as cotas nas universidades públicas do Rio de janeiro.

Relendo e analisando o que disse o renomado historiador aqui citado acerca dos controversos métodos de classificação ‘racial’ de nossa população, insatisfeito (ele) com a insistência dos adeptos das ‘cotas para negros’ que exigem que no cômputo para o cálculo de quantos são os negros do Brasil, devem ser incluídos todos os indivíduos denominados ‘pardos’, encontramos o que nos pareceu ser uma série inusitada de incongruências, a saber:

Para José Murilo – partidário de uma tese muito recorrente entre os intelectuais contrários às políticas de afirmação racial – o grau de miscigenação no Brasil seria tão elevado, mas tão elevado que não faria nenhum sentido propor ações deste tipo baseadas na raça ou na cor dos indivíduos.

É o velho sofisma de negar a existência óbvia do Racismo por intermédio da inexistência cientificamente provada de raças humanas. Confundem alhos com bugalhos, sem demonstrar as intenções.

A tese é simples (ou simplista, sei lá): Existiria um número muito maior de ‘cores’ na população brasileira para que apenas ‘negros’ e ‘brancos’ sejam considerados.

Lembram muito o ‘consiglieri’ Nicolau dando dicas para o príncipe: Divide et impera”, não é não?

(O mais estranho desta tese é que, com finalidades aparentemente opostas, ela se baseia na mesmíssima maquiavélica conclusão a que chegaram os formuladores das leis do Apartheid sul africano, que lá para as tantas, constatando que para manter o poder não bastava mais apenas separar negros de brancos, conceberam uma espécie de arco-íris racial, de modo que uma pirâmide social rigidamente hierarquizada fosse institucionalizada – brancos, negros, mulatos, indianos, etc. – com o os brancos sempre no ápice, é claro.)

Você já tinha se tocado deste sutil detalhe da ‘involução’ do Apartheid?)

É com esta tese capiciosa e, a nosso ver baseada em meros sofismas (quando não em equívocos sociológicos) que José Murilo – com certo sarcasmo até – escreve num artigo na Internet (custo a crer que tenha sido a sério):

“Sugiro, para início de conversa , que os atuais brasileiros sejam classificados assim”, diz ele no artigo:

(Enumero as categorias criadas ou sugeridas por ele e logo a seguir as comento, sempre ressaltando que, por mais estranho que possa parecer, quem as formula, ipsis leteris, é mesmo o grande historiador José Murilo de Carvalho)

…Aliás, ué! Se a diluição dos biotipos e das ‘raças’ por aqui desautoriza qualquer tipo de categorização ‘racialista’, porque diabos ele mesmo propõe esta revisionista categorização? Ficamos sem entender. Vamos a ela então, lembrando que é essencial que você leia o artigo do José Murilo no original também, certo?

“Categoria A – Nativo-brasileiros (Índio)”

Para início de conversa, a denominação ‘nativo-brasileiro’ é imprópria porque envolve alguns problemas epistemológicos importantes quais sejam:

O conceito ‘nacionalidade’ (ou ‘natividade’, tal como José Murilo formula), no caso do índio – aquele que ocupava o território ‘descoberto’ pelos europeus – só faz sentido do ponto de vista do europeu.

Do ponto de vista do índio, um ser nômade por excelência (pelo menos no caso do Brasil) o conceito ‘nação’ era (e ainda é) circunstancial e bem menos abrangente, significando apenas um jeito do indivíduo pertencer a um contexto específico, pertencer à tribo (à ‘nação’) a uma cultura enfim.

Por esta mesma razão, para o índio, originalmente ‘indivíduo de outra nação’ (‘estrangeiro’) não era um conceito racializado em si. Estrangeiro poderia ser também um indivíduo de biotipo (aparência, ‘raça’) igual aos indivíduos de sua nação. ‘Estrangeiro’ era, pois o indivíduo ‘de fora’ de seu território, a despeito de seu biotipo ou aparência.

Por esta razão a classificação biotípica, a suposta diferença ‘racial’ existente entre o europeu e o índio só se configurava no âmbito de uma divergência política e cultural radical, no contexto das relações entre invasores (reconhecidos pelos índios como sendo, aparentemente ‘brancos’) e invadidos (identificados pelos europeus por sua vez – e também aparentemente – como ‘negros’ ou ‘índios’).

É preciso se considerar também que todo racismo parte de preconceitos intencionalmente inventados. Logo, no Brasil, mais até que as outras ‘categorias raciais’, este ‘indigenismo’ enquanto categoria classificatória com finalidades sociológicas, não passa também de uma entidade meramente cultural.

A classificação ‘índio’, fora de seu contexto e sentido originais (um limite territorial específico, uma reserva, um ‘território’ enfim), não faz, portanto sentido algum. Há que se considerar fortemente neste caso que a expressão ‘índio’ tem, antes de mais nada este conteúdo de entidade, evidentemente classificatória, com o fim de marcar, diferenciar os indivíduos de uma cultura em relação (ou em oposição) à outra.

Ora, se um ‘índio’ só é índio, portanto, no âmbito de sua cultura, considerando-se que é reduzidíssima a nossa população realmente indígena, o ‘nativo brasileiro’ de José Murilo não é uma categoria… ‘racial’ válida e precisa ser enquadrada, na maioria dos casos, em outras categorias, certo?

Entre estas categorias (quando o indivíduo ‘indígena’ aceita ser um indivíduo ‘assimilado’ pela ‘civilização’ do outro) as mais comuns são as de ‘caboclo’, ‘pardo’ ou, simplesmente ‘nordestino’. Além do mais, do ponto de vista europeu, desde as Cruzadas, ‘negros’ sempre foram os ‘não brancos’ em geral, o ‘outro’, o ‘estranho’ a ser conquistado, qualquer povo que não fosse europeu.

‘Negros’ podiam (e até hoje podem) ser mexicanos, indianos, vietnamitas, árabes, polinésios, aborígenes, sempre classificados assim nos momentos mais agudos do embate entre a cultura deles e a dos europeus (como no caso das guerras de conquista, por exemplo).

Um exemplo candente disto é que a secular expressão alemã ‘Mohr’ (‘mouros’), com efeito, até hoje é utilizada na Europa central, pejorativamente para classificar ‘negro’. É, portanto o Europeu (o branco, por suposto) que ‘racializa’ os conceitos ‘índio’ e ‘negro’, etc. com as finalidades sobejamente conhecidas. Ressalte-se também que a expressão ‘negro’, historicamente só foi usada para se referir exclusivamente a africanos, circunstancialmente.

Os africanos e os indígenas (de todos os biotipos, inclusive os africanos pretos) passaram a ser classificados, simbolicamente como ‘negros’ no âmbito dos conflitos violentos que caracterizaram a invasão, a subjugação e a colonização dos territórios fora da Europa. Os europeus foram por sua vez tratados de ‘brancos’, por todos os outros povos e etnias por conta de uma óbvia analogia.

Repetindo: É o ‘branco’, a classe dominante (para usar uma expressão vulgar porém eficiente), que racializa a sociedade e institui o racismo. Ponto.

‘Negro’ e ‘branco’ são, portanto instituições meramente políticas, inventadas neste contexto das relações desiguais entre os povos da Europa com os demais e para esta exclusiva razão.

(Parece-nos, aliás, que por este ponto de vista se pode entender bem melhor as circunstâncias sutis que consubstanciam e justificam o racismo à brasileira e a necessidade de se combatê-lo por meio de ações, do mesmo modo, políticas).

“Categorias B- Euro brasileiros” (brancos), “Afro-brasileiros – pretos, Asiático brasileiros- amarelos”.

É preciso também neste caso relativizar e contextualizar estas classificações propostas por José Murilo de Carvalho no tempo e no espaço. Para começar, estas categorias só fazem sentido ao se referirem realmente à cidadãos rigorosamente europeus, africanos ou asiáticos, apenas nascidos circunstancialmente no Brasil (ou filhos de estrangeiros nesta mesma situação).

É preciso, portanto se definir – o que José Murilo não faz – se o critério é o da naturalidade ou o da suposta ‘raça‘, já que os critérios são excludentes entre si.

Se o critério for a naturalidade, não cabe nesta discussão já que o contexto dela é, basicamente ‘racial’.

Do mesmo modo as sub categorias (‘Afro brasileiros‘ – ‘pretos‘, ‘Asiático brasileiros’) não se encaixariam muito bem no debate porque não esta sendo posto em dúvida que  europeus, africanos ou asiáticos – nascidos ou não no Brasil – sejam, respectivamente brancos, negros e amarelos. Lógico que são. A constatação é por demais óbvia.

De qualquer maneira e neste mesmo sentido, é ínfima a proporção de indivíduos destas categorias nas estatísticas o que as retira, de certo modo, do âmbito da discussão sobre cotas.

“Categorias C – Nativo euro brasileiros (caboclos- Índio com branco) e Euro afro brasileiros (pardos – ‘branco’ com ‘preto’ )” Maioria esmagadora da população.

Categorias também consideradas passíveis de sofrer racismo no Brasil e que se confundem entre si, impossíveis de serem definidas em separado.

Os indivíduos nelas enquadrados, dependendo das circunstancias, são considerados no Brasil ora ‘negros‘, ora ‘pardos‘ ora ‘morenos‘, dada a extrema semelhança entre muitos pardos (fruto da mistura ‘negro com branco‘), com a vaga categoria dos ‘morenos‘ (mistura de ‘branco com índio‘) dependendo da predominância desta ou daquela característica biotípica (cabelos lisos por exemplo).

Nativo afro-brasileiros (cafusos)” : Do mesmo modo que os anteriores os indivíduos desta categoria são considerados no Brasil como ‘negros‘ ‘morenos‘ ou ‘pardos‘ (ou mesmo índios, em certos casos, notadamente quando possuírem cabelos lisos). Um saco de gatos em suma. É como se fosse possível atribuir pedigree a vira-latas (com todo respeito aos ditos).

Para que, gente?

Ao que tudo indica, a natureza ambígua do racismo á brasileira se vale da indefinição destas categorias para usá-las como massa de manobra e se perpetuar.

“Categoria D – Mestiço brasileiros (o ‘Resto das Cores’)”

Aliás, a incrível utilização por José Murilo da expressão ‘Resto das cores‘ (imprecisa, vaga, ainda mais quando usada por um historiador) não serve de parâmetro considerável para categorizar coisa alguma.

Por outro lado, há que se admitir que, mesmo se fôssemos aceitar a definição como algo mensurável ou um valor em si, a ‘categoria‘ já estaria certamente englobada por alguma das anteriores.

Há que se ressaltar finalmente que esta ambígua categoria ‘Resto das Cores‘ engloba o universo das pessoas que se consideram – ou se declaram – para todos os efeitos, ‘brancas‘ no Brasil, coincidentemente a maior beneficiária, a parte mais interessada na manutenção do racismo no país.

Por esta límpida razão, nada nos impede de concluir enfim que, ao que tudo indica, talvez resida aí, nesta atitude ‘João sem braço‘ (aquele que não fez nada, não viu nada, não sabe de nada, mas usufrui da situação), talvez esteja aí nesta espécie de esperta baixa aristocracia (chamada, sub-repticiamente por José Murilo de…’Resto das Cores’) a raiz do mal, o fio da meada das espertas más intenções deste pessoal.

Talvez esteja escrito aí o ‘xis‘ da questão, o nó ideológico que atravanca todos os debates sobre este tema no Brasil, com esta ‘corrente pra trás‘ que alimenta esta terrorista campanha contra as cotas e as ações afirmativas tentando mascarar as atuais consequências de nossa evidente, embora sutil e mal explicada, segregação racial. Este muro da negação do racismo, esta edificação já tão ruinosa, erigida sobre esta velha montanha de eufemismos, tergiversações e sofismas tão descarados precisa ser demolida.

Não deve ser à toa que os urubus e as harpias da direita brasileira véia de guerra, estão por aí à espreita, empoleiradas neste muro de falsas lamentações, chafurdando pretextos criados lamentavelmente por pessoas tão bem articuladas. Se você já entendeu que não existem raças – nem brancos nem negros – mas que, para todos os efeitos e vantagens de alguns espertinhos, uns são classificados como sendo mais pretos que os outros (ou seja: existe racismo sim), faça como eu: deixe de ser branco para ser franco:

Crioulize-se você também, brother! Logo, antes que – imitando o terrorismo deles – seja mesmo tarde demais.

Spírito Santo

Agosto 2009

Leia também: A Ciência da porta na cara

Centro Cultural Pequena África


PedraDoSal_02 Ivo Korytowski

(Só como introdução um papinho de nada: Ruben Confeti é quem comanda a casa, a roda de samba que rola por lá e mais o que estiver no contexto. É coisa mesmo para se espalhar aos quatro cantos, com o melhor dos incensos)
Leiam, por favor, com a alma livre:

(Extraido do site do CCPA)

A Pequena África

Nome dado por Heitor dos Prazeres a uma região compreendida pela Zona Portuária do Rio de Janeiro, Gamboa, Saúde onde se encontra a Comunidade Remanescente de Quilombos da Pedra do Sal, Santo Cristo, e outros locais habitada por escravos alforriados e que de 1850 até 1920 foram conhecidos por Pequena África.

No final da década de 1770 o Marquês de Lavradio transferiu o porto e o tráfico Africano para o Valongo, para evitar o espetáculo da chegada de milhares de seres humanos quase nus, com mulheres e crianças impressionando pelo seu alvoroço e quizumba no centro de uma cidade que deveria ser uma colônia européia no meio dos trópicos.

Muitos escravos chegavam com graves doenças, decorrentes muitas vezes das péssimas condições dos navios negreiros e eram enterrados ao largo de qualquer terreno na freguesia de Santa Rita. Há vários assentos de óbitos desta freguesia em que centenas de africanos recebiam apenas marcas geométricas como identificação. Caminhamos sobre ossos africanos em muitas áreas da freguesia de Santa Rita. Somos estes ossos e esta carne.

Os nossos irmãos africanos que eram trazidos nos porões de navios negreiros como escravos para o Brasil, desde o período colonial, tinham como primeiro contato com as terras do Estado do Rio de Janeiro, o que é hoje a chamada Zona Portuária. Os navios negreiros aportavam na Gamboa. Na altura da Pedra do Sal, perto do Largo da Prainha, onde funcionava o mercado de escravos (Valongo), onde os negros africanos eram comercializados e de lá saíam direto para o trabalho escravo nas lavouras. Calcula-se que 12 milhões de africanos foram trazidos para o Brasil, retirados à força de suas nações, e um número bastante significativo, não resistiam aos suplícios da viagem e chegavam desnutridos ou com feridas infectadas pêlos castigos das chibatas ou pelos cortes dos instrumentos de ferros que os prendiam nos pulsos, pescoços e tornozelos, o que invariavelmente os levavam à morte. Eram colocados em valas comuns e depois queimados.

Em 1996, durante as obras de reforma da casa de número 34 da Rua Pedro Ernesto, na Saúde, foi descoberto um cemitério de escravos. O espaço passou a ser conhecido como Cemitério dos Pretos Novos.

A situação do negro no século XIX sofreu várias mudanças no Brasil – a Lei do Ventre Livre, a Lei do Sexagenário, a própria Abolição, tudo fruto da luta pelo fim da escravidão -, de modo que, contraditoriamente, havia grupos de negros livres e grupos de negros escravos. A Pedra do Sal, aos poucos, foi também mudando. Antes, a área que servia de palco para a comercialização dos escravos passou a ser ponto de espera dos navios que traziam negros libertos, amigos e familiares de ex-escravos, a maioria vinda da Bahia, que, no final do século XIX, amargava uma forte decadência nas plantações de cacau e café. Vieram também para o Rio de Janeiro: escravos que participaram do levante dos Malês, singular acontecimento que teve lugar na Bahia em 1835, instalou-se na atual Barão de São Felix, um grande contingente de negros que participaram da Guerra do Paraguai, encerrada em 1870, e egressos do massacre de Canudos que se estabeleceram no Morro da Favela, hoje Providência.

A região portuária do Rio entrou num intenso processo de transformação social e cultural. Os negros que aqui chegavam reconstituíram seus valores culturais, misturando-os. Estávamos diante da consolidação da Pequena África. Seus moradores tiveram participação importante em episódios históricos como a Abolição da Escravatura, a Revolta da Armada, as greves operárias contra os maus tratos e pela redução da jornada de trabalho, a Revolta da Chibata, a Revolta da Vacina, entre outros. São momentos da história do Brasil em que se destacaram figuras como João Cândido, o Almirante Negro – Dom Obá II, Prata Preta e diversos líderes dos trabalhadores da orla portuária. A concentração de negros na região permitiu a retomada de uma cultura própria ou o que alguns pesquisadores preferiram chamar de cultura negra carioca.

A Sociedade dos Moços Pretos, fundada por Cândido Manoel Rodrigues, por volta de 1867, que se transformou no ano de 1905 em dois poderosos Sindicatos, que tiveram como homens fortes: Elói Antero Dias (Macaé) – Sindicato dos Arrumadores – e Ézio Cruz – Sindicato dos Estivadores – foi uma medida que deu impulso econômico a milhares de famílias negras. Foi no entorno da Pedra do Sal que Donga, João da Baiana, Heitor dos Prazeres, Aniceto do Império e Pixinguinha, entre outros, se reuniam para cantar e compor sambas. Na Gamboa, década de 30 do século XX, foi fundada a Agremiação Recreativa Escola de Samba Vizinha Faladeira que se tornou famosa por ser considerada a mais rica e inovadora escola de samba da época. A Pedra do Sal era ponto de encontro também de capoeiristas. Vale lembrar: a Escola de Samba Império Serrano surgiu basicamente do trabalho coletivo dos estivadores que circulavam pela região portuária e que alguns deles passaram a morar nas adjacências de Madureira.

O Candomblé, implantado no Rio de Janeiro pelo pai de santo Baiaco vindo da Bahia, em seus terreiros, na virada dos séculos XIX e XX, simbolizavam um espaço dos negros com as suas raízes religiosas. A elite branca proibia o batuque e perseguia os sambistas, considerados marginais. A casa da região mais famosa e freqüentada na época era da Tia Ciata, a baiana Hilária Batista de Almeida, que, em 1876, com 22 anos de idade, veio para o Rio de Janeiro em busca de uma vida melhor, para fugir da perseguição policial contra os terreiros em Salvador. Sua casa, que ficava na altura da atual Praça Onze, atraía os iniciadores do samba. E não sofria mais perseguições. E há explicação para isso: certa vez, o presidente da República Wenceslau Braz ficou com uma ferida na perna que nenhum dos seus médicos conseguia curar. Então, um policial que freqüentava a casa de Tia Ciata lhe pediu que tratasse do presidente. Ela recomendou uma pasta feita de ervas e, três dias depois, Wenceslau estava curado. A casa de Tia Ciata passou a ser respeitada pelas autoridades.

Esse é apenas um breve relato do que era a Pequena África.

O Centro Cultural Pequena África tem como seu objetivo principal resgatar e preservar os valores históricos e culturais e celebrar algumas personalidades que foram vitais nas questões da ancestralidade, solidariedade e cidadania da antiga Pequena África, como ficou conhecida a região que hoje abriga os bairros da Saúde, Gamboa, Santo Cristo e parte do Centro, primeira morada dos africanos e seus descendentes que chegaram ao Rio de Janeiro.

Nesta sua fase embrionária o Centro Cultural Pequena África vem realizando encontros periódicos, exaltando as lideranças acima citadas, através de rodas de samba, filmes de curta-metragem, depoimentos de pessoas que circulavam e se beneficiaram das ações dos nossos celebrados, num processo de resgate para a valorização da história e da cultura do Rio de Janeiro e do Brasil.

Trata-se de um trabalho de resistência, que precisa do seu apoio.

Como objetivos o Centro Cultural Pequena África tem:

1- Entidade sem fins lucrativos com o objetivo de pesquisar, registrar, promover a história e movimentos sócio culturais dos afro-descendentes que se estabeleceram na região da zona portuária do Rio de Janeiro.

2- Implantar um centro de convivência para recuperar a auto-estima da população local com atividades de arte-educação, de lazer, de saúde preventiva e de qualificação profissional.

3- O prédio abrigará: Teatro multiuso, salas de aula, centro de informática e internet (em convênio do CDI – Comitê de Democratização da Informática), cine clube, galeria de arte, restaurante e cafeteria, centro de documentação, pesquisa e ponto de cultura.

4- Programas de qualificação profissional para jovens e adultos, cursos de atualização para terceira idade, cursos de arte-educação com oficinas de teatro, dança e música, oficinas de vídeo e audiovisual.

5- Estabelecer convênios com os sindicatos dos trabalhadores e ex-trabalhadores do Porto do Rio, Organismos Nacionais e Internacionais, Governos Federal, Estadual e Municipal, Universidades, Escolas Técnicas, Centros Culturais.

6- Produzir livros, trabalhos acadêmicos, discos e vídeos que registrem a história dos afro-descendentes desta região do Rio de Janeiro até os dias atuais.

7- Promover ação de saúde para jovens e idosos da região.

AQUATICÓPOLIS: O primeiro Samba enredo ninguém esquece


Todo o conteúdo deste blog está assegurado sob uma licença Criative CommonsCreative Commons License

Aquaticópolis
Experiencia punk, pancadão mesmo, sem preço nem perdão:

(O post é velhão. O Samba enredo  ao qual o post se refere, composto pelo Tio que vos fala, perdeu o concurso de 2010. Mas sabe como é: Samba Enredo serve para qualquer ano, ora! Samba Enredo agoniza mais não morre.

Então com vocês, não imposta muito para qual escola de samba, lançando agora para o Carnaval de 2012, de Spírito Santo e Laercio Lino:

AQUATICÓPOLIS!”

(ouça aqui, na gravação no streaming do link do Overmundo)

Ano de 2010. Laércio (ex integrante do Grupo Vissungo) compositor parceirão de longa data, me telefona solicitando apoio numa missão quase impossível, destas que a gente só se atreve a pedir aos amigões do peito: ‘Consertar’, ou seja re-compor decorar e gravar um Samba-Enredo para uma escola de samba. Prazo: 24 horas para fazer tudo isto (a gravação já estava agendada para aquela mesma noite).

Ai Deus! O que não se faz pelos amigos do peito?

Frio e calculista como um algoz de amizades, Laércio me deixa uma fita K7 e um velho ‘micro system’ (Laércio é um cara destes das antigas).

Na fita o rascunho do samba meio alinhavado e duas páginas da sinopse de um enredo oceanográfico-tropicalista-psicodélico (urdido pelo festejado carnavalesco Paulo Barros), excelente para uma matéria academico- científica, uma tese de mestrado ou coisa que valha, mas – pensei eu, apavorado- nunca jamais em tempo algum como inspiração para um samba.

(Cá entre nós, à minha veia pesquisadora ocorreu que estes incríveis criadores de exuberantes cenografias sambísticas, geralmente artistas plásticos por formação, engendram os seus temas pensando apenas no potencial imagético da coisa, nas doideiras cenotécnicas que inventarão, nos ‘ganchos’ que renderão as imagens da letra do Samba, meras justificativas para os carros alegóricos estrambólicos, surpresas hollywwodianas, pirotecnias high tech e outros trecos e efeitos especiais.

A carroça na frente dos bois, na acepção da palavra.)

Ao pobre do compositor caberia apenas a missão esquizofrênica de transformar aquela tese imagética em algo levemente musical. Coisa para crioulo doido nenhum botar defeito!

É claro que as qualidades estritamente musicais do Samba contam, mas não se exige mais nada que lembre, nem de longe, os tempos melodiosos dos Silas de Oliveira, dos Paulos da Portela, dos Cartolas

————-

Enredo e Samba.
Para quem nunca se ligou, vale aqui a dica tipo ‘Você sabia’?:

A utilização de um Enredo, um tema para os desfiles, na origem, não tem nada a ver com as Escolas de Samba. É coisa que remonta o tempo dos Ranchos Carnavalescos.

Os enredos clássicos, historiográficos (que seja dito: baseados numa história oficial, ‘chapa branca’) são do tempo do Estado Novo e foram uma coisa de inspiração fascista – ‘getulista-chavista’ por assim dizer – ingerência do Estado nos desfiles, fase na qual – vade retro! – como se sabe, o crioulo sambista do Stanislaw endoidou de vez.

Daí teve a fase da exaltação à negritude (também ‘oficial‘, bem entendido), coisa ali dos anos 70/80 e, finalmente a fase atual onde o que motiva tudo (se me permitem o leve veneno) é o caráter espetaculoso, kitsch-broadwaydiano da história, muito mais ‘fru-fru’ visual para inglês ver e menos Samba.

————–

Pensei honestamente em fugir para Madri, para o Piauí, declarar a minha irrevogável incompetencia sambística, grunhir uma rouquidão inventada, mas qual o que, como um Mercadante de botequim desisti da idéia. Laércio não se convenceria jamais. Ele sabia muito bem que eu morderia a isca com frio na espinha e prazer.

Pois foi assim que, amante inveterado dos desafios culturais mais suicidas deste mundo mergulhei de cabeça na AQUATICÓPOLIS!

Afinal um cara que vive pesquisando e escrevendo sobre Samba, arrotando discutíveis saberes e inconveniencias por aí, não podia refugar semelhante chance de estar na, digamos, linha de fogo, na frente de batalha, no âmago efervescente da questão. O Resultado está aí em baixo para quem quiser ouvir.

Como todos poderão observar, depois da gravação alteramos algumas coisitas ou outras da letra mucho loka que deu na nossa telha (mais na telha do Laércio, devo confessar). É que, mesmo mortos de medo de fugir do exigente e fundamentalista carnavalismo da sinopse, querendo ser um pouco mais fiéis à melhor poética, cortamos os verbetes mais escalafobéticos, redundantes ou atropelados na rima.

————

Na madrugada de anteontem, eufórico como um guri com pipa nova, subi no palco com dois ‘cúmplices’ (Black Out, um experiente ‘puxador’ de samba enredo ‘profissional’ e meu parceirão mui amigo Laércio, para defender o tal composição apoplética.

Quando a bateria atacou, furiosa, quase atingi o nirvana mais absoluto. Encarnei o Crioulo Doido mais maluco – como diria um samba destes qualquer – com enorme sofreguidão.

A letra cometida é esta aí em baixo (não nos exijam, por favor uma poética assim menos…utilitária do que a que nos foi exigida pelo emérito carnavalesco. Entendam que já não cabe muita poesia numa hora destas).

Cantem por aí então (ouçam a gravação aqui), antes que a comissão julgadora enterre os nossos ledos sonhos de ver nosso primeiro Samba-enredo sendo cantado na Marques de Sapucaí:

Aquaticópolis
Laercio Lino e Spírito Santo
Gres Renascer de jacarépaguá
Carnaval de 2010 – Carnavalesco Paulo Barros

“Nasceu na imaginação do poeta
a fábula de Aquatinópolis
metrópole bio-marinha refletida
num espelho d’água brilhante
num burbulhar esfuziante
morada de seres exóticos do mar

Moluscos, crustáceos, anfíbios
algas, aguas vivas e corais
humanóides com membranas e guelras de ar
numa bizarra civilização
na Renascer de Jacarépaguá

II
Nesta cidade fantástica
com problemas sociais
comércio, indústria, setores de progresso
maltratando as riquezas naturais

Aquatinópolis via em harmonia
mas foi sacudida pela desordem
a ganancia e a ambição
criando ondas de violencia e poluição
a tecnologia gerou a ‘internautica’
para ajudar o aquopolitano cidadão

Mas o Deus dos mares é bom
e a noite tem cultura até o cais
moda e lazer, e a onda agora é navegar
entre cardumes bioluminosos sensuais

Aquobrilhando e sambando na aquofolia
num banho de mar à fantasia
Aquobrilhando e sambando na aquofolia
num banho de mar à fantasia

(Refão)
Tudo muda, tudo passa tudo passará
ontem não é hoje amanhã não mais será
a Renascer carnavaliza o fundo do mar.”

(Obrigado bateria!)

Spírito Santo
Agosto 2009

“Nosso racismo é um crime perfeito”


kabengele

Entrevista com o prof zairense Kabengele Munanga por Camila Souza Ramos e Glauco Faria [Terça-Feira, 18 de Agosto de 2009 às 15:15hs]

Fórum – O senhor veio do antigo Zaire que, apesar de ter alguns pontos de contato com a cultura brasileira e a cultura do Congo, é um país bem diferente. O senhor sentiu, quando veio pra cá, a questão racial? Como foi essa mudança para o senhor?
Kabengele – Essas coisas não são tão abertas como a gente pensa. Cheguei aqui em 1975, diretamente para a USP, para fazer doutorado. Não se depara com o preconceito à primeira vista, logo que sai do aeroporto. Essas coisas vêm pouco a pouco, quando se começa a descobrir que você entra em alguns lugares e percebe que é único, que te olham e já sabem que não é daqui, que não é como “nossos negros”, é diferente. Poderia dizer que esse estranhamento é por ser estrangeiro, mas essa comparação na verdade é feita em relação aos negros da terra, que não entram em alguns lugares ou não entram de cabeça erguida.
Depois, com o tempo, na academia, fiz disciplinas em antropologia e alguns de meus professores eram especialistas na questão racial. Foi através da academia, da literatura, que comecei a descobrir que havia problemas no país. Uma das primeiras aulas que fiz foi em 1975, 1976, já era uma disciplina sobre a questão racial com meu orientador João Batista Borges Pereira. Depois, com o tempo, você vai entrar em algum lugar em que está sozinho e se pergunta: onde estão os outros? As pessoas olhavam mesmo, inclusive olhavam mais quando eu entrava com minha mulher e meus filhos. Porque é uma família inter-racial: a mulher branca, o homem negro, um filho negro e um filho mestiço. Em todos os lugares em que a gente entrava, era motivo de curiosidade. O pessoal tentava ser discreto, mas nem sempre escondia. Entrávamos em lugares onde geralmente os negros não entram.
A partir daí você começa a buscar uma explicação para saber o porquê e se aproxima da literatura e das aulas da universidade que falam da discriminação racial no Brasil, os trabalhos de Florestan Fernandes, do Otavio Ianni, do meu próprio orientador e de tantos outros que trabalharam com a questão. Mas o problema é que quando a pessoa é adulta sabe se defender, mas as crianças não. Tenho dois filhos que nasceram na Bélgica, dois no Congo e meu caçula é brasileiro. Quantas vezes, quando estavam sozinhos na rua, sem defesa, se depararam com a polícia?
Meus filhos estudaram em escola particular, Colégio Equipe, onde estudavam filhos de alguns colegas professores. Eu não ia buscá-los na escola, e quando saíam para tomar ônibus e voltar para casa com alguns colegas que eram brancos, eles eram os únicos a ser revistados. No entanto, a condição social era a mesma e estudavam no mesmo colégio. Por que só eles podiam ser suspeitos e revistados pela polícia? Essa situação eu não posso contar quantas vezes vi acontecer. Lembro que meu filho mais velho, que hoje é ator, quando comprou o primeiro carro dele, não sei quantas vezes ele foi parado pela polícia. Sempre apontando a arma para ele para mostrar o documento. Ele foi instruído para não discutir e dizer que os documentos estão no porta-luvas, senão podem pensar que ele vai sacar uma arma. Na realidade, era suspeito de ser ladrão do próprio carro que ele comprou com o trabalho dele. Meus filhos até hoje não saem de casa para atravessar a rua sem documento. São adultos e criaram esse hábito, porque até você provar que não é ladrão… A geografia do seu corpo não indica isso.
Então, essa coisa de pensar que a diferença é simplesmente social, é claro que o social acompanha, mas e a geografia do corpo? Isso aqui também vai junto com o social, não tem como separar as duas coisas. Fui com o tempo respondendo à questão, por meio da vivência, com o cotidiano e as coisas que aprendi na universidade, depoimentos de pessoas da população negra, e entendi que a democracia racial é um mito. Existe realmente um racismo no Brasil, diferenciado daquele praticado na África do Sul durante o regime do apartheid, diferente também do racismo praticado nos EUA, principalmente no Sul. Porque nosso racismo é, utilizando uma palavra bem conhecida, sutil. Ele é velado. Pelo fato de ser sutil e velado isso não quer dizer que faça menos vítimas do que aquele que é aberto. Faz vítimas de qualquer maneira.

Revista Fórum – Quando você tem um sistema como o sul-africano ou um sistema de restrição de direitos como houve nos EUA, o inimigo está claro. No caso brasileiro é mais difícil combatê-lo…
Kabengele – Claro, é mais difícil. Porque você não identifica seu opressor. Nos EUA era mais fácil porque começava pelas leis. A primeira reivindicação: o fim das leis racistas. Depois, se luta para implementar políticas públicas que busquem a promoção da igualdade racial. Aqui é mais difícil, porque não tinha lei nem pra discriminar, nem pra proteger. As leis pra proteger estão na nova Constituição que diz que o racismo é um crime inafiançável. Antes disso tinha a lei Afonso Arinos, de 1951. De acordo com essa lei, a prática do racismo não era um crime, era uma contravenção. A população negra e indígena viveu muito tempo sem leis nem para discriminar nem para proteger.

Revista Fórum – Aqui no Brasil há mais dificuldade com relação ao sistema de cotas justamente por conta do mito da democracia racial? Kabengele – Tem segmentos da população a favor e contra. Começaria pelos que estão contra as cotas, que apelam para a própria Constituição, afirmando que perante a lei somos todos iguais. Então não devemos tratar os cidadãos brasileiros diferentemente, as cotas seriam uma inconstitucionalidade. Outro argumento contrário, que já foi demolido, é a ideia de que seria difícil distinguir os negros no Brasil para se beneficiar pelas cotas por causa da mestiçagem. O Brasil é um país de mestiçagem, muitos brasileiros têm sangue europeu, além de sangue indígena e africano, então seria difícil saber quem é afro-descendente que poderia ser beneficiado pela cota. Esse argumento não resistiu. Por quê? Num país onde existe discriminação antinegro, a própria discriminação é a prova de que é possível identificar os negros. Senão não teria discriminação.
Em comparação com outros países do mundo, o Brasil é um país que tem um índice de mestiçamento muito mais alto. Mas isso não pode impedir uma política, porque basta a autodeclaração. Basta um candidato declarar sua afro-descendência. Se tiver alguma dúvida, tem que averiguar. Nos casos-limite, o indivíduo se autodeclara afrodescendente. Às vezes, tem erros humanos, como o que aconteceu na UnB, de dois jovens mestiços, de mesmos pais, um entrou pelas cotas porque acharam que era mestiço, e o outro foi barrado porque acharam que era branco. Isso são erros humanos. Se tivessem certeza absoluta que era afro-descendente, não seria assim. Mas houve um recurso e ele entrou. Esses casos-limite existem, mas não é isso que vai impedir uma política pública que possa beneficiar uma grande parte da população brasileira.
Além do mais, o critério de cota no Brasil é diferente dos EUA. Nos EUA, começaram com um critério fixo e nato. Basta você nascer negro. No Brasil não. Se a gente analisar a história, com exceção da UnB, que tem suas razões, em todas as universidades brasileiras que entraram pelo critério das cotas, usaram o critério étnico-racial combinado com o critério econômico. O ponto de partida é a escola pública. Nos EUA não foi isso. Só que a imprensa não quer enxergar, todo mundo quer dizer que cota é simplesmente racial. Não é. Isso é mentira, tem que ver como funciona em todas as universidades. É necessário fazer um certo controle, senão não adianta aplicar as cotas. No entanto, se mantém a ideia de que, pelas pesquisas quantitativas, do IBGE, do Ipea, dos índices do Pnud, mostram que o abismo em matéria de educação entre negros e brancos é muito grande. Se a gente considerar isso então tem que ter uma política de mudança. É nesse sentido que se defende uma política de cotas.
O racismo é cotidiano na sociedade brasileira. As pessoas que estão contra cotas pensam como se o racismo não tivesse existido na sociedade, não estivesse criando vítimas. Se alguém comprovar que não tem mais racismo no Brasil, não devemos mais falar em cotas para negros. Deveríamos falar só de classes sociais. Mas como o racismo ainda existe, então não há como você tratar igualmente as pessoas que são vítimas de racismo e da questão econômica em relação àquelas que não sofrem esse tipo de preconceito. A própria pesquisa do IPEA mostra que se não mudar esse quadro, os negros vão levar muitos e muitos anos para chegar aonde estão os brancos em matéria de educação. Os que são contra cotas ainda dão o argumento de que qualquer política de diferença por parte do governo no Brasil seria uma política de reconhecimento das raças e isso seria um retrocesso, que teríamos conflitos, como os que aconteciam nos EUA.
Fórum – Que é o argumento do Demétrio Magnoli.
Kabengele – Isso é muito falso, porque já temos a experiência, alguns falam de mais de 70 universidades públicas, outros falam em 80. Já ouviu falar de conflitos raciais em algum lugar, linchamentos raciais? Não existe. É claro que houve manifestações numa universidade ou outra, umas pichações, “negro, volta pra senzala”. Mas isso não se caracteriza como conflito racial. Isso é uma maneira de horrorizar a população, projetar conflitos que na realidade não vão existir.
Fórum – Agora o DEM entrou com uma ação no STF pedindo anulação das cotas. O que motiva um partido como o DEM, qual a conexão entre a ideologia de um partido ou um intelectual como o Magnoli e essa oposição ao sistema de cotas? Qual é a raiz dessa resistência?
Kabengele – Tenho a impressão que as posições ideológicas não são explícitas, são implícitas. A questão das cotas é uma questão política. Tem pessoas no Brasil que ainda acreditam que não há racismo no país. E o argumento desse deputado do DEM é esse, de que não há racismo no Brasil, que a questão é simplesmente socioeconômica. É um ponto de vista refutável, porque nós temos provas de que há racismo no Brasil no cotidiano. O que essas pessoas querem? Status quo. A ideia de que o Brasil vive muito bem, não há problema com ele, que o problema é só com os pobres, que não podemos introduzir as cotas porque seria introduzir uma discriminação contra os brancos e pobres. Mas eles ignoram que os brancos e pobres também são beneficiados pelas cotas, e eles negam esse argumento automaticamente, deixam isso de lado.
Fórum – Mas isso não é um cinismo de parte desses atores políticos, já que eles são contra o sistema de cotas, mas também são contra o Bolsa-Família ou qualquer tipo de política compensatória no campo socioeconômico?
Kabengele – É interessante, porque um país que tem problemas sociais do tamanho do Brasil deveria buscar caminhos de mudança, de transformação da sociedade. Cada vez que se toca nas políticas concretas de mudança, vem um discurso. Mas você não resolve os problemas sociais somente com a retórica. Quanto tempo se fala da qualidade da escola pública? Estou aqui no Brasil há 34 anos. Desde que cheguei aqui, a escola pública mudou em algum lugar? Não, mas o discurso continua. “Ah, é só mudar a escola pública.” Os mesmos que dizem isso colocam os seus filhos na escola particular e sabem que a escola pública é ruim. Poderiam eles, como autoridades, dar melhor exemplo e colocar os filhos deles em escola pública e lutar pelas leis, bom salário para os educadores, laboratórios, segurança. Mas a coisa só fica no nível da retórica.
E tem esse argumento legalista, “porque a cota é uma inconstitucionalidade, porque não há racismo no Brasil”. Há juristas que dizem que a igualdade da qual fala a Constituição é uma igualdade formal, mas tem a igualdade material. É essa igualdade material que é visada pelas políticas de ação afirmativa. Não basta dizer que somos todos iguais. Isso é importante, mas você tem que dar os meios e isso se faz com as políticas públicas. Muitos disseram que as cotas nas universidades iriam atingir a excelência universitária. Está comprovado que os alunos cotistas tiveram um rendimento igual ou superior aos outros. Então a excelência não foi prejudicada. Aliás, é curioso falar de mérito como se nosso vestibular fosse exemplo de democracia e de mérito. Mérito significa simplesmente que você coloca como ponto de partida as pessoas no mesmo nível. Quando as pessoas não são iguais, não se pode colocar no ponto de partida para concorrer igualmente. É como você pegar uma pessoa com um fusquinha e outro com um Mercedes, colocar na mesma linha de partida e ver qual o carro mais veloz. O aluno que vem da escola pública, da periferia, de péssima qualidade, e o aluno que vem de escola particular de boa qualidade, partindo do mesmo ponto, é claro que os que vêm de uma boa escola vão ter uma nota superior. Se um aluno que vem de um Pueri Domus, Liceu Pasteur, tira nota 8, esse que vem da periferia e tirou nota 5 teve uma caminhada muito longa. Essa nota 5 pode ser mais significativa do que a nota 7 ou 8. Dando oportunidade ao aluno, ele não vai decepcionar.
Foi isso que aconteceu, deram oportunidade. As cotas são aplicadas desde 2003. Nestes sete anos, quantos jovens beneficiados pelas cotas terminaram o curso universitário e quantos anos o Brasil levaria para formar o tanto de negros sem cotas? Talvez 20 ou mais. Isso são coisas concretas para as quais as pessoas fecham os olhos. No artigo do professor Demétrio Magnoli, ele me critica, mas não leu nada. Nem uma linha de meus livros. Simplesmente pegou o livro da Eneida de Almeida dos Santos, Mulato, negro não-negro e branco não-branco que pediu para eu fazer uma introdução, e desta introdução de três páginas ele tirou algumas frases e, a partir dessas frases, me acusa de ser um charlatão acadêmico, de professar o racismo científico abandonado há mais de um século e fazer parte de um projeto de racialização oficial do Brasil. Nunca leu nada do que eu escrevi.
A autora do livro é mestiça, psiquiatra e estuda a dificuldade que os mestiços entre branco e negro têm pra construir a sua identidade. Fiz a introdução mostrando que eles têm essa dificuldade justamente por causa de serem negros não-negros e brancos não-brancos. Isso prejudica o processo, mas no plano político, jurídico, eles não podem ficar ambivalentes. Eles têm que optar por uma identidade, têm que aceitar sua negritude, e não rejeitá-la. Com isso ele acha que eu estou professando a supressão dos mestiços no Brasil e que isso faz parte do projeto de racialização do brasileiro. Não tinha nada para me acusar, soube que estou defendendo as cotas, tirou três frases e fez a acusação dele no jornal.

Fórum – O senhor toca na questão do imaginário da democracia racial, mas as pessoas são formadas para aceitarem esse mito…
Kabengele – O racismo é uma ideologia. A ideologia só pode ser reproduzida se as próprias vítimas aceitam, a introjetam, naturalizam essa ideologia. Além das próprias vítimas, outros cidadãos também, que discriminam e acham que são superiores aos outros, que têm direito de ocupar os melhores lugares na sociedade. Se não reunir essas duas condições, o racismo não pode ser reproduzido como ideologia, mas toda educação que nós recebemos é para poder reproduzi-la.
Há negros que introduziram isso, que alienaram sua humanidade, que acham que são mesmo inferiores e o branco tem todo o direito de ocupar os postos de comando. Como também tem os brancos que introjetaram isso e acham mesmo que são superiores por natureza. Mas para você lutar contra essa ideia não bastam as leis, que são repressivas, só vão punir. Tem que educar também. A educação é um instrumento muito importante de mudança de mentalidade e o brasileiro foi educado para não assumir seus preconceitos. O Florestan Fernandes dizia que um dos problemas dos brasileiros é o “preconceito de ter preconceito de ter preconceito”. O brasileiro nunca vai aceitar que é preconceituoso. Foi educado para não aceitar isso. Como se diz, na casa de enforcado não se fala de corda.
Quando você está diante do negro, dizem que tem que dizer que é moreno, porque se disser que é negro, ele vai se sentir ofendido. O que não quer dizer que ele não deve ser chamado de negro. Ele tem nome, tem identidade, mas quando se fala dele, pode dizer que é negro, não precisa branqueá-lo, torná-lo moreno. O brasileiro foi educado para se comportar assim, para não falar de corda na casa de enforcado. Quando você pega um brasileiro em flagrante de prática racista, ele não aceita, porque não foi educado para isso. Se fosse um americano, ele vai dizer: “Não vou alugar minha casa para um negro”. No Brasil, vai dizer: “Olha, amigo, você chegou tarde, acabei de alugar”. Porque a educação que o americano recebeu é pra assumir suas práticas racistas, pra ser uma coisa explícita.
Quando a Folha de S. Paulo fez aquela pesquisa de opinião em 1995, perguntaram para muitos brasileiros se existe racismo no Brasil. Mais de 80% disseram que sim. Perguntaram para as mesmas pessoas: “você já discriminou alguém?”. A maioria disse que não. Significa que há racismo, mas sem racistas. Ele está no ar… Como você vai combater isso? Muitas vezes o brasileiro chega a dizer ao negro que reage: “você que é complexado, o problema está na sua cabeça”. Ele rejeita a culpa e coloca na própria vítima. Já ouviu falar de crime perfeito? Nosso racismo é um crime perfeito, porque a própria vítima é que é responsável pelo seu racismo, quem comentou não tem nenhum problema.

Revista Fórum – O humorista Danilo Gentilli escreveu no Twitter uma piada a respeito do King Kong, comparando com um jogador de futebol que saía com loiras. Houve uma reação grande e a continuação dos argumentos dele para se justificar vai ao encontro disso que o senhor está falando. Ele dizia que racista era quem acusava ele, e citava a questão do orgulho negro como algo de quem é racista.
Kebengele – Faz parte desse imaginário. O que está por trás que está fazendo uma ilustração de King Kong, que ele compara a um jogador de futebol que vai casar com uma loira, é a ideia de alguém que ascende na vida e vai procurar sua loira. Mas qual é o problema desse jogador de futebol? São pessoas vítimas do racismo que acham que agora ascenderam na vida e, para mostrar isso, têm que ter uma loira que era proibida quando eram pobres? Pode até ser uma explicação. Mas essa loira não é uma pessoa humana que pode dizer não ou sim e foi obrigada a ir com o King Kong por causa de dinheiro? Pode ser, quantos casamentos não são por dinheiro na nossa sociedade? A velha burguesia só se casa dentro da velha burguesia. Mas sempre tem pessoas que desobedecem as normas da sociedade.
Essas jovens brancas, loiras, também pulam a cerca de suas identidades pra casar com um negro jogador. Por que a corda só arrebenta do lado do jogador de futebol? No fundo, essas pessoas não querem que os negros casem com suas filhas. É uma forma de racismo. Estão praticando um preconceito que não respeita a vontade dessas mulheres nem essas pessoas que ascenderam na vida, numa sociedade onde o amor é algo sem fronteiras, e não teria tantos mestiços nessa sociedade. Com tudo o que aconteceu no campo de futebol com aquele jogador da Argentina que chamou o Grafite de macaco, com tudo o que acontece na Europa, esse humorista faz uma ilustração disso, ou é uma provocação ou quer reafirmar os preconceitos na nossa sociedade.

Fórum – É que no caso, o Danilo Gentili ainda justificou sua piada com um argumento muito simplório: “por que eu posso chamar um gordo de baleia e um negro de macaco”, como se fosse a mesma coisa.
Kabengele – É interessante isso, porque tenho a impressão de que é um cara que não conhece a história e o orgulho negro tem uma história. São seres humanos que, pelo próprio processo de colonização, de escravidão, a essas pessoas foi negada sua humanidade. Para poder se recuperar, ele tem que assumir seu corpo como negro. Se olhar no espelho e se achar bonito ou se achar feio. É isso o orgulho negro. E faz parte do processo de se assumir como negro, assumir seu corpo que foi recusado. Se o humorista conhecesse isso, entenderia a história do orgulho negro. O branco não tem motivo para ter orgulho branco porque ele é vitorioso, está lá em cima. O outro que está lá em baixo que deve ter orgulho, que deve construir esse orgulho para poder se reerguer.

Fórum – O senhor tocou no caso do Grafite com o Desábato, e recentemente tivemos, no jogo da Libertadores entre Cruzeiro e Grêmio, o caso de um jogador que teria sido chamado de macaco por outro atleta. Em geral, as pessoas – jornalistas que comentaram, a diretoria gremista – argumentavam que no campo de futebol você pode falar qualquer coisa, e que se as pessoas fossem se importar com isso, não teria como ter jogo de futebol. Como você vê esse tipo de situação?
Kabengele – Isso é uma prova daquilo que falei, os brasileiros são educados para não assumir seus hábitos, seu racismo. Em outros países, não teria essa conversa de que no campo de futebol vale. O pessoal pune mesmo. Mas aqui, quando se trata do negro… Já ouviu caso contrário, de negro que chama branco de macaco? Quando aquele delegado prendeu o jogador argentino no caso do Grafite, todo mundo caiu em cima. Os técnicos, jornalistas, esportistas, todo mundo dizendo que é assim no futebol. Então a gente não pode educar o jogador de futebol, tudo é permitido? Quando há violência física, eles são punidos, mas isso aqui é uma violência também, uma violência simbólica. Por que a violência simbólica é aceita a violência física é punida?

Fórum – Como o senhor vê hoje a aplicação da lei que determina a obrigatoriedade do ensino de cultura africana nas escolas? Os professores, de um modo geral, estão preparados para lidar com a questão racial?
Kabengele – Essa lei já foi objeto de crítica das pessoas que acham que isso também seria uma racialização do Brasil. Pessoas que acham que, sendo a população brasileira uma população mestiça, não é preciso ensinar a cultura do negro, ensinar a história do negro ou da África. Temos uma única história, uma única cultura, que é uma cultura mestiça. Tem pessoas que vão nessa direção, pensam que isso é uma racialização da educação no Brasil.
Mas essa questão do ensino da diversidade na escola não é propriedade do Brasil. Todos os países do mundo lidam com a questão da diversidade, do ensino da diversidade na escola, até os que não foram colonizadores, os nórdicos, com a vinda dos imigrantes, estão tratando da questão da diversidade na escola.
O Brasil deveria tratar dessa questão com mais força, porque é um país que nasceu do encontro das culturas, das civilizações. Os europeus chegaram, a população indígena – dona da terra – os africanos, depois a última onda imigratória é dos asiáticos. Então tudo isso faz parte das raízes formadoras do Brasil que devem fazer parte da formação do cidadão. Ora, se a gente olhar nosso sistema educativo, percebemos que a história do negro, da África, das populações indígenas não fazia parte da educação do brasileiro.
Nosso modelo de educação é eurocêntrico. Do ponto de vista da historiografia oficial, os portugueses chegaram na África, encontraram os africanos vendendo seus filhos, compraram e levaram para o Brasil. Não foi isso que aconteceu. A história da escravidão é uma história da violência. Quando se fala de contribuições, nunca se fala da África. Se se introduzir a história do outro de uma maneira positiva, isso ajuda.
É por isso que a educação, a introdução da história dele no Brasil, faz parte desse processo de construção do orgulho negro. Ele tem que saber que foi trazido e aqui contribuiu com o seu trabalho, trabalho escravizado, para construir as bases da economia colonial brasileira. Além do mais, houve a resistência, o negro não era um João-Bobo que simplesmente aceitou, senão a gente não teria rebeliões das senzalas, o Quilombo dos Palmares, que durou quase um século. São provas de resistência e de defesa da dignidade humana. São essas coisas que devem ser ensinadas. Isso faz parte do patrimônio histórico de todos os brasileiros. O branco e o negro têm que conhecer essa história porque é aí que vão poder respeitar os outros.
Voltando a sua pergunta, as dificuldades são de duas ordens. Em primeiro lugar, os educadores não têm formação para ensinar a diversidade. Estudaram em escolas de educação eurocêntrica, onde não se ensinava a história do negro, não estudaram história da África, como vão passar isso aos alunos? Além do mais, a África é um continente, com centenas de culturas e civilizações. São 54 países oficialmente. A primeira coisa é formar os educadores, orientar por onde começou a cultura negra no Brasil, por onde começa essa história. Depois dessa formação, com certo conteúdo, material didático de boa qualidade, que nada tem a ver com a historiografia oficial, o processo pode funcionar.

Fórum – Outra questão que se discute é sobre o negro nos espaços de poder. Não se veem negros como prefeitos, governadores. Como trabalhar contra isso?
Kabengele – O que é um país democrático? Um país democrático, no meu ponto de vista, é um país que reflete a sua diversidade na estrutura de poder. Nela, você vê mulheres ocupando cargos de responsabilidade, no Executivo, no Legislativo, no Judiciário, assim como no setor privado. E ainda os índios, que são os grandes discriminados pela sociedade. Isso seria um país democrático. O fato de você olhar a estrutura de poder e ver poucos negros ou quase não ver negros, não ver mulheres, não ver índios, isso significa que há alguma coisa que não foi feita nesse país. Como construção da democracia, a representatividade da diversidade não existe na estrutura de poder. Por quê?
Se você fizer um levantamento no campo jurídico, quantos desembargadores e juízes negros têm na sociedade brasileira? Se você for pras universidades públicas, quantos professores negros tem, começando por minha própria universidade? Esta universidade tem cerca de 5 mil professores. Quantos professores negros tem na USP? Nessa grande faculdade, que é a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), uma das maiores da USP junto com a Politécnica, tenho certeza de que na minha faculdade fui o primeiro negro a entrar como professor. Desde que entrei no Departamento de Antropologia, não entrou outro. Daqui três anos vou me aposentar. O professor Milton Santos, que era um grande professor, quase Nobel da Geografia, entrou no departamento, veio do exterior e eu já estava aqui. Em toda a USP, não sou capaz de passar de dez pessoas conhecidas. Pode ter mais, mas não chega a 50, exagerando. Se você for para as grandes universidades americanas, Harvard, Princeton, Standford, você vai encontrar mais negros professores do que no Brasil. Lá eles são mais racistas, ou eram mais racistas, mas como explicar tudo isso?
120 anos de abolição. Por que não houve uma certa mobilidade social para os negros chegarem lá? Há duas explicações: ou você diz que ele é geneticamente menos inteligente, o que seria uma explicação racista, ou encontra explicação na sociedade. Quer dizer que se bloqueou a sua mobilidade. E isso passa por questão de preconceito, de discriminação racial. Não há como explicar isso. Se você entender que os imigrantes japoneses chegaram, nós comemoramos 100 anos recentemente da sua vinda, eles tiveram uma certa mobilidade. Os coreanos também ocupam um lugar na sociedade. Mas os negros já estão a 120 anos da abolição. Então tem uma explicação. Daí a necessidade de se mudar o quadro. Ou nós mantemos o quadro, porque se não mudamos estamos racializando o Brasil, ou a gente mantém a situação para mostrar que não somos racistas. Porque a explicação é essa, se mexer, somos racistas e estamos racializando. Então vamos deixar as coisas do jeito que estão. Esse é o dilema da sociedade.

Revista Fórum – como o senhor vê o tratamento dado pela mídia à questão racial?
Kabengele – A imprensa faz parte da sociedade. Acho que esse discurso do mito da democracia racial é um discurso também que é absorvido por alguns membros da imprensa. Acho que há uma certa tendência na imprensa pelo fato de ser contra as políticas de ação afirmativa, sendo que também não são muito favoráveis a essa questão da obrigatoriedade do ensino da história do negro na escola.
Houve, no mês passado, a II Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial. Silêncio completo da imprensa brasileira. Não houve matérias sobre isso. Os grandes jornais da imprensa escrita não pautaram isso. O silêncio faz parte do dispositivo do racismo brasileiro. Como disse Elie Wiesel, o carrasco mata sempre duas vezes. A segunda mata pelo silêncio. O silêncio é uma maneira de você matar a consciência de um povo. Porque se falar sobre isso abertamente, as pessoas vão buscar saber, se conscientizar, mas se ficar no silêncio a coisa morre por aí. Então acho que o silêncio da imprensa, no meu ponto de vista, passa por essa estratégia, é o não-dito.
Acabei de passar por uma experiência interessante. Saí da Conferência Nacional e fui para Barcelona, convidado por um grupo de brasileiros que pratica capoeira. Claro, receberam recursos do Ministério das Relações Exteriores, que pagou minha passagem e a estadia. Era uma reunião pequena de capoeiristas e fiz uma conferência sobre a cultura negra no Brasil. Saiu no El Pais, que é o jornal mais importante da Espanha, noticiou isso, uma coisa pequena. Uma conferência nacional deste tamanho aqui não se fala. É um contrassenso. O silêncio da imprensa não é um silêncio neutro, é um silêncio que indica uma certa orientação da questão racial. Tem que não dizer muita coisa e ficar calado. Amanhã não se fala mais, acabou.

(Essa matéria é parte integrante da edição impressa da revista Fórum de agosto. Nas bancas.)

o Sapoti, o Gibi e o Guri


Creative Commons LicenseTodo o conteúdo deste post está assegurado por uma licença Criative Commons

0 pai José Cyrylo do Espírito Santo, mãe Geny Justino do Espírito Santo e eu, Spirito santo, o guri

0 pai José Cyrylo do Espírito Santo, mãe Geny Justino do Espírito Santo e eu, o guri

Na foto o pai, a mãe e eu guri

Seriam as lembranças da infância um caderno de matérias tatuadas em nossa mente, coloridas e nunca mais esquecidas ou seriam, por outro lado, um frio cárcere de memórias-cicatrizes, tão desprezíveis que, por mais que se tente, não se conseguirá apagar jamais? O meu primeiro fragmento de lembrança deste tempo, pelo menos de início, até que é doce e bom:

Um sapoti caído do pé numa quente madrugada.

As frutas caíam no chão de terra do pátio do colégio interno, ainda úmidas de orvalho. Eram o prêmio para os mais cedo despertos – e lépidos- primeiros a pular do beliche e correr para fora do alojamento.

Não sei quantas vezes fui o premiado. Do que sei bem é o que ficou em mim daquele amarelo manchado da casca do sapoti, em sua evocação de uma memória-delícia, sinônimo de vitória alcançada, marcada por uma única mácula: Os dentes do morcego que mordiscara a fruta, antes de mim, derrubando-a do pé.

A marca do morcego passou a ser o signo das lembranças mais amargas, de tudo que me lembro de ruim naquele tempo.

Do dia em que entrei no colégio interno pela primeira vez, por exemplo, não lembro quase nada. O morcego mordeu este pedaço. Existe um apagão irremediável nesta parte da história.

Tenho deste dia apenas uma vaga e desagradável sensação de ansiedade, que logo virou terror, assim que regressei ao colégio, depois de ter ido, pela primeira vez, visitar a família em casa. Ânsias de vômito, náuseas. Esta é a parte mais doída das lembranças.

A primeira memória nítida que me vem, logo de saída, é a do ponto de bonde onde saltávamos, eu e Geny minha mãe, na Rua Hadock Lobo, na Tijuca, bem ao lado de um importante colégio de ricos e remediados da época: o Instituto Lafaiette.

O prédio do antigo instituto está lá, até hoje, demarcando a geografia de minhas lembranças. Passo sempre pelo local, mas, não consigo encontrar nenhum vestígio do Colégio Vera Cruz (nome oficial da Escola-Prisão) que me parece, ficava mesmo ao lado deste imponente Instituto.

A primeira imagem fugidia, vaga ainda, do que seria uma escola, lugar onde se aprende coisas, foi até mais agradável ainda que o sapoti. O nome já dizia tudo: Jardim de Infância.

Havíamos mudado da casinha velha do bairro de Marechal Hermes que, simples e bela naquela sua arquitetura artesanal, pode ser rememorada pela foto que o soldado José Cyrillo, meu pai, tirou dela, com a máquina Kodak caixote que trouxera da Itália.

Minha tia-irmã Corina, minha irmã Virgínia e eu, feliz da vida, pouco antes da escola-prisão

Minha tia-irmã Corina, minha irmã Virgínia e eu, feliz da vida, pouco antes da escola-prisão

 O novo bairro foi Campo Grande, na antiga zona rural da capital federal. Foi lá o curto, porém intensamente bem vivido, tempo do Jardim de Infância.

Lembro do cheiro do pano do avental novinho em folha, com as minhas iniciais bordadas a ponto de cruz. Lembro de um chapeuzinho de palha com uma fita (azul ou vermelha?), xadrez, enlaçada no cocoruto. Lembro da folha de um livro de colorir com um pintinho impresso, vazado e sem cor que eu, maravilhado, pintei com o lápis amarelo (soube, imediatamente, ali, no momento em que inseri as virtuais peninhas amarelas naquele pintinho que, de algum modo, ‘desenharia’ coisas pelo resto da vida).

Tomado de paixão pela caixa de lápis de cor, levei para a sala de aula, no dia seguinte, um postal que meu pai trouxera da Itália e copiei, pela primeira vez, algo que saindo dos meus olhos, fixava-se no papel, como mágica.

Incrível descoberta: Aprendi ali que a rabiscada proa, linda e imponente, de uma gôndola veneziana, poderia me dar o poder de contar para os outros, algo sobre a vida do principal herói da ‘minha’ guerra mundial pessoal.

Pena ter sido tão breve a minha estada naquele jardim de prematuras e indeléveis felicidades, minha derradeira escola convencional.

Logo, tudo escureceu quando em 1951, sequelas do alcoolismo, proveniente talvez do que se chamava na época ‘neurose de guerra’, me levaram o pai e, de roldão, o meu mundinho de criança feliz.

… ‘Criança feliz, feliz a cantar
Alegre a embalar, seu sonho infantil

Ó meu bom Jesus, que a todos conduz
Olhai as crianças do nosso Brasil…’

Não sei porque, nunca mais soube se foi um sonho ou uma miragem a lembrança que marca o começo de tudo na história da primeira escola, depois do Jardim de Infância. Datada, a lembrança que marca o momento preciso de minha ida para a Escola-Prisão, ali por volta dos meus cinco anos de idade, é uma canção insistentemente repetida no rádio.

Desta imagem, fantástica, eu me lembro, como se fosse hoje: Estava gravada no céu azul que encobria o pátio do colégio e foi, certamente, criada em minha cabeça pela visão fortuita da página de jornal de algum inspetor e pelo rádio, que tocava aquela música que para mim ficou, para sempre, associada à uma idéia de tristeza e melancolia.

..’.Crianças com alegria
Qual um bando de andorinhas

Viram Jesus que dizia:
– Vinde a mim as criancinhas…’

Entre um flash e outro da trágica notícia, entremeada com a majestosa voz do falecido cantando, eu ia compreendendo que um tal de Francisco Alves, uma celebridade da época, autor e intérprete daquela canção, havia morrido num acidente automobilístico.

O ano marca por isto, certamente, o início da minha jornada de habitante daquele estranho mundo, engolfado que fui, pelo que soube ser bem mais tarde, uma unidade conveniada do sistema SAM, Serviço de Assistência ao Menor, famigerada instituição criada no segundo governo de Getúlio Vargas para abrigar meninos pobres e órfãos, entre os quais os considerados infratores ou delinqüentes, eram encaminhados para a principal unidade do sistema: A Escola XV (cujo imponente prédio reformado, abriga hoje uma razoável escola pública, no bairro de Quintino, no Rio de Janeiro).

O fato é que, ingenuamente solidário diante das dificuldades de minha mãe viúva, além de influenciado pela foto de uma freira cuidando de um feliz menino – vestindo um paletozinho tweed – no Anuário as Senhoras de 1951, ingressei, pois, em 1952 no Colégio que, logo pude perceber, era uma reles Escola-Prisão, sempre temeroso de, caso cometesse alguma falta – como vi alguns cometerem – ser transferido, para Escola XV, o Presídio-Escola de todos os meus pesadelos.

Esta era – como ainda hoje é, ou muito pior – a lógica crua do sistema de ‘assistência’ às crianças pobres do Brasil.

Fosse a minha infância um tenro sapoti, o SAM seria, com certeza, o mais infame dos morcegos.

O traço do Gibi

Não sei o que deu nela, na minha mãe, naquela ocasião. O que de bom teria ocorrido naquela época? Será que ganhou a milhar no jogo do bicho? O que mais poderia ocorrer na vida de uma modesta costureira suburbana?

Talvez ela tivesse conseguido aquele seu primeiro emprego de costureira profissional, num ‘atelier’ de uma daquelas ‘mademoiselles’ com falso sobrenome francês que, motivadas pela abertura na cidade de elegantes magazines de roupas ‘prontas’, encheram de fabriquetas (confecções) o centro da cidade, criando uma enorme demanda por costureiras, bordadeiras, chuleadeiras, overloquistas, etc.

O que sei é que, na visita daquele dia ela não me levara apenas o modesto farnelzinho, com três ou quatro peras embrulhadas, delicadamente, num papel roxo e o saco da adorável rosquinha de coco marca ‘Seara’.

Ela me apareceu desta vez, com uma enorme mala de papelão novinha em folha, forrada internamente, guarnecida com belas cantoneiras pintadas de marrom brilhante, cheia de tudo que ela imaginou que me extasiaria de felicidade.

E quem não se extasiaria com duas latas de leite condensado, muitos sacos de biscoitos sortidos – entre os quais os saborosos Seara’ – peras (e também maçãs) embrulhadas no papel roxinho de sempre, e tantas outras iguarias?

E as muitas revistas de histórias em quadrinhos? E os livros que, apesar de amarelados de tanto terem sido usados, eu – já a esta altura, razoavelmente, alfabetizado – muito apreciava (principalmente, quando eram novelas policiais do Arsène Lupin ou romances, como o inesquecível Robinson Crusoè do Daniel Defoe) livros que eu acho, ela garimpava em sebos do centro da cidade.

Caixa de Pandora que era, aquela mala, quando aberta, revelou-se um portal de mil e um encantamentos, glória absoluta para um menino que necessitava, ardentemente, de uma saída qualquer para um mundo fantástico, um portal através do qual ele pudesse escapar daquela vidinha humilhante de órfão na Escola-Prisão.

Foi como se um mundo inteiro de cores e delícias, encaixotadas naquela mala, explodisse, igualzinho como explode um feliz boneco-palhaço de mola, nos levando do susto à gargalhada, pulando da caixa presenteada, exatamente, para nos fazer sorrir alguma felicidade fortuita.

Finda a visita, levei correndo a mala para o pátio. Onde a guardaria? Não tínhamos ali armários ou qualquer coisa parecida com privacidade, além do colchão imundo e da colcha encardida de nosso beliche.

Andei com aquela mala para baixo e para cima, pelo pátio durante todo o dia, sentando nela entre uma e outra brincadeira. Dormi com ela, transformando-a num duro travesseiro que não atrapalhou, nem um pouco, os meus irrefreáveis bons sonhos de menino rico por um dia.

Foi logo que acordei que decidi guardar a mala naquele vão meio escondido de um corredor do pátio. Naquela minha estúpida inocência de guri, aquele me pareceu um covil bastante seguro.

Gelei quando ouvi a gritaria vindo exatamente do vão do corredor. Corri para a turba que, ao me ver debandou completamente. No chão, a mala saqueada, em frangalhos. Não chorei. Num colégio interno, mesmo tendo apenas oito anos de idade, um homem não chora.

Minha mãe, a partir dali me trouxe muitas e muitas outras revistas e livros. O trauma da mala no entanto, ainda hoje me acompanha, tremo e tenho sensações de perda irreparável, só de lembrar daquela algazarra ensandecida dos saqueadores.

Os meus sonhos de voar devem ter começado também ali, naquela época da mala. Eram sonhos muito reais. Difícil aceitar que não fossem a mais pura realidade.

Dava um pulo para o alto e levitava um pouco, ainda de pé. Dava outro salto e conseguia me manter flutuando no ar. Subia, alcançava as nuvens e ficava por lá, passeando pelo céu, sentindo o frio gostoso da brisa úmida que transpassava as nuvens. Como continuei a tê-los, por muito tempo, sei que eram claros sonhos-desejo de fuga, sonhos de liberdade.

Assisti a várias fugas reais, mas, nunca tive coragem para fugir. Quando olhava o muro alto tremia de medo e me contentava em ficar imaginando o fugitivo feliz, com a adrenalina a mil, olhando para trás, até o bonde sumir numa esquina. O barulho das rodas do bonde martelando os trilhos ficou sendo para mim, para sempre, o som exato, trilha sonora perfeita daqueles sonhos, quase filmes, sobre Liberdade.

(Memórias e sonhos são mesmo como cinema, alguém já disse)

Assim, como uma lembrança puxa uma outra e, a propósito, me lembrei também do cineminha do colégio, que acontecia, de vez em quando. Os sinais de que haveria filme naqueles dias eram claros: Freiras, peças raras por ali, atravessavam o pátio de tardezinha, rumo ao galpão onde um inspetor montaria mais tarde um velho projetor Bell & Howell 16mm.

E nós ali, com os olhos brilhando como estrelas ou pupilas de gatos na noite.

A roupa do Guri

Era uma roda com todos os meninos nela, eletrizados com algo que olhavam no chão do pátio.

Me enfiando entre os mais pequenininhos que eu, fui vislumbrando a imagem impressionante de um cawboy rabiscado no chão, com dois enormes revólveres apontados para a assistência muda.

O ‘rabisco’, vestido com botas de cano longo, lenço no pescoço, cinturão de fivela, fumava, displicentemente um cigarro, do qual esvaía uma fumaça mágica, porque nada mais era que um risco na terra seca. Não só a fumaça, tudo havia sido riscado com um imundo e reles palitinho de fósforo, que o orgulhoso e emocionado artista achara por ali mesmo, no chão.

Talvez, não me lembro, tenha me vindo à cabeça nesta hora, a imagem do pintinho do jardim de Infância. O certo é que senti, ali, de novo, o inexplicável prazer, inoculado que fui pelo vício da descoberta, de que se pode sim, contar coisas para os outros, conversar com as pessoas por meio de simples imagens, signos, rabiscos, estas coisas.

Se podia escrever tudo que quiséssemos, sobre o mundo, sobre a vida, apenas com rabiscos, foi o que aprendi naquele pátio feito escola. Grande milagre da vida.

Não sei por quanto tempo o tal menino artista ficou no colégio. Me lembro, contudo, de ter visto muitos outros desenhos dele expostos no chão do pátio. Me lembro, aí sim, bem mais claramente que, pouco tempo depois, chegou a hora de desenhar, eu mesmo, a minha própria obra prima admirável:

Um galeão, copiado de uma imagem do gibi do Fantasma-que-anda, foi o que fiz. Exatamente o galeão da primeira história da série, na qual o primeiro Fantasma, chegava na praia próxima à selva de Bengala, quase morto, depois de ter escapado de um navio de sórdidos piratas, que era visto na gravura, ainda ancorado ao largo.

E lá estava eu, me sentindo o rei de todos os mares da imaginação, olhando não menos emocionado que o meu inspirador, o meu próprio rabisco sendo admirado pela intrigada garotada.

O mais belo e incrível de tudo é que, os desenhos que fazíamos, eu e meu inspirado antecessor (como numa disputa de artistas plásticos emergentes), ficavam intactos no pátio por dias e dias, sem uma pisadinha sequer.

O turbilhão e correrias e brincadeiras que fazíamos (entre as quais o violento jogo da ‘Carniça’ predominava) ocorriam ao largo dos desenhos que iam se apagando e esmaecendo apenas com o tempo, lentamente, soprados por alguma leve brisa de fim de tarde ou alguma garoa.

Era como se o pátio fosse o sagrado museu a céu aberto da nossa emocionada – e quase inacreditável – iconografia infantil.

—————

O ansiado dia de visitar a família em casa (sempre num sábado do mês), era um tormento sem tamanho porque, nunca sabíamos que hora a inspetora gritaria o nosso nome, com um embrulho de papel com a nossa roupa ‘civil’ na mão. Ficávamos amontoados em frente ao portão entreaberto, tentando ver se alguém da família aparecia na fresta. É que tínhamos medo, pânico mesmo de, num dia destes acontecer de ninguém da família aparecer.

A roupa ‘de sair’, quando voltávamos no fim do Domingo, era deixada na portaria e levada com a nossa mãe para casa. O pacote de roupa ‘da rua’ era muito ansiado também porque não tínhamos nenhuma roupa sobressalente para usar no colégio.

O macacão de brim azul, ficava imundo em poucos dias de uso. Não teríamos outro por meses a fio. O melhor era cuidar para que ele não ficasse muito puído e rasgasse no joelho (coisa quase impossível de não acontecer). Dormíamos e acordávamos com aquele macacão surrado, nojento, que só tirávamos para tomar banho.

Éramos organizados em bandos de quatro a cinco meninos. Tínhamos, como os presidiários adultos, números por meio dos quais éramos identificados no colégio, até que um apelido mais específico nos fosse aplicado. A eleição de um líder se dava por meio de disputas físicas ou mesmo por intermédio de ações aceitas como demonstração de heroísmo explícito.

O líder de meu grupo era o ‘Leiteiro’ (por ser cor de leite, um dos raros brancos da Escola-Prisão) que foi alçado a função depois de ter prometido (e cumprido) engulir mais de dez botões de roupa no espaço de um mês. Assumiu a chefia de nosso ‘bando’ assim que retornou da enfermaria depois de comer 32 botões!

Cada um de nós tinha uma escova de dentes que era, cuidadosamente afiada em alguma superfície cimentada, para fazer as vezes de arma, de estoque como os dos presos adultos.

Assisti a diversos embates no pátio. Cercávamos os dois brigões numa roda compacta e incitávamos, um contra o outro, doidos para ver o sangue correr. As brigas eram à socos, pontapés e estrangulamentos, violência pura e franca como a de animais em disputa por território ou comida.

Quando um dos dois era atingido gravemente pelo outro, com um golpe mais certeiro e sangrava (geralmente no nariz), gritávamos, ensandecidos, a senha que declarava a luta por encerrada, com a consagração do vencedor:

_’Tirou melado! Tirou melado!’

Outra imagem bem vívida destes primeiros anos, era a da garotada formada no pátio, ao cair da tarde, ao lado do alojamento onde dormíamos. A ‘formatura’ era rígida e marcial, com gritos de ordem unida que hoje soariam ridículos quando consideramos que nós, os internos, não passávamos de uma medíocre tropa de menininhos magricelas, com idade entre os cinco e os quinze anos. Contudo, cumpríamos as ordens, mesmo detestando, nos sentindo compulsórios soldados reais.

_ Pelotão…Sentido!
_ Cobrir!
_Descansar!
-Ordinário…Marche!

Para mim, pensando bem, até que a ‘formatura‘ não era assim tão ridícula porque, logo depois da ordem unida, o clima ficava diferente, agradável mesmo, por causa das músicas que cantávamos.

O repertório era, a princípio, aquele, formalmente, utilizado em todas as escolas da época, hinos cívicos tradicionais,’‘qual-cisne-branco-que-em-noite-de-lua,‘já-podeis-da-pátria-filhos’. Mas, o prazer maior chegava na hora em que, entre contritos e embevecidos, entoávamos aquelas dolentes canções ‘indígenas’ de Heitor Villa Lobos. Dormíamos bem, como anjos, nos dias em que cantávamos Villa Lobos, naquela semi escuridão do pátio ao anoitecer.

Ninguém nunca nos perguntou porque ficávamos tão emocionados, principalmente, com aquela canção, da qual eu me lembro bem até hoje, que falava de um tal de Anhangá que fugiu:

…Ó manhã de sol! Anhangá fugiu!
Anhangá! Hê!Hê !
Ah! Ah! Foi você
quem me fez sonhar…’

————–

Não que tenha esquecido, mas, pouco me lembro de professores. Pelo que recordo, praticamente não os tínhamos. Me recordo vagamente das aulas em que fui alfabetizado, do cheiro de massa de modelar levada, uma única vez, por uma diligente professora e só.

Nossa referência ‘educacional’ eram os chamados ‘inspetores’, figuras musculosas, com as camisas de mangas curtas arregaçadas, para mostrar a nós, esquálidos meninos, a ameaçadora desproporção entre seus bíceps e nossos bracinhos finos como gravetos.

Os inspetores homens (haviam entre eles algumas poucas mulheres) eram, pelo aspecto, jovens policiais, praticantes de luta livre e Jiu Jitsu. Lembro de dois deles. Um que usava uma vareta dura de madeira (como uma batuta de maestro) com a qual fustigava as costas e as pernas dos meninos ‘indisciplinados’ e outro que, ironicamente, usava uma grande régua de madeira, com a qual gostava de acertar o vão das orelhas dos rebeldes incorrigíveis.

Verdadeiros ‘desensinadores’ que eram, usavam a régua com truculência ‘educativa’, como método pedagógico’ mesmo. Boçais como a sociedade que os criara. Que Deus os tenha.

É deles, dos carcereiros-inspetores da Escola-Prisão, a penúltima imagem que me ficou na memória, não por acaso, a mais constrangedora:

Numa formatura silenciosa, sem jantar, sem ordem unida, sem música de Villa Lobos, sem hinos cívicos, sem nada, ficamos perfilados noite adentro por cerca de quatro horas, com os braços direitos estendidos, com as mãos espalmadas, pousadas no ombro do colega da frente. Aqueles que, não resistindo à dor, deixavam o braço pender para baixo, recebiam golpes da vara que os inspetores ainda neste tempo, portavam como instrumento de poder e coação.

A intenção deles com a tortura coletiva era clara: Alguém teria que denunciar quem entre nós, havia feito uma das denúncias que haviam vazado para fora do colégio, engrossando o que hoje imagino ter sido uma grave crise no sistema SAM que, ali por volta de 1959, parecia prestes a ruir com novas denúncias sobre bárbaras torturas na Escola XV.

Dos motivos sabíamos alguns poucos detalhes. Havíamos sido, rapidamente, transferidos da Tijuca para um bairro distante do centro (se não me engano, Jacarepaguá). A comida, de resto sempre ruim, estava agora intragável. Dias antes, alguns meninos haviam baixado enfermaria, depois de ingerirem carne estragada. As mães, alarmadas pelas notícias que, ao que parece, já haviam saído na imprensa, passaram a deixar algumas moedas conosco, com as quais comprávamos algo para enganar a fome, bolos, balas, laranjas, através do portão principal.

Na visita seguinte, faminto como todos os outros, decidi confessar a minha mãe que não dava mais para ficar ali.

É esta decisão que deflagra então a nossa última memória que, como se fosse uma volta simbólica ao Jardim de Infância, é a minha lembrança mais querida:

O bonde, a cortininha de lona levantada, o trajeto arborizado por entre as ruas da Tijuca. A música bem ritmada dos trechos de trilhos percorridos, exatamente, a mesma música da fuga dos outros.

Música dura e com faíscas eletrizantes. O ferro da roda do bonde atritando o ferro de memórias que, agora que foram contadas, explodidas para fora da mala, caixa de Pandora aberta que era, não podem mais ser apagadas por ninguém.

Minha honra e meu mérito escolares foram, portanto, muito mais do que ter permanecido lá, ter ali compreendido que a rota de fuga para a liberdade, era a única matéria que realmente merecia ser aprendida.

Escapar íntegro da Escola-Prisão e ter espantado os morcegos da minha vida, entre todos, é o meu único diploma válido, exposto com orgulho na lousa destas minhas remotas memórias, para sempre felizes por serem eternamente infantis.

Spírito Santo
Fevereiro 2008