AQUATICÓPOLIS: O primeiro Samba enredo ninguém esquece

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Aquaticópolis
Experiencia punk, pancadão mesmo, sem preço nem perdão:

(O post é velhão. O Samba enredo  ao qual o post se refere, composto pelo Tio que vos fala, perdeu o concurso de 2010. Mas sabe como é: Samba Enredo serve para qualquer ano, ora! Samba Enredo agoniza mais não morre.

Então com vocês, não imposta muito para qual escola de samba, lançando agora para o Carnaval de 2012, de Spírito Santo e Laercio Lino:

AQUATICÓPOLIS!”

(ouça aqui, na gravação no streaming do link do Overmundo)

Ano de 2010. Laércio (ex integrante do Grupo Vissungo) compositor parceirão de longa data, me telefona solicitando apoio numa missão quase impossível, destas que a gente só se atreve a pedir aos amigões do peito: ‘Consertar’, ou seja re-compor decorar e gravar um Samba-Enredo para uma escola de samba. Prazo: 24 horas para fazer tudo isto (a gravação já estava agendada para aquela mesma noite).

Ai Deus! O que não se faz pelos amigos do peito?

Frio e calculista como um algoz de amizades, Laércio me deixa uma fita K7 e um velho ‘micro system’ (Laércio é um cara destes das antigas).

Na fita o rascunho do samba meio alinhavado e duas páginas da sinopse de um enredo oceanográfico-tropicalista-psicodélico (urdido pelo festejado carnavalesco Paulo Barros), excelente para uma matéria academico- científica, uma tese de mestrado ou coisa que valha, mas – pensei eu, apavorado- nunca jamais em tempo algum como inspiração para um samba.

(Cá entre nós, à minha veia pesquisadora ocorreu que estes incríveis criadores de exuberantes cenografias sambísticas, geralmente artistas plásticos por formação, engendram os seus temas pensando apenas no potencial imagético da coisa, nas doideiras cenotécnicas que inventarão, nos ‘ganchos’ que renderão as imagens da letra do Samba, meras justificativas para os carros alegóricos estrambólicos, surpresas hollywwodianas, pirotecnias high tech e outros trecos e efeitos especiais.

A carroça na frente dos bois, na acepção da palavra.)

Ao pobre do compositor caberia apenas a missão esquizofrênica de transformar aquela tese imagética em algo levemente musical. Coisa para crioulo doido nenhum botar defeito!

É claro que as qualidades estritamente musicais do Samba contam, mas não se exige mais nada que lembre, nem de longe, os tempos melodiosos dos Silas de Oliveira, dos Paulos da Portela, dos Cartolas

————-

Enredo e Samba.
Para quem nunca se ligou, vale aqui a dica tipo ‘Você sabia’?:

A utilização de um Enredo, um tema para os desfiles, na origem, não tem nada a ver com as Escolas de Samba. É coisa que remonta o tempo dos Ranchos Carnavalescos.

Os enredos clássicos, historiográficos (que seja dito: baseados numa história oficial, ‘chapa branca’) são do tempo do Estado Novo e foram uma coisa de inspiração fascista – ‘getulista-chavista’ por assim dizer – ingerência do Estado nos desfiles, fase na qual – vade retro! – como se sabe, o crioulo sambista do Stanislaw endoidou de vez.

Daí teve a fase da exaltação à negritude (também ‘oficial‘, bem entendido), coisa ali dos anos 70/80 e, finalmente a fase atual onde o que motiva tudo (se me permitem o leve veneno) é o caráter espetaculoso, kitsch-broadwaydiano da história, muito mais ‘fru-fru’ visual para inglês ver e menos Samba.

————–

Pensei honestamente em fugir para Madri, para o Piauí, declarar a minha irrevogável incompetencia sambística, grunhir uma rouquidão inventada, mas qual o que, como um Mercadante de botequim desisti da idéia. Laércio não se convenceria jamais. Ele sabia muito bem que eu morderia a isca com frio na espinha e prazer.

Pois foi assim que, amante inveterado dos desafios culturais mais suicidas deste mundo mergulhei de cabeça na AQUATICÓPOLIS!

Afinal um cara que vive pesquisando e escrevendo sobre Samba, arrotando discutíveis saberes e inconveniencias por aí, não podia refugar semelhante chance de estar na, digamos, linha de fogo, na frente de batalha, no âmago efervescente da questão. O Resultado está aí em baixo para quem quiser ouvir.

Como todos poderão observar, depois da gravação alteramos algumas coisitas ou outras da letra mucho loka que deu na nossa telha (mais na telha do Laércio, devo confessar). É que, mesmo mortos de medo de fugir do exigente e fundamentalista carnavalismo da sinopse, querendo ser um pouco mais fiéis à melhor poética, cortamos os verbetes mais escalafobéticos, redundantes ou atropelados na rima.

————

Na madrugada de anteontem, eufórico como um guri com pipa nova, subi no palco com dois ‘cúmplices’ (Black Out, um experiente ‘puxador’ de samba enredo ‘profissional’ e meu parceirão mui amigo Laércio, para defender o tal composição apoplética.

Quando a bateria atacou, furiosa, quase atingi o nirvana mais absoluto. Encarnei o Crioulo Doido mais maluco – como diria um samba destes qualquer – com enorme sofreguidão.

A letra cometida é esta aí em baixo (não nos exijam, por favor uma poética assim menos…utilitária do que a que nos foi exigida pelo emérito carnavalesco. Entendam que já não cabe muita poesia numa hora destas).

Cantem por aí então (ouçam a gravação aqui), antes que a comissão julgadora enterre os nossos ledos sonhos de ver nosso primeiro Samba-enredo sendo cantado na Marques de Sapucaí:

Aquaticópolis
Laercio Lino e Spírito Santo
Gres Renascer de jacarépaguá
Carnaval de 2010 – Carnavalesco Paulo Barros

“Nasceu na imaginação do poeta
a fábula de Aquatinópolis
metrópole bio-marinha refletida
num espelho d’água brilhante
num burbulhar esfuziante
morada de seres exóticos do mar

Moluscos, crustáceos, anfíbios
algas, aguas vivas e corais
humanóides com membranas e guelras de ar
numa bizarra civilização
na Renascer de Jacarépaguá

II
Nesta cidade fantástica
com problemas sociais
comércio, indústria, setores de progresso
maltratando as riquezas naturais

Aquatinópolis via em harmonia
mas foi sacudida pela desordem
a ganancia e a ambição
criando ondas de violencia e poluição
a tecnologia gerou a ‘internautica’
para ajudar o aquopolitano cidadão

Mas o Deus dos mares é bom
e a noite tem cultura até o cais
moda e lazer, e a onda agora é navegar
entre cardumes bioluminosos sensuais

Aquobrilhando e sambando na aquofolia
num banho de mar à fantasia
Aquobrilhando e sambando na aquofolia
num banho de mar à fantasia

(Refão)
Tudo muda, tudo passa tudo passará
ontem não é hoje amanhã não mais será
a Renascer carnavaliza o fundo do mar.”

(Obrigado bateria!)

Spírito Santo
Agosto 2009

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~ por Spirito Santo em 22/08/2009.

3 Respostas to “AQUATICÓPOLIS: O primeiro Samba enredo ninguém esquece”

  1. Alceu,

    Valeu. Os autores agradecem honrados, mas a parte do ‘excesso de imaginação’ não é da nossa alçada. Foram os carnavalescos os responsáveis. Eles é foram os ‘crioulos doidos’ da história, os que EXIGIAM que os autores inserissem, RIGOROSAMENTE todos os itens propostos no enredo.

    Depois descobrimos que não era bem assim. o Samba vencedor, em geral nunca era o melhor, nem mesmo o mais popular ou mais votado, tampouco o mais dentro do enredo: O samba vencedor é sempre o que a cúpula da Escola decide que é o melhor e pronto.

    Pura diversão, portanto.

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  2. Nada a acrescentar.

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  3. Muito bom! Peca um pouco pelo excesso de imaginação. Mas isso é pecado?

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