Centro Cultural Pequena África

PedraDoSal_02 Ivo Korytowski

(Só como introdução um papinho de nada: Ruben Confeti é quem comanda a casa, a roda de samba que rola por lá e mais o que estiver no contexto. É coisa mesmo para se espalhar aos quatro cantos, com o melhor dos incensos)
Leiam, por favor, com a alma livre:

(Extraido do site do CCPA)

A Pequena África

Nome dado por Heitor dos Prazeres a uma região compreendida pela Zona Portuária do Rio de Janeiro, Gamboa, Saúde onde se encontra a Comunidade Remanescente de Quilombos da Pedra do Sal, Santo Cristo, e outros locais habitada por escravos alforriados e que de 1850 até 1920 foram conhecidos por Pequena África.

No final da década de 1770 o Marquês de Lavradio transferiu o porto e o tráfico Africano para o Valongo, para evitar o espetáculo da chegada de milhares de seres humanos quase nus, com mulheres e crianças impressionando pelo seu alvoroço e quizumba no centro de uma cidade que deveria ser uma colônia européia no meio dos trópicos.

Muitos escravos chegavam com graves doenças, decorrentes muitas vezes das péssimas condições dos navios negreiros e eram enterrados ao largo de qualquer terreno na freguesia de Santa Rita. Há vários assentos de óbitos desta freguesia em que centenas de africanos recebiam apenas marcas geométricas como identificação. Caminhamos sobre ossos africanos em muitas áreas da freguesia de Santa Rita. Somos estes ossos e esta carne.

Os nossos irmãos africanos que eram trazidos nos porões de navios negreiros como escravos para o Brasil, desde o período colonial, tinham como primeiro contato com as terras do Estado do Rio de Janeiro, o que é hoje a chamada Zona Portuária. Os navios negreiros aportavam na Gamboa. Na altura da Pedra do Sal, perto do Largo da Prainha, onde funcionava o mercado de escravos (Valongo), onde os negros africanos eram comercializados e de lá saíam direto para o trabalho escravo nas lavouras. Calcula-se que 12 milhões de africanos foram trazidos para o Brasil, retirados à força de suas nações, e um número bastante significativo, não resistiam aos suplícios da viagem e chegavam desnutridos ou com feridas infectadas pêlos castigos das chibatas ou pelos cortes dos instrumentos de ferros que os prendiam nos pulsos, pescoços e tornozelos, o que invariavelmente os levavam à morte. Eram colocados em valas comuns e depois queimados.

Em 1996, durante as obras de reforma da casa de número 34 da Rua Pedro Ernesto, na Saúde, foi descoberto um cemitério de escravos. O espaço passou a ser conhecido como Cemitério dos Pretos Novos.

A situação do negro no século XIX sofreu várias mudanças no Brasil – a Lei do Ventre Livre, a Lei do Sexagenário, a própria Abolição, tudo fruto da luta pelo fim da escravidão -, de modo que, contraditoriamente, havia grupos de negros livres e grupos de negros escravos. A Pedra do Sal, aos poucos, foi também mudando. Antes, a área que servia de palco para a comercialização dos escravos passou a ser ponto de espera dos navios que traziam negros libertos, amigos e familiares de ex-escravos, a maioria vinda da Bahia, que, no final do século XIX, amargava uma forte decadência nas plantações de cacau e café. Vieram também para o Rio de Janeiro: escravos que participaram do levante dos Malês, singular acontecimento que teve lugar na Bahia em 1835, instalou-se na atual Barão de São Felix, um grande contingente de negros que participaram da Guerra do Paraguai, encerrada em 1870, e egressos do massacre de Canudos que se estabeleceram no Morro da Favela, hoje Providência.

A região portuária do Rio entrou num intenso processo de transformação social e cultural. Os negros que aqui chegavam reconstituíram seus valores culturais, misturando-os. Estávamos diante da consolidação da Pequena África. Seus moradores tiveram participação importante em episódios históricos como a Abolição da Escravatura, a Revolta da Armada, as greves operárias contra os maus tratos e pela redução da jornada de trabalho, a Revolta da Chibata, a Revolta da Vacina, entre outros. São momentos da história do Brasil em que se destacaram figuras como João Cândido, o Almirante Negro – Dom Obá II, Prata Preta e diversos líderes dos trabalhadores da orla portuária. A concentração de negros na região permitiu a retomada de uma cultura própria ou o que alguns pesquisadores preferiram chamar de cultura negra carioca.

A Sociedade dos Moços Pretos, fundada por Cândido Manoel Rodrigues, por volta de 1867, que se transformou no ano de 1905 em dois poderosos Sindicatos, que tiveram como homens fortes: Elói Antero Dias (Macaé) – Sindicato dos Arrumadores – e Ézio Cruz – Sindicato dos Estivadores – foi uma medida que deu impulso econômico a milhares de famílias negras. Foi no entorno da Pedra do Sal que Donga, João da Baiana, Heitor dos Prazeres, Aniceto do Império e Pixinguinha, entre outros, se reuniam para cantar e compor sambas. Na Gamboa, década de 30 do século XX, foi fundada a Agremiação Recreativa Escola de Samba Vizinha Faladeira que se tornou famosa por ser considerada a mais rica e inovadora escola de samba da época. A Pedra do Sal era ponto de encontro também de capoeiristas. Vale lembrar: a Escola de Samba Império Serrano surgiu basicamente do trabalho coletivo dos estivadores que circulavam pela região portuária e que alguns deles passaram a morar nas adjacências de Madureira.

O Candomblé, implantado no Rio de Janeiro pelo pai de santo Baiaco vindo da Bahia, em seus terreiros, na virada dos séculos XIX e XX, simbolizavam um espaço dos negros com as suas raízes religiosas. A elite branca proibia o batuque e perseguia os sambistas, considerados marginais. A casa da região mais famosa e freqüentada na época era da Tia Ciata, a baiana Hilária Batista de Almeida, que, em 1876, com 22 anos de idade, veio para o Rio de Janeiro em busca de uma vida melhor, para fugir da perseguição policial contra os terreiros em Salvador. Sua casa, que ficava na altura da atual Praça Onze, atraía os iniciadores do samba. E não sofria mais perseguições. E há explicação para isso: certa vez, o presidente da República Wenceslau Braz ficou com uma ferida na perna que nenhum dos seus médicos conseguia curar. Então, um policial que freqüentava a casa de Tia Ciata lhe pediu que tratasse do presidente. Ela recomendou uma pasta feita de ervas e, três dias depois, Wenceslau estava curado. A casa de Tia Ciata passou a ser respeitada pelas autoridades.

Esse é apenas um breve relato do que era a Pequena África.

O Centro Cultural Pequena África tem como seu objetivo principal resgatar e preservar os valores históricos e culturais e celebrar algumas personalidades que foram vitais nas questões da ancestralidade, solidariedade e cidadania da antiga Pequena África, como ficou conhecida a região que hoje abriga os bairros da Saúde, Gamboa, Santo Cristo e parte do Centro, primeira morada dos africanos e seus descendentes que chegaram ao Rio de Janeiro.

Nesta sua fase embrionária o Centro Cultural Pequena África vem realizando encontros periódicos, exaltando as lideranças acima citadas, através de rodas de samba, filmes de curta-metragem, depoimentos de pessoas que circulavam e se beneficiaram das ações dos nossos celebrados, num processo de resgate para a valorização da história e da cultura do Rio de Janeiro e do Brasil.

Trata-se de um trabalho de resistência, que precisa do seu apoio.

Como objetivos o Centro Cultural Pequena África tem:

1- Entidade sem fins lucrativos com o objetivo de pesquisar, registrar, promover a história e movimentos sócio culturais dos afro-descendentes que se estabeleceram na região da zona portuária do Rio de Janeiro.

2- Implantar um centro de convivência para recuperar a auto-estima da população local com atividades de arte-educação, de lazer, de saúde preventiva e de qualificação profissional.

3- O prédio abrigará: Teatro multiuso, salas de aula, centro de informática e internet (em convênio do CDI – Comitê de Democratização da Informática), cine clube, galeria de arte, restaurante e cafeteria, centro de documentação, pesquisa e ponto de cultura.

4- Programas de qualificação profissional para jovens e adultos, cursos de atualização para terceira idade, cursos de arte-educação com oficinas de teatro, dança e música, oficinas de vídeo e audiovisual.

5- Estabelecer convênios com os sindicatos dos trabalhadores e ex-trabalhadores do Porto do Rio, Organismos Nacionais e Internacionais, Governos Federal, Estadual e Municipal, Universidades, Escolas Técnicas, Centros Culturais.

6- Produzir livros, trabalhos acadêmicos, discos e vídeos que registrem a história dos afro-descendentes desta região do Rio de Janeiro até os dias atuais.

7- Promover ação de saúde para jovens e idosos da região.

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~ por Spirito Santo em 28/08/2009.

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