Vale Negro: Festa, Folia e Festim #02


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CortejoBM 077
(Foto Spírito Santo/Arquivo Cecult USS)

Espetacularização da cultura tradicional no Vale do Rio Paraíba do Sul

…”Em uma ação de valorização às raízes culturais, o Cortejo de Tradições se destaca pela beleza e encantamento das manifestações de cultura popular da região, considerada o berço da diversidade cultural brasileira.

“O Café fez com que essa região fosse a mais importante do Brasil durante o século XIX. Ele deixou de herança essa belíssima Praça, esses casarões ao seu redor e algumas enormes fazendas no entorno da cidade. Mas muito mais do que isso, o café deixou para o Vale o que hoje ele tem de mais rico.

Foi atrás dele que veio para o Vale, um caldeirão de gente de diversos ofícios, classes sociais e culturas, oriundos dos mais diversos lugares.

E também africanos de diversas origens foram trazidos à força pra cá como mão-de-obra escrava.”

————

Estas foram as palavras ditas pelo pessoal do Centro Cultural da USS nos folders do Festival do Vale do Café acerca da história, dos atores e do cenário da futura grande festa (veja o post#01 desta série).

O vale é negro, pois. Como duvidar? Sua energia, mola da economia brasileira – quiçá do mundo- no século 19, fundava-se na negritude simbólica do café e do escravo.

De grande relevancia para a compreensão das idiosincrasias e complexidades da cultura do Brasil, cabe bem aqui neste preâmbulo uma palinha a mais sobre a história local.

Aliás – chato que sou, não resisto – onde o texto do Centro Cultural da USS diz ‘africanos de diversas origens’, um reparo importante que vai nos ajudar a entender bem melhor a natureza específica das tradições e manifestações culturais existentes ainda hoje no Vale:

Posso afirmar enfaticamente que não vieram para o Vale do Paraíba do Sul, como o texto afirma, ‘escravos de várias origens’ – e este é um erro crasso da historiografia sobre os africanos vindos para o Brasil – não houve, como oficialmente se apregoa e a despeito do que insistem os adeptos da tese conhecida como ‘Elogio à mestiçagem’ – diluição, pulverização alguma da cultura negra chegada ao Brasil.

(Ai, ai! E aqui – entre a cruz e a caldeirinha – são os cruéis adeptos do ‘anti-essencialismo’, redondamente enganados, achando que defendo cegamente tradicionalismos vãos e outros arcaísmos – é que me enforcarão)

Ora, ora, basta a qualquer leigo cruzar os dados mais elementares do fluxo de escravos vindos para cá com incidentes sobejamente conhecidos da história do colonialismo português na África, para matar a charada:

Não foram bandos, sacos de gatos, hordas de gente bárbara que nos vieram da África. Que se saiba, veio gente normal sequestrada (e jamais resgatada) – igual a mim e a você – gente culta a seu modo, com idiomas, práticas culturais, história (muito mais antiga que a nossa) e até – com o perdão da palavra-…tradições, além do que é mais importante – gente oriunda de uma determinada e perfeitamente identificável região do continente.

Isto é tão óbvio e evidente que, para mim em muitos aspectos, este descuido acadêmico – com todo respeito – pode se assemelhar até a uma espécie de farsa historiográfica. Não é não?

Combinemos então: No caso do Vale do Paraíba do Sul, praticamente vieram apenas escravos de duas únicas regiões africanas: Angola e Moçambique. Pode-se afirmar também que a vinda de angolanos foi, sobre todos os pontos de vista, em levas maciças sendo a de moçambicanos em número bem menor.

Por estas mesmas circunstancias (que, como já disse, são meramente históricas) muitos dos que reconhecemos como sendo angolanos eram conhecidos na época também como negros ‘do Congo‘, por serem de uma vasta área conhecida na época como Reino do Kongo que se configura hoje na chamada República Popular de Angola.

Os moçambicanos, mesmo vindo em menor número (embarcados num porto moçambicano denominado Inhambane), embora marcando apenas de leve a cultura do Vale – pelo menos pelo que se sabe até agora – tiveram um papel muito significativo na frustrada afirmação política dos escravos da região, já que muitos dos líderes das insurreições de escravos ocorridas nas fazendas do Vale eram moçambicanos)

A integridade e a coerencia intrínseca à cultura destes africanos, (como se viu já portada por eles quando chegaram por aqui, resultado do fato de pertencerem ao mesmo grupo étnico-linguístico conhecido como Bantu) foi decisiva na caracterização e na afirmação de seus traços culturais mais evidentes apresentados aqui no Brasil e ainda hoje, perfeitamente reconhecíveis (principalmente no Jongo praticado na região do Vale)

Só não vê quem não quer.

(Perdoem as delongas do véio, mas este papo me lembrou o trecho de uma canção angolana que eu mesmo cantava emocionado nos anos 70, bem adequada à ocasião):

“Naquela roça grande, não tem chuva
o suor do meu rosto que rega as plantações
Naquela roça grande tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue
feitas seiva.

O café vai ser torrado, pisado, torturado,
vai ficar negro, negro da cor do ‘contratado’*
Perguntem as aves que cantam
e ao regato de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:
Quem se levanta cedo?
Quem vai à tonga?
Quem traz pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de dendê?
Quem capina e em paga recebe desdém?
fubá podre, peixe podre,
panos ruins, cinquenta ‘angolares’
Porrada se refilares…

E as aves que cantam
e os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:
_ Monangambê!”*

(A canção – que se chama ‘Monangambê’ – é de Agostinho Neto e Rui Mingas, destacados líderes da revolução angolana na década de 70 – Agostinho foi o primeiro presidente)

Viajei? Divaguei? Ando assim ultimamente. Deve ser a idade.

Pronto: Finda a longa ressalva podemos seguir então com a nossa palinha historiográfica:

A festança e a gastança do Rei

A possível – e dramática – origem remota das festas de rua na Vila de Nsa Senhora da Conceição de Vassouras.

Uma coisa é certa: Não havia, de jeito nenhum, festas de rua verdadeiramente populares no Vale do ciclo do Café, local também conhecido como Vale do Paraíba do Sul onde vicejavam as maiores fortunas do mundo na época, ali pelos meados do século 19.

(Afinal, convenhamos, como haveria de haver festa popular se, a rigor, quase nem povo havia?)

Tanto é assim que a festa mais de arromba de que se tem notícia por ali foi uma mega-paparicação promovida – e bancada – pela aristocracia local, barões, baronesas e escassos viscondes e viscondessas, em honra de D. Pedro II, cujo ápice foi à recepção para o beija-mão na qual afoitos e quase histéricos bem-nascidos da cidade fizeram fila para beijar as alvas luvas do jovem imperador.

Historiando esta visita de D.Pedro II à cidade de Vassouras, em 18 de Março de 1848, Ignácio Raposo (em ‘História de Vassouras’ 1978) cita uma ata da Câmara Municipal da cidade, datada de 20 de Março daquele ano, que dizia:

…”Sua majestade fez sua entrada às 8 horas da manhã em Vassouras encontrando no portão da casa preparada para hospedá-lo grande concurso de cidadãos decentemente vestidos e a guarda nacional no número de 230 e tantos de uma e outra arma, donde igualmente de novo deram vivas ao som do repinicado dos sinos e das salvas das duas fortalezas que para este fim se haviam construído.”

…”Várias comissões enviadas pelas diferentes agremiações da Vila se encontravam ali compostas dos mais altos figurões da época, ricamente trajados, em atitude nobre e respeitosa”.

“Mil girândolas de foguetes estrondavam no ar, mil bandeiras nacionais, estrangeiras e fantásticas tremiam sobre os mastros, quando Sua Majestade, radiante de alegria, saltou do seu ginete para firmar-se pela primeira vez no solo Vassourense solo tão verde e tão brilhante que até relembra a mais gentil das cores que reluzem no pavilhão brasileiro.”

Muita espetaculosidade sim, como se vê, exibições equestres (com o Imperador fazendo feio por ser mal cavaleiro), música de câmara e perfume francês, no entanto tudo muito exagerado, afetado pelo gosto pretensamente europeu, nos modos de ser e conviver daquela gente meio chucra, de um aventureirismo meio lusitano ainda, nobres-novos naquele ‘nem-te-ligo’ dos poderosos da vez embriagados de pompa e de si mesmos.

Novos-ricos puxando o saco de quem está no poder, aristocratas em suma como os de qualquer época, nem de longe desconfiando que as novas circunstancias logo seriam a irrecorrível abolição da escravatura, que iria fazer com que todos eles dessem de vez com os burros d’água.

Festas de pura dicotomia, portanto: Escravos oriundos de uma África notadamente festeira, enclausurados em senzalas fétidas enquanto nobres pálidos, no dia a dia circunspectos e carrancudos, festejavam baboseiras bajulatórias, com foguetórios e ambrosias, fausto e desperdício. Contradições expostas como naturezas mortas.

…” Muito depois do almoço oferecido a Sua Majestade, já cerca de 2 horas da tarde, vieram todos os vereadores incorporados e seguidos de imenso número de cidadãos buscar o Imperador em sua residência para assumir a uma solenidade que se realizava na sede da paróquia.

Formado o préstito, como em procissão do Santíssimo colocou-se o Imperador debaixo de reluzente pálio conduzido pelas mais altas autoridades de Vassouras, e assim partiu para a Matriz onde foi celebrado, conforme o ritual romano, esplêndido Te-déum por entre boa música e grossas nuvens de incenso. Subindo ao púlpito alguns momentos antes, o padre Dr. João Joaquim Ferreira de Aguiar, Pregador Imperial, produziu com todo o vigor de sua eloquencia, um desses vôos de oratória que assombram a multidão.”

(O mesmo Ignácio Raposo em ‘História de Vassouras’ 1978)

Mas como o tema, o assunto desta série de posts é farra e festa, alguns inconvenientes dirão, entre risinhos sarcásticos que os escravos – obviamente ausentes à recepção ao Imperador – não estavam lá tão apartados ou contidos assim.

Certo. Muita notícia se tinha de autorizadas rodas de Jongo ou Caxambu nos terreiros das fazendas da região. A negraiada de branco, rodopiando com cara de feliz da vida.

Impertinente que sou, contudo replicaria meio irritado até:

Conversa fiada! Mesmo através da rala bibliografia existente sobre o tema, dá para se perceber claramente, que as rodas de Jongo de que tratam estas notícias, isto sim, era um hábito insidioso dos senhores de escravos, sórdido mesmo, consistindo que era em induzir, intimar os negros a se exibir saltitantes, dançando um Jongo compulsório para alegrar as visitas.

(Você já viu elefantes, tigres e macacos se exibindo num picadeiro de circo para uma platéia de risonhos seres humanos?

Pois era, sem nenhum exagero, mais ou menos isto o que acontecia nos terreiros das fazendas de café no século 19. A diferença nada sutil era que quem se exibia era tão gente quanto quem assistia -embora uns fossem bem mais humanos que os outros, se é que vocês me entendem.)

– “Veja como são felizes estes meus negros! Veja como eu os trato bem!”– Gritava o fazendeiro, cuspindo a gosma do charuto no terreiro.

(Desculpem se deixo escapar a pontinha de asco. É que a vocação da humanidade para a iniquidade é mesmo uma coisa impressionante.)

Vamos ficar acertados então que os escravos do Vale do Paraíba do Sul, de certo modo, até se compraziam da obrigação de dançar sim, claro, gente normal costuma agir assim. Você mesmo já viu isto no cinema e sabe que qualquer um de nós dançaria, de bom grado mesmo e até cantaria emocionadas cantigas numa pequena roda de alívios, se vivesse naquela rotina estressante de campo de concentração tropical.

Existem, pois, repito – para o bem e para o mal – espetáculos e ‘espetáculos‘. A cultura do Vale do Paraíba do Sul, para todos os efeitos deve ser vista então pelo menos sob dois ângulos bem distintos, a saber:

Um é o Jongo espetáculo compulsório, restrito à compungida assistência das brancas visitas do fazendeiro.

O outro talvez tenha sido o Jongo anti-espetáculo, das brasas comidas e das fantásticas bananeiras, das catárticas rodas íntimas, mágico-propicitórias, feiticeiras, pragas metafóricas cantadas por velhos escravos contritos nos recônditos e clandestinos cafundós do Judas.

_Jinongonongo!

Na hora de espetacularizar é preciso, pois, se decidir de que Jongo estamos falando.

Inútil buscar hibridismos fugidios, mediações e ponderações para a barra pesada que foi a escravidão sofrida pelos negros do Vale do Paraíba do Sul. Foi assim, deu no que deu e é preciso ter muito cuidado para que a emenda que virá não seja pior que soneto que se foi.

(Por favor, de novo perdoem a franqueza, mas é que acho incomprensível a recorrente tentativa que alguns setores intelectuais fazem em teses e dissertações historiográficas ou antropológicas, de desqualificar opiniões como estas que aqui expresso, confinando-as em escaninhos estreitos, associando generalizadamente – e de forma quase irresponsável – os conceitos ‘tradição’ ou tradicionalidade a ‘conservadorismo’, a ‘atraso’ e a’anacronismo’.

É entediante perceber como estas teses insistem, de forma renitente, em subestimar qualquer discurso que evoque a existencia de alguma relação de causa e efeito, a ser conhecida e respeitada na dinâmica evolutiva da cultura de um grupo social ou de uma comunidade, no decorrer do tempo e do espaço.

Uma lógica – e, em consequencia,uma ética-, uma moral qualquer que ligue e dê sentido de vida transcorrida a uma manifestação cultural, por exemplo: Passado=presente=futuro, um ethos histórico enfim).

O mais curioso é que este comportamento, esta relação descuidada, desleixada mesmo, para com um conceito tão evidentemente ligado ao que se convencionou chamar de Cultura Popular ocorre muito mais em elementos da cultura brasileira relacionados à herança cultural africana do que nos da herança indígena, por exemplo, na qual ‘tradição’ tem sido sempre um elemento tratado com total rigor, quase reverencia, por estudiosos de todas as áreas e tendencias.

(E aqui me cabe enfatizar que mesmo que o conceito ‘herança cultural’ também já não esteja mais…na moda eu bato pé firme no argumento)

É possível identificar em que teorias estas teses, mesmo rasamente, se baseiam. Difícil de identificar são as suas reais finalidades, sua ideologia. Se alguém souber – e puder – que me esclareça o mistério.

————–

De resto, ficamos sabendo que contradição é dicotomia. Festa pode ser Farsa. No passado teve o foguetório da festa sim (e toda farsa, bem o sabemos, tem um que de festim), mas teve também – e ainda está latente – o tempo do foguetório das carabinas, da morte nas forcas da insurreição.

Verdade seja dita então – e ainda bem que o texto do Cortejo 2009, enfim coloca estas coisas no lugar-: Estas coisas não se apagam assim, da noite para o dia.

A cultura popular, a ‘cultura local’ do Vale do Paraíba do Sul pelas insidiosas razões que aqui, só de leve esboçamos, acabou sendo pelo dito e pelo não dito, quase que exclusivamente a cultura do negro africano (angolano como vimos, para sermos mais exatos).

Como se tratava de uma população majoritariamente escrava, num regime de trabalho rígido e controlado, circunscrito a vigiadas fazendas mais ou menos isoladas entre si, esta cultura não se configurou jamais em grandes festas de rua (como as havidas nas cidades do Serro e Diamantina em Minas Gerais, por exemplo, onde documentos dão conta da existência de momentosas festas de rua promovidas por irmandades católicas integradas por negros livres ou escravos desde o século 18.)

Triste ter que dizer isto, mas as manifestações ‘populares‘ de rua mais concorridas em Vassouras e adjacências, os grandes espetáculos que tiveram negros como protagonistas, foram os enforcamentos de escravos condenados pelo crime de aquilombamento e insurreição.

O melhor é assumir logo que a escravidão precisa acabar – de verdade – um dia para se poder, enfim programar a tal festa de arromba real.

(Pensando bem, talvez tenha sido por isto que as críticas mais agudas dirigidas ao formato do ‘Cortejo das Tradições’ de Vassouras, com ironia insuspeitada questionavam o velho ‘Cortejo’ pegando pelo aspecto semântico do nome):

Lembram-se da pergunta?

_Afinal, quem devia cortejar quem?

Tratando-se de uma festa de muitas mumunhas, prato cheio de ‘saias justas’ sociais, contradições latentes e panos quentes antigos, históricos, o convite enfático do jovem leitor vassourense citado no post#01 desta série, como se pode ver, não era uma deferência assim tão cômoda, simples de aceitar, fácil de se lidar.

(Só posso adiantar por enquanto que a nova festa teve para todos os participantes, – salvo engano – um final bastante supimpa e assaz feliz)

—————

No mais, contada assim de relance os antecedentes mais remotos desta história, quem viver verá no próximo e último episódio desta aventura como e no que isto tudo deu e do que se tratou.

Spírito Santo
Setembro 2009

* (Nota) – “Contratado‘ é a expressão oficialmente usada pelo Apartheid da Angola colonial (Lei do Indigenato) durante as fases mais cruéis do colonialismo português. Pela lei, inspirada nas teses do nosso Gilberto Freire (que, a serviço do governo Salazar, foi seu principal ideólogo) era uma espécie de sistema de trabalho escravo re-significado, no qual um indivíduo poderia ser levado para qualquer parte do país, em frentes de trabalho forçado, evidentemente sem remuneração alguma.
Monangambê’ (em kimbundo o mesmo que carregador de bagagens ou moço de recados), por extensão o mesmo que indivíduo que ocupa o menor status da sociedade, passível de ser capturado, a qualquer momento, para o trabalho no ‘Contrato’

Vale Negro: Festa, Folia e Festim # 01


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CortejoBM 167

Espetacularização da cultura tradicional no Vale do Rio Paraíba do Sul

Trafegando no Tempo

(Antes um feliz intróito pertinente e necessário).

É sem mais delongas que digo, antes de mais nada: Não tive como recuar, desistir. A chance era, mais uma vez, absolutamente irresistível.

Para usar um termo moderninho, que vem bem a calhar, quem já é ‘follower‘ deste seu criado que aqui vos fala, sabe que esta coisa de esbarrar com ‘chances irresistíveis’ na internet está virando para mim quase que uma profissão… tá, tá exagerei, uma prática rotineira, assim, melhor dizendo.

Sei que a imagem a seguir é batida, mas ela me ocorre bem fortemente agora, na hora de contar para vocês mais esta história:

Isto aqui, a Internet, é mesmo uma Máquina do tempo, sim senhor, sem tirar nem por. Tudo aqui é irreal, virtual como se diz, imaginado, sugerido – às vezes até mesmo inventado – exagerado, superestimado enfim, mas, mesmo assim, por isto ou por aquilo, acaba nos levando a algum lugar misteriosamente verdadeiro onde podemos meio assustados ou ressabiados, desembarcar, aterrisar, aportar num mundo – aí sim – real enfim.

(Sabe naquele filme baseado no livro do H.G. Wells, quando o reloginho da máquina do tempo ‘travava’ num ano remoto qualquer e o tripulante – com aquela bem transada ‘ropitcha‘ do século 19 – desembarcava? Pois é. Contraditoriamente, o interior da máquina, tão cheio de concretude era um espaço transitório – o virtual – enquanto o chão que ele pisava – o seu destino eventual – é que passava a ser o mundo real, de verdade.)

É por estas e outras que para quem, como eu, adora a pura e limpa adrenalina das aventuras, a Internet é um prato feito, cheiroso e bem quentinho, daqueles dos melhores restaurantes de estrada.

O certo é que no inusitado ensejo de viver esta minha viciante saga internáutica já me vi, lá para as tantas, rodando barrentas estradas vicinais – reais – com uma dupla de desconhecidos garotos cineastas filmando as entranhas de uma gruta de garimpeiros quilombolas nos cafundós de Diamantina, MG, iniciando um alentado filme etnográfico (veja ficha técnica em matéria sobre filme piloto aqui) sobre um tema que havia abandonado há…28 anos.

Mobilizado por outros, nem tão garotos assim, mas do mesmo modo animados com as iscas-notícias contidas nos meus posts, me vejo agora mesmo recriando um grupo musical afro-cult cuja carreira havia sido encerrada há… sei lá, 13 anos atrás.

Por conta deste mesmo mergulho nesta rede infinita de bons peixes, cheguei mesmo a voltar a lecionar minhas doidices linguístico-musicais numa universidade, de onde havia sido defenestrado sem dó nem piedade por alguns estúpidos gestores. Voltei também a escrever para teatro, cantar, compor sambas, sei lá tantas coisas…

…Tantas que, mesmo assim já irreversivelmente coroa, me sinto mesmo rejuvenescendo, evoluindo às avessas, numa volta para o que há de melhor do passado (ou do futuro, como saber?), pela mão de, quase sempre amáveis e desinteressados amigos ‘seguidores’, surgidos como que por mágica, das entranhas mais ofuscantes desta enigmática máquina de fazer doido que é Nossa Senhora da Internet.

Tenho achado bem bacana, emocionante mesmo ter conseguido atrair tantos interessados ‘followers‘com este frágil chamariz de textos desabusados, porém sinceros – muitas vezes meio incongruentes – espalhados pela internet, a ponto de ser convidado para viver eletrizantes – e às vezes até indianajônicas – aventuras tão reais.

(Você mesmo deve ser assim ou ter um amigo ou conhecido igual a mim, com um pé pintado no virtual e o outro plantado no real)

Sortudo, retribuo os net-amigos contando mais e mais histórias. Viver para Contar, este é o jogo e o trato.

Meninos, eu vi!

(Agora sim, a mais nova aventura):

Vale Negro: Festa, Folia e Festim # 01
Espetacularização da cultura tradicional no Vale do Rio Paraíba do Sul

Mobilizado por um jovem leitor de alguns comentários e ressalvas, um tanto impertinentes que fiz, aqui mesmo neste Overmundo, sobre uma experiência de espetacularização de manifestações culturais tradicionais na cidade de Vassouras (descrita no post Cortejo das Tradições – O fio da navalha’ de Egeu Laus, publicado também aqui neste site) me vi rapidamente tomado pela oportunidade de viver in loco, ao vivo e a cores uma experiência arriscada (cá entre nós… muito doida mesmo):

Ser o diretor artístico de uma reformatação do tão criticado ‘Cortejo” que assim repaginado passaria a ser o ponto alto de um tradicional Festival de turismo cultural.

Já pensou que doideira?

Como não poderia deixar de ser, o processo de repaginação do evento foi complicado e controvertido – Aquilo sempre fora uma ‘festa tradicional inventada’ (vocês que sacam o Hobsbawm, ajudem os colegas aí do lado, por favor) já que por razões históricas ligadas à escravidão, não eram comuns as festas populares de rua na região.

Cultura é política o tempo inteiro, concordam alguns, eu entre eles.

Neste processo, já contando com a organização do Centro Cultural da Universidade Severino Sombra recentemente criado, ocorreu uma detalhada avaliação dos problemas apresentados pelo modelo anterior, a elaboração de uma proposta mais aproximada da realidade cultural local (tarefa muito difícil porque não se podia perder o apelo de espetaculosidade compatível às dimensões, digamos assim, comerciais do festival)

Por uma contingencia óbvia e irrecorrível, se contou também com uma série de encontros com líderes dos grupos tradicionais locais, chamados pela primeira vez a participar das decisões e da aprovação da nova proposta, em todos os aspectos (na verdade esta foi uma das condições sine qua non que considerei antes de aceitar o tal convite)

Esta série de artigos visa resenhar nos seus mínimos detalhes – e de forma absolutamente independente como convém à relevancia do tema – as opiniões pessoais deste autor que, devoto de São Tomé que sempre foi, viveu a experiência desta vez, na prática e na teoria (tudo junto e misturado como se diz).

É bom informar também a esta altura do relato que, afortunadamente consegui convencer os garotos de Vassouras a me autorizar o convite, na qualidade de consultores-testemunhas desta mui sagaz aventura, dois dos meus ‘followers‘ amigos internáuticos mais queridos, o antropólogo Marcus Vinicius Garcia, de Brasília, ligado diretamente a estas coisas de Jongo e quejandos e a queridíssima professora doutora e educadora Maria Luiza Oswald, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), interessada como todos nós nas relações estreitas que se deve estabelecer entre a Cultura de todos e Educação para todos.

(Relevante se faz ressaltar que a porta pela qual os dois me foram apresentados foi este Overmundo)

E assim, como seria o que Deus quisesse, realmente foi. Fui e vi (pelo menos a chance não perdi) e timtim por timtim começo a vos contar tudo aqui.

(Aos turistas novatos no tema, algumas dicas e lembretes úteis):

A festa aqui comentada, parte integrante do ‘Festival do Vale do Caf锑, que ocorre na cidade de Vassouras, RJ desde 2003, foi batizada com o pomposo e arcaico nome de “Cortejo das Tradições‘‘, uma denominação algo imprópria (lusitana talvez) que suscitou nos observadores mais argutos a sarcástica e enigmática pergunta:

_ Afinal, quem corteja quem?

(O Festival para quem ainda não sabe, é um projeto de turismo cultural idealizado pela harpista Cristina Braga e o violonista Turibio Santos, gerido desde 2006 pela empresa promotora de eventos Backstage comandada pelos eficientes produtores Nelson Drucker e Roberta Kelab, firma responsável entre outros grandes eventos, pela espetacular árvore de Natal da lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro).

Alguns observadores do festival de Vassouras desde o seu início asseguram que as manifestações de cultura tradicional da região (Jongo, Folias de Reis, Calango, Capoeira, etc.) foram inseridas na programação desde o início no festival, como forma de legitimá-lo enquanto evento que reconhece o valor da cultura tradicional local.

Algumas antigas críticas entre as mais razoáveis, contudo alegam que as referidas manifestações entraram na grande festa como um sub-evento, menor, bem modesto até, quase uma concessão que se fazia às humildes tradições culturais locais antes subestimadas ou ausentes da programação, o que seria de todo condenável em se tratando de um evento bancado com recursos da renúncia fiscal, dinheiro público, portanto.

A sutil controvérsia, embutida subliminarmente em todos os debates que ocorrem sobre o assunto terá importancia transcendental no futuro, quando as eventuais consequencias do impacto que intervenções deste porte costumam provocar na cultura tradicional de uma região, se fizerem sentir.

A hora da porca torcer o rabo será portanto quando a enigmática pergunta voltar a ser formulada:

_ Afinal, quem cortejou quem?

O que se pode afirmar com certeza é que o evento – talvez o de maior porte e relevancia em seu estilo em nosso estado – tem ocorrido todo ano no mês de Julho em Vassouras com grandes espetáculos ao ar livre na exuberante Praça Barão de Campo Belo e eventos paralelos, tais como visitas guiadas às bem conservadas fazendas da região.

Mesmo se constatarmos que Turismo Cultural é um conceito relativamente novo no Brasil, avaliando mais atentamente, alguns festivais de inverno por aqui talvez estejam sendo excessivamente calcados naqueles festivais de inverno clássicos, de matriz européia, cujo simpático modelito envolve invariavelmente uma sequencia de eventos ligados à cultura popular regional – ao sabor local, por assim dizer – o que dito assim literalmente não tem nada de errado ou condenável, muito pelo contrário.

Como se sabe no caso dos europeus, ‘cultura popular local’ significa espetáculos de música clássica ou erudita ao ar livre, simpáticas e improvisadas feirinhas de artesanato e tralhas usadas, além da degustação de comidas típicas e vinhos da região. O problema é que o pessoal daqui, em seus modos tão colonizados de ser, às vezes se esquece de fazer a adaptação da idéia às chamadas ‘coisas nossas’.

Para começar, as nossas tão peculiares cidades– leia-se: suas instancias culturais mais mobilizadas e atuantes – marcadas por tanta diversidade, costumam às vezes se ressentir da impropriedade do conceito ‘cultura popular’ quando este é aplicado em desacordo com o gosto realmente local, principalmente quando a música erudita ou clássica – o toque europeu mais recorrente do conceito – é tornada prioridade absoluta.

Além do mais, sendo a notável – e histórica – tradição musical de uma cidade como Vassouras, por exemplo, um valor a ser fortemente considerado, há que se considerar também que este valor sempre esteve no caso, por demais associado ao certo ranço elitista da aristocracia local no passado imperial, o que daria a um festival de inverno convencional, porventura promovido na cidade, um caráter de evento pedante, VIP, pouco recomendável, até mesmo do ponto de vista comercial.

O certo é que no caso do Festival do Vale do Café, em algum momento este aspecto problemático do projeto parece ter sido detectado encontrando-se uma solução recorrente, porém bem pensada, que foi a promoção de grandes shows com artistas da MPB, tentando dar ao evento uma feição mais popular (em versão recente do festival o músico Almir Sater teria mobilizado uma platéia de mais de 12 mil pessoas.)

Faltava, contudo algo mais para que o conceito ‘Cultura popular local’ estivesse plenamente contemplado. O modelito europeu precisava ser adaptado às circunstancias regionais de forma ainda mais radical.

É que a contradição persistia principalmente talvez no formato um tanto elitista dos eventos paralelos, ainda diretamente copiados do tal modelito europeu, gerando uma série de críticas francas ou veladas que, com o decorrer das várias versões do festival, parece que se tornaram incomodamente insistentes.

A contradição básica nascia então da clássica – e surda – dicotomia ainda existente no Brasil entre cultura popular e cultura de elite, dicotomia esta que numa região onde a distancia entre ‘senhores‘ brancos e ‘escravos‘ negros pouco se alterou, transformava o problema numa questão política muito relevante (embora apenas subjacente dita à boca pequena, como sol tapado com peneira.)

(Eu sei, eu sei que muitos chegam, inclusive, a considerar esta, digamos, contradição sugerida, um conceito arcaico, já ultrapassado, coisa de marxistas tardios, mas relevem a ranhetice do véio e reflitam: Não se abolem dicotomias reais apenas desqualificando, em tese, as teorias anteriores que as colocaram em discussão. Poderação e paciência são as melhores táticas para esta parte do jogo)

Junto com as eventuais contradições existentes entre a produção do festival e as tais instancias intelectuais atuantes na cidade (agravadas talvez pelo questionamento que se passou a fazer acerca das vantagens que a cidade estaria tendo como sede do festival) algumas pendengas mais intrincadas ainda poderiam ser aventadas.

É provável que tenha sido aí, em meio a esta sinuca de bico – ‘Fio da navalha’* no dizer do arguto radialista local João Henrique Barbosa – que a idéia de se abrir algum espaço para a rica cultura tradicional da região tenha sido pensada pelos criadores do festival.

Existindo então como já se disse – para o bem ou para o mal – espetáculos e ‘espetáculos‘, fica fácil de se entender então que destas históricas contradições não poderia deixar de padecer o aqui citado ‘Cortejo de Tradições‘.

Talvez tenha sido por isto que em 2009, após ter sido criada sabe-se lá por quem como uma festa de arromba no mal sentido, depois de sofrer um processo de carnavalização um tanto equivocado, tirado, ao que parece de uma exótica mistura entre desfiles de Escola de Samba e bloco de Maracatu de Olinda, foi por tudo isto enfim que acabou chegando para os envolvidos e interessados diretamente no ‘Cortejo das Tradições‘, o momento de reconfigurar a festa que se transformara (com o perdão para o infame trocadilho) num verdadeiro cortejo de… contradições‘.

Diz-se que no auge destas experiências pós-culturalistas, chegou-se a importar uma dupla de carnavalescos do Rio, incumbida de repaginar os integrantes dos grupos tradicionais com um novo figurino, baseado em chavões estéticos supostamente ‘afro-descendentes’, looks de baianas ou yaôs de Candomblé e bonezinhos nigerianos (afro-muçulmanos) estilizados, entre outras fashionices, tudo a remeter a uma africanidade fake, completamente estranha à cultura local.

(Aliás – e este é, para variar, o tema desta série de artigos – é sobremodo preocupante o desamparo sofrido por manifestações culturais ditas tradicionais do Brasil diante de invasivas aventuras re-significadoras, ancoradas em teses e argumentos antropológicos de caráter assaz duvidosos e interesses mais duvidosos ainda.)

A exibição dos grupos tradicionais segundo as determinações também impostas por este enredo do Cortejo anterior consistiria num desfile cerimonioso, quase religioso (um cortejo, na acepção da palavra), com todos os grupos organizados em fila, portando estandartes e cantando uma mesma cantiga-enredo pretensamente folclórica, composta de boa vontade pela harpista Cristina Braga (como se viu acima uma das criadoras do Festival do Café) e pelo músico Ricardo Medeiros.

(A utilização da referida canção num desfile de grupos tradicionais essencialmente musicais, todos com vasto repertório mais adequado e disponível para a ocasião, é um mistério do mesmo modo insondável).

Consta também que os grupos ao final do cortejo faziam exibições em pontos determinados da praça, mas curiosamente esta parte do espetáculo nunca era considerada relevante ou lembrada em detalhes pelas pessoas consultadas.

A verdade é que o problema, pelo menos do ponto de vista artístico – ou estético, como no exemplo acima – não era de todo fácil sendo, isto sim, espinhoso a mais não poder, pois tocava em questões antropológicas muito complexas e ambíguas.

Afinal se estava lidando com cultura tradicional, manifestações de traço artístico já há muito determinado, informadas que eram por práticas simbólicas (a maioria africanas sim), tradições e implicações sociais muito antigas, ancestrais até, as quais os criadores do formato talvez nem tivessem tido a oportunidade de conhecer suficientemente.

O fato é que, seja lá quem tenham sido os criadores do Cortejo original (a este respeito leia maiores detalhes na matéria de Egeu Laus citada acima), não se tinha muita notícia de experiências de espetacularização anteriores. Não havia, portanto muita chance de se acertar por este caminho.

E foi deste modo e quiçá por estas razões – e por cargas d’água que tentaremos desvendar em artigos a seguir – que de festa subalterna, nos anos anteriores ocorrendo no domingo, dia seguinte ao término oficial do Festival, o mui falado ‘Cortejo das Tradições’ foi proposto em 2009, pela própria empresa produtora do evento, para ser alçado à condição de atração de gala, passando a ocupar a praça da cidade no sábado, em horário nobre, como espetáculo de encerramento oficial do festival.

Começou então a ser urdido, com consequencias impossíveis de serem previstas por enquanto, a história de uma nova festa, um novo ‘Cortejo das Tradições‘.

É nesta parte da história que o autor que vos fala recebeu de um dos ‘garotos de Vassouras’ o email a seguir, o inusitado convite-desafio do qual divulgo as partes essenciais:

“Fala professor,

Pasme (ou não) e veja só como são as coisas.

A produção do Cortejo de Tradições pediu que o Centro Cultural da USS elabore uma proposta que tente resolver grande parte dos problemas que o cortejo tem. E depois disso, que execute a proposta.
(…)A aceitação ou não dessa proposta tem desdobramentos diversos que devem ser pensados e conversados com muita calma… Enfim, pra que aceitemos ou não esta proposta, algumas condições têm que ser ( …) satisfeitas, entre as quais principalmente:

– Aceitação (…) de nossa proposta (…)

– Que você aceite ser o Diretor / Consultor com liberdade e autonomia total, inclusive para formular a proposta junto conosco…”

Muita calma nesta hora. Desenrolemos o longo fio desta meada por partes, já que muito pano para mangas (muitas versões, no caso) promete conter esta nossa festiva história.

(Toda história que já teve começo e meio, anda a procura de um fim.)

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Spírito Santo

Julho 2009
* (Boa parte das informações sobre o ‘Cortejo’ anterior a 2009 são de Egeu Laus, em matéria linkada logo no início deste texto)