Vale Negro: Festa, Folia e Festim #02

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CortejoBM 077
(Foto Spírito Santo/Arquivo Cecult USS)

Espetacularização da cultura tradicional no Vale do Rio Paraíba do Sul

…”Em uma ação de valorização às raízes culturais, o Cortejo de Tradições se destaca pela beleza e encantamento das manifestações de cultura popular da região, considerada o berço da diversidade cultural brasileira.

“O Café fez com que essa região fosse a mais importante do Brasil durante o século XIX. Ele deixou de herança essa belíssima Praça, esses casarões ao seu redor e algumas enormes fazendas no entorno da cidade. Mas muito mais do que isso, o café deixou para o Vale o que hoje ele tem de mais rico.

Foi atrás dele que veio para o Vale, um caldeirão de gente de diversos ofícios, classes sociais e culturas, oriundos dos mais diversos lugares.

E também africanos de diversas origens foram trazidos à força pra cá como mão-de-obra escrava.”

————

Estas foram as palavras ditas pelo pessoal do Centro Cultural da USS nos folders do Festival do Vale do Café acerca da história, dos atores e do cenário da futura grande festa (veja o post#01 desta série).

O vale é negro, pois. Como duvidar? Sua energia, mola da economia brasileira – quiçá do mundo- no século 19, fundava-se na negritude simbólica do café e do escravo.

De grande relevancia para a compreensão das idiosincrasias e complexidades da cultura do Brasil, cabe bem aqui neste preâmbulo uma palinha a mais sobre a história local.

Aliás – chato que sou, não resisto – onde o texto do Centro Cultural da USS diz ‘africanos de diversas origens’, um reparo importante que vai nos ajudar a entender bem melhor a natureza específica das tradições e manifestações culturais existentes ainda hoje no Vale:

Posso afirmar enfaticamente que não vieram para o Vale do Paraíba do Sul, como o texto afirma, ‘escravos de várias origens’ – e este é um erro crasso da historiografia sobre os africanos vindos para o Brasil – não houve, como oficialmente se apregoa e a despeito do que insistem os adeptos da tese conhecida como ‘Elogio à mestiçagem’ – diluição, pulverização alguma da cultura negra chegada ao Brasil.

(Ai, ai! E aqui – entre a cruz e a caldeirinha – são os cruéis adeptos do ‘anti-essencialismo’, redondamente enganados, achando que defendo cegamente tradicionalismos vãos e outros arcaísmos – é que me enforcarão)

Ora, ora, basta a qualquer leigo cruzar os dados mais elementares do fluxo de escravos vindos para cá com incidentes sobejamente conhecidos da história do colonialismo português na África, para matar a charada:

Não foram bandos, sacos de gatos, hordas de gente bárbara que nos vieram da África. Que se saiba, veio gente normal sequestrada (e jamais resgatada) – igual a mim e a você – gente culta a seu modo, com idiomas, práticas culturais, história (muito mais antiga que a nossa) e até – com o perdão da palavra-…tradições, além do que é mais importante – gente oriunda de uma determinada e perfeitamente identificável região do continente.

Isto é tão óbvio e evidente que, para mim em muitos aspectos, este descuido acadêmico – com todo respeito – pode se assemelhar até a uma espécie de farsa historiográfica. Não é não?

Combinemos então: No caso do Vale do Paraíba do Sul, praticamente vieram apenas escravos de duas únicas regiões africanas: Angola e Moçambique. Pode-se afirmar também que a vinda de angolanos foi, sobre todos os pontos de vista, em levas maciças sendo a de moçambicanos em número bem menor.

Por estas mesmas circunstancias (que, como já disse, são meramente históricas) muitos dos que reconhecemos como sendo angolanos eram conhecidos na época também como negros ‘do Congo‘, por serem de uma vasta área conhecida na época como Reino do Kongo que se configura hoje na chamada República Popular de Angola.

Os moçambicanos, mesmo vindo em menor número (embarcados num porto moçambicano denominado Inhambane), embora marcando apenas de leve a cultura do Vale – pelo menos pelo que se sabe até agora – tiveram um papel muito significativo na frustrada afirmação política dos escravos da região, já que muitos dos líderes das insurreições de escravos ocorridas nas fazendas do Vale eram moçambicanos)

A integridade e a coerencia intrínseca à cultura destes africanos, (como se viu já portada por eles quando chegaram por aqui, resultado do fato de pertencerem ao mesmo grupo étnico-linguístico conhecido como Bantu) foi decisiva na caracterização e na afirmação de seus traços culturais mais evidentes apresentados aqui no Brasil e ainda hoje, perfeitamente reconhecíveis (principalmente no Jongo praticado na região do Vale)

Só não vê quem não quer.

(Perdoem as delongas do véio, mas este papo me lembrou o trecho de uma canção angolana que eu mesmo cantava emocionado nos anos 70, bem adequada à ocasião):

“Naquela roça grande, não tem chuva
o suor do meu rosto que rega as plantações
Naquela roça grande tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue
feitas seiva.

O café vai ser torrado, pisado, torturado,
vai ficar negro, negro da cor do ‘contratado’*
Perguntem as aves que cantam
e ao regato de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:
Quem se levanta cedo?
Quem vai à tonga?
Quem traz pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de dendê?
Quem capina e em paga recebe desdém?
fubá podre, peixe podre,
panos ruins, cinquenta ‘angolares’
Porrada se refilares…

E as aves que cantam
e os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:
_ Monangambê!”*

(A canção – que se chama ‘Monangambê’ – é de Agostinho Neto e Rui Mingas, destacados líderes da revolução angolana na década de 70 – Agostinho foi o primeiro presidente)

Viajei? Divaguei? Ando assim ultimamente. Deve ser a idade.

Pronto: Finda a longa ressalva podemos seguir então com a nossa palinha historiográfica:

A festança e a gastança do Rei

A possível – e dramática – origem remota das festas de rua na Vila de Nsa Senhora da Conceição de Vassouras.

Uma coisa é certa: Não havia, de jeito nenhum, festas de rua verdadeiramente populares no Vale do ciclo do Café, local também conhecido como Vale do Paraíba do Sul onde vicejavam as maiores fortunas do mundo na época, ali pelos meados do século 19.

(Afinal, convenhamos, como haveria de haver festa popular se, a rigor, quase nem povo havia?)

Tanto é assim que a festa mais de arromba de que se tem notícia por ali foi uma mega-paparicação promovida – e bancada – pela aristocracia local, barões, baronesas e escassos viscondes e viscondessas, em honra de D. Pedro II, cujo ápice foi à recepção para o beija-mão na qual afoitos e quase histéricos bem-nascidos da cidade fizeram fila para beijar as alvas luvas do jovem imperador.

Historiando esta visita de D.Pedro II à cidade de Vassouras, em 18 de Março de 1848, Ignácio Raposo (em ‘História de Vassouras’ 1978) cita uma ata da Câmara Municipal da cidade, datada de 20 de Março daquele ano, que dizia:

…”Sua majestade fez sua entrada às 8 horas da manhã em Vassouras encontrando no portão da casa preparada para hospedá-lo grande concurso de cidadãos decentemente vestidos e a guarda nacional no número de 230 e tantos de uma e outra arma, donde igualmente de novo deram vivas ao som do repinicado dos sinos e das salvas das duas fortalezas que para este fim se haviam construído.”

…”Várias comissões enviadas pelas diferentes agremiações da Vila se encontravam ali compostas dos mais altos figurões da época, ricamente trajados, em atitude nobre e respeitosa”.

“Mil girândolas de foguetes estrondavam no ar, mil bandeiras nacionais, estrangeiras e fantásticas tremiam sobre os mastros, quando Sua Majestade, radiante de alegria, saltou do seu ginete para firmar-se pela primeira vez no solo Vassourense solo tão verde e tão brilhante que até relembra a mais gentil das cores que reluzem no pavilhão brasileiro.”

Muita espetaculosidade sim, como se vê, exibições equestres (com o Imperador fazendo feio por ser mal cavaleiro), música de câmara e perfume francês, no entanto tudo muito exagerado, afetado pelo gosto pretensamente europeu, nos modos de ser e conviver daquela gente meio chucra, de um aventureirismo meio lusitano ainda, nobres-novos naquele ‘nem-te-ligo’ dos poderosos da vez embriagados de pompa e de si mesmos.

Novos-ricos puxando o saco de quem está no poder, aristocratas em suma como os de qualquer época, nem de longe desconfiando que as novas circunstancias logo seriam a irrecorrível abolição da escravatura, que iria fazer com que todos eles dessem de vez com os burros d’água.

Festas de pura dicotomia, portanto: Escravos oriundos de uma África notadamente festeira, enclausurados em senzalas fétidas enquanto nobres pálidos, no dia a dia circunspectos e carrancudos, festejavam baboseiras bajulatórias, com foguetórios e ambrosias, fausto e desperdício. Contradições expostas como naturezas mortas.

…” Muito depois do almoço oferecido a Sua Majestade, já cerca de 2 horas da tarde, vieram todos os vereadores incorporados e seguidos de imenso número de cidadãos buscar o Imperador em sua residência para assumir a uma solenidade que se realizava na sede da paróquia.

Formado o préstito, como em procissão do Santíssimo colocou-se o Imperador debaixo de reluzente pálio conduzido pelas mais altas autoridades de Vassouras, e assim partiu para a Matriz onde foi celebrado, conforme o ritual romano, esplêndido Te-déum por entre boa música e grossas nuvens de incenso. Subindo ao púlpito alguns momentos antes, o padre Dr. João Joaquim Ferreira de Aguiar, Pregador Imperial, produziu com todo o vigor de sua eloquencia, um desses vôos de oratória que assombram a multidão.”

(O mesmo Ignácio Raposo em ‘História de Vassouras’ 1978)

Mas como o tema, o assunto desta série de posts é farra e festa, alguns inconvenientes dirão, entre risinhos sarcásticos que os escravos – obviamente ausentes à recepção ao Imperador – não estavam lá tão apartados ou contidos assim.

Certo. Muita notícia se tinha de autorizadas rodas de Jongo ou Caxambu nos terreiros das fazendas da região. A negraiada de branco, rodopiando com cara de feliz da vida.

Impertinente que sou, contudo replicaria meio irritado até:

Conversa fiada! Mesmo através da rala bibliografia existente sobre o tema, dá para se perceber claramente, que as rodas de Jongo de que tratam estas notícias, isto sim, era um hábito insidioso dos senhores de escravos, sórdido mesmo, consistindo que era em induzir, intimar os negros a se exibir saltitantes, dançando um Jongo compulsório para alegrar as visitas.

(Você já viu elefantes, tigres e macacos se exibindo num picadeiro de circo para uma platéia de risonhos seres humanos?

Pois era, sem nenhum exagero, mais ou menos isto o que acontecia nos terreiros das fazendas de café no século 19. A diferença nada sutil era que quem se exibia era tão gente quanto quem assistia -embora uns fossem bem mais humanos que os outros, se é que vocês me entendem.)

– “Veja como são felizes estes meus negros! Veja como eu os trato bem!”– Gritava o fazendeiro, cuspindo a gosma do charuto no terreiro.

(Desculpem se deixo escapar a pontinha de asco. É que a vocação da humanidade para a iniquidade é mesmo uma coisa impressionante.)

Vamos ficar acertados então que os escravos do Vale do Paraíba do Sul, de certo modo, até se compraziam da obrigação de dançar sim, claro, gente normal costuma agir assim. Você mesmo já viu isto no cinema e sabe que qualquer um de nós dançaria, de bom grado mesmo e até cantaria emocionadas cantigas numa pequena roda de alívios, se vivesse naquela rotina estressante de campo de concentração tropical.

Existem, pois, repito – para o bem e para o mal – espetáculos e ‘espetáculos‘. A cultura do Vale do Paraíba do Sul, para todos os efeitos deve ser vista então pelo menos sob dois ângulos bem distintos, a saber:

Um é o Jongo espetáculo compulsório, restrito à compungida assistência das brancas visitas do fazendeiro.

O outro talvez tenha sido o Jongo anti-espetáculo, das brasas comidas e das fantásticas bananeiras, das catárticas rodas íntimas, mágico-propicitórias, feiticeiras, pragas metafóricas cantadas por velhos escravos contritos nos recônditos e clandestinos cafundós do Judas.

_Jinongonongo!

Na hora de espetacularizar é preciso, pois, se decidir de que Jongo estamos falando.

Inútil buscar hibridismos fugidios, mediações e ponderações para a barra pesada que foi a escravidão sofrida pelos negros do Vale do Paraíba do Sul. Foi assim, deu no que deu e é preciso ter muito cuidado para que a emenda que virá não seja pior que soneto que se foi.

(Por favor, de novo perdoem a franqueza, mas é que acho incomprensível a recorrente tentativa que alguns setores intelectuais fazem em teses e dissertações historiográficas ou antropológicas, de desqualificar opiniões como estas que aqui expresso, confinando-as em escaninhos estreitos, associando generalizadamente – e de forma quase irresponsável – os conceitos ‘tradição’ ou tradicionalidade a ‘conservadorismo’, a ‘atraso’ e a’anacronismo’.

É entediante perceber como estas teses insistem, de forma renitente, em subestimar qualquer discurso que evoque a existencia de alguma relação de causa e efeito, a ser conhecida e respeitada na dinâmica evolutiva da cultura de um grupo social ou de uma comunidade, no decorrer do tempo e do espaço.

Uma lógica – e, em consequencia,uma ética-, uma moral qualquer que ligue e dê sentido de vida transcorrida a uma manifestação cultural, por exemplo: Passado=presente=futuro, um ethos histórico enfim).

O mais curioso é que este comportamento, esta relação descuidada, desleixada mesmo, para com um conceito tão evidentemente ligado ao que se convencionou chamar de Cultura Popular ocorre muito mais em elementos da cultura brasileira relacionados à herança cultural africana do que nos da herança indígena, por exemplo, na qual ‘tradição’ tem sido sempre um elemento tratado com total rigor, quase reverencia, por estudiosos de todas as áreas e tendencias.

(E aqui me cabe enfatizar que mesmo que o conceito ‘herança cultural’ também já não esteja mais…na moda eu bato pé firme no argumento)

É possível identificar em que teorias estas teses, mesmo rasamente, se baseiam. Difícil de identificar são as suas reais finalidades, sua ideologia. Se alguém souber – e puder – que me esclareça o mistério.

————–

De resto, ficamos sabendo que contradição é dicotomia. Festa pode ser Farsa. No passado teve o foguetório da festa sim (e toda farsa, bem o sabemos, tem um que de festim), mas teve também – e ainda está latente – o tempo do foguetório das carabinas, da morte nas forcas da insurreição.

Verdade seja dita então – e ainda bem que o texto do Cortejo 2009, enfim coloca estas coisas no lugar-: Estas coisas não se apagam assim, da noite para o dia.

A cultura popular, a ‘cultura local’ do Vale do Paraíba do Sul pelas insidiosas razões que aqui, só de leve esboçamos, acabou sendo pelo dito e pelo não dito, quase que exclusivamente a cultura do negro africano (angolano como vimos, para sermos mais exatos).

Como se tratava de uma população majoritariamente escrava, num regime de trabalho rígido e controlado, circunscrito a vigiadas fazendas mais ou menos isoladas entre si, esta cultura não se configurou jamais em grandes festas de rua (como as havidas nas cidades do Serro e Diamantina em Minas Gerais, por exemplo, onde documentos dão conta da existência de momentosas festas de rua promovidas por irmandades católicas integradas por negros livres ou escravos desde o século 18.)

Triste ter que dizer isto, mas as manifestações ‘populares‘ de rua mais concorridas em Vassouras e adjacências, os grandes espetáculos que tiveram negros como protagonistas, foram os enforcamentos de escravos condenados pelo crime de aquilombamento e insurreição.

O melhor é assumir logo que a escravidão precisa acabar – de verdade – um dia para se poder, enfim programar a tal festa de arromba real.

(Pensando bem, talvez tenha sido por isto que as críticas mais agudas dirigidas ao formato do ‘Cortejo das Tradições’ de Vassouras, com ironia insuspeitada questionavam o velho ‘Cortejo’ pegando pelo aspecto semântico do nome):

Lembram-se da pergunta?

_Afinal, quem devia cortejar quem?

Tratando-se de uma festa de muitas mumunhas, prato cheio de ‘saias justas’ sociais, contradições latentes e panos quentes antigos, históricos, o convite enfático do jovem leitor vassourense citado no post#01 desta série, como se pode ver, não era uma deferência assim tão cômoda, simples de aceitar, fácil de se lidar.

(Só posso adiantar por enquanto que a nova festa teve para todos os participantes, – salvo engano – um final bastante supimpa e assaz feliz)

—————

No mais, contada assim de relance os antecedentes mais remotos desta história, quem viver verá no próximo e último episódio desta aventura como e no que isto tudo deu e do que se tratou.

Spírito Santo
Setembro 2009

* (Nota) – “Contratado‘ é a expressão oficialmente usada pelo Apartheid da Angola colonial (Lei do Indigenato) durante as fases mais cruéis do colonialismo português. Pela lei, inspirada nas teses do nosso Gilberto Freire (que, a serviço do governo Salazar, foi seu principal ideólogo) era uma espécie de sistema de trabalho escravo re-significado, no qual um indivíduo poderia ser levado para qualquer parte do país, em frentes de trabalho forçado, evidentemente sem remuneração alguma.
Monangambê’ (em kimbundo o mesmo que carregador de bagagens ou moço de recados), por extensão o mesmo que indivíduo que ocupa o menor status da sociedade, passível de ser capturado, a qualquer momento, para o trabalho no ‘Contrato’

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~ por Spirito Santo em 12/09/2009.

2 Respostas to “Vale Negro: Festa, Folia e Festim #02”

  1. Renata,
    Meu e.mail é spiritomusik@gmail.com. Brigado!

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  2. Oi!
    Tentei deixar te um comentario sobre vissungo, mas nnao pude, pois não tenho login!
    Gostaria demais que voce me mandasse email assim que souber onde estara disponivelpara compra um CD do vissungo!
    Muito obrigada!
    (seu trabalho e belissimo)

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