Droga livre: O óbvio ulula mas não morde


Creative Commons License

Acerca da liberação das drogas na  ‘Ululândia’ do  Arnaldo Bloch

Foto de Spírito Santo

 

Eu sei. Deve ser duro ser formador de opinião. Uma dose de discernimento absurda, um dom de pesar opiniões na balança, ponderar, pensar dez vezes antes de publicar. Pior ainda é quando este é o seu meio de vida: alguém te paga para dizer publicamente o que você bem entender e a sua consciencia decidir – tudo isto em termos, é claro.

Jogo de cintura, equilibrismo e adrenalina. Um deslize, um mal entendido mais cabeludo e a ocupação pode estar em risco. Não fica bem também parecer um ‘pai-joão‘, puxa-saco’ do editor chefe, um ‘maria-vai-com-as-outras‘  daqueles de ‘imprensa marron’.  O leitor te abandona na pista e você, jornalista, colunista, cronista, cai no ostracismo mais desempregador.

É preciso saber muito bem qual é a tendência do leitor e a do jornal para daí, virar um salomão bem falante  e  ético sim, porém não muito impertinente.

Deve ser chatão também receber pilhas de emails, ter que decidir, antes de abrir, o que é relevante ou curioso a ponto de merecer, ao menos,  ser lido de relance. E depois disto ainda decidir o que vai e o que não vai para o lixo sem resposta (na verdade a maioria dos emails vai para a lixeira mesmo, claro). Afinal de contas, formador de opinião tem mais o que fazer (ainda mais os que são polemistas inveterados.)

É por tudo isto que eu, adepto recente da TAZmania, rebeldia ‘sem calça’ que pratico há tempos sem saber, achando um saco esta falta de diálogo que temos nós, os vis mortais leitores – mesmo nestes tempos tão ágeis da internet – com nossos formadores de opinião profissionais, decido reproduzir aqui um suposto papo virtual com o boa praça cronista Arnaldo Block, de O globo (sem nem combinar com ele, claro, senão não seria nada  TAZ.)

————–

“Reflexões algo óbvias sobre drogas e UPPs em resposta a leitor ilustre

Ululândia
Por Arnaldo Bloch

Crônica publicada este sábado (27/02/2010) no Segundo Caderno (O Globo)

O e-mail, de um leitor jornalista muito especial e querido e ilustre — que, em respos


ta a uma solicitação do cronista, pediu para não ser identificado por ser figura pública, fazia referência a um parágrafo de minha última coluna, com aquela mistura de cortesia e ironia que tantas vezes caracteriza as trocas epistolares:

“Meu caríssimo Arnaldo: como ninguém falou até agora em revolução das UPPs, suponho que a expressão ‘pseudorevolução das UPPs’ é um dos primeiros sinais da campanha
pró-Gabeira. Acertei? Um abraço.”

Respondi de bate-pronto ao mérito, sem muito me aprofundar, da seguinte forma, que reproduzo sem reparos:

“Gabeira? Nem passou pela minha cabeça e, de resto, não faço campanha com meu trabalho, que, se você conhece de fato, já deve ter percebido que ataca aqui e acolá, sem distinção. Refiro-me a um certa estado de espírito reinante que me parece precipitado e perigoso, visto que as UPPs são frequentemente vistas como solução definitiva, enquanto o tráfico, com sua mobilidade, muda-se para alhures, ali onde há menos visibilidade, e segue sua campanha mortal.

Obviamente, a única revolução possível é a liberação das drogas, e consequente controle, como ocorre com cigarro e álcool o Gabeira, aliás, já recuou desta posição por motivos eleitorais, visto que qualquer pensamento pró-liberação é um tabu entre políticos e empresários — por que será???? —, apesar da obviedade de sua virtual eficiência). O resto é como o Bolsa-Família: paliativos com cara de cura.

Um abraço do Arnaldo.”

Depois, refletindo sobre o episódio, concluí que o assunto merecia maiores esclarecimentos, ou, em outras palavras, dava pano pra mais uma crônica.

Começo citando o José Padilha, que certa vez me chamou de imbecil só porque perguntara, candidamente, se “Tropa de elite” era fascista. Imbecil ou não, minha perguntinha
provocou enorme auê, e o mundo inteiro, de baixos imbecis a intelectuais de alta cepa, palpitou, mostrando que, de uma maneira qualquer, eu mexera nalgum vespeiro.

Recentemente, quando este Segundo Caderno listou dois filmes de Padilha (“Tropa” e “Ônibus 174”) entre as melhores fitas brasileiras da década, o cineasta comentou a láurea com o repórter André Miranda, dizendo, mais uma vez, que “Tropa” revelou uma “verdade incontestável”: que o usuário de drogas canaliza recursos financeiros para o tráfico.

Pensei logo em Nelson Rodrigues e em sua genial figura de linguagem do “óbvio ululante”. O que há de revelação aí? Quem é que não sabia, antes de “Tropa”, que o dinheiro do tráfico vem de quem usa drogas? De onde mais viria? Assim como os chocólatras financiam as fábricas de chocolate, os usuários abusivos de Lexotan financiam a indústria química e os viciados em cocô de rato financiam os fabricantes daqueles sacos cor de rosa.

Acontece o seguinte: os tabagistas, que financiam a indústria de cigarros, são hoje mais perseguidos que estupradores. São os grandes párias. E o consumo diminui. E o controle aumenta, pois o uso, embora limitado, é permitido, e, fora da  marginalidade, gera impostos, direta ou indiretamente reinvestidos em prevenção e saúde pública, num ciclo vir
tuoso.

Não sei se o Padilha bebe, mas proíba se a cerveja para ver se ele vai ficar sem o seu chopinho, ou, caso seja abstêmio, se sairá rotulando de bandido quem comprar o chope que será vendido clandestinamente em fábricas de fundo de quintal, o que, naturalmente, desaguará num novo gangsterismo.

A questão é: o ser humano consome tudo o que se come, bebe e aspira. Cava a terra para descobrir aromas, sabores, eflúvios, combustões, efeitos. Assim foi, assim será. Não à toa, a ONU, como todos os governos democráticos (inclusive o brasileiro), numa direção oposta ao que insistem em defender essas tropinhas atrasadas, começam a mudar o foco da penalização do usuário para soluções inteligentes, da redução de danos a propostas de flexibilização.

O usuário pode até financiar o tráfico (essa obviedade ululante que Padilha alça a verdade inédita), mas o grande e maléfico financiador do tráfico — e isso sim é uma revelação incômoda — é a proibição.

Pois, passado todo esse preâmbulo em que usei e abusei de citar o Padilha (já estava com saudades), volto à questão inicial: as UPPs.

Nada contra. Seria um (óbvio) absurdo. Mas estou suficientemente atento para saber que o tráfico se movimenta com rapidez. Se alguns morros da Zona Sul foram provisoria-
mente “libertados”, a fúria vai explodir em outro lugar, morro, município, cidade, provavelmente onde a miséria impera e a visibilidade política não. Pessoas morrerão. E pessoas são pessoas em qualquer morro, bairro, estado.

Enquanto a bandidagem tiver o ouro na mão, não importa quantas guerras se façam ou quantos morros se libertem: ela terá os meios, o domínio, o controle, e o poder, inclu-
sive de brecar, no pensamento da sociedade civil, o debate sobre a única alternativa viável: regulamentação da produção, da venda e do consumo, com arrecadação de impostos, rigoroso controle, capacidade de análise estatística, amplas campanhas e investimento em saúde pública.

Neste dia, o peso da droga sobre a sociedade será  consideravelmente menor, e a bandidagem comprometida com ela voltará às suas atividades corriqueiras, que cumpre ao Estado combater.

————-

Ao que eu retruquei mandando este email para o bom Arnaldo o qual não tenho meios de saber se ele chegou a ler (o que seria, logicamente uma honra):

“Arnaldo,

Leitor assíduo das suas excelentes crônicas – inclusive esta de hoje, sob o sugestivo título de ‘Ululândia’ – me animei em te escrever porque fiquei instigado com várias questões que a matéria sugere.

A primeira coisa que ela me evocou foi o fato de ter encontrado ontem na passarela da estação da Mangueira (sou professor-artista visitante da Uerj) o Roberto, um bom rapaz que há sete anos, ainda adolescente, frequentou um destes cursos de ‘inclusão social de jovens’ que rolam por aí (coordenei um na ocasião).

O Roberto cruzou comigo imundo, descalço, com olhos inchados o cabelo infestado de todo tipo de sujeira, com um enorme saco preto cheio de latinhas de cerveja vazias.

_E aí, Roberto? Qualé, rapaz? Disse eu com ar de ‘tio’ preocupado.

Roberto me disse o que já estava visível (o óbvio ululante, certo?) virou mesmo aquele jovem mendigo, lascado, morando na rua. O saco de latas era para vender, comer um sanduba e comprar crack, desmaiar numa calçada qualquer (ele me disse que ‘cai’ por ali mesmo, nas imediações da quadra da Mangueira onde o crack está á mão). Depois de acordar na ‘fissura’, cata mais latinhas, compra outro sanduba, outra pedra de crack e vai em frente.  Tocado com a situação disse eu a ele:

_Mas, rapaz. Assim você está indo é para o buraco! – E ele concordou. Conformado

A moral da história é a seguinte: Eu fecho totalmente com o Padilha.

Claro que é obvio que o usuário de drogas é quem financia o tráfico, mas esta é uma verdade que, apesar de… óbvia, ninguém quer enfrentar ou assumir em suas complexas dimensões, encarar de frente. Acho que foi isto que o Padilha quis dizer com o seu filme. Enfatizar, tocar na ferida exposta que ninguém quer mesmo curar.

Neste seu, aparentemente  pragmático conjunto de sugestões, Arnaldo, você indica, por exemplo, ‘amplas campanhas de saúde pública’, certo? mas você já tentou calcular o custo financeiro disto? Já me disseram pessoas do Nepad (aquele núcleo de estudos sobre drogas da Uerj) assim por alto, que o custo de um tratamento destes de verdade, por usuário é de cerca de R$ 8.000…por mês! E lá, em geral eles só tem 40 vagas.

Por esta simples razão, o serviço está sempre restrito à dependentes (‘viciados’ no jargão policial) de classe média, exatamente o grande agente financiador do tráfico ao qual o Padilha se referia, atraindo para si a peja de ‘fascista’ (que cá entre nós é pura chantagem emocional), Claro que o filme não é fascista. É só um filme enfático… e nem é do Tarantino.

Acho que a sua interessante opinião – em linhas gerais, eu sei – de que a regulamentação do consumo de drogas resolveria o problema pois tiraria o ‘ouro’ e o poder das mão dos traficantes talvez seja um pouco ingênua e, com toda razão irritaria o Padilha – assim como me incomodou – sabe porque? É que eu me lembrei no ato do Roberto, meu ex-aluno crackeado.

E o que vamos fazer com os milhares de Robertos caídos pelas sargetas? Quem pagará esta conta? Acho a resposta bem óbvia também sabia? Ninguém vai pagar esta conta.

Eles, os ‘robertos’, não vão caber no sistema de saúde pública e vão mesmo morrer como passarinhos (e  como vimos, até mesmo o Roberto real, doidão, já sabe disto).

Quanto às UPPs, a coisa é óbvia também (e você mesmo já esclareceu): Elas é que são a Saúde Pública, a solução sanitária (o ‘Bota Abaixo’ do Pereira Passos de 1903 reciclado para 2010)

Vão expulsar o problema para a periferia, claro! Vão criar imensas cidadelas do crime longe das zonas Sul e Norte. Óbvio! E a droga vai continuar a ser consumida pelo mesmo pessoal que o Padilha apontou. E o estado que vá cuidar de as combater os traficantes, certo?… Ás nossas custas, claro.

Ululemos pois. É o que nos resta. E haja Minustash haitiano no nosso futuro.

Abs”

————

Liberar geral!

(Daí o amigo de Facebook Dil Fonseca me mandou o interessante link sobre a liberação da maconha, que inseri na matéria. Em resposta a ele, escrevi lá no facebook mais isto então, que reproduzo abaixo, empolgadão com o papo)

“Bacana o filme (vou linká-lo na matéria). É a tese recorrente, em voga por aí. Está no corpo da opinião defendida pelo Arnaldo Bloch.

Em tese, eu também tenho certeza, não só de que as drogas devem existir entre nós como deviam ser consumidas á vontade, por uma razão muito simples: Somos assim, ‘drogatícios’, desde que existimos.

Nós, os seres humanos somos bichos movidos a prazer, o nosso combustível (nossa bioquímica) evidente são as diversas drogas que consumimos, assim ou assado- as quais, a maioria das vezes, nós mesmos produzimos em nossas ávidas cabeças…só com o pensamento – Claro! Óbvio!

Mas o buraco me parece que é bem mais embaixo. Existem drogas e ‘drogas’. Não é uma questão que se possa abordar assim à mão livre, sem um escafrandro de esquadrão anti-bombas.

Pra começar, todo mundo sabe que o álcool, que é uma droga liberadíssima, está na berlinda agora mesmo sob o foco de pesadas – e caras – campanhas pelo controle de seu consumo, exatamente motivadas pelo impacto econômico formidável que este consumo imprime na sociedade, as doenças crônicas, as mortes no trânsito provocadas por bebuns de estrada, e tantas mazelas outras.

Sobre o tabaco o mesmo pode ser dito. O Brasil hoje é inclusive, liderança mundial no combate ao fumo em locais públicos.

Há que existir contudo uma holística, uma maneira estratégica de se abordar o tema, para que se possa entender direitinho a distancia enorme que existe entre o prazer hedonista ‘nesta’ sociedade (o direito ao prazer apenas para alguns) estimulado hoje pelos defensores da liberação das drogas, e o prazer geral e irrestrito da vida numa sociedade realmente justa (droga livre e barata sim, mas…para todos).

A campanha que, com toda certeza deveria ser a mãe de todas as campanhas pelo prazer humano deveria começar pela igualdade para nós todos numa sociedade mais justa e fraterna e esta campanha-chave parece que não está mais na moda.

Droga livre no Brasil seria a adoção de uma prática social óbvia, recorrente (de certo modo a droga já é livre por aqui…mas apenas para alguns.)

Liberar geral, por exemplo, só iria acentuar os privilégios daqueles que já usufruem de todas as vantagens disponíveis (e que ganhariam mais uma: o acesso à políticas de saúde pública ligadas ao problema)

Onde estaria a modernidade – ou mesmo a pertinencia – desta campanha numa sociedade estúpida e absurdamente desigual como a brasileira?

É esta a parte que está sendo omitida, escamoteada no debate.

Não é a droga que mata, eu sei. É o Hedonismo exacerbado de nossa sociedade que ora exclui ora assassina parte da maioria!

Spírito Santo
Fevereiro 2010

Anúncios

~ por Spirito Santo em 28/02/2010.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: