Depois do pré-Sal… a hipertensão arterial



A propaganda enganosa é a arma do negócio e a vítima pode ser você.

O artigo abaixo está rodando por aí na rede. Olhando mesmo de rabo de olho a presente campanha eleitoral, neste ‘arranca-rabo’ tão pobre e rasteiro em que transformaram o debate político partidário, tendo de um lado uma histérica turba de fanáticos ‘Lulistas’, quase vendendo a mãe para manter, a qualquer custo – e sabe-se lá por que – Luiz Ignácio no poder e do outro um bando de baratas tontas, abestalhadas com a dimensão getulio-populista do prestígio eleitoral do homem (ai! quão melancólica é esta esquerda dos anos 70), nada mais salutar do que a gente ir tentando colocar alguns pingos nos ‘ís’.

O Ricardo Bergamini, professor de economia autor do artigo abaixo é uma destas boas almas que tentam nos alertar dizendo: ‘Menos, gente. Menos!”

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A Utopia do Petróleo
Ricardo Bergamini (professor de economia)

A histeria do pré-sal é uma grande jogada publicitária para prorrogar, por mais 50 anos, a ilusão do “Brasil: País do Futuro”.

A camada pré-sal refere-se a um conjunto de reservatórios mais antigos que a camada de sal, principalmente halita e anidrita. Esses reservatórios podem ser encontrados do Nordeste ao Sul do Brasil (onshore e offshore) e de uma forma similar no Golfo do México e na costa Oeste africana. A área que tem recebido destaque é o trecho que se estende do Norte da Bacia de Campos ao Sul da Bacia de Santos desde o Alto Vitória até o Alto de Florianópolis respectivamente.

A espessura da camada de sal na porção centro-sul da Bacia de Santos chega a 2.000 metros, enquanto na porção norte da bacia de Campo está em torno de 200 metros. Este sal foi depositado durante o processo de abertura do oceano Atlântico, após a quebra do Gondwana (Antigo Supercontinente formado pelas Américas e África, que foi seguido do afastamento da América do Sul e da África, iniciado a cerca de 120 milhões de anos). As camadas mais recentes de sal foram depositadas durante a última fase de mar raso e de clima semi-árido/árido.

Ser produtor e exportador de petróleo e membro da OPEP (13 membros, faltou informação sobre o Iraque) não é garantia de desenvolvimento econômico de uma nação, como prova o quadro demonstrativo abaixo.

Todos os países desenvolvidos são, inexoravelmente, produtores e exportadores de saber e conhecimento, não de matérias prima. Os países detentores da tecnologia para exploração do pré-sal é que ficarão mais ricos, não o Brasil . Os membros da OPEP com exceção do Brasil – estão destacados.

Lista de países por PIB nominal per capita – Fonte FMI

Esta é uma lista de países organizados por ordem do valor do Produto Interno Bruto (PIB) nominal per capita, que é o valor final de bens e serviços produzidos num país num dado ano, dividido pela população desse mesmo ano. O PIB em dólares é baseado nas taxas de câmbio correntes do mercado de moeda.

(2006 PIB – nominal – per capita em dólares americanos)

1 – Luxemburgo -104,704
2 – Noruega – 84,595
3 – Suíça – 54,879
4 – Islândia – 52,063
5 – Irlanda – 50,303
6 – Dinamarca – 49,182
7 – Suécia – 42,392
8 – Estados Unidos – 41,917
9 Qatar – 39,607
25 – Kuwait – 22,424
26 – Emirados Árabes – 22,009
41 – Arábia Saudita – 11,085
50 – Brasil – 8,070
58 – Líbia – 5,701
66 – Venezuela – 4,627
85 – Argélia – 2,971
86 – Irã – 2,810
101 – Equador – 2,255
109 – Angola – 1,550
116- Indonésia – 1,267
139 – Nigéria – 626

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Simples assim.

O’Globo torto de Ali Kamel e Cia.


O’ Globo: Big Brother (o do George Orwell) Brasil

Para quem não sabe, o jornal O’ Globo, sob a chefia do Jornalista Ali kamel (todo poderoso do jornalismo da empresa, inclusive da rede de televisão) faz intensa e sistemática campanha contra as políticas de ação afirmativa no Brasil, principalmente contra as chamadas ‘cotas raciais‘.

Nesta campanha firmemente orquestrada participam, escrevendo sob sistema de rodízio, alguns assíduos militantes desta anti-causa: Demétrio Magnoli, Rodrigo Costantino, além de, esporadicamente citados ou de corpo presente os acadêmicos Ivone Maggie e Peter Fry, entre outros (além de Kamel é claro que, inclusive, utiliza à própria revelia o espaço do editorial do jornal – além de outros espaços, sempre a seu bel prazer – para disseminar a sua intolerância racial – ou melhor dizendo para sermos francos – Seu racismo).

A matéria que reproduzo abaixo, torna mais grave ainda esta constatação.

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A matéria é de Mariana MartinsObservatório do Direito à Comunicação /16.03.2010

A negativa do jornal O Globo, no início do mês, em publicar uma peça publicitária da Campanha Afirme-se em defesa das ações afirmativas relacionadas à questão racial recoloca de forma explícita um importante debate acerca do direito à comunicação. O episódio estabelece uma situação de fato em que liberdade de expressão é confundida com liberdade comercial das empresas privadas de comunicação. A publicação, mais antigo veículo do maior grupo de comunicação do país, alega possuir uma política comercial específica para o que chama “peças de opinião” e, por esta razão, teria mais que decuplicado o valor a ser cobrado pela veiculação do anúncio ao tomar conhecimento de que se tratava de uma campanha pró cotas.

O pesquisador sênior da Universidade de Brasília Venício A. de Lima diz que este é um caso que merece ser observado a partir das diferenças entre liberdade de imprensa e liberdade de expressão. A primeira, na opinião do professor, está relacionada à proteção dos interesses daqueles responsáveis pelos veículos de comunicação e não deve ser confundida com a segunda, que é um direito humano e, no Brasil, constitucionalmente positivado. Lima pondera que a liberdade de expressão, no atual contexto das práticas de comunicação, depende da inserção de opiniões diversas nos grandes veículos de massa. Estes, portanto, precisariam refletir não só a opinião dos seus donos.

No caso da não publicação do anúncio da Afirme-se, o que está colocado é, justamente, a utilização de uma política comercial, justificada supostamente pelo princípio da liberdade de imprensa, para restringir o direito da campanha publicizar sua opinião a favor das ações afirmativas e o direito dos cidadãos de receberem informação sobre o tema desde uma perspectiva diversa da dos veículos das Organizações Globo. Segundo Lima, na página de O Globo na internet, o jornal apresenta a tabela de preços comerciais e nela está escrito que a empresa cobra de 30% a 70% a mais em anúncios de conteúdo opinativo. Contudo, no caso em questão, o valor variou em aproximadamente 1300%.

Curiosamente, a tentativa da Campanha Afirme-se publicar o anúncio está intimamente relacionada ao fato de os grupos a favor das ações afirmativas perceberem que não conseguiam espaço editorial, ou seja, na cobertura jornalística regular para apresentar seu ponto de vista. Assim, por ocasião da audiência pública no Supremo Tribunal Federal (STF) que discutiria entre os dias 3, 4 e 5 de março duas ações de inconstitucionalidade  movidas contra a criação de cotas nas universidades públicas para descendentes de negros e indígenas, a campanha resolveu fazer intervenções publicitárias em jornais de grande circulação nacional em defesa da constitucionalidade das leis que estão em vigor.

A intervenção publicitária produzida pela agência Propeg, que também é parceira da campanha, contava basicamente com três produtos: um manifesto ilustrado que seria publicado em jornais considerados formadores de opinião pelos organizadores da Afirme-se, um spot de rádio e um uma vinheta, que estão disponíveis no blog da campanha. De acordo com Fernando Conceição, um dos coordenadores da Afirme-se, as doações das entidades que fazem parte da campanha e a captação de recursos com outras organizações foram suficientes para pagar a publicação do manifesto em quatro jornais de grande circulação – O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, A Tarde (BA) e O Globo (RJ). “Nós resolvemos comprar especificamente nesses veículos porque eles já vêm fazendo campanhas sistemáticas contra as cotas há tempos. Como nós temos outra visão e não encontramos lugar livremente para expor um outro ponto de vista, resolvemos comprar o espaço”, explica Conceição.

Como é de praxe nas campanhas publicitárias, a agência responsável passou a negociar o preço do anúncio de uma página inteira a ser publicado no dia 3 de março com os veículos selecionados. Por se tratarem de anúncios ligados a Organizações Não Governamentais, os preços acordados ficaram em torno de R$ 50 mil. O valor exato negociado com O Globo foi orçado em R$ 54.163,20.

Valor impraticável

Fechados os valores, a agência enviou a arte ao jornais. Dois dias antes da campanha ser publicada, a coordenação da campanha Afirme-se foi comunicada pela agência Propeg que o anúncio havia sido submetido à direção editorial de O Globo e que os responsáveis julgaram que a peça era “expressão de opinião”. O jornal dizia que, sendo assim, o valor deixava de ser negociado anteriormente e passava para R$ 712.608,00. “Um valor irreal, impraticável até para anuncio de multinacional”, queixa-se o coordenador da campanha.

Procurado pela equipe do Observatório do Direito à Comunicação, o jornal O Globo não respondeu aos pedidos de entrevista. No entanto, o diretor comercial da publicação, Mario Rigon, concedeu entrevista ao portal Comunique-se ao qual disse que  considerou a peça da campanha como “expressão de opinião” e diante disso, “seguiu a política da empresa, que determina um valor superior para esse tipo de anúncio”. “De fato vimos que se tratava de uma expressão de opinião, mas não nos cabe julgar o mérito da causa. É a nossa política comercial, tratamos assim qualquer anunciante que queira expressar sua opinião”, disse Rigon ao portal.

Este Observatório também buscou consultar o Conselho de Auto-regulamentação Publicitária (Conar). Por intermédio da assessoria de imprensa, o conselho adiantou que não tem posição sobre o caso, visto que foge do escopo da entidade se posicionar sobre a política comercial dos veículos.  “Nós não nos posicionamos sobre regulação de mídia exterior, atuamos exclusivamente sobre o conteúdo das mensagens publicitárias”, disse Eduardo Correia, assessor de Imprensa do Conar. O assessor falou ainda que a entidade precisa ser provocada por processos para se posicionar sobre o conteúdo de uma peça e que nas questões de política comercial das empresas eles não  devem opinar.

Ainda analisando o caso, o pesquisador Venício Lima lembra que, diante da falta de regulamentação da mídia no Brasil, as empresas privadas, na maioria das vezes, podem agir como bem entendem e praticar os preços que lhes convêm. Lima acredita ainda que seja provável que O Globo esteja, a partir da lógica comercial, protegido legalmente para fazer esse tipo de cobrança, o que é apenas “um lado da moeda”.

É fato que a liberdade comercial baseia-se na lógica de que as normas podem ser estabelecidas pelas próprias empresas e que, portanto, podem causar distorções quando estas se cruzam com questões editoriais. No caso em questão, fica evidente a falta de transparência quanto aos critérios adotados por O Globo para considerar o anúncio como conteúdo opinativo e aplicar um valor diferenciado. Os outros três jornais que publicaram a peça publicitária não tiveram a mesma compreensão e a tabela aplicada foi a de anúncio publicitário comum.

A Afirme-se move uma ação contra O Globo no Ministério Público do Rio de Janeiro por conta do episódio. A campanha pede que, com base no que diz a Constituição Federal com relação à liberdade de expressão, o jornal seja obrigado a publicar o anúncio por um valor simbólico.

Fernando Conceição defende que a atitude de O Globo foi claramente de abuso de poder econômico e que se configura como dumping, prática condenada pelo próprio mercado. “Foi uma maneira que a direção de O Globo encontrou para cercear o direito constitucional que é a liberdade de expressão por meio do abuso do poder econômico”, denuncia Conceição.

Anticotas

Pesa ainda contra as Organizações Globo como um todo uma constante militância contra as ações afirmativas relativas à questão racial, dentre elas as políticas de cotas para negras e negros nas universidades públicas. Esta militância é liderada inclusive pelo atual diretor da Central Globo de Jornalismo, Ali Kamel. Kamel é autor do livro “Não somos racistas: uma reação aos que querem nos transformar numa nação bicolor”, que nega a existência do racismo e, portanto, da necessidade de políticas reparadoras.

Pesquisa do Observatório Brasileiro de Mídia, citada por Venicio Lima, revela que grandes revistas e jornais brasileiros apresentam posicionamento contrário aos principais pontos da agenda de interesse da população afrodescendente – ações afirmativas, cotas, Estatuto da Igualdade Racial e demarcação de terras quilombolas. A pesquisa analisou 972 matérias publicadas nos jornais Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo e O Globo, e 121 nas revistas semanais Veja, Época e Isto É – 1093 matérias, no total – ao longo de oito anos.

Lima chama a atenção para o fato de a cobertura de O Globo merecer um comentário à parte na pesquisa. Dentre os três jornais pesquisados, foi aquele que mais editoriais publicou sobre o tema, mantendo inalterados, ao longo dos anos, argumentos que se mostraram falaciosos, como o de que as cotas e ações afirmativas iriam promover racismo e de que os alunos cotistas iriam baixar o nível dos cursos.

Lembrando destes dados da pesquisa, Lima acredita que O Globo estabeleceu uma barreira comercial e que, do ponto de vista legal, eles podem estar cobertos pelos princípios da livre iniciativa. “Mas, esta conduta, tendo em vista o conteúdo que deixou de ser publicado, infringe o direito à informação. A questão que fica para o Ministério Público do Rio de Janeiro é legal. Cabe a eles encontrarem alguma forma jurídica de pensar o caso sob o ponto de vista do direito à informação. Para mim, essa postura deixa as Organizações Globo numa situação difícil para posteriormente falar de liberdade de expressão”, conclui o professor.

www.direito a comunicacao. org.br

Leia também: “Crioulize-se já. Somos todos negões

Bem-te-vi



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Foto de Fábio Pinheiro

Conto

Ciclotímico. Tímido e calmo de dia, de noite bicho solto, pôrra louca, pomba rolou. Às vezes o ciclo invertia e ele batia nas panelas, ainda bem cedinho, esbravejando contra tudo, despirocado, chutando o cachorro de estimação como se o pobre, o saco de suas mágoas fosse.

Bizarro. Nestas horas, um horror de gente. Verdadeiro urso no surto.Nas outras, como se diz: uma moça, um solícito e admirável amor de pessoa.

Hoje saiu cedinho, tranquilão. Na padaria olhou, detidamente, as tortas e os pães de trança, as broas de milho, os provencianos, tudo enfileirado, enfeitiçando os olhos. Olhou com cupidez as bombas de chocolate e comprou uma.

Na farmácia da esquina admirou as latas de talco para bebês, os frascos de água de colônia, de alfazema, inebriado com aqueles odores e iguarias, os chocolates e os perfumes se misturando na cabeça esvoaçante de sem juízo, suave que era, embora de vez em quando, já bem de uns cinco anos pra cá.

Só emburrava um pouco a cara quando passava no açougue. Não gostava muito de ver as mantas de carne seca, as peças de carne sangrenta estiradas no cepo, dependuradas nos ganchos, pingando.

Achava macabro aquilo tudo esquartejado ali, à mostra, como uma sala de horrores. O que de pior havia ali para se ver? Talvez fossem os aventais dos açougueiros, manchados de um sangue que ninguém podia afirmar que fosse mesmo só de vacas mortas. Sabe-se lá?

Mas ia, calmo seguindo, dizendo para todos os conhecidos – que eram muitos – o seu delicado bom-dia, assim mesmo, por entre os dentes.

Cruzou com as crianças da creche já no fim da rua e, de sisudo que estava, desmanchou-se num sorriso, como se ali, o sorriso travado há cinco anos, fosse um imperativo feliz.

Não tinha como impedir o riso de transbordar da boca e dos olhos. Sorriu por vários segundos e seguiu bobo consigo mesmo, de saber o quanto gostava de ver as criancinhas berrando para ele, em coro:

_ Bom dia seu moço!

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Foi meio por conta disto que o pessoal demorou um pouco a compreender o que se passava.

Ouviram o tiro. Tudo bem. Tiro é coisa corriqueira. O sujeito se abaixa e se esconde, aguarda o burburinho da rua voltar ao normal. Nem reza. Nem se benze mais. O estranho é que, mesmo depois de resolvida a cena, tudo continuou suspenso, na mesma, porque, ninguém acreditou.

Foram dois estampidos secos, de arma automática, muito familiar por ali. Atirados pelo chão, pelos desvãos dos postes e das esquinas, o pessoal da rua não sabia muito bem como classificar a cena com ele ali, tão calmo e pacato, principalmente naquele dia, com a arma brilhando na mão, olhando o outro caído, estrebuchando e ele sorrindo, sabe-se lá de que, com o sorriso agora, novamente, preso nos beiços por um bico de assobio, um firififiu mavioso, desses com que se imita passarinho.

Parecia um bem-te-vi fora de hora.

E o outro lá, se esvaindo. A espuma da morte ainda fervilhando no esgar da boca torta, mais de incredulidade do que de dor. Nem teria podido haver mesmo dor, após semelhante tiro, certeiro, no abdome.

Iria morrer logo, em menos de minuto, se muito. Nem de coitado o denominaram.

E ele, o algoz, a assobiar ali, avoadamente, não se sabe se de felicidade ou se por se achar mesmo um passarinho.

Pedrosegundo, o açougueiro foi quem saiu correndo do balcão, com as mãos ainda pingando aquele sangue ralo das carnes que destrinchava. Tirando, rápido, o revólver da mão do doidinho, berrou, solidário:

_Sai! Some daqui!

O farmacêutico também. Saiu correndo de seu lado, deixando as gôndolas de analgésicos a mercê de algum pequeno saque: Poucos seriam os anadores, os melhorais e as cibalenas, insuficientes seriam, certamente, para amenizar a bruta enxaqueca que o incidente provocara nas moças da rua.

O padeiro também. Incrédulo com o que viu pela vidraça da loja, largou uma fornada inteira de bolos de fubá no fogo. As postas de bolo, pretas, carvões redondos e roliços, iriam depois servir para confirmar o mau agouro escrito para aquele moribundo fardado, PM empertigado, conhecido como Bibelô.

_Bibelô é enfeite. Este aí é uma maldita de uma assombração. Cruz credo. Vai, exu! Morre, peste! Vade retro! – disse o padeiro baixinho, para si mesmo, exultante, escaldado com medo de tornar pública a opinião.

Foi o padeiro também quem pegou a arma da mão de Pedrosegundo e, limpou o cabo com o avental e jogou em cima do morto, que tinha o coldre vazio:

_ É tua, a arma, não é mesmo? Tá devolvida, praga de mãe. Agora morre logo, porra!

O doidinho saiu andando, calmo como uma preguiça, assobiando, manso feito o passarinho que, ao que tudo indica, se julgava mesmo ser.

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Não sei se por conta de ser doido, mas, o certo é que, enquanto ele andava, uma cena em flashback transcorreu na sua cabeça, de trás para frente, como um filme rodando ao contrário. E foi assim:

O corpo dela se levantando, a mancha de sangue sumindo, o furo na blusa sumindo.

O rosto dela se desescrispando, com o ferimento antes constatado.

O susto dos dois com o estampido, silvando no ar, com o som ao contrário:

Foooouuueeeiii…

O brilho da arma, instantâneo, vazando por entre os barracos, indo lá pra cima, para os lados da Boca.

Um brilho, que foi anterior ao outro, antes do estampido, espelhado no calafrio premonitório de quem sabia no que ia dar aquilo tudo, antes mesmo de ouvir o estampido, a sensação ruim, a premonição tarde demais para ser adivinhada como verdade.

Bastava juntar a cena em dèja vu com as várias vezes em que se viu Bibelô lá em cima, na Boca, doidão de tanto cheirar a cocaína de graça que consumia desvairadamente, como paga por proteger o Homi, o Chefe, de qualquer surpresa policial. Ficava lá, bonitão, a farda engomada, sempre com a automática brilhando na mão, soltando gargalhadas tresloucadas, fazendo tiro ao alvo nos cachorros, atirando a esmo como um maluco imbecil. Quem não sabia? Era praxe. Líquido e certo. Foi Bibelô quem atirou.

A clínica no pé do morro foi visitada porque era bem em conta. Combinaram que não iam dar mole, negligenciar com o pré-natal. Gente nova na família à vista. Primeiro filho. Sabem como é.

O tiro pegou a pobrezinha bem na porta da clínica, ainda com a ultrasonografia na mão. Uma tristeza sem tamanho.

Foi há, mais ou menos, cinco anos. O dia em que ele pirou.

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Foi Pedrosegundo, o açougueiro, quem conseguiu o advogado, um doutorzinho destes, de porta de xadrez, fazer o quê? É barato. É em conta. Bastou fazer uma vaquinha entre os muitos amigos dele, do peito, e pronto.

Custas da ação garantidas. Não deu outra: O doutorzinho, que era mesmo do ramo, quase fez o excelentíssimo senhor doutor juiz chorar:

_Excelência, data vênia, não tem nada a ver um homem como este meu cliente, estar aqui, nas barras de um tribunal. Não mata nem uma mosca esse aí. Olha lá. Vive assim, como o Sr. está vendo. Assim, assobiando feito um passarinho.

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Livre e solto, absolvido como se tivesse sido legítima defesa (o que de fato foi. Deus foi testemunha), escoltado pelos amigos do peito, com o mesmo ar ausente de ave canora de sempre, realmente, alegre feito um passarinho. Nunca mais um surto violento teria. Para sempre calmo e tranquilão.

Foi daquele dia em diante que passou a ser conhecido pelo apelido de Bem-te-vi.

Spírito santo

Julho 2007

Dramaturgia de Uns e Outros


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Diálogo crítico entre ‘Processo Colaborativo no Teatro da Vertigem’ (SP -2002) e o ‘Processo de Dramaturgia Aberta’ da Cia. Off-Sina (RJ-2010)

(Para mal entendedores linguagem teatral é greco, criação é coerção e berimbau é gaita)

Spírito Santo
(Dramaturgo-desconvidado)

O Resumo da opereta

Descrevendo os personagens

(Este é o relato-diálogo, fragmentado – e altamente opinativo – da minha frustrada experiência como dramaturgo convidado do Grupo Off-Sina do Rio de Janeiro, no ensejo do processo da construção do espetáculo ‘Nego Beijo’, sobre a teatralidade Circense e o Circo-Teatro de Benjamim de Oliveira.

Dramaturgo bissexto (com uma obra restrita a apenas quatro textos escritos nos últimos 16 anos), acabo de tomar conhecimento da forma mais impactante possível de algumas mui estranhas – embora muito interessantes – teses em voga no meio teatral brasileiro atual, que apontam para um modo supostamente novo do fazer teatral: O processo colaborativo.

(Calma, calma. Ingenuidade alguma nesta minha história. É que as referidas teses são para mim tão velhuscas, coitadas – já as tinha vivido lá atrás, nos anos 70! – que jamais poderia imaginar que hoje haviam se tornado teses ‘de ponta’ para certas sumidades teatrais)

É pois no empolgante ensejo desta minha frustrada experiência como dramaturgo convidado de uma companhia adepta desta linha de trabalho, que me envolvo neste estimulante debate.

(Os elucidativos trechos do resumo por mim utilizado para historiar a minha própria experiência, foram extraídos de uma derradeira carta enviada à direção artística da Cia. OFF-Sina.

Os trechos atribuídos ao encenador e dramaturgo Antônio Araújo – com os quais os meus fragmentos tentam honestamente dialogar – são de um antológico artigo daquele autor, publicado na internet. Um diálogo teatral no melhor sentido.)

Pois então vamos lá. Como introdução, eu mesmo agora em público falando:

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A Carroça e depois os Burros
(Mas não seria vice versa?)

“…Já deu para perceber que a filosofia do processo estabelecido pela Cia. Off-Sina está amparado em algumas premissas ideológicas que priorizam o que eu, modestamente chamo de ‘processo de afirmação do ator’ (em oposição à hegemonia do diretor e/ou do dramaturgo), ancorado em muita teoria sobre o papel do Artista Popular, De rua, etc. como sujeito revolucionário, protagonista principal do fazer teatral etc. “

Está claro que isto, no geral, como informação acessória, é muito relevante para o nosso projeto sim, mas é muito mais importante para militância de vocês em particular já que, no próprio ato de seleção dos profissionais estes critérios – a adesão da equipe à proposta – já haviam sido considerados. “

Spírito Santo – carta à direção artística do projeto ‘Nego Beijo’/ Grupo Off-Sina -2010)

O Drama da Criação Coletiva noTeatro

Processo colaborativo. Uma utopia?

“…Não pretendo com isso desmerecer ou descartar a experiência da criação coletiva. Obras importantes foram criadas dentro desse modelo e é legítimo que cada artista busque a maneira de trabalhar com a qual mais se identifique. No caso do Teatro da Vertigem nós nos orientaríamos em outro sentido, que parecia traduzir melhor as características e os interesses dos integrantes do grupo. É claro que, em essência, estávamos afiliados a alguns dos princípios fundamentais da criação coletiva, mas iríamos praticá-los de forma um pouco diferenciada.”

Antonio Araújo /em “Processo colaborativo do Teatro Vertigem

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A julgar pelo que o texto de Antônio Araújo indica ou sugere, a pesquisa ( ‘forma’ e ‘temática’) da sua Cia. Teatral se deu espontaneamente e já foi realizada num contexto eminentemente teatral, sob opções e consenso criados por todo o grupo no transcorrer do processo de uma montagem e orientados – ou moderados – pelo diretor da Cia .

No caso do Off-Sina – e a meu exclusivo entender  – ao contrário, todo o processo foi planejado à priori por uma espécie do ‘núcleo duro’ do grupo, integrado pelos dois atores ‘proprietários’ da Cia. e uma terceira pessoa que funcionava como uma espécie de ‘comissária-ideológica’ do grupo incumbida de  zelar pelo cumprimento das normas pré-estabelecidas de forma discreta, quase subreptícia.

Assim, no caso do Off-Sina, a fase preliminar do trabalho (‘Pesquisa’) parece ter sido pensada para funcionar estritamente como um ciclo de leituras linear e acrítico do excelente ensaio historiográfico (“A teatralidade circense no Circo-Teatro de Benjamim de Oliveira”) de Ermínia Silva, sob a forma de um grupo de estudos convencional.

Alguma razão, contudo – quem sabe talvez por conta de certo grau de desconhecimento da maioria do grupo em relação aos conteúdos apresentados- acabou fazendo com que se optasse por encaminhar o trabalho (fase 1,  a ‘Pesquisa’)  para um formato de ‘aulas convencionais’.

Na verdade, soube-se depois que havia sim uma espécie de ‘coordenação’ dos ciclos de leitura, mas ela se dava por razões obscuras também de forma subreptícia e apenas entre os atores, em contextos e momentos isolados das reuniões com os demais membros da equipe, de modo que esta coordenação subliminar nunca se apresentasse nas reuniões gerais como uma instância acessível, suscetível ao debate, para ficar assim, presume-se, preservada de eventuais questionamentos.

“…A principal diferença se encontra na manutenção das funções artísticas. Se a criação coletiva pretendia uma diluição ou até uma erradicação desses papéis, no processo colaborativo a sua existência passa a ser garantida. Dentro dele, existiria, sim, um dramaturgo, um diretor, um iluminador, etc. (ou, no limite, uma equipe de dramaturgia, de encenação, de luz, etc.), que sintetizariam as diversas sugestões para uma determinada área, propondo-lhe um conceito estruturador ”

Antonio Araújo /em “Processo colaborativo do Teatro Vertigem”- 2002

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Ao que tudo indica também, esta fase inicial do processo do Off-Sina foi planejada (arbitrariamente, como se viu e não debatida com a equipe ou com o elenco como um todo) para funcionar de maneira estanque em relação às fases seguintes (‘Dramaturgia’ e ‘Encenação’), criando uma óbvia – e talvez deliberada – dicotomia no desenvolvimento do processo como um todo.

Aparentemente, esta dicotomia programática e deliberada, visava expor o elenco – e os membros da equipe artística em geral – a algum tipo de capacitação ideológica, uma espécie de ”iniciação política” ao que a Cia. Chamava de “Método Off-Sina de Circo-Teatro de Rua’’

(Na análise que o dramaturgo convidado realizava – já a esta altura subliminarmente – aparecia como razão evidente do travamento do processo, a ausência de uma espécie de eixo catalizador, certo tipo de coordenação, moderação ou liderança de natureza efetivamente técnico-teatral, capaz de orientar a transposição (a ‘tradução’) do complexo arrazoado teórico contido no ensaio historiográfico, para ações ou exercícios artísticos  propriamente ditos (a exemplo do que aconteceu, segundo transparece no texto de Antonio Araújo, com a bem sucedida experiência do Teatro Vertigem).

“…Ao que me parece, a nossa eventual dificuldade de, até agora articular as oficinas e as demais ações do processo, estaria relacionada à falta de um eixo qualquer, um foco, que no meu modesto entender deveria ter sido dramatúrgico, mas que no entender de vocês acabou sendo o exercício de uma pesquisa ampla e abrangente, sob a forma de um grupo de estudos clássico sobre tema Circo-Teatro-de-Rua.

O material da pesquisa fala sobre teatro sim e contem todas as informações que a equipe necessita, claro, mas não é teatro ainda, não enseja a criação, a construção de espetáculo algum, porque um espetáculo para ser construído, precisa ter uma síntese de uma narrativa dada (um tema recortado e pertinente), um roteiro que seja, um plano específico sobre o qual a equipe organizada, sinergizada, se debruça, molda, ‘levanta’ e, por fim, encena.”

Spírito Santo / carta à direção artística do projeto ‘Nego Beijo’/ Grupo Off-Sina -2010

Teatro de Revistas sem ‘compère’)

( e o que dizer de um Circo sem dono?)

Com efeito, o cerne das subestimadas proposições fornecidas pelo dramaturgo-convidado à revelia da direção da Cia., se encaminhavam exatamente para a denúncia desta distorção deliberada do processo que, na fase seguinte, com toda certeza, impactaria e contaminaria de autoritarismo a própria estrutura dramatúrgica de um futuro e eventual espetáculo.

Por outro lado, talvez por conta desta falta de um orientador abalizado (função que a ‘coordenação subrepícia’, em termos artísticos – ou mesmo culturais – parecia não dar conta) os ‘resumos’ com as observações e conclusões dos atores, solicitados (de forma isolada) pelo dramaturgo convidado,  para servirem de subsídio para a fase seguinte, nunca apresentavam elementos novos que não fossem aqueles já contidos pelo texto original do ensaio, resumos estes que, copiados ipsis leteris não continham elementos realmente teatrais, tangíveis ou mesmo aproveitáveis para a proposição de qualquer coisa parecida com dramaturgia.

“…Tal dinâmica, se fôssemos defini-la sucintamente, constitui-se numa metodologia de criação em que todos os integrantes, a partir de suas funções artísticas específicas, têm igual espaço propositivo, trabalhando sem hierarquias – ou com hierarquias móveis, a depender do momento do processo – e produzindo uma obra cuja autoria é compartilhada por todos. “

Antonio Araújo /em “Processo colaborativo do Teatro Vertigem- 2002

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Analisando o processo desde o início,  o dramaturgo convidado (já a esta altura protagonista involuntário de uma espécie de jogo de enganos)   elaborou por escrito uma série de propostas (descritas também verbalmente)  como sugestões a serem debatidas em grupo em reuniões, sugestões estas que poderiam estimular o surgimento de uma eventual proposta coletiva para o re-alinhamento ou o re-encaminhamento do processo – notadamente o re-ordenamento da metodologia da fase 01 (Pesquisa) que poderia assumir, no mínimo, a forma (além das pertinentes  ‘aulas convencionais propostas pela orientadora)  de uma ‘pesquisa-ação’ tradicional que fosse, algo com alguma dinâmica ou sinergia.

O fato é que mesmo sob a forma de ‘propostas a serem debatidas pelo coletivo’, estas sugestões foram, do mesmo modo, reiteradamente descartadas pelo ‘núcleo duro’ da Cia. Em certos momentos mais tensos dos contidos debates, este ‘núcleo duro’ chegou mesmo a admoestar, diretamente o dramaturgo – tornado inconveniente proponente, no caso – mostrando-se irredutível quanto ao cumprimento rígido do plano traçado.

Observado mesmo superficialmente, este plano da Cia. Off-Sina parecia ser de fato, baseado em dogmas rasos e mal explicitados, vagamente apoiados nas teses mais corriqueiras ou recorrentes do dramaturgo e encenador alemão Bertold Brecht, associadas ou adaptadas a uma cartilha ideológica maniqueísta, que opunha de um lado supostas técnicas do ‘Teatro Dramático’ (consideradas execráveis por serem ‘burguesas’) e de outro também supostas técnicas do chamado ‘Teatro Épico’ (consideradas ideais e obrigatórias por serem, necessariamente ‘populares’, ‘avançadas’ e ‘ revolucionárias’.)

“…Isto não significa (como parece temer, ingenuamente a meu ver, a Cia.) de modo algum uma eventual ‘ hegemonia do dramaturgo’ sobre o processo (hegemonia esta que, como já disse, ao que parece, a Cia. pretende que seja do ator, como premissa ideológica).

Significa apenas que, para uma ação coletiva ser bem sucedida os participantes precisam executar, cada qual uma função específica no seu devido tempo, segundo uma estratégia comum e factível (que, na verdade para ser mesmo democrática, não deveria permitir a hegemonia de nenhuma das partes.)

(…Há que se ter muito cuidado pois, em certos casos – e com certeza também no Teatro- a teoria pode ser a madrasta da prática.)”

Spírito Santo / carta à direção artística do projeto ‘Nego Beijo’/ Grupo Off-Sina -2010)

Como suporte teórico a este tipo de dogmatismo anti-teatral militante, os ideólogos da Cia. Off-Sina publicavam no grupo de relacionamento online do projeto (‘grupos Yahoo’), textos teóricos de militantes (ou simpatizantes) do que pareceu ser uma instituição política dos artistas de Teatro de Rua de São Paulo, salpicados de fundamentos apócrifos da história do teatro  (reforçados com pretensas e esotéricas expressões etimológicas pinçadas do grego) imiscuídas em teses teatrais outras, ‘da moda’ (entre as quais as do próprio Antônio Araújo, aqui debatido) lidas do mesmo modo acrítico e estreito com que ‘leram’ as teses do velho Brecht.

A certa altura, no auge tresloucado da afirmação dos tais ‘pontos de honra ideológicos’ da Cia. Um dos ideólogos alegou, enfaticamente que o Teatro de Rua pressupunha, obrigatoriamente a ausência total de cenografia e adereços, de uma cenotecnia enfim.

Antes de associar, como se esperava,  ou justificar a opção (obviamente muito relativa do ponto de vista artístico) com especificidades técnicas evidentes da linguagem teatral aplicada no contexto de espaços públicos abertos, os ‘ideólogos’ afirmavam que (cito livremente):

_ “O Teatro Épico considera a cenotecnia um recurso eminentemente burguês, reacionário, alienante, voltado que é para criar a ilusão nas massas”.

(O caráter canhestro deste tipo de posicionamento artístico, obviamente dispensa maiores considerações)

A partir desta ocasião ficou patente, portanto a impropriedade do conceito ‘colaborativo’ (ou ‘aberto’) da Cia. (especialmente quando aplicado ao processo em curso) já que, como se viu, com exceção de três membros deste ‘núcleo duro’ do grupo, ninguém mais da equipe se animava ou se mostrava interessado em participar de nenhum questionamento ou debate mais profundo sobre a metodologia de construção do futuro espetáculo.

Manda quem pode. Obedece que tem juízo.

“…E, ao mesmo tempo, isto não aliena esse responsável ou coordenador artístico “setorial” do restante da criação. Também ele (ou sua equipe) trará sugestões e contribuições para as outras áreas e, principalmente, discutirá o(s) sentido(s) da obra como um todo. Portanto, aquele coletivo de artistas é, no ponto de chegada, o autor daquilo que é mostrado ao público, não só pela “amarração” artística dentro de sua especificidade, mas porque contribuiu, discutiu e se apropriou do discurso cênico total daquele espetáculo.”

Antonio Araújo / em “Processo colaborativo do Teatro Vertigem- 2002

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Havia, pois, no caso, hierarquias muito bem definidas invalidando de antemão toda a legitimidade colaborativa do processo que, por esta interessante razão, nada tinha ou poderia passar a ter daí para frente, de teatral ou mesmo de artístico.

Com efeito, a proposta do Off-Sina, em tese se enquadraria perfeitamente no modelo de ‘processo colaborativo’ exposto por Antonio Araújo, não sofresse ela do pecado original de sua estrutura de coordenação ser subliminar e autoritária. Se ao invés de ‘todos serem dramaturgos, encenadores, figurinistas, etc’. somente o tal ‘núcleo duro’ orientava o processo, ninguém na equipe poderia almejar, de fato, ser algo além do que mero expectador, ator ‘dramático’,  passivo, do processo de construção de um não-espetáculo.

“…Em geral, nesses casos, a contribuição de todos tem necessariamente que ser incorporada ao resultado final, muitas vezes levando a obras flácidas e adiposas, e colocando em risco a clareza e a precisão do discurso cênico projetado. Em casos assim, se os integrantes não tiverem maturidade o suficiente para dar sustentação a tal dinâmica de grupo, as brigas e as rupturas são inevitáveis, e muitos espetáculos acabam nem vindo à cena por essa razão.

Quantas companhias não se dissolveram, traumaticamente, pelas crescentes rusgas e incompatibilidades entre seus colaboradores, devido ao desgastante exercício de um pretenso “coletivismo? ”

Antonio Araújo / em “Processo colaborativo do Teatro Vertigem- 2002

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Esta contradição seminal, omissa, embora aparentemente percebida e identificada por todos (e, como se viu, sob cuja natureza não era permitido – ou recomendável – debater) era frequentemente apresentada como sendo uma salvaguarda contra rompantes de individualismo eventual por parte de um ou outro membro da equipe (entre os quais, evidentemente, o dramaturgo-convidado, único a propor algum debate sobre o transcorrer equivocado do processo, era constantemente identificado como ‘suspeito’.)

“…Tanto quanto aos outros colaboradores caberá a ele – o dramaturgo – trazer propostas concretas – verbais, gestuais ou cênicas – mas também dialogar com o material que é produzido diariamente em improvisações e exercícios.”

Antonio Araújo /em “Processo colaborativo do Teatro Vertigem- 2002

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Antonio Araújo aliás, acerta na mosca em sua análise dos riscos e percalços do método, com uma diferença crucial entre as duas experiências: Todas as funções da equipe no caso do Off-Sina jamais foram ‘democraticamente’ distribuídas pelo elenco. Desde o início elas haviam sido entregues a profissionais convidados (contratados) procedimento que, aparentemente fazia a proposta do Off-Sina se assemelhar à pragmática versão de ‘criação coletiva’  contida na experiência do Teatro Vertigem. Nada mais falso.

“…É fundamental que o núcleo dos intérpretes e a direção revejam seus conceitos e parâmetros, para que também eles possam abrir-se a um novo tipo de relação com a dramaturgia.

Se como diretor sou capaz de, ao observar a improvisação de um ator, selecionar algum mínimo elemento que seja ou perceber os rumos que não devem ser seguidos, poderia me relacionar com um exercício textual de forma igualmente aberta.”

Antonio Araújo / em “Processo colaborativo do Teatro Vertigem- 2002

A Farsa Cômica

(Ou seria uma burleta?)

As atribuições a serem, supostamente distribuídas ao elenco (no caso do Teatro Vertigem, principalmente aos atores da cia.), aquela propalada democracia dos ‘artistas- pensadores’, era sob vários aspectos, no caso do Off-Sina, portanto, uma farsa absoluta.

Senão vejamos: Dos 5 atores previstos para o espetáculo dois eram contratados, pertencentes a um outro grupo e subordinados, portanto às estranhas sub-liminaridades do processo.

Excetuando-se os dois atores ‘proprietários’ da Cia. ficava faltando, portanto apenas um ator,  o único negro do elenco, aquele que encarnaria Benjamim de Oliveira, protagonista óbvio do espetáculo que, como se sabe, foi um ex-escravo de ascendência africana, histórico ator, dramaturgo e ‘clow’ brasileiro.

(Observe-se que a aparente e descuidada protelação da seleção de ator com perfil tão estratégico à montagem, trazia problemas e imposições importantes ao processo de construção geral dos personagens, durante a montagem, um problema essencialmente dramatúrgico, portanto).

Pano rápido.

É esclarecedor que  de forma flagrante, aludindo os riscos potenciais da metodologia em tese, Antonio Araújo toque  em seu texto no que seria o cerne do caráter fortemente utópico da proposta.  No contexto de uma ansiada dinâmica de grupo – a sinergia que deveria ser intrínseca ao processo colaborativo – diversos fatores, muito complexos precisavam ser considerados também, além daqueles relacionados à eventual ‘maturidade’ do coletivo.

Entre eles, o mais grave e relevante talvez seja a necessidade imprescindível de que haja certo nível de capacitação dos membros do grupo ou Cia. para assimilar, apreender e elaborar tantos e tão especializados conteúdos necessários à construção de um bom espetáculo de teatro – ou de qualquer outro fazer artístico, linguístico, técnico enfim, considerando-se que o conceito ‘fazer’, nestes casos, exige também de forma imprescindível, além desta capacitação prévia, experiência e rigor.

“…Muitas vezes, também, essa perspectiva do “todo mundo faz tudo” escondia certos traços de manipulação. Por exemplo, determinado dramaturgo ou diretor pregava tal discurso coletivizante visando camuflar um desejo de autoridade e, dessa forma, evitava confrontos e conflitos com os outros integrantes do grupo.

Antonio Araújo /em “Processo colaborativo do Teatro Vertigem- 2002

O excessivo ‘democratismo’ (‘coletivismo’ no dizer de Antonio Araujo) forjado no caso do Off-Sina, mas francamente assumido na experiência do Teatro Vertigem, talvez não dê conta de suprir, por exemplo, a eventual (e, a rigor, natural) incapacidade de uns, em relação a outros, diante de desafios criativos para os quais aqueles não tiveram acesso ou, simplesmente não tem nenhum interesse, aptidão ou vocação.

Com efeito, pode estar subjacente no enunciado da metodologia do ‘Processo Colaborativo‘, certa dose de banalização do fazer teatral, alguma simplificação ou subestimação involuntária (inspirada que foi num conceito ingênuo, primário de democracia direta) dos saberes acumulados, necessários para o fazer artístico em geral, saberes estes tão relativos e imprevisíveis quanto pessoais, humanos enfim, cuja carência pode invalidar (e geralmente invalida) em muitos aspectos, o sucesso de metodologias dogmáticas ou rigidamente estabelecidas.

Gerando muitas vezes resultados (espetáculos no caso) cuja qualidade final não justifica em nada a pertinência do processo  do qual foi oriundo (em relação aos demais processos tradicionais ou convencionais) o  interessante ‘Processo Teatral Colaborativo’ talvez precise ser visto de forma crítica, como uma proposta questionável, cuja forma de aplicação precisa ser sempre relativizada (‘ humanizada’ enfim).

“…Contudo, o processo colaborativo garante a existência de alguém (ou de uma equipe) especialista ou interessado em determinado aspecto da criação, que se responsabilizará pela coordenação das diferentes propostas, procurando sínteses artísticas, articulando seu discurso cênico ou concepção, e descartando elementos que não julgar convenientes ou orgânicos à construção da obra naquele momento.”

Antonio Araujo / em ‘Processo colaborativo do Teatro Vertigem’ 2002

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Este aspecto (o do risco principal da metodologia), passível de fazer sucumbir até projetos verdadeiramente colaborativos, pode ser visto então como fatal para o anti-colaborativismo contido no processo de construção do espetáculo do Off-Sina.

O mais curioso é que em todos os debates e discussões, as premissas expostas por Antonio Araújo como sendo as corretas, eram exaustivamente defendidas e repetidas pelo ‘núcleo duro’ da Cia. e endossadas pelos membros da equipe mais cordatos.

“…Exatamente como os atores, o dramaturgo poderá exercitar esboços de cena, fragmentos de textos, frases soltas cujo único compromisso é o da possibilidade do escritor improvisar e investigar livremente. Portanto, esse material será tão fugaz e provisório quanto os exercícios cênicos propostos pelos intérpretes. Poderá ser inteiramente descartado ou, se for o caso, aproveitado dele algum elemento sugestivo.

Evidentemente tal dinâmica exige um novo tipo ou uma nova postura do dramaturgo dentro do fazer teatral. Por exemplo, ele tem de ser tão desprendido quanto atores e diretor que, no segredo da sala de ensaio, são capazes de propor cenas inconsistentes, frágeis, de péssima qualidade, mas fundamentais ao desenvolvimento da obra.”

Antonio Araujo / em ‘Processo colaborativo do Teatro Vertigem’ 2002

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Eram, infelizmente estruturas psicológicas inerentes a grupos de trabalho coercitivos que apareciam, nitidamente expressas no decorrer do processo, tolhindo toda possibilidade de se debater e resolver os impasses que fatal ou naturalmente ocorreriam.

Em se tratando de uma equipe com profissionais contratados, esta reiteração do que aparecia como sendo princípios ideológicos norteadores dos interesses da Cia. eram particularmente constrangedores e desconfortáveis, principalmente quando se mostravam dogmáticos demais ou, o que era pior, desprovidos de consistência intelectual mínima.

Este era o caso das flagrantes distorções  citadas – defendidas de forma catequética e impositiva – que como já disse acima, falseavam ou distorciam conceitos gerais contidos nas teses de Bertold Brecht, constantemente apresentadas de forma estreita como sendo uma contenda entre ‘Teatro de rua popular e revolucionário’  contra o ‘Teatro Burguês’ ou toda estética teatral que não estivesse na cartilha da Cia.

“…Ao contrário, acreditamos num dramaturgo presente no corpo-a-corpo da sala de ensaio, discutindo não apenas o arcabouço estrutural ou a escolha das palavras, mas também a estruturação cênica daquele material.”

Antonio Araujo / em ‘Processo colaborativo do Teatro Vertigem’ 2002

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Não se travava, pois de um grupo de teatro independente, coeso com a ideologia que em tese defendia como nos faziam supor, mas um grupo de profissionais instados por um pequeno grupo ideológico radical, a se adequar a uma metodologia canhestra, supostamente democrática, mas que na verdade, era autoritária e patronal.

Uma aberração artística em todos os termos.

O que pode ficar como lição na avaliação dos dois processos tão semelhantes em tese, porém díspares demais em sua prática é que talvez por um maneirismo elitista típico, alguma razão recorrente no gênero Teatro (pelo menos aqui no Brasil) predomina neste meio, certa predisposição para uma renitente e exacerbada superestimação da teoria em detrimento da prática, um intelectualismo, um academicismo arrogante, mania – ou vício – histórico no desenvolvimento de certo tipo de arte – e de certo tipo de Teatro em particular – ao qual ironicamente, ao contrário de sua pretensa ‘popularidade’ cabe como uma luva, isto sim, o epíteto burguês – e por extensão, populista).

Esta mania – infantil, numa analogia de recorte leninista ou stalinista, bem a gosto de certos teóricos mais radicais – gera sempre encruzilhadas metodológicas… dramáticas (ou pouco… épicas).

“…Negar o poder pode ser uma forma de reafirmá-lo ou de exercê-lo, ainda que sub-repticiamente. Ditaduras ou tiranias podem também se instaurar de maneira difusa, escamoteadas por um discurso de participação e liberdade. A vertente oposta a essa é a de uma democracia artística exagerada, em que cada aspecto é debatido ad nauseam, sem haver alguém que encaminhe ou proponha uma síntese final sobre determinado quesito polêmico.”

Antonio Araújo /em “Processo colaborativo do Teatro Vertigem- 2002

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Contudo consideremos por fim que sem conflito não há ação e sem ação, obviamente…não há Teatro possível.

Pano final (ou Blackout)

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Spírito Santo (citando amiúde Antônio Araujo)
Março 2010

IH!…Será que o Samba funkeou de vez?


Será que o Samba funkeou de vez?

A Cia Editora Por enquanto Eu mesmo Ltda. Rio de Janeiro-Brasil apresenta:

… Ih? Saiu já o livro e nem me avisaram?

… Nada disso galera. Pura viagem, sacanagem (só pra vocês terem uma idéia, a capa fui eu mesmo que fiz, em poucas horinhas de um Photoshop bem básico.)

Capa direta é isto: O tema do livro está na cara:  Do ‘drumer boy’,  garoto batucador de tambor de batalha na  guerra de secessão norte americana ao Tião Miquimba, inventor do surdo de terceira do Samba, existe muita, mas muita história mesmo. Quase 300 páginas de ondas, firulas e babados.

(Ih, rapaz! Engraçado. Me lembrei agora mesmo que na minha infancia em Padre Miguel – se deu pra notar, mesma terra de Tião Miquimba – havia um amigo lá que chamávamos de …Miquimba. Até zoávamos o cara, dizendo:

_ “Não vem não! Se tu me quimba, eu também te quimbo !”

Brincadeira etimológica de suburbanos, supostamente incultos. Ele, o Miquimba meu amigo, ficava pra morrer. É que não sabíamos que ‘Miquimba‘ era uma palavra de verdade, uma palavra africana. Vai entender? Pois não é que me deu um flashback agora?)

Será que o Miquimba da foto (este mesmo herói que, como vocês vão saber em detalhes no livro, inventou o surdo de terceira do Samba) é o mesmo Miquimba da minha infancia? Bem que quando entrevistei o já ‘coroão’ Tião Miquimba para o livro, ele ficou me olhando assim meio de banda, ressabiado, com um meio sorriso sarcástico, como quem diz:

_”Que cara arrogante! Quem ele está pensando que é? Pesquisador é o cacete! Pois ele não é o ‘Deco’, aquele cara da Rua ‘L’? Que porra! O cara nem se alembra mais de mim!”

Caiu a ficha agora! Só pode ser! O meu herói Tião Miquimba esteve ali, pertinho de mim na minha infância e eu posso agora dizer pra ele: Sim. Me lembro de você sim, Miquimba.
Você é um dos meus Caras.

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Pesquisador sortudo, é o que sou. Fazer o que?

Livro eletrizante (embora não passe ainda de pura curtição de velho ansioso).

É que rolou uma história de Kindle, sacam? Editar o livro num código internáutico destes aí e distribuir on line, via amazon.com, penso eu. A proposta é da editora de e.books Nogla Sklar que manifestou vivamente o seu interesse em conhecer o material. Os detalhes são todos novidade para todos nós (‘quem lê tanta notícia?)’. esta história de palmtops kindle, livros on line, etc. e tal, é futurista pra caramba, né não? Quem entende desta história para me explicar?

(Se ninguém explicar, é sinal que a ideia é boa mesmo)

Na minha ‘fuçação’ básica esbarrei numa entrevista da Nogla Sklar para o site Digestivo Cultural’. Sedutora entrevista. Me rendi ao frescor absoluto da ideia, de cara. Oh! Coragem não tem canja de galinha!

É vero. O projeto do livro ‘encantado’ mudou de rota e ficou mais ‘muderno’.

…Reticencias felizes.

(Esta chamada aqui do blog estará aguardando mais conteúdo oriundo desta nova viagem na qual o que será, será.)

Aguardem a notícias.

69 Romântico: Moçambique bem na foto



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Leia’ a foto:

1969. Época das românticas lutas pelo fim da opressão colonialista no então chamado ‘Terceiro Mundo’. Na foto rara – talvez única – e histórica (encontrei agora entre meus alfarrábios, resquício talvez de algum seminário de apoio á luta moçambicana) Samora Machel chefe guerrilheiro da Frelimo (Frente de Libertação Nacional de Moçambique), operando ainda com pouquíssimos recursos nas matas do país.

Seu uniforme é surrado e é formado, aparentemente por peças de uniformes de diversas origens, seu boné é seguramente chinês e sua ‘bota’ é apenas um sapato bastante gasto que parece nem ter sido sempre seu.  Um perfil quase ‘brancaleonico.

O revólver – dá pra notar pelo tamanho – também é modesto, um ‘tres oitão’ cano curto, talvez quem sabe uma velha ‘lugger‘, ou uma ‘Mauser‘, algo assim.

No flagrante Samora parece fazer uma preleção para um grupo de jovens soldados portugueses aprisionados. Os soldados tiveram as suas botas apreendidas e calçam tênis surrados que, anteriormente deviam calçar os guerrilheiros que estão observando a cena, alguns dos quais talvez feridos, depois de alguma escaramuça, quem sabe com estes mesmos soldadinhos aprisionados.

 Leia a foto:

Na medida do possível, há um bem organizado trabalho de propaganda já em curso, pois a preleção de Samora está sendo registrada num modesto gravador K7 e há um fotógrafo profissional por trás da lente que fez a foto. É muito curioso também o ar de certo interesse ou mesmo simpatia e admiração demonstrado pelos semblantes dos jovens portugueses diante de Samora Machel.

A África colonial inteira estava nesta época envolvida em sangrentas revoluções armadas (de meados da década de 1960 a meados da de 1970). O rumo de algumas destas revoluções históricas, como a de Moçambique, já se sabe que nem sempre foi a redenção real de suas sociedades.

Fazer o que? Como todo mundo sabe, o mundo não foi feito num só dia.

Nesta mesma época. Amílcar Cabral, líder do PAIGC, movimento de libertação nacional de Guinè Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, havia sido morto pela PIDE, polícia secreta portuguesa. Em 1986,  Samora já presidente de Moçambique independente,  foi morto num atentado praticado, dizem (nunca se sabe bem ao certo) pelo governo do Apartheidda África do Sul.

 Em 1964, enquanto no Brasil se instalava uma covarde ditadura militar, o jovemNelson Mandela,  do ANC, movimento de libertação da África do Sul e mais sete correlegionários eram condenados à prisão perpétua a ser cumprida na soturna Robben Islandde onde, como se sabe, Mandela só saiu 26 anos depois.

A maioria dos líderes daquelas revoluções africanas eram artistas, poetas, literatos, músicos. Agostinho Neto, José Carlos Schwartz, Liceu Dias Vieira, Rui Mingas. Muitos (às vezes os mesmos até) como me confidenciou o meu grande amigoo compositor guineense Carlos Robalo(que foi jogador de basquete), também eram desportistas e se conheceram nos vestiários do Esporte Clube Benfica.

Graça Machel, viúva daquele jovem Samora da foto – ele mesmo viúvo de sua primeira esposa a guerrilheira Josina Machel – é hoje a orgulhosa esposa de ‘SãoNelson Mandela.

Quem diria, mas a África do século 21 está pobre, porém livre e independente. Já pode até promover uma Copa do Mundo. A foto é bem velha – e eu também – mas a escravidão odiosa e o colonialismo – pelo menos aquele mais antigo e carcomido – acabou.  Foram estirpados na marra.

Mas isto já é outra história.

Como dizia um hino revolucionário da Frelimo que eu cantava nos meus tempos de Grupo Vissungo:

“Sinto-me orgulhoso de ser africano
meus antepassados todos nasceram aqui
filhos legítimos do mundo rainha
minha África  oi ê oi iê!”

_Moçambique oi iê!
oi ê oi iê!
_Guiné Bissau oi iê!
oi ê oi iê!
_Angola oi iê!
oi ê oi iê!
_África do Sul oi iê!
oi ê oi iê!
_Cabo Verde oi iê!
_ São Tomé oi iê!

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Leia também : Madiba viu a jabulani da liberdade quicando ao longe’

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Spírito Santo
Março 2010

EXU CHIBATA – Resenha da peça


Creative Commons License

 

(Na foto João Cândido é conduzido preso por um oficial da polícia – atentem para o sorriso orgulhoso de João diante da atenção dos populares em torno, expressando abertamente a sua admiração para com o ‘Almirante Negro’)

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Em 2010 se comemorará 100 anos de um dos incidentes mais importantes de nossa história: A Revolta da Chibata, rebelião de marinheiros ocorrida em 1910, liderada, entre outros por João Cândido Felisberto, timoneiro do maior navio de guerra do Brasil na época e conhecido popularmente como o ‘Almirante Negro‘.

É bastante provável que as comemorações deste fato tão empolgante – e tão significativo para a afirmação da nossa democracia –  empolguem o país inteiro, de norte a sul, marcando o reconhecimento definitivo e inquestionável de João Cândido Felisberto como um dos mais importantes heróis da nossa pátria Brasil.

A montagem da peça Teatral resenhada abaixo por seu próprio autor, inspirada neste empolgante acontecimento histórico bem que poderia ser um destes eventos.

Com toda certeza contudo, a peça poderá ser vista em Abril no teatro do Centro Cultural Laura Alvin, no ciclo de leituras dramatizadas de teatro ‘Negro Olhar‘ (veja o site do projeto neste link)

No elenco as emblemáticas figuras de Ruth de Souza, Haroldo Costa, Milton Gonçalves além de uma garotada da pesada (atores e atrizes) selecionados especialmente para a ocasião.

Na programação também constarão textos dos dramaturgos Aimè Cesaire (Martinica, Caribe) e Amiri Baraka ( EUA). Não percam!

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Exu Chibata é uma peça teatral escrita em 1994 (leia texto integral neste link) que tem como proposta principal o estabelecimento de um diálogo estético e dramatúrgico entre algumas das linguagens e mídias mais em voga na época em que se passa a ação do espetáculo (início do século 20, entre 1904 e 1910) época de grande efervescência cultural e artística contrapontuada por grandes conflitos sociais.

O eixo dramático principal da peça envolve os incidentes ligados a chamada Revolta da Chibata, comandada por João Cândido Felisberto (o ‘Almirante Negro’) contextualizada neste conturbado período no qual, enquanto no Brasil se tentava afirmar a ferro e fogo o regime republicano recém proclamado, o mundo europeu começava a se agitar com as graves divergências que culminariam com a sangrenta primeira guerra mundial.

A epoca é também marcada fortemente pelo doloroso processo de transição das relações sociais na cidade do Rio de Janeiro, na qual uma imensa massa populacional negra, ainda mal refeita da escravidão abolida há apenas uma década, começava já a experimentar as insidiosas restrições do recém inventado racismo.

Os aspectos principais, referentes a proposta estética sugerida para o espetáculo, estão ligados também aos elementos mais aparentes da chamada Belle Époque, do Cinema Mudo, da Mímica e da Pantomima (linguagens que inserem o espetáculo no âmbito de um teatro essencialmente imagético, no qual as falas não são exatamente fundamentais).

Neste mesmo sentido primordialmente imagético, a proposta tenta se associar também a certas formas e maneirismos do Circo convencional e do popularíssimo Circo-teatro (forma implantada no Brasil por atores e palhaços geniais como Benjamim de Oliveira e Eduardo das Neves). São importantes também a utilização de certas soluções cênicas baseadas nas estéticas mais evidentes do carnaval de rua do Rio de Janeiro, nos rituais do Candomblé e na obra do artista plástico e ex-marujo Arthur Bispo do Rosário.

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EXU CHIBATA –

Qual cisne Branco em noite de lua / Peça Teatral de Spirito Santo Registro Biblioteca Nacional 2349087 / 1994

Rio de Janeiro 1994

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