Bem-te-vi


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bem_te_vi1

Foto de Fábio Pinheiro

Conto

Ciclotímico. Tímido e calmo de dia, de noite bicho solto, pôrra louca, pomba rolou. Às vezes o ciclo invertia e ele batia nas panelas, ainda bem cedinho, esbravejando contra tudo, despirocado, chutando o cachorro de estimação como se o pobre, o saco de suas mágoas fosse. Bizarro. Nestas horas, um horror de gente. Verdadeiro urso no surto. Nas outras, como se diz: uma moça, um solícito e admirável amor de pessoa.

Hoje saiu cedinho, tranquilão. Na padaria olhou, detidamente, as tortas e os pães de trança, as broas de milho, os provencianos, tudo enfileirado, enfeitiçando os olhos. Olhou com cupidez as bombas de chocolate e comprou uma.

Na farmácia da esquina admirou as latas de talco para bebês, os frascos de água de colônia, de alfazema, inebriado com aqueles odores e iguarias, os chocolates e os perfumes se misturando na cabeça esvoaçante de sem juízo, suave que era, embora de vez em quando, já bem de uns cinco anos pra cá.

Só emburrava um pouco a cara quando passava no açougue. Não gostava muito de ver as mantas de carne seca, as peças de carne sangrenta estiradas no cepo, dependuradas nos ganchos, pingando. Achava macabro aquilo tudo esquartejado ali, à mostra, como uma sala de horrores. O que de pior havia ali para se ver? Talvez fossem os aventais dos açougueiros, manchados de um sangue que ninguém podia afirmar que fosse mesmo só de vacas mortas. Sabe-se lá?

Mas ia, calmo seguindo, dizendo para todos os conhecidos – que eram muitos – o seu delicado bom-dia, assim mesmo, por entre os dentes.

Cruzou com as crianças da creche já no fim da rua e, de sisudo que estava, desmanchou-se num sorriso, como se ali, o sorriso travado há cinco anos, fosse um imperativo feliz. Não tinha como impedir o riso de transbordar da boca e dos olhos. Sorriu por vários segundos e seguiu bobo consigo mesmo, de saber o quanto gostava de ver as criancinhas berrando para ele, em coro:

_ Bom dia seu moço!

————

Foi meio por conta disto que o pessoal demorou um pouco a compreender o que se passava. Ouviram o tiro. Tudo bem. Tiro é coisa corriqueira. O sujeito se abaixa e se esconde, aguarda o burburinho da rua voltar ao normal. Nem reza. Nem se benze mais. O estranho é que, mesmo depois de resolvida a cena, tudo continuou suspenso, na mesma, porque, ninguém acreditou.

Foram dois estampidos secos, de arma automática, muito familiar por ali. Atirados pelo chão, pelos desvãos dos postes e das esquinas, o pessoal da rua não sabia muito bem como classificar a cena com ele ali, tão calmo e pacato, principalmente naquele dia, com a arma brilhando na mão, olhando o outro caído, estrebuchando e ele sorrindo, sabe-se lá de que, com o sorriso agora, novamente, preso nos beiços por um bico de assobio, um firififiu mavioso, desses com que se imita passarinho.

Parecia um bem-te-vi fora de hora.

E o outro lá, se esvaindo. A espuma da morte ainda fervilhando no esgar da boca torta, mais de incredulidade do que de dor. Nem teria podido haver mesmo dor, após semelhante tiro, certeiro, no abdome. Iria morrer logo, em menos de minuto, se muito. Nem de coitado o denominaram.

E ele, o algoz, a assobiar ali, avoadamente, não se sabe se de felicidade ou se por se achar mesmo um passarinho.

Pedrosegundo, o açougueiro foi quem saiu correndo do balcão, com as mãos ainda pingando aquele sangue ralo das carnes que destrinchava. Tirando, rápido, o revólver da mão do doidinho, berrou, solidário:

_Sai! Some daqui!

O farmacêutico também. Saiu correndo de seu lado, deixando as gôndolas de analgésicos a mercê de algum pequeno saque: Poucos seriam os anadores, os melhorais e as cibalenas, insuficientes seriam, certamente, para amenizar a bruta enxaqueca que o incidente provocara nas moças da rua.

O padeiro também. Incrédulo com o que viu pela vidraça da loja, largou uma fornada inteira de bolos de fubá no fogo. As postas de bolo, pretas, carvões redondos e roliços, iriam depois servir para confirmar o mau agouro escrito para aquele moribundo fardado, PM empertigado, conhecido como Bibelô.

_Bibelô é enfeite. Este aí é uma maldita de uma assombração. Cruz credo. Vai, exu! Morre, peste! Vade retro! – disse o padeiro baixinho, para si mesmo, exultante, escaldado com medo de tornar pública a opinião.

Foi o padeiro também quem pegou a arma da mão de Pedrosegundo e, limpou o cabo com o avental e jogou em cima do morto, que tinha o coldre vazio:

_ É tua, a arma, não é mesmo? Tá devolvida, praga de mãe. Agora morre logo, porra!

O doidinho saiu andando, calmo como uma preguiça, assobiando, manso feito o passarinho que, ao que tudo indica, se julgava mesmo ser.

————

Não sei se por conta de ser doido, mas, o certo é que, enquanto ele andava, uma cena em flashback transcorreu na sua cabeça, de trás para frente, como um filme rodando ao contrário. E foi assim:

O corpo dela se levantando, a mancha de sangue sumindo, o furo na blusa sumindo.

O rosto dela se desescrispando, com o ferimento antes constatado.

O susto dos dois com o estampido, silvando no ar, com o som ao contrário.

O brilho da arma, instantâneo, vazando por entre os barracos, indo lá pra cima, para os lados da Boca.

Um brilho, que foi anterior ao outro, antes do estampido, espelhado no calafrio premonitório de quem sabia no que ia dar aquilo tudo, antes mesmo de ouvir o estampido, a sensação ruim, a premonição tarde demais para ser adivinhada como verdade.

Bastava juntar a cena em dèja vu com as várias vezes em que se viu Bibelô lá em cima, na Boca, doidão de tanto cheirar a cocaína de graça que consumia desvairadamente, como paga por proteger o Homem, o Chefe, de qualquer surpresa policial. Ficava lá, bonitão, a farda engomada, sempre com a automática brilhando na mão, soltando gargalhadas tresloucadas, fazendo tiro ao alvo nos cachorros, atirando a esmo como um maluco imbecil. Quem não sabia? Era praxe. Líquido e certo. Foi Bibelô quem atirou.

A clínica no pé do morro foi visitada porque era bem em conta. Combinaram que não iam dar mole, negligenciar com o pré-natal. Gente nova na família à vista. Primeiro filho. Sabem como é.

O tiro pegou a pobrezinha bem na porta da clínica, ainda com a ultrasonografia na mão. Uma tristeza sem tamanho.

Foi há, mais ou menos, cinco anos. O dia em que ele pirou.

—————–

Foi Pedrosegundo, o açougueiro, quem conseguiu o advogado, um doutorzinho destes, de porta de xadrez, fazer o quê? É barato. É em conta. Bastou fazer uma vaquinha entre os muitos amigos dele, do peito, e pronto. Custas da ação garantidas. Não deu outra: O doutorzinho, que era mesmo do ramo, quase fez o excelentíssimo senhor doutor juiz chorar:

_Excelência, data vênia, não tem nada a ver um homem como este meu cliente, estar aqui, nas barras de um tribunal. Não mata nem uma mosca esse aí. Olha lá. Vive assim, como o Sr. está vendo. Assim, assobiando feito um passarinho.

——————

Livre e solto, absolvido como se tivesse sido legítima defesa, saiu escoltado pelos amigos do peito, com o mesmo ar ausente de ave canora de sempre, realmente, alegre feito um passarinho. Nunca mais um surto violento. Para sempre calmo e tranquilão.

Foi daquele dia em diante que passou a ser conhecido pelo apelido de Bem-te-vi.

Spírito santo

Julho 2007

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~ por Spirito Santo em 16/03/2010.

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