Setembro Expo Musikfabrik na Uerj


ALÔ, ALÔ GALERA!! Foi dada a partida para a exposição Musikfabrik na galeria Candido Portinari na Uerj, promovida pelo Departamento Cultural (Decult) da universidade.

O Projeto Musikfabrik , evoluiu de um projeto de extensão idealizado na Uerj pelo músico e arte educador Antônio José do Espírito Santo (Spírito Santo), a partir de um curso-oficina criado em 1995 junto ao Departamento Cultural desta universidade sendo a proposta básica do projeto inspirada nas pesquisas praticadas entre os anos 70 e 80, pelo grupo musical Vissungo.

Se liga:Será em 15 de Setembro próximo.

Alunos e colaboradores que estiverem interessados, são bem vindos – e necessários – para o mutirão da restauração e/ou fabricação de novas peças.

Vamos expor um amplo panorama de tudo que fizemos de mais representativo na área da invenção e da reconstituição de instrumentos.

Garantida também uma ou outra pequena canja da Banda Musikfabrik, de músicos e trabalhos musicais de projetos sucedâneos, afiliados ou co-irmãos.

Se você foi aluno do Musikfabrik e construiu algum instrumento interessante ou curioso – ou mesmo comprou de nós –  que ainda está em seu poder, nos procure. Seu instrumento pode ser escolhido pela nossa curadoria para integrar a sensacional e inusitada mostra.

Um ‘Negro Olhar’ sobre ExuChibata


Creative Commons License

A Diva Ruth de Souza emocionadamente honrada no palco de ‘Negro Olhar’ em 21 de Abril. Foto de Eduardo Mello em O’Globo.

——————-

A primeira leitura dramatizada ninguém esquece

Rolou a leitura dramatizada de ExuChibata! Emoção inenarrável. Foi ontem, 22 de Abril de 2010.

A leitura fez parte do II Ciclo de leituras dramatizadas de autores negros Negro Olhar, edição 2010, coordenado por Tatiana Tibúrcio. No Contexto do projeto, além dos dois ‘jovens’ autores estreantes, rolam também leituras de textos de autores consagrados como Cuti (com a sensacional drama‘Transegun‘, encenado por um afiadíssimo elenco ), o norte americano Amiri Baraka, com ‘Dutchman‘ e o emblemático Aimè Cesaire, com a negritude emocionada de sua versão caribenha para ‘A Tempestade’ de Shakespeare (confira no flyer)

A comissão Julgadora composta por Leda Martins e Ângelo Flávio, responsável pela seleção dos dois novos autores justificou assim a sua escolha:

Após análise criteriosa dos textos dramáticos a nós enviados para seleção, nós, Leda Martins e Ângelo Flávio, selecionamos para a leitura dramática do projeto Negro Olhar, edição 2010, as seguintes peças:

1. Exu Chibata, de Spírito Santo
2. Namíbia, não!, de Audry Conceição

Considerações Gerais sobre a obra:

Exu Chibata

O texto apresenta a história combativa na marinha pelo Almirante João Cândido na Revolta da Chibata, realçando a importância histórica, a coragem e as revolucionárias idéias do comandante negro. Outros sujeitos importantes da história cultural brasileira, como João do Rio, grande poeta e ativista negro, participam da trama. O texto apresenta o exercício de uma memória cultural afro-dialógica, produz um sujeito negro senhor do seu discurso e rompe a invisibilidade e a indizibilidade do negro na história político-brasileira. A peça oferece, ainda, a possibilidade de utilização cênica de uma série de recursos musicais e de jogos corporais, do amplo repertório das performances artístico-culturais afro descendentes, tornando possível a criação de uma paisagem cênica de amplo efeito sinestésico, sonoro e visual. Certa confusão cênica inicial pode ser resolvida pelo diretor e pelo próprio dramaturgo, durante os ensaios, contanto, se necessário com o auxílio dos dramaturgistas responsáveis pela seleção.

Atenciosamente

Leda Martins e Ângelo Flávio

————-

Debate depois de peça teatral é chato… mas é muito bom também.

É sim. Eu me lembro bem quando esta moda foi inventada ali pelos anos 70, como motivação para aquelas discussões mais cabeludas e clandestinas, numa época em que tudo que era público estava sob suspeição e podia ser censurado. Foi assim que se começou a promover reuniões mascaradas de pequenos e inocentes eventos artísticos (shows de ‘bolso’, peças de teatro, cineclubes com ‘filmes de arte’ etc.), mas que eram na verdade válvulas de escape para a nossa contida, porém determinada repulsa à Ditadura.

Hoje não há mais ditadura, certo? _”Falar mais do que se a peça já disse tudo?… Porque não vamos debater isto tudo num botequim?”_

Mas pensando bem, as ‘saias-justas’, sutilezas e tabus do racismo brasileiro bem que combinam com este tipo de evento cultural com um debate de quebra, não é não?)

Concordo que debate tem aquele negócio de parte da platéia ir, lentamente saindo de fininho, mas convenhamos: Tem lá o seu lado positivo para os que ficam ligados na conversa. E cá entre nós: sempre é bom ir para casa remoendo estas coisas sobre as quais tão pouco se fala. É tão difícil encontrar um papo destes por aí.

Tirando isto – ou por conta de tudo isto – o debate de ExuChibata (leia o texto integral da peça neste link) até que foi bem bacana. E mais: foi denso e curioso, pois a peça, com todas as caracteristicas de um teatro ‘épico’ (imagético’) com a dramaturgia inteiramente estruturada em cima do gestual,  das ações visíveis (pantomimas de circo, referencias cênicas à estética da belle èpoque’, adereços e legendas em tabuletas como alusão ao cinema mudo, etc.) não se prestava, exatamente – ja que tornava ‘invisível’ parte considerável do texto original – para um discurso expresso por falas de personagens que é o que caracteriza o formato Leitura Dramatizada convencional.

O desafio irrecorrível tornava a transcrição para o formato de ‘Leitura Dramatizada’, em suma bem complicado – o que fez ressaltar a larga experiência de Haroldo Costa e seu formidável elenco – ao conseguir a façanha de tornar ‘visível’ tal proposta cênica.

Bem, o certo é que, tanto quanto a leitura também rolou muito bem o debate. Os temas abordados, em parte suscitados pela peça (principalmente pela parte que ficou ‘invisível’ na leitura que o autor – este vosso criado – ansioso como estava, se sentiu na obrigação de ressaltar) foram temas bem pertinentes. Entre estes os mais candentes talvez tenham sido os seguintes:

1- Uma provável hegemonia de uma dramaturgia ‘branca’ (identificada como materializada pelo formato ‘drama’ e o palco italiano), exclue mesmo a possibilidade de uma estética negra vir a cena? Ou seja, o formato ‘Teatro épico’ (proposta estética da peça ExuChibata’) é o único formato onde um ‘Teatro Negro’ se tornaria, realmente possível?

(Você eu não sei, mas e achei que não. Os problemas da negritude no teatro para mim, residem muito mais na natureza dos conteúdos, das opções cênicas, no caráter das temáticas e , principalmente na estrutura dos personagens, em geral muito estereotipados por conta dos autores serem – do ponto de vista ideológico e cultural da expressão – quase sempre ‘brancos’)

2- Existiria mesmo uma estética exclusivamente ‘negra’ que pudesse ser expressa pelo teatro ou pela arte de maneira geral? Ou seja, os valores estéticos do teatro e da arte em geral não seriam, simplesmente universais, não tendo nada a ver com a eventual ‘negritude’ ou ‘branquitude’ dos grupos sociais?

(Eu disse lá que acho que existe sim uma ‘negritude’ estética, claro, do mesmo modo que existe uma estética ‘branca’, ‘européia’.)

A razão para mim é muito simples: para o bem ou para o mal, existe ampla diversidade cultural no Brasil (e não ‘mestiçagem‘ cultural, bem entendido) por conta de nossa extratificação social ser baseada na exclusão de grupos, supostamente ‘negros’ em benefício da hegemonia de grupos, pretensamente ‘brancos’)

Rolaram muitas outras questões e histórias imperdíveis. Uma das mais emocionantes foi aquela narrada pelo mestre Haroldo Costa sobre a trajetória do seminal  Teatro Experimental do Negro nos anos 40 (de Abdias do Nascimento, Haroldo Costa, o genial ator Aguinaldo Camargo, Léa Garcia e a diva Ruth de Souza, entre outros), núcleo gerador de inúmeros outros grupos de artistas negros, entre os quais a também citada luxuosa dissidência denominada Brasiliana de longa carreira internacional (5 anos de tournèe segundo Haroldo Costa seu criador e diretor), numa época de muita efervescência cultural – e sadios conflitos estéticos – no âmbito da afirmação de uma cultura negra popular urbana entre nós.

Não me ocorreu na hora, mas convém ressaltar agora que a principal estratégia de exclusão e invisibilização do negro nas artes cênicas (só questionada talvez pela criação do Teatro Experimental do Negro) foi, exatamente a de manter o negro confinado, restrito à prática de manifestações ditas folclóricas, de rua ou de culto – literalmente ‘Danças Dramáticas’ segundo Mario de Andrade – manifestações estas que, de um ponto de vista eminentemente teatral ou dramaturgico podem muito bem ser enquadradas como sendo, essencialmente… ‘Teatro Épico’.

(A propósito, a abaixo descrita Companhia de Danças Brasiliana – ‘épica‘ -, criada por Haroldo Costa como dissidência do acima citado Teatro Experimental do Negro‘dramático‘ – talvez já expressasse a existência desta talvez ilusória contradição.)

É óbvio (e o próprio Brecht por certo concordaria) que esta suposta dicotomia existente entre ‘Teatro épico‘ (supostamente ‘negro’, ‘popular’, ‘revolucionário’) e ‘Teatro dramático’ ( supostamente ‘branco’, burguês’, reacionário’) não passa obviamente de rasa ideologia de insanos,  não fazendo muito sentido no âmbito do exercício da  linguagem teatral real ou propriamente dita.

Aliás, o chamado ‘Circo-Teatro‘ – ou teatro ‘no circo’, mais precisamente – criado por atores, dramaturgos e encenadores circenses como os negros Benjamim de Oliveira e Eduardo das Neves ou o branco argentino Dom ‘Pepe’ Podesta, o ‘Pepino 88’ (não por acaso todos atores-palhaços na origem, filhos da Comedia Del’Arte)  já nos ensinou que as maneiras, estilos, gêneros  e formatos que se pode utilizar para se comunicar alguma idéia em teatro, são os mais diversos e inusitados, usando-se junto ou em separado a proposta cênica ou dramaturgica mais eficiente ou pertinente a cada caso (cada espaço cênico, cada tema, cada cultura, cada platéia, cada contexto enfim).

Teatro, portanto pode ser aqui ou ali, Preto ou Branco (ou pode ser também -porque não? – em Preto & Branco). A diversidade, a viva diferença também neste caso é uma lei irrevogável da nossa natureza.

Um mar sem começo nem final de conversas que seguem, já que o debate – como o espetáculo – não pode mesmo é parar.

————–

ExuChibata- Leitura dramatiza na Casa Laura Alvim 22 de Abril 2010

Com o valoroso elenco: Ricardo Romão, Maurício Gonçalves (ator convidado), Carlos Mutalla, Gizelle de Jesus, Sérgio Canízio, Múcio Medeiros, Paulo Cesar Soares, Ângelo Mayerhofer, Daniela Tibau, Alan Rocha, Victor Santana, Alex Borges.

Direção Haroldo Costa

Eu, emocionado autor estreante (no caso), agradecendo a todos os presentes com toda ênfase do mundo, repito feliz:

Maravilhosa experiência!

Spírito Santo
Abril 2010

Memória acesa da Favela querida



Favela do Largo da memória às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, Rio de Janeiro, década de 1940

————–

(É a tal história: É sempre bom manter a memória acesa. mais dia menos dia a lembrança viva nos salvará)

————–

FOGUEIRA DE QUASE UM QUILÔMETRO!
(Matéria publicada no jornal ‘Diário da Noite’ de 25/05/1942)

Fogueira de quase um quilômetro entre a Gávea e o Leblon

Queimada a “favela” do Largo da Memória – o sugestivo acontecimento de ontem

Desapareceu ontem a famosa “favela” do largo da Memória, entre os bairros da Gávea e Leblon. A extinção daquele disforme montão de casebres de latas e tábuas foi efetuada de modo inédito na crônica da nossa capital, foi efetuada a fogo.

Os pobres moradores da “favela” foram dias antes transferidos para o grande bairro (Ops!!) construído pela Prefeitura nos terrenos da Rua Marquês de São Vicente (Ops!!) , bairro verdadeiramente modêlo e que constitui um testemunho eloqüente da atenção devotada pelas autoridades municipais aos problemas de assistência social.

A destruição da “favela”, que compreendeu várias centenas de casebres, teve início às 15 horas aproximadamente, perante altas autoridades civis e militares, jornalistas e grande massa popular.

Entre os presentes viam-se o prefeito Henrique Dodsworth, coronel Justino de Albuquerque, secretário de Saúde e Assistência, o sr. Edson Passos, secretário de Viação e Obras Públicas, e coronel Aristarco Pessoa, comandante do Corpo de Bombeiros.

O grande incêndio foi ateado por dois contingentes do Corpo de Bombeiros, sob o comando do capitão Cipriano, do Posto do Leblon.

O fogo irrompeu simultaneamente em dez focos adredemente separados pelos bombeiros.

Em pouco tempo, a “favela” estava transformada numa enorme fogueira de quase um quilômetro de extensão.

A primeira chama foi ateada pelo prefeito Dodsworth, cujo gesto foi imediatamente seguido pelo ataque geral desfechado soldados colocados nos pontos estratégicos. A enorme fogueira ardeu durante longas horas, sob o controle dos bombeiros.

O sugestivo acontecimento, que veio demonstrar o carinho (ops!) com que são tratadas atualmente as classes pobres, foi filmado pela repartição governamental competente.

Destruição de outras “favelas”:

Por ocasião da destruição da “favela” do Largo da Memória, o prefeito e as demais autoridades presentes foram calorosamente ovacionadas pelo povo (ops!), que evidenciou, assim, o seu reconhecimento pela sábia política de assistência social empreendida pelo governo.

Nos comentários gerais salientava-se a necessidade da destruição imediata das demais “favelas” existentes nos diversos recantos da cidade. Aliás, essa é a intenção do governo municipal, no sentido de melhorar as condições de vida das classes pobres.

Na gravura que ilustra estas linhas aparecem dois impressionantes flagrantes da destruição da “favela” do Largo da Memória, quando as chamas devoraram os casebres condenados.

———–

Memória de favela

(André Decourt, comentando a foto acima na internet – mandada retirar daqui do post pelo autor  🙂

“Isso era uma vila proletária que abrigava os removidos da favela da Memória, no largo da Memória (ops!) aí do lado, eram grandes barracões compridos que abrigavam várias famílias.

Eles ficaram anos esperando a conclusão das obras do grande conjunto habitacional que nunca terminou (ops!), eles e outros que foram sendo incluídos nessa grupo de abrigados por políticos safados, que prometiam que eles seriam contemplados com apartamentos nesse conjunto.

Fiz uma série sobre o conjunto da Parque Proletário da Gávea em 2004…

———–

Viram só? Mais ou menos de 40 em 40 anos  (remember o ‘Bota Abaixo’ de Pereira Passos em 1904) eles queimam o arquivo (ou deixam a terra comer). Pois então? Recordar é ou não é reviver?

Acreditem: Morro de medo da frieza desta gente.

Spirito Santo
Abril 2010

(Leia também, do mesmo autor:  ‘FAVELÓPOLE‘)

Mbira de Muié


Creative Commons License


Stella Chiweshe toca o som da mãe do mundo

Só não é um papo tipo ‘você sabia?‘ porque isto, com quase toda certeza, você não sabia.

O incrível instrumento aí de cima, conhecido por alguns como ‘Mbira’, pode se chamar também, entre dezenas de outros nomes de ‘Kalimba’, ‘Sanza’, Mbuetete, ‘Kissange’(que é um dos nomes angolanos dele, que eu preferia por que foi assim que eu o conheci).  Pode se chamar até mesmo ‘Mutambazve‘ como se chama este modelo que a Stella toca lá na Inglaterra, no Zimbabwe  (de onde ela é) ou por aí.

O mais curioso é que a variedade de nomes nos informa o aspeco mais importante da questão:  A Mbira/Sanza é um instrumento generalizadamente africano, um fato assaz misterioso porque, mesmo eu que futuco estas coisas há tantos anos, não sei ainda exatamente nem quando nem em que lugar da África ela, a Mbira efetivamente surgiu.

Se você for  etnomusicólogo e souber de algo mais nos diga, pois, disto tirando a certeza de que é um instrumento típica e exclusivamente africano (talvez o único tão visceralmente africano) só temos sobre o assunto  indícios bastante vagos – e mais ou menos óbvios – como por exemplo: A Mbira/Sanza deve ter surgido na idade dos metais (do bronze talvez, no máxima na do ferro) da África, no âmbito de uma civilização tecnologicamente bem evoluída para a sua época,  muito provavelmente algum povo anterior ao do velho Egito dos faraós (talvez um povo chamado  Kush), a ponto de ter sido matriz das outras culturas que o sucederam.

Dali, de um ponto perto de onde o próprio ser humano surgiu, naquela área em torno dos grandes lagos africanos, com a decadência e a dispersão da civilização criada pela fusão dos povos dos grandes lagos e da bacia do baixo Nilo (em migrações que, em várias direções, espalharam gente por todo o continente africano, gerando povos ‘novos’ como os Ashanti, os Ewe (‘jejes’), os Igbo e os Yoruba (‘nagôs’) e para oeste, além dos BaKongo e outros para baixo, mais ao sul) o instrumento foi se espalhando, sendo usado hoje por quase todas as culturas, principalmente as do centro-oeste da África (como Angola), do sul e do sudeste (como Moçambique, na costa oriental) além do  Zimbabwe  (terra da Mbira mais sofisticada) e da África do Sul (de onde o nome kalimba parece ser oriundo).

Você não sabia de quase nada disto, certo? De que a Mbira ou Kissange era assim um enorme livro de história da África e do ser humano. Mas não se espante não. Todo instrumento de música é assim um volumoso livro de história, um dispositivo multimídia, audio-visual.

Agora o que, você não sabe mesmo (mas deveria saber) é que a Mbira/Sanza foi, até bem pouco tempo atrás (um pouco antes da abolição da escravatura) um instrumento popularíssimo no Brasil, na Corte do Rio de Janeiro, principalmente. Incrível não é mesmo? Sempre tivemos aqui a nossa grande África particular e nem nos tocávamos disto.

Músicos (escravos ‘de ganho’, provavelmente) tocam Mbiras (‘kalimbas’) numa festa de rua na Corte do Rio de Janeiro

Nós podíamos hoje estar tocando Mbira por aí. As crianças em vez de fumando Crack, bem que podiam estar fabricando Mbiras, tocando Mbiras, não é não? (viajei, sonhei alto agora, perdão)

Mas bem que falando nisto (em crianças perdidas, gente perdida, cultura perdida) vale a pergunta: O que você acha que impediu a nós, brasileiros de sermos usuários dependentes, viciados especialistas nesta música maravilhosa da Mbira? (Sim porque eu confesso que sou um incurável dependente do uso deste instrumento. Chego até a ser um traficante de música de  Mbira, se bem me entendem)

O racismo, minha gente. Sério. Foi ele que baniu de nossa alma e memória o som e os modos de fazer uma Mbira, a cultura, o hábito sadio de ouvir Mbira, o know how da coisa toda, enfim.

O racismo, minha gente (ou etnocentrismo, eurocentrismo, para os íntimos), entre outras sequelas, apagou em nós este rasgo de cultura ancestral, deixando morrer as técnicas de fabricação deste, entre tantos outros instrumentos, como morreram, desprezados, tratados como bestas humanas os últimos artistas artesãos, que vieram para cá como escravos.

…E eles – os escravistas e os racistas que os sucederam – não satisfeitos, ainda arrasaram e salgaram a terra de nossas lembranças, omitindo-as de quase todos os livros. Queima de arquivo, sabem como é ?

Mas veja: Eu disse ‘quase todos’ certo? É que a boa notícia é que nos sobraram sim, algumas pistas e vestígios, impressões digitais, evidências para que eu pudesse vir aqui contar pra vocês esta história.

É que – graças a um Rei culto que tivemos por aquí – nos sobraram as gravuras de Rugendas, Debret e tantos outros cronistas europeus, contratados ou  atraídos pela perspicácia culta do rei.

Você, branco ou preto, contudo não sabe muito bem porque não se deu conta disto antes, certo? Pois é. Normal. O que fazem de melhor neste país desmiolado é impedir a gente de saber das coisas, se aperceber de coisas que nos dizem respeito e que, coisas nossas que são estão bem ali, diante do nosso nariz.

É que juntando pacientemente os cacos, as fragnetárias pistas destas gravuras, com as profusas pistas africanas que estão por aí, as técnicas de se fazer e tocar Mbira voltaram a existir no Brasil. Sim. É sério. Eu mesmo já formei e  espalhei por aí alguns novos artesãos fazedores de Mbira. Agora sim: Entre outros lugares você pode aprender quase tudo sobre Mbiras, Kissanges e lamelofones (este é o nome técnico da Mbira) similares no Musikfabrik no Rio de Janeiro e seus projetos sucedâneos (siga o link) e seja feliz.

Agora não esqueça: Sempre que você ouvir este som de Mbira Mutambazve‘ tocada pela bela Stella Chiweshe, acredite que está ouvindo o som que nos evoca também a emoção musical do Brasil ideal, daquele país fraterno tricolor (mengão, bem entendido: vermelho, preto e branco) que poderíamos ter sido – e que talvez sejamos um dia, quero crer-  a prova cabal de que também habita em nossa alma incolor aquela música preta e mágica vinda dos confins do começo do mundo.

(É mesmo!Talvez tenha sido – com diz uma lenda, se não me engano do Zimbabwe – uma mulher tocando MbiraMutambazve‘ o ser maternal que nos pariu todas as coisas do mundo.)

Podes crer.

Spírito Santo
Abril 2010

EXUCHIBATA, a peça em Abril!


Como parte do Ciclo de Leituras dramatizadas de peças teatrais ‘Negro Olhar’, a peça EXUCHIBATA, de Spírito Santo, será apresentada no dia 22 de Abril às 19 hs. A leitura será dirigida por Haroldo Costa e terá a participação do ator Mauricio Gonçalves e grande elenco de jovens atores.

A peça sob a forma de teatro épico e imagético narra a saga de João Cândido Felisberto, o Almirante negro da Revolta da Chibata tendo como pano de fundo e contexto os fatos e acontecimentos além de formas artísticas e culturais em voga no início do século 20, tais como o Circo-teatro, o cinema mudo, o Candomblé e o Carnaval.

Um digno manifesto contra a indignidade



Nota de esclarecimento*

Nós, moradores de favelas de Niterói, fomos duramente atingidos por uma tragédia de grandes dimensões. Essa tragédia, mais do que resultado das chuvas, foi causada pela omissão do poder público.

A prefeitura de Niterói investe em obras milionárias para enfeitar a cidade e não faz as obras de infra-estrutura que poderiam salvar vidas. As comunidades de Niterói estão abandonadas à sua própria sorte.

Enquanto isso, com a conivência do poder público, a especulação imobiliária depreda o meio ambiente, ocupa o solo urbano de modo desordenado e submete toda a população à sua ganância.

Quando ainda escavamos a terra com nossas mãos para retirarmos os corpos das dezenas de mortos nos deslizamentos, ouvimos o prefeito Jorge Roberto Silveira, o secretário de obras Mocarzel, o governador Sérgio Cabral e o presidente Lula colocarem em nossas costas a culpa pela tragédia.

Estamos indignados, revoltados e recusamos essa culpa. Nossa dor está sendo usada para legitimar os projetos de remoção e retirar o nosso direito à cidade. Nós, favelados, somos parte da cidade e a construímos com nossas mãos e nosso suor.

Não podemos ser culpados por sofrermos com décadas de abandono, por sermos vítimas da brutal desigualdade social brasileira e de um modelo urbano excludente. Os que nos culpam, justamente no momento em que mais precisamos de apoio e solidariedade, jamais souberam o que é perder sua casa, seus pertences, sua vida e sua história em situações como a que vivemos agora.

Nossa indignação é ainda maior que nossa tristeza e, em respeito à nossa dor, exigimos o retratamento imediato das autoridades públicas. Ao invés de declarações que culpam a chuva ou os mortos, queremos o compromisso com políticas públicas que nos respeitem como cidadãos e seres humanos.

*Comitê de Mobilização e Solidariedade das Favelas de Niterói*, Associação de Moradores do Morro do Estado, Associação de Moradores do Morro da Chácara, Associação dos Profissionais e Amigos do Funk (APAFUNK), Movimento Direito pra Quem, Coletivo do Curso de Formação de Agentes Culturais Populares.”

————–

(Omitimos, propositalmente da lista de assinaturas o nome de parlamentares e entidades de classe para que não se confunda este manifesto com um documento relacionado à presente campanha eleitoral)

Leia também, do mesmo autor: ‘FAVELÓPOLE