Setembro Expo Musikfabrik na Uerj


ALÔ, ALÔ GALERA!! Foi dada a partida para a exposição Musikfabrik na galeria Candido Portinari na Uerj, promovida pelo Departamento Cultural (Decult) da universidade.

O Projeto Musikfabrik , evoluiu de um projeto de extensão idealizado na Uerj pelo músico e arte educador Antônio José do Espírito Santo (Spírito Santo), a partir de um curso-oficina criado em 1995 junto ao Departamento Cultural desta universidade sendo a proposta básica do projeto inspirada nas pesquisas praticadas entre os anos 70 e 80, pelo grupo musical Vissungo.

Se liga:Será em 15 de Setembro próximo.

Alunos e colaboradores que estiverem interessados, são bem vindos – e necessários – para o mutirão da restauração e/ou fabricação de novas peças.

Vamos expor um amplo panorama de tudo que fizemos de mais representativo na área da invenção e da reconstituição de instrumentos.

Garantida também uma ou outra pequena canja da Banda Musikfabrik, de músicos e trabalhos musicais de projetos sucedâneos, afiliados ou co-irmãos.

Se você foi aluno do Musikfabrik e construiu algum instrumento interessante ou curioso – ou mesmo comprou de nós –  que ainda está em seu poder, nos procure. Seu instrumento pode ser escolhido pela nossa curadoria para integrar a sensacional e inusitada mostra.

Um ‘Negro Olhar’ sobre ExuChibata


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A Diva Ruth de Souza emocionadamente honrada no palco de ‘Negro Olhar’ em 21 de Abril. Foto de Eduardo Mello em O’Globo.

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A primeira leitura dramatizada ninguém esquece

Rolou a leitura dramatizada de ExuChibata! Emoção inenarrável. Foi ontem, 22 de Abril de 2010.

A leitura fez parte do II Ciclo de leituras dramatizadas de autores negros Negro Olhar, edição 2010, coordenado por Tatiana Tibúrcio. No Contexto do projeto, além dos dois ‘jovens’ autores estreantes, rolam também leituras de textos de autores consagrados como Cuti (com a sensacional drama‘Transegun‘, encenado por um afiadíssimo elenco ), o norte americano Amiri Baraka, com ‘Dutchman‘ e o emblemático Aimè Cesaire, com a negritude emocionada de sua versão caribenha para ‘A Tempestade’ de Shakespeare (confira no flyer)

A comissão Julgadora composta por Leda Martins e Ângelo Flávio, responsável pela seleção dos dois novos autores justificou assim a sua escolha:

Após análise criteriosa dos textos dramáticos a nós enviados para seleção, nós, Leda Martins e Ângelo Flávio, selecionamos para a leitura dramática do projeto Negro Olhar, edição 2010, as seguintes peças:

1. Exu Chibata, de Spírito Santo
2. Namíbia, não!, de Audry Conceição

Considerações Gerais sobre a obra:

Exu Chibata

O texto apresenta a história combativa na marinha pelo Almirante João Cândido na Revolta da Chibata, realçando a importância histórica, a coragem e as revolucionárias idéias do comandante negro. Outros sujeitos importantes da história cultural brasileira, como João do Rio, grande poeta e ativista negro, participam da trama. O texto apresenta o exercício de uma memória cultural afro-dialógica, produz um sujeito negro senhor do seu discurso e rompe a invisibilidade e a indizibilidade do negro na história político-brasileira. A peça oferece, ainda, a possibilidade de utilização cênica de uma série de recursos musicais e de jogos corporais, do amplo repertório das performances artístico-culturais afro descendentes, tornando possível a criação de uma paisagem cênica de amplo efeito sinestésico, sonoro e visual. Certa confusão cênica inicial pode ser resolvida pelo diretor e pelo próprio dramaturgo, durante os ensaios, contanto, se necessário com o auxílio dos dramaturgistas responsáveis pela seleção.

Atenciosamente

Leda Martins e Ângelo Flávio

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Debate depois de peça teatral é chato… mas é muito bom também.

É sim. Eu me lembro bem quando esta moda foi inventada ali pelos anos 70, como motivação para aquelas discussões mais cabeludas e clandestinas, numa época em que tudo que era público estava sob suspeição e podia ser censurado. Foi assim que se começou a promover reuniões mascaradas de pequenos e inocentes eventos artísticos (shows de ‘bolso’, peças de teatro, cineclubes com ‘filmes de arte’ etc.), mas que eram na verdade válvulas de escape para a nossa contida, porém determinada repulsa à Ditadura.

Hoje não há mais ditadura, certo? _”Falar mais do que se a peça já disse tudo?… Porque não vamos debater isto tudo num botequim?”_

Mas pensando bem, as ‘saias-justas’, sutilezas e tabus do racismo brasileiro bem que combinam com este tipo de evento cultural com um debate de quebra, não é não?)

Concordo que debate tem aquele negócio de parte da platéia ir, lentamente saindo de fininho, mas convenhamos: Tem lá o seu lado positivo para os que ficam ligados na conversa. E cá entre nós: sempre é bom ir para casa remoendo estas coisas sobre as quais tão pouco se fala. É tão difícil encontrar um papo destes por aí.

Tirando isto – ou por conta de tudo isto – o debate de ExuChibata (leia o texto integral da peça neste link) até que foi bem bacana. E mais: foi denso e curioso, pois a peça, com todas as caracteristicas de um teatro ‘épico’ (imagético’) com a dramaturgia inteiramente estruturada em cima do gestual,  das ações visíveis (pantomimas de circo, referencias cênicas à estética da belle èpoque’, adereços e legendas em tabuletas como alusão ao cinema mudo, etc.) não se prestava, exatamente – ja que tornava ‘invisível’ parte considerável do texto original – para um discurso expresso por falas de personagens que é o que caracteriza o formato Leitura Dramatizada convencional.

O desafio irrecorrível tornava a transcrição para o formato de ‘Leitura Dramatizada’, em suma bem complicado – o que fez ressaltar a larga experiência de Haroldo Costa e seu formidável elenco – ao conseguir a façanha de tornar ‘visível’ tal proposta cênica.

Bem, o certo é que, tanto quanto a leitura também rolou muito bem o debate. Os temas abordados, em parte suscitados pela peça (principalmente pela parte que ficou ‘invisível’ na leitura que o autor – este vosso criado – ansioso como estava, se sentiu na obrigação de ressaltar) foram temas bem pertinentes. Entre estes os mais candentes talvez tenham sido os seguintes:

1- Uma provável hegemonia de uma dramaturgia ‘branca’ (identificada como materializada pelo formato ‘drama’ e o palco italiano), exclue mesmo a possibilidade de uma estética negra vir a cena? Ou seja, o formato ‘Teatro épico’ (proposta estética da peça ExuChibata’) é o único formato onde um ‘Teatro Negro’ se tornaria, realmente possível?

(Você eu não sei, mas e achei que não. Os problemas da negritude no teatro para mim, residem muito mais na natureza dos conteúdos, das opções cênicas, no caráter das temáticas e , principalmente na estrutura dos personagens, em geral muito estereotipados por conta dos autores serem – do ponto de vista ideológico e cultural da expressão – quase sempre ‘brancos’)

2- Existiria mesmo uma estética exclusivamente ‘negra’ que pudesse ser expressa pelo teatro ou pela arte de maneira geral? Ou seja, os valores estéticos do teatro e da arte em geral não seriam, simplesmente universais, não tendo nada a ver com a eventual ‘negritude’ ou ‘branquitude’ dos grupos sociais?

(Eu disse lá que acho que existe sim uma ‘negritude’ estética, claro, do mesmo modo que existe uma estética ‘branca’, ‘européia’.)

A razão para mim é muito simples: para o bem ou para o mal, existe ampla diversidade cultural no Brasil (e não ‘mestiçagem‘ cultural, bem entendido) por conta de nossa extratificação social ser baseada na exclusão de grupos, supostamente ‘negros’ em benefício da hegemonia de grupos, pretensamente ‘brancos’)

Rolaram muitas outras questões e histórias imperdíveis. Uma das mais emocionantes foi aquela narrada pelo mestre Haroldo Costa sobre a trajetória do seminal  Teatro Experimental do Negro nos anos 40 (de Abdias do Nascimento, Haroldo Costa, o genial ator Aguinaldo Camargo, Léa Garcia e a diva Ruth de Souza, entre outros), núcleo gerador de inúmeros outros grupos de artistas negros, entre os quais a também citada luxuosa dissidência denominada Brasiliana de longa carreira internacional (5 anos de tournèe segundo Haroldo Costa seu criador e diretor), numa época de muita efervescência cultural – e sadios conflitos estéticos – no âmbito da afirmação de uma cultura negra popular urbana entre nós.

Não me ocorreu na hora, mas convém ressaltar agora que a principal estratégia de exclusão e invisibilização do negro nas artes cênicas (só questionada talvez pela criação do Teatro Experimental do Negro) foi, exatamente a de manter o negro confinado, restrito à prática de manifestações ditas folclóricas, de rua ou de culto – literalmente ‘Danças Dramáticas’ segundo Mario de Andrade – manifestações estas que, de um ponto de vista eminentemente teatral ou dramaturgico podem muito bem ser enquadradas como sendo, essencialmente… ‘Teatro Épico’.

(A propósito, a abaixo descrita Companhia de Danças Brasiliana – ‘épica‘ -, criada por Haroldo Costa como dissidência do acima citado Teatro Experimental do Negro‘dramático‘ – talvez já expressasse a existência desta talvez ilusória contradição.)

É óbvio (e o próprio Brecht por certo concordaria) que esta suposta dicotomia existente entre ‘Teatro épico‘ (supostamente ‘negro’, ‘popular’, ‘revolucionário’) e ‘Teatro dramático’ ( supostamente ‘branco’, burguês’, reacionário’) não passa obviamente de rasa ideologia de insanos,  não fazendo muito sentido no âmbito do exercício da  linguagem teatral real ou propriamente dita.

Aliás, o chamado ‘Circo-Teatro‘ – ou teatro ‘no circo’, mais precisamente – criado por atores, dramaturgos e encenadores circenses como os negros Benjamim de Oliveira e Eduardo das Neves ou o branco argentino Dom ‘Pepe’ Podesta, o ‘Pepino 88’ (não por acaso todos atores-palhaços na origem, filhos da Comedia Del’Arte)  já nos ensinou que as maneiras, estilos, gêneros  e formatos que se pode utilizar para se comunicar alguma idéia em teatro, são os mais diversos e inusitados, usando-se junto ou em separado a proposta cênica ou dramaturgica mais eficiente ou pertinente a cada caso (cada espaço cênico, cada tema, cada cultura, cada platéia, cada contexto enfim).

Teatro, portanto pode ser aqui ou ali, Preto ou Branco (ou pode ser também -porque não? – em Preto & Branco). A diversidade, a viva diferença também neste caso é uma lei irrevogável da nossa natureza.

Um mar sem começo nem final de conversas que seguem, já que o debate – como o espetáculo – não pode mesmo é parar.

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ExuChibata- Leitura dramatiza na Casa Laura Alvim 22 de Abril 2010

Com o valoroso elenco: Ricardo Romão, Maurício Gonçalves (ator convidado), Carlos Mutalla, Gizelle de Jesus, Sérgio Canízio, Múcio Medeiros, Paulo Cesar Soares, Ângelo Mayerhofer, Daniela Tibau, Alan Rocha, Victor Santana, Alex Borges.

Direção Haroldo Costa

Eu, emocionado autor estreante (no caso), agradecendo a todos os presentes com toda ênfase do mundo, repito feliz:

Maravilhosa experiência!

Spírito Santo
Abril 2010

Memória acesa da Favela querida



Favela do Largo da memória às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, Rio de Janeiro, década de 1940

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(É a tal história: É sempre bom manter a memória acesa. mais dia menos dia a lembrança viva nos salvará)

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FOGUEIRA DE QUASE UM QUILÔMETRO!
(Matéria publicada no jornal ‘Diário da Noite’ de 25/05/1942)

Fogueira de quase um quilômetro entre a Gávea e o Leblon

Queimada a “favela” do Largo da Memória – o sugestivo acontecimento de ontem

Desapareceu ontem a famosa “favela” do largo da Memória, entre os bairros da Gávea e Leblon. A extinção daquele disforme montão de casebres de latas e tábuas foi efetuada de modo inédito na crônica da nossa capital, foi efetuada a fogo.

Os pobres moradores da “favela” foram dias antes transferidos para o grande bairro (Ops!!) construído pela Prefeitura nos terrenos da Rua Marquês de São Vicente (Ops!!) , bairro verdadeiramente modêlo e que constitui um testemunho eloqüente da atenção devotada pelas autoridades municipais aos problemas de assistência social.

A destruição da “favela”, que compreendeu várias centenas de casebres, teve início às 15 horas aproximadamente, perante altas autoridades civis e militares, jornalistas e grande massa popular.

Entre os presentes viam-se o prefeito Henrique Dodsworth, coronel Justino de Albuquerque, secretário de Saúde e Assistência, o sr. Edson Passos, secretário de Viação e Obras Públicas, e coronel Aristarco Pessoa, comandante do Corpo de Bombeiros.

O grande incêndio foi ateado por dois contingentes do Corpo de Bombeiros, sob o comando do capitão Cipriano, do Posto do Leblon.

O fogo irrompeu simultaneamente em dez focos adredemente separados pelos bombeiros.

Em pouco tempo, a “favela” estava transformada numa enorme fogueira de quase um quilômetro de extensão.

A primeira chama foi ateada pelo prefeito Dodsworth, cujo gesto foi imediatamente seguido pelo ataque geral desfechado soldados colocados nos pontos estratégicos. A enorme fogueira ardeu durante longas horas, sob o controle dos bombeiros.

O sugestivo acontecimento, que veio demonstrar o carinho (ops!) com que são tratadas atualmente as classes pobres, foi filmado pela repartição governamental competente.

Destruição de outras “favelas”:

Por ocasião da destruição da “favela” do Largo da Memória, o prefeito e as demais autoridades presentes foram calorosamente ovacionadas pelo povo (ops!), que evidenciou, assim, o seu reconhecimento pela sábia política de assistência social empreendida pelo governo.

Nos comentários gerais salientava-se a necessidade da destruição imediata das demais “favelas” existentes nos diversos recantos da cidade. Aliás, essa é a intenção do governo municipal, no sentido de melhorar as condições de vida das classes pobres.

Na gravura que ilustra estas linhas aparecem dois impressionantes flagrantes da destruição da “favela” do Largo da Memória, quando as chamas devoraram os casebres condenados.

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Memória de favela

(André Decourt, comentando a foto acima na internet – mandada retirar daqui do post pelo autor  🙂

“Isso era uma vila proletária que abrigava os removidos da favela da Memória, no largo da Memória (ops!) aí do lado, eram grandes barracões compridos que abrigavam várias famílias.

Eles ficaram anos esperando a conclusão das obras do grande conjunto habitacional que nunca terminou (ops!), eles e outros que foram sendo incluídos nessa grupo de abrigados por políticos safados, que prometiam que eles seriam contemplados com apartamentos nesse conjunto.

Fiz uma série sobre o conjunto da Parque Proletário da Gávea em 2004…

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Viram só? Mais ou menos de 40 em 40 anos  (remember o ‘Bota Abaixo’ de Pereira Passos em 1904) eles queimam o arquivo (ou deixam a terra comer). Pois então? Recordar é ou não é reviver?

Acreditem: Morro de medo da frieza desta gente.

Spirito Santo
Abril 2010

(Leia também, do mesmo autor:  ‘FAVELÓPOLE‘)

Mbira de Muié


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Stella Chiweshe toca o som da mãe do mundo

Só não é um papo tipo ‘você sabia?‘ porque isto, com quase toda certeza, você não sabia.

O incrível instrumento aí de cima, conhecido por alguns como ‘Mbira’, pode se chamar também, entre dezenas de outros nomes de ‘Kalimba’, ‘Sanza’, Mbuetete, ‘Kissange’(que é um dos nomes angolanos dele, que eu preferia por que foi assim que eu o conheci).  Pode se chamar até mesmo ‘Mutambazve‘ como se chama este modelo que a Stella toca lá na Inglaterra, no Zimbabwe  (de onde ela é) ou por aí.

O mais curioso é que a variedade de nomes nos informa o aspeco mais importante da questão:  A Mbira/Sanza é um instrumento generalizadamente africano, um fato assaz misterioso porque, mesmo eu que futuco estas coisas há tantos anos, não sei ainda exatamente nem quando nem em que lugar da África ela, a Mbira efetivamente surgiu.

Se você for  etnomusicólogo e souber de algo mais nos diga, pois, disto tirando a certeza de que é um instrumento típica e exclusivamente africano (talvez o único tão visceralmente africano) só temos sobre o assunto  indícios bastante vagos – e mais ou menos óbvios – como por exemplo: A Mbira/Sanza deve ter surgido na idade dos metais (do bronze talvez, no máxima na do ferro) da África, no âmbito de uma civilização tecnologicamente bem evoluída para a sua época,  muito provavelmente algum povo anterior ao do velho Egito dos faraós (talvez um povo chamado  Kush), a ponto de ter sido matriz das outras culturas que o sucederam.

Dali, de um ponto perto de onde o próprio ser humano surgiu, naquela área em torno dos grandes lagos africanos, com a decadência e a dispersão da civilização criada pela fusão dos povos dos grandes lagos e da bacia do baixo Nilo (em migrações que, em várias direções, espalharam gente por todo o continente africano, gerando povos ‘novos’ como os Ashanti, os Ewe (‘jejes’), os Igbo e os Yoruba (‘nagôs’) e para oeste, além dos BaKongo e outros para baixo, mais ao sul) o instrumento foi se espalhando, sendo usado hoje por quase todas as culturas, principalmente as do centro-oeste da África (como Angola), do sul e do sudeste (como Moçambique, na costa oriental) além do  Zimbabwe  (terra da Mbira mais sofisticada) e da África do Sul (de onde o nome kalimba parece ser oriundo).

Você não sabia de quase nada disto, certo? De que a Mbira ou Kissange era assim um enorme livro de história da África e do ser humano. Mas não se espante não. Todo instrumento de música é assim um volumoso livro de história, um dispositivo multimídia, audio-visual.

Agora o que, você não sabe mesmo (mas deveria saber) é que a Mbira/Sanza foi, até bem pouco tempo atrás (um pouco antes da abolição da escravatura) um instrumento popularíssimo no Brasil, na Corte do Rio de Janeiro, principalmente. Incrível não é mesmo? Sempre tivemos aqui a nossa grande África particular e nem nos tocávamos disto.

Músicos (escravos ‘de ganho’, provavelmente) tocam Mbiras (‘kalimbas’) numa festa de rua na Corte do Rio de Janeiro

Nós podíamos hoje estar tocando Mbira por aí. As crianças em vez de fumando Crack, bem que podiam estar fabricando Mbiras, tocando Mbiras, não é não? (viajei, sonhei alto agora, perdão)

Mas bem que falando nisto (em crianças perdidas, gente perdida, cultura perdida) vale a pergunta: O que você acha que impediu a nós, brasileiros de sermos usuários dependentes, viciados especialistas nesta música maravilhosa da Mbira? (Sim porque eu confesso que sou um incurável dependente do uso deste instrumento. Chego até a ser um traficante de música de  Mbira, se bem me entendem)

O racismo, minha gente. Sério. Foi ele que baniu de nossa alma e memória o som e os modos de fazer uma Mbira, a cultura, o hábito sadio de ouvir Mbira, o know how da coisa toda, enfim.

O racismo, minha gente (ou etnocentrismo, eurocentrismo, para os íntimos), entre outras sequelas, apagou em nós este rasgo de cultura ancestral, deixando morrer as técnicas de fabricação deste, entre tantos outros instrumentos, como morreram, desprezados, tratados como bestas humanas os últimos artistas artesãos, que vieram para cá como escravos.

…E eles – os escravistas e os racistas que os sucederam – não satisfeitos, ainda arrasaram e salgaram a terra de nossas lembranças, omitindo-as de quase todos os livros. Queima de arquivo, sabem como é ?

Mas veja: Eu disse ‘quase todos’ certo? É que a boa notícia é que nos sobraram sim, algumas pistas e vestígios, impressões digitais, evidências para que eu pudesse vir aqui contar pra vocês esta história.

É que – graças a um Rei culto que tivemos por aquí – nos sobraram as gravuras de Rugendas, Debret e tantos outros cronistas europeus, contratados ou  atraídos pela perspicácia culta do rei.

Você, branco ou preto, contudo não sabe muito bem porque não se deu conta disto antes, certo? Pois é. Normal. O que fazem de melhor neste país desmiolado é impedir a gente de saber das coisas, se aperceber de coisas que nos dizem respeito e que, coisas nossas que são estão bem ali, diante do nosso nariz.

É que juntando pacientemente os cacos, as fragnetárias pistas destas gravuras, com as profusas pistas africanas que estão por aí, as técnicas de se fazer e tocar Mbira voltaram a existir no Brasil. Sim. É sério. Eu mesmo já formei e  espalhei por aí alguns novos artesãos fazedores de Mbira. Agora sim: Entre outros lugares você pode aprender quase tudo sobre Mbiras, Kissanges e lamelofones (este é o nome técnico da Mbira) similares no Musikfabrik no Rio de Janeiro e seus projetos sucedâneos (siga o link) e seja feliz.

Agora não esqueça: Sempre que você ouvir este som de Mbira Mutambazve‘ tocada pela bela Stella Chiweshe, acredite que está ouvindo o som que nos evoca também a emoção musical do Brasil ideal, daquele país fraterno tricolor (mengão, bem entendido: vermelho, preto e branco) que poderíamos ter sido – e que talvez sejamos um dia, quero crer-  a prova cabal de que também habita em nossa alma incolor aquela música preta e mágica vinda dos confins do começo do mundo.

(É mesmo!Talvez tenha sido – com diz uma lenda, se não me engano do Zimbabwe – uma mulher tocando MbiraMutambazve‘ o ser maternal que nos pariu todas as coisas do mundo.)

Podes crer.

Spírito Santo
Abril 2010

EXUCHIBATA, a peça em Abril!


Como parte do Ciclo de Leituras dramatizadas de peças teatrais ‘Negro Olhar’, a peça EXUCHIBATA, de Spírito Santo, será apresentada no dia 22 de Abril às 19 hs. A leitura será dirigida por Haroldo Costa e terá a participação do ator Mauricio Gonçalves e grande elenco de jovens atores.

A peça sob a forma de teatro épico e imagético narra a saga de João Cândido Felisberto, o Almirante negro da Revolta da Chibata tendo como pano de fundo e contexto os fatos e acontecimentos além de formas artísticas e culturais em voga no início do século 20, tais como o Circo-teatro, o cinema mudo, o Candomblé e o Carnaval.

Um digno manifesto contra a indignidade



Nota de esclarecimento*

Nós, moradores de favelas de Niterói, fomos duramente atingidos por uma tragédia de grandes dimensões. Essa tragédia, mais do que resultado das chuvas, foi causada pela omissão do poder público.

A prefeitura de Niterói investe em obras milionárias para enfeitar a cidade e não faz as obras de infra-estrutura que poderiam salvar vidas. As comunidades de Niterói estão abandonadas à sua própria sorte.

Enquanto isso, com a conivência do poder público, a especulação imobiliária depreda o meio ambiente, ocupa o solo urbano de modo desordenado e submete toda a população à sua ganância.

Quando ainda escavamos a terra com nossas mãos para retirarmos os corpos das dezenas de mortos nos deslizamentos, ouvimos o prefeito Jorge Roberto Silveira, o secretário de obras Mocarzel, o governador Sérgio Cabral e o presidente Lula colocarem em nossas costas a culpa pela tragédia.

Estamos indignados, revoltados e recusamos essa culpa. Nossa dor está sendo usada para legitimar os projetos de remoção e retirar o nosso direito à cidade. Nós, favelados, somos parte da cidade e a construímos com nossas mãos e nosso suor.

Não podemos ser culpados por sofrermos com décadas de abandono, por sermos vítimas da brutal desigualdade social brasileira e de um modelo urbano excludente. Os que nos culpam, justamente no momento em que mais precisamos de apoio e solidariedade, jamais souberam o que é perder sua casa, seus pertences, sua vida e sua história em situações como a que vivemos agora.

Nossa indignação é ainda maior que nossa tristeza e, em respeito à nossa dor, exigimos o retratamento imediato das autoridades públicas. Ao invés de declarações que culpam a chuva ou os mortos, queremos o compromisso com políticas públicas que nos respeitem como cidadãos e seres humanos.

*Comitê de Mobilização e Solidariedade das Favelas de Niterói*, Associação de Moradores do Morro do Estado, Associação de Moradores do Morro da Chácara, Associação dos Profissionais e Amigos do Funk (APAFUNK), Movimento Direito pra Quem, Coletivo do Curso de Formação de Agentes Culturais Populares.”

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(Omitimos, propositalmente da lista de assinaturas o nome de parlamentares e entidades de classe para que não se confunda este manifesto com um documento relacionado à presente campanha eleitoral)

Leia também, do mesmo autor: ‘FAVELÓPOLE

Mama mia! Será que a velha esquerda pirou?



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Nacional-Estatismo? Como assim?

Juro por Deus que não estou influenciado pela campanha que se inaugurou por estes dias. Se querem mesmo saber detesto política partidária, ainda mais esta que predomina hoje em dia entre nós. Lavo minhas mãos. Não tenho lado algum a defender nesta pendenga, até porque já aprendi com a idade que não se ganha mesmo quase nada com este tipo de torcida. Política, definitivamente não é futebol.

O que eu gostava mesmo e amava de paixão era da utopia da revolução real, a sociedade mudando radicalmente pelo esforço organizado de uma maioria para algo, pelo menos, um pouco melhor para todos, sem distinção.

Mas, utopias à parte, convenhamos: Com esta idade não dá mais para ser enganado e ficar calado, nem por mera desconfiança. É, pois, por via destas dúvidas todas que, ainda pasmo, comento enfaticamente:

Sabe o Daniel Aarão Reis aquele ex-militante da nossa valorosa esquerda revolucionária, ex-preso político e hoje festejado professor de história contemporânea da Universidade Federal Fluminense? Pois não é que lendo um artigo dele hoje (11 de abril 2010) em O’Globo fiquei sabendo que ele defende (meio que timidamente na verdade, na base da  tergiversação, cheio de ‘data vênias’ como um advogado do diabo) uma tese que eu julgava ser indefensável, uma heresia para qualquer intelectual mais sério e comprometido com a evolução do país?

Pois é. A tese é a de um tal de Nacional-estatismo. Vocês sabem o que é isto? (Li por aqui no google que é uma teoria bem manjada por historiadores em geral) Gente de Deus, será que não sei mais ler? Será que existem na tese algumas bem escondidas entrelinhas, algo louvável, considerável que me escapou à compreensão?

Senão vejam vocês mesmos.

…”Depois da restauração democrática, ao longo dos anos 1980 1990, o nacional-estatismo defendido por várias forças de esquerda, resistiria ao vendaval do liberalismo triunfante.

A tese desenvolvida na matéria de O’ Globo se intitula ‘Uma cultura política: O Nacional-estatismo’ (leia a matéria completa neste link) e é defendida de maneira, estranhamente distanciada e escorregadia por Aarão Reis, de modo que só com muita atenção se percebe que ele, na verdade demonstra franca simpatia pela idéia.

“…Sob o conceito vago de populismo, construído por uma certa sociologia paulista todas estas forças tentaram então apresentar o nacional-estatismo como um projeto malsão por natureza, manipulador e corruptor. Virou quase um senso comum a a associação dos líderes populistas ao que de pior existe nos costumes políticos: Demagogia, mistificação, desvio de dinheiros públicos.”

Difícil acreditar, mas pelo que entendi o Daniel endossa, com a luxuosa argumentação de historiador brilhante que é sabe o que? O populismo, gente. Isto mesmo: Um populismo fashion, reciclado, mas no fundo no fundo aquele mesmo populismo escroque que ora nos rodeia:

Sacaram a sutileza? Nacional-estatismo, seria algo assim como o estado assumindo para si algumas funções que deveriam ser, na verdade, da sociedade organizada em nome, naturalmente de uma figura de retórica vulgarmente chamada de povo, no nosso caso uma triste massa miserável e despolitizada que mal tem o que comer.

Chamávamos isto, exatamente – e com franco desdém – de populismo, não lembram não? E de outros nomes até mais feios ainda como clientelismo, assistencialismo, caudilhismo (que era quando um líder carismático e vaidoso liderava com mão de ferro o processo todo, por intermédio de artimanhas personalistas com uma turba de militantes fanáticos fazendo coro e pressão).

Sacam este filme? Pois então. Ao que tudo indica é isto mesmo o que o bem enunciado conceito proposto pelo Daniel encobre, por trás de jargões e panos vermelhos.

Conheço, como vocês, a tendência. Ela tem sido flagrada facilmente no firme apreço do governo Lula por Hugo Chavez, as ropitchas vermelhas que Lula e Dilma desfilam por aí, os casaquinhos bolivianos presenteados por Evo Morales ao hermano do Brasil, os mimos de nosso ministério das relações exteriores ao Armadinejah, símbolos evidentes de uma tendência populista que eu considerava apenas um desvio exclusivo do confuso pragmatismo ideológico da cúpula mal letrada do PT e de nosso presidente.

A grita da oposição também é facilmente compreensível: Como semelhante propósito (este esdrúxulo nacionalismo estatal) não se coaduna com as regras e os preceitos mais comezinhos atualmente vigentes nas democracias modernas, a prática tem sido, veementemente criticada, considerada altamente condenável para muitos setores da sociedade (notadamente os tribunais eleitorais). Daniel tem toda razão, portanto quando pontua que esta prática arcaica, sempre foi, com toda certeza associada pelos sociólogos mais progressistas – e não apenas os paulistas – com o Populismo Clássico mais deplorável.

Me lembro muito bem que esta praga autoritária, tão comum na política latino-americana sempre foi combatida pela esquerda…moderna, inclusive aquela que se reuniu para a criação do PT.

É fácil se saber porque. Se nossa constituição mesmo tão remendada como é não prevê este tipo de governança, afinal, quem daria o aval e a legitimidade para um governo Nacional-estatista se instalar? O povo semi analfabeto e faminto, que vive à mercê de programas assistencialistas?

Por outro lado, quais seriam as áreas e instâncias da administração pública passíveis de serem estatizadas, controladas pelo estado? Quem decidiria sobre isto? Consultas plebiscitárias? O Ibope? E a imprensa? Sofreria algum tipo de controle estatal? E a justiça? haveriam tribunais especiais controlados pelo governo, arbitrando sobre questões consideradas…de estado? Seria justo ou confiável um governo baseado em premissas tão mal amarradas?

Pois bem, para Daniel Aarão Reis este Nacional-Estatismo, só seria populismo mesmo para uns poucos difamadores da ‘elite’. Populismo sim, mas apenas em termos já que, em diversas circunstancias históricas o conceito teria sido adotado com sucesso como política de governo por estados tanto da direita quanto da esquerda, ou seja, uma prática que não devia ter sido tão demonizada assim por ser, dependendo das circunstancias de algum modo válida, útil.

Que papo é este, meu irmão? Que conversa mais fiada.

Ora, não é preciso nenhuma sutileza de raciocínio para se perceber que Aarão, ao citar as tais ‘forças’ opositoras, está se referindo de forma transversa ao PSDB de FHC e Serra, espécie de paladinos de uma suposta ‘santa aliança’ que preconizaria o Neo liberalismo, elite esta formada também por todos os opositores do governo, a vaga oposição ‘golpista‘ que, diga-se de passagem, coincidentemente com muitos pontos de acerto, associam o PT do Lula a todas estas características… populistas.

Mas cá entre nós, quem não sabe ainda que a Demagogia, a mistificação e o desvio de dinheiros públicos, infelizmente tem sido marcas bem visíveis nas práticas dos governos ligados ao PT? Alguém aí já se esqueceu daqueles vexatórios escândalos mal explicados que marcaram os últimos 8 anos da Brasília governista atual, do estado-maior Petista caído em desgraça, enfim?

Quem ainda não percebeu que no discurso destas correntes, pretensamente de esquerda a ética foi feita letra morta, substituída por máximas supostamente pragamático-imperiais do tipo ‘O estado sou eu’ ( l’etàt c’est moi’, lembram? aquela frase ridícula do absolutista Luiz XIV)

Seria o PT das entranhas já em campanha acirrada para se perpetuar no poder? Aquele clandestino partido cujos líderes de fato vivem imersos na penumbra por que tem problemas cabeludos a tratar com a justiça? Seria este PT das sombras propondo – e de forma desastrada ao que parece – um programa de governo parecido com o Estado Novo de Getúlio Vargas. Bem esquisito isto, não é não? Ainda mais vindo de um partido de esquerda… Convenhamos, dirigismo estatal não era coisa de ditaduras?

O Nacional-estatismo na tese escorregadia de Aarão Reis, ao que tudo indica seria o que professam hoje Chavez, Evo Morales, Armadinejah, Raul Castro e… Lula da Silva. Só que Daniel esqueceu de considerar que Mussolini, Franco e Hitler, cada um em seu contexto, também surfaram, exatamente numa praia bem ao lado desta (nacional-socialismo e fascismo) e deu no que deu.

Mas espera aí: a crítica ao populismo que nos avacalhava a moral e os bons costumes, a denuncia do fascismo, da ditadura estatal, do terrorismo de estado, não foram as bandeiras mais tremuladas nas campanhas pela nossa democratização? Não foi pela democracia plena que tanta gente lutou e morreu neste país?

Com efeito, lá para as tantas, em sua defesa ambígua que recicla o populismo velho de guerra, Aarão cita, positivamente pasmem…Ernesto Geisel (usado como argumento de que direita e esquerda, cada uma a seu tempo, a certa altura de seus governos caíram em si para adotar o nacional-estatismo como uma opção válida). E segue em sua tese… ‘revisionista’ o nosso surpreendente Daniel:

“…Esta cultura política suscitou a oposição de forças poderosas e heterogêneas, de direita e de esquerda. As direitas, cosmopolitas e liberais, não podiam senão se opor às propostas nacionalistas e estatais. As esquerdas socialistas e comunistas, embora favoráveis a muitos aspectos do nacional-estatismo, competiam com ele pela liderança dos trabalhadores urbanos e rurais. Diferentes motivações, portanto, formariam uma verdadeira santa aliança contra o inimigo comum a ser abatido”.

Ah, sei…Entendi. É que agora eles estão… revendo os seus conceitos. O populismo agora (‘popululismo‘, no caso) para esta turma não seria mais um mal em si e pode ser considerado bom, positivo e até…moderno.

Será que parte daquele grupo de intelectuais brilhantes, forjado naquelas cruentas lutas contra a ditadura está embarcando em semelhante equívoco por convicção política? Custo a crer, mas não consigo discernir porque. Apenas me embaralho em suposições.

Outro dia vi na TV um destes antigos militantes da jovem esquerda brasileira dos anos 70 tornado ministro do governo Lula, aos prantos e soluços ao recordar de companheiros que enlouqueceram no exílio, sucumbidos ao peso insuportável do doloroso dia a dia, cara à cara com a derrota.

Consternado com a cena, fiquei refletindo no significado afetivo da estada no poder deste pessoal, no peso enorme que deve estar representando em suas vidas enfim esta – vá lá – oportunidade derradeira de transformar o país. Penso também com a mesma compreensão no caso daqueles que, vergonhosamente se corromperam e estão agora diante do não menos doloroso fim de suas chances de se locupletar , impunemente, de enriquecer mais um pouquinho na mamata explícita, tolerada pelos pares, com a desculpa esfarrapada de que desviaram verbas para o bem do partido, para o bem da revolução.

E aqueles que, em ambos os casos sonharam com a chance de estar lá e que, justamente agora na sua vez, se vêem na eminencia de verem frustradas suas chances, na antesala da grande oportunidade de suas vidas, seja lá ela qual for?

Deve ser realmente enlouquecedor para este pessoal estar diante do ensejo de se encerrar aqui – ou mais adiante, que importa – a chance que tiveram de governar o Brasil, a aproximação da hora de encerrar o ciclo no poder, a fase de manda-chuvas do país, um ciclo controverso, marcado por um pragmatismo discutível, caracterizado muito mais pelo fechar os olhos à velhas práticas políticas deploráveis, sem ter conseguido mudar em quase nada aquele velho Brasil que prometeram revolucionar, como nos fizeram acreditar piamente que fariam com aquela pomposa ‘carta aos brasileiros’.

Deve ser enlouquecedor para muitos destes caídos a revisão desta montanha de mal feitos ainda não explicados, supostamente realizados em nome do partido, um monte de mal feitos que, mais dia menos dia, virão à tona e que, sendo ou não sendo realmente ilícitos, passarão a fazer parte indelével da herança (quiçá maldita) que esta geração de governantes de esquerda deixará como o seu legado para a história.

Concluindo a quase convicção: Deve ser por isto tudo então que, para o bem ou para o mal, inventam teorias como esta do Nacional-estatismo. Que outra explicação se teria para tanta contradição senão o desespero de ter tido o poder nas mãos e não ter conseguido fazer a sonhada revolução. Uma inexorável sensação de derrota sim, diante do tanto que poderiam ter feito. Deve ser isto: O convívio com a finitude do poder os enlouqueceu.

Cruzes! Gente de Deus! Me tirem desta angústia . Estes caras piraram, não é não? Ou será foi em que pirei?

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Distraído sim, mas não me chamem de alarmista exagerado. Atirei no que vi. Acertei no que não vi: Saibam vocês que agora mesmo, nos finalmentes deste post achei este interessantíssmo link. Tá lá gente. O Nacional-estatismo É O PROGRAMA DA DILMA. Caraca! estes caras pegam a gente, sempre de calça na mão!

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Spirito Santo
Abril 2010

É a Lama! É a Lama!



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1904. Foto de João Martins Torres : Trabalhadores contratados para retirar material da Encosta do Morro do Castelo no Centro do Rio de Janeiro, como parte do Bota Abaixo para a abertura da Avenida Central.

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Do Caos à Lama
O céu caindo sobre nossas cabeças

Não sei se existe um ranking, mas talvez o Rio de janeiro seja a cidade mais excludente do mundo.

Eternamente colonial a cidade parece ter sido planejada para manter sua imensa população pobre segregada de tudo, com uma parte habitando uma periferia da qual só se chega à parte rica – a urbe real – por meio de um sistema de túneis e a outra parte amontoada nos morros e encostas, como bandos de urubus espreitando as migalhas que cairão dos apartamentos e das mansões.

Como os supostos ricos daqui são escravistas renitentes (os habitantes da zona sul do Rio pensam que ainda estão na Corte do Império do Brasil), manteve-se aqui uma relação sórdida com os descendentes de escravos do pós-Abolição, mantendo-os totalmente à margem da sociedade, sem política de inclusão social alguma, nenhum direito de gente normal que não seja o de exercer a condição de eternos escravos domésticos ( ‘negros de ganho‘ como no passado) sem trabalho regular ou formal, sem educação, sem saúde, transformados em prestadores de todo tipo de serviço de baixa especialização (biscateiros, lavadeiras, seguranças, faxineiras, pedreiros, babás, cozinheiras, marceneiros, lixeiros, camelôs, bandidos, etc.)

Para poder trabalhar e comer com os rendimentos tão miseráveis que amealham com seus ‘bicos’, os pagens e serviçais  tiveram que ir se alojando nas áreas próximas que sobraram baldias, os morros e as encostas da cidade, áreas historicamente desprezadas pela elite que, desde de quando D.João VI adotou os seus banhos de mar medicinais nos cafundós do Caju, gosta mesmo é de viver  no bem bom e na curtição da dolce vita à beira mar.

Do mesmo modo que mantinham senzalas ao lado de suas casas grandes patriarcais, os cariocas descendentes daquela pomposa aristocracia cortesã do tempo do império, fecharam os olhos à ocupação desordenada do solo urbano, permitindo que se formassem espécies de guetos-senzalas, comunidades de miseráveis que se aboletaram em barracos construídos com caixotes e folhas de zinco e depois em precárias casas de alvenaria, construídas nas encostas e morros das zonas Sul e Norte, de qualquer jeito, do dia para a noite, no mais completo e épico Deus-dará.

Como não podia deixar de ser, com um fluxo incessante de gente vinda da periferia e até mesmo de outros estados, atraída por enganosas oportunidades que a cidade teria a oferecer, estes morros logo ficaram superpovoados, acabando por  explodir as represadas  mazelas e feridas sociais, as mais pustulentas que ruminavam,  fazendo ferver um caldeirão de violência tão  exacerbada que gangs de traficantes de drogas, no auge insuportável de seu crescimento como instância de poder paralelo, passaram a dominar partes significativas do espaço urbano, como autoridades de fato.

O caos do Rio de Janeiro hoje é quase absoluto. Literalmente nossos problemas pós coloniais estão desmoronando sobre nossas cabeças.  Apavorada, a  elite bacaninha vê a água marron, a lama, o lixo e os dejetos mais absurdos, escorrerem sobre a decantada maravilhosidade que as autoridades constituídas da cidade alardeiam para o exterior.

Fazer o que? Avisar a gente sempre avisa – eu mesmo já cansei de escrever sobre isto – mas sabem como é:  A elite do Rio é estúpida e ignorante como toda elite de qualquer lugar. É gente que acha que estando acima do bem e do mal pode manter a situação indefinidamente sob controle, investindo apenas em polícia para conter à força, a circulação dos serviçais além dos muros invisíveis de seus guetos infectos e fedorentos.

Só agora, com as Olimpíadas e a Copa do Mundo chegando, depois do formidável abate de um helicóptero por snipes bandidos, começaram a refletir um pouco sobre a sinuca de bico em que se encontram. O máximo que conseguiram, no entanto foi tentar repetir a estratégia eugenista doBota Abaixo perpetrada pelo prefeito Pereira Passos no início do século 20, aquela ‘reforma urbana’ que expulsou os pobres do centro da cidade (o entorno da atual Avenida Rio Branco) para…para onde? Para alguns dos mesmos morros que desmoronam hoje, por obra das irrecorríveis leis da natureza.

E vejam só o que mais:

Entre outras mazelas, esta relação doentia criou também uma dependência total entre  ‘ricos’ e ‘pobres’, uma relação promíscua cujo símbolo maior é  o mercado das drogas.

Sejamos francos. A elite carioca – mais ainda talvez que a elite das outras grandes cidades do Brasil – além de ter ojeriza pelo trabalho braçal por conta de uma inapetência histórica, adquirida no tempo da escravidão – é hedonista e permissiva por natureza.

Moderna como se julga ser, esta pretensa elite acabou ficando viciada nas drogas que passou a consumir (principalmente a cocaína), de forma quase massiva, movimentando uma quantidade imensa de dinheiro escuso que para ser gerido, exigiu a formação de diversos comandos para-militares, que armados até os dentes,  articulam outros comércios paralelos e sucedâneos  como o tráfico de armas, de munição de guerra e os sequestros de pessoas, por exemplo.

(Você sabia que, curiosamente os traficantes chamam o seu negócio de ‘Movimento’?)

Como os pobres estão aí mesmo para todo o serviço (principalmente o sujo) já que foi isto que  lhes restou como alternativa de sobrevivência,  este mercado milionário se caracterizou sob a forma de uma divisão de tarefas onde quem estoca, controla e disponibiliza as mercadorias ilícitas é a negra bandidagem favelada e quem banca o mercado, consumindo a droga é a elite branca bem nascida, protegida e mediada por uma polícia corrupta, numa dicotomia que será em algum prazo explosiva.

Insanos. Querem por que querem esconder o problema debaixo do tapete, gastar o mínimo (para talvez desviar, roubar, o máximo) planejam maquiar, pintar a cidade de verde, amarelo, azul e branco para nesta estratégia cosmética imbecil, expulsar os pobres, de volta para bem longe do futuro, certos de que seu quadro de privilégios jamais será afetado.

Mas como? Como e para onde expulsarão quem já foi expulso no passado e que já é tão desvalido?

Não há mais espaço, nem na periferia, para isto. A cidade inteira está tomada, atravancada de problemas estruturais com gente saindo pelo ‘ladrão’. As favelas com suas precárias fronteiras já encostando umas nas outras se transformaram em ‘complexos’,  sub-cidades clandestinas, subterrâneas,  algumas com população tão numerosa quanto a de cidades de porte médio do resto do país. O lixo social que eles, os da elite, lançaram de suas janelas virou uma montanha preta imensa e nauseabunda, quase sem tamanho.

Excluir mais ainda os favelados do Rio seria, pois, um plano digno de sadomasoquistas, seres desumanos, com lepstopirose na alma.

E se esta montanha preta de iniquidades desmoronar, como está desmoronando agora nestas avalanches mais que simbólicas ? O  volume assustador de entulho pode afogar a cidade inteira num lodaçal histórico (um castigo bíblico, pois, como todo mundo deve saber, lama caindo do céu não tem preferência social. A lama é santa e democrática, afoga a todos igualmente porque é pública.)

Sim, a merda líquida que transborda dos esgotos do Rio é de todos nós.

Aparvalhada, a cidade é governada por administradores ineptos (no linguajar popular uns ‘merdinhas‘, uns ‘conversinhas‘) políticos carreiristas que preferem muito mais vender os peixes podres que viabilizam  suas eternas candidaturas do que fazer realmente algum bem, mesmo que corriqueiro, para a população que os elegeu.

É, meus amigos: A cidade do Rio de Janeiro pode estar se aproximando perigosamente do seu dilema mais terrível, do seu check mate de metrópole incompetente e inviável por sua própria culpa. A qualquer momento, basta uma fagulha e a situação pode ficar fora de controle. Este  caldo de cultura fedorento um dia entorna num indesejado ‘Viradão Carioca’.

Dê só uma olhada para a cara das vítimas dos atuais desabamentos e reflita. Não é preciso IBGE nenhum nos informar o óbvio. A estatística está aí, visível na TV,  gritando na nossa cara: Quem perdeu e cada vez está perdendo mais, morrendo mais, é a mesma negregada galera do período pré-abolição. É a escravidão aviltante ainda pulsando em nós.

Agora é fácil. Expulsamos os nossos seres-dejetos para bem longe da urbe chic, à custa  sabe-se lá de quantas ocupações ‘pacificadoras’, quantas UPPs.  A bandidagem recua da zona sul e se ajeita na periferia mais remota, montando ali seus arsenais e paiós em novas cidadelas.

Junte a tragédia de morros se dissolvendo com o sonho das ‘otoridades’ – e da elite – de expulsar a população favelada para o mais longe possível das Olimpíadas e da Copa do Mundo. Coloque pitadinhas de UPPs e tropas de elite, junte tudo com o medo pânico agora portado pelas pessoas que moram nestes morros, espantando-as para as partes planas da cidade e me diga o bicho que dá. O bicho é feio ou não é? Dá até medo.

A pergunta então é: E aí? O que faremos quando a Copa e as Olimpíadas acabarem? Gravamos um jingle ‘we are the world’ em ritmo de Samba e disputamos com o Haiti no tapa – ou no ‘cuspe em distancia’ – a grana da ajuda humanitária da ONU?

_”É a lama! É a Lama!_ cantaria um moderninho bloco do Carnaval de Santa Teresa parafraseando Tom Jobim, tentando abafar a voz rouca do Coronel Kurt que existe em cada um de nós (aquele piradão do filme  ‘Apocalipse Now“) , gritando para a avalanche de lama que escorre do cinzento céu desta cidade cada mais vazia de encantos mil:

_” É o Horror! É o Horror!”

Spírito Santo
Abril 2010

Gostou? Se enojou? Então leia também o post irmão deste: FAVELÓPOLE

Achtung! Mais um negão em Viena


“April macht zu viel”
‘Abril faz o que quer‘- ditado popular austríaco (ou alemão não lembro bem)

Não pude resistir à tentação de divulgar isto. Aos que não tiverem a gentil complacência de relevar mais este eventual deslize egocêntrico, justifico enfático:

Corujice também é cultura!

É nestas horas que gostaria de ver a cara de um anti-cotistas destes, estes racistas enrustidos que andam rebolando por aí, afirmando que os excluídos históricos do acesso à educação (negros, índios e afins) precisam esperar caladinhos, na fila, confiando piamente que, um belo dia (quando a galinha criar dentes?) políticas universalistas – ou ‘não racialistas’, no dizer daqueles próceres do jornal O’Globo – vão permitir que os nossos filhos entrem na universidade.

Caladinho é cacete. Digo alto para vocês todos ouvirem: Depois de entrar na UFRJ (e por acaso fora do programa de cotas), meu filhão, negão, acabou de entrar agora na Universidade de Viena, lá na Áustria.

Na base do ‘você sabia’, pra economizar o google de vocês, em verdade em verdade vos digo: Trata-se de uma das mais antigas universidades do mundo, criada em 1365, quando o Brasil, tal como o conhecemos, nem sonhava existir – ou seu ‘descoberto’, como se diz – Os portugueses, por sua vez, nem tinham ainda, a mais vaga idéia de que invadiriam o Kongo um dia e que para cá trariam meus antepassados africanos que de sua parte, séculos e séculos adiante, teriam o meu filhão como descendente ilustre. Dá pra imaginar?

Só pra se ter uma idéia, vaga ao menos, da dimensão da quase ‘façanha’ do ex-pimpolho (nada tão difícil. Foi só ele descobrir que tinha este direito e correr atrás), na lista de celebridades e sumidades mundiais que ali estudaram e se formaram, só encontrei um brasileiro, assim mesmo de ascendência austríaca, o crítico literário e libertário incorrigível Otto Maria Carpeaux (Otto Karpfen antes de fugir dos nazistas para o Brasil ). Veja a lista que fiz assim, só numa zapeada na wikipédia:

Gustav Mahler (músico), Gregor Mendel (músico), Papa Pio III, Otto Preminger (cineasta), Wilhelm Reich (psicanalista), Bruno Kreisky (ex primeiro ministro austríaco), Kurt Waldheim (ex primeiro ministro e secretario da ONU), Stefan Zweig (escritor), Otto Maria Carpeaux (crítico literário naturalizado brasileiro), Jörg Haider (‘moderno’ e célebre político neo nazista austríaco).

Procurar quantos negros brasileiros estudaram ali é a pesquisa mais fácil deste mundo:
Com quase toda certeza nenhum.

Se você considera válido este tipo de parâmetro, raciocina (ou ‘se liga’): A Universität Wien é um dos templos mais bem acabados do que se pode chamar de ‘cultura branca’, cultura européia, saber hegemônico (se é que me entendem) e é lá que, unicamente por conta de seus inalienáveis direitos de cidadão do mundo (e não por conta de nenhuma meritocracia elitista) o meu filhão negão vai estar.

(Aliás, deixei o neo-nazista Jörg Heider como último da lista só pra lembrar que a Áustria é a terra onde nasceu o Adolf Hitler, o anti-cotista mais famoso da história (suas cotas eram as Cotas da Morte) que, como também indigitado Heider, deve estar se revirando no túmulo de saber que tem mais um negão (já há muitos africanos estudando lá, fiquem sabendo) lendo clássicos da literatura universal naquela biblioteca belíssima e gigantesca, como as dos filmes do Harry Potter (desculpe a referencia adolescente, mas foi a mais forte que me ocorreu)

(Se bem que, sofismáticos empedernidos como são, os impagáveis anti-cotistas do Brasil vão tentar descontruir toda esta minha alegria para esbravejarem pomposos – e engulindo em seco – que este meu exemplo é, isto sim, a prova mais cabal do mundo de que cotas raciais e ações afirmativas são ‘inócuas e desnecessárias’:

_ ‘Olha só o caso deste garoto do Spírito. Conseguiu ingressar numa das melhores unicersidades do mundo por seus próprios… méritos”

Mentira. Digo e afirmo na cara de vocês (deles, no caso, os racistas enrustidos que pululam por aí). O programa ao qual o meu filhão se habilitou, está inserido num conceito de intercâmbio entre universidades da União Européia com universidades do antigo Terceiro Mundo, que visa, entre outras coisas, democratizar o acesso à educação e ao conhecimento para jovens oriundos de países subdesenvolvidos ou – vá lá – em vias de desenvolvimento como o Brasil, contexto no qual países africanos (apinhados de negros) e latino americanos (apinhados de negros, de índios e disto e daquilo de quem dizem não serem ‘brancos o suficiente’ para merecer um lugar ao sol) são os maiores beneficiários (países de porte médio da região da União Européia como Portugal, Croácia, Polônia, etc. também entram nesta dança)

Um óbvio e claríssimo sistema de cotas, portanto. Uma prova – aí sim – cabal de nossa vergonhosa e anacrônica, atrasada e estúpida mania de ficar excluindo gente, omitindo gente, matando gente de forma egoísta, na base da ‘farinha pouca, meu pirão primeiro’.

Ah, ah, ah, anticotistas, racistas de plantão! A vocês só resta ficar arrotando por aí que se formaram pela PUC, que seus filhos vão estudar na PUC. Que a PUC, que a PUC, que a PUC… E daí? Coisa mixuruca. Quem liga mais para esta hegemonia onipotente, tão colonial?

Perderam! Perderam! Meu filhão negão escapou da sanha excludente de vocês que, agora e mais uma vez, não perdem por esperar. Outros muitos escaparão.

_”Achtung! Nicht verboten! Auf wiedersehen!

Spírito Santo
Abril 2010