Mama mia! Será que a velha esquerda pirou?


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Nacional-Estatismo? Como assim?

Juro por Deus que não estou influenciado pela campanha que se inaugurou por estes dias. Se querem mesmo saber detesto política partidária, ainda mais esta que predomina hoje em dia entre nós. Lavo minhas mãos. Não tenho lado algum a defender nesta pendenga, até porque já aprendi com a idade que não se ganha mesmo quase nada com este tipo de torcida. Política, definitivamente não é futebol.

O que eu gostava mesmo e amava de paixão era da utopia da revolução real, a sociedade mudando radicalmente pelo esforço organizado de uma maioria para algo, pelo menos, um pouco melhor para todos, sem distinção.

Mas, utopias à parte, convenhamos: Com esta idade não dá mais para ser enganado e ficar calado, nem por mera desconfiança. É, pois, por via destas dúvidas todas que, ainda pasmo, comento enfaticamente:

Sabe o Daniel Aarão Reis aquele ex-militante da nossa valorosa esquerda revolucionária, ex-preso político e hoje festejado professor de história contemporânea da Universidade Federal Fluminense? Pois não é que lendo um artigo dele hoje (11 de abril 2010) em O’Globo fiquei sabendo que ele defende (meio que timidamente na verdade, na base da  tergiversação, cheio de ‘data vênias’ como um advogado do diabo) uma tese que eu julgava ser indefensável, uma heresia para qualquer intelectual mais sério e comprometido com a evolução do país?

Pois é. A tese é a de um tal de Nacional-estatismo. Vocês sabem o que é isto? (Li por aqui no google que é uma teoria bem manjada por historiadores em geral) Gente de Deus, será que não sei mais ler? Será que existem na tese algumas bem escondidas entrelinhas, algo louvável, considerável que me escapou à compreensão?

Senão vejam vocês mesmos.

…”Depois da restauração democrática, ao longo dos anos 1980 1990, o nacional-estatismo defendido por várias forças de esquerda, resistiria ao vendaval do liberalismo triunfante.

A tese desenvolvida na matéria de O’ Globo se intitula ‘Uma cultura política: O Nacional-estatismo’ (leia a matéria completa neste link) e é defendida de maneira, estranhamente distanciada e escorregadia por Aarão Reis, de modo que só com muita atenção se percebe que ele, na verdade demonstra franca simpatia pela idéia.

“…Sob o conceito vago de populismo, construído por uma certa sociologia paulista todas estas forças tentaram então apresentar o nacional-estatismo como um projeto malsão por natureza, manipulador e corruptor. Virou quase um senso comum a a associação dos líderes populistas ao que de pior existe nos costumes políticos: Demagogia, mistificação, desvio de dinheiros públicos.”

Difícil acreditar, mas pelo que entendi o Daniel endossa, com a luxuosa argumentação de historiador brilhante que é sabe o que? O populismo, gente. Isto mesmo: Um populismo fashion, reciclado, mas no fundo no fundo aquele mesmo populismo escroque que ora nos rodeia:

Sacaram a sutileza? Nacional-estatismo, seria algo assim como o estado assumindo para si algumas funções que deveriam ser, na verdade, da sociedade organizada em nome, naturalmente de uma figura de retórica vulgarmente chamada de povo, no nosso caso uma triste massa miserável e despolitizada que mal tem o que comer.

Chamávamos isto, exatamente – e com franco desdém – de populismo, não lembram não? E de outros nomes até mais feios ainda como clientelismo, assistencialismo, caudilhismo (que era quando um líder carismático e vaidoso liderava com mão de ferro o processo todo, por intermédio de artimanhas personalistas com uma turba de militantes fanáticos fazendo coro e pressão).

Sacam este filme? Pois então. Ao que tudo indica é isto mesmo o que o bem enunciado conceito proposto pelo Daniel encobre, por trás de jargões e panos vermelhos.

Conheço, como vocês, a tendência. Ela tem sido flagrada facilmente no firme apreço do governo Lula por Hugo Chavez, as ropitchas vermelhas que Lula e Dilma desfilam por aí, os casaquinhos bolivianos presenteados por Evo Morales ao hermano do Brasil, os mimos de nosso ministério das relações exteriores ao Armadinejah, símbolos evidentes de uma tendência populista que eu considerava apenas um desvio exclusivo do confuso pragmatismo ideológico da cúpula mal letrada do PT e de nosso presidente.

A grita da oposição também é facilmente compreensível: Como semelhante propósito (este esdrúxulo nacionalismo estatal) não se coaduna com as regras e os preceitos mais comezinhos atualmente vigentes nas democracias modernas, a prática tem sido, veementemente criticada, considerada altamente condenável para muitos setores da sociedade (notadamente os tribunais eleitorais). Daniel tem toda razão, portanto quando pontua que esta prática arcaica, sempre foi, com toda certeza associada pelos sociólogos mais progressistas – e não apenas os paulistas – com o Populismo Clássico mais deplorável.

Me lembro muito bem que esta praga autoritária, tão comum na política latino-americana sempre foi combatida pela esquerda…moderna, inclusive aquela que se reuniu para a criação do PT.

É fácil se saber porque. Se nossa constituição mesmo tão remendada como é não prevê este tipo de governança, afinal, quem daria o aval e a legitimidade para um governo Nacional-estatista se instalar? O povo semi analfabeto e faminto, que vive à mercê de programas assistencialistas?

Por outro lado, quais seriam as áreas e instâncias da administração pública passíveis de serem estatizadas, controladas pelo estado? Quem decidiria sobre isto? Consultas plebiscitárias? O Ibope? E a imprensa? Sofreria algum tipo de controle estatal? E a justiça? haveriam tribunais especiais controlados pelo governo, arbitrando sobre questões consideradas…de estado? Seria justo ou confiável um governo baseado em premissas tão mal amarradas?

Pois bem, para Daniel Aarão Reis este Nacional-Estatismo, só seria populismo mesmo para uns poucos difamadores da ‘elite’. Populismo sim, mas apenas em termos já que, em diversas circunstancias históricas o conceito teria sido adotado com sucesso como política de governo por estados tanto da direita quanto da esquerda, ou seja, uma prática que não devia ter sido tão demonizada assim por ser, dependendo das circunstancias de algum modo válida, útil.

Que papo é este, meu irmão? Que conversa mais fiada.

Ora, não é preciso nenhuma sutileza de raciocínio para se perceber que Aarão, ao citar as tais ‘forças’ opositoras, está se referindo de forma transversa ao PSDB de FHC e Serra, espécie de paladinos de uma suposta ‘santa aliança’ que preconizaria o Neo liberalismo, elite esta formada também por todos os opositores do governo, a vaga oposição ‘golpista‘ que, diga-se de passagem, coincidentemente com muitos pontos de acerto, associam o PT do Lula a todas estas características… populistas.

Mas cá entre nós, quem não sabe ainda que a Demagogia, a mistificação e o desvio de dinheiros públicos, infelizmente tem sido marcas bem visíveis nas práticas dos governos ligados ao PT? Alguém aí já se esqueceu daqueles vexatórios escândalos mal explicados que marcaram os últimos 8 anos da Brasília governista atual, do estado-maior Petista caído em desgraça, enfim?

Quem ainda não percebeu que no discurso destas correntes, pretensamente de esquerda a ética foi feita letra morta, substituída por máximas supostamente pragamático-imperiais do tipo ‘O estado sou eu’ ( l’etàt c’est moi’, lembram? aquela frase ridícula do absolutista Luiz XIV)

Seria o PT das entranhas já em campanha acirrada para se perpetuar no poder? Aquele clandestino partido cujos líderes de fato vivem imersos na penumbra por que tem problemas cabeludos a tratar com a justiça? Seria este PT das sombras propondo – e de forma desastrada ao que parece – um programa de governo parecido com o Estado Novo de Getúlio Vargas. Bem esquisito isto, não é não? Ainda mais vindo de um partido de esquerda… Convenhamos, dirigismo estatal não era coisa de ditaduras?

O Nacional-estatismo na tese escorregadia de Aarão Reis, ao que tudo indica seria o que professam hoje Chavez, Evo Morales, Armadinejah, Raul Castro e… Lula da Silva. Só que Daniel esqueceu de considerar que Mussolini, Franco e Hitler, cada um em seu contexto, também surfaram, exatamente numa praia bem ao lado desta (nacional-socialismo e fascismo) e deu no que deu.

Mas espera aí: a crítica ao populismo que nos avacalhava a moral e os bons costumes, a denuncia do fascismo, da ditadura estatal, do terrorismo de estado, não foram as bandeiras mais tremuladas nas campanhas pela nossa democratização? Não foi pela democracia plena que tanta gente lutou e morreu neste país?

Com efeito, lá para as tantas, em sua defesa ambígua que recicla o populismo velho de guerra, Aarão cita, positivamente pasmem…Ernesto Geisel (usado como argumento de que direita e esquerda, cada uma a seu tempo, a certa altura de seus governos caíram em si para adotar o nacional-estatismo como uma opção válida). E segue em sua tese… ‘revisionista’ o nosso surpreendente Daniel:

“…Esta cultura política suscitou a oposição de forças poderosas e heterogêneas, de direita e de esquerda. As direitas, cosmopolitas e liberais, não podiam senão se opor às propostas nacionalistas e estatais. As esquerdas socialistas e comunistas, embora favoráveis a muitos aspectos do nacional-estatismo, competiam com ele pela liderança dos trabalhadores urbanos e rurais. Diferentes motivações, portanto, formariam uma verdadeira santa aliança contra o inimigo comum a ser abatido”.

Ah, sei…Entendi. É que agora eles estão… revendo os seus conceitos. O populismo agora (‘popululismo‘, no caso) para esta turma não seria mais um mal em si e pode ser considerado bom, positivo e até…moderno.

Será que parte daquele grupo de intelectuais brilhantes, forjado naquelas cruentas lutas contra a ditadura está embarcando em semelhante equívoco por convicção política? Custo a crer, mas não consigo discernir porque. Apenas me embaralho em suposições.

Outro dia vi na TV um destes antigos militantes da jovem esquerda brasileira dos anos 70 tornado ministro do governo Lula, aos prantos e soluços ao recordar de companheiros que enlouqueceram no exílio, sucumbidos ao peso insuportável do doloroso dia a dia, cara à cara com a derrota.

Consternado com a cena, fiquei refletindo no significado afetivo da estada no poder deste pessoal, no peso enorme que deve estar representando em suas vidas enfim esta – vá lá – oportunidade derradeira de transformar o país. Penso também com a mesma compreensão no caso daqueles que, vergonhosamente se corromperam e estão agora diante do não menos doloroso fim de suas chances de se locupletar , impunemente, de enriquecer mais um pouquinho na mamata explícita, tolerada pelos pares, com a desculpa esfarrapada de que desviaram verbas para o bem do partido, para o bem da revolução.

E aqueles que, em ambos os casos sonharam com a chance de estar lá e que, justamente agora na sua vez, se vêem na eminencia de verem frustradas suas chances, na antesala da grande oportunidade de suas vidas, seja lá ela qual for?

Deve ser realmente enlouquecedor para este pessoal estar diante do ensejo de se encerrar aqui – ou mais adiante, que importa – a chance que tiveram de governar o Brasil, a aproximação da hora de encerrar o ciclo no poder, a fase de manda-chuvas do país, um ciclo controverso, marcado por um pragmatismo discutível, caracterizado muito mais pelo fechar os olhos à velhas práticas políticas deploráveis, sem ter conseguido mudar em quase nada aquele velho Brasil que prometeram revolucionar, como nos fizeram acreditar piamente que fariam com aquela pomposa ‘carta aos brasileiros’.

Deve ser enlouquecedor para muitos destes caídos a revisão desta montanha de mal feitos ainda não explicados, supostamente realizados em nome do partido, um monte de mal feitos que, mais dia menos dia, virão à tona e que, sendo ou não sendo realmente ilícitos, passarão a fazer parte indelével da herança (quiçá maldita) que esta geração de governantes de esquerda deixará como o seu legado para a história.

Concluindo a quase convicção: Deve ser por isto tudo então que, para o bem ou para o mal, inventam teorias como esta do Nacional-estatismo. Que outra explicação se teria para tanta contradição senão o desespero de ter tido o poder nas mãos e não ter conseguido fazer a sonhada revolução. Uma inexorável sensação de derrota sim, diante do tanto que poderiam ter feito. Deve ser isto: O convívio com a finitude do poder os enlouqueceu.

Cruzes! Gente de Deus! Me tirem desta angústia . Estes caras piraram, não é não? Ou será foi em que pirei?

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Distraído sim, mas não me chamem de alarmista exagerado. Atirei no que vi. Acertei no que não vi: Saibam vocês que agora mesmo, nos finalmentes deste post achei este interessantíssmo link. Tá lá gente. O Nacional-estatismo É O PROGRAMA DA DILMA. Caraca! estes caras pegam a gente, sempre de calça na mão!

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Spirito Santo
Abril 2010

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~ por Spirito Santo em 11/04/2010.

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