Mbira de Muié

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Stella Chiweshe toca o som da mãe do mundo

Só não é um papo tipo ‘você sabia?‘ porque isto, com quase toda certeza, você não sabia.

O incrível instrumento aí de cima, conhecido por alguns como ‘Mbira’, pode se chamar também, entre dezenas de outros nomes de ‘Kalimba’, ‘Sanza’, Mbuetete, ‘Kissange’(que é um dos nomes angolanos dele, que eu preferia por que foi assim que eu o conheci).  Pode se chamar até mesmo ‘Mutambazve‘ como se chama este modelo que a Stella toca lá na Inglaterra, no Zimbabwe  (de onde ela é) ou por aí.

O mais curioso é que a variedade de nomes nos informa o aspeco mais importante da questão:  A Mbira/Sanza é um instrumento generalizadamente africano, um fato assaz misterioso porque, mesmo eu que futuco estas coisas há tantos anos, não sei ainda exatamente nem quando nem em que lugar da África ela, a Mbira efetivamente surgiu.

Se você for  etnomusicólogo e souber de algo mais nos diga, pois, disto tirando a certeza de que é um instrumento típica e exclusivamente africano (talvez o único tão visceralmente africano) só temos sobre o assunto  indícios bastante vagos – e mais ou menos óbvios – como por exemplo: A Mbira/Sanza deve ter surgido na idade dos metais (do bronze talvez, no máxima na do ferro) da África, no âmbito de uma civilização tecnologicamente bem evoluída para a sua época,  muito provavelmente algum povo anterior ao do velho Egito dos faraós (talvez um povo chamado  Kush), a ponto de ter sido matriz das outras culturas que o sucederam.

Dali, de um ponto perto de onde o próprio ser humano surgiu, naquela área em torno dos grandes lagos africanos, com a decadência e a dispersão da civilização criada pela fusão dos povos dos grandes lagos e da bacia do baixo Nilo (em migrações que, em várias direções, espalharam gente por todo o continente africano, gerando povos ‘novos’ como os Ashanti, os Ewe (‘jejes’), os Igbo e os Yoruba (‘nagôs’) e para oeste, além dos BaKongo e outros para baixo, mais ao sul) o instrumento foi se espalhando, sendo usado hoje por quase todas as culturas, principalmente as do centro-oeste da África (como Angola), do sul e do sudeste (como Moçambique, na costa oriental) além do  Zimbabwe  (terra da Mbira mais sofisticada) e da África do Sul (de onde o nome kalimba parece ser oriundo).

Você não sabia de quase nada disto, certo? De que a Mbira ou Kissange era assim um enorme livro de história da África e do ser humano. Mas não se espante não. Todo instrumento de música é assim um volumoso livro de história, um dispositivo multimídia, audio-visual.

Agora o que, você não sabe mesmo (mas deveria saber) é que a Mbira/Sanza foi, até bem pouco tempo atrás (um pouco antes da abolição da escravatura) um instrumento popularíssimo no Brasil, na Corte do Rio de Janeiro, principalmente. Incrível não é mesmo? Sempre tivemos aqui a nossa grande África particular e nem nos tocávamos disto.

Músicos (escravos ‘de ganho’, provavelmente) tocam Mbiras (‘kalimbas’) numa festa de rua na Corte do Rio de Janeiro

Nós podíamos hoje estar tocando Mbira por aí. As crianças em vez de fumando Crack, bem que podiam estar fabricando Mbiras, tocando Mbiras, não é não? (viajei, sonhei alto agora, perdão)

Mas bem que falando nisto (em crianças perdidas, gente perdida, cultura perdida) vale a pergunta: O que você acha que impediu a nós, brasileiros de sermos usuários dependentes, viciados especialistas nesta música maravilhosa da Mbira? (Sim porque eu confesso que sou um incurável dependente do uso deste instrumento. Chego até a ser um traficante de música de  Mbira, se bem me entendem)

O racismo, minha gente. Sério. Foi ele que baniu de nossa alma e memória o som e os modos de fazer uma Mbira, a cultura, o hábito sadio de ouvir Mbira, o know how da coisa toda, enfim.

O racismo, minha gente (ou etnocentrismo, eurocentrismo, para os íntimos), entre outras sequelas, apagou em nós este rasgo de cultura ancestral, deixando morrer as técnicas de fabricação deste, entre tantos outros instrumentos, como morreram, desprezados, tratados como bestas humanas os últimos artistas artesãos, que vieram para cá como escravos.

…E eles – os escravistas e os racistas que os sucederam – não satisfeitos, ainda arrasaram e salgaram a terra de nossas lembranças, omitindo-as de quase todos os livros. Queima de arquivo, sabem como é ?

Mas veja: Eu disse ‘quase todos’ certo? É que a boa notícia é que nos sobraram sim, algumas pistas e vestígios, impressões digitais, evidências para que eu pudesse vir aqui contar pra vocês esta história.

É que – graças a um Rei culto que tivemos por aquí – nos sobraram as gravuras de Rugendas, Debret e tantos outros cronistas europeus, contratados ou  atraídos pela perspicácia culta do rei.

Você, branco ou preto, contudo não sabe muito bem porque não se deu conta disto antes, certo? Pois é. Normal. O que fazem de melhor neste país desmiolado é impedir a gente de saber das coisas, se aperceber de coisas que nos dizem respeito e que, coisas nossas que são estão bem ali, diante do nosso nariz.

É que juntando pacientemente os cacos, as fragnetárias pistas destas gravuras, com as profusas pistas africanas que estão por aí, as técnicas de se fazer e tocar Mbira voltaram a existir no Brasil. Sim. É sério. Eu mesmo já formei e  espalhei por aí alguns novos artesãos fazedores de Mbira. Agora sim: Entre outros lugares você pode aprender quase tudo sobre Mbiras, Kissanges e lamelofones (este é o nome técnico da Mbira) similares no Musikfabrik no Rio de Janeiro e seus projetos sucedâneos (siga o link) e seja feliz.

Agora não esqueça: Sempre que você ouvir este som de Mbira Mutambazve‘ tocada pela bela Stella Chiweshe, acredite que está ouvindo o som que nos evoca também a emoção musical do Brasil ideal, daquele país fraterno tricolor (mengão, bem entendido: vermelho, preto e branco) que poderíamos ter sido – e que talvez sejamos um dia, quero crer-  a prova cabal de que também habita em nossa alma incolor aquela música preta e mágica vinda dos confins do começo do mundo.

(É mesmo!Talvez tenha sido – com diz uma lenda, se não me engano do Zimbabwe – uma mulher tocando MbiraMutambazve‘ o ser maternal que nos pariu todas as coisas do mundo.)

Podes crer.

Spírito Santo
Abril 2010

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~ por Spirito Santo em 20/04/2010.

10 Respostas to “Mbira de Muié”

  1. Procure Fábio Simões no Facebook

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  2. Saberias me dizer os nomes de alguns desses mestres/artesãos, pois gostaria de comprar uma Kalimba tradicional. Imaginei que estas Kalimbas folclóricas já haviam caído no esquecimento e apenas sobrado artesãos que resgatam e refazem as kalimbas de outrora!!! Agradecido!!!

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  3. Sim. No Brasil existem vários.

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  4. Saberiam me dizer se existe ainda no Brasil algum mestre popular que fabrica kalimbas? Grato

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  5. […] aqui, no Spírito Santo,um relato sobre a Mbira mais […]

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  6. […] aqui, no Spírito Santo,um relato sobre a Mbira mais […]

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  7. Amei me informar mais sobre Cultura… Adoro o som da Mbira…

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  8. Curto muito esse ritmo, até já cheguei a fazer danças brasileiras voltada p/ a dança afro-brasileira.

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  9. Sonya,

    Você caiu do céu! (estas coisas com Mbiras sempre acontecem comigo) É que fiquei siderado pela Mbira da Stella e queria por que queria ver uma ao vivo para começar a pesquisa e fazer a minha (só vi em foto e áudio).

    (Pelo visto, na verdade, em termos, você sabe de kalimba até mais do que eu.)

    Como você bem sabe, existem Mbiras/Sanzas de todos os jeitos, maneiras e para todos os gostos. As que tenho e ensino a fazer não são tão complexas quanto estas do Zimbabwe (são as do tipo angolano), mas estou decidido a enveredar pela pesquisa destas.

    A questão principal é que lamelofones, mesmo os mais simples, são fisiologicamente muito difíceis de fabricar, principalmente do ponto de vista acústico, como é o seu caso. São muitos fatores físicos e mecânicos para relacionar. Coisa que toma tempo mesmo (anos). Presumo que os tocadores profissionais (que geralmente fabricam seus instrumentos) como a Stella sejam ‘calejados’ já pelo tempo de aprendizado e uso(o instrumento que uso, por exemplo, é bem duro de tocar para quem não está habituado como eu)

    Claro que é possível adaptá-los ao gosto do freguês ao fabricar, pesquisando um aço mais flexível. A alma estrutural das sanzas é o tipo de aço das lâminas, claro e é exatamente aí que está o problema: É difícil encontrar o aço ideal no mercado convencional.

    Pena que, pelo que entendi você esteja em Londres (é isto?). Nestes casos eu adoraria propor que você caísse dentro da pesquisa comigo e fizesse, você mesma, o seu instrumento totalmente individualizado.

    Você tem alguma habilidade artesanal? Se tiver e estiver afim desta aventura eu posso tentar te orientar à distância. Quem sabe?

    A paga seria você me mandar material, fotos detalhadas da sua Mbira, áudios da Stella, estas coisas. Fiquei morto de inveja.

    Estamos aí (pelo menos em…espírito) às ordens.

    Grande abraço

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  10. Spirito
    eu conheço um pouco deste instrumento, tenho uma mbira original, do Zimbabwe, aprendi a tocar um pouco com um nativo professor na SOAS -School for African Studies-University of London (onde estudei um pouco de etnias musicais – voz – e religião comparada) Infelizmente é dificil para mim manter o habito de tocar, acabo ficando com os dedos machucados… tenho algumas cópias americanizadas, afinadas na nossa escala, q são bonitas, mais fáceis de tocar, mas não têm o charme e o poder sonoro das originais. eu cheguei a fazer umas kalimbas, há anos, com uma amiga saxofonista, gosto delas, mas são limitadas…
    na verdade, eu queria encontrar uma mbira para mim, como a q vi um rapaz tocando em Londres, q é um pouco menor, c/ as teclas de um ferro um pouco mais fino, mais maleável (a minha é bem parecida com a da Stella, parece um pouco maior e mais pesada q a dela – pela foto) anyway, eu gostaria de retomar o instrumento, em algum momento, e poder tocar sem ferir meus dedos… alguma sugestão? sei q tem um zimbabwano q vive nos U.S.A q faz estas kalimbas mais macias, mas ñ tenho oendereço dele… talvez vc tenha alguma para mim? eu já conhecia a Stella, a vi tocar e cantar muitas vezes, ela tem também uns xequerês poderosos… e tenho aqui alguns CDs dela, e de outros tocadores africanos, minha especialização na universidade foi em musica africana e do oriente.
    um grande abraço, obrigadíssima pela informação disponibilizada, seu site é maravilhoso, tenho viajado por aqui – é tão dificil encontrar coisa boa assim por aqui!

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