Memória acesa da Favela querida


Favela do Largo da memória às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, Rio de Janeiro, década de 1940

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(É a tal história: É sempre bom manter a memória acesa. mais dia menos dia a lembrança viva nos salvará)

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FOGUEIRA DE QUASE UM QUILÔMETRO!
(Matéria publicada no jornal ‘Diário da Noite’ de 25/05/1942)

Fogueira de quase um quilômetro entre a Gávea e o Leblon

Queimada a “favela” do Largo da Memória – o sugestivo acontecimento de ontem

Desapareceu ontem a famosa “favela” do largo da Memória, entre os bairros da Gávea e Leblon. A extinção daquele disforme montão de casebres de latas e tábuas foi efetuada de modo inédito na crônica da nossa capital, foi efetuada a fogo.

Os pobres moradores da “favela” foram dias antes transferidos para o grande bairro (Ops!!) construído pela Prefeitura nos terrenos da Rua Marquês de São Vicente (Ops!!) , bairro verdadeiramente modêlo e que constitui um testemunho eloqüente da atenção devotada pelas autoridades municipais aos problemas de assistência social.

A destruição da “favela”, que compreendeu várias centenas de casebres, teve início às 15 horas aproximadamente, perante altas autoridades civis e militares, jornalistas e grande massa popular.

Entre os presentes viam-se o prefeito Henrique Dodsworth, coronel Justino de Albuquerque, secretário de Saúde e Assistência, o sr. Edson Passos, secretário de Viação e Obras Públicas, e coronel Aristarco Pessoa, comandante do Corpo de Bombeiros.

O grande incêndio foi ateado por dois contingentes do Corpo de Bombeiros, sob o comando do capitão Cipriano, do Posto do Leblon.

O fogo irrompeu simultaneamente em dez focos adredemente separados pelos bombeiros.

Em pouco tempo, a “favela” estava transformada numa enorme fogueira de quase um quilômetro de extensão.

A primeira chama foi ateada pelo prefeito Dodsworth, cujo gesto foi imediatamente seguido pelo ataque geral desfechado soldados colocados nos pontos estratégicos. A enorme fogueira ardeu durante longas horas, sob o controle dos bombeiros.

O sugestivo acontecimento, que veio demonstrar o carinho (ops!) com que são tratadas atualmente as classes pobres, foi filmado pela repartição governamental competente.

Destruição de outras “favelas”:

Por ocasião da destruição da “favela” do Largo da Memória, o prefeito e as demais autoridades presentes foram calorosamente ovacionadas pelo povo (ops!), que evidenciou, assim, o seu reconhecimento pela sábia política de assistência social empreendida pelo governo.

Nos comentários gerais salientava-se a necessidade da destruição imediata das demais “favelas” existentes nos diversos recantos da cidade. Aliás, essa é a intenção do governo municipal, no sentido de melhorar as condições de vida das classes pobres.

Na gravura que ilustra estas linhas aparecem dois impressionantes flagrantes da destruição da “favela” do Largo da Memória, quando as chamas devoraram os casebres condenados.

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Memória de favela

(André Decourt, comentando a foto acima na internet – mandada retirar daqui do post pelo autor  🙂

“Isso era uma vila proletária que abrigava os removidos da favela da Memória, no largo da Memória (ops!) aí do lado, eram grandes barracões compridos que abrigavam várias famílias.

Eles ficaram anos esperando a conclusão das obras do grande conjunto habitacional que nunca terminou (ops!), eles e outros que foram sendo incluídos nessa grupo de abrigados por políticos safados, que prometiam que eles seriam contemplados com apartamentos nesse conjunto.

Fiz uma série sobre o conjunto da Parque Proletário da Gávea em 2004…

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Viram só? Mais ou menos de 40 em 40 anos  (remember o ‘Bota Abaixo’ de Pereira Passos em 1904) eles queimam o arquivo (ou deixam a terra comer). Pois então? Recordar é ou não é reviver?

Acreditem: Morro de medo da frieza desta gente.

Spirito Santo
Abril 2010

(Leia também, do mesmo autor:  ‘FAVELÓPOLE‘)

13 respostas em “Memória acesa da Favela querida

  1. Lobato,

    Quero mais a sua foto não. Se você tivesse me solicitado o crédito, eu teria te explicado o que já disse: Não tive acesso a esta informação.

    Como disse não reparei esta sua observação inserida na sua página. Na verdade nem tenho certeza se a imagem foi retirada mesmo da sua página, pois sou rigoroso com créditos. Imagino que tenha sido em algum compartilhamento. Geralmente insiro créditos e até os links originais de todas as minhas citações, exceto quando não os encontro disponíveis.

    Não concordo que se tenha que pedir autorização para a publicação do que quer que seja na internet. As licenças CC existem, exatamente para isto: advertir às pessaos de como proceder diante do que o autor exige. Óbvio que é impraticável ficar caçando o contato de todos os autores de fotos na internet para solicitar deles algum tipo de autorização. Isto é uma mania de fotógrafos, tenho percebido, uma espécie de apego a uma mídia – o suporte de papel- que se evaporou com os novos tempos. O suporte hoje, a mídia, não é mais o papel. A mídia agora ninguém sabe mais o que é. Por enquanto. O que gera direito autoral é a cópia e não a sua imagem original, a sua obra.Se você fosse músico como eu ia ver o quanto isto de se apegar ao suporte, para o bem ou para o mal está superado.

    Já cansei de ver fotos minhas e posts também compartilhadas sem crédito, o que é incorreto e também reclamo imediatamente, mas esta sua exigência de pedido de autorização me parece incompatível com a lógica da internet hoje. Convém ressaltar que meu blog não tem nenhuma finalidade lucrativa que possa gerar direito autoral a quem quer que seja.

    Por outro lado não achei adequada nem educada a sua admoestação. Óbvio que não tinha o crédito da sua imagem logo, faça bom uso dos seus direitos com a referida imagem.

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  2. Spirito Santo,
    você esta totalmente equivocado, você retirou a imagem de minha página, pois o comentário do André Decourt foi retirado e citado juntamente com ela( a imagem) e e´um comentário publicado por ele em minha página!
    Imagens estaõ na internet mas tem dono sim! Eu mesmo acabei de ser contatado semana passada por uma editora querendo uma foto minha publicada em meu flickr para um livro sobre o Vidigal. Se você quiser a minha imagem para publicar em sua página, você tem de pedir sim minha autorização, independente se eu vou cobrar ou não por ela, o que esta explícito em minha página, bem claro e o CC nela adverte que é necessário pedir autorização de utilização para qualquer uso!
    Fiquei amigo do André Decourt, via internet, flickr e fotolog, de virtual passamos para o real, e veja como o mundo e´engraçado, ele já pediu uma autorização para linkar uma foto minha para uma das páginas que ele mantem na internet sobre a história do Rio, se você tivesse tido essa preocupação talvez o rumo tivesse sido outro.
    De qualquer forma, obrigado por retirar a foto de sua página.
    Atenciosamente
    Zé Lobato

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  3. Bem…retiro prontamente. Nem me lembro que imagem é esta nem mesmo que lhe pertencia. Volto aqui depois para comentar o que penso sobre direitos autorais neste caso.
    ———–
    Lobato,

    Já localizei lá no post. Entenda, a sua foto foi encontrada como milhões de outras na internet sem crédito algum numa matéria sobre favelas. Tivesse sido extraída do Flickr como outras que publiquei, teria sido devidamente creditada, licenciada que estaria por de modo que autorizasse o compartilhamento sem fins comercaiis como faço aliás com todos os meus posts que qualquer pessoa pode republicar sem ser preciso de autorização (função aliás da licenças CC que utilizo).

    Não sei o que você pensa sobre direito autoral na Internet, mas talvez esteja confundindo as minhas posições com a suas. Das mais de 400 imagens que já publiquei, sempre dando crédito aos autores – desde que estes créditos constem dos arquivos originais – você é a primeira pessoa que me faz esta admoestação que considero impertinente.

    Se você me exigisse crédito a sua autoria eu daria, imediatamente com a ressalva de que não coloquei antes porque na fonte original não havia. Restringindo a veiculação de sua imagem alegando direitos autorais você está cobrando direitos da pessoa errada e demonstrando que não entendeu ainda o que está acontecendo no mundo novo da internet.

    No caso de imagens, por exemplo, a única maneira de garantir, realmente algum direito autoral é NÃO postando as suas imagens, em lugar algum. Guarde-as na sua gaveta. É a única maneira de não vê-las publicadas por aí.

    No meu blog – pode ficar descansado – elas jamais serão inseridas.

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  4. Spirito Santo, foi uma surpresa encontrar uma foto de minha autoria ilustrando um post de sua página sem a minha devida autorização. Como encontrei em sua página uma referência a lei dos direitos autorais, você tem conhecimento do que se trata e torna seu ato um desrespeito ao artista e a si próprio!
    Só lamento sua atitude e peço encarecidamente que retire de sua página a foto da favela da Marquês de São Vicente, publicada em minha pagina pessoal no Flickr, http://www.flickr.com/photos/ze_lobato/163629162
    atenciosamente,
    Zé Lobato

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  5. Luminosa Claire,

    É isto aí. Enfim nós e o nosso importante debate somos a prova viva de que o entendimento, quando buscado com amor e clareza de propósitos e respeito ao príximo surge fulgurante.

    Volte sempre.

    Bjs

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  6. Concordo, nem só de paz e amor se muda o mundo, é necessário determinação, muito trabalho, sacrifício e seriedade. Embora eu ainda não tivesse falado de amor, pegando o seu gancho, posso dizer que acredito que o amor é a mola mestra para um transformação mais profunda. Ignorancia para mim não é sinônimo de pouco estudo ou conhecimento e sim ausencia de sabedoria, ausencia de profundidade e percepção do presente que é a vida. Tenho consciencia de que ainda haverá muito sofrimento no caminho da humanidade, mas também tenho esperança diante dos debates atuais sobre diversidade cultural e o surgimento de conceitos e práticas como economia solidária e sustentabilidade. Não vejo de forma alguma a responsabilidade da desigualdade social dividida igualmente, a dívida social é inegável. Quando afirmo que todos têm algo a compreender e a transformar, não vejo como igual, vejo como um processo, parte dos oprimidos buscam meios de se unir e fortalecer e uma parte bem pequena dos que detem poder buscam meios de equilibrar as injustiças. Já se sabe que o sistema capitalista caducou e que um mundo aonde há desigualdade e miséria não se sustenta. Infelizmente a motivação maior para possíveis mudanças não vêm do amor e sim do cálculo, o sistema atual tem se mostrado ineficiente e a insegurança diante da ameaça de um colapso é o que em parte tem motivado a criação de políticas para diminuir a desigualdade. Estaríamos anos luz à frente se o amor nos guiasse.
    Bjs

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  7. Claire,

    Agora sim. Compreendi. Era mais ou menos o que eu imaginava que você pensava.
    Concordo com você, claro. Se todos, ricos e pobres, tivessem o dom da tolerancia e o do bom senso tudo se resolveria, rapidamente. Só receio que este não seja um problema tão simples, que se resolva assim, na base do ‘paz e amor’, gerado exclusivamente pela ignorancia de uns ou de outros. Lamento, mas acredito piamente que este problema básico de nossa sociedade não pode ser sanado, simplesmente pela boa educação e pelo discernimento, pelo conhecimento enfim.

    É claro e natural que, provavelmente, mesmo as pessoas analfabetas têm conhecimento pleno de sua situação imediata, das circunstancias e de como o contexto social em que vivem assumiu, por exemplo, a configuração de uma favela ou de um bairro pobre. Esta parte da história é impossível de não ser percebida por elas.

    Pobreza não é uma experiencia existencial apenas simbólica. Pobreza é concreta. Pobreza doi.

    Do mesmo modo, as pessoas mais ou menos abastadas (e por esta mesma razão possuidoras de elevado grau de educação formal ou geral – educação, como se sabe, custa dinheiro ) tem plena convicção e consciencia da relação direta que existe entre a quantidade (as vezes desmedida) de bens e direitos que usufruem na sociedade e as enormes carencias portadas pelos pobres que cercam seus bairros finos, ou seja a enorme maioria.

    (Bairros muito ricos cercados por um conglomerado de favelas e bairros muito pobres. Que loucura! Veja que é uma geopolítica que não pode gerar coisa boa no futuro. Só não vê quem não quer.)

    Causa e efeito da desigualdade social, ricos e pobres estão em franca oposição e não se toleram uns aos outros por várias razões (razões estas muito naturais e pertinentes, diga-se) infelizmente, contudo estas razões são muito mais complexas do que você propõe (receio às vezes que seja até por conta de uma irremediável lei da natureza, de uma espécie de defeito genético de nossa torta humanidade).

    O fato é que todo mundo está careca de saber que não existem inocentes nesta história.

    Logo, não é uma simples questão de ‘amai-vos uns aos outros’. Vivemos num sistema e ele é por demais complexo. É óbvio que uma parte da sociedade (e não um indivíduo, pessoalmente, claro), pratica a exclusão social e o racismo no Brasil. Por meio de diversos expedientes entre os quais as políticas de um estado que governa para e com os ricos.

    A razão de ser de sociedades como a nossa serem assim, é que a lógica delas é a da ‘farinha pouca meu pirão primeiro’. Excluir a maioria para que alguns possam possuir o máximo. E esta é uma lógica burra que precisa ser reconhecida e denunciada, para poder ser mudada porque, é um veneno terrível para qualquer sociedade.

    É óbvio que alguém comete ‘os erros que criam a exclusão social’. Não é, de modo algum um desígnio divino, culpa de Deus ou da natureza. São as pessoas, determinadas pessoas as responsáveis e são estas pessoas que precisam ser educadas (e o serão, permita-me dizer, por bem ou por mal).

    É desta parte de praticantes da iniquidade, algozes conscientes da outra parte formada pelos que nada tem (embora ambos se finjam de inocentes e tontos) que devemos cobrar educação, tolerancia e bom senso.

    (Aliás, se a culpa fosse mesmo da ignorancia, consideremos que os ricos ou mais ou menos ricos do Brasil, na verdade são até mais ignorantes que os pobres porque, tendo a faca e o queijo na mão – a chance de distribuir renda, a opção de ‘ceder os anéis para não perder os dedos’ – teimam como mulas em se fingir de inocentes (quando não chamam a polícia) e acabam sofrendo as consequencias e os efeitos de sua própria indiferença (com a violência urbana, por exemplo). Sociedades mais espertas praticam, pelo menos, a franca caridade com seus pobres.

    Igualar em responsabilidades pela desigualdade social, pobres e ricos, é uma visão bem parcial e desfocada da realidade, convenhamos. Os ‘panos quentes’, os chamados à paz e à tolerancia, infelizmente, não são idéias razoáveis e a esta altura dos acontecimentos e nada resolverão.

    É preciso considerar mais seriamente os detalhes, as minúcias desta história. É preciso urgentemente, distribuir renda mesmo, criar políticas de promoção social honestas mesmo, verdadeiras, rápidas e profundas mesmo, fazer a coisa certa em suma.

    Colocar a culpa no mordomo não vai solucionar o crime e pode até piorar a situação.

    No mais e sem isto, lamento mas…só rezando.

    Abs

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  8. O que quero dizer é q acredito q apesar das tantas injustiças, por causa da sede de poder, ambição, prepotencia, egoismo e ignorancia, lentamente a humanidade têm lutado por e conquistado direitos mesmo que ainda de modo incompleto (contra a escravidão, direitos trabalhistas, em favor dos idosos, das crianças, à educação, de expressão…). Conhecer a história pode ajudar a romper com preconceitos, tentar compreender a luta por direitos, compreender a formação de um bairro, de uma comunidade, compreender os erros que criam a exclusão social, compreender aonde reside a força para transformar esta realidade, tanto por parte de quem sofre a exclusão quanto por parte de quem detem o poder (finaceiro ou político), tentarmos juntos modificar tal realidade nos torna mais humanos, mais solidários, mais responsáveis.

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  9. Há muito o que muitos não sabem e que outros esqueceram sobre a construção desta cidade. Zona Sul pensa que já nasceu “Zona Sul”, outros bairros foram “nobres” e na dita zona os recantos dos excluídos, quando o termo nem existia, já existiam. Coisa estranha “favela” já nascer da promessa não cumprida para os ex-combatentes em Canudos! Aquele que não herda a pobreza e acredita ter mais direitos, se vê acima do bem e do mal, não percebe que a luta pelos direitos humanos é a conquista da sua própria humanidade. Aquele que herda a pobreza e quer a mesma ilusão de estar acima do bem e do mal, perde igualmente sua humanidade, desejando explorar tal qual é explorado. Mas a luta pelos direitos tem seus adeptos e suas conquistas embora lentas nos dão esperança de um futuro mais humano.

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  10. ‘Cê viu só que bárbaros?Nem eu sabia deste incêndio monstro em 1940. E bem que os pobres tentaram não invadir os morros da zona sul.

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