Um ‘Negro Olhar’ sobre ExuChibata

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A Diva Ruth de Souza emocionadamente honrada no palco de ‘Negro Olhar’ em 21 de Abril. Foto de Eduardo Mello em O’Globo.

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A primeira leitura dramatizada ninguém esquece

Rolou a leitura dramatizada de ExuChibata! Emoção inenarrável. Foi ontem, 22 de Abril de 2010.

A leitura fez parte do II Ciclo de leituras dramatizadas de autores negros Negro Olhar, edição 2010, coordenado por Tatiana Tibúrcio. No Contexto do projeto, além dos dois ‘jovens’ autores estreantes, rolam também leituras de textos de autores consagrados como Cuti (com a sensacional drama‘Transegun‘, encenado por um afiadíssimo elenco ), o norte americano Amiri Baraka, com ‘Dutchman‘ e o emblemático Aimè Cesaire, com a negritude emocionada de sua versão caribenha para ‘A Tempestade’ de Shakespeare (confira no flyer)

A comissão Julgadora composta por Leda Martins e Ângelo Flávio, responsável pela seleção dos dois novos autores justificou assim a sua escolha:

Após análise criteriosa dos textos dramáticos a nós enviados para seleção, nós, Leda Martins e Ângelo Flávio, selecionamos para a leitura dramática do projeto Negro Olhar, edição 2010, as seguintes peças:

1. Exu Chibata, de Spírito Santo
2. Namíbia, não!, de Audry Conceição

Considerações Gerais sobre a obra:

Exu Chibata

O texto apresenta a história combativa na marinha pelo Almirante João Cândido na Revolta da Chibata, realçando a importância histórica, a coragem e as revolucionárias idéias do comandante negro. Outros sujeitos importantes da história cultural brasileira, como João do Rio, grande poeta e ativista negro, participam da trama. O texto apresenta o exercício de uma memória cultural afro-dialógica, produz um sujeito negro senhor do seu discurso e rompe a invisibilidade e a indizibilidade do negro na história político-brasileira. A peça oferece, ainda, a possibilidade de utilização cênica de uma série de recursos musicais e de jogos corporais, do amplo repertório das performances artístico-culturais afro descendentes, tornando possível a criação de uma paisagem cênica de amplo efeito sinestésico, sonoro e visual. Certa confusão cênica inicial pode ser resolvida pelo diretor e pelo próprio dramaturgo, durante os ensaios, contanto, se necessário com o auxílio dos dramaturgistas responsáveis pela seleção.

Atenciosamente

Leda Martins e Ângelo Flávio

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Debate depois de peça teatral é chato… mas é muito bom também.

É sim. Eu me lembro bem quando esta moda foi inventada ali pelos anos 70, como motivação para aquelas discussões mais cabeludas e clandestinas, numa época em que tudo que era público estava sob suspeição e podia ser censurado. Foi assim que se começou a promover reuniões mascaradas de pequenos e inocentes eventos artísticos (shows de ‘bolso’, peças de teatro, cineclubes com ‘filmes de arte’ etc.), mas que eram na verdade válvulas de escape para a nossa contida, porém determinada repulsa à Ditadura.

Hoje não há mais ditadura, certo? _”Falar mais do que se a peça já disse tudo?… Porque não vamos debater isto tudo num botequim?”_

Mas pensando bem, as ‘saias-justas’, sutilezas e tabus do racismo brasileiro bem que combinam com este tipo de evento cultural com um debate de quebra, não é não?)

Concordo que debate tem aquele negócio de parte da platéia ir, lentamente saindo de fininho, mas convenhamos: Tem lá o seu lado positivo para os que ficam ligados na conversa. E cá entre nós: sempre é bom ir para casa remoendo estas coisas sobre as quais tão pouco se fala. É tão difícil encontrar um papo destes por aí.

Tirando isto – ou por conta de tudo isto – o debate de ExuChibata (leia o texto integral da peça neste link) até que foi bem bacana. E mais: foi denso e curioso, pois a peça, com todas as caracteristicas de um teatro ‘épico’ (imagético’) com a dramaturgia inteiramente estruturada em cima do gestual,  das ações visíveis (pantomimas de circo, referencias cênicas à estética da belle èpoque’, adereços e legendas em tabuletas como alusão ao cinema mudo, etc.) não se prestava, exatamente – ja que tornava ‘invisível’ parte considerável do texto original – para um discurso expresso por falas de personagens que é o que caracteriza o formato Leitura Dramatizada convencional.

O desafio irrecorrível tornava a transcrição para o formato de ‘Leitura Dramatizada’, em suma bem complicado – o que fez ressaltar a larga experiência de Haroldo Costa e seu formidável elenco – ao conseguir a façanha de tornar ‘visível’ tal proposta cênica.

Bem, o certo é que, tanto quanto a leitura também rolou muito bem o debate. Os temas abordados, em parte suscitados pela peça (principalmente pela parte que ficou ‘invisível’ na leitura que o autor – este vosso criado – ansioso como estava, se sentiu na obrigação de ressaltar) foram temas bem pertinentes. Entre estes os mais candentes talvez tenham sido os seguintes:

1- Uma provável hegemonia de uma dramaturgia ‘branca’ (identificada como materializada pelo formato ‘drama’ e o palco italiano), exclue mesmo a possibilidade de uma estética negra vir a cena? Ou seja, o formato ‘Teatro épico’ (proposta estética da peça ExuChibata’) é o único formato onde um ‘Teatro Negro’ se tornaria, realmente possível?

(Você eu não sei, mas e achei que não. Os problemas da negritude no teatro para mim, residem muito mais na natureza dos conteúdos, das opções cênicas, no caráter das temáticas e , principalmente na estrutura dos personagens, em geral muito estereotipados por conta dos autores serem – do ponto de vista ideológico e cultural da expressão – quase sempre ‘brancos’)

2- Existiria mesmo uma estética exclusivamente ‘negra’ que pudesse ser expressa pelo teatro ou pela arte de maneira geral? Ou seja, os valores estéticos do teatro e da arte em geral não seriam, simplesmente universais, não tendo nada a ver com a eventual ‘negritude’ ou ‘branquitude’ dos grupos sociais?

(Eu disse lá que acho que existe sim uma ‘negritude’ estética, claro, do mesmo modo que existe uma estética ‘branca’, ‘européia’.)

A razão para mim é muito simples: para o bem ou para o mal, existe ampla diversidade cultural no Brasil (e não ‘mestiçagem‘ cultural, bem entendido) por conta de nossa extratificação social ser baseada na exclusão de grupos, supostamente ‘negros’ em benefício da hegemonia de grupos, pretensamente ‘brancos’)

Rolaram muitas outras questões e histórias imperdíveis. Uma das mais emocionantes foi aquela narrada pelo mestre Haroldo Costa sobre a trajetória do seminal  Teatro Experimental do Negro nos anos 40 (de Abdias do Nascimento, Haroldo Costa, o genial ator Aguinaldo Camargo, Léa Garcia e a diva Ruth de Souza, entre outros), núcleo gerador de inúmeros outros grupos de artistas negros, entre os quais a também citada luxuosa dissidência denominada Brasiliana de longa carreira internacional (5 anos de tournèe segundo Haroldo Costa seu criador e diretor), numa época de muita efervescência cultural – e sadios conflitos estéticos – no âmbito da afirmação de uma cultura negra popular urbana entre nós.

Não me ocorreu na hora, mas convém ressaltar agora que a principal estratégia de exclusão e invisibilização do negro nas artes cênicas (só questionada talvez pela criação do Teatro Experimental do Negro) foi, exatamente a de manter o negro confinado, restrito à prática de manifestações ditas folclóricas, de rua ou de culto – literalmente ‘Danças Dramáticas’ segundo Mario de Andrade – manifestações estas que, de um ponto de vista eminentemente teatral ou dramaturgico podem muito bem ser enquadradas como sendo, essencialmente… ‘Teatro Épico’.

(A propósito, a abaixo descrita Companhia de Danças Brasiliana – ‘épica‘ -, criada por Haroldo Costa como dissidência do acima citado Teatro Experimental do Negro‘dramático‘ – talvez já expressasse a existência desta talvez ilusória contradição.)

É óbvio (e o próprio Brecht por certo concordaria) que esta suposta dicotomia existente entre ‘Teatro épico‘ (supostamente ‘negro’, ‘popular’, ‘revolucionário’) e ‘Teatro dramático’ ( supostamente ‘branco’, burguês’, reacionário’) não passa obviamente de rasa ideologia de insanos,  não fazendo muito sentido no âmbito do exercício da  linguagem teatral real ou propriamente dita.

Aliás, o chamado ‘Circo-Teatro‘ – ou teatro ‘no circo’, mais precisamente – criado por atores, dramaturgos e encenadores circenses como os negros Benjamim de Oliveira e Eduardo das Neves ou o branco argentino Dom ‘Pepe’ Podesta, o ‘Pepino 88’ (não por acaso todos atores-palhaços na origem, filhos da Comedia Del’Arte)  já nos ensinou que as maneiras, estilos, gêneros  e formatos que se pode utilizar para se comunicar alguma idéia em teatro, são os mais diversos e inusitados, usando-se junto ou em separado a proposta cênica ou dramaturgica mais eficiente ou pertinente a cada caso (cada espaço cênico, cada tema, cada cultura, cada platéia, cada contexto enfim).

Teatro, portanto pode ser aqui ou ali, Preto ou Branco (ou pode ser também -porque não? – em Preto & Branco). A diversidade, a viva diferença também neste caso é uma lei irrevogável da nossa natureza.

Um mar sem começo nem final de conversas que seguem, já que o debate – como o espetáculo – não pode mesmo é parar.

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ExuChibata- Leitura dramatiza na Casa Laura Alvim 22 de Abril 2010

Com o valoroso elenco: Ricardo Romão, Maurício Gonçalves (ator convidado), Carlos Mutalla, Gizelle de Jesus, Sérgio Canízio, Múcio Medeiros, Paulo Cesar Soares, Ângelo Mayerhofer, Daniela Tibau, Alan Rocha, Victor Santana, Alex Borges.

Direção Haroldo Costa

Eu, emocionado autor estreante (no caso), agradecendo a todos os presentes com toda ênfase do mundo, repito feliz:

Maravilhosa experiência!

Spírito Santo
Abril 2010

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~ por Spirito Santo em 23/04/2010.

Uma resposta to “Um ‘Negro Olhar’ sobre ExuChibata”

  1. Olá, Spirito Santo!
    Quem lhe escreve é Eduardo Mello, fotógrafo do Negro Olhar.
    Fiz esse vídeo com as fotos do projeto. Confira aí. E caso queira postar no seu blog, fique à vontade.

    Abraços,
    Eduardo

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