O Kilombo, o angu e seus caroços

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Charge alemã de 1897. A legenda diz: "Uma tarde de domingo na África Ocidental" mostrando um mundo surreal nas colónias na África no qual os escravos são senhores. No anúncio: "Hoje:Grande banquete! 'Senhores como comida'!

Charge alemã de 1897. A legenda diz: "Uma tarde de domingo na África Ocidental" mostrando um mundo surreal nas colônias na África no qual os os negros são livres. No anúncio: "Hoje:Grande banquete! 'Senhores' (brancos) como comida'!

Remanescente de quilombo? Ih! É melhor esperar sentado!

Começo logo com uma paulada:

Com vocês Andressa Caldas e Luciana Garcia que em alentado texto no site Global.org fazem a introdução do nosso papo:

“… A Constituição Federal e a titulação das terras quilombolas

Como parte da própria reflexão sobre o Centenário da Abolição da Escravidão no Brasil, algumas reivindicações de organizações de movimentos negros e setores progressistas, levadas à Assembléia Constituinte de 1988, resultaram na aprovação de dispositivos constitucionais concebidos como formas de compensação e/ou reparação à opressão histórica sofrida.”

(Tá certo. Isto foi só uma ameaça. Agora é que vem a paulada):

Em 2001 Abdias do Nascimento, histórico e incansável líder do movimento negro do Brasil deu ao site da Rets (Rede Eletrônica do Terceiro Setor) a seguinte entrevista:

“Rets :

_Em 1980 o senhor apresentou sua tese sobre o quilombismo. O senhor ainda vê a forma de organização dos quilombos como um bom modelo de desenvolvimento para o país?

Abdias:

_Ainda vejo. Mas acho que eu apresentei o quilombismo de forma um pouco antecipada. A sociedade precisa ter um pouco mais de experiência para poder perceber a significação do quilombo e a prática do quilombismo. Muitas pessoas interessadas no assunto concordaram com as minhas teses, mas nenhuma delas procurou implementar uma organização como a que propus com o quilombismo.”

A tese de Abdias não é o foco de nossas elucubrações. Ela é polêmica e, de certo modo, datada, pois, estava visceralmente ancorada ainda na realidade política do negro brasileiro vista de forma bem ampla e pela ótica da luta contra os resquícios da Ditadura, já que era uma realidade – a do negro e a do racismo – que a anistia promulgada em 1979, na verdade só de leve se interessou em tocar.

O fato é que a conversa que vamos levar aqui com vocês, embora diga respeito à demandas pontuais criadas pela nova Constituição do Brasil (1988) para este assunto, apesar de toda a festa com que se costuma ‘enfeitar o pavão’ de nossa democratização, não sugere ainda um grande avanço na discussão desta questão, que já se arrasta desde 1888: A reparação dos malefícios e constrangimentos aos quais os escravos africanos sequestrados para o Brasil e  seus milhões de descendentes foram – e continuam sendo –  submetidos há quase quatro séculos.

Sabem como é, certo? O Brasil elitista é um racista aplicado e muito, mas muito renitente mesmo. Pentacampeão em exclusão social.

Entre todos os reparos que com certeza poderemos fazer numa inevitável comparação entre os dois momentos históricos – o do lançamento da quase comunista tese ‘Quilombismo de Abdias e o nosso hoje em dia cheio de remanescencias– uma triste constatação: Reduziu-se de forma drástica o protagonismo e a combatividade das lideranças do Movimento Negro no Brasil, aquelas que poderiam estar na vanguarda das reivindicações atuais. O lado constrangedor deste protagonismo esvaziado e subalterno, infelizmente está visível na cooptação de muitos, na corrupção de alguns e no baixo nível político-ideológico da maioria.

Talvez seja esta conjuntura constrangedora – franqueza dói mas não mata – a principal razão para que uma causa tão importante e particular como a luta pela posse da terra por parte de comunidades remanescentes de quilombos, esteja tão diluída em pendengas paralisantes, envolta nesta rede de ambiguidades e incongruências tão flagrantes, sendo muitas vezes desvirtuada, atrelada a causas e interesses outros, como um filho de pai desconhecido.

(E filho ‘feio’, como todo mundo sabe, não tem pai).

Dito isto, podemos relaxar um pouco. O papo agora pode ser mais ameno sim, já que o mundo não foi feito num só dia.

Ki-lombo= Kilombo= Quilombo = “Fortaleza

(literalmente em Kimbundo, uma das línguas principais faladas em Angola)

O termo – todo mundo por aqui acha – viria do nome dado ao complexo de comunidades de escravos rebelados conhecido como Quilombo de Palmares, nas imediações de Pernambuco nos primórdios de nossa colonização. Zumbi de Palmares lembram?

(Mas, ‘achismo’ como se vê, não é exatamente cultura.)

Pois neste caso então, saiba quem ainda não souber que a palavra vem de um contexto histórico bem mais distante e complexo, bem menos chegado ao ‘chavão’ (e estas sutis filigranas historiográficas podem mudar tudo em nossa maneira de entender o conceito). Mais do que se pensa, pelo menos.

Kilombo na verdade, com o estrito sentido de ‘fortaleza rebelde’ tudo indica, é uma palavra transposta para a realidade colonial brasileira, depois de ser adotada como jargão militar pelo exército português durante sua guerra suja contra os nacionalistas angolanos comandados pela rainha Nzinga Mbandi e outros sobas, reis ou mandatários locais ali por volta de 1630/40.

O que isto tem a ver? Tudo. E com muita coisa que nos diz respeito. É que existe uma questão muito cabeluda rolando no Brasil atual envolvendo o conceito ‘Quilombo’, no âmbito da regulamentação de leis que embasarão políticas públicas inspiradas na constituição de 1988, visando garantir a posse da terra, por meio de títulos de propriedade ao que se convencionou chamar de ‘comunidades remanescentes de quilombos’.

(… Mas espera aí… _ “que lombo!”_ não se refere à bela bunda de uma mulata bem gostosa?)

Ui!…Calma, calma. Ignorância racista também tem limite (embora não seja nada mal que haja ignorância para que a modesta sabedoria de alguns possa dar o ar de sua graça).

Mas ok, ok. Ninguém nasce sabendo. Sou paciente e dou outro exemplo para os mais leigos que eu:

Quilombo para iniciantes: Princípios ativos e componentes lógicos

(Leia e entenda bem a bula antes de usar)

Quando levamos uma paulada na cabeça, qual é o nome que damos àquele caroço doído que nos cresce na testa? (Não. Chifre não. Sem sacanagem que estou falando sério)

Anh? Calombo? Isto! Ka-lombo (olha…Esta foi uma sacação ‘newtoniana’, não foi não?). Racionem comigo então: Como ‘Ka’ em kimbundo é diminutivo, Lombo pode significar então… ‘protuberancia, correto? Pequena protuberância (se traduzirmos bunda como ‘lombo’ a dita significaria uma bela e média …tá, vocês já entenderam.)

Kilombo, Kalombo, Lombo e Bunda: Um contexto semântico bem afinado com o mais puro vernáculo angolano.

Daí Kilombo (Ki, assim como Ka é prefixo em kimbundo) pode ficar sendo, no dizer de um colonialista lusitano pelo menos, ‘fortaleza de pretos construída num lugar alto’.

(Deve ser, logicamente por isto que os quilombos no Brasil, pelo menos os mais perenes, eram feitos em serras bem altas. Reminiscências culturais, inteligência estratégica, guerreira trazida de lá dos cafundós de Angola.)

Viram só como são as coisas? Uma palavra não é apenas um som qualquer, um amontoado de fonemas. As palavras carregam muita história, sentidos. Saber valer-se do que elas tem para nos contar sobre o passado e o presente, costuma ajudar muito a gente a construir um bom futuro.

_E olha a Etimologia aí, gente!

Logo se vê, portanto, que não é nada desimportante se bater na tecla da semântica neste caso, não é não?  Matando a semântica original se mata o sentido, a alma da palavra que passa a significar… nada. Afinal de contas, nunca é demais repetir: Jesus não é Genésio. Berimbau não é gaita.

(E você é tão bobinho a ponto de acreditar mesmo que seja possível transformar em lei conceitos vagos e desprovidos de sentido?)

Então vamos lá! Todos juntos, comigo:

_”Ressemantizar é o cacete! Viva a cultura negra nacional!”

Pois não é isto que parece estar acontecendo neste caso? Todo mundo se acha careca de saber que ‘Quilombo‘ de algum modo hoje em dia é isto aí: Um território (um lote de terra que seja) ocupado por descendentes de escravos que, por conta de históricas necessidades de reparação em vias (?) de serem reconhecidas (a escravidão foi um regime juridicamente condenável, certo?), reivindicam, diretamente ou com o auxílio de intermediários, a posse das terras que ocupam.

O resto é o resto. Deveria ser motivo para outras reivindicações.

Mas é aquela história que todo mundo também já  sabe: Enquanto o douto elabora conceitos o leigo palpita, especula, mas ambos, ao fim de todas as contas não vão poder mesmo falar mais do que… ‘em tese’.

Vamos então abordar este assunto assim-assim, valeu? Sem delírios sabichões,  na base do mais modesto feijão com arroz, pisando em ovos alheios, se necessário, mas com todo carinho, sentindo na pele o drama da questão. Sem ser louco a ponto de me achar um Deus da verdade é, pois, em tese, em tese, que vos digo:

Histórico das mumunhas jurídicas sobre o tema Quilombo hoje

(Colocando alguns  pingos nos ‘ís’ )

E são ainda Andressa Caldas e Luciana Garcia que se referem,  claramente ao que para nós se transformou no caroço (ou… calombo? Êpa!De novo? ) crucial deste angu:

“…Introdução

“…No Brasil, existem mais de 2.200 comunidades afro-descendentes quilombolas, totalizando cerca de 2.5 milhões de pessoas… No que concerne à titulação dos territórios quilombolas, recente relatório independente da Comissão Pró-Índio de São Paulo (CPISP),”Ações Judiciais e Terras de Quilombo”, revela que até agosto de 2006 havia “310 processos de regularização de terras de quilombo perante o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária.

O levantamento da CPI-SP revela que 59% dos 310 processos abertos recebeu apenas um número de protocolo no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). Ou seja, em 182 processos nenhuma medida administrativa foi tomada no sentido de regularizar o território… “

…” A ressemantização do termo quilombo e sua inserção na Constituição Federal de 1988 vieram a traduzir os princípios de igualdade e cidadania negados aos afrodescendentes correspondendo, a cada um deles, os respectivos dispositivos legais:

i) Quilombo como direito à terra, enquanto suporte de residência e sustentabilidade, há muito almejadas, nas diversas unidades de agregação das famílias e núcleos populacionais compostos majoritariamente, mas não exclusivamente de afrodescendentes – CF/88 Artigo 68 do ADCT – sobre ´remanescentes das comunidades de quilombos; Quilombo como um conjunto de ações em políticas públicas e ampliação de cidadania, entendidas em suas várias dimensões – CF/88 – título I direitos e garantias fundamentais, título II, cap. II – dos direitos sociais;

ii) Quilombo como um conjunto de ações de proteção às manifestações culturais específicas – CF/88 – artigos 214 e 215 sobre patrimônio cultural brasileiro.

(Épa! É isto mesmo? O dispositivo se refere a manifestações culturais… específicas? Bem, vamos ter que cobrar que esta especificidade seja explicitada mais tarde.)

Mas o enunciado do dispositivo, mesmo sem explicitar nada da questão, por ele mesmo proposta, ainda insiste:

“…Assim, o artigo 68 dos Atos das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal de 1988 (ADCT) estabeleceu que:

“Art. 68. Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos.”

Ao que comentamos aqui (tentando imitar aquela ‘baba de quiabo’ dos advogados):

Ora, o que se chamou neste caso de ‘ressemantização’ parece com tudo menos uma alteração da semântica do que quer que seja. Fica claro que se tentou, tão somente aplicar o nome genérico de Quilombo (e, portanto banalizando o sentido estrito do conceito) a uma outra figura jurídica, inclusive já existente, qual seja o ‘direito genérico das populações afro descendentes (e não exatamente quilombo-descendentes no sentido lato) à posse da terra.

Convenhamos que este direito à posse da terra é por demais genérico e redundante. Que se danem os regulamentadores! (aqueles que vão ter que dar seu jeito para dar nomes aos bois.)_ Parece nos dizer, curta e grossa, a nossa ‘boazinha’ constituição de 1988, certo?

Em suma, com a nítida finalidade de ampliar o leque dos beneficiários (quem pensou esta estratégia tão ingênua?), não se mudou apenas o nome da coisa, mudou-se a coisa de nome, o que é muito diferente e não significa, de modo algum ‘ressemantização’.

Ressemantizar’ seria adaptar o conceito à nossa época, sem desconsiderar (ou ‘ressignificar’ aleatoriamente) aspectos definidores – como a cultura ‘tradicional’ destes segmentos, por exemplo. Afinal, o dispositivo determina ou não determina a defesa de manifestações culturais… específicas?

Ao que nos parece, da forma como está proposta no dispositivo – que se pretende um instrumento legal – a medida acaba não tendo aplicabilidade jurídica especial alguma, sendo facilmente desqualificada por qualquer boa banca de advogados inimigos da causa, já que nele, no dispositivo, poderiam estar abrigados todos outros segmentos… ‘étnicos’ (o que, aliás, o próprio dispositivo admite em seu texto ser um critério vago), não conferindo à medida força alguma para fazer valer os direitos deste ou de qualquer grupo…’étnico’ em particular.

Nas barras frias de um tribunal em suma, baseado apenas em semelhantes argumentos tão pouco jurisprudenciais, um grupo ‘majoritariamente’ formado por quilombolas remanescentes, não teria, realmente chance alguma.

_”Terra para negros ex-quilombolas!” _ Será preciso dizer, com todas as letras, de forma cabal, com palavras passíveis de serem compreendidas, comprovadas e transformadas em lei.

Ora, é claro que esta conversinha de ‘ressemantizar’, ‘ressignificar’ tudo – por mais bem intencionada que seja – só podia dar no que deu.

Quem dá nome aos bois?

“Quem pariu mateus que o embalance”

É fácil falar, criticar, cobrar assim em cima deste muro de lamentações. Eu sei também que é preciso ir devagar com este andor. As intenções da maioria dos envolvidos são boas e as suscetibilidades são frágeis demais diante de críticas mais ácidas. Todo mundo quer ser o santo padroeiro desta história.

Sabem vocês, contudo, tanto quanto eu, que das melhores intenções está lotado inferno.

Porque esta questão não anda? Será que está planejada para não andar mesmo? Culpa desta desmobilização impressionante do outrora combativo Movimento Negro do Brasil, que teria emprestado para o Movimento Social como um todo, tornando genérica, esta bandeira que lhe era tão cara e exclusiva?

Seria culpa dos advogados, juízes e legisladores em geral que não conseguem entender a necessidade de se associar Justiça Social com Diversidade étnica? Ou seria culpa dos técnicos, antropólogos e historiadores, envolvidos em bizantinas questões acadêmico-conceituais que os levam a ideologizar, questionar  e ‘ressignificar’ o conceito de tudo nem sempre com as mais claras intenções?

Como nos diz um entendido sobre o tema:

“_ …esse assunto é o maior tabu entre os antropólogos. Existe digamos um código secreto, um espírito corporativo, uma pretensão de reserva de mercado para aqueles que lidam com a tal antropologia aplicada…

Ih! sai de baixo! Mais caroço à vista.

…Bem, mas isto é assunto para outras mangas num post que faremos logo a seguir (leia aqui o POST #02). Enquanto isto vão pensando aí que a pobre da bezerra ainda não morreu.

—————–

(Em tempo: A palavra angu também vem de algum modo do Kimbundo, sabiam? Penso que vem de ‘iangu’ que quer dizer capim – ou couve picadinha – aquela que, além do caroço, engrossava o dito cujo na cuia do escravo. O engraçado é que a palavra não vem diretamente de ‘fubá’ não, embora ‘fubá’ também venha do kimbundo ‘fuba’, farinha de milho.

Recomendo contudo muito cuidado com os dicionários. Kalombo, por exemplo quer dizer hoje em Angola, literalmente, ‘mulher infecunda‘. A língua é a mãe de tudo, ou seja: Tem gente aí que precisa rever, totalmente os seus conceitos etimológicos… e ideológicos com urgencia. )

Ressignificar-se, diria.

—————–

Depois o papo segue – e esquenta mais – Achei por bem linkar aqui a matéria fedida da revista ‘Veja já que os leitores mais ligados ao tema vão estrilar e com razão.

Calma rapaziada. Uma coisa a gente precisa reconhecer: para um oportunista agir é necessário que alguém crie a oportunidade, certo?

Ajoelhou? Tem que rezar.

————-

Fui mas volto já.

Spírito Santo
Maio 2010

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~ por Spirito Santo em 18/05/2010.

6 Respostas to “O Kilombo, o angu e seus caroços”

  1. Valeu, João! Agora os nomes delas vão poder ficar para a posteridade

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  2. Eu não tinha visto os outros posts seus, Spritu (c pode não acreditar – muita gente não acredita – mas eu não sou muito familiar com essas coisa d internete, me dá uma certa preguiça… geralmente entro na página lincada & só). Agora q dei uma olhada, vi q realmente é o caso. Tem toda razão, vc. Qto aa sua pergunta anteiror, as antropólogas q participaram daquela reunião da Palmares (das duas primeiras, na verdade) são Neuza Gusmão (UFSC, acho) e Eliane Cantarino Dwyer (da UFF). Não tenho razão nenhuma pra esconder isso, sou a favor d fazer as coisas d forma transparente.

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  3. Concordo, agora plenamente (na verdade pensei que a série de posts afirmasse – e até provasse – exatamente isto). valeu que você agora enfatizou.

    Claro que todo mundo, toda cultura ressemantiza seus elementos, afinal toda a cultura – ou toda tradição, já diziam os Hobsbawms da vida – é inventada. A questão parece que é bem esta que a gente aponta: quem resemantiza e – o que é mais importante ainda – com que intenções.

    Como eu disse acima e infelizmente, no campo específico da cultura propriamente dita, que é apenas um dos muitos substratos desta questão eminentemente fundiária (eu falava antes do tombamento de bens culturais imateriais que tem relação direta com a questão quilombista) isto fica mais evidente ainda, pois as baixas intenções, como as inúmeras cumplicidades envolvidas no interesseiro mercado de pareceres antropológicos, as diversas mutretas ligadas ao acesso às verbas da lei Rouanet, com acordos espúrios entre secretarias de cultura de prefeituras e mega empresas de turismo cultural, a corrupção de informantes que subsidiam pareceres de brincantes, etc. são tantas e tão banais já que a gente nem se dá mais ao trabalho de enumerar. e denunciar.

    E o pior é saber que todas estas deformações maldosas e irresponsáveis e de todo o tipo, depois de urdidas ou planejadas por corruptos ‘leigos’ ou ‘normais’, são corroboradas, sustentadas mesmo, por argumentações e teses academicas de antropólogos e historiadores (além de juristas e políticos, claro) mancomunados á estes interesses espúrios, que chegam ao cúmulo de distorcer em suas novas teses, as teses originais de pensadores renomados (como é o caso da ‘tradição inventada’ do Hobsbawm, que citei e de algumas teorias marxistas de Nèstor Garcia Canclini sobre culturas populares na modernidade que são flagrantemente distorcidas nos pareceres que li) com o fim de justificar o desvio das vantagens que seriam dos quilombolas para os benefiários de sempre, no ataque aos cofres públicos ( que para eles é mero butim), custe o que custar.

    Haja inglês para ver e acreditar – se quiser – na resemantização que esta gente fez da compostura, da ética e da vergonha na cara.

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  4. Acho q o grande problema desse papo todo não é a ‘resemantização’ em si – mesmo pq todo grupo social ‘resemantiza’ sua própria história, sua sociedade, seus valores, etc, todo o tempo – mas QUEM faz isso. No caso dos Indígenas no Brasdil, por exemplo, o pr´~oprio termo ‘índio’ teve seu significado transformado nos lugares onde existe índios, pela prática do mov. Indígena. Índio era visto, em lugares como manaus, como um xingamento. A força do mov. Indígena mudou isso, transformando ‘índio’ em uma marca de orgulho, em algo com valoração positiva, como é hj em manaus e Amazonia (urbana, pelo menos). O problema, a meu ver, com esse papo d quilombo é q quem fez isso não foi nenhum movimento social como no caso Indígena, mas um grupo d academicos, tecnocratas e mesmo alguns militantes (urbanos, na sua totalidade) de movs. negros mais próximos do poder. Por isso disse aí acima q no cado das comus negras no Brasil esse lance d quilombo sirviu simplesmente pra transformar os caras em clientes do Estado. Os interesses envolvidos nessa ‘resemantização’ (q na verdade é apenas a criação d uma categoria administrativa) não foram – não são – os das comus envolvidas, nem d longe. Mesmo pq a principal coisa disso tudo, do artigo 68-ADCT, q é a regularização fundiária, é muito pouco feita. Na verdade, desde o governo d Efé Agá I q essa regularização fundsiária foi reduzida a carnavalização da diversidade social.. A marca mdisso, pra mim, foi a ‘titulação’ de trezentos e poucos hectares em 90&poucos por Sua Majestade no dia nacional da consciencia negra na região do Trombetas, local d ocupação negra livre desde o século XVIII e q tinha uma reivindicação d 76 MIL HECTARES d terra. Vc ve, daí, o quanto esse papo d regularização fundiária se transformou na verdade em uma peça d decoração d um enredo q serve como uam forma d carnavalizar as relaçõe ssociais no Brasil, dando uma terrinha simbólica pra um pessoal propagandeado aos quatro ventos pela propaganda oficial como ‘os quilombos brasileiros sendo regularizados’. Na verdade, uma festa feita para wer mostrada aos olhos da população – uma performance parodiada da diversidade aceita pelo novo establishment político brasileiro. Pra mim, a coisa toda perdeu a serriedade após a tal ‘resemantização’ q pewrmite a criação dessa ficção d marketing político.

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  5. Grande contribuição do João da Silva ao papo (muito enriquecedor termos agora a concordancia de um especilaista, testemunha ocular da história). É um agravante também para mim, saber que o processo de ressemantização foi iniciado depois da constituinte e por interesses tão particulres e mesquinhos (triste, mas o fosso ético em nossas relações institucionais é sempre pior do que se imagina).

    Não sei se o João concorda, mas eu chamaria a atenção também de todos para o fato de que este insidioso processo de oportunista ressemantização de tudo, acabou virando uma praga no Brasil, também na área do MinC, no tombamento de bens imateriais (com o Jongo sendo a manifestação mais atingida – quase de morte diria- pela insídia destes oportunistas de plantão).

    Vou cavar as outras matérias que escrevi sobre isto (fiquei seco para saber o nome das moças, mas…entendo que há uma caixa preta aí, a questão é tão cabeluda quanto é devastador o prejuízo que os quilombolas reais tiveram com a falseta delas e a cumplicidade de todos os envolvidos, a Fundação Palmares inclusive).

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  6. Concordo com muito do q vc disse aí. Mas esse papo d ressemantização começou DEPOIS da constituição, não durante a elaboração dela. Mais exatamente, no início da década d 90. O dispositivo 68 do ADCT (fiz uma pesquisa no sdenado sobre isso) nunca foi discutido durante a constituinte. Ele era uma dendo aa questão do tombamento da Serra da Barriga, onde estava Palmares. Imagino q em algum momento alguém deve ter perguntado ‘e se tiver descendentes dos quilombolas lá, qq a gente faz>’ E alguém deve ter respondido ‘bota um adendo aí pra titular as terras deles’. E foi isso. Nos anais da constituinte não consta NENHUM DEBATE sobre isso. Esse papo de ressemantização, ouvi pela primneira vez em 1996, na primeira reunião da Palmares sobre a regulamentação do 68;ADCT, qdo duas antropõlogas q trabalham com comunidades rurais negras propuserasm q o ‘conceito’ deveria ser o mais amplo possível pra caber todas as comunidades rurais negras estudadas pelos participantes da reunião (é, nesa forma mesmo, com essas palavras), e vieram com essa de ressemantizar o ‘conceito d quilombo’. Isso em meados dos anos 90. Já havia saído o primeiro laudo de identificação d uma comu remanescente d quilombo – em rio das rãs, eu participei do grupo técnico q o escreveu – e a Palmares querias o protagonismo na coisa. Daí aceitou a idéia das duas antroõlogas e começou com esse papo d ressemantização. Ou seja, teve claras intenções políticas e interesses pessoais envolvidos nisso tudo. E elas vieram d políticos e academicos. Os interesados em si mesmos nunca participaram d nada disso. Dz anos depois, em 2006, qdo fiz um laudo d identificação pra Palmares (em Angelim, no N do ES), foi q vi pela primeira vez um movimento social formado pelos próprios moradores dessas comus. Aí já tinha transcorrido uma década daquela reunião, e quase quinze anos do início da coisa toda.
    Ah, por faalr nisso, o ludo q elaborei era contrário a essa coisa d ressemantização. Ele procurou desvelar a dimensão histórica real da comu d Rio das Rãs, e descobriu q a idéia d quilombo q a gente tem na cabeça tem pouca correspondencia com a realidade d quilombos durante a escravidão, e com a arealidade de comus negras depois da escravidão. Nesse sntido, acho q precisaria repensar a noção d quilomb q a gent etem, mas em baes bem diferentes do q é feito agora. Da forma como é feito, isso serve apenas pra apagar a experiencia histórica de boa parte da população negra do país e pra tornar essas comus clientes do Estado, sendo q bem pouco proveito concreto os q vivem nessas comus tiram disso – como vc mesmo constatou aí acima, regularização d terra mesmo, pra além do marketing político q isso tudo rende, é bem pouca…

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