O Acarajé Azul


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Caetano Nabucoso Buarqueando Freire
A velha não-rima do ‘branco’ não ter nada de novo pra dizer.

…”Eu tava com graça…
Tava por acaso ali, não era nada
Bunda de mulata, muque de peão
Tava em Madureira, tava na bahia
No Beaubourg no Bronx, no Brás e eu e eu e eu e eu
A me perguntar: Eu sou neguinha?”

————–

Eu sei. É bater no mesmo samba deixando a melhor nota soar só. Mas é que adoro dizer: ‘Eu não disse? Eu não disse?”

E repito: Tenho dito que há uma corrente de pensamento fluindo por aí na mídia, refletindo um pensamento esquisito, embora as vezes polido e… cordial que, ao final das contas se contrapõe veementemente à superação da exclusão socio-racial entre nós, contra às ações afirmativas, contra às cotas raciais e contra todas as iniciativas que, mal ou bem, à torto e à direito sugerem que é preciso romper a muralha excludente do racismo no Brasil.

Parece um conluio de formadores de opinião, sacaram?  Com todas as letras um movimento igualzinho aquele dos jornais anti-abolicinistas da época anterior à Lei Áurea (hum!.. sentiu só o cheiro de naftalina?)

_”Anti-abolicionistas tardios!”_ Repito na cara deles.

Duvidam? Pois saibam que isto é até bem comum de acontecer na mídia, na imprensa escrita falada e televisada, nos meios de comunicação de qualquer lugar e em qualquer época (e não precisamos nem citar a revista ‘Veja’)

A última vez que bati nesta tecla foi manifestando as minhas suspeitas de que o segundo caderno do jornal O’ Globo (jornal que muitos – inclusive eu –  consideram,  enquanto dirigido por Ali Kamel , um ‘aparelho’ desta ‘corrente pra trás‘), havia sido enfim tomado também por um bem articulado grupo de colunistas ‘especiais’, ao que parece arregimentados à dedo para defender, como adeptos ou simpatizantes,  a ‘causa’ de Kamel & Cia, uma bandeira que eu chamo de ‘neo-racismo’ e que eles chamam ‘anti-racialismo‘.

Podiam ao menos disfarçar.

Referia-me a incrível coesão do discurso desta turma na defesa (extremada no caso de Ali Kamel, Demetrio Magnoli, Rodrigo Constantino, Ivonne Maggie, Peter Fry e até a vetusta família Bolsonaro, formada por parlamentares direitistas, os acólitos principais) de suas posições – ao menor sintoma de adesão pública – contra movimentos de direitos civis que envolvam a superação do racismo.

A sensação de “_Eu não disse?” me veio agora mesmo, lendo em O’ Globo de hoje (no caso 27 de Agosto de 2010) a coluna do elegantíssimo Caetano Veloso, que junto com os não menos elegantes José Miguel Wisnik, Hermano ViannaFelipe Hirsch e outros (leio todos, por dever de ofício),  exatamente como eu bato na minha, batem na mesma tecla-tese deles: O Elogio à Mestiçagem, a Democracia Racial e outras ficções sociológicas, chavões embolorados  numa elegia saudosista (admitida pelo Caetano em seu artigo) do tempo em que os negros – e os ‘mulatos’ –  todos  os ‘não-brancos’ do Brasil sabiam muito bem o seu lugar.

Agora por exemplo: Vivem falando em hibridismo cultural pra lá hibridismo cultural pra cá, querendo sinuosamente dizer que esta conversa de cultura negra não é legítima, que não haveria cultura negra ‘pura‘ no Brasil.

(E quem foi que falou em ‘pureza‘?)

Ora, qualquer garoto mais perspicaz um pouquinho, cavucando no Google vai entender que a palavra híbrido quer dizer ‘tamo junto’ como se diz, ‘um por todos todos por um’ e não, ‘diluído, ‘ misturado’,  ‘liquidificado’, como eles parecem afirmar com este papo de miscigenação (uma palavra aliás literalmente eugenista, quase nazista, de dar arrepio em judeu.)

Já que a natureza não é idiota e não existe ser humano híbrido (o conceito é usado em antropologia de forma figurada) vamos combinar que Híbrido é o ‘Preto’ e o ‘Branco’ lado a lado e não o ‘acinzentado‘.  Logo hibridismo Cultural deve tratar, portanto da diversidade e não da homogeneidade cultural, correto?

Está bem. Convenhamos que ‘racialismo’ é um conceito cabuloso. Sua tese básica – que é estritamente biológica – é a seguinte: existem diferenças raciais entre seres humanos. Correto? Não, claro que não. Somos todos iguais, biologicamente, quase absolutamente iguais.

A questão é que os chamados anti-racialistas distorcem a tese para embasar argumentos, propositalmente simplistas. Pois é. Todos os  racismos, sutis ou grosseiros são assim: vivem da criação de falsas aparencias, toscas ambiguidades. Sofismas.

No fundo parecem dizer – e isto é que é mais constrangedor – exatamente como o chefe Ali diz:

_”Não, não, não somos racistas! Se não existem raças não existe racismo logo, para que criar  mecanismos de inclusão e reparação para negros?”

A realidade, segundo o discurso deles, estaria aí mesmo para provar  o que Caetano diz, citando uma máxima do Oludum (o bloco)  sobre ele mesmo:

“_ O Oludum é a maior Democracia Racial do Mundo”.

Pois sim… (que coisa! Caetano não intuiu nenhuma ironia na frase?)

“_Você já foi à Bahia, nego? Não? Então vá.”!

Claro que o pensamento deste pessoal é muito importante para o debate (e neste particular, ler a bela e convincente prosa de Caetano Veloso é um luxo à mais). Eles são aguerridos, preparados, sedutores,  contudo convenhamos: Este cheiro de bolor que exala destas teses, incomoda pra caramba. Não combina com o perfil de ponta do intelectualismo quase novaiorquino deles.

O fato de todos eles (…quase todos, vá lá) apresentados pomposamente como sendo os ‘novos cronistas’ do jornal,  repetirem o mesmo ramerrão Nabuco-Freire-Buarqueano sem mudar nem as vírgulas, repetindo em coro  este mesmo pensamento torto e arcaico, que renitentemente preconiza que a extratificação social no Brasil deve permanecer ad infinitum como está (mudar, só quando a galinha criar dentes) , incomoda mais que uma manada inteira de elefantes… de qualquer cor.

Afinal eles não são conhecidos como a nata da intelectualidade descolada e moderninha do Brasil? Papo velhusco demais este aí, o deles, contido nestas amarras reacionárias, meio rabo preso (e creiam,  é só por isto que deles desconfio.)

Bem, façam como eu então e leiam lá o arguto Caê em O’ Globo de hoje (27 Junho 2010) que  o texto é até bem bacaninha. O texto do Hermano Vianna no mesmo O’Globo, de sexta feira passada também é bem assentado neste mesmo pensamento, pois nele o overmundista Vianna (comentando o fenômeno japa-pop dos ‘Mangás) cunha um estranhíssimo ‘novo’ conceito: A tal da ‘nipo-mestiçagem’,  conversa da mesma praia Gilbertofreiriana, aquela do já falado amor desmedido a um hibridismo invertido, transverso porque parece sempre envergonhado da nossa imensa África cultural visível de qualquer janela ou banca de jornal.

E cá entre nós: é isto que, no fundo no fundo, ‘entrega‘ que eles à vera à vera mesmo, não curtem  hibridismo algum, já que estão sempre a  querer velar e anular, exatamente esta nossa tão boa e bela ‘pretinhosidade’.

(E afinal, onde andaria este povo híbrido e cordial deles, gente? Onde que a gente não vê?)

Enfim, sutileza ideológica na hora de ler estes caras não faz mal a ninguém.

De quebra pincei um trecho das idéias de Caetano Veloso lá no sempre interessante site dele, onde os fundamentos deste neo-racismo bolorento mal escondido aparece bem demais (como casca de camarão – sem camarão – no acarajé) .

Leia também Olhos azuis vêem a cor do Brasil’ e ‘Liv Sovik é quem diz‘, antes – ou depois- de ler tudo aqui a seguir:

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“Democracia racial rima com homem cordial
Caetano Veloso – Folha de São Paulo
10/06/2006

Li “Raízes do Brasil” e “Casa-Grande & Senzala” há muito tempo. Não li Caio Prado. Sou um lírico. Economia é a ciência de tudo o que não me interessava espontaneamente desde a meninice. Li Paulo Prado e seu belo livro menor sobre as três raças tristes. Quando tomei conhecimento da obra de Joaquim Nabuco, passei a considerar que ele tinha abordado o essencial do que está em Gilberto Freyre. Muito antes, muito melhor, muito mais no ponto. É claro que isso se deveu em parte ao entusiasmo da descoberta. Mas ainda acho que em “O Abolicionismo” e “Minha Formação” há mais decisões intelectuais relevantes sobre a casa grande e a senzala do que nos livros de Freyre. É que Freyre sempre me agradou em cheio.

Nunca achei que ele negligenciasse os aspectos horrendos da nossa formação.
Ele é também um crítico duro. Não é porque facilita as coisas para nós que suas idéias sensualizadas sobre nossa originalidade tropical e lusa -nossa exuberância mestiça- são rejeitadas; é antes por elas trazerem a sugestão de uma grande responsabilidade. Preferimos crer que o que nos distingue é a incapacidade -e julgar tudo por esquemas “universais” como luta de classes, infra-estrutura econômica, injustiça social.

Pessoalmente tendo a gastar mais meu tempo pensando na afirmação de que, dos três povos que nos formaram, o menos lúbrico é o negro. É por ser assim tão a favor de Freyre que pude (ou precisei) achar Nabuco maior…”

Galdino e o quarto escuro


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Não é, confesso, mas bem que este poderia ser Galdino Cabinda

Não é, confesso, mas bem que este poderia ser Galdino Cabinda

O inferno do escriba é aqui

Parece o céu de uma vida vivida só na flauta, mas escrever – com perdão da palavra – é phoda.

Escrever sobre o que? Me digam. Para quem? Publicar, difundir onde? E como? Deus do céu! Só mesmo sendo como eu que escrevo por vício, na compulsão franco-atiradora de pelos cotovelos sair dizendo as coisas que me vem à telha, com a mais sincera das emoções.

Existem uns macetes que a gente aprende às turras com as páginas em branco, nas surras do dia a dia: O ofício, mesmo aos diletantes, exige alguma dose de pragmatismo sim. Aprendi isto escrevendo umas poucas peças e roteiros para teatro e cinema, linguagens rígidas, cheias de filigranas técnicas e rubricas.

Existiria algo mais virtual e louco do que escrever tão meticulosamente, apenas supondo que alguém, um belo dia, vai dispender tempo e – com de novo o perdão da palavra – saco de ler uma história já toda formatadinha para ser encenada num palco ou filmada por muitas luzes, câmeras e atores, escrita pelo ilustre quase desconhecido que é você? Pura piração, não é não?

Foi por isto que, cansado de ver gavetas e HDs cheios de calhamaços de papéis e bits de histórias formatadas nesta ou naquela linguagem arrumadinha, decidi simplesmente contar histórias como aqueles contadores comuns contam, coloquialmente, como ao pé de uma fogueira quentinha, para todo mundo entender.

Daí – que alívio!- o problema passa a não ser mais meu. Quem quiser achar que a história se parece mesmo com um filme ou com uma peça de teatro que me convença ou que monte ou imagine na sua própria cabeça as imagens que lá bem entender.

Então é assim: É bem isto que este argumento como todo argumento é: Um filme imaginado, sugerido, olhado pelo velho diafragma de uma máquina fotográfica caixote, das antigas, querendo falar das fotos que jamais foram feitas de um – por isto mesmo-  invisível êxodo de escravos da servidão da roça para a rebeldia da Corte do Rio, da tontice mais épica do eito para a esperteza do Ganho na cidade grande (e isto tudo com graça e propriedade) num cenário de manguezais exuberantes, num século 19 em que uma natureza vizinha  e tão conhecida da gente do Rio – a baía da Guanabara, hoje degradada como que – emoldurava uma história de um Brasil escravista que foi o que foi como teima ainda ser.

É tudo mentira, certo? Tramas inventadas, mas se quiserem, simplesmente imaginem que foi assim tim tim por tim tim e se divirtam sem culpa.

Galdino e o quarto escuro

Argumento cinematográfico para um eventual longa metragem

Por Spirito Santo

Rio de Janeiro, entre 17 e 20 de Maio de 1888. Encarcerado, justo quando todos os escravos acabavam de ser libertados pela lei Áurea, sob severo interrogatório na Casa de Detenção da Corte, acusado de ser um rebelde quilombola, o negro ‘de ganho’ Galdino Cabinda, vai desembuchando a história de como, justo ele, tão sabido quanto despachado, apesar de completamente inocente, foi se envolver numa enrascada cabeluda como aquela, cujo desfecho, como saberemos adiante, deu no que deu.

Entre respostas sinceras ou mentirosas (arrancadas sob pancada no interrogatório) e coisas que ele fala simplesmente porque quer falar, iremos nos dando conta da complicada rede de circunstâncias que fizeram de Galdino Cabinda o personagem central desta história.

A história – na qual não há mesmo jeito de se distinguir o que é verdade do que é mentira – pode começar na Europa, mais precisamente em Lille, França, onde num certo dia de Março de 1888, fim de inverno, o jovem “photógrapho paizagista” Jean-Phillippe Brumeux, impressionou-se vivamente com as litografias publicadas num luxuoso livro, baseadas nas imagens do seu  conterrâneo, o grande Victor Frond, que andara produzindo belas fotografias de escravos nas fazendas de café da região do Vale do Paraíba o Sul, na província do Rio de Janeiro.

Estimulado também pelas idéias libertárias de Frond – que fora um fervoroso ativista  republicano – Jean Phillippe viaja para a Corte brasileira, afim de ganhar algum dinheiro fotografando autoridades e figurões do Império e, ao mesmo tempo, documentar a dura vida dos escravos na Corte.

Logo que chega ao Rio, Jean Phillippe procura Louis Jacques Dapaix (uma alusão ao nome de um dos precursores da fotografia, Louis Jacques Daguerre), o dono de um estabelecimento que aluga equipamento fotográfico e teria sido recomendado à Jean Phillippe por um amigo de seu pai.

Influenciado pelas notícias de turbulentos incidentes que ocorrem na província vizinha á Corte nesta ocasião, ele decide mudar radicalmente seus planos, deixando o negócio de retratos para mais tarde, a fim de partir direto para o interior, ao encontro das turbas de escravos que,  segundo aquelas mesmas notícias, se encaminhavam em êxodo para á Corte.

Necessitando de um escravo para alugar, Jean Phillippe conhece numa bodega da Corte o bem falante (e já nosso conhecido) ‘negro de ganho’ Galdino Cabinda que aceita a função de guia e  carregador.

Galdino sugere a Jean que rumem para a cidade de Nossa Senhora do Pilar, onde ele conhece a portuguesa Maria da Luz Müller, 40 anos, mais conhecida como Maria ‘Mula’, uma ex prostituta mulher do comerciante cego Rui do Serro D’Alferes, seus antigos senhores, que poderiam  hospedá-los.

A cidade fica na baixada que separa a Corte do interior da província, próxima a fazenda do  Barão de Iguaçu e as terras dos monges beneditinos, onde existe, num vasto manguezal coberto de pântanos e uma intrincada malha de rios e córregos, o até então invencível Quilombo do Bomba, conhecido também como Quilombo de Iguaçu.

É, pois Galdino, quem narrará em flashbacks distribuídos ao longo do filme, a história toda, de Jean Phillippe a Rui D’Alferes, de Maria Mula e até de si mesmo, a partir dos dados á seguir:

Rui Amancio do Serro D’Alferes, comerciante brasileiro, cego, 55 anos, havia sido um grande distribuidor de cachaça e fumo de rolo em Ouro Preto e veio para a Corte tentado a implantar o mesmo negócio por aqui. Se esbordoou por conta da concorrência com uns padres  capuchinhos, que monopolizavam este comércio na Corte.

Foi por isto que resolveu entrar para o negócio da lenha, se mudando para as bandas do Nossa senhora do Pilar nas vizinhanças do Rio Sarapuí. Não foi muito bem, a princípio mas, com o aumento das fugas de escravos e o crescimento dos quilombos na região, não conseguindo competir com os contrabandistas de lenha, decidiu mancomunar-se com eles, atividade na qual Galdino foi muito útil, como intermediário.

Assim foi que, apesar de o ser vias tortas, Rui D’Alferes ficou rico. O grande azar do cego eram os ardis pensados e perpetrados por sua esposa Maria Da Luz ‘Mula’, mas disso ele nada soube até morrer, atropelado por um tílburi, na porta do seu armazém.

Maria Da Luz ‘Mula’ conheceu Rui Amancio ainda na Corte. Ele, muito prestativo, sempre se oferecia para levar a meretriz até o sobrado onde ela vivia, perto do Campo, tarde da noite, quando terminava a ‘viração’. Ela, uma teuto-portuguesinha faceira, neta de um suíço cristão novo, que fugira de Lisboa no tempo da inquisição (o Mula vinha de Müller, sobrenome suíço dela, mas o povo maldoso dizia que vinha mesmo era do fato de haver sempre alguém  montado em cima dela).

Tão prestativo Rui era que Maria ‘Mula’ acabou largando a vida ‘fácil’ para encarar a vida mais fácil ainda, de se casar com ele. Passou a ajudá-lo no armazém, controlando cada vintém que entrava dizendo que com o espírito regrado dela, o casal ficaria mais rico ainda. Só não controlava mesmo as recaídas de ‘mulher da vida’ que tinha, sempre que algum garanhão conhecido ou mais audacioso, se aproveitando que o ceguinho não percebia nada, passava a mão nela ou a atentava com olhares libidinosos. Foi numa dessas que conheceu Galdino o  negro de ganho que, alugado por Rui para ser caixeiro, acabou mesmo foi se encaixando nas graças dela, que parou de vez com as escapulidas com qualquer um, para ser só dele, do  Galdino (e do ceguinho, é claro).

Assim foram também fazendo filhos, que se juntaram aos filhos do ceguinho (os dois que saíram com o cabelo duro de Galdino, viviam com as cabeças raspadas). Cercavam o mais velho dos filhos do ceguinho de cuidados para ele não chamar a atenção do pai. Tinham medo dele perguntar em voz alta que história era aquela de haverem dois irmãos pretos e dois brancos na família, se Rui e Maria eram brancos de dar pena. Neste suspense, não viam a hora de fugir logo dali.

Galdino, partilhando com Maria ‘Mula’ a cama e a mesa, não demorou muito a descobrir que ela desviava dinheiro do marido. Ela não teve mesmo outra saída senão se acumpliciar com ele, para poder continuar a roubar o ceguinho em paz, de grão em grão.

O ceguinho no entanto, um belo dia, descobriu o sumiço do dinheiro pondo tudo a perder para os amantes. O único jeito foi Galdino fugir para não ser preso, assumindo sozinho a culpa pelo furto.

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Ao sugerir ao francês o destino de Pilar, Galdino pretendia aproveitar a viagem para se   reconciliar com Maria ‘Mula’ que, agora viúva, poderia recebê-lo, desta vez até como uma  espécie de marido de fato, franqueando-lhe, evidentemente, a parte que lhe cabia do furto já que ele, por conta da abolição eminente, em breve não seria mais um escravo fugido.

Mas antes disso tudo ser revelado, em viagem interior á dentro, junto com Galdino, Jean  Phillippe consegue recolher, principalmente no trecho entre Inhaúma, (quase na Corte) e Irajá e Pavuna (no limite com a região da baixada), uma série de flagrantes do êxodo de escravos para a Corte e do desmoronamento do sistema de trabalho escravo. Entre outros fatos – todos  inteiramente inventados – os seguintes podem ser inseridos no roteiro:

Uma família desgarrada (homem e esposa com filhos pequenos procurando outros dois filhos adolescentes) tenta se reestruturar no êxodo. Vão se encontrando durante o trajeto do filme.

Um dos filhos desgarrados integra a tropa de quilombolas que se verá no filme. Ao ser fotografado por Jean, o rapaz conta que fugiu e ingressou no quilombo depois que o filho do senhor o esbofeteou na frente da mãe que, ao defendê-lo, foi esbofeteada também. Ao ver a foto da família, mostrada por Galdino, o menino pousa a espingarda no chão e surpreso, chora.

Um soldado mulato, quase branco, integrante da tropa que patrulha a estrada em busca de quilombolas e bandoleiros, pergunta, discretamente, aos passantes vindos do Pilar, se  conhecem uma escrava chamada Altamira, que lhe disseram ser sua mãe e que seria escrava de uma das fazendas das redondezas.

Vez por outra grupo de soldados a cavalo persegue e subjuga um escravo entre os que seguem no êxodo, que acusam ser um quilombola. No trajeto do êxodo, escravos maltrapilhos,  perseguidos são vistos escondidos em grotões da estrada.

Grupo de escravos que carrega numa carroça legumes, aves e hortaliças, para uma fazenda próxima da estrada, é atacado por mulheres e crianças da turba faminta. O escravo que conduz a carroça espanta o cavalo com a carroça para os lados da fazenda. Cavalo desembestado tropeça e cai, carroça cai sobre ele que estrebucha e morre. Turba saqueia os legumes, as aves e as hortaliças.

Quase noite, grupo de escravos famintos destrincha o cavalo morto na estrada. Num acampamento noturno, com a carne do cavalo sendo assada, escravos dançam e cantam em roda em torno de uma fogueira.

Um escravo, excitado, conta para todos da roda, em detalhes e de modo engraçado, como perseguiu por semanas e, por fim, matou o capataz que o atormentara anos á fio.

Escravos que carregavam a carga saqueada choram, temendo ser castigados pelo senhor que dizem ser muito severo, por causa da perda dos víveres e a suposta fuga. Galdino e Jean Phillippe, sensibilizados, se comprometem então em seguir com os escravos até a fazenda para, como era prática na época, ‘apadrinhá-los’ (testemunhar a seu favor).

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Seguindo o grupo de escravos, Jean-Phillippe e Galdino chegam ás terras do fazendeiro  Merenciano D’Alencastro e Manso, o barão de Massarambá, um ferrenho escravista que  desconfia que os estranhos são ligados aos abolicionistas. Galdino o convencerá de que o francês trabalha na verdade para ’O Redemptor da Nação’ um jornal pró-escravista da Corte, envolvido numa campanha de apoio a fazendeiros que como Merenciano estão prestes a falir com a abolição.

Assim, Jean Phillippe conseguirá registrar o dia á dia da fazenda. Muitas fotos do fazendeiro, de sua família e de seus escravos serão produzidas nesta ocasião. Durante as longas seções de fotos, com imagens narradas em off, Merenciano contará para Jean Phillippe as melhores partes de seu passado, a partir de, entre outros, os dados seguintes que são, como os anteriores, inteiramente inventados:

Hoje já velho e acabado, o senhor de escravos, Merenciano Augusto D’Alencastro e Manso,  Português de 65 anos se tornou barão de Massarambá porque certa feita, há uns 20 anos atrás, mandou servir água fresca, bolo de milho, refresco de lima, café, pudim e outras iguarias, para a comitiva do Imperador que, por acaso, para descansar do sol inclemente, estacionou num caramanchão de suas terras, longe da casa grande (o imperador não quis ir até a casa, apesar da insistência de Merenciano). Na ocasião D. Pedro II foi recepcionado por um grupo de lindas mucamas, mandadas pelo fazendeiro num carro de boi enfeitado com folhas de palmeira, com um convite escrito num bilhete além de vistosas bandejas onde as escravas levavam os acepipes.

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Nos dias que se sucedem á chegada de Jean Phillippe e Galdino, engrossa o fluxo de escravos retirantes que passa pelas terras de Merenciano. Engrossam também os grupos de quilombolas, com a adesão de muitos escravos que não tem para onde ir. O clima da fazenda vai ficando, por isto, cada vez mais tenso. Os escravos de Merenciano se dividem entre os que querem ficar na fazenda e os que querem fugir para a Corte ou mesmo se juntar aos quilombolas.

Um grupo de Quilombolas, mancomunados com escravos aliados, invade e saqueia a fazenda de Merenciano, levando consigo tudo que julgam ser de valor, inclusive o equipamento e o   material fotográfico de Jean-Phillippe. A caixa com as chapas que registram esta parte da viagem vão junto no botim. A polícia só chegou no dia seguinte.

Jean-Phillippe e Galdino não tem outra alternativa senão seguir para a área onde os Quilombolas se homiziam, para negociar o resgate do material. Valem-se da experiência de Galdino que,  como todo ‘escravo de ganho’ que atuou na região, conhece as trilhas e os córregos que levam aos esconderijos dos quilombolas. São interceptados no caminho por sentinelas e levados  presos para a sede do quilombo, numa ilhota remota e quase inacessível, no centro do  manguezal.

Remexendo na bagagem de Jean-Phillippe os quilombolas já haviam encontrado as chapas  fotográficas. Fascinados com as imagens, já as haviam levado para Manelão Kakumbe, o líder do quilombo que, mais fascinado ainda, logo que fica sabendo que o branco de fala enrolada era o autor das imagens, exige como condição para libertá-los, que Jean-Phillippe continue com eles para registrar a vida do Quilombo.

Manelão Kakumbe e Galdino se reconhecem de antigas transações e acabam se tornando bons amigos. A história do chefe quilombola, vista também em imagens de flashback, será contada por ele mesmo em conversas com Galdino:

Manelão Kacumbe escravo fugido da fazenda vizinha a de Merenciano, era assim apelidado porque dançava muito bem nos cacumbis que rolavam na fazenda, no tempo em que era escravo.

Ferreiro muito experiente, Manelão chegou com 15 anos no Brasil, vindo de Angola. Filho de um outro ferreiro, lá na África, já chegou aqui sabendo um pouco do ofício, o que fez com que ele conseguisse, rapidamente uma boa ocupação na fazenda, gozando de relativa liberdade, indo e vindo entre a fazenda da qual era escravo e a outra, vizinha, pertencente ao Barão Merenciano, para o qual, sempre que seu senhor autorizava, também prestava serviços.

Foi num desses serviços para Merenciano que Manelão se feriu na mão. Na hora de testar a peça de ferro que consertara, um dos burros da parelha que puxaria o monjolo, aferroado por um marimbondo, assustado desembestou, fazendo a engrenagem do monjolo esmagar parte da mão de Manelão (que, para esconder a mão mutilada, usa uma espécie de luva feita de couro de lagarto).

O capataz Felisberto Munhambano, havia percebido que o marimbondo poderia picar o cavalo. Foi ele quem estalou o chicote para espantar o animal e livrá-lo da ferroada. Manelão, cego de dor com a picada, julgou que o capataz (com o qual já tinha uma rixa antiga) havia assustado o cavalo de propósito, para feri-lo.

Penou muito se restabelecendo. Amargou a perda do serviço especializado que fazia para encarar pilonagem de café e roçado, até conseguir fugir da fazenda.

A rixa de Manelão com Felisberto é por causa de Mariinha Crioula, que fora sua, por algum tempo, mas que, assediada por Felisberto com a promessa de ajudar a alforriá-la, acabou trocando Manelão pelo capataz.

Mariinha Crioula, 25 anos, mulata, é exímia bordadeira que vive dentro da casa grande como escrava doméstica, desde que nasceu. Muitos na fazenda afirmam, a boca miúda, que ela é filha do Barão Merenciano, porque, de outra maneira, ficaria difícil explicar como ela, tão voluntariosa e impertinente que é, consegue manter tantas regalias. A história dela com Manelão dá bem a medida de seu caráter:

Assim que ela se fez crescidinha, ali pelos 15 anos, se muito, dos homens da fazenda, o mais vistoso para ela foi logo sendo Manelão que, a esta altura, já tinha lá os seus 25. Além de vistoso, sendo o melhor ferreiro das redondezas, Manelão era o mais bem colocado escravo da fazenda. Pois foi justo por isso que ela deu seus olhares mais oferecidos, até fisgar o bruto.

Felisberto Munhambano apareceu logo depois, vindo da fazenda do Barão de Iguaçu. Era moreno feito um índio, cabelo liso escorrido, porque vinha da costa de Moçambique, onde existem negros assim, misturados com indianos. Foi comprado por alto preço (cerca de $800.000,00, ela pode ouvir, detrás de uma porta) e logo se viu, pelas botas que ele usava, pelo jeitão arrogante que tinha, que já viera acertado para ser feitor, capataz.

Ninguém sabe dizer ao certo se foi Felisberto que assediou Mariinha ou se foi ela que arrastou as asinhas para ele. O certo é que, logo ela enjoou de Manelão e se bandeou para o capataz, acabando por se amasiar com ele. Manelão não se conformou jamais. Achando que a culpa era mesmo do capataz, tomou uma pinimba sem tamanho dele que, por sua vez, com a autoridade que lhe conferia a função, não perdia tempo para espicaçar o ferreiro, não deixando passar um deslize sequer, se não houvesse deslize, Felisberto inventava, fazendo questão de contar para o Barão tudo de errado que Manelão fizesse, por menor que fosse o erro. Viviam assim, feito gato e rato mas, ainda sem o ódio que só explodiu no dia do acidente.

No dia em que decidiu fugir, Manelão ainda tentou levar Mariinha consigo mas ela não quis, de jeito nenhum. Além do mais, Felisberto atravessou o seu caminho. Antes de desistir dominado pela frustração e pelo ódio Manelão ainda tentou matar o capataz com um ancinho, mas Felisberto, apenas ferido, escapou.

Por tudo isto, o que Manelão Kacumbe mais queria agora era que Maríinha o visse assim, poderoso de novo, chefe quilombola com o baú cheio de ouro e de contos de réis. As placas de retrato de Jean Phillippe se prestavam muito bem pra isso. Pena que a cara dele, do comandante de tudo aquilo ali, não pudesse ser revelada jamais. Pudesse…

De tão feliz, seria até capaz de não matar Felisberto. Capava-o apenas e pronto, se dando por satisfeito.

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Precisando de material fotográfico sobressalente, Jean Phillippe consegue que Manelão  Kakumbe autorize a ida de Galdino á Nossa Senhora do Pilar para encomendar o que falta e esperar o material chegar da corte.

Em Pilar, Galdino encontra enfim Maria Mula que, já sem dinheiro algum, lhe implora para seguir para o quilombo com os filhos. Galdino diz que isto não é possível, de jeito nenhum, deixando a mulher injuriada. Jean Phillippe, na volta de Galdino que se mostra um eficiente assistente, faz muitas imagens do grupo de quilombolas, registrando até algumas incursões de guerrilha contra comerciantes inimigos. A amizade entre Galdino e Manelão Kacumbe acaba sendo de muita valia também neste caso.

Não se conformando com a recusa de Galdino em levá-la com ele e se aproveitando da comoção causada na cidade pela última incursão dos quilombolas, Maria ‘Mula’ resolve denunciar para a polícia a localização exata do pouso atual dos quilombolas, sobre o qual Galdino, troncho de bêbado da noitada de cama e vinho que tiveram em Pilar, contou e recontou com todos os detalhes.

Manelão Kakumbe e Galdino Cabinda, no alto do morrinho do qual se descortina a baixada  verde, tomada pelo mangue e a malha de córregos, discutem, acaloradamente.

Galdino diz que não. Manelão diz que sim, que vai retirar de dentro daquela caixa preta o registro do seu rosto, feito a sua revelia por Jean Phillippe. É que se a sua foto chega ás mãos da polícia, acaba o seu sossego de andar livre pela região, incógnito.

Manelão sacode a caixa como um louco e é repreendido por Galdino que cuida da tralha do francês como se fosse sua. É quando os tiros, a revoada de pássaros e uma lufada de fumaça subindo das árvores, fazem com que eles larguem a câmera ali mesmo, no chão para correr. Galdino, ciente de suas obrigações volta para pegar o material.

Descem o morro em desabalada carreira para se juntar ao resto do grupo onde já está Jean Phillippe. Entram nos botes escondidos na vegetação do mangue e partem em fuga, se  espalhando pelos córregos, soltando impropérios e respondendo ao fogo com tiros, flechas e lanças.

É que, em vez de o ser somente pela a polícia, o manguezal está sendo atacado, de surpresa, por tropas da Guarda nacional, vindas da Corte. Durante as escaramuças (uma desabalada fuga de botes cruzando córregos e sendo espingardeados), o bote onde estão Jean e Galdino, bate numa raiz do mangue e tomba, fora da vista dos soldados.

Meio mergulhados no limbo, Galdino e Jean conseguem salvar a caixa de fotos e o equipamento e deslizam na água em silêncio, quase sem respirar. Mas o escravo, que é quem carrega a caixa, acaba sendo surpreendido e golpeado na cabeça por um soldado de um grupo que estava emboscado num canto do mangue.

Dos males o pior pois, é aí que o infortúnio acontece: A caixa com todas as chapas fotográficas que registravam a viagem, cai e afunda na lama do fundo do pântano.

A maioria dos rebeldes escapa, desaparecendo rapidamente pelas curvas dos córregos. Misturado aos poucos negros que são capturados, Galdino, acusado de ser quilombola, é

levado para a Casa de Detenção da Corte de onde como sabemos, em depoimentos à polícia, nos dará conta de todos os traços da história.

História transcorrida, vida seguida. Também ferido nas escaramuças Jean-Phillippe só fica  sabendo da sorte de Galdino quando chega na Corte. Tendo que insistir muito com a polícia para testemunhar a favor dele, Jean só consegue libertá-lo alguns dias depois. É que, segundo a polícia, Galdino não estava colaborando muito com as investigações, que visavam descobrir a identidade do bandoleiro que, a depender dele, eles jamais sonhariam que se chamava Manelão Kakumbe.

A volta de Jean-Phillippe para a Corte e o reencontro com Galdino, se dará entre os dias 17 e 20 de maio de 1888 (quando ocorre uma grande festa popular na Corte descrita por Robert Conrad) A idéia é acabar o filme durante esta festa, a alegria das ruas contrastando com a desilusão de Jean-Phillippe (que voltará para a França com as mãos abanando) e Galdino (que ficará por aqui, ao Deus dará).

Maria ‘Mula’ – agora famosa também como alcaguete de quilombolas, com tantos fugitivos á solta pela região – ganhou dinheiro da ‘verba secreta’ da ‘4a seção’ da polícia e escafedeu-se no mundo mais os filhos (um dia, quem sabe, Galdino não encontra os que são dele por aí?)

O disparar de um flash de pólvora revelará o retrato de Galdino, Manelão e Jean Phillippe, tirado por Monsieur Dapaix, última imagem proposta para este filme eventual. Este retrato seria, portanto a única lembrança concreta, material, que ficaria para os personagens da emocionante aventura que teriam vivido e que, para todos os efeitos, pelo sim ou pelo não, termina mesmo por aqui.

E ‘c’est fini’.

THE ALZHEIMER DAY


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Il Grande Dimenticare

Acordei no que parecia ser uma cidadezinha do interior. Havia um sol morno fazendo brilhar a grama cor de verde-novo, chovera a pouco e era de tardezinha. Estranho… Não conseguia atinar como é que eu havia ido parar ali?

Ouvia bem longe um relincho de um cavalo afoito, histérico. Um relincho incomum demais para um cavalo ao sol. Seguindo o relincho logo divisei já na risca do horizonte, um homem magricela, se abaixando e levantando do chão, ocupado na faina de plantar ou colher algo. Não dava bem para saber ao certo o que. Olhando melhor a cena, percebi que vez por outra, o homem espantava o cavalo de perto de si, como se o animal estivesse querendo também, ardentemente, aquilo que ele plantava… ou colhia, não conseguia ainda perceber o que.

Foi quando o vento, mudando de direção me trouxe aquele cheiro nauseabundo de coisa morta, um cheiro insuportável de carne podre ou algo assim. O homem cavava e enterrava um troço qualquer, era isto. Um bicho morto, concluí ainda intrigado. Com repulsa saí dali, tapando as narinas, afastando os olhos da cena e olhando para trás.

Atrás havia logo adiante uma casinha modesta, toda de adobe mal socado, com jeito de bem antigo. A casa estava um pouco destelhada e com um ar de abandonada há anos. Porta esbodegada, tombada para um lado, presa por uma única dobradiça, como um baú velho saqueado e abandonado por um ladrão decepcionado com o nada que havia dentro dele para roubar.

Incrível. Não conseguia mesmo atinar. Como é que eu havia ido parar ali? O pior é que isto eu jamais saberia por que, de repente acordei, completamente e me dei conta de que toda a bucólica paisagem da roça havia desaparecido, se desvanecido como por encanto, como se alguém tivesse mudado o canal da TV.

E foi daí que, aparvalhando-me mais ainda com a nova cena, ouvi aquele som sujo, um ruído, um chiado intermitente, um barulho familiar enfim. Incomodado, me dispus a acordar pulando da cama.

O que aconteceu? Onde estou? Quem sou eu? Que barulho seria este?

Olhos embaçados e um calafrio esquisito cortando o corpo, feito um choque elétrico fraquinho.

Claro! É que chovia muito. Dava pra ouvir aquilo que, mesmo sendo ainda indefinível para mim, evocava uma sensação assim-assim de coisa úmida, molhada, que logo associei à chuva. Sim, claro! Ainda sabia o que era aquilo. Uma enxurrada fustigando as paredes do prédio, uma lata velha largada sob uma grossa goteira, ou um teto de zinco chicoteado pelo vento. Isto! Feito uma cachoeirinha, um som de leve tempestade, isto! O zinco oxidado batido por lufadas de chuva. Ai que alívio! Ainda conseguia saber claramente o que era aquilo. Quase podia ver.

Um aliviozinho qualquer como estas furtivas lembranças valia ouro naquela altura dos acontecimentos. Tempos estranhos aqueles: A era do Alzheimer Day, o apagão geral das mentes, sensação igualzinha à daquelas vezes em que meu Dispositivo Pessoal de Raciocínio Virtual – a bem da verdade já meio superado – rateou rateou até pifar de vez.

Desesperador. Fiquei catatônico por vários dias. Sonado, abestalhado como um boxer que teve o cérebro sacudido na caixa craniana a vida inteira por milhares de upercuts, sparring do tempo e de si mesmo, se abobalhando. Fiz uma atualização do surrado DPRV sim, claro, mas sabem como é: Estas coisas recauchutadas…Ele voltou meio barro meio tijolo, como se diz, meia bomba.

Vez por outra eu não conseguia nem mesmo saber direito o que estava ouvindo, vendo, sentindo. Uma sensação terrível de desamparo, um desassossego só.

O terapeuta me disse na ocasião que o que eu sentia era idêntico ao que uma velhinha com mal de Alzheimer sofria, os neurônios se apagando um a um, num blackout seletivo, um córtex de cada vez. Sabem como é? Uma Las Vegas noturna sobrevoada por discos voadores, as luzes se apagando cassino a cassino, como naqueles filmes de Sci Fi de séculos atrás

(Discos voadores? Como assim, discos voando? Às vezes custo a me lembrar o que isto quer dizer).

Isto mesmo. A mente rateava da mesma forma como a das velhinhas só que, desta vez, não era só comigo. Viráramos todos velhinhas com Alzheimer numa pandemia de esquecimentos. Pelo menos era isto que diziam os mais safos, os que ainda conseguiam se lembrar do sentido de coisas assim tão complexas, conceitos tão abrangentes, descritivos deste sofrimento tão surpreendemente coletivo que era aquele apagão das mentes.

O que ocorreu só fomos entender mais de 10 anos depois, quando tudo se normalizou e assumimos a forma de inteligência que temos hoje, nem de longe parecida com a aguda perspicácia elétrica que tínhamos no passado, em meados do século 22 por aí, antes do Alzheimer Day.

Maravilhosos. Ultra civilizados. Super poderosos. Seres geniais e perfeitos o que éramos todos nós antes do acidente. As limitações intelectuais de alguns, dos mal educados, haviam sido suprimidas, quase que completamente banidas da população.

Inacreditável, mas, foi assim:

O estupendo grau de evolução tecnológica que atingimos permitiu que todo o conhecimento humano fosse transferido, gradualmente, para espaços virtuais de compartilhamento de dados, espécies de sites ‘de relacionamento‘, como se dizia antigamente. Não era de modo algum uma opção, meramente hedonista de nossa civilização. Era uma condição compulsória e imperativa de nossa evolução. O artificialismo total, a automatização absoluta de nossas maneiras de ser e viver em nome do bem estar, da felicidade geral da nação, de todas as nações: “It’s wonderful world”.

E esta era a mais pura das verdades – por mais absurda que pudesse parecer.

Estes espaços virtuais de compartilhamento de dados, estes sites antes ditos… ‘colaborativos‘, atraentes chamarizes de perfis e personalidades reais ou inventadas, passaram a acumular e guardar toda espécie de conteúdo (tudo que antes guardávamos em nossos cérebros primitivos), anseios, desejos, taras inconfessáveis, disponibilizando, a quem quer que fosse, rigorosamente tudo de bom ou de ruim que uma mente humana pudesse conter. A Droga Final, disseram os céticos apocalípticos.

Guardávamos aí, nestes espaços virtuais um pouco buracos negros, meio que armários guarda-volumes de aeroporto, inclusive os mais simples comandos e mecanismos de inteligência necessários a algumas de nossas ações mais triviais e cotidianas, tais como pensar e até mesmo amar, por exemplo.

Acumulávamos aí e assim – e intercambiávamos uns com os outros – até mesmo as mais falsas projeções que fazíamos de nós mesmos, personas mentidas, meras pavoneações de nossa alma ideal, projeções viciantes de como gostaríamos de ser vistos, que após certo tempo, confundiam-se com aquilo que realmente éramos, criando agora em muitos de nós, problemas de identidade muito próximos de uma psicopatia não diagnosticável, uma espécie de esquizofrenia virtual, absurda, irreal, que era como os psicólogos da época descreviam estas nossas novas maneiras de ser.

Rigorosamente toda a nossa memória enfim (exceto aquela utilizada para atos mecânicos como andar e comer), passou a ficar hospedada em HDs de supercomputadores gigantescos, depois que todas as mídias físicas foram sendo abandonadas por se tornarem antiquadas, anacrônicas e obsoletas e, principalmente, descartáveis em sua precária confiabilidade.

A fantástica evolução que representou passarmos a ter, rigorosamente tudo de nossas frágeis mentes guardado nestes supercomputadores, por sua vez, numa evolução natural da virtualidade quase total em que se transformou a vida humana, logo nos encaminhou para a criação de uma só grande máquina, capaz de centralizar os dados de todas as mentes do  universo.

Praticamente todo o pensamento humano passou a estar, umbelicalmente armazenado num gigantesco computador Provedor Universal, instalado na superfície da Lua, após a lenta maturação de um projeto multinacional que durou quase 50 anos para ser enfim, concluído no ano de 2398.

O lúgubre Deus virtual, batizado por seu inventor Joseph Von Spitzheim-Siegl com o nome de Home Welt Herzzentrum‘ (HWH), foi talvez o passo mais fabuloso – tanto quanto o mais estúpido – dado pela humanidade em todos os tempos, em prol de sua exclusiva e egoísta evolução.

HWH: Cabeça da grande rede da velha WWW que, acéfala como uma hidra mitológica no século 21, assumia agora a forma de um grande polvo adormecido, sabe-se lá por que razões ou intenções sugerindo perigos, como um perverso vilão enrustido.

E foi assim que, neste dia o mal também projetado sobreveio enfim.

————–

Um risco cadente cortando o negror do espaço. Um clarão de estilhaços brancos, como um espirro de cacos explodidos de um bloco de gelo golpeado por um furador. Foi assim que alguns poucos descreveram o que viram naquela noite. Eles, os mesmos vadios de sempre que, sabe-se lá porque arcaicos instintos estavam, sentimentalmente com os olhos voltados para a Lua naquele instante.

Eu não. Coisa alguma vi naquele torpor em que me encontrava, pobre de mim, com o meu DPRV rateando. Só senti mesmo o susto de um pensamento bom que se apagou de súbito. No visor lateral dos meus óculos de grau a tela azul piscava o aviso de uma failure desconhecida, antes da janela secundária da tela se abrir com a notícia alarmante:

“FATAL ERROR!”

Provedor HWH inoperante. Por favor, teclar F7 para acessar provedor alternativo de emergência de sua região ou teclar ESC para sair”

O Provedor Alternativo era um sistema de emergência online com mensagens de ajuda e notícias curtas, que ficava disponível por algumas poucas horas, até se esgotar sua limitada capacidade de processamento o que, logo pudemos perceber, no caso de um crash universal como aquele, significaria a duração de uns poucos minutos, antes do apagão total se estabelecer. Foi neste serviço de ajuda online (último vínculo que teríamos com algo parecido com uma realidade) que assisti a uma simulação do que ocorreu:

Um asteróide errante, de trajetória não totalmente prevista, havia entrado na órbita da Terra e se chocado com a Lua. O pessoal da base do HWH teve tempo de se afastar da área sinalizada para o choque que foi, em cheio, a central do HWH, O grande domo de aço onde o dispositivo-mãe, núcleo duro da grande máquina, havia sido hermeticamente acondicionado.

Foi assim:

A ‘alma’ do HWH, o local onde o Provedor Universal fora instalado, na vã expectativa de que ali fosse o lugar mais seguro do universo, foi instantaneamente pulverizada pelo impacto.

Conta-se que o prof. Spitzheim-Siegl chorou, copiosamente, durante uma entrevista, como se tivesse perdido o filho mais querido.

As alarmistas notícias repassadas pelo provedor alternativo descreveram o acidente como sendo uma espécie de Alzheimer Day, o dia fatal do apagamento das melhores lembranças da humanidade, bem como aquele terapeuta me havia dito.

O filósofo marx-holista Vitorio Doro Scazambone, crítico contumaz das idéias de Spitzheim-Siegl nos alertara poucos anos antes do que ele chamou de Il Grande Dimenticare, em seu arcaico blog sobre os riscos de não se ter mais nossos cérebros primitivos ativos e bem treinados, sempre disponíveis para esta eventualidade tão previsível quanto inevitável.

“Lo dico e lo dico, con enfasi che molti millenni di formazione primitiva forme di ragionamento, in base alla lenta assimilazione dei concetti stabiliti dalla ripetizione degli errori e successi, i nostri cervelli hanno accumulato un livello di esperienza per la gestione e la cura dell ‘universo, insostituibile. Anche l’imprevedibilità del nostro comportamento, suscettibile di diverse influenze dell’ambiente – che per gli appassionati di virtualità totali è stata la nostra grande colpa – a me, Vitorio Scazanbone sembra essere una ragione divina e insormontabili. “

(Vitorio Doro Scazanbone no artigo “Sotto il rischio di un blackout di mente” publicado em seu blog pessoal em 11 de abril de 2395)

Inútil. Nada do que Scazambone alertara adiantou. Ninguém lhe dera mesmo ouvidos até porque as nossas mentes em poucos decênios de escravidão voluntária, haviam embotado quase por completo, irremediavelmente dependentes que ficaram dos eflúvios do HWH lunar, expressos por periódicas tempestades lunares carregadas de downloads oníricos.

Os ABs (alternativs braims), cérebros humanos alternativos (espécie de PCs minúsculos como chips pós modernos) de altíssima capacidade de armazenamento, passaram a ser implantados então, diretamente em nossas próprias cabeças. ‘Espetados’ como aqueles pendrivers do século 21 em nosso sistema nervoso central, muitas vezes tinham que ser confiscados dos filhos adolescentes por mães briosas, para que estes não se viciassem na rodagem de programas-barbitúricos ou anabolizantes, baixados, facilmente de sites de prazer virtual online.

O fato mais dramático é que estes ABs acabaram por assumir o controle de tudo, inclusive da nossa individualidade. Nossas vontades mais íntimas por conta desta evolução, a partir de certa época passaram a estar, totalmente dependentes de um programa de inteligência artificial denominado Onirix (1.09 em sua versão da época), periódica e automaticamente, atualizado, por meio daqueles longos downloads que rodavam durante o nosso sono, descaradamente disfarçados de sonhos chamados de ‘Marés de barato’.

(Estes sonhos virtuais eram tão lúbricos e eróticos que, não raro, produziam poluções noturnas intensas, tanto em homens quanto em mulheres e eram por esta simples razão, ansiosamente esperados, estimulando o comercio desenfreado – e inutilmente proibido – de drogas voltadas para tornar o mais profundo – e prazeiroso – possível o sono das pessoas.)

Sim, claro. Sabemos que sobraram na Terra, como remotas possibilidades de recuper algo de nossa inteligência original, as velhas mídias do passado. Livros empoeirados, discos de vinil de vetustos colecionadores, CDs meio descascados, pilhas de Ipods danificados, HDs enferrujados, tudo jazendo em velhas oficinas de sucata de material de informática, a maioria amontoada em úmidas salas de museus de mídia, prédios que ninguém visitava mais.

A causa era o alto estágio alcançado pelas avançadíssimas condições que a vida virtual atingira, com tudo, literalmente tudo podendo ser acessado e realizado, vivido mesmo. Esta Vida Virtual podia ser facilmente acessível por meio de algumas rápidas piscadelas de olho (ação que substituiu os clicks de mouse do passado) dirigidas ao nosso Cérebro Total Alternativo, fisicamente separado de nós e guardado num armário remoto qualquer, como uma alma superpoderosa, eternamente jovem, eternamente online.

Como consequência do Apagão o pânico. Ocorria que os poucos técnicos remanescentes que se lembravam ainda de como funcionavam as máquinas pré históricas, capazes de ler aqueles dados remotos, debatiam-se sem sucesso com a incompatibilidade absoluta estabelecida entre elas, as mídias arcaicas, os dados disponíveis, dispersos em suportes incompatíveis, não conseguiam se configurar num sistema operacional que servisse para alguma coisa que não fosse processar informações, absolutamente banais, como ler um romance, por exemplo.

E para que nos serviria afinal ler um romance se nossa inteligência não se desenvolvia mais por meio do impacto e da forte impressão que nos causavam as emoções banais?

Nos transformáramos em seres de aspecto apoplético tanto que, se fôssemos observados por pessoas comuns das eras passadas, não seríamos reconhecidos como humanos, de modo algum, por causa do ar de insanos pálidos, obesos e abestalhados, olhando o nada dentro de nós mesmos como falsos cegos não querendo ver o que, mais cedo ou mais tarde haveria de conosco acontecer. Como de fato aconteceu.

———–

Era por isto que a evocação daquele sonho estranho com o cavalo me angustiava. Um pesadelo aterrorizante era o que parecia. De onde viera aquela cena tão rudimentar e arquetípica?

Se eu, como todos os demais habitantes do planeta não tinha mais memórias a evocar, angústia alguma para sofrer e remoer em pesadelos, se não podia mais acessar a mais prosaica das lembranças tristes ou felizes de meu passado após a explosão lunar que destruiu o HWH, de onde vinham aqueles lapsos de consciencia, aquelas angustiantes mentalizações tão realistas?

De onde vinha o cheiro nauseabundo de carne podre? Como eu poderia reconhecê-lo se o registro dos vapores dele não mais estava em mim?

Naquela mesma noite, ao dormir o que seria mais uma noite sem bons sonhos, trêmulo com a expectativa de sofrer angústia do que julgava ser outro pior pesadelo, me vi novamente dentro da casinha tosca, que agora aquecida pelo fogão de lenha, me parecia, acolhedoramente familiar.

Um chá ralo, muito quente me foi posto á boca e as narinas se arregalaram: Hortelã!

Como assim? Onde estou? Quem sou eu?

O homem magricela – que agora eu percebia ser louro como uma espiga de milho – ainda impregnado daquele cheiro de morte que trouxera lá de fora, me tranquilizou com um olhar sereno, enquanto apontava uma lua que aparecia branca no céu ainda azul:

_” Nada de pioggia domani!

E foi com aquele seu sotaque italiano que ele me contou que a febre me pegara de jeito logo que chegamos ao local. As alucinações tinham sido tão intensas que nos delírios, eu havia molhado várias vezes o lençol estrapeado que ele me dera.

No mesmo dia em que eu adoecera daquela gripe braba, um raio matara um potro bem novinho. A chuvarada durou uns três dias e só agora ele pudera enterrar o bichinho. Como? Quer dizer que aquilo tudo não havia sido sonho nem pesadelo. Uma égua desesperada, achando incompreensível a morte de seu potrinho, fora o que eu vira naquela tarde.

Com a febre indo embora fui me lembrando, lentamente da viagem à roça. O pessoal da equipe tinha ido à cidade comprar querosene e cachaça. Antes de voltar, deram um tempo na venda do local e aproveitaram para dar uma carga nas baterias da câmera já que, mal havia luz elétrica por ali. Voltaram já meio tocados de pinga.

O hortelã do chá que o magricela me dera, aos litros, estava ainda impregnado no meu bigode e eu ansiei também por uns bons goles de pinga com limão. O Hortelã mais a pinga me deram um baita de um suadouro. Ai que alívio!

————

Pois foi mesmo assim, mais calado do que de costume, que fiquei ouvindo a entrevista que o magricela continuou a nos conceder, falando sobre seu avô, um anarquista italiano que se escondera por aquelas bandas e construíra aquela casinha no início do século 20, depois de matar um soldado do exército na Revolta da Vacina no Rio de Janeiro. Nome do anarquista carcamano: Vitorio Doro Scazambone.

Mama mia! Pesadelo invertido é fogo.

Só continuo não conseguindo atinar como é que aquelas histórias desvairadas foram parar dentro de minha tão febril cabeça. Malato di mente como diria o magricela, preciso me curar logo deste vício de computador, dar um tempo da internet, esfriar a cabeça, apagar. esquecer.

Una piccola dimenticanza.

Spírito Santo
Maio 2009

TÁ NA REDE ou TÁ FRITO?



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Foto de Ponto e Vírgula/Flickr
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Mídias versus Conteúdos: Existirão direitos de autor na Internet?

Relaxe. Não se desespere. O futuro chegou difuso, mas não é nenhuma sangria desatada. Além do mais, sabe como é… futuro é algo muito improvável e relativo, mera suposição de iluminados (ou alucinados), virtual que só vendo, tanto que só mesmo quem viver o verá.

O papo é sobre Internet e Comunicação nos tempos modernos. No contexto, a reflexão, ultimamente muito em voga, sobre a suposta legitimação da pirataria que grassa a rede, esta invisível esfinge devoradora de todos os conceitos de comunicação disponíveis, desde conteúdos, privacidades, éticas, direitos autorais, tudo a ser, aparentemente revisto, rediscutido, reavaliado, subvertido, revolucionado enfim.

Sei lá. É confuso de entender, mas, pode também não ser isto tudo aí de complexidade. Pode ser até mais fácil debulhar este milho – prestes a virar fubá – do que colocar um ovo em pé.

Pra começo de papo, todo mundo sabe que a Comunicação humana é uma contingência irrefreável. Não há como escapar dela porque a bruta nos é inerente, está grudada em nós (de certo modo, parece até que ela é o único sentido de nossa própria vida.)

Se formos reparar bem somos mesmo hedonistas por natureza. Fazer o que? Tanto é que, desmedidamente viciados em prazer, estamos derretendo o planeta de tanto sugá-lo, chupá-lo, fazendo dele o nosso pirulito de hortelã.

Acho que é por esta ânsia de prazer que, ao nos comunicarmos, em vez de irmos logo aos conformes, na base do pão-pão queijo-queijo, fazemos isto por meio de complexos procedimentos interativos, todos caracterizados pela desesperada busca de emoções e realizações pessoais, uns extraindo por baixo das ritualizadas filigranas do ‘bom tom’, tudo que se puder extrair, de tudo e de todos, sem exceção. Pura antropofagia, já disseram alguns.

É ou não é verdade que a gente só consegue aprender as coisas, entender o mundo que nos cerca, gravar memórias que nos serão úteis à nossa sobrevivência enfim, apenas vendo, ouvindo e sentindo as coisas tocarem em nós?

Se for mesmo isto – e se alguém puder me desmentir que me desminta agora – restritos, praticamente ao uso de três sentidos muito elementares, somos capazes de fazer apenas uma leitura limitada do mundo. Quase debilóides, é o que somos.

Se a comunicação humana não fosse todo este grande ‘barato’ que é, muitos de nós iriam mesmo preferir ficar ignorantes de tudo, apáticos, catatônicos. Afinal, se tudo é enfadonho.. “quem lê tanta notícia?”

Esfomeados por informação como somos, não é, portanto surpresa nenhuma que tudo o que exprimimos, uns para os outros, acabe virando mesmo este conjunto de signos decorativos, estéticos, assumindo aspectos do que chamamos, meio vagamente talvez, de Arte, Ciência ou Cultura, lugares-comuns, meras simbologias, às vezes mui loucas, impregnadas de beleza – ou feiúra – que nos embriagando das tais endorfinas, serotoninas (drogas benignas fornecidas de graça pelo nosso traficante mais íntimo) nos emocionam.

(Preste muita atenção, contudo porque, pode ser que tenha sido desta nossa imperativa fissura por prazer comunicativo que os aventureiros tiraram a idéia de que este nosso vício intercomunicativo podia ser vendido e até render um dinheirinho)

Deu no que deu.

Os Mídia-Griots e os Mídia-Troubadours

Músicos e Contadores de histórias

E chegamos então assim ao que é o núcleo duro do nosso papo: O tal do I.Commerce, a Internet mercantilizada e suas mazelas benfazejas (o tal vício reconfigurado) e tudo aquilo que ela, agora mesmo, está parecendo que vai tumultuar e subverter.

(Vamos então ao que eu mesmo, palpiteiro como que, assumindo a identidade de futurólogo de botequim, comentei dia destes) :

“… Não existe outra alternativa para a difusão de conteúdos (obras) que não seja a Internet… O que se comercializa (o objeto do direito do autor) é o ‘suporte físico’…”

Traduzindo então para leigos de pedra:

‘Suporte físico’ é o objeto, a Mídia (a fita, o disco, o CD, etc.) legível por algum tipo de dispositivo decodificador (os chamados ‘tocadores’ ou ‘players’) que contêm uma cópia do produto (do ‘conteúdo’) artístico, cultural ou científico. Em suma: Aquela coisa que a gente comprava na loja, e levava pra casa, às vezes embrulhadinho para presente, lembra?)

Você conhece aqueles sujeitos que andam pelas aldeias contando – e cantando – as novidades ou ensinando a história dos antepassados, ‘homens-biblioteca’ como se diz, mais precisamente?

Na África eles se chamam ‘Griots’ (na Europa Troubadours, saltimbancos estas coisas). No popular, eles são aqueles indivíduos que retêm na memória algum tipo de… ‘conteúdo’ e saem por aí o disseminando. Suportes físicos, portanto e, mais do que isto, suportes móveis, ambulantes.

Está bem, concordo que como ‘suporte físico’ estes caras têm lá suas limitações. Não podem ser, por exemplo, replicados em clones, reproduzidos em várias cópias de modo a serem distribuídos, vendidos por aí, a rodo. Sem contar que custa caro torná-los famosos, a ponto de um número razoável de pessoas se interessar em pagar para assisti-los.

(Se bem que o Griots e os Troubadours antigos não tinham este problema: Suas performances eram gratuitas. Bastava hospedá-los e dar-lhes algo para comer.)

Players humanos, ‘Tocadores’ biônicos

Homo mecanicus et cum spiritu tuo

Depois destes ‘tocadores humanos’, vêm os ‘tocadores mecânicos’ (ou seriam biônicos?), players, propriamente ditos, como o piano e o violão, por exemplo. Sacaram a relação?

Eles são também espécies de ‘suportes de mídia’ primitivos ainda, mas ‘suportes’ sim, na acepção do termo, certo? Um pouquinho mais modernos que os Griots, na verdade.

Mais precisamente, são dispositivos de reprodução mecânica (decodificadores, melhor dizendo), só que ainda não automáticos como os de hoje em dia, já que não dispõem de capacidade de armazenagem e registro, não são acumuladores do que chamamos de ‘memória virtual’, dependendo ainda da memória de um ser humano qualquer para funcionar.

Vamos chamá-los aqui então (tantos os players humanos quanto os players biônicos) de ‘players primitivos’, está combinado assim?

Este conjunto de ‘players primitivos’, como se viu, foi baseado na criação de códigos visuais ou gráficos (como a escrita musical, por exemplo), que passaram a ser impressos em algum tipo de superfície (a partitura no papel), a partir da qual, por meio da leitura, se transformava, por exemplo, linguagem acústica em visual e vice versa.

Esta superfície podia, portanto ser traduzida (decodificada por assim dizer) por intermédio de um leitor (que neste primeiro momento, é ainda um ser humano normal) auxiliado ou não de um instrumento mecânico (biônico) qualquer, que servia de acessório para a decodificação (exemplo: a tal partitura decodificada por um músico tocando o que lê ao piano ou mesmo um filme exibido por um projecionista numa tela iluminada por um projetor)

Em miúdos:

Do mesmo modo que ocorreu com os outros suportes de conteúdos primitivos, como a placa de pedra da escrita cuneiforme dos fenícios e o papiro de junco dos egípcios e depois (de forma sensacional) com a invenção de carimbos para gravação em série da escrita no papel (o livro do Gutenberg), os dispositivos de mídia desembestaram a tornar cada vez mais eficiente, sofisticada e rápida a comunicação humana.

Avançando neste conceito (players) podemos evidentemente inserir na conversa todos os dispositivos conhecidos, num processo que vai desde a criação do giz do homem das cavernas (a caverna é o suporte), passando pelo primeiro dos tambores, até os instrumentos mecânicos que, já no século 19, redundaram nos fonógrafos, que passaram por sua vez, a possuir também a capacidade de decodificar informações contidas num objeto-suporte qualquer (uma bobina de metal, um cilindro dentado enfim), um ‘dispositivo de mídia’, como se diz.

Ou seja, players que chamaremos aqui de ‘modernos’, por conta de já serem capazes de acessar memórias virtuais impressas em algo (olha o Bit aí, gente!).

É, pois na invenção dos players, ou seja, dessas muitas maneiras de se transferir conteúdos contidos na memória de um indivíduo para uma série de cópias-objeto, clones impressos num código gráfico qualquer, legível por qualquer outra pessoa, além autor, que começa toda esta problemática, pretensamente confusa, que o leigo confesso aqui está tentando explicar.

Tá ligado?

É que foi delas, das cópias-objetos da sua obra ou criação (e não a idéia em si, contida na sua cabeça) engravidadas de ‘conteúdos’, que os espertinhos da vez tiveram o insight de distribuir e – quem sabe – comercializar idéias por aí.

Se não existe almoço grátis, quem paga a conta?

O prato-feito self-service dos ‘acumuladores de conteúdos’

Os ‘suportes físicos’ são, portanto a mercadoria sobre a qual você, o cara genial que teve a idéia, tem algum direito a reclamar, se assim o quiser.

“… Samba é como passarinho-“ Dizia Donga, suposto autor do primeiro suposto Samba _ ” É de quem pegar primeiro!”

Pois não é que no caso da Internet, é quase tudo igualzinho?

Uma diferença a ser considerada é que, como o volume de informações aumentou de forma explosiva, um novo elemento teve que surgir na equação: Os ‘acumuladores de conteúdos’.

Eles são sites e blogs, intermediários entre você e os ‘consumidores. Eles fazem o registro competente de sua obra, afim de garantir a você a autoria da mesma e editam o seu material de forma profissional. Em troca exigem o direito de ‘disponibilizar‘ (distribuir) na rede a sua obra, gratuitamente.

E reconheça: Eles podem – e devem – fazer isto. Este é o lado mais bacana da Internet, até segunda ordem. Todo mundo que guardava criações na gaveta, agora tem o mundo inteiro para divulgar a sua obra. Não é legal demais isto?

Contudo – o que é muito importante, como você verá mais adiante – Os ‘acumuladores de conteúdos’ não têm a função de impedir que outros façam cópias de sua obra. Como estes ‘outros’ são muito mais que a torcida do Flamengo (na verdade eles são o conjunto de habitantes de todo o planeta!), você não tem a menor condição de saber de quem cobrar eventuais direitos, caso desconfie que alguém desta cadeia está obtendo lucro evidente sobre a divulgação de sua obra.

Seria o fim do direito autoral, tal como o conhecemos? Será que, conforme aconteceu até meados do século 19, toda obra de arte agora voltaria a ser de domínio público. Do que viveriam os artistas profissionais, músicos, fotógrafos, escritores?

As instituições ‘intermediário’, ‘agente’, ‘empresário’, aquelas figuras que ficavam entre você e o consumidor (e as quais você odiava de paixão), desapareceram do pedaço, não existem mais, não é mesmo? …Pior sem elas, deve estar pensando você agora.

Será?

Sei não. Afinal os dispositivos de mídia – tanto os primitivos quanto os modernos – têm que estar materializados em algum lugar e, mesmo que estejam agora meio ocultos, estão sendo controlados (distribuídos) por alguém.

A rede é basicamente, um sistema de distribuição de conteúdos, não é não? Você está confuso porque não sabe a forma que as suas obras assumiram? Se não são mais livros, não são fitas nem discos de vinil, não são mais CDs, elas são o que agora? Pois então pense que forma é esta que logo você descobrirá, exatamente, quem está distribuindo conteúdos e, quiçá, os vendendo por aí.

O Griot, o criador de conteúdos enfim, continua bem vivo e é dono de suas criações (sua obra gravada na sua memória ou guardada na sua gaveta), mas, depende hoje, visceralmente, de um dispositivo codificador qualquer (um estúdio, uma gráfica, um site acumulador de conteúdos) que possibilitará a feitura de cópias de sua obra, cópias estas que serão distribuídas, comercialmente ou não.

Dependerá também que os seus consumidores, possuam um dispositivo decodificador, um ‘player’, melhor dizendo (um PC, um I.Phone, um I.Pod, I.Pads, etc.), para poderem ter acesso às suas obras que estão contidas (a não ser que você ou alguém as apague) num dispositivo decodificador destes, pois são os players que ‘carregam’ a sua obra por aí e eles, todos nós sabemos muito bem, não são distribuídos de graça. Logo a questão crucial é:

Quem comercializa estes dispositivos codificadores e decodificadores?

Fica evidente assim que, nesta rede, nesta cadeia de produção na qual estamos incluindo agora o ‘criador de conteúdos’, ele (você no caso) é o único elemento que não está sendo – do ponto de vista do lucro eventual gerado pelo sistema – remunerado.

Isto é líquido e certo, não é não?

Viram como sempre é só parar para pensar? Se você é criador de qualquer obra que julga transcendental para a raça humana (além de você e seus amigos mais chegados, claro) não se esqueça, portanto de que ela terá sempre algum valor comercial (gerando os tais direitos), mas, só depois de ser copiada e replicada num destes formatos de dispositivos de mídia em voga.

Logo, se alguém (além de você mesmo) está interessado em disponibilizar o acesso às cópias desta sua criação por aí, registre a sua autoria (biblioteca Nacional ou sistema Criative Commons) para que se saiba que ela é realmente sua e relaxe. Se houver qualquer tipo de exploração comercial, direta ou indireta envolvendo a sua obra, seus direitos estarão plenamente assegurados.

Se, por outro lado, você não quer disponibilizar sua criação de graça, ou depois de fazê-lo descobriu que o distribuidor de conteúdos ‘gratuitos’ está tendo algum lucro fortuito com a distribuição desta sua criação (sem que esta possibilidade tenha sido comunicada e aceita por você), procure um meio de cobrar a sua parte.

O que? Ah, sei. Você continua a não saber a quem você vai se dirigir para reivindicar supostos direitos porque, simplesmente não consegue entender onde é que suas obras estão fixadas. Nem eu. Só estou, usando o meu direito civil de especular.

Não esquente. É difícil mesmo entender esta história. Eu mesmo estou aqui fazendo força. Mas eu acho que já sugeri a resposta: Suas obras devem estar nos computadores de algum provedor, seguramente, gravadas neles em bits.

Saudades da minha vitrola ‘Grundig’

O formidável mundo novo da comunicação ‘Tudo-Em-Um’

Os românticos mais empedernidos dirão: Mas que nada! A história da comunicação humana está cheia de exemplos de grandes inovações que micaram. E mais ainda: Prognósticos anunciando a morte por anacronismo de mídias ‘velhas’ vivem não se confirmando por ai. A TV acabou com o cinema? A fotografia acabou com pintura? Nem mesmo o dourado e charmosinho CD conseguiu acabar com velho e preto vinil!

Certo, está certo, mas, atente para o detalhe de que, no caso presente, a questão é bem mais complicada.

Trata-se de uma unificação dos suportes. Cada vez vale menos à pena imprimir imagens e sons em fitas de celulóide ou mesmo disquinhos eletrônicos. Até mesmo a impressão de caracteres gráficos em papel (livros, jornais e revistas) está começando a virar uma técnica caduca. Estamos no limiar da novidade das novidades e ela pode ser a gota d’água.

Andam dizendo por aí que a internet ‘volatizou’ os dispositivos de mídia e que, por isto, não se tem como saber de quem você vai cobrar os eventuais direitos sobre suas criações, não é mesmo? Mas, raciocine usando este conceito dos velhos ‘dispositivos de mídia’:

Um computador, por exemplo, é ou não é, simplesmente, um destes ‘tocadores de conteúdos’, um ‘player’ como qualquer outro, por se assim dizer? (como um piano que tocasse sozinho, por exemplo) Aliás, pensando bem, o PC não é só um como vários players, diria eu. Elementar!

Um computador é um console de suportes de mídia, não muito diferente daqueles aparelhos ‘três-em-um’ de quando eu era um jovem garotão: Vitrola-Rádio-gravador, para ser exato (e vejam só a confusão do futuro já se anunciando ali naquele meu elegante – e já semi-portátil- aparelho Grundig).

Grosso modo, o que é um PC? Acho que parece, sem tirar nem por, com uma máquina tudo em um, que ‘faz de um, tudo’.

Tudo em Um: Grande sacada dos inventores da civilização digital (pois foi aí que porca torceu o rabo).

Ou seja, você tanto recebe conteúdos e informações como pode gravá-las ou repassá-las para quem você bem entender (repare, pois que é aí, nesta distraída malandragem de permitir que qualquer um repasse conteúdos de autoria de quem quer que seja para quem bem entender que os espertinhos da vez estão lucrando.)

Onde eu quero chegar com isto? É simples: As empresas que vendem os tais ‘dispositivos de mídia’, desde os PCs-consoles até os Palms e ‘mini players’ como os I.pods e I.phones, não importa o que, são parte importante da cadeia de distribuição de conteúdos e, como vimos, ganham dinheiro com isto tendo sim, efetivamente lucro com o negócio.

Afinal, o código que ‘lê’ os bits em que os conteúdos estão convertidos, são parte inseparável dos players que eles vendem que, por este simples raciocínio, são objetos-cópias dos conteúdos que distribuem, tanto quanto qualquer disco de vinil ou Cd (na verdade são mídia /suportes e player/ drivers ao mesmo tempo).

Caracterizado este fator e existindo (como existe) uma jurisprudência a respeito, a princípio, parte dos direitos autorais – e aí está o grande nó da questão – de TODOS os autores de conteúdos, poderiam eventualmente, ser cobrados mais dia menos dia, sobre o lucro destas empresas que – como pode ser atestado – vendem suportes de mídia com conteúdos de terceiros (exatamente como faz o pirata de Cds da esquina) sem pagar eventuais direitos autorais destes terceiros.

Este é o lado democrático da Internet, mas é também a essência da malandragem da indústria que alimenta o setor com os essenciais dispositivos de gravação e distribuição de conteúdos.

Deus e Diabo, mãe e madrasta, Dr. Jekyll e Mr. Hyde, um conflito de caráter ainda difuso que habita o âmago da Internet que, mais cedo ou mais tarde terá que ser resolvido.

O que eu quero dizer é que, em tese, à luz das leis de direito autoral em vigor (notadamente as brasileiras), do mesmo modo em que não há como discernir, exatamente, quem é o responsável pela distribuição dos conteúdos e quem lucra com isto nesta matrix gigantesca, lucro, efetivamente, há.

É claro que ninguém vai querer pagar pelo que está disponível de graça, como ocorre atualmente, mas, considere o seguinte: do volume espetacular de conteúdos disponíveis na Internet, do ponto de vista da qualidade e da pertinência sócio cultural, cerca de 90% é puro lixo. Não acha não?

É mais ou menos evidente que, mais cedo ou mais tarde, a obra artística ou científica autêntica, o produto cultural de excelência, publicado e distribuído na rede, vai recuperar o seu valor original, inclusive financeiro, como bem de consumo, mercadoria mesmo.

Neste caso então, convenhamos: Se os suportes de mídia convencionais (aqueles que você podia comprar na loja como livros, CDs, etc.) estão desaparecendo onde será que os seus conteúdos foram parar? No ar? Na rede da blogsfera? Que nada. Pense: ‘Tudo que é humano não nos é estranho’.

Por esta simples razão também – a possibilidade de haver lucro incidindo sobre os conteúdos- as licenças do tipo Criative Commons podem não garantir, totalmente a isenção do pagamento de direitos pela distribuição destes conteúdos, caso fique caracterizado que alguém no sistema (que funciona em rede) está auferindo lucros relacionados, mesmo que indiretamente, com esta disponibilização desregrada.

É mais provável, por esta hipótese, que a batata quente poderá cair nas mãos dos sites que eu chamei acima de ‘acumuladores de conteúdos’. Ou não.

Diretamente ligados aos autores (com os quais as licenças CC são firmadas), estes ‘acumuladores de conteúdos’ seriam a instancia que, no caso de uma onda de ações por direitos autorais inundar a rede, teriam que negociar com os fabricantes de Pcs e players o pagamento de parte destes direitos.

Por outro lado, teriam que reduzir o seu cadastro de colaboradores, passando a filtrar e selecionar autores pela qualidade ou potencial comercial de seus posts, assumindo o papel algo parecido, com o das antigas editoras de conteúdos (editoras de livros, gravadoras) da era pré internet. Será?

Estes ‘acumuladores de conteúdos’ poderiam também optar pela criação de um programa com filtros que inviabilizassem a obtenção de downloads dos conteúdos, porventura autorizados sem cobrança de direitos (hipótese mais remota ainda, dada a complexidade e o custo destes filtros, totalmente em desacordo com filosofia de liberdade de acesso dominante na rede).

Seja lá qual for, a solução deste maravilhoso embróglio em que a questão da produção de conhecimento e o futuro do direito autoral no mundo se transformou, com o advento da Internet, a solução disto tudo talvez venha como uma formidável ‘bola de neve’, um grande ‘jogo de empurra’ universal que, doa a quem doer, tal e qual um ‘freio de arrumação’, poderia criar as bases das relações gerais – principalmente comerciais – da Blogsfera do futuro.

Acredita nisto tudo que especulei ou acha que eu de leigo assumido, virei, de vez, um pirado daqueles mais doidões?

Não ria do leigo. Pense um pouco mais e diga alguma coisa nova sobre isto.

Caia na rede e seja peixe dentro d’água. Os de fora, com certeza, morrerão afogados e serão fritos.

(Ou não. Como saber?)

Spírito Santo
Junho 2009

O Futuro do E-Book



Se liga aí rapaziada!

(Extraído de “OUTRAS PALAVRAS– Comunicação compartilhada e Pós-capitalismo“)

“Duas das empresas que lançaram há algum tempo leitores de livros digitais anunciaram simultaneamente ontem a redução, nos Estados Unidos, dos preços de seus produtos. O Kindle, da Amazon, passará a custar 189 dólares (e não mais US$ 259); o Nook, da Barnes & Noble, que custava o mesmo preço, caiu para US$ 199 (ou US$ 149, na versão que se conecta à internet em Wi-Fi, mas não em 3G). As baixas são prenúncio de um enorme movimento na produção de livros eletrônicos. Entre as grandes mudanças dos próximos meses, estão a entrada em cena do Google Books (um site para baixar livros e, mais tarde, um leitor) e a possível queda do preço dos e-readers para abaixo dos US$ 100 (previu-se, ontem, que ocorrerá em menos de 12 meses).

As novidades repercutirão muito além da tecnologia. Para alimentar a reflexão sobre o tema, vale visitar (por enquanto, em inglês), dois textos profundos publicados pelo New York Review of Books. Ambos estão abertos à leitura livre, na internet. O primeiro é um ensaio de Jason Epstein, um editor norte-americano veterano e premiado. Debate as transformações que o novo formato imporá à atividade editorial. Com a autoridade de quem fez carreira longa e bem-sucedida no ramo, Epstein adverte os que duvidam do advento dos livros eletrônicos. Para ele, a transição do papel para os bits é “tão inegociável como os terremotos” — e, além de tudo, muito benvinda. O artigo destaca, como principais vantagens, a popularização e a possível diversidade. Ao invés de cada vez mais concentrada, em poucas e gigantescas empresas, a edição de livros será, em breve, uma atividade acessível aos próprios escritores. Eles se beneficiarão do mesmo tipo de liberdade e alcance conquistado pelos músicos, que agora produzem álguns quase sem custo e os difundem em todo o mundo sem necessidade de uma gravadora.

Como riscos a ser evitados, Epstein aponta a possível destruição dos acervos bibliográficos por regimes autoritários (ele recomenda, para isso, que nunca se interrompa a impressão dos livros). Também condena a tentação fácil de acreditar que o futuro produzirá, também, “o escritor que não necessita comer” — desprezando a necessidade de remunerar os autores.

O segundo artigo é uma cuidadosa análise, escrita pela jornalista Sue Halpern, sobre o IPad, o leitor eletrônico lançado há poucas semanas pela Apple (com repercussão midiática mundial). Sue é profunda (chega a examinar os dois sistemas de “tinta eletrônica” que permitem o funcionamento dos dois modelos principais de e-reader) mas também crítica e mordaz. Seu ensaio destaca algo quase ausente na mídia tradicional: o caráter proprietário do IPad — que tem inúmeras funções além da leitura de livros, mas só pode ser “abastecido” nas lojas virtuais da própria Apple.

“As utilidades do IPad podem ser ingênuas. Podem ser divertidas e atraentes. Podem ser úteis. Só não serão, jamais, livres do controle da Apple”, fustiga o texto. Em outro trecho, ela destaca: “A aposta da Apple é a antítese da abertura que despertou muito da criatividade e ingenuidade que definem e dirigem a internet. Desde o lançamento do primeiro navegador, há 17 anos, ela tem sido campo aberto e irrestrito, acessível para todos. É graças a sua abertura que alguns governos a temem, que algumas companhias são ameaçadas por ela, que um cantor antes desconhecido pode vender um milhão de álbuns, que um garoto de Mumbai pode ajudar a construir um código de computador, agregando sua contribuição a um software desenvolvido em Amsterdam e distribuído em todo o mundo”.

Ao Molho Pardo


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Conto

Me chamo Brasil. Sério. Justino Amaral do Amoroso Brasil, ao seu dispor.
Saí de casa hoje agoniado, com aquela sanha de matar uns dois ou três. Sem brutalidade, claro, que isto, podem crer, não é comigo.

Matar sim, mas sem sadismo. Matar simplesmente, como minha mãe matava as galinhas de
domingo. Uma torcida rápida no pescoço e, babáu!

As vezes uma boa faca, bem amolada também resolvia bem a situação.

Aliás, esta minha ojeriza a sadismo deve ter vindo daí, do dia em que a Velha, assoberbada com a salada de maionese, me pediu para fazer o serviço com a galinha. Servicinho, pensei. Nem pestanejei. Era só pegar a bicha, forçar a cabeça dela na tábua de carne e zás! Cortar. De um golpe só.

Mas fiz com piedade, me disse a Velha. E piedade não se pode ter na hora de matar uma galinha. Isto mesmo! Foi um amigo meu da vigésima DP, que é legista, quem me ensinou:

_”A galinha está na base de nossa cadeia alimentar, meu chapa. Fazer o quê?
Temos que viver, ora bolas! Vai desprezar a delícia que é uma moela
ensopada, uma asa assada, uma coxa empanada?”

Mas fiz com remorso. Fiz sim. Eu sei. Um remorso prévio, mal disfarçado, que, não sei como a pobrezinha sentiu, anteviu naquele seu piado assim, tremiiido como um apito de juiz engasgado, cheio de cuspe.

Foi de dar vertigem. O maior terror que eu já passei na minha vida.

O corpo da galinha tombou para um lado, tombou para o outro e logo começou a se debater, de pé. Não sei como ela conseguiu, gente. Ficar em pé? Como explicar? Fiquei embasbacado pensando como é que um corpo sem cabeça pode entender, raciocinar o que é ficar em pé? Foi aí que, para o meu alívio, o corpo dela caiu de novo, de vez, na tábua de carne, ficando só com aqueles tremeliques de curto circuito, aqueles espasmos de penosa moribunda, agonizante. Ah!Me aliviei.

Mas qual o quê. Foi aí que a coisa ficou ainda mais apavorante: Na cabeça dela, os olhos piscavam como a procurar alguma coisa que eu tinha certeza que era eu, o assassino frio e cruel. A bicha abria e fechava aquele bico pálido, como a querer exprimir algo transcendental, algum cacarejo acusatório, quem sabe alguma severa condenação ou uma praga, sei lá. Ai Deus meu! Aquele bico apontado para mim, inquisidor.

Fiquei num desespero tão sem tamanho que cheguei até a pensar em recolher de novo as partes e juntá-las uma a uma, como fez aquele tal de Doutor Frankenstein, mas era tarde demais. O  sangue da bicha já nem esguichava mais, se esvaía como um riachozinho calmo, me distraindo. Daí me lembrei, ali naquele mesmo instante, que tinha que recolher todo aquele caldo escuro e viscoso num copo – a matéria prima do tal do molho pardo, lógico –  senão a Velha me matava e me esfolava todinho…como a galinha.

O certo é que, talvez, esta minha sanha assassina tenha nascido ali mesmo, nos preparativos daquele rotineiro almoço de domingo, no tempo em que eu ainda só bebia guaraná.

Foi lembrando disto que saí assim, com aquela mesma sede de sangue que se apossava de mim nos velhos bons tempos, sempre que uma diligência era marcada rumo ao covil de algumas destas bandidagens que infestam a nossa cidade.

No noticiário da rádio Mayrink Veiga, ontem mesmo, estava dando uma notícia dessas que ainda me arrepiam todo, fazendo o meu sangue ferver nos tubos.

O indivíduo bateu na mulher com o cabo da enxada até deixar a bichinha desfalecida. Saiu, tomou umas três doses de ‘Pitú’ no botequim da esquina e voltou. Pegou a enxada propriamente dita, encaixou no cabo e, pronto, decepou o braço da coitadinha.  Deixou a pobre se esvaindo em sangue (como a galinha) e foi de novo para o botequim, acabar de encher as fuças de goró.

O guarda civil encontrou ele emborcado na sarjeta, com a cara enfiada numa destas poças de meio fio, quase afogado naquele caldo de esgoto e águas pluviais. Ah! Pra que!Já entrou na rádio patrulha tomando porrada, cachação, ‘telefone’, estas coisas. Na delegacia então…Ih! apanhou mais do que tarado de favela, muito mais do que um boi ladrão.

No início, anestesiado pelo glorioso goró que tomara, chegou a rir das bofetadas, às  gargalhadas, como um imbecil demente, masoquista. Depois sossegou. A dor foi
chegando meio ardida e por fim o paspalho amoleceu de vez. Confessou a sua missa sem nenhum amém.

Tinha sido despedido da firma. Servente de pedreiro que era, sem eira nem beira em que se segurar, purgou na hora uma ira fina e gosmenta contra o patrão, mas ainda no meio da surpresa do fracasso, humilde e medroso como são todos os serventes de pedreiro deste mundo, se acovardou, murchou, calou.

Daí saiu pela rua e de goró em goró só foi descontar a raiva que sentia, a humilhação que o patrão o submetera, de noitinha quando chegou em casa. Onde? Na carcaça da pobre da ‘patroa’, ora. Coitada.

Mas me digam vocês: Pode viver um ‘cabôco’ desses? Se pudesse, se estivesse ao alcance de minhas justiceiras mãos, vocês podem crer que eu não batia só não. Eu matava, esfolava e nem recolhia o sangue. Deixava o tipo A negativo dele esvaindo lá mesmo, no ladrilho (e minha mãezinha desta feita, havia com certeza de me perdoar). Afinal – pensem comigo –  assassino de mulher indefesa parece sim, mas não é galinha. Galinha presta gente. Galinha, tenho dito,  alimenta com louvor e delícias a fome domingueira da nossa sociedade.

————

Me chamo Brasil. Duvidam? Justino Amaral do Amoroso Brasil. Eu sei. Ninguém acredita. Vivo repetindo a toda hora.

Mês passado tirei serviço no Maracanã. Nem era meu plantão mas o delegado insistiu, quase me intimou o filho da puta. Juro que não queria ir. Futebol pra mim é baboseira. Se o cara me chuta a canela e dói eu quero arrancar o braço dele. Á unha e a dente. Ainda mais naquele dia da famigerada final da Copa da maior vergonha deste Mundo.

Lembram não? 2X1. Bola pra lá, Barbosa pra cá. Gooool! Goool! O corno do locutor gritando feito uma velha estrangulada. Gooool! Goooooool!… de Gigghia! Goooooooool do Uruguai!

Barbosa, crioulo miserável, filho da puta. A culpa foi dele. Frango de macumba. Um frango engolindo outro. Que horror.

(Claro que o rádio do qual eu falava é um novo porque o outro, no mesmo dia do jogo eu quebrei, matei ele, deixei mudo, para sempre).

A derrota do Brasil até que não foi nada. Pior foi ter que ouvir no rádio aquela notícia da  mancada terrívelque sabe quem tinha dado? Eu mesmo. Idiota! Idiota! Energúmeno! Um ato tresloucado, justo naquele dia, justo na porta do Maracanã. Vergonha quase mais desgraçada  que a do Barbosa frangueiro.

Foi assim:

Jogo acabado. Dois ‘Cosme-Damião’ vindo, espantando o povo com os seus cavalos. Era comoção geral, naquele desespero miserável, alguém bem que poderia cometer um desatino. Por isto mesmo é que eles vinham vindo. No trote. De repente um tiro. Outro tiro: Pôu! Pôu!. Quem deu? Adivinhem? Fui eu. Um dos cavalos tropeçou nas próprias pernas e caiu, babando, se estrebuchando. Foi nele que eu acertei.

Eu, que tinha saído do estádio como qualquer um daqueles milhares de arrasados na praça, que éramos todos nós, naquela hora. Primeiro tomei o esbarrão, acho que do cavalo. Quase que caí no chão. Logo em seguida ouvi, só de longe, a conversa:

_” Bem feito! Ficaram cantando vitória antes da hora, agora é essa choradeira.
È  esta merda de Brasil!”

“…MERDA DE BRASIL!” Peguei assim no ar.  Nem parei para pensar. Só podia ser comigo. Sangue quente é mesmo morte zanzando perto.

Puxei o revólver no instinto e apontei. Foi daí que vi a cara do soldado,  não sei se o “Cosme” ou se o “Damião”.  Puta que pariu! Acho que foi Deus que abaixou a minha mão, naquela hora quando naquele impulso maldito, atirei desviando: ‘Pôu! Pôu!’. Acertei o bucho do pobre do cavalo.

Ai! Foi pior até do que se eu tivesse acertado o  ‘Cosme’ (ou o Damião’) sei lá.

Zás trás. Tarde demais ! Naquele mesmo instante do tiro uma certeza a me gelar a espinha:

_ ‘Pronto. Fudeu! Perdi a porra do meu emprego.’_

E não deu outra. O delegado, que era um ferrabrás maldito e não ia mesmo com os meus cornos, prontamente me enquadrou no xilindró e me despachou daquela vida boa que eu levava pra os quintos mais torpes do inferno:

_”Exonerado, desgraçado! Tá exonerado a bem do serviço público! Onde já se
viu? Que destempero, atirar num colega…fardado?”
_

Ai! Querem saber? Eu era polícia civil, gente! papa fina. Autoridade competente. 25 anos de serviço!  Na boca de me aposentar. Não era brincadeira não. Burro que sou acabei onde estou: Há 5 meses sou capanga de bicheiro. Despachador de desafeto, matador de aluguel, fabricante de viúvas.

Fazer o quê?

————–

Foi por isto, por conta das neuroses todas destas lembranças que saí de casa hoje pensando em matar dois ou três. Saí sim. Confesso, mas jurei para a minha patroa que logo em seguida vou tomar prumo. 1950 é o ano em que saio desta rotina cachorra. Ela sempre me disse que esta vida de matador é coisa de gente abilolada, recalcada, sorumbática, psicopática, sei lá como se diz.

Os dois ou três últimos da lista eu já sei até quem são e onde estão. Um é gerente de um ponto de bicho do doutor Claudionor. Tá roubando o chefe. Vai espichar as canelas.

Os outros são cupinchas dele, do ladrão do chefe. Podem miar, piar, latir, ganir. Vão para o mesmo buraco também, sem dó nem perdão. Faço o serviço na sexta à noite, quase madrugada. No sábado durmo o sono dos justos. No domingo vou à feira, tomo umas cervejas com a rapaziada e pego aquele almoço especial da minha boa dona patroa.

Este domingo vai ser galinha ao molho pardo. Posso até apostar.

A danada da patroa cuida de tudo, igual à minha Velha. Escolhe lá no aviário uma bela penosa, bem rechonchuda, cochuda. A bicha já vem depenada na água fervente com os poros de onde sairam as peninhas, inchadinhos inchadinhos… como mulher arrepiada depois do banho, a pele limpinha, prontinha para a panela pelando lá no fogo, refogando o alho, a cebola, Dona patroa lambendo os beiços, conferindo todos os procedimentos…Ai! É de dar água na boca só de pensar.

Eu não. Nem devia pensar. Tô fora dos procedimentos. Não posso ver morte de penosa. Tenho trauma de matar galinha, vocês já sabem.

Mas neste ano eu já disse, me aposento. Aí, quem sabe, eu me destraumatizo e ainda destrincho um dia destes umas penosas gostosas por aí? Todo trauma pode ter cura, não é não? É como diz aquele meu amigo legista, distrinchando gente assassinada, pra desvendar crime de vivo:

_”Meu chapa…Já vi de tudo nesta vida. Neste mundo nada é impossível. Quem viver verá”.

Spírito Santo
29 de Abril 2007

O Turista na Armadilha


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Degradação do patrimônio imaterial no Brasil

A prostituição emocional

“… Esta (tribo)… caracterizava- se principalmente pelo fato de seus integrantes não recorrerem a palavras para se comunicarem, mas a sons musicais. Além disso, seu vocabulário estava repleto de denominações para o mal, em todas suas gradações. Destas, a mais apreciada era a “principiada num som grave e atingindo a quinta superior”, que designaria a palavra ‘inimigo’.”

(Makunaima e Macunaíma. Entre a natureza e a história’- Daniel Faria/Unicamp)

Mário de Andrade naquele divertido – e sarcástico – diálogo intelectual que gostava de estabelecer entre arte e cultura, inventou certa vez este falso grupo étnico indígena aí de cima (que teria sido encontrado por ele nas margens de um rio amazônico, durante uma viagem etnológica real) inventando uma série de hábitos e costumes assaz exóticos – como seria de se esperar de um grupo indígena desconhecido – entre os quais uma língua esquisita baseada, exclusivamente em três notas ou frequências musicais. Os arredios figuraças eram os índios ‘Dó-Mi-Sol’.

A história está aí, para quem quiser ler no sensacional livro ‘O Turista Aprendiz‘.

Hilário ainda hoje, não é mesmo? Mas que graça a gente acharia se isto tivesse sido escrito para parecer um fato, ou seja, se o esperto Mário estivesse tentando mesmo, macunaimicamente nos convencer de que aquela tribo era real, verdade verdadeira, sem tirar nem por?

Vocês podem achar uma ‘cascata’ inacreditável (e nem vou recriminá-los por isto), mas juro que vi uma vez na TV (no Discovery Channel, acho, não me lembro quando) uma história bem parecida com esta, só que verídica, descrevendo uma tribo de curiosíssimos hábitos, que havia sido descoberta por um antropólogo gringo, francês salvo engano, na polinésia (ou num outro cantão desses aí, nas imensidões do oceano pacífico).

Publicada nos anais acadêmicos na época e atestada a ‘autenticidade‘ da descoberta, anos depois um repórter ou outro antropólogo (tem sempre um chato de galochas nestas histórias) resolveu verificar as quantas andava o processo evolutivo daquela curiosa tribo. E qual não foi a sua surpresa quando descobriu que a tal tribo… jamais existira.

No duro. Era tudo pura ficção ‘científica’. Os membros da tribo fajuta não passavam de atores nativos, pobres cara de paus aculturados, arregimentados a dedo e treinados pelo antropólogo, que inventou-lhes uma selvageria fashion, criando hábitos ancestrais falsos, um figurino falso, uma cosmogonia falsa, tudo igualzinho ao que o nosso Mário fizera no seu conto inventando os ‘Dó-Mi-Sol’ (que eram, logicamente, puro sarro.)

Pobre Mário! Lido talvez, quem sabe (só que às avessas) pelo gringo ‘um-sete-um’, nem crédito para a sua original criação recebeu. Antropofagy é isto aí, gente boa!

Porque eu conto esta história? É fácil: É que esta moda… resignificativa e pós moderna a mais não poder, ao que parece, está pegando no Brasil.

Falando sério: Comenta-se a boca pequena (eu mesmo, a boca grande, vivo cantando esta pedra por aqui) que um insidioso fenômeno cultural já devia estar chamando a atenção de especialistas, antropólogos pelo Brasil a fora.

Trata-se do controvertido e agudo processo que pode, grosso modo, ser conhecido como resignificação de conteúdos – e da forma, da estética enfim – de manifestações culturais tradicionais brasileiras, infelizmente com fins nem sempre confessáveis.

Você já se ligou nisto? Não sabe bem o que significa? Resignifique-se então

É mais ou menos assim: As coisas são o que são, mas podem, dependendo do ponto de vista, significar outra coisa, ter outro sentido com o tempo. De novas e alentadas conclusões que sugerem novos olhares, emergem formas modernas de se abordar uma mesma coisa. Novos tempos, novas modas, novos significados enfim. Tudo muito bonito, mas dando aquela pinta mucho loca de ‘caô caô’.

(Não sabe ainda o que é um ‘caô’? Depois explico)

O perigo, contudo pode morar na seguinte constatação: Tudo é sempre muito relativo (se o papo for Cultura então nem se fala). É preciso que existam regras morais, parâmetros éticos bem definidos, ordem para que não vire tudo, em suma, uma casa-da- mãe-joana.

Sabem como é: No Brasil o inimigo sempre mora ao lado.

Vandalismo politicamente correto pode?

Patrimônio cultural deliberadamente degradado: Um conceito

“… Há uma espécie de sensação fincada da insuficiência, da sarapintação, que me estraga todo o europeu cinzento e bem arranjadinho que ainda tenho dentro de mim. Por enquanto, o que mais me parece é que tanto a natureza como a vida destes lugares foram feitos muito às pressas, com excesso de castro-alves”.

( Mário de Andrade no diário de “O Turista aprendiz”: “18 de maio” )

É cada vez mais perceptível por aqui a promoção de ações e intervenções, pretensamente solidárias junto a comunidades que praticam – ou podem vir a praticar – manifestações ‘folclóricas’ com perfil característico (mesmo falso) que possa ser identificado como ‘manifestação cultural tradicional‘, passível de justificar a formulação de projetos de tombamento, difusão e/ou preservação.

Além destas samaritanas finalidades há também, é claro, aquela que é a mais cínica de todas as justificativas para descolar um patrocínio, um qualquer: A chamada espetacularização da cultura tradicional (ou seja, a praga da carnavalização interesseira)

No dizer escorregadio desta gente espetacularização é a… ‘resignificação‘ de uma manifestação de cultura popular com finalidades artísticas e, supostamente meritórias já que se enquadram como uma luva, no âmbito destes ‘trocentos‘ programas de inclusão social, voltados para os nossos milhares de pobres diabos adolescentes.

“Inclusão social! Capacitação profissional!” _ enchem a boca para dizer.

No português claro, inclusão social ‘para inglês ver’, por intermédio de alguma arte provisória e imediatista qualquer (como batucar samba-funk em latas velhas, por exemplo, função que ao que se sabe, nunca deu camisa e futuro a ninguém).

Este fenômeno – ainda carente de uma melhor definição – tem ocorrido, notadamente no âmbito de manifestações de inspiração africana, supostamente relacionadas ao conceito ainda um tanto mítico das sobrevivências etnológicas, eventualmente portadas por, não menos supostos, ‘quilombos remanescentes’, comunidades com algum resquício de herança cultural ancestral perceptível (curiosamente nunca inserem neste conceito as nossas imensas favelas).

É a partir desta tese da espetacularização benfazeja, portanto que foram formuladas mal embasadas reinterpretações de uma cultura afro-brasileira difusa, rasamente explicitadas em teses de mestrado, tornando-se uma seara bastante atraente para certa classe de ‘aventureiros‘, muito mais por ser exótica e vulnerável a estas resignificações capciosas do que, propriamente por sua eventual relevância etnológica.

Estes verdadeiros predadores da cultura, motivados que são por uma vasta gama de interesses (a maioria, infelizmente relacionados aos recentes canais de patrocínio institucional abertos, na área da cultura e do turismo histórico-cultural no país) no âmbito das manifestações junto as quais se imiscuem, vão imprimindo – por ignorância sim, porém, muitas vezes de forma deliberada – estéticas e conteúdos descolados das tradições originais, que se diluíram com o tempo ou por conta de diversos vetores (entre o quais racismo e a exclusão social são o mais recorrentes).

O certo é que o impacto das investidas destes ‘aventureiros‘ sobre a cultura tradicional brasileira tem sido formidável.

Numa época em que se fala, insistentemente de tombamento e preservação do patrimônio imaterial, a questão assume proporções de drama cultural nacional eminente, tanto que a gravidade da situação pode sugerir que órgãos como o Iphan (que, ao que parece, não se deu conta ainda do fenômeno) e o MinC tenham que estabelecer, muito em breve, mecanismos de detecção e controle deste fenômeno, inaugurando estratégias que, na falta de nome mais adequado, chamarei aqui de ‘Restauração do patrimônio cultural imaterial deliberadamente degradado’ .

Patrimônio Turístico Cultural

Conceito e preconceito

(Antes que me esqueça: ‘Caô’ é uma evocação ao orixá Xangô do panteão do Candomblé _’Caô’! Caô! Cabecile!’ – Tudo indica que, de tanto ser usada, para as mais banais finalidades, a palavra vulgarizou-se, perdendo, vamos dizer assim, a ‘força’. Sábio como sempre o povo deu a palavra uma…‘resignificação’, passando a usá-la para definir, mentira, conversa fiada, qualquer coisa dita da boca para fora)

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Turismo como se sabe é um conceito ligado, obviamente à territorialidade, a um lugar específico para o qual os habitantes acharam por bem passar a atrair visitantes, motivados por alguma razão de natureza às vezes emocional (como amor por sua cidade) ou mesmo pragmática, como por exemplo, gerar recursos para melhorar a vida da coletividade, através da utilização de algo especial que o lugar tem, algo que atraindo interesse dos de fora, dos estrangeiros (que são chamados, vulgarmente, no caso, de ‘turistas‘) possa ser explorado em benefício daquela coletividade.

Esta finalidade de utilidade pública está associada, portanto à existência deste certo ‘algo mais’ que os habitantes presumem possa gerar algum valor intrínseco ao ser visto e usufruído, algum atributo que está relacionado, como vimos – e de forma imperativa inclusive – a uma qualidade especial qualquer que o lugar, a cidade, o país ou o vilarejo tem, pode voltar a ter (ou mesmo nunca ter tido e passar a ter).

Assim, o conceito Turismo prescinde sempre de uma razão, de um adjetivo, algo sugestivo ou atrativo, um chamariz, um elemento motivador, que traga os turistas para a intimidade de uma comunidade e justifique o desejo deles de estarem ali e não em outro lugar qualquer.

As possibilidades são inúmeras desde as inconvenientes como o chamado Turismo Sexual, por exemplo (armadilha na qual algumas cidades do Brasil como o Rio de Janeiro e Recife, por exemplo, já estiveram, infelizmente, associadas), até as mais simpáticas como Agro Turismo (o lugar tem uma pecuária de alto nível e promove rodeios e feiras), o Eco Turismo (o lugar tem uma flora exuberante e recursos naturais belíssimos) e muitas outras motivações…turísticas, como se pode deduzir.

(Neste particular chamamos, fortemente a atenção para o fato de que a expressão ‘prostituição‘, pode ser atribuída também, de forma genérica é claro, a qualquer aviltamento ou banalização desta motivação turística original, seja ela qual for.)

É fundamental, portanto que, ao propor que um lugar se abra ao Turismo, à visitação de estranhos, os habitantes tenham muita clareza daquilo que querem mostrar, expor à visitação não só do aspecto do impacto que esta exposição trará para a sua vida cotidiana, como também de que modo este ‘chamariz’ ou fato turístico, poderá ser mantido íntegro, patrimônio social que, efetivamente passou a ser (bem comum a ser preservado).

O grau de apreço com que uma comunidade trata a integridade deste ‘algo mais’ que a localidade tem – e que ela elegeu como sendo um fator turístico em si – é, pois, proporcional ao nível de degradação que este fator turístico sofrerá quando desprezado ou exposto ao desleixo e ao descaso.

Um exemplo claro disto (embora nem sempre óbvio) é a necessidade de se manter limpo um rio que deságua numa cachoeira exuberante. Se houver qualquer descuido da comunidade (usando um exemplo bem corriqueiro) diante de uma ameaça de poluição deste rio mais cedo ou mais tarde os turistas abandonarão o balneário e o valor do que era um patrimônio eco-turístico inestimável, se esvairá.

Preservar, conservar e manter o patrimônio de uma coletividade íntegro e perene, mobilizar a consciência turística de uma coletividade é, pois, sinal de inteligência comunitária, condição essencial para merecermos o nome de indivíduos civilizados.

Tocar neste assunto quando o bem a ser preservado é de natureza imaterial como manifestações culturais tradicionais (algo intangível), por exemplo, é um assunto complexo, mas, considerando-se que, por sua vez, a julgar pelos exemplos acima citados, o conceito preservação não é tão complicado assim, podemos continuar a exemplificar sem dificuldade usando simples analogias.

Neste sentido, outro exemplo prático para se entender melhor a questão é quando este bem cultural, passível de ser utilizado com finalidade turística, é o patrimônio arquitetônico do lugar (algo tangível, portanto).

Prédios e edificações antigas, construídas em estilos que representam tendências de uma época, de um estágio tecnológico, de um modo de vida: edificações que, afora o seu significado estético, formal, representam também um espaço memorável, onde ocorreram fatos e incidentes emblemáticos, relacionados à história do local, ou onde certos aspectos da cultura da região ou do país, do mesmo modo ocorreram são, pois, bens culturais por excelência.

Conscientes destas particularidades como lidar então com este patrimônio histórico arquitetônico?

Em primeiro lugar é preciso identificá-lo, atestar a legitimidade de sua condição histórica, mediante uma avaliação técnica criteriosa. É por meio deste reconhecimento, desta comprovação de sua autenticidade atestada por evidências técnicas irrefutáveis, que se poderá ‘tombá-lo’, inventariá-lo ou reconhecê-lo, oficialmente como um bem histórico evidente, patrimônio público por suposto, bem coletivo a ser conservado.

É a partir deste reconhecimento público formal que surge então a obrigatoriedade, também pública, de restaurá-lo quando degradado pelo tempo – ou mesmo pelo vandalismo de alguns- e mantê-lo preservado, íntegro, função geralmente assumida, como precípua, por alguma instituição pública, vocacionada para tal (como é o caso do Iphan, pelo menos neste aspecto).

Radiografando o patrimônio imaterial

(O intangível não é invisível)

“… E esta pré-noção invencível, mas invencível, de que o Brasil, em vez de se utilizar da África e da Índia que teve em si, desperdiçou-as, enfeitando com elas apenas a sua fisionomia, suas epidermes, sambas, maracatus, trajes, cores, vocabulários, quitutes… E deixou-se ficar, por dentro, justamente naquilo que, pelo clima, pela raça, alimentação, tudo, não poderá nunca ser, mas macaquear, a Europa.”

( Mário de Andrade no diário de “O Turista aprendiz”: “18 de maio” )

Por este viés de nossa avaliação algumas conclusões preliminares podem ser entabuladas. A primeira delas – a mais evidente e dramática – é que a maioria dos grupos de cultura tradicional do Brasil estão completamente desarticulados entre si e vivem à mercê das investidas de aventureiros de vários tipos, bem ou mal intencionados e, em sua maior parte, totalmente deseducados, aculturados, apartados dos significados e sentidos mais profundos da cultura tradicional de seu próprio país.

As razões desta desarticulação dos grupos de cultura tradicional, da fragilidade de suas relações com a sociedade em geral, estão ligadas, é claro, às históricas e caquéticas idiossincrasias do sistema social excludente do Brasil que alija para a periferia da sociedade tudo que diz respeito ao chamado povo, principalmente as suas oportunidades de acesso à educação.

Como se vê até mesmo a preservação do patrimônio cultural e emocional deste tal de povo é reiteradamente desprezado, subestimado do mesmo modo como são omitidas e desconstruídas, até mesmo as referências de seu passado histórico (bem entendido o passado histórico real do país, enquanto instância, evidentemente associada à nossa cultura, de maneira geral).

Fica do mesmo modo evidente de que há, além da óbvia e recorrente contradição sócio econômica entre pobres e ricos, um imenso fosso ético se alargando no bojo destas relações entre elite e povo (‘agentes externos’ e população local, no caso) já que as mais iníquas investidas rumo à vocação turístico cultural de certas regiões, vista como oportunidade de ganhos financeiros para indivíduos e instituições estranhas às comunidades, segundo a maioria dos relatos disponíveis, costuma ser perpetrada sem nenhuma espécie de pudor etnológico.

Aparentemente intencionada em alijar e excluir e, num segundo momento (por um mero imperativo político estratégico, talvez) usar, instrumentalizar a cultura dos grupos de cultura tradicional local, estas ações quase sempre são realizadas, portanto sem nenhum cuidado com os riscos que esta utilização irresponsável traria para a sobrevivência das manifestações aviltadas, após uma longa exposição a esta desmedida corrupção de seus valores gerais mais essenciais, sua tradicionalidade enfim.

Fica ainda no mesmo sentido atestado que há problemas terríveis também no que diz respeito à formação educacional de nossa juventude ‘incluída’ quando se percebe que na vanguarda desta elite predatória (turistas ‘ao contrário’, por se assim dizer), intermediando a ação dos ‘organizadores’ responsáveis por estas ações, estão jovens formados em universidades, muitas vezes em ciências sociais, antropologia, etc. matérias fundamentais nesta questão (inclusive em seu estrito sentido ético) jovens ‘bem’ formados estes que usam os supostos conhecimentos auferidos em sua formação para perpetrar este tipo de ação anti-cultural esperta, oportunista, fazendo-nos refletir, desolados que diabos estamos fazendo com a nossa sociedade ‘letrada’.

É bastante difícil avaliar por isto mesmo, o grau de degeneração provocado por iniciativas culturais, pretensamente positivas. O cerne da questão é que o impacto de ações como esta costuma ser muito mais nocivo no campo da ética, porque acaba corrompendo as comunidades no âmago de seus valores morais mais caros.

Degeneração pura e simples, no sentido da banalização de um atributo emocional intrínseco a cultura das pessoas; deturpação da representação simbólica de toda uma maneira de ver e viver a vida que, pode ruir – e efetivamente rui – totalmente quando se depara com a constatação de que se pode trocar por alguns trocados a exibição de uns poucos dotes artísticos ancestrais (da mesma forma que se pode trocar um benefício mensal de um programa de ‘renda mínima’ por um voto).

Degeneração ética como morte da tradição, como extinção do patrimônio cultural imaterial que se esgarça e se vulgariza.

(Tradição e ética não enche barriga, diz-se hoje por aí).

Assim, com a insistência do aliciamento dos ‘aventureiros‘, como a esmola viciando o cidadão, a exibição dos dotes ‘exóticos‘ passa a se dar mesmo quando alguém, considerando os dotes originais ou tradicionais feios e desinteressantes (segundo as ocultas intenções de espetacularização do evento), alicia para alterar, para subverter, para fingir uma falsa tradicionalidade, que melhor apeteça ao turista-freguês (também de algum modo lesado porque é levado a considerar cultura tradicional o que foi descaradamente maquiado, forjado).

Em meio a este descompasso moral, que mal haveria em mudar um passinho aqui, uma saia acolá, cantar uma canção pretensamente folclórica, composta por sabe-se lá quem, corrompendo-se, prostituindo-se? Algum incômodo, alguma sensação vaga de ridículo haveria, algum mal estar sim, mas, e daí se isto tudo é… coisa que dá e passa?

Quem há de saber o rumo que estas coisas poderão tomar ou no que elas podem resultar no futuro? Pois não é assim mesmo, aviltando-se e corrompendo-se por força de um meio hostil que as coisas todas do mundo se extinguem?

A questão nuclear de tudo isto é que, se o conceito Turismo Cultural encerra a exibição (seja lá com que finalidade for) de certos atributos do patrimônio imaterial real de uma comunidade, o que ocorre, em certo prazo se estes valores forem corrompidos, aviltados acima do suportável?

Mesmo que, materialmente ainda lhes restem traços, vestígios de sua forma original, simbolicamente nada mais restará de memorável, digno de ser exibido. Tarde demais quando o que vendemos foi a nossa própria alma, pode ser a lição. Ou mesmo, lembrando o ditado mais comum de todas as guerras: Não queime as suas pontes (os vínculos emocionais com o seu passado) senão você não terá como recuar quando isto for a única sorte possível, questão de vida ou de morte.

“… Nos orgulhamos de ser o único grande (grande?) país tropical…. Isso é o nosso defeito, a nossa impotência. Devíamos pensar, sentir como indianos, chins, gente de Benin, de Java… Talvez então pudéssemos criar cultura e civilização próprias. Pelo menos seríamos mais nós, tenho certeza. “

( Mário de Andrade no diário de “O Turista aprendiz”: “18 de maio” )

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(Ah…Já ia me esquecendo: Vocês sabiam que a palavra ‘Tombar’ vem de ‘registrar nos livros da Torre do Tombo’, antiga sede do arquivo Nacional português em Lisboa? Pois é. Aculturados somos ou nos… resignificamos?)

Spírito Santo

Março 2009

Madiba viu a jabulani da liberdade quicando ao longe


Madiba olhando a jabulani


A 11 de Junho de 1964, Mandela e outros sete membros do Congresso Nacional Africano (ANC) -Walter Sisulu, Ahmed Kathrada, Raymond Mhlaba, Andrew Mlangeni, Elias Motsoaledi, Govan Mbeki e Denis Goldberg, este ultimo de raça branca -foram declarados culpados das acusações de sabotagem pelo tribunal de Rivonia.

No dia seguinte, os oito foram condenados a prisão perpétua, em substituição da pena de morte, e todos, excepto Goldberg, foram presos em Pretória, sendo transferidos a 13 de Junho para a prisão de Robben Island.

Mandela foi o último dos presos a abandonar a prisão de Robben Island, a 11 de Fevereiro de 1990.

O dia de abertura do Mundial, com o jogo África do Sul México , coincide igualmente com o 22.º aniversário do concerto “Libertem Nelson Mandela”, um espectáculo realizado no estádio de Wembley, em Londres, destinado a protestar contra o regime de segregação racial sul-africano e para exigir a libertação dos presos políticos naquele país.

Está previsto que o ex-presidente sul-africano e prémio Nobel da Paz, que vai fazer 92 anos, presida à inauguração do Mundial e assista ao jogo África do Sul México apesar do seu delicado estado de saúde, cumprindo-se assim um desejo largamente alimentado pela FIFA, pelos adeptos sul-africanos e por meio mundo.

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O time volta ao campo… E o dia é hoje! Bafana!Bafana!

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(Texto extraído da matéria Acusação a Mandela, há 46 anos, coincide com a abertura do Mundial no site ESP Brasil)