O Turista na Armadilha

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Degradação do patrimônio imaterial no Brasil

A prostituição emocional

“… Esta (tribo)… caracterizava- se principalmente pelo fato de seus integrantes não recorrerem a palavras para se comunicarem, mas a sons musicais. Além disso, seu vocabulário estava repleto de denominações para o mal, em todas suas gradações. Destas, a mais apreciada era a “principiada num som grave e atingindo a quinta superior”, que designaria a palavra ‘inimigo’.”

(Makunaima e Macunaíma. Entre a natureza e a história’- Daniel Faria/Unicamp)

Mário de Andrade naquele divertido – e sarcástico – diálogo intelectual que gostava de estabelecer entre arte e cultura, inventou certa vez este falso grupo étnico indígena aí de cima (que teria sido encontrado por ele nas margens de um rio amazônico, durante uma viagem etnológica real) inventando uma série de hábitos e costumes assaz exóticos – como seria de se esperar de um grupo indígena desconhecido – entre os quais uma língua esquisita baseada, exclusivamente em três notas ou frequências musicais. Os arredios figuraças eram os índios ‘Dó-Mi-Sol’.

A história está aí, para quem quiser ler no sensacional livro ‘O Turista Aprendiz‘.

Hilário ainda hoje, não é mesmo? Mas que graça a gente acharia se isto tivesse sido escrito para parecer um fato, ou seja, se o esperto Mário estivesse tentando mesmo, macunaimicamente nos convencer de que aquela tribo era real, verdade verdadeira, sem tirar nem por?

Vocês podem achar uma ‘cascata’ inacreditável (e nem vou recriminá-los por isto), mas juro que vi uma vez na TV (no Discovery Channel, acho, não me lembro quando) uma história bem parecida com esta, só que verídica, descrevendo uma tribo de curiosíssimos hábitos, que havia sido descoberta por um antropólogo gringo, francês salvo engano, na polinésia (ou num outro cantão desses aí, nas imensidões do oceano pacífico).

Publicada nos anais acadêmicos na época e atestada a ‘autenticidade‘ da descoberta, anos depois um repórter ou outro antropólogo (tem sempre um chato de galochas nestas histórias) resolveu verificar as quantas andava o processo evolutivo daquela curiosa tribo. E qual não foi a sua surpresa quando descobriu que a tal tribo… jamais existira.

No duro. Era tudo pura ficção ‘científica’. Os membros da tribo fajuta não passavam de atores nativos, pobres cara de paus aculturados, arregimentados a dedo e treinados pelo antropólogo, que inventou-lhes uma selvageria fashion, criando hábitos ancestrais falsos, um figurino falso, uma cosmogonia falsa, tudo igualzinho ao que o nosso Mário fizera no seu conto inventando os ‘Dó-Mi-Sol’ (que eram, logicamente, puro sarro.)

Pobre Mário! Lido talvez, quem sabe (só que às avessas) pelo gringo ‘um-sete-um’, nem crédito para a sua original criação recebeu. Antropofagy é isto aí, gente boa!

Porque eu conto esta história? É fácil: É que esta moda… resignificativa e pós moderna a mais não poder, ao que parece, está pegando no Brasil.

Falando sério: Comenta-se a boca pequena (eu mesmo, a boca grande, vivo cantando esta pedra por aqui) que um insidioso fenômeno cultural já devia estar chamando a atenção de especialistas, antropólogos pelo Brasil a fora.

Trata-se do controvertido e agudo processo que pode, grosso modo, ser conhecido como resignificação de conteúdos – e da forma, da estética enfim – de manifestações culturais tradicionais brasileiras, infelizmente com fins nem sempre confessáveis.

Você já se ligou nisto? Não sabe bem o que significa? Resignifique-se então

É mais ou menos assim: As coisas são o que são, mas podem, dependendo do ponto de vista, significar outra coisa, ter outro sentido com o tempo. De novas e alentadas conclusões que sugerem novos olhares, emergem formas modernas de se abordar uma mesma coisa. Novos tempos, novas modas, novos significados enfim. Tudo muito bonito, mas dando aquela pinta mucho loca de ‘caô caô’.

(Não sabe ainda o que é um ‘caô’? Depois explico)

O perigo, contudo pode morar na seguinte constatação: Tudo é sempre muito relativo (se o papo for Cultura então nem se fala). É preciso que existam regras morais, parâmetros éticos bem definidos, ordem para que não vire tudo, em suma, uma casa-da- mãe-joana.

Sabem como é: No Brasil o inimigo sempre mora ao lado.

Vandalismo politicamente correto pode?

Patrimônio cultural deliberadamente degradado: Um conceito

“… Há uma espécie de sensação fincada da insuficiência, da sarapintação, que me estraga todo o europeu cinzento e bem arranjadinho que ainda tenho dentro de mim. Por enquanto, o que mais me parece é que tanto a natureza como a vida destes lugares foram feitos muito às pressas, com excesso de castro-alves”.

( Mário de Andrade no diário de “O Turista aprendiz”: “18 de maio” )

É cada vez mais perceptível por aqui a promoção de ações e intervenções, pretensamente solidárias junto a comunidades que praticam – ou podem vir a praticar – manifestações ‘folclóricas’ com perfil característico (mesmo falso) que possa ser identificado como ‘manifestação cultural tradicional‘, passível de justificar a formulação de projetos de tombamento, difusão e/ou preservação.

Além destas samaritanas finalidades há também, é claro, aquela que é a mais cínica de todas as justificativas para descolar um patrocínio, um qualquer: A chamada espetacularização da cultura tradicional (ou seja, a praga da carnavalização interesseira)

No dizer escorregadio desta gente espetacularização é a… ‘resignificação‘ de uma manifestação de cultura popular com finalidades artísticas e, supostamente meritórias já que se enquadram como uma luva, no âmbito destes ‘trocentos‘ programas de inclusão social, voltados para os nossos milhares de pobres diabos adolescentes.

“Inclusão social! Capacitação profissional!” _ enchem a boca para dizer.

No português claro, inclusão social ‘para inglês ver’, por intermédio de alguma arte provisória e imediatista qualquer (como batucar samba-funk em latas velhas, por exemplo, função que ao que se sabe, nunca deu camisa e futuro a ninguém).

Este fenômeno – ainda carente de uma melhor definição – tem ocorrido, notadamente no âmbito de manifestações de inspiração africana, supostamente relacionadas ao conceito ainda um tanto mítico das sobrevivências etnológicas, eventualmente portadas por, não menos supostos, ‘quilombos remanescentes’, comunidades com algum resquício de herança cultural ancestral perceptível (curiosamente nunca inserem neste conceito as nossas imensas favelas).

É a partir desta tese da espetacularização benfazeja, portanto que foram formuladas mal embasadas reinterpretações de uma cultura afro-brasileira difusa, rasamente explicitadas em teses de mestrado, tornando-se uma seara bastante atraente para certa classe de ‘aventureiros‘, muito mais por ser exótica e vulnerável a estas resignificações capciosas do que, propriamente por sua eventual relevância etnológica.

Estes verdadeiros predadores da cultura, motivados que são por uma vasta gama de interesses (a maioria, infelizmente relacionados aos recentes canais de patrocínio institucional abertos, na área da cultura e do turismo histórico-cultural no país) no âmbito das manifestações junto as quais se imiscuem, vão imprimindo – por ignorância sim, porém, muitas vezes de forma deliberada – estéticas e conteúdos descolados das tradições originais, que se diluíram com o tempo ou por conta de diversos vetores (entre o quais racismo e a exclusão social são o mais recorrentes).

O certo é que o impacto das investidas destes ‘aventureiros‘ sobre a cultura tradicional brasileira tem sido formidável.

Numa época em que se fala, insistentemente de tombamento e preservação do patrimônio imaterial, a questão assume proporções de drama cultural nacional eminente, tanto que a gravidade da situação pode sugerir que órgãos como o Iphan (que, ao que parece, não se deu conta ainda do fenômeno) e o MinC tenham que estabelecer, muito em breve, mecanismos de detecção e controle deste fenômeno, inaugurando estratégias que, na falta de nome mais adequado, chamarei aqui de ‘Restauração do patrimônio cultural imaterial deliberadamente degradado’ .

Patrimônio Turístico Cultural

Conceito e preconceito

(Antes que me esqueça: ‘Caô’ é uma evocação ao orixá Xangô do panteão do Candomblé _’Caô’! Caô! Cabecile!’ – Tudo indica que, de tanto ser usada, para as mais banais finalidades, a palavra vulgarizou-se, perdendo, vamos dizer assim, a ‘força’. Sábio como sempre o povo deu a palavra uma…‘resignificação’, passando a usá-la para definir, mentira, conversa fiada, qualquer coisa dita da boca para fora)

——–

Turismo como se sabe é um conceito ligado, obviamente à territorialidade, a um lugar específico para o qual os habitantes acharam por bem passar a atrair visitantes, motivados por alguma razão de natureza às vezes emocional (como amor por sua cidade) ou mesmo pragmática, como por exemplo, gerar recursos para melhorar a vida da coletividade, através da utilização de algo especial que o lugar tem, algo que atraindo interesse dos de fora, dos estrangeiros (que são chamados, vulgarmente, no caso, de ‘turistas‘) possa ser explorado em benefício daquela coletividade.

Esta finalidade de utilidade pública está associada, portanto à existência deste certo ‘algo mais’ que os habitantes presumem possa gerar algum valor intrínseco ao ser visto e usufruído, algum atributo que está relacionado, como vimos – e de forma imperativa inclusive – a uma qualidade especial qualquer que o lugar, a cidade, o país ou o vilarejo tem, pode voltar a ter (ou mesmo nunca ter tido e passar a ter).

Assim, o conceito Turismo prescinde sempre de uma razão, de um adjetivo, algo sugestivo ou atrativo, um chamariz, um elemento motivador, que traga os turistas para a intimidade de uma comunidade e justifique o desejo deles de estarem ali e não em outro lugar qualquer.

As possibilidades são inúmeras desde as inconvenientes como o chamado Turismo Sexual, por exemplo (armadilha na qual algumas cidades do Brasil como o Rio de Janeiro e Recife, por exemplo, já estiveram, infelizmente, associadas), até as mais simpáticas como Agro Turismo (o lugar tem uma pecuária de alto nível e promove rodeios e feiras), o Eco Turismo (o lugar tem uma flora exuberante e recursos naturais belíssimos) e muitas outras motivações…turísticas, como se pode deduzir.

(Neste particular chamamos, fortemente a atenção para o fato de que a expressão ‘prostituição‘, pode ser atribuída também, de forma genérica é claro, a qualquer aviltamento ou banalização desta motivação turística original, seja ela qual for.)

É fundamental, portanto que, ao propor que um lugar se abra ao Turismo, à visitação de estranhos, os habitantes tenham muita clareza daquilo que querem mostrar, expor à visitação não só do aspecto do impacto que esta exposição trará para a sua vida cotidiana, como também de que modo este ‘chamariz’ ou fato turístico, poderá ser mantido íntegro, patrimônio social que, efetivamente passou a ser (bem comum a ser preservado).

O grau de apreço com que uma comunidade trata a integridade deste ‘algo mais’ que a localidade tem – e que ela elegeu como sendo um fator turístico em si – é, pois, proporcional ao nível de degradação que este fator turístico sofrerá quando desprezado ou exposto ao desleixo e ao descaso.

Um exemplo claro disto (embora nem sempre óbvio) é a necessidade de se manter limpo um rio que deságua numa cachoeira exuberante. Se houver qualquer descuido da comunidade (usando um exemplo bem corriqueiro) diante de uma ameaça de poluição deste rio mais cedo ou mais tarde os turistas abandonarão o balneário e o valor do que era um patrimônio eco-turístico inestimável, se esvairá.

Preservar, conservar e manter o patrimônio de uma coletividade íntegro e perene, mobilizar a consciência turística de uma coletividade é, pois, sinal de inteligência comunitária, condição essencial para merecermos o nome de indivíduos civilizados.

Tocar neste assunto quando o bem a ser preservado é de natureza imaterial como manifestações culturais tradicionais (algo intangível), por exemplo, é um assunto complexo, mas, considerando-se que, por sua vez, a julgar pelos exemplos acima citados, o conceito preservação não é tão complicado assim, podemos continuar a exemplificar sem dificuldade usando simples analogias.

Neste sentido, outro exemplo prático para se entender melhor a questão é quando este bem cultural, passível de ser utilizado com finalidade turística, é o patrimônio arquitetônico do lugar (algo tangível, portanto).

Prédios e edificações antigas, construídas em estilos que representam tendências de uma época, de um estágio tecnológico, de um modo de vida: edificações que, afora o seu significado estético, formal, representam também um espaço memorável, onde ocorreram fatos e incidentes emblemáticos, relacionados à história do local, ou onde certos aspectos da cultura da região ou do país, do mesmo modo ocorreram são, pois, bens culturais por excelência.

Conscientes destas particularidades como lidar então com este patrimônio histórico arquitetônico?

Em primeiro lugar é preciso identificá-lo, atestar a legitimidade de sua condição histórica, mediante uma avaliação técnica criteriosa. É por meio deste reconhecimento, desta comprovação de sua autenticidade atestada por evidências técnicas irrefutáveis, que se poderá ‘tombá-lo’, inventariá-lo ou reconhecê-lo, oficialmente como um bem histórico evidente, patrimônio público por suposto, bem coletivo a ser conservado.

É a partir deste reconhecimento público formal que surge então a obrigatoriedade, também pública, de restaurá-lo quando degradado pelo tempo – ou mesmo pelo vandalismo de alguns- e mantê-lo preservado, íntegro, função geralmente assumida, como precípua, por alguma instituição pública, vocacionada para tal (como é o caso do Iphan, pelo menos neste aspecto).

Radiografando o patrimônio imaterial

(O intangível não é invisível)

“… E esta pré-noção invencível, mas invencível, de que o Brasil, em vez de se utilizar da África e da Índia que teve em si, desperdiçou-as, enfeitando com elas apenas a sua fisionomia, suas epidermes, sambas, maracatus, trajes, cores, vocabulários, quitutes… E deixou-se ficar, por dentro, justamente naquilo que, pelo clima, pela raça, alimentação, tudo, não poderá nunca ser, mas macaquear, a Europa.”

( Mário de Andrade no diário de “O Turista aprendiz”: “18 de maio” )

Por este viés de nossa avaliação algumas conclusões preliminares podem ser entabuladas. A primeira delas – a mais evidente e dramática – é que a maioria dos grupos de cultura tradicional do Brasil estão completamente desarticulados entre si e vivem à mercê das investidas de aventureiros de vários tipos, bem ou mal intencionados e, em sua maior parte, totalmente deseducados, aculturados, apartados dos significados e sentidos mais profundos da cultura tradicional de seu próprio país.

As razões desta desarticulação dos grupos de cultura tradicional, da fragilidade de suas relações com a sociedade em geral, estão ligadas, é claro, às históricas e caquéticas idiossincrasias do sistema social excludente do Brasil que alija para a periferia da sociedade tudo que diz respeito ao chamado povo, principalmente as suas oportunidades de acesso à educação.

Como se vê até mesmo a preservação do patrimônio cultural e emocional deste tal de povo é reiteradamente desprezado, subestimado do mesmo modo como são omitidas e desconstruídas, até mesmo as referências de seu passado histórico (bem entendido o passado histórico real do país, enquanto instância, evidentemente associada à nossa cultura, de maneira geral).

Fica do mesmo modo evidente de que há, além da óbvia e recorrente contradição sócio econômica entre pobres e ricos, um imenso fosso ético se alargando no bojo destas relações entre elite e povo (‘agentes externos’ e população local, no caso) já que as mais iníquas investidas rumo à vocação turístico cultural de certas regiões, vista como oportunidade de ganhos financeiros para indivíduos e instituições estranhas às comunidades, segundo a maioria dos relatos disponíveis, costuma ser perpetrada sem nenhuma espécie de pudor etnológico.

Aparentemente intencionada em alijar e excluir e, num segundo momento (por um mero imperativo político estratégico, talvez) usar, instrumentalizar a cultura dos grupos de cultura tradicional local, estas ações quase sempre são realizadas, portanto sem nenhum cuidado com os riscos que esta utilização irresponsável traria para a sobrevivência das manifestações aviltadas, após uma longa exposição a esta desmedida corrupção de seus valores gerais mais essenciais, sua tradicionalidade enfim.

Fica ainda no mesmo sentido atestado que há problemas terríveis também no que diz respeito à formação educacional de nossa juventude ‘incluída’ quando se percebe que na vanguarda desta elite predatória (turistas ‘ao contrário’, por se assim dizer), intermediando a ação dos ‘organizadores’ responsáveis por estas ações, estão jovens formados em universidades, muitas vezes em ciências sociais, antropologia, etc. matérias fundamentais nesta questão (inclusive em seu estrito sentido ético) jovens ‘bem’ formados estes que usam os supostos conhecimentos auferidos em sua formação para perpetrar este tipo de ação anti-cultural esperta, oportunista, fazendo-nos refletir, desolados que diabos estamos fazendo com a nossa sociedade ‘letrada’.

É bastante difícil avaliar por isto mesmo, o grau de degeneração provocado por iniciativas culturais, pretensamente positivas. O cerne da questão é que o impacto de ações como esta costuma ser muito mais nocivo no campo da ética, porque acaba corrompendo as comunidades no âmago de seus valores morais mais caros.

Degeneração pura e simples, no sentido da banalização de um atributo emocional intrínseco a cultura das pessoas; deturpação da representação simbólica de toda uma maneira de ver e viver a vida que, pode ruir – e efetivamente rui – totalmente quando se depara com a constatação de que se pode trocar por alguns trocados a exibição de uns poucos dotes artísticos ancestrais (da mesma forma que se pode trocar um benefício mensal de um programa de ‘renda mínima’ por um voto).

Degeneração ética como morte da tradição, como extinção do patrimônio cultural imaterial que se esgarça e se vulgariza.

(Tradição e ética não enche barriga, diz-se hoje por aí).

Assim, com a insistência do aliciamento dos ‘aventureiros‘, como a esmola viciando o cidadão, a exibição dos dotes ‘exóticos‘ passa a se dar mesmo quando alguém, considerando os dotes originais ou tradicionais feios e desinteressantes (segundo as ocultas intenções de espetacularização do evento), alicia para alterar, para subverter, para fingir uma falsa tradicionalidade, que melhor apeteça ao turista-freguês (também de algum modo lesado porque é levado a considerar cultura tradicional o que foi descaradamente maquiado, forjado).

Em meio a este descompasso moral, que mal haveria em mudar um passinho aqui, uma saia acolá, cantar uma canção pretensamente folclórica, composta por sabe-se lá quem, corrompendo-se, prostituindo-se? Algum incômodo, alguma sensação vaga de ridículo haveria, algum mal estar sim, mas, e daí se isto tudo é… coisa que dá e passa?

Quem há de saber o rumo que estas coisas poderão tomar ou no que elas podem resultar no futuro? Pois não é assim mesmo, aviltando-se e corrompendo-se por força de um meio hostil que as coisas todas do mundo se extinguem?

A questão nuclear de tudo isto é que, se o conceito Turismo Cultural encerra a exibição (seja lá com que finalidade for) de certos atributos do patrimônio imaterial real de uma comunidade, o que ocorre, em certo prazo se estes valores forem corrompidos, aviltados acima do suportável?

Mesmo que, materialmente ainda lhes restem traços, vestígios de sua forma original, simbolicamente nada mais restará de memorável, digno de ser exibido. Tarde demais quando o que vendemos foi a nossa própria alma, pode ser a lição. Ou mesmo, lembrando o ditado mais comum de todas as guerras: Não queime as suas pontes (os vínculos emocionais com o seu passado) senão você não terá como recuar quando isto for a única sorte possível, questão de vida ou de morte.

“… Nos orgulhamos de ser o único grande (grande?) país tropical…. Isso é o nosso defeito, a nossa impotência. Devíamos pensar, sentir como indianos, chins, gente de Benin, de Java… Talvez então pudéssemos criar cultura e civilização próprias. Pelo menos seríamos mais nós, tenho certeza. “

( Mário de Andrade no diário de “O Turista aprendiz”: “18 de maio” )

———–

(Ah…Já ia me esquecendo: Vocês sabiam que a palavra ‘Tombar’ vem de ‘registrar nos livros da Torre do Tombo’, antiga sede do arquivo Nacional português em Lisboa? Pois é. Aculturados somos ou nos… resignificamos?)

Spírito Santo

Março 2009

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~ por Spirito Santo em 17/06/2010.

2 Respostas to “O Turista na Armadilha”

  1. Pois é Marcus,

    Mário é ‘o cara’ nestas horas. Ninguém, até agora, soube colocar pingos nos ís de nossa cultura tão vadia, tão agudamente demarcando uma ética (que parece arcaica e conservadora, mas não é) sem perder o mote da ambiguidade que nos carateriza (que tem tudo de moderno, com toda certeza)

    Abs

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  2. êta Spírito, vósmicê e os infindáveis tentáculos… o diálogo com Mário de Andrade é formidável… e o mais interessante da obra Andradiana — cujo texto 18 de maio eu não conhecia e achei muito legais oe excertos — é que ela é veneno e remédio, dependendo-se do ponto de vista e inspirãção ético-moral do leitor ou usuário. Interessante, não? Abração.

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