TÁ NA REDE ou TÁ FRITO?


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Foto de Ponto e Vírgula/Flickr
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Mídias versus Conteúdos: Existirão direitos de autor na Internet?

Relaxe. Não se desespere. O futuro chegou difuso, mas não é nenhuma sangria desatada. Além do mais, sabe como é… futuro é algo muito improvável e relativo, mera suposição de iluminados (ou alucinados), virtual que só vendo, tanto que só mesmo quem viver o verá.

O papo é sobre Internet e Comunicação nos tempos modernos. No contexto, a reflexão, ultimamente muito em voga, sobre a suposta legitimação da pirataria que grassa a rede, esta invisível esfinge devoradora de todos os conceitos de comunicação disponíveis, desde conteúdos, privacidades, éticas, direitos autorais, tudo a ser, aparentemente revisto, rediscutido, reavaliado, subvertido, revolucionado enfim.

Sei lá. É confuso de entender, mas, pode também não ser isto tudo aí de complexidade. Pode ser até mais fácil debulhar este milho – prestes a virar fubá – do que colocar um ovo em pé.

Pra começo de papo, todo mundo sabe que a Comunicação humana é uma contingência irrefreável. Não há como escapar dela porque a bruta nos é inerente, está grudada em nós (de certo modo, parece até que ela é o único sentido de nossa própria vida.)

Se formos reparar bem somos mesmo hedonistas por natureza. Fazer o que? Tanto é que, desmedidamente viciados em prazer, estamos derretendo o planeta de tanto sugá-lo, chupá-lo, fazendo dele o nosso pirulito de hortelã.

Acho que é por esta ânsia de prazer que, ao nos comunicarmos, em vez de irmos logo aos conformes, na base do pão-pão queijo-queijo, fazemos isto por meio de complexos procedimentos interativos, todos caracterizados pela desesperada busca de emoções e realizações pessoais, uns extraindo por baixo das ritualizadas filigranas do ‘bom tom’, tudo que se puder extrair, de tudo e de todos, sem exceção. Pura antropofagia, já disseram alguns.

É ou não é verdade que a gente só consegue aprender as coisas, entender o mundo que nos cerca, gravar memórias que nos serão úteis à nossa sobrevivência enfim, apenas vendo, ouvindo e sentindo as coisas tocarem em nós?

Se for mesmo isto – e se alguém puder me desmentir que me desminta agora – restritos, praticamente ao uso de três sentidos muito elementares, somos capazes de fazer apenas uma leitura limitada do mundo. Quase debilóides, é o que somos.

Se a comunicação humana não fosse todo este grande ‘barato’ que é, muitos de nós iriam mesmo preferir ficar ignorantes de tudo, apáticos, catatônicos. Afinal, se tudo é enfadonho.. “quem lê tanta notícia?”

Esfomeados por informação como somos, não é, portanto surpresa nenhuma que tudo o que exprimimos, uns para os outros, acabe virando mesmo este conjunto de signos decorativos, estéticos, assumindo aspectos do que chamamos, meio vagamente talvez, de Arte, Ciência ou Cultura, lugares-comuns, meras simbologias, às vezes mui loucas, impregnadas de beleza – ou feiúra – que nos embriagando das tais endorfinas, serotoninas (drogas benignas fornecidas de graça pelo nosso traficante mais íntimo) nos emocionam.

(Preste muita atenção, contudo porque, pode ser que tenha sido desta nossa imperativa fissura por prazer comunicativo que os aventureiros tiraram a idéia de que este nosso vício intercomunicativo podia ser vendido e até render um dinheirinho)

Deu no que deu.

Os Mídia-Griots e os Mídia-Troubadours

Músicos e Contadores de histórias

E chegamos então assim ao que é o núcleo duro do nosso papo: O tal do I.Commerce, a Internet mercantilizada e suas mazelas benfazejas (o tal vício reconfigurado) e tudo aquilo que ela, agora mesmo, está parecendo que vai tumultuar e subverter.

(Vamos então ao que eu mesmo, palpiteiro como que, assumindo a identidade de futurólogo de botequim, comentei dia destes) :

“… Não existe outra alternativa para a difusão de conteúdos (obras) que não seja a Internet… O que se comercializa (o objeto do direito do autor) é o ‘suporte físico’…”

Traduzindo então para leigos de pedra:

‘Suporte físico’ é o objeto, a Mídia (a fita, o disco, o CD, etc.) legível por algum tipo de dispositivo decodificador (os chamados ‘tocadores’ ou ‘players’) que contêm uma cópia do produto (do ‘conteúdo’) artístico, cultural ou científico. Em suma: Aquela coisa que a gente comprava na loja, e levava pra casa, às vezes embrulhadinho para presente, lembra?)

Você conhece aqueles sujeitos que andam pelas aldeias contando – e cantando – as novidades ou ensinando a história dos antepassados, ‘homens-biblioteca’ como se diz, mais precisamente?

Na África eles se chamam ‘Griots’ (na Europa Troubadours, saltimbancos estas coisas). No popular, eles são aqueles indivíduos que retêm na memória algum tipo de… ‘conteúdo’ e saem por aí o disseminando. Suportes físicos, portanto e, mais do que isto, suportes móveis, ambulantes.

Está bem, concordo que como ‘suporte físico’ estes caras têm lá suas limitações. Não podem ser, por exemplo, replicados em clones, reproduzidos em várias cópias de modo a serem distribuídos, vendidos por aí, a rodo. Sem contar que custa caro torná-los famosos, a ponto de um número razoável de pessoas se interessar em pagar para assisti-los.

(Se bem que o Griots e os Troubadours antigos não tinham este problema: Suas performances eram gratuitas. Bastava hospedá-los e dar-lhes algo para comer.)

Players humanos, ‘Tocadores’ biônicos

Homo mecanicus et cum spiritu tuo

Depois destes ‘tocadores humanos’, vêm os ‘tocadores mecânicos’ (ou seriam biônicos?), players, propriamente ditos, como o piano e o violão, por exemplo. Sacaram a relação?

Eles são também espécies de ‘suportes de mídia’ primitivos ainda, mas ‘suportes’ sim, na acepção do termo, certo? Um pouquinho mais modernos que os Griots, na verdade.

Mais precisamente, são dispositivos de reprodução mecânica (decodificadores, melhor dizendo), só que ainda não automáticos como os de hoje em dia, já que não dispõem de capacidade de armazenagem e registro, não são acumuladores do que chamamos de ‘memória virtual’, dependendo ainda da memória de um ser humano qualquer para funcionar.

Vamos chamá-los aqui então (tantos os players humanos quanto os players biônicos) de ‘players primitivos’, está combinado assim?

Este conjunto de ‘players primitivos’, como se viu, foi baseado na criação de códigos visuais ou gráficos (como a escrita musical, por exemplo), que passaram a ser impressos em algum tipo de superfície (a partitura no papel), a partir da qual, por meio da leitura, se transformava, por exemplo, linguagem acústica em visual e vice versa.

Esta superfície podia, portanto ser traduzida (decodificada por assim dizer) por intermédio de um leitor (que neste primeiro momento, é ainda um ser humano normal) auxiliado ou não de um instrumento mecânico (biônico) qualquer, que servia de acessório para a decodificação (exemplo: a tal partitura decodificada por um músico tocando o que lê ao piano ou mesmo um filme exibido por um projecionista numa tela iluminada por um projetor)

Em miúdos:

Do mesmo modo que ocorreu com os outros suportes de conteúdos primitivos, como a placa de pedra da escrita cuneiforme dos fenícios e o papiro de junco dos egípcios e depois (de forma sensacional) com a invenção de carimbos para gravação em série da escrita no papel (o livro do Gutenberg), os dispositivos de mídia desembestaram a tornar cada vez mais eficiente, sofisticada e rápida a comunicação humana.

Avançando neste conceito (players) podemos evidentemente inserir na conversa todos os dispositivos conhecidos, num processo que vai desde a criação do giz do homem das cavernas (a caverna é o suporte), passando pelo primeiro dos tambores, até os instrumentos mecânicos que, já no século 19, redundaram nos fonógrafos, que passaram por sua vez, a possuir também a capacidade de decodificar informações contidas num objeto-suporte qualquer (uma bobina de metal, um cilindro dentado enfim), um ‘dispositivo de mídia’, como se diz.

Ou seja, players que chamaremos aqui de ‘modernos’, por conta de já serem capazes de acessar memórias virtuais impressas em algo (olha o Bit aí, gente!).

É, pois na invenção dos players, ou seja, dessas muitas maneiras de se transferir conteúdos contidos na memória de um indivíduo para uma série de cópias-objeto, clones impressos num código gráfico qualquer, legível por qualquer outra pessoa, além autor, que começa toda esta problemática, pretensamente confusa, que o leigo confesso aqui está tentando explicar.

Tá ligado?

É que foi delas, das cópias-objetos da sua obra ou criação (e não a idéia em si, contida na sua cabeça) engravidadas de ‘conteúdos’, que os espertinhos da vez tiveram o insight de distribuir e – quem sabe – comercializar idéias por aí.

Se não existe almoço grátis, quem paga a conta?

O prato-feito self-service dos ‘acumuladores de conteúdos’

Os ‘suportes físicos’ são, portanto a mercadoria sobre a qual você, o cara genial que teve a idéia, tem algum direito a reclamar, se assim o quiser.

“… Samba é como passarinho-“ Dizia Donga, suposto autor do primeiro suposto Samba _ ” É de quem pegar primeiro!”

Pois não é que no caso da Internet, é quase tudo igualzinho?

Uma diferença a ser considerada é que, como o volume de informações aumentou de forma explosiva, um novo elemento teve que surgir na equação: Os ‘acumuladores de conteúdos’.

Eles são sites e blogs, intermediários entre você e os ‘consumidores. Eles fazem o registro competente de sua obra, afim de garantir a você a autoria da mesma e editam o seu material de forma profissional. Em troca exigem o direito de ‘disponibilizar‘ (distribuir) na rede a sua obra, gratuitamente.

E reconheça: Eles podem – e devem – fazer isto. Este é o lado mais bacana da Internet, até segunda ordem. Todo mundo que guardava criações na gaveta, agora tem o mundo inteiro para divulgar a sua obra. Não é legal demais isto?

Contudo – o que é muito importante, como você verá mais adiante – Os ‘acumuladores de conteúdos’ não têm a função de impedir que outros façam cópias de sua obra. Como estes ‘outros’ são muito mais que a torcida do Flamengo (na verdade eles são o conjunto de habitantes de todo o planeta!), você não tem a menor condição de saber de quem cobrar eventuais direitos, caso desconfie que alguém desta cadeia está obtendo lucro evidente sobre a divulgação de sua obra.

Seria o fim do direito autoral, tal como o conhecemos? Será que, conforme aconteceu até meados do século 19, toda obra de arte agora voltaria a ser de domínio público. Do que viveriam os artistas profissionais, músicos, fotógrafos, escritores?

As instituições ‘intermediário’, ‘agente’, ‘empresário’, aquelas figuras que ficavam entre você e o consumidor (e as quais você odiava de paixão), desapareceram do pedaço, não existem mais, não é mesmo? …Pior sem elas, deve estar pensando você agora.

Será?

Sei não. Afinal os dispositivos de mídia – tanto os primitivos quanto os modernos – têm que estar materializados em algum lugar e, mesmo que estejam agora meio ocultos, estão sendo controlados (distribuídos) por alguém.

A rede é basicamente, um sistema de distribuição de conteúdos, não é não? Você está confuso porque não sabe a forma que as suas obras assumiram? Se não são mais livros, não são fitas nem discos de vinil, não são mais CDs, elas são o que agora? Pois então pense que forma é esta que logo você descobrirá, exatamente, quem está distribuindo conteúdos e, quiçá, os vendendo por aí.

O Griot, o criador de conteúdos enfim, continua bem vivo e é dono de suas criações (sua obra gravada na sua memória ou guardada na sua gaveta), mas, depende hoje, visceralmente, de um dispositivo codificador qualquer (um estúdio, uma gráfica, um site acumulador de conteúdos) que possibilitará a feitura de cópias de sua obra, cópias estas que serão distribuídas, comercialmente ou não.

Dependerá também que os seus consumidores, possuam um dispositivo decodificador, um ‘player’, melhor dizendo (um PC, um I.Phone, um I.Pod, I.Pads, etc.), para poderem ter acesso às suas obras que estão contidas (a não ser que você ou alguém as apague) num dispositivo decodificador destes, pois são os players que ‘carregam’ a sua obra por aí e eles, todos nós sabemos muito bem, não são distribuídos de graça. Logo a questão crucial é:

Quem comercializa estes dispositivos codificadores e decodificadores?

Fica evidente assim que, nesta rede, nesta cadeia de produção na qual estamos incluindo agora o ‘criador de conteúdos’, ele (você no caso) é o único elemento que não está sendo – do ponto de vista do lucro eventual gerado pelo sistema – remunerado.

Isto é líquido e certo, não é não?

Viram como sempre é só parar para pensar? Se você é criador de qualquer obra que julga transcendental para a raça humana (além de você e seus amigos mais chegados, claro) não se esqueça, portanto de que ela terá sempre algum valor comercial (gerando os tais direitos), mas, só depois de ser copiada e replicada num destes formatos de dispositivos de mídia em voga.

Logo, se alguém (além de você mesmo) está interessado em disponibilizar o acesso às cópias desta sua criação por aí, registre a sua autoria (biblioteca Nacional ou sistema Criative Commons) para que se saiba que ela é realmente sua e relaxe. Se houver qualquer tipo de exploração comercial, direta ou indireta envolvendo a sua obra, seus direitos estarão plenamente assegurados.

Se, por outro lado, você não quer disponibilizar sua criação de graça, ou depois de fazê-lo descobriu que o distribuidor de conteúdos ‘gratuitos’ está tendo algum lucro fortuito com a distribuição desta sua criação (sem que esta possibilidade tenha sido comunicada e aceita por você), procure um meio de cobrar a sua parte.

O que? Ah, sei. Você continua a não saber a quem você vai se dirigir para reivindicar supostos direitos porque, simplesmente não consegue entender onde é que suas obras estão fixadas. Nem eu. Só estou, usando o meu direito civil de especular.

Não esquente. É difícil mesmo entender esta história. Eu mesmo estou aqui fazendo força. Mas eu acho que já sugeri a resposta: Suas obras devem estar nos computadores de algum provedor, seguramente, gravadas neles em bits.

Saudades da minha vitrola ‘Grundig’

O formidável mundo novo da comunicação ‘Tudo-Em-Um’

Os românticos mais empedernidos dirão: Mas que nada! A história da comunicação humana está cheia de exemplos de grandes inovações que micaram. E mais ainda: Prognósticos anunciando a morte por anacronismo de mídias ‘velhas’ vivem não se confirmando por ai. A TV acabou com o cinema? A fotografia acabou com pintura? Nem mesmo o dourado e charmosinho CD conseguiu acabar com velho e preto vinil!

Certo, está certo, mas, atente para o detalhe de que, no caso presente, a questão é bem mais complicada.

Trata-se de uma unificação dos suportes. Cada vez vale menos à pena imprimir imagens e sons em fitas de celulóide ou mesmo disquinhos eletrônicos. Até mesmo a impressão de caracteres gráficos em papel (livros, jornais e revistas) está começando a virar uma técnica caduca. Estamos no limiar da novidade das novidades e ela pode ser a gota d’água.

Andam dizendo por aí que a internet ‘volatizou’ os dispositivos de mídia e que, por isto, não se tem como saber de quem você vai cobrar os eventuais direitos sobre suas criações, não é mesmo? Mas, raciocine usando este conceito dos velhos ‘dispositivos de mídia’:

Um computador, por exemplo, é ou não é, simplesmente, um destes ‘tocadores de conteúdos’, um ‘player’ como qualquer outro, por se assim dizer? (como um piano que tocasse sozinho, por exemplo) Aliás, pensando bem, o PC não é só um como vários players, diria eu. Elementar!

Um computador é um console de suportes de mídia, não muito diferente daqueles aparelhos ‘três-em-um’ de quando eu era um jovem garotão: Vitrola-Rádio-gravador, para ser exato (e vejam só a confusão do futuro já se anunciando ali naquele meu elegante – e já semi-portátil- aparelho Grundig).

Grosso modo, o que é um PC? Acho que parece, sem tirar nem por, com uma máquina tudo em um, que ‘faz de um, tudo’.

Tudo em Um: Grande sacada dos inventores da civilização digital (pois foi aí que porca torceu o rabo).

Ou seja, você tanto recebe conteúdos e informações como pode gravá-las ou repassá-las para quem você bem entender (repare, pois que é aí, nesta distraída malandragem de permitir que qualquer um repasse conteúdos de autoria de quem quer que seja para quem bem entender que os espertinhos da vez estão lucrando.)

Onde eu quero chegar com isto? É simples: As empresas que vendem os tais ‘dispositivos de mídia’, desde os PCs-consoles até os Palms e ‘mini players’ como os I.pods e I.phones, não importa o que, são parte importante da cadeia de distribuição de conteúdos e, como vimos, ganham dinheiro com isto tendo sim, efetivamente lucro com o negócio.

Afinal, o código que ‘lê’ os bits em que os conteúdos estão convertidos, são parte inseparável dos players que eles vendem que, por este simples raciocínio, são objetos-cópias dos conteúdos que distribuem, tanto quanto qualquer disco de vinil ou Cd (na verdade são mídia /suportes e player/ drivers ao mesmo tempo).

Caracterizado este fator e existindo (como existe) uma jurisprudência a respeito, a princípio, parte dos direitos autorais – e aí está o grande nó da questão – de TODOS os autores de conteúdos, poderiam eventualmente, ser cobrados mais dia menos dia, sobre o lucro destas empresas que – como pode ser atestado – vendem suportes de mídia com conteúdos de terceiros (exatamente como faz o pirata de Cds da esquina) sem pagar eventuais direitos autorais destes terceiros.

Este é o lado democrático da Internet, mas é também a essência da malandragem da indústria que alimenta o setor com os essenciais dispositivos de gravação e distribuição de conteúdos.

Deus e Diabo, mãe e madrasta, Dr. Jekyll e Mr. Hyde, um conflito de caráter ainda difuso que habita o âmago da Internet que, mais cedo ou mais tarde terá que ser resolvido.

O que eu quero dizer é que, em tese, à luz das leis de direito autoral em vigor (notadamente as brasileiras), do mesmo modo em que não há como discernir, exatamente, quem é o responsável pela distribuição dos conteúdos e quem lucra com isto nesta matrix gigantesca, lucro, efetivamente, há.

É claro que ninguém vai querer pagar pelo que está disponível de graça, como ocorre atualmente, mas, considere o seguinte: do volume espetacular de conteúdos disponíveis na Internet, do ponto de vista da qualidade e da pertinência sócio cultural, cerca de 90% é puro lixo. Não acha não?

É mais ou menos evidente que, mais cedo ou mais tarde, a obra artística ou científica autêntica, o produto cultural de excelência, publicado e distribuído na rede, vai recuperar o seu valor original, inclusive financeiro, como bem de consumo, mercadoria mesmo.

Neste caso então, convenhamos: Se os suportes de mídia convencionais (aqueles que você podia comprar na loja como livros, CDs, etc.) estão desaparecendo onde será que os seus conteúdos foram parar? No ar? Na rede da blogsfera? Que nada. Pense: ‘Tudo que é humano não nos é estranho’.

Por esta simples razão também – a possibilidade de haver lucro incidindo sobre os conteúdos- as licenças do tipo Criative Commons podem não garantir, totalmente a isenção do pagamento de direitos pela distribuição destes conteúdos, caso fique caracterizado que alguém no sistema (que funciona em rede) está auferindo lucros relacionados, mesmo que indiretamente, com esta disponibilização desregrada.

É mais provável, por esta hipótese, que a batata quente poderá cair nas mãos dos sites que eu chamei acima de ‘acumuladores de conteúdos’. Ou não.

Diretamente ligados aos autores (com os quais as licenças CC são firmadas), estes ‘acumuladores de conteúdos’ seriam a instancia que, no caso de uma onda de ações por direitos autorais inundar a rede, teriam que negociar com os fabricantes de Pcs e players o pagamento de parte destes direitos.

Por outro lado, teriam que reduzir o seu cadastro de colaboradores, passando a filtrar e selecionar autores pela qualidade ou potencial comercial de seus posts, assumindo o papel algo parecido, com o das antigas editoras de conteúdos (editoras de livros, gravadoras) da era pré internet. Será?

Estes ‘acumuladores de conteúdos’ poderiam também optar pela criação de um programa com filtros que inviabilizassem a obtenção de downloads dos conteúdos, porventura autorizados sem cobrança de direitos (hipótese mais remota ainda, dada a complexidade e o custo destes filtros, totalmente em desacordo com filosofia de liberdade de acesso dominante na rede).

Seja lá qual for, a solução deste maravilhoso embróglio em que a questão da produção de conhecimento e o futuro do direito autoral no mundo se transformou, com o advento da Internet, a solução disto tudo talvez venha como uma formidável ‘bola de neve’, um grande ‘jogo de empurra’ universal que, doa a quem doer, tal e qual um ‘freio de arrumação’, poderia criar as bases das relações gerais – principalmente comerciais – da Blogsfera do futuro.

Acredita nisto tudo que especulei ou acha que eu de leigo assumido, virei, de vez, um pirado daqueles mais doidões?

Não ria do leigo. Pense um pouco mais e diga alguma coisa nova sobre isto.

Caia na rede e seja peixe dentro d’água. Os de fora, com certeza, morrerão afogados e serão fritos.

(Ou não. Como saber?)

Spírito Santo
Junho 2009

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~ por Spirito Santo em 23/06/2010.

5 Respostas to “TÁ NA REDE ou TÁ FRITO?”

  1. …E por uma destas coincidencias quase previsíveis, eu autor daquele livro encantado, travado, acabo de receber um proposta para publicar o alfarrábio pelo sistema Kindle. Você sabe o é Kindle? Direitinho?Pois então explica aqui para o leigo, tá?

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  2. Pois é. Também estou com o Jacques Attali porque presumo que se não resolverem esta questão da remuneração de quem produz conteúdo, haverá uma certa retração na produção (ou da pertinencia deste tipo de mídia como suporte de tudo) e a qualidade cairá a patamares muito inferiores, de lixo mesmo.

    Como acho que não há volta para esta evolução…

    Isto me lembra uma aspecto interessante da questão que nem em lembro se abordei nesta matéria (mas está de leve naquele meu livro encantadao): Na virada dos anos 20 ocorreu fenômeno bem semelhante, no âmbito da música, com o advento das mídias físicas mais mderninhas, tipo o disco (só rolava e se vendiam partituras e livros, revistas, etc)

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  3. Pô Spirito, já atualizou colocando o link pro site da serrote né? Massa. Bem, a única coisa a qual fico me perguntando é se essa moda da cobrança de direitos devidos aos criadores pega no ambito do mundo virtual vamos ver chover ações no retrógrado e gutemberniano mundo judiciário que não foi feito para ser ágil como é a rede. Como estamos condicionados ao dinamismo, não haverá motivação em mover ações para causas digamos de volume relativamente irrisório. Sem falar que os “acumuladores de conteúdos” são os poderosos de sempre (Microsoft, google, etc etc e tal). Na minha opinião, a tendência é virar um potlacht virtual mesmo como colocou o Jacques Attali, onde as pessoas disponibilizarão os contéudos a custos mínimos de produção, cuja lucratividade virá por outro caminhos, como através de relações de prestígio, visibilidade, status e mesmo a satisafação interna de postar, criar, disponibilizar, interagir, nem que seja só pra si mesmo ou para a uma pequena comunidade de interlocutores e admiradores. Está lançada a senha, resta fazer girar a roleta desse cofre. Abração

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  4. Você não pode deixar de ler isto: http://www.revistaserrote.com.br/ogoogle.html

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  5. Galera,

    O papo está quente pra valer: Agora mesmo, na Folha de São Paulo de hoje (9 de fevereiro, suplemento especial do New York Times) Eric Pfanner, de Paris, nos fala de uma novidade a este respeito surgida na ilha de Man, na costa da Irlanda (terra dos Bee Gees).

    Diz ele que o governo de lá …”em vez de combater o compartilhamento de arquivos, quer promovê-lo” …Pela proposta os 80 mil habitantes da ilha poderiam baixar quantidades ilimitadas de música…”

    “…Para que isto fosse possível os usuários de banda-larga teriam de pagar uma taxa mensal de cerca de R$3.30 (uma Libra esterlina)aos seus provedores de Internet…O dinheiro recolhido seria destinado a uma agência especializada, que distribuiria os dividendos aos detentores de direitos, inclusive editoras e gravadoras.”

    Sacaram? Encontraram uma solução para o dilema ‘de quem cobrar?’ O precedente-chave de nossa especulação está, portanto confirmado.

    Abs

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