O Acarajé Azul

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Caetano Nabucoso Buarqueando Freire
A velha não-rima do ‘branco’ não ter nada de novo pra dizer.

…”Eu tava com graça…
Tava por acaso ali, não era nada
Bunda de mulata, muque de peão
Tava em Madureira, tava na bahia
No Beaubourg no Bronx, no Brás e eu e eu e eu e eu
A me perguntar: Eu sou neguinha?”

————–

Eu sei. É bater no mesmo samba deixando a melhor nota soar só. Mas é que adoro dizer: ‘Eu não disse? Eu não disse?”

E repito: Tenho dito que há uma corrente de pensamento fluindo por aí na mídia, refletindo um pensamento esquisito, embora as vezes polido e… cordial que, ao final das contas se contrapõe veementemente à superação da exclusão socio-racial entre nós, contra às ações afirmativas, contra às cotas raciais e contra todas as iniciativas que, mal ou bem, à torto e à direito sugerem que é preciso romper a muralha excludente do racismo no Brasil.

Parece um conluio de formadores de opinião, sacaram?  Com todas as letras um movimento igualzinho aquele dos jornais anti-abolicinistas da época anterior à Lei Áurea (hum!.. sentiu só o cheiro de naftalina?)

_”Anti-abolicionistas tardios!”_ Repito na cara deles.

Duvidam? Pois saibam que isto é até bem comum de acontecer na mídia, na imprensa escrita falada e televisada, nos meios de comunicação de qualquer lugar e em qualquer época (e não precisamos nem citar a revista ‘Veja’)

A última vez que bati nesta tecla foi manifestando as minhas suspeitas de que o segundo caderno do jornal O’ Globo (jornal que muitos – inclusive eu –  consideram,  enquanto dirigido por Ali Kamel , um ‘aparelho’ desta ‘corrente pra trás‘), havia sido enfim tomado também por um bem articulado grupo de colunistas ‘especiais’, ao que parece arregimentados à dedo para defender, como adeptos ou simpatizantes,  a ‘causa’ de Kamel & Cia, uma bandeira que eu chamo de ‘neo-racismo’ e que eles chamam ‘anti-racialismo‘.

Podiam ao menos disfarçar.

Referia-me a incrível coesão do discurso desta turma na defesa (extremada no caso de Ali Kamel, Demetrio Magnoli, Rodrigo Constantino, Ivonne Maggie, Peter Fry e até a vetusta família Bolsonaro, formada por parlamentares direitistas, os acólitos principais) de suas posições – ao menor sintoma de adesão pública – contra movimentos de direitos civis que envolvam a superação do racismo.

A sensação de “_Eu não disse?” me veio agora mesmo, lendo em O’ Globo de hoje (no caso 27 de Agosto de 2010) a coluna do elegantíssimo Caetano Veloso, que junto com os não menos elegantes José Miguel Wisnik, Hermano ViannaFelipe Hirsch e outros (leio todos, por dever de ofício),  exatamente como eu bato na minha, batem na mesma tecla-tese deles: O Elogio à Mestiçagem, a Democracia Racial e outras ficções sociológicas, chavões embolorados  numa elegia saudosista (admitida pelo Caetano em seu artigo) do tempo em que os negros – e os ‘mulatos’ –  todos  os ‘não-brancos’ do Brasil sabiam muito bem o seu lugar.

Agora por exemplo: Vivem falando em hibridismo cultural pra lá hibridismo cultural pra cá, querendo sinuosamente dizer que esta conversa de cultura negra não é legítima, que não haveria cultura negra ‘pura‘ no Brasil.

(E quem foi que falou em ‘pureza‘?)

Ora, qualquer garoto mais perspicaz um pouquinho, cavucando no Google vai entender que a palavra híbrido quer dizer ‘tamo junto’ como se diz, ‘um por todos todos por um’ e não, ‘diluído, ‘ misturado’,  ‘liquidificado’, como eles parecem afirmar com este papo de miscigenação (uma palavra aliás literalmente eugenista, quase nazista, de dar arrepio em judeu.)

Já que a natureza não é idiota e não existe ser humano híbrido (o conceito é usado em antropologia de forma figurada) vamos combinar que Híbrido é o ‘Preto’ e o ‘Branco’ lado a lado e não o ‘acinzentado‘.  Logo hibridismo Cultural deve tratar, portanto da diversidade e não da homogeneidade cultural, correto?

Está bem. Convenhamos que ‘racialismo’ é um conceito cabuloso. Sua tese básica – que é estritamente biológica – é a seguinte: existem diferenças raciais entre seres humanos. Correto? Não, claro que não. Somos todos iguais, biologicamente, quase absolutamente iguais.

A questão é que os chamados anti-racialistas distorcem a tese para embasar argumentos, propositalmente simplistas. Pois é. Todos os  racismos, sutis ou grosseiros são assim: vivem da criação de falsas aparencias, toscas ambiguidades. Sofismas.

No fundo parecem dizer – e isto é que é mais constrangedor – exatamente como o chefe Ali diz:

_”Não, não, não somos racistas! Se não existem raças não existe racismo logo, para que criar  mecanismos de inclusão e reparação para negros?”

A realidade, segundo o discurso deles, estaria aí mesmo para provar  o que Caetano diz, citando uma máxima do Oludum (o bloco)  sobre ele mesmo:

“_ O Oludum é a maior Democracia Racial do Mundo”.

Pois sim… (que coisa! Caetano não intuiu nenhuma ironia na frase?)

“_Você já foi à Bahia, nego? Não? Então vá.”!

Claro que o pensamento deste pessoal é muito importante para o debate (e neste particular, ler a bela e convincente prosa de Caetano Veloso é um luxo à mais). Eles são aguerridos, preparados, sedutores,  contudo convenhamos: Este cheiro de bolor que exala destas teses, incomoda pra caramba. Não combina com o perfil de ponta do intelectualismo quase novaiorquino deles.

O fato de todos eles (…quase todos, vá lá) apresentados pomposamente como sendo os ‘novos cronistas’ do jornal,  repetirem o mesmo ramerrão Nabuco-Freire-Buarqueano sem mudar nem as vírgulas, repetindo em coro  este mesmo pensamento torto e arcaico, que renitentemente preconiza que a extratificação social no Brasil deve permanecer ad infinitum como está (mudar, só quando a galinha criar dentes) , incomoda mais que uma manada inteira de elefantes… de qualquer cor.

Afinal eles não são conhecidos como a nata da intelectualidade descolada e moderninha do Brasil? Papo velhusco demais este aí, o deles, contido nestas amarras reacionárias, meio rabo preso (e creiam,  é só por isto que deles desconfio.)

Bem, façam como eu então e leiam lá o arguto Caê em O’ Globo de hoje (27 Junho 2010) que  o texto é até bem bacaninha. O texto do Hermano Vianna no mesmo O’Globo, de sexta feira passada também é bem assentado neste mesmo pensamento, pois nele o overmundista Vianna (comentando o fenômeno japa-pop dos ‘Mangás) cunha um estranhíssimo ‘novo’ conceito: A tal da ‘nipo-mestiçagem’,  conversa da mesma praia Gilbertofreiriana, aquela do já falado amor desmedido a um hibridismo invertido, transverso porque parece sempre envergonhado da nossa imensa África cultural visível de qualquer janela ou banca de jornal.

E cá entre nós: é isto que, no fundo no fundo, ‘entrega‘ que eles à vera à vera mesmo, não curtem  hibridismo algum, já que estão sempre a  querer velar e anular, exatamente esta nossa tão boa e bela ‘pretinhosidade’.

(E afinal, onde andaria este povo híbrido e cordial deles, gente? Onde que a gente não vê?)

Enfim, sutileza ideológica na hora de ler estes caras não faz mal a ninguém.

De quebra pincei um trecho das idéias de Caetano Veloso lá no sempre interessante site dele, onde os fundamentos deste neo-racismo bolorento mal escondido aparece bem demais (como casca de camarão – sem camarão – no acarajé) .

Leia também Olhos azuis vêem a cor do Brasil’ e ‘Liv Sovik é quem diz‘, antes – ou depois- de ler tudo aqui a seguir:

—————-

“Democracia racial rima com homem cordial
Caetano Veloso – Folha de São Paulo
10/06/2006

Li “Raízes do Brasil” e “Casa-Grande & Senzala” há muito tempo. Não li Caio Prado. Sou um lírico. Economia é a ciência de tudo o que não me interessava espontaneamente desde a meninice. Li Paulo Prado e seu belo livro menor sobre as três raças tristes. Quando tomei conhecimento da obra de Joaquim Nabuco, passei a considerar que ele tinha abordado o essencial do que está em Gilberto Freyre. Muito antes, muito melhor, muito mais no ponto. É claro que isso se deveu em parte ao entusiasmo da descoberta. Mas ainda acho que em “O Abolicionismo” e “Minha Formação” há mais decisões intelectuais relevantes sobre a casa grande e a senzala do que nos livros de Freyre. É que Freyre sempre me agradou em cheio.

Nunca achei que ele negligenciasse os aspectos horrendos da nossa formação.
Ele é também um crítico duro. Não é porque facilita as coisas para nós que suas idéias sensualizadas sobre nossa originalidade tropical e lusa -nossa exuberância mestiça- são rejeitadas; é antes por elas trazerem a sugestão de uma grande responsabilidade. Preferimos crer que o que nos distingue é a incapacidade -e julgar tudo por esquemas “universais” como luta de classes, infra-estrutura econômica, injustiça social.

Pessoalmente tendo a gastar mais meu tempo pensando na afirmação de que, dos três povos que nos formaram, o menos lúbrico é o negro. É por ser assim tão a favor de Freyre que pude (ou precisei) achar Nabuco maior…”

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~ por Spirito Santo em 27/06/2010.

4 Respostas to “O Acarajé Azul”

  1. Chegar a conclusão óbvia de que não temos raça e mudarmos as palavras e conceitos eliminam o racismo?

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  2. A sensação que tenho é que essa turma está gastando o que restou de seu latim bárbaro, frente ao avanço, em termos numéricos e qualitativos, de intelectuais Negros/as que em suas teses têm desconstruído (para não dizer destruído) de maneira singular e definitiva, não só os muros da Casa Grande, mas todo o condomínio ideológico dessa elite perversa, e de lambuja ainda detona a senzala. Cuspindo não só no chão, como também na cara desse racismo tropicalista, insistente em seu processo antropofágico de Negros e Negras, a base de bala, fome e raiva.

    Beira o desequilíbrio psíquico o que essa turma de Ali Kamel tem feito. E o objetivo principal parece ser o de não querer enxergar que o ocorrido com Preta Gil e MALsonaro faz parte da realidade, e de maneira inequivocamente letal, da imensa maioria Negra desse País.

    Inventarem novas possibilidades de enxergar o fenômeno das desigualdades sócio-raciais de maneira reversa e tergiversa, frente às várias estatísticas apresentadas por instituições governamentais e não governamentais, é no mínimo cruel, para não dizer sádico.

    Quero acreditar que a Preta Gil, por ser Preta e saber que é Preta, tenha consciência da importância de sua pergunta ao Deputado racista, ou seria melhor caetanamente dizer ‘hibridista’? Como codificar juridicamente o ato do MALsonaro, dado que não temos raça, segundo esses senhores citados pelo Spirito? Seria marcar bobeira demais, entrar nesse jogo do ‘banana de pijamas’ (Palavras da grande Piovani).

    Por fim, acredito que essa turma está carente de ibope (é muito comum tocarem em temas espinhosos, colocando a cara a tapa para chamarem atenção em momento de refluxo- estratégica básica das Guerrilhas de Marketing. Por isso, faz coro a exumação de Gilberto Freire promovida pela USP atual. Nada como um velho Egun racista, para afastar e contaminar o cheiro das novas possibilidades, “emergentes” nesse cenário tupiniquim, onde a Negrada tem reafirmado sua vocação em contradizer os entreguistas Nabucos da vida de Isabé. Provando não só nossa capacidade histórica de resiliência frente as crueldades encontradas na estrada, como o desejo irremediável de não mais se curvar a suas teses mirabolantes.

    A nossa sina é a capacidade de tirar leite de pedra, mesmo com a incapacidade incapacitante dos euro descendentes brasileiros de nos ver e enxergar como seres humanos plenos. Esses textos citados pelo Spirito dos Hermanos e Caetanos da vida só comprovam uma coisa do velho Nabuco: A escravidão permanecerá

    por muito tempo como a característica
    nacional do Brasil BRANCO.

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  3. Caraca!

    Impressionante! E não é que agora é o José Miguel Wisnik que me vem nO’Globo de hoje (02 de Julho de 2010) bater no mesmo ramerrão do Caetano e do Hermano?

    No ensejo Wisnik faz como os seus pares: Distorce os conceitos de alguém (no caso a sposições de Liv Sovik A FAVOR das cotas e críticas ao ‘Elogio à mestiçagem’) para torná-los compatíveis às suas idéias de todo modo já bem tortas.
    ‘Mulatitude’? Que papo é este ‘mano’? O que será que está acontecendo em O’Globo, gente? Será que piraram os caras? Só falam disto agora? Mestiçagem, mulatice…Eu heim! Larga o anjo da guarda dos outros em paz, gente.

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  4. O que dói no osso, moço
    é esse troço, esse caroço
    persistente, latente
    indisfarçável, da gente
    os de baixo, os de cima
    chame luta de classes
    vero entrevero,
    apelido ou qualquer rima
    _________
    Spirito, Caetano é esse poema indefinido… ou não.

    Florestan Fernandes, que não era economista, e podia ter sido lido e apreciado por Cae Caô, nos dizia que a luta anti-racista no Brasil é uma luta de todos. Então, além de confirmar a existência de racismo em nosso país em estudos seus de sociólogo acatado que foi e contemporâneo é ainda, convida ao embate pelo supressão dessa infâmia persistente por aqueles que desejam a liberdade, o respeito às diferenças, so direitos iguais.

    Terno abraço.

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