A musicologia de Schaeffer entre os zulu


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'Selvagens' zulu imitam brancos ao piano - Okinawa Soba on Flickrs

'Selvagens' zulu imitam brancos ao piano - Okinawa Soba on Flickrs

O big bang da pólvora é música segundo Schaffer

Ora ora. A pólvora foi descoberta enfim. Ai, ai! E já falávamos disto há tanto tempo (e nem me lembro bem se já havia lido este iluminado texto do Schaeffer resenhado pelo Carlos Palombini aí embaixo).

Pois não é que em sua própria essência foram, exatamente estas as conclusões a que chegamos no Musikfabrik? Nossa metodologia ficou sendo, literalmente esta, construída que foi assim, enquanto refletíamos  sob a luz norteadora da velha e boa prática – física, manual, braçal, efetiva mesmo –  do ‘artesanato musical’ como a denominamos, confrontada com outros tantos estudos lidos aqui e ali, esparsamente (inclusive de musicólogos como Schaeffer) mas também de outras áreas como a linguistica de Noam Chomsky, por exemplo, tudo junto e misturado como nos ensinaram os avós.

Curioso mesmo é lembrar que quase sempre – na verdade até hoje  –  estas idéias musicais tão simples e corriqueiras (pelo menos para uma pessoa que não seja surda) quando expressas por pobres mortais ‘leigos’ (como os zulu da foto acima), passam a ser consideradas meras – ou mesmo estúpidas – heresias de ‘curioso‘. E a gente fica repetindo, enfadado com os irônicos questionamentos de alunos mais esnobes ou sabichões , do tipo:

_ ‘Oh! Não existe modernidade em música?!? Mas como assim?’

(Claro que eu falava, no aspecto socio-hierárquico do termo – sendo ‘moderno’ igual a ‘superior’ – se bem me entendem). Dava vontade de dizer sem papas:

_”A música é uma linguagem que se processa no tempo e no espaço, Anta! (‘Anta’, claro que eu não dizia. É só força de expressão). Logo, do ponto de vista de nossa própria natureza, é  virtualmente impossível haver uma cultura musical superior à outra.

É física, lei da natureza…Anta! (‘Anta’ – já disse –  eu não repitia de verdade não) Tudo nela, na Música, é relativo. O que parece ‘moderno’, ‘novo’, atual’, ‘contemporâneo’ hoje (ou aqui), pode ser ‘primitivo’, ‘velho’, ‘fora de moda’ amanhã (ou ali). Tudo pode ser extemporâneo e fora de lugar, portanto… E este é o grande barato da linguagem musical”.

E cá entre nós: Chega a ser até meio constrangedor constatar que os conceitos lançados por Schaeffer, que são básicos em qualquer musicologia que se preze (estão em 9 entre dez teses e dissertações da área), sejam ainda tão ‘difíceis’ de serem assimilados e compreendidos, apesar de sua transparente obviedade (que é, ao fim das contas, o que sugere a resenha de Carlos Palombini, divulgada com foros de novidade).

Será que é um problema pedagógico – ou ideológico- de nossas escolas  e conservatórios? Gente de Deus! Os textos do Schaeffer citados aqui abaixo são de quase… 50 anos atrás!

Desculpe-me os maus bofes, mas a rigidez eurocentrica, elitista, conservadora – e ignorante – de certa musicologia academica (pelo menos no Brasil) cansa, não é não?

Spírito Santo

julho 2010

(…Ué? Não viu não? Volta! Volta! Em cada nome do Schaeffer linkado acima (e até neste aí que passou) coloquei uma maluquice sonora dele pra você ouvir. Volta lá)

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Música é linguagem múltipla, repito
(Com Schaeffer como guru)

Carlos Palombini, divulgando a tradução de “Os três becos sem saída da musicologia”, da introdução, “Situação histórica da música”, do ‘Tratado dos objetos musicais, de Pierre Schaeffer, publicado em 1966:

“Um desses becos sem saída é o das noções musicais. Já não são apenas a escala e a tonalidade que as músicas mais aventurosas da época, como as mais primitivas acabam por negar, mas a primeira dessas noções: a de nota musical, arquétipo do objeto musical, fundamento de toda a notação, elemento de toda a estrutura, melódica ou rítmica.

Nenhum solfejo, nenhuma harmonia, ainda que atonal, pode dar conta de certa generalidade de objetos musicais, e notadamente daqueles utilizados pelas músicas africanas ou asiáticas.

O segundo beco sem saída é o das fontes instrumentais. Apesar da tendência dos musicólogos a referirem a nossas normas os instrumentos arcaicos ou exóticos, eles se viram subitamente desarmados diante das fontes novas de sons concretos ou eletrônicos que — ó! surpresa — entendiam-se às vezes muito bem com os instrumentos africanos ou asiáticos.

Mais inquietante ainda era a desaparição eventual da noção de instrumento. Instrumentos encaixáveis ou sintéticos, tais seriam os ornamentos de nossas salas de concerto, a menos que um despojamento total consagrasse a ausência de todo o instrumento. Iríamos assistir ao desaparecimento da orquestra e do maestro, evidentemente ameaçados pelo das partituras, em vias de substituição por fitas magnéticas lidas por alto-falantes?   O terceiro beco sem saída é o do comentário estético.

Em seu conjunto, a abundante literatura consagrada às sonatas, aos quartetos e às sinfonias soa oca. Só o hábito pode mascarar a pobreza e o caráter disparatado dessas análises. Descartando- se, para cima e para baixo da obra, as considerações complacentes sobre o estado de espírito do compositor ou do exegeta, fica-se reduzido à mais seca enumeração, em termos de tecnologia musical, de seus procedimentos de fabricação ou, na melhor das hipóteses, de sua sintaxe.

Mas nenhuma verdadeira explicação do texto. Talvez não haja razão para se espantar? Talvez a boa música, sendo ela mesma linguagem, e linguagem específica, escape radicalmente a toda a descrição e a toda a explicação por meio de palavras? De todo o modo, me limitarei a reconhecer que o problema é muito importante para ser camuflado, que a dificuldade não foi nem resolutamente encarada nem claramente tratada.

A análise é severa, sem dúvida, mas um dia deveremos tomar consciência do esgotamento da musicologia denunciado por ela. Se toda a explicação se esquiva, seja ela nocional, instrumental ou estética, mais vale afinal confessar que não sabemos grande coisa da música. E, ainda pior, que aquilo que sabemos é propício a nos desnortear, e não a nos orientar.

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E eis que o Carlos Palombini, via lista do grupos yahoo da Etnomusicologia me manda neste comentário bem bacana um texto inédito – e tudo a ver – do Pierre Schaeffer:

“Olá, Spírito Santo

Fico feliz que o excerto lhe diga alguma coisa. Você me deixou com vontade de traduzir suas 700 páginas. E já que você fala de antas, mando-lhe este excerto inédito, que muito me disse quando o encontrei, e que continua dizendo, no qual ele fala de imbecis

Achei linda a foto. Em 1953 Schaeffer partiu para a África para implementar um plano de descolonização do rádio, mas foi mandado de volta em 1957.

PS.: O excerto sobre o imbecil foi enviado com a autorização da detentora dos direitos autorais, Jacqueline Schaeffer, à qual agradeço

“Palavras de um imbecil

Pierre Schaeffer, 17 de março de 1947, sobre um artigo acerca da Indochina de Bertrand d’Astorg publicado em Esprit.

Os imbecis sabem muito bem que um povo colonizado acumulou demorado rancor, uma raiva oculta sob os bons sentimentos, que o caminho para a independência não é daqueles que se tomam de mãos dadas com o antigo invasor. O imbecil sabe muito bem que quando as crianças de além-mar retornam ao rebanho coroadas de diplomas, as questões que se colocam não dizem respeito a altos princípios de colaboração, mas à partilha miserável de alguns lugares. Rivalizam então redondamente esses “Brancos” e esses “Homens de cor” que a mãe pátria imprudentemente qualificou.

Pode-se perguntar, por exemplo, se nossas Universidades que servem tão bem a nós, Intelectuais do Ocidente, preparam convenientemente os jovens orientais para a retomada de suas responsabilidades. Se eles voltam munidos apenas de nossos sórdidos impulsos de pretensão aos postos, de nossa impaciência e de nossos planos de curto alcance, para que diplomas? Estou pronto, nesse caso, a preferir-lhes provisoriamente o imbecil; e seus reflexos, necessariamente sãos, de defesa da própria pele.

Parachoques do Fracasso



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Foto: Andres Bortnik

CONTO

_”Pera lá, mano! A guitarra quebrou, pô! Vou fazer o quê? Leva…Leva aí, aquele groove de baixo batera! Leva aí!”

O público se lixava. Nem se tocando para o meu drama. Já tava puto mesmo. Guitarra de merda, usada, comprada a 10 merréis ali na esquina. Queria o quê? Que funcionasse 10 anos? Tava puto sim. 15 anos de banda e ainda naquele ramerrão de showzinho em cidade de interior.

Detesto. Um bando de mauricinho brega. O filho do fazendeiro, o filho do advogado do fazendeiro, a filha do dentista do fazendeiro. Arghh! Uma carreira de toyotas enlameados de barro, na porta do clube, me afrontando. Nós, os artistas, naquele ônibus velho, de 1990, sei lá. Meio constrangedor, não é? Tava puto sim.

No começo até que foi legal. Todo mundo garotão, pai e mãe bancando aquela doce aventura, dando a maior força para o sonho dos pimpolhos, naquela conversa:

_ “…Na pior das hipóteses os meninos se divertem. Melhor do que ficar aí pela rua, se drogando”.

Papo furado de mãe. Lógico! Bullshit de pai e mãe. Vai acreditar.

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_” Volta, porra! Volta pro palco, caralho!” – Gritava o Marcão, desesperado.

Que voltar que nada. A platéia estava odiando o som. Aquele esporro de PA de quinta categoria. De irritar surdo. Voltar para o palco? Eu? Qual é? Sem chance. Voltar é o cacete.

Dois marmanjos meio punks, meio bandidos, desses que curtem heavy metal mas que, na calada da noite, adoram mesmo é Leandro e Leonardo, começaram a jogar latinhas de red bull. Na trajetória do palco, uma bateu bem na minha testa. Ah! Não teve jeito, parti pra cima.

Algo espirrou em mim. A chuva de latas agora já era tempestade. O barulho delas, batendo no prato splash da bateria, era apenas mais um dos sons constrangedores daquele nosso espetáculo de erros.

Quem foi que enfiou na minha cabeça que eu era um músico talentoso? Quem? Meu pai? Minha mãe? Nem lembro mais. Maldita platéia de mauricinhos. As latinhas agora eram jogadas cheias. Batiam na cara do Marcão e do Pirulito, uma, duas, três. Parecia aquelas barracas de parquinho de subúrbio, com a cara do palhaço levando boladas que, se acertadas, valiam um prêmio michuruca qualquer. Um maço de cigarros, uma bolinha de plástico, um saco de jujuba. Que situação.

O supercílio do roadie abriu. Coitado. Sem ganhar um puto. Largou a faculdade pra seguir a banda, há 5 anos, por amor e pra quê? Pra levar latada na cara? As latas batiam e o líquido escorria na cara, na roupa da gente. Nem sei nem o que era. Cerveja? Podia ser mijo até, sei lá. Era como se eles cuspissem na gente. Cuspi também, com nojo.

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Eu, Júnior, Marcão e Pirulito. Éramos quatro.

Desde o início da banda, o mais lúcido dos nossos pais era o do Pirulito. Assistiu a três ensaios, caladão, num canto. Pirulito teve vergonha de dizer que ele tinha sido músico. Baterista de bossa Nova, algum troço brega aí, dos idos de 1960. Imagina. Eu nem sonhava em nascer. Mas não.

Agora, olhando a cara de ódio do Gordão Punk, em cima do palco, me chamando pra briga, eu tive que concordar. O pai do Pirulito tinha toda a razão.

_ “Meninos se divertindo …sem drogas”... Papo furado.

Bullshit de pai e mãe. Olha só pra nós. Quase trintões, trincadões de cocaína, cerveja, de cachaça com red bull. Bullshit de pai e mãe. As drogas éramos nós!

Aí, pronto. A porrada comeu solta. Os caras punks subiram no palco me carregando pelo cós das calças, como a um merda qualquer, dando porrada. Girei. Consegui jogar o cara para o lado da bateria, que toda desconjuntada, desabou. Plash!Splash!Prumcabragabum!

Júnior, o batera, se estabacou junto. Levantou e correu, fugiu para o camarim. Sumiu. Com o barulho, a platéia urrou feliz. Queriam mesmo é se divertir com a nossa desgraça.

Marcão, o mais sensível da banda, chorou. Tentou esconder mas eu vi, entre uma porrada e outra que o Gordão Punk dava na minha cara, eu vi, de relance, uma lágrima cortando o rosto dele.

Foi Marcão quem criou a banda, pensou a banda. O som.O visual. A proposta, tudo. Queria um lance assim, meio Seattle, de início. Punk Rock , cada vez vez mais Punk Rock, até se fixar numa coisa assim mais… ‘essência‘, como ele mesmo dizia, vago. Parece loucura, total, mas, no início da banda, o sonho era mesmo se mandar para os States.

Tocar em Seattle, Memphis! Maluquice, presunção, mania de grandeza. Mas no fundo, esse papo de ‘essência’ era concessão mesmo. A gente sabia. Um troço assim Rock Brasil, meio barro meio tijolo, tipo embrulha e manda, visando um pouco o público, mas, principalmente, o mercado, ‘nacional’, é claro. Sabe como é? Senão – enfatizava Marcão – morreríamos de fome.

_ ”Seattle? Que nada. Brazuca, cara! Cai na real. Você mal sabe pronunciar y love you.”

Marcão falava, falava, com toda a convicção do mundo, já no final de uma reunião da banda. O pai do Pirulito, quieto no seu canto, olhava para o lado, disfarçando o muxoxo.

No final era isto mesmo que a gente deduziu. Era o papo que algum empresário caído arriou em cima dele, para descolar um percentual qualquer em cima da gente. E foi assim que saímos tocando por aí.

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Uma porrada do Gordão, mal dada, fechou o meu olho. Abri bem o outro e acordei das lembranças. O Gordão me largou ali, meio desfalecido e partiu pra cima, logo de quem? Do Pirulito. Gente de Deus! Ele é epilético! Se cair do palco e se machucar, o pai dele vai acabar com a banda. De vez. Foi isto que me fez acordar.

Ou foi o som do baixo do Marcão que parou? Será que foi a falta daquele barulho roufenho que me acordou? O Punk Magrão havia chutado o amp do Marcão, com tanta força, que a caixa tombou no palco, rachada de cima a baixo.

Com um estrondo, misturado com o esporro do feed back, o amp, que era nacional, é claro, pifou. Porra! Não falo nem a marca pra não queimar o filme do fabricante, mas, bem que merecia. Negou patrocínio pra banda mil vezes. Tivemos que comprar a merda do equipamento à prestação.

O pai do Marcão, gente boa, empresário no ramo de imóveis, foi quem deu a entrada. Suamos vinte e cinco shows para pagar. Mas, agora, que se dane. Acabou. Pronto. O amp quebrou. Nem sei se vai ter conserto.

———–

E a porrada comendo. Solta. Olhei para o lado e vi o Gordão Punk imprensando o Pirulito na coxia. O público, urrando, na farra, nem via que o Pirulito podia até ser morto ali, naquele canto escuro. Foda-se. Nem pensei. Peguei o extintor de incêndio e disparei na coxia. Na cara do Gordão Punk. Com raiva. Pirulito ali, como os olhos revirados, babando, aquela baba espessa, não sei se do extintor ou da epilepsia (engraçado. Pensei nisso agora. Será que me enganei? Foda-se).

A fumaça do extintor esguichando. Aquele chiado estridente e pronto: Pânico! A platéia maldita se desesperando. Olhei excitado, sádico. A casa estava lotada. Bombada. Estourada de gente. Foi a minha redenção. Vingança. Foda-se.

_”Incêndio! Incêndio!” – Gritaram as patricinhas histéricas e os mauricinhos cagões.

Meu celular tremeu no bolso. Como é que ia atender no meio da confusão? Pedia licença aos punks, às patricinhas histéricas e aos mauricinhos cagões? Pedia silêncio á turba maldita para poder atender ao celular? Não. Melhor olhar o display. Pra quê? Tremi. Ai meu Cristo! Minha mãe! Aí…Pum! Foi o tempo de desviar as costas.

O extintor, tomado de mim pelo Gordão Punk, bateu na minha cabeça em cheio e caiu no palco, esguichando, de novo, espuma pra todos os lados. Só que, de repente o chiado parou. Subitamente. Só me lembro de ficar ouvindo uma musiquinha. Longe.

Não vi. Dizem que depois que eu caí, o gordão pegou meu celular e pisou, pisou, com toda vontade. O bicho não quebrou assim, logo. Ainda ficou tocando aquele toquezinho fresco, uma musiquinha do Mozart, que eu escolhi, de bobeira, só por que me lembrava de quando eu era neném. Fiquei calminho de repente. Relax. Achei que era a musiquinha. De repente, nem Mozart nem nada. Silêncio.

Quando acordei de vez, olhei para o lado e vi o Marcão, sentado no palco, meio zonzo, olhando para o amp quebrado, desolado. Pirulito sumira. Ah, não! Logo me deparei como ele ali, sentado no chão do salão, atendido por um enfermeiro com o guarda pó ensebado, suadão. Que alívio. Não tinha tido ataque nenhum. A espuma na boca tinha sido do extintor mesmo.

O salão do clube vazio. Pra andar, tentando arrumar as idéias na cabeça e lembrar a história toda, tive que desviar das pilhas de latinhas, de copinhos de plástico, de seringas do pico dos punks, aqui e ali de umas camisinhas, calcinhas, um nojo só. Olhei pra cara do dono do clube, nosso contratante.

Gelei, desanimado. A cara dele estava tão feia, mas tão feia que logo vi. Nada, nem sombra de cachê à vista. Demorar muito por ali era até um risco. Ele podia ter a brilhante idéia de nos cobrar o prejuízo. Cobrar do meu pai ou, pior ainda, da minha mãe. Que sufôco.

O telefone do Marcão tocou. Achei que era o meu. Não era, mas, a ligação sim, era mesmo pra mim.

_” E aí mãe? O que foi?”

_” Nada, filho? Teu telefone só dá desligado ou fora de área… E o show? Como foi?”

_ ”É mãe. Maneiro. Deixamos nossa marca. Agora nós somos um sucesso por aqui”.

Não precisava nem falar, entrar em detalhes. Ela sabia entender a voz do filhão. 15 anos botando panos quentes nos meus fracassos. Me bancando. Até se divorciou do meu pai por causa de mim. A pensão alimentícia, o velho já parou de pagar faz um tempão. Sou quase um trintão, lembram? Na hora das dificuldades, nos mudamos pra Bangu. Mas ela segura minha onda. Sem reclamar. Sabe como é? Mãe é mãe, certo?

Spírito Santo
Rio de Janeiro, Maio 2007

10 vezes Favela Movie: Agora por nós todos


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A atriz Roberta Rodrigues, os diretores Tereza Gonzalez, Feijao, e os atores Cintia Rosa e Thiago Martins, lançam 'Cinco vezes favela - agora por nós mesmos' em Cannes. (Foto: Dominique Maurel/Divulgação)

A atriz Roberta Rodrigues, os diretores Tereza Gonzalez, Feijao, e os atores Cintia Rosa e Thiago Martins, lançam 'Cinco vezes favela - agora por nós mesmos' em Cannes. (Foto: Dominique Maurel/Divulgação)

O Cinema Brasileiro ‘É  nóis’
A Favela por nós ou por eles mesmos?

“Esse lance de chamar o 5XFavela de filme ONG também me cheira a racismo e preconceito. Mas, deixa quieto, né? Vou esperar para ver esse Bróder.

Programanojapao (Roberto Maxwel, do japão) disse isso em julho 23, 2010 às 11:01 am”

“Já vi umas cenas de Bróder com o próprio Jeferson, quando ele esteve em Vitória em maio. Olha, parece um filmaço. Não vi 5 vezes favela 2, então não dá pra fazer um paralelo. Sinceramente, estou ficando de saco cheio de mazelas. Acho que prefiro o otimismo lúcido do Jeferson De. Que venha Bróder, injetando sangue e idéias novas no pedaço.”

(Claudia Rangel comentando no Facebook)

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(E como o papo entabulado no Facebook era pra lá de instigante eu, respondendo ao Roberto Maxwel fui logo engrenando neste outro post):

“É por aí mesmo – dizia eu para ele – só que eu acho que não é exatamente melhor deixar quieto não. O amplo debate desta questão é crucial. Esta área – certo cinema brasileiro – está ficando cada vez mais minada de preconceitos. Isto se reflete de maneira muito intensa nas opções de produção e atrapalha bastante a abertura do leque da democratização da linguagem cinematográfica entre nós… não só para a ascensão de novos realizadores, mas também para a assunção de novas temáticas, estéticas e pontos de vista.

Me ocorreu agora mesmo lembrar a grande pressão que se faz no mercado contra a grande recorrência de filmes ‘de favela’ (‘Favela Movies’, como se diz), entre outras coisas sob a alegada intenção de ‘proteger’ a imagem – e o mercado- do Brasil no exterior.

… Contudo, vamos combinar que a exclusão social, a violência urbana e a miséria, como temáticas artísticas são representações legítimas, quase irrecorríveis de nossa realidade, além de serem, plasticamente muito ricas. Por outro lado, existem aspectos mais profundos, humanos em suma, neste caldo de cultura fermentado nas periferias de nossas grandes cidades que são tão cinematográficos quanto quaisquer outros.

O preconceito contra os ‘filmes Ong’ (o mesmo que dizer: filmes ‘chapa branca’ – submissos, ‘pai-joões’no âmbito de um eventual conflito estético povo versus elite) pode vir do mesmo lugar de onde vêm esta pressão anti ‘brutalista’: O maniqueísmo, esta conversa em Preto& branco que predomina sempre que o pessoal de baixo começa a se ouriçar, dando mostras de que também tem algo a dizer, como suas próprias palavras.

O fato é que não há contradição importante entre ‘Bróder’ e ’5 vezes favela 2′. …São dois ângulos de se olhar uma mesma coisa, duas maneiras de se criar e produzir uma opinião (e neste caso, sabemos muito bem que, quanto mais opiniões melhor).  Também não vejo nada demais que as duas posições sejam debatidas, acalarodamente, apaixonadamente como convém às grandes questões.

O ’5 vezes favela, agora por nós mesmos’ (ainda não vi o filme) vai sofrer muito deste preconceito aí por conta de ter sido produzido (dirão ‘apadrinhado’) pelo Cacá Diegues e, simbolicamente pelos outros então jovens cineastas do filme original (Marcos Farias, Miguel Borges, Carlos Diegues, Joaquim Pedro de Andrade e Leon Hirszman).

A polêmica diz respeito, exatamente a este ‘… agora por nós mesmos’, sintomaticamente inserido como slogan da versão atual. Ou seja: A produção cinematográfica brasileira (quase) sempre dominada por ‘brancos‘ da elite, falando do povo com certo distanciamento ideológico, quiçá paternalista… estaria, realmente, dando vez a outras possibilidades de abordagem, outros olhares?…

… Acho que temos uma discussão muito salutar nascendo disto aí. Os filmes do Jeferson De e da galera de ‘5 vezes favela 2‘, feitos que são agora – pelo menos segundo se diz –  também por ‘nós’ mesmos (e não mais apenas por ‘eles’, bem entendido) espero que seja uma espécie de Marco Zero desta discussão.”

O ‘velho’ e seminal‘Favela Movie
(Em 1962 a Cidade já estava careca de ser sem Deus)

Numa alentada resenha sobre o velho e original  ’5 Vezes favela’ (que pode ser lida na íntegra neste link) Estêvão Garcia melhor do eu diria, já dizia:

“…O filme nada mais é do que a colocação em prática de um dos princípios primordiais do CPC (Centro Popular de Cultura ) da UNE ( União Nacional dos Estudantes ): a instrumentalização do cinema e da arte para difundir unicamente seus objetivos políticos. A representação da cultura popular de Cinco vezes favela se aproxima intimamente de filmes como ‘Bahia de todos os santos’ (Trigueirinho Neto/1960), ‘A grande feira’ e ‘Barravento’ – ou seja, a cultura popular significada como gérmen da alienação.

Além da cultura emanada pelo povo ser a responsável por sua secular resignação, caberia a eles (os intelectuais pertencentes a uma classe intermediária entre o povo e a alta burguesia) a função de indicar a este povo a cultura popular que deveriam consumir. O CPC almejava, então, esculpir uma cultura popular própria baseada nas visões de seus integrantes, e assim jogá-la para o povo – quase da mesma forma que um aposentado joga milho aos pombos da Cinelandia. Essa arte popular de maneira nenhuma deveria incorporar as investigações de linguagem do Cinema Novo, e essa posição propagada em artigo no Metropolitano (órgão de imprensa da UNE) se constituiu em um dos motivos da inevitável ruptura.

Essa figura do elemento intermediário entre duas antagônicas classes, possuidor da função de conduzir o povo, que tanto os cinemanovistas quanto os militantes do CPC almejavam ser, aparece em aqui de maneira um tanto primária e maniqueísta.

…Cinco vezes favela sendo visto hoje, após 42 anos de sua realização não difere em alguns pontos da mesma constatação ocasionada na época de sua estréia: a certeza de estarmos diante, no caso dos episódios O favelado, Zé da Cachorra e Escola de samba alegria de viver, de um discurso um tanto limitado, e ainda desprovido de maior interesse na parte estética. Já no caso de Couro de gato e de Pedreira de São Diogo percebemos que, apesar de banhadas no mesmo caldo ideológico dos outros três, há ali uma pulsão de cinema, um talento latente e uma verdade flamejante que só ao vermos o conjunto da obra de Leon Hirsman e de Joaquim Pedro podemos constatar como a promessa de dois grandes artistas que estavam por vir.”

O cinema do Brasil entre o cavalo e o bandido
(… que não apareceu naquele filme)

Como todo mundo já sabe, nós vamos poder assistir muito em breve à nova versão deste ‘favela movie ‘cascudo’ e velho de guerra de 1962, agora sob o reciclado título de 5 vezes favela… agora por nós mesmos.

A comparação com as intenções ideológicas e artísticas expressas por aquele projeto do já distante ano de 1962 – uma época politicamente tão conturbada que culminou com uma sangrenta ditadura que nos assolou logo em seguida – cuja nuvens pardacentas até hoje pairam sobre nós – serão inevitáveis.

Mesmo antes de assistir ao filme atual nos chama fortemente a atenção, contudo o fato do cinema brasileiro (e a sociedade brasileira como um todo)  manter ainda quase inalterados, níveis de exclusão social idênticos aos daquela época, o que se reflete, obvia e claramente na ausência, até hoje em nosso cinema, da expressão de um protagonismo ‘popular’ efetivo, cuja inexistência aquela geração do CPC, tão arrogantemente vanguardista, atribuía a letargia do ‘zé povinho’, à índole submissa do ‘povão’ que ela, mais dia menos dia iria dirigir e comandar até à vitória final da Revolução Socialista. Pois sim…

(Você viram? Deu no jornal de ontem: O Brasil de 2010 é o terceiro pior desempenho em distribuição de renda do mundo!)

O fato é que pode residir aí, nesta ainda mal contada história do vanguardismo juvenil daquela aguerrida geração de ‘nossa’ (deles) elite intelectual – e econômica, claro – uma ironia sem tamanho que a expressão‘… Agora por nós mesmos’ simboliza muito bem, define mesmo, cabendo nela justinha como uma luva:

… Bem, vamos ver se entendi: Quer dizer  que ao se falar agora (a respeito da nova versão de ‘5 vezes favela’) que existe um cinema ‘nosso’, ‘eles’ estão assumindo então que aquele era o cinema… ‘deles‘? É isto?

Donde se pode concluir, portanto que o povo – notadamente, por que não dizer, o negro favelado, arquétipo mais que principal neste argumento – não era alienado e resignado coisíssima nenhuma. Sim, agora se pode até contar num filme, por exemplo, que este ‘povão’ na verdade havia sido escravo, e estava era subjugado por séculos e  séculos de renitente opressão cultural, física mesmo, sem forças e canais para se expressar. Logo, novas temáticas – sem nenhuma censura estética ou ideológica – nesta praia e por este viés, podem estar vindo por aí, não é assim?

Donde se deve concluir também que a revolução socialista (afora o heroísmo pungente de alguns daqueles garotos – que como eu amavam o Marx, o Marighela e o Plekanov) não passou mesmo de – e infelizmente – uma revolução ‘deles.

Ih!…Quase ia me esqueço que o papo é sobre cinema…

É que nem me lembrava bem do cinema modernoso de 1962. Eu tinha promissores 15 anos e de cinema só conhecia mesmo as adoráveis chanchadas da Atlântida (que eu amava de paixão). De Nem Sansão nem Dalila, ‘ O homem do Sputnik’, ‘Cala boca Etelvina’, ‘Amei um bicheiro’‘As 13 cadeiras’, assisti a todas. Êxtase era o que eu sentia, sem nenhum exagero. Era emocionante demais sentir a cachoeira de fotogramas, o prazer visual escorrendo,  encharcando a minha memória de movimentos pretos, brancos e cinzentos, meus olhos marejando de tanto chorar de rir.

Passei a adorar cinema por causa destas imagens ao mesmo tempo finas, longas, curtas e grossas, logo consideradas ‘trash movie’, mera excrescência fílmica, pelo pedante pessoal Mauricinho-radical que, reunido pelo CPC tomou a produção cinematográfica para si, criando o ‘tal’ do Cinema Novo‘ e banindo aquelas imagens – e aqueles atores e personagens – das telas do meu cinema juvenil.

A expressão _ “O ‘tal ‘ do Cinema Novo” _ eu tomei emprestada da grande dama de nosso cinema seminal: Ruth de Souza, que numa conversa casual dia destes, me fez esta ácida e veemente confissão:

_’Odeio cinema novo! Odeio Glauber Rocha”_

No seu desabafo ela enumerava a quantidade de atores oriundos do chamado ‘povão’ que pontificavam no nosso cinema antes de 1962. Aguinaldo Camargo, Grande Otelo (o de antes das chanchadas, ainda na fase dos grandes dramas filmados), Léa Garcia, ela mesma: Ruth de Souza, Abdias do Nascimento e tantos outros. Sua descrição para as festas hollywoodianas das quais participou, nos lançamentos de filmes da Vera Cruz é antológica.

(Quando vi na foto da garotada do ‘5 vezes favela 2’ a Roberta Rodrigues toda bonitona e poderosa, entrando pelo tapetão de Cannes, me lembrei da Ruth  na hora)

Em nossa conversa ela usou a ênfase nas pompas e circunstancias das festas da Vera Cruz – o vestido longo que usava as mesas longuíssimas com ‘tudo do bom e do melhor’ disposto à sua frente, os buquês de flores que ganhava exatamente com uma Greta Garbo afro descendente – para exprimir o quanto ela acha que todos nós perdemos com o fim da Vera Cruz e daquele modelo ‘americanizado‘ de se tentar uma indústria de cinema no país (modelo este que, como se sabe, copiado pela televisão anos mais tarde, gerou esta formidável e bem sucedida – embora estúpida – máquina de entretenimento, que é a TV do Brasil).

Foi assim, segundo ela, que atravessando como num sonho a sua calçada da fama – de resto merecida fama de uma das maiores atrizes do país – que tudo foi se esbordoando com a virada dos anos 60, sintomaticamente ao mesmo tempo em que a ditadura fermentava já sua bílis e a onda de bossas novas modernistas que a classe média desenvolvimentista engendrava, iam alijando o ‘povão’ para debaixo do tapete preto & branco da periferia da periferia da periferia…

(… E lembrem-se: Brasília, a ilha de todas as nossas mais inimagináveis fantasias, também estava sendo engendrada ali.)

Para Ruth – e para mim do mesmo modo, confesso – antes de ser apenas o bonitinho advento da modernidade artística na produção fílmica do Brasil, o surgimento paradigmático do Cinema Novo, aí por volta de 1960, representou também o gradual alijamento do mercado, não só de toda aquela fabulosa estirpe de atores negros, populares enfim (formados pela fantástica experiência que foi o Teatro Experimental do Negro – e o teatro de revistas e variedades, o circo enfim) como o advento também de uma censura virtual a certa maneira de se olhar e filmar a realidade brasileira, uma maneira promissora – embora ainda titubeante – mais solta e ‘mais nossa’ de dizer as coisas, uma dramaturgia cinematográfica, talvez em suma – como saber? – mais apropriada aos nossos modos de ser, viver e sentir a vida.

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2010: Depois de Ruth na festa da Vera Cruz, enfim, a Favela em Cannes.
“Cinco vezes favela’ leva arroz com feijão e tráfico a Cannes”

“Coletânea de curtas produzida por Cacá Diegues participa do festival. Histórias foram escritas e dirigidas por moradores de comunidades do Rio.

(Extraído de G1 notícias / Diego Assis, em Cannes)

“Funk carioca, arroz com feijão, pipa e, claro, tráfico e violência foram apresentados nesta terça-feira (18) aos frequentadores do Festival de Canne… O cartão de visitas é “Cinco vezes favela – Agora por nós mesmos”, projeto capitaneado por Cacá Diegues e Renata Almeida Magalhães, que reúne curtas-metragens realizados por jovens cineastas originários de comunidades carentes do Rio de Janeiro.

Exibido fora da competição oficial, o longa-metragem pretende passar uma imagem diferente da favela. “Existe uma tentativa de construção de uma identidade completamente diferente dos estereótipos e lugares-comuns que a gente vê em geral na imprensa e na televisão quando o assunto é favela”, explicou Diegues em entrevista ao G1 nesta tarde. “Este é um filme que tem um humor, uma luz no horizonte, uma preocupação moral que não são normais no chamado ‘filme de favela’,” defendeu.

…As interpretações e diálogos seguem uma linha de produções de TV – lembra a série “Cidade dos homens” às vezes -, e os finais são quase sempre felizes. Uma exceção é o curta “Concerto para violinos”, de Luciano Vidigal, que tem no elenco o ator Thiago Martins na pele de um traficante que é encurralado pela polícia e pelo líder da facção inimiga depois de roubar armas de uma delegacia local. Mas o PM encarregado recuperar as armas é um amigo de infância do traficante.”

Mas olhem bem vocês: Quando derem vez ao morro toda a cidade vai cantar
(Ao que parece, o Cine Paratodos está sendo reinaugurado enfim)

Este momento melancólico da transição do velho e gregário cinema da italianada da Vera Cruz (que talvez por pura esperteza comercial apostava na diversidade étnica, na imagem do negro atuando seu protagonismo sem nenhuma invisibilidade) para o advento do Cinema Novo (que subalternizava, subestimava o povo) foi flagrado exatamente por um cineasta estrangeiro, Marcel Camus – um francês, vejam só que coisa curiosa! – que no seu antológico Orfeu Negrocompôs o mais lírico de todos os favela movies de ‘nossa’ filmografia, espécie de canto do cisne daquela cinematografia ainda hospitaleira, que tentava pensar o povo sem tanto distanciamento como o cinema do CPC pensava.

É que, contraditoriamente, apesar de anunciar o socialismo artístico, o chamado Cinema Novo tomou para si – e para os ‘seus’, para a elite que o representava enfim – a rédea de tudo que podia ou não podia ser visto no nosso cinema (e vejam que com a Embrafilme, até a nossa pre-visibilidade passou a ser determinada), inaugurando o cinema onde o povo aparecia quase apenas como figurante pau-mandado, como coro (um povo assaz fotogênico para os  ‘planos-sequencias’ glauberianos) com o perdão da expressão: “cocô do cavalo do bandido que não apareceu  naquele filme’ como se dizia.

Incensado por, supostamente romper com uma forma arcaica e colonizada de se fazer cinema (o detestado modelo hollywoodiano), o Cinema Novo (do qual ’5 vezes favela’ – junto com ‘Rio 40 graus’ e ‘Rio Zona Norte’, de Nelson Pereira dos Santos – é uma espécie de Marco Zero) introduziu no Brasil uma forma presunçosa (apesar de…vá lá… bem intencionada) de se fazer filmes que, sendo do mesmo modo aculturada (pois evocava, diretamente, modos de se fazer filmes inspirados no cinema europeu da época,  o neo realismo italiano e a nouvelle vogue) acabou por se mostrar também, ele sim, arcaico e inviável como produto cultural.

O certo é que marcado que foi indelevelmente pelo estigma de, ao apostar num  experimentalismo algo irresponsável (‘uma câmera na mão e uma idéia na cabeça’) produzir … filmes-cabeça, fechados em si mesmos, linguisticamente equivocados e ininteligíveis, este cinema passou a significar exatamente o que Ruth, com sua acidez cansada de ser enganada descreveu para mim naquela nossa conversa casual:

_’Cinema sem pé nem cabeça’_

Este modelo excludente de se fazer cinema no Brasil – afora seus méritos já sobejamente apontados – de certo modo parece ter prevalecido até os nossos dias. Pouco questionado, até então mantendo todos os seus senões simbolizados pelo modo ‘barretão‘ de se produzir filmes ‘em família’, no fundo no fundo, tem aquele mesmo espírito CPCista, vanguardista de um cinema de cima para baixo, da Elite para o Povo, mas que contraditoriamente sempre pareceu afirmar prepotente:

_ “O povo sou eu!” _

…E antes que me esqueça devo confessar: Adulto um pouco mais adiante de 1962, além de fã ardoroso da música da Bossa Nova, virei assíduo frequentador do Cine Paissandu , do Cinema Um e outros cinemas da moda e cine-clubes quejandos. Doido para ser moderno, acabei assistindo também a quase todos os principais filmes do Cinema Novo. Gostei de muitos, salvo as ressalvas acima. Falo, portanto de cadeira.

Dito isto acho que o papo pode seguir livre e solto por aí. Parece que isto tudo – e mais alguma coisa – vai poder ser esmiuçado também em novos filmes… já que estas alentadas histórias filmadas serão fotografadas e contadas… ‘agora por nós mesmos’, certo?

Valeu, Bróder’! Valeu 5 vezes favela 2‘! O cinema brasileiro agora também É  nóis na fita!

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(Siga o papo complementar nos comentários logo abaixo deste post e leia mais sobre este empolgante argumento em ‘ Cinema em preto & branco takes 01 , 02 e 03 )

Spírito Santo
Julho 2010

BRÓDER, de Jeferson De vem aí!


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Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

Muito além do Samba e da feijoada

O cineasta Jeferson De está lançando o seu ansiado primeiro longa metragem ‘Bróder‘ (assista entrevista no vídeo aqui abaixo), com locações no Capão Redondo, emblemático bairro da violenta, intensa e complexa periferia de São Paulo.

No elenco figuras nota dez de nosso cinema como Jonathan Haagensen, Caio Blat, Cassia Kiss, Aírton Graça, João Acaiabe, entre outros.

Pelo que se anda dizendo por aí, no ensejo de narrar o reencontro de três amigos de gueto, com trajetórias de vida muito diferentes entre si, na festa de aniversário de um deles, ‘Bróder’ tenta abordar de maneira polêmica – ou seja, sem paternalismos e papas na língua – questões- chave da ora contida, ora explosiva realidade dos grandes ‘complexos de favelas’ das grandes cidades do Brasil, tendo como o contraponto a exclusão social perpetrada, entre outros mecanismos, pelo racismo onipresente, onisciente e onipotente, como um Deus do mal que engolfa tudo com o seu manto de iniquidades.

Vindo do Festival de Berlin onde fez bonito e tendo sido agora há pouco, exibido no Festival de Paulínia com sucesso (veja aqui a polêmica em Paulínia, onde júri premiou 5 vezes favela, agora por nós mesmos’ um ‘filme ONG’, segundo algunse a crítica premiou Bróder) o filme, praticamente marca a estréia profissional de um dos raros cineastas negros que o Brasil se dá o luxo de ter – o que, só por isto aí já é uma coisa a ser festejada.

Em Paulínia, além do prêmio da crítica especializada, ‘Bróder’ ganhou também prêmios do  júri oficial nas categorias fotografia, direção de arte e edição de som.

Muito afim de ver e aplaudir desejo que seja longa vida e a história de Jeferson De e seu jovem cinema ansioso de sair da contenção asfixiante e maniqueísta do gueto e da periferia, para o ar puro do mundo real.

(Siga o papo complementar nos comentários logo abaixo deste post e leia mais sobre este empolgante argumento em ‘ Cinema em preto & branco takes 01 , 02 e 03 )

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Ficha técnica de Bróder’:
(longa de ficção, 93 minutos, digital)
Direção: Jeferson De
Produção: Paulo Boccato, Mayra Lucas, Jeferson De, Renata Moura
Roteiro: Jeferson De, Newton Cannito
Elenco: Caio Blat, Cássia Kiss, Jonathan Haagensen, Silvio Guindane, Cintia Rosa, Ailton Graça, Lidi Lisboa, João Acaiabe, Du Bronks.

Spírito Santo
Julho 2010

Paulo indo


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DESPEDIDA from Eduardo Escorel on Vimeo.

Clique nos links acima ou abaixo e veja o emocionante filme do Eduardo Escorel na despedida musical do grande Paulo Moura.

Paulo se vai tocando. Fiquei lendo nos os olhos dele o contraponto da morte, em tom menor, ciscando indiscreto (um pânico arregalado de não querer ir e no entanto indo, escorregando lúcido, plácido – se é que me entendem).

A musica ( ‘Doce de Côco’ de Jacob do Bandolim) é em tom maior e, claro, alegre sabe-se bem porque – ou não sabemos: É que música não é coisa de querer saber se a hora é triste ou feliz. Para a música danem-se as entrelinhas, os entreatos e os entretantos. Música não vai nem vem. Música não nasce nem morre: Um, dois, três…Foi!

Pois é nisto que os olhos em pânico de Paulo, nesta hora ‘H’, não sabem muito bem se podem ou não acreditar.

Será? Dizem eles os olhos estranhamente já não tão claros dele, se indo, explodindo na cara querendo sorrir, mas já sem aquele sorriso luminoso que o Paulo tinha, antes desta hora, e que no entanto, a sua música teimosa foi logo exprimindo, sorrindo por ele, a despeito dele, apesar de tudo como toda música faz ou é.

O se extinguir  de tudo é sempre assim: um acorde, uma nota do tom, da terça ou da quinta e… Fim.

…E daí ficamos nós e a esta sua música, mesmo sem ele, graças à harmonia do Wagner Tiso e aos santos olhos do Eduardo Escorel, gente boa e amiga que estava lá, de corpo presente, neste final feliz.

Spírito Santo
Julho 2010

Ismael Ivo: Tição em brasa rasga a escuridão



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Festival de Arte Negra de Belo Horizonte- 2007

A dança do invisível

A primeira vez que vi o Ismael Ivo foi em São Paulo.  Fui tocar com o ‘Grupo Vissungo’ num desses eventos artísticos em honra ao 20 de Novembro (que, acho eu, nem se chamava ainda Dia da Consciência Negra) ali pelo início da década de 1980, ao tempo em que o Gianfrancesco Guarnieri (este mesmo, autor da sensacional peça teatral  ‘Eles não usam black tie‘)  era – que luxo!- Secretário de Cultura da cidade, com Teresa Santos, também da secretaria, organizando tudo, arregimentando artistas negros do Brasil inteiro, para o que foi um dos primeiros eventos memoráveis sobre esta data.

Me lembro vagamente  daquela figura negra e esguia-  como convém a um bailarino – com uma malha modesta (que a minha memória guardou como sendo até algo surrada) fazendo um impactante solo no palco, surpreendendo-nos com a qualidade de sua dança, clássica ou contemporanea como saber? Erudita enfim, inusitada para todos nós que nos perguntávamos meio abestalhados:

_’Como pode ser? Um bailarino negão?!’

Numa rápida conversa de bastidores me lembro vagamente dele, Ismael, ter comentado conosco algo acerca de sua vontade de sair do Brasil, tentar a sorte de sua arte na Europa.  Achei aquele seu anseio mais do que pertinente, conveniente mesmo (eu mesmo, músico na época, embora longe de ter o talento fulgurante dele,  ruminava planos semelhantes): Como conceber um bom futuro profissional para um bailarino daquela estirpe no Brasil sendo ele …negro retinto como carvão?

A segunda vez que o encontrei já foi, imagino quase dez anos depois. O destino nos cruzou, de novo fugazmente, em Viena, Áustria em 1991, por aí. Ele residindo em Berlin (ou Stuttgart, não sei bem) na Alemanha, estava na Áustria para mais um International Dance Weeks de Viena, festival de dança contemporânea do qual ele – diga-se só de passagem – era simplesmente o diretor artístico e principal coreógrafo (foi também, logo em seguida, diretor artistico do  German National Theatre de Weimar.)

Enquanto tomávamos à tardinha um vinho casual no jardim da minha cunhada Roseana (que, coincidentemente já era sua amiga desde os tempos de São Paulo) acho que lembramos – ele muito muito vagamente – daquele precário palco em São Paulo e daquela decisão tão certeira que ele tomou de deixar o Brasil, o que ocorreu pouco depois daquele evento em São Paulo, por meio de um irrecusável convite para integrar a companhia do grande bailarino norte americano Alvin Ailey.

Hoje, depois de um tempão sem ouvir falar dele por aqui dei de cara na internet, quase que por acaso, com uma notícia sobre Ismael e seu fantástico trabalho na Itália.  Não teve jeito: Tive que me dar conta de novo, de que o Brasil continua a ser aquele mesmo país de ‘elite’ ignorante e inculta daqueles já longínquos 30 anos atrás.

_’Como? Até hoje ainda não pode haver no Brasil um grande bailarino negão?’

Ismael Ivo, negão ou não negão, em Sttutgart, Alemanha – onde segundo, ele mesmo admite emocionado foi recebido como um filho da terra – ninguém se importou jamais em subestimá-lo, cortando as suas largas asas por causa de sua cor. Solto e livre para voar, alçou voo aos céus e plana pelo mundo como uma nuvem em movimento, uma águia plácida.

Ele  faz parte hoje da nata, do supra sumo da dança contemporânea do mundo, como coreógrafo e diretor da Bienal de Dança de Veneza (e nem pense em  passar batido deste link aí porque a entrevista  contida nele é realmente sensacional)

Aqui, pelo visto, mesmo sendo negão – ou por isto mesmo – Ismael é pouco mais do que um estrangeiro de segunda classe. Ele pode morrer do coração, barrado por um guarda armado no limiar de uma porta automática de banco; confundido com um guardador de carros pode ser chingado de ‘macaco‘ – ou de ‘crioulo safado’ – no estacionamento, por alguma madame nervosa; pode até mesmo ser abatido a tiros numa esquina, por engano, confundido com um traficante de meia idade. Quem se importa por aqui que ele seja o que é? Aliás…Quem ele pensa que é?

_Quem?..Ismael o que?

Não é de se estranhar. Não é assim que as coisas funcionam por aqui? Com toda certeza, exceto, é claro por aqueles  ligados em cultura negra (como Ari Cândido, cineasta que fez um já antológico filme autobiográfico sobre Ismael) este artista-orgulho do Brasil, não é conhecido pela maior parte dos brasileiros que lerão estas minhas francas anotações.

Senão vejamos: Vocês já haviam ouvido falar em Ismael Ivo? Não? Tudo bem. Isto é mais do que normal. Veja nos links assinalados os filmes mais significativos que separei sobre o trabalho dele para vocês. Um é sobre os bastidores da recentíssima montagem (estreou por estes dias) de sua coreografia para a a obra ‘A Sagração da Primavera (‘Il Rituale de Primavera’) baseado na peça de Igor Stravinski , outro uma entrevista sobre a montagem de outra obra sua (“Oxygen” para o 7. Festival Internazional de Dança Contemporanea) e, de quebra,  logo abaixo  a entrevista que ele deu para a revista ‘Raça‘.

Observe, principalmente o que tem de profundo e universal no pensamento dele sobre dança contemporânea, arte e sociedade e se pergunte, constangido como eu: Porque será que Ismael Ivo ainda é tão indizível, invisível em seu próprio país.

Fiquei pensando numa Carla Camurati destas da vida, desfilando como uma cortesã do império dos Pedros de Orleans –  uma marquesa de Santos afetada de brocados – no hall de ‘seu‘ solar, arrotando os pendores de uma águia folheada a ouro, discorrendo sobre o bijou precioso que ficou o ‘seuTeatro Municipal, restaurado às custas de não sei quantos milhões… nossos.

Vi também, de relance na TV, hoje mesmo, a indefectível e quase eterna dama do pas de deux Ana Botafogo, não menos afetadamente (como um Cisne de asas aposentadas) exaltando  o ‘seu’ já tão ultrapassado ballet de sempre. Pompas e circunstancias de bolor evidente e fora de moda, destas nossas tão ‘pobres‘, mesmas e melancólicas celebridades luso-tropicais.

Daí achei chato viver num país no qual maior esperteza possível – o sentido mítico, simbólico de nossa estratificação social-  é o mérito de Possuir ou Pertencer e nunca o de Ser ou de Fazer algo. Uma prática colonial que pode muito bem ser traduzida por aquele pensamento leniente, acomodado e corporativista de gente de mente pequena, que com o próprio guarda-roupas cheio de chambres e sedas diz para a plebe, com desdém e cinismo:

‘Em terra de saci uma calça dá pra dois’.

Só que saci não dança, certo?…Ao que um Gil reggae-tropicalista diria:

_Gente estúpida…

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(A entrevsita para a revista ‘Raça’)
Raiz negra da dança contemporânea, ele evoca corpo em movimento, contorcionismo e beleza.

É quase impossível falar em dança contemporânea na Europa sem mencionar o nome de Ismael Ivo. Coreógrafo e bailarino afro-brasileiro, esse paulistano de 49 anos, se transformou em cidadão do mundo quando, em 1983, o coreógrafo americano Alvin Ailey, após tê-lo visto em uma performance solo, o convidou para integrar sua companhia de dança em Nova York.

Dos Estados Unidos para o Velho Continente foi só uma questão de tempo. Após anos de experiência, o menino que cresceu dançando pelas ruas da Vila Prudente, hoje se divide entre os principais palcos de Berlim (onde mora), Nova York, São Paulo e Veneza. E foi justamente ali, entre os canais mais românticos do mundo, que este coreógrafo de vanguarda – que funde à sua raiz negra a dança moderna, ao butô japonês e ao teatro-dança alemão – assumiu, ano passado, a curadoria do Festival Internacional de Dança Contemporânea da Bienal de Veneza, um dos mais importantes eventos de dança do mundo.

Para intensificar sua pesquisa sobre o corpo humano, Ismael Ivo criou para o festival, em 2005, Body Attack – espetáculo que estudava o corpo como documento de seu tempo. Na edição deste ano, em junho passado, foi a vez de UnderSkin – coreografia que procurava trazer à tona o que se esconde debaixo da pele para compreender o papel da dança em relação ao corpo e a sociedade.

A “era Ivo” de onde provém a dança inovativa e multiétnica, como descrevem alguns jornalistas e críticos europeus, deve terminar no próximo ano. Encerrando a trilogia o coreógrafo levará à Veneza o mais absoluto e explosivo de todos os temas: o erotismo com a encenação denominada O Corpo e Eros.

Raça Brasil – Atualmente, que espetáculos seus estão em cartaz na Europa?

Ismael Ivo

São dois espetáculos paralelos, o primeiro se chama Dubble. Estreou em novembro em Bielefeld, na Alemanha. Esse projeto envolve atores e bailarinos e é inspirado em dois autores: Antonin Artoud e Heiner Müller.

A visão que ambos haviam do teatro foi o ponto de partida para desenvolver esse trabalho. De Artoud nos baseamos no teatro da crueldade, aonde o foco principal era o corpo, qual o papel do corpo físico dentro do teatro contemporâneo. Já Müller representa o teatro de fragmento sintético. Procuramos sintetizar frases, palavras e idéias e dar lugar ao corpo como protagonista, a expressão corporal do ator enquanto palavra. Algo como comer as palavras e digeri-las em movimento.

O segundo espetáculo se chama Apólo e Jacinto – primeira ópera escrita por Mozart, aos 11 anos. Eu coreografo, danço e dirijo. É a primeira vez que dirijo uma ópera, oportunidade que me diversifica linguagem e experiência. Estréia este mês no Museu Pergamon, de Berlim, fechando o ciclo de comemoração do centenário de Mozart.

Você vem de uma família com educação católica, como foi que você descobriu que seria bailarino?

Família católica sim, mas até onde se define a religião no Brasil. O nosso catolicismo é diverso do romano. No domingo a gente vai à missa e no resto da semana, ao terreiro. Eu sempre digo que o terreiro foi o primeiro contato que tive com arte, porque me abriu as asas da imaginação. Eu relaciono com o que faço enquanto dança. Recuperar esse sentido da magia, da fanstasia, da irrealidade que se torna real por meio da arte. O que uma família negra, de classe média baixa, deseja para o filho? Ser médico, engenheiro… Uma perspectiva de ascensão na escala social. Mas cheguei a um ponto que comecei a questionar raças, preconceitos, oportunidades e isso me deu outra perspectiva. Descobri que queria verbalizar. Não somente conquistar um lugar social. Sentia a necessidade de colocar isso como expressão. E o teatro se apresentou como um grande veículo. Foi dali que descobri o corpo e dei início a minha pesquisa corporal.

Qual foi a reação ao convite de Alvin Ailey para que você integrasse sua companhia de dança e o que mais lhe marcou naquele tempo em que viveu em Nova York?

A Big Apple em si é impressionante. Sentia sempre martelar uma coisa como: Decifra-me ou devoro-te. Mas o que mais marcou foi a disciplina. O americano não te dá tempo para pensar se uma coisa vai ou não dar certo. Isso me deu possibilidades de investir em mim mesmo. A bendita mão de Deus levou o Alvin ao Brasil. Ele me levou para Nova York e isso fez com que meus projetos amadurecessem. Foi um grande mestre e uma grande escola.

A sua ida a Berlim tem um motivo especial?

Fiz um solo em Nova York e me convidaram para apresentá-lo em Berlim e Viena. Quando fui para a Alemanha, Berlim estava fervendo com a grande revolução da dança teatro e toda aquela efervescência me fascinou muito. Quando voltei para Nova York sabia que o tipo de pesquisa que eu estava desenvolvendo já no Brasil, isto é, a busca do meu próprio tipo de linguagem — e que foi o que chamou atenção do Alvin – não poderia ser concluso ali. Fui para a Alemanha porque me identificava totalmente com o que estava acontecendo naquele momento.

Você tem um trabalho muito forte ligado a Márcia Haydéee, como foi que vocês se conheceram?

Conheci Márcia em Stuttgart, cidade que me acolheu como filho. Fui coreógrafo em residência num segundo teatro da cidade, que era paralelo aquele que Márcia dirigia, o Stuttgarter Balleu. Mas começamos a trabalhar juntos muitos anos depois. Viajamos o mundo apresentando espetáculos de grande sucesso por cinco anos, eu coreografava duos para nós e ela dançava como uma rainha do ballet que é.

Em 2002 você apresentou o solo Mapplethorpe, uma homenagem a Robert Mapplethorpe. Por quê?

Mapplethorpe foi um grande fotógrafo americano, controverso, é debatido até hoje. Uma das suas especialidades era fotografar, muitas vezes de forma explicita, o corpo do homem negro nu. Quando estava em Nova York, encontrei uma jornalista que tinha conhecido em Berlim, que estava indo entrevistar o Mapplethorpe e fui junto. Chegamos e quase tomei um susto, porque, até então, não tinha a menor idéia de quem era aquele fotográfo. Quando vi aquelas fotos de homens negros nus, caiu a ficha de quem era ele. No final da entrevista a jornalista lhe pediu uma foto. Para minha supresa, ele disse que só faria a foto se pudesse me fotografar. Sentei, tirei a camisa e me deixei coreografar. Sim, porque era isso que fazia, ele estava utilizando a lente como estudo anatômico do meu corpo, aí dizia: agora move a cabeça lentamente para esquerda, para a direita. Foi uma grande viagem, ficamos quase duas horas no estúdio. Depois da sua morte decidi usar o seu sentido da fotografia, a experiência pessoal que tive e toda a polêmica de seu trabalho. Assim nasceu o solo, criei um diálogo com ele e toda a temática racial que envolvia sua obra. Esse foi meu primeiro contato com a Bienal, apresentei o solo no festival de 2002.

Como você recebeu o convite para ser curador da Bienal de Dança de Veneza?

Sempre admirei a Bienal por ser um espaço cultural progressista, a considero uma das coisas mais fantásticas relacionada às artes e, ser curador de uma das vertentes dessa mãe das Bienais do mundo, é superimportante e satisfatório profissionalmente.

Em Iluminata, a coreografia que você criou para a abertura da Bienal passada falava, entre outras coisas, de morte, mas não é a primeira vez que você usa esse argumento em uma montagem sua. Em Mapplethorpe era a simbologia para a libertação da alma.

A morte sempre me encheu de curiosidade. Não como libertação da alma, mas como questionamento do corpo, é nisso que se centra o meu trabalho. O corpo e a utopia do corpo. O que é e que tipo de representação simbólica, social, existencial há. O meu trabalho, na realidade, tem inspiração puramente existencial.

O tema da Bienal do próximo ano será o erotismo. Corpo, alma e ciência e ano que vem eros. É o fim de uma trilogia?

Sim. Uma trilogia iniciada em 2005, quando fizemos BodyAtack ou Ataque do Corpo, que significava o corpo como um documento do tempo. Como os coreógrafos respondem a esse tipo de energia social pós World Trade Center. Esse ano eu fui para o corpo biológico. Corpo, alma e ciência, o que estamos fazendo com nossos corpos? Estamos chegando ao ponto de transplantar tudo. O que é esse corpo biológico? Toda essa discussão dentro do tema UnderSkin ou Debaixo da Pele. E fechando a trilogia eros. O festival será dionisíaco, o que resta em nós do ser animal? O cheiro, o amor, o ódio, todas essas sencações carnais, por isso a intitulei Corpo e Eros.

O que você pensa sobre a situação da dança no Brasil?

O Brasil sempre foi um celeiro de talentos e continua sendo porque nós vivemos numa hiper-realidade, em um realismo mágico de Jorge Amado. A gente já nasceu nessa realidade absurda, Jorge Luis Borges falava que para entender a realidade da América do Sul depende muito do ângulo que você a vê. O corpo do bailarino brasileiro é aberto a essa fantasia, ele cria, improvisa uma realidade, canibaliza uma idéia e a recria. O Brasil tem esse celeiro imaginativo muito forte.

O Ari Candido dirigiu um documentário – O Rito de Ismael Ivo – sobre você.

Conheci o Ari muitos anos atrás e, por curiosidade de cineasta, ele começou a me filmar. O documentário foi realizado no exato momento entre os dois Ismaeis, o que estava com vontade de sair do país, de conhecer e de evoluir, mas não tinha uma perspectiva concreta e o que saiu e que hoje dirige a Bienal de Dança de Veneza. É um registro biográfico.

Um sonho na gaveta?

Gostaria de ser diretor de dança de uma companhia oficial no Brasil, de poder passar toda minha experiência, que vai do afro ao clássico, passando pelo butô, dança contemporânea e dança-teatro. Acho que sou um dos únicos brasileiros que têm esse tipo de história, linguagem e material. Queria deixar todo mundo de boca aberta com o talento e a capacidade de invenção que existe neste país.

Ismael Ivo por ele mesmo

É esse bailarino afrobrasileiro que um dia resolveu acreditar que era possível e até hoje continua se surpreendendo com o resultado disso.

Janaína Cesar Revista RAÇA”
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Spirito Santo
Julho 2010

Vampirinhos de Shangrilá



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Imagem em negativo de um morango cravejado de pontas de lápis

Conto

Anna Maria, Mariana, Maria Anna. O nome ninguém sabia direito, quanto mais o sobrenome. Morava para lá da terceira porteira das terras dos Monlevade. Bem pra lá. Certeza só se tinha uma: Era pobre, porém, pura. Toda a família jurava, todos diziam. Imagina se não?

Cidade de interior. São João Moreira de Shangrilá. A plaquinha na estátua dizia: ‘padre capuchinho português morto nas montanhas do Nepal por soldados chineses em 1952′.

Os beatos mais velhos rogavam pragas contra os ‘amarelos’, todos os dias e todas as noites, em ladainhas sem fim. Claro. Cidade católica apostólica romana, a mais não poder. Queriam o quê, que espumantes de raiva, esbravejassem contra os chineses, aos palavrões?

Todos os homens também eram puros – puros não, que isto por ali era coisa de invertidos, de duvidosos – honestos, corretos, beatos, por assim dizer, isto sim. O prefeito, por exemplo, era um santo homem, Dr. Luiz de Almeida Santoza. Todos os vereadores, tanto os da família Santoza quanto os da família Molevade o eram, beatos todos.

Para encurtar a novela, ali eram filhos de Maria todos os políticos a partir de 1964, o ano da canonização de São João de Shangrilá, o tal santo padroeiro.

Antes disso ninguém conta como eram ou o que eram as pessoas. Só se sabe que a cidade, antigamente, se chamara Portão do Desterro. Nome triste, medonho que, por conta de ser coisa do passado, ninguém ousava explicar de onde vinha. Com que então, se o passado de São João de Shangrilá era um completo mistério antes daí, cuidemos, pois, do futuro, que é coisa certa, que a Deus pertence.

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O futuro é do Moço Bom, João Monlevade Filho, que passeava por aí sem moto, sem carro e sem avião. Tinha isto tudo, mas não, curtia a rua de todo mundo, como se diz: como mais um entre os que têm o pé no chão. O melhor amigo dele era quem? Maculeba, o artesão da praça, um negão hippie, sujo, imundo, um carvoeiro de madeixas rastafári, um mendigo inteligente, por assim dizer. Falava com todo mundo, o Moço Bom, fazia festa para os meninos e os cachorros. Gente fina, este filho do senador João Monlevade, o fazendeirão do lugar.

Ultimamente andara sumido, meses a fio. Cochichava-se, mas ninguém falava coisa que se pudesse acreditar. Gente pura não especula para o mal.

_’ Tá no Rio de Janeiro! ‘-

Diziam como única certeza vaga, porém, verdadeira. Voltou magrinho, de olhos fundos, esquisito como não sei o quê. Vestindo uma roupa preta, botas pretas, tudo preto. Tinha até umas riscas pretas, embaixo dos olhos, como rímel de mulher.

Todo mundo reparou, é claro, olhando de banda, a estranha reaparição do Moço Bom. Só as donzelas de Shangrilá falaram, condoídas. As mais afoitas afirmando, convictas:

_ ‘ Virou noites e noites estudando, o coitadinho. Tentou de novo o vestibular!’

_ ‘Vai ser médico ‘- suspirava a outra

‘Médico não, Doutor! Diretor do Hospital!’ – Enfatizava a mesma, delirante.

Magro. Diferente demais do Joãozinho Molevade de antigamente. Andava agora como um estrangeiro, sem falar com ninguém. Macambúzio, olhando para o chão ou para os lados, nunca para algum lugar. Procurando alguma coisa na própria cabeça. Maculeba, vivido, escolado, maldou logo de saída.

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Certo dia, aquela (a quem, por falta de uma certeza, vamos chamar a partir de agora, de Marianinha) deu de emagrecer também, assim, a olhos vistos. As bochechas brilhosas sumiram. Ficaram só duas covas fundas, macabras, vazias como sepultura de desencarnado ressuscitado.

É por isto que ver os dois juntinhos, feito carne e unha, pra baixo e pra cima, pela rua afora, foi um pouco uma surpresa sim, mas, não tanta. Moço Bom com Moça Pura, afinal, é tudo que a sociedade de São João Moreira de Shangrilá pode querer e merecer. É alvissareiro. É bonito. Serve para asseverar que a cidade também é pura.

Além do mais, isto de Moço Rico com Moça Pobre ser pecado mortal, já foi tempo. Isto foi na época do – cala-te boca – Portal do Desterro, naquele tempo em que o povo não sabia o seu lugar. Agora não. Nascendo bebê, a família da moça acoita. Não nascendo, melhor ainda porque, não haveria nenhum risco do Moço Rico ter que casar.

Mas não. Preocupação à toa. Não namoravam, não beijavam. Além das mãos dadas, os dois nem se tocavam. Andavam só, pra baixo e pra cima, dia e noite – principalmente noite – olhando para cá e para ali como doidinhos.

Duas caveiras ambulantes é o que pareciam. A mãe dela, o pai, as tias, todo mundo se remoendo. Puros que eram, conjecturavam, conjecturavam, mas, não entendiam nada. Seria alguma paixão destas de secar rio? Definhamento de amor? A juventude era mesmo de uma estupidez sem tamanho, concluíam.

O certo é que o apelido que Maculeba dera, naquele seu jeitão franco de ser, foi se espalhando, se espalhando, como fofoca num rastilho, até estourar um dia, na manchete do jornal ‘A folha do Vale’, o tablóide da cidade:

_ ‘Extra! Extra! Vampiros em Shangrilá!’

Maldade de Maculeba, se sentindo ignorado pelo amigo. Se o fossem, não passariam de vampirinhos lânguidos, românticos. Perigo nenhum. Imagina?

Quantos contos não inspirariam? Quantas redações de grupo escolar? Mentira grossa, claro, mas já se falava até numa minisérie na TV da capital, num filme francês, num best seller. Mas, não teve jeito. O caso, de rumoroso, se complicou e desembestou pela ladeira da tragédia abaixo.

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Primeiro foram as galinhas, que apareceram murchas, só ossos e penas, como sacolas de plástico vazias, porém, andantes. Depois um cabrito e um porco da fazenda, também definharam sem morrer. O cachorro do dono da farmácia da praça, pronto, também. Uma fauna enorme de bichos magrelos, chupados feito laranjas, bagaços circulando por aí.

_’É o Chupa Cabras!’ – Gritou Maculeba, maldoso. Mas, como se os seres continuavam vivos e, com as veinhas cheias de sangue, intactos?

_’ Lobisomem!’ –

Gritaram as tias da moça, desesperadas (para elas, o Moço Bom já estava mesmo era passando da conta, cabendo mais na pele de um Coisa Ruim, de um Tinhoso)

Mas como, se os magrelinhos todos, bichos e gente, andavam no sol a pino, de dia, sem pelos nas ventas, sem dentes afiados, sem garras, sem nada de lobo, só a magreza de faminto aparecendo? Seria alguma doença, uma epidemia, talvez?

_’Isto. Uma doença! – Dizia o dono da farmácia, olhando o fundo dos olhos do pobre do cachorro. Sim, mas, que doença seria esta, meu Deus?

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Dez dias depois. O senador, pai do Moço, sumiu. Dias sumido.  Saiu com a camionete, intempestivamente. _’Foi à capital! ‘ – Disse o capataz, apreensivo com alguma coisa que não quis dizer.

Antes dele partir, na casa estivera a mãe do moço, uma mulher de meia idade com cara de sirigaita, bruxa, com o cabelo pintado de louro e a boca esticada como o bico de uma pata, os olhos tão apertados pelas cirurgias  que lembravam, imediatamente, os olhos dos tais chineses que mataram o pobre do padre João Moreira lá no alto do Nepal (a descrição maldosa, foi feita por Maculeba que odiava a madame mãe do Moço Bom, mas, em consideração ao amigo, se recusava a dizer porque).

O capataz contou que ela revirou o quarto do garoto e achou o que já sabia: Umas pílulas verdes  que ele trouxera da cidade. Reviraram o quintal e acharam mais pílulas, espalhadas pelo chão, pelo cercado dos porcos, pela grama enfrente da casa, no fundo do açude.

Brigaram, aos berros, os dois. Depois choraram. O capataz os viu saindo na camionete, ainda com a noite alta, sumindo de Shangrilá. O capataz, por via das dúvidas, sumiu também. Além dele, só Maculeba, o mais esperto de todos, também partira. Lógico. Já disse. Maculeba maldara tudo, desde o início, estão pensando o quê?

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Ontem as luzes da cidade ficaram acesas durante toda a noite. Hoje também, desde o dia nascendo. Ninguém apagará uma lampadinha que fosse.

Já eram muitos, centenas de magrelinhos zumbis. Primeiro todos os jovens da cidade, cinzentos, com os rostos encovados, foram aparecendo, saindo de suas casas, de cada canto de Shangrilá, até das fazendas mais distantes. Foram se amontoando na praça, em torno do Moço Bom e da Moça Pura, líderes aparentes daquela esdrúxula seita dos vampirinhos de Shangrilá.

Os bichos magrelos em volta deles, a cacarejar, a balir, a latir e a grunhir. Uma sujeira enorme, de tudo que é dejeto, largado, esparramado pelo chão. Os porcos, sem cerimônia, cercaram a estátua do coitado padre João Moreira, como se ela fosse um chiqueiro. Antes cagado só pelos pombos, o mártir ficou lá, embostalhado, mais martirizado e humilhado, do que o foi nas montanhas do Nepal.

Logo logo, a cidade inteira estava tomada por aquela mazela sem explicação. Pais, mães, tias, todos foram se tornando magros e cavernosos. Com a sabedoria das tias, da magreza, soube-se logo o motivo: É que, com a doença estranha, que a todos contaminara, ninguém comia, só perambulavam, atrás do Moço e da Moça, sabe-se lá por que.

O mercadinho ‘Que Barato’ já não funcionava. Não se comprava mais nada. O primeiro jornalista que chegou de uma cidade próxima, para cobrir o estranho incidente, sóbrio, percebeu que todos procuravam por pílulas, mas, não entendeu muito bem do se tratava. É que as pílulas todas, de todos os tipos haviam sumido. Ninguém sabia quem tinha, uma delas sequer, para vender.

Fanhão, o dono do mercadinho, tentou se aproveitar da situação e mudar de ramo. Quis entrar no negócio das pílulas, naquele empreendedorismo afoito dos espertalhões. Deduziu de pronto, que o Moço Gente Boa, devia saber onde encontrar tão ansiada mercadoria. Ah! Como se arrependeu, amargamente.

Logo no dia seguinte apareceram aqueles caras mal encarados, vestidos de preto, vindos não se sabe de que lugar. Deram uma carraspana tão bem dada em Fanhão que ele sumiu no espaço, se escafedeu do lugar.

Nem o mercadinho ele fechou. A loja ficou lá escancarada, as gôndolas cheias de ratos guinchando, únicas criaturas da cidade a quem as tais pílulas não interessaram (ou não apeteceram, vai saber?).

O cheiro das mercadorias podres no mercadinho ‘Que Barato’ exalava, assim, por toda a pracinha, sem ninguém se importar ou se dar conta. Até que um dia a camionete dos mal encarados, de repente, partiu da cidade, sem quê nem porquê. (Esta Maculeba não podia perder, mas, Deus – ou Jah – sabe o que faz. No final das contas,veremos quem acabou ganhando.)

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Enlouquecido de anseios, fissurado, desesperado, o povo se estapeava pelas ruas. Uns querendo porque querendo, uma poeirinha que fosse, daquela maldita bolinha da felicidade. Daquela sanha foram saindo aos poucos, caindo num torpor de ex-bêbados na ressaca. Do torpor, caíram num sono pesado, quase igual à morte.

Acordaram aos poucos, uns tontos, outros pasmos. Foi aí que os menos tontos se deram conta de tudo: Não existia mais São João Moreira de Shangrilá!

Os ratos e os mal encarados haviam destruído, levado tudo de roldão. Os últimos a despertar foram os jovens, que vagaram ainda, por horas a fio, olhando desolados para o que Shangrilá havia se transformado. Cidade chupada, sugada, com covas fundas na geografia, suja e cinzenta, igualzinho ficara a cara dos vampirinhos. Uma cidade zumbi.

A Moça Pura e o Moço Bom haviam desaparecido também, misteriosamente. Alguém achou que os viu na camionete, partindo com os mal encarados sabe-se lá para que lugar. Achar que viu, contudo, não é ter certeza. Só se sabe que se esvaíram, como esvaíram-se suas carnes, quando emagreceram. Evaporam. Nem vampiros agora eles eram mais.

Muito menos de Shangrilá.

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No outro dia o pai do Moço Bom voltou á cidade. Trouxe o resultado da investigação sobre a origem das pílulas. Elas vinham de uma fábrica enorme, na capital. Estão sendo distribuídas por todo o país. Começam pelas grandes cidades, dando as pílulas para uns, que vão dando para os outros, até que todos, inebriados, dependendo delas para sobreviver, abrem mão de tudo, até mesmo ou quase, da própria vida. Os donos da fábrica são figuras notórias, mas, ninguém ousa proferir seus nomes. Não são Santoza nem Monlevade, pelo menos é isto que se pode dizer. Os Santoza e os Monlevade– relembrem – são todos… puros.

Como o nome Marianinha, o nome real da tal pílula também ninguém sabia. Se alguém descobriu, decidiu também omitir. Podemos dar-lhe qualquer nome então. Vamos chamá-la de Pílula Verde da Felicidade Geral da Nação: Pivefegena

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Da cidade vizinha já chegam alguns rumores sobre a chegada de vampirinhos, mas, o povo de Shangrilá, irrecuperável, não vai alertar os vizinhos sobre o que virá depois. Afinal, o que virá depois eles também querem: Bolinhas da felicidade. Pivefegena.

A cidade vizinha é a minha. Rezem por mim. A me valer, talvez, só mesmo Deus ou, quem sabe, o bondoso e valoroso São João Moreira de Shangrilá!

Spírito Santo

Junho 2007