Os cavaleiros da távola quadrada também são alvos

Aviso aos desavisados: O rico vestido da escrava, de alvo e impecável brocado, foi logicamente emprestado só para a foto

Aviso aos desavisados: O rico vestido da escrava, de alvo e impecável brocado, foi logicamente emprestado só para a foto

Neo-racismo para principiantes
Pauta franca para os que são brancos se entenderem

Uns um tanto mais radicais e veementes que outros, adestrados que alguns são no uso de uma verve um pouco mais sutil – e portanto não sendo, aparentemente, nem tão racistas assim – os cavaleiros da távola quadrada, até agora identificados  são:

Ali Kamel (já amplamente comentado aqui por ser o mais poderoso dentre todos), Ivonne Maggie, Peter Fry, Demétrio Magnoli, Rodrigo Constantino, Caetano Veloso, Hermano Viana e José Miguel Wisnik (os tres últimos já levemente comentados recentemente)

É no intuito de avançar nesta prolongada luta (creiam-me, ela já dura desde 1888) que proponho aqui que se coloque na berlinda os nomes e as posições defendidas por esta gente, para que se possa expor as incongruências e fragilidades de seus discursos e opiniões mais amplamente, retirando-os do círculo restrito – e seguro – em que se escondem, acobertados –  e quem sabe, até mesmo orientados – por poderosos grupos de mídia (como é o caso do jornalismo das Organizações O’ Globo e seu todo poderoso diretor Ali Kamel).

O método é simples. Vamos expor aqui uma série de aparições públicas e/ou textos curtos, porém representativos da posição de cada um destes que eu chamo (impertinentemente, reconheço) de ‘cruzados neo-racistas’, seguidos de comentários críticos que imaginei pertinentes, elaborados por mim a princípio, mas que poderão ser complementados por quem quer que queira participar deste bom e divertido jogo de armar.

(Não percamos de vista é claro, que algumas das figuras abaixo relacionadas como sendo eventuais integrantes desta cruzada do mal são proeminentes intelectuais, ícones da nossa cultura, ídolos – até de mim mesmo – conceituados e incensados formadores de opinião.

Quem disse aí que eles são  ‘ídolos de barro’? Será que aquela malvada cigana, bela ancora do nosso jornal nacional mais íntimo, teve a pachorra de  nos enganar?

Só há um jeito de saber isto: Jogando o jogo deles, debatendo sem trapaças, sem cartas ocultas na manga e sem escamoteações a essencia da mais empedernida das dúvidas, na base do ‘que vença o melhor’.

Vamos lá então?

————

Convidada para a mesa (redonda) de hoje:

Yvonne Maggie, doutora em antropologia social, professora titular do Departamento de Antropologia Cultural do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ  (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Tese: “Uma lei para dividir a nação

Yvonne Maggie

Se o presidente sancionar o Estatuto da Igualdade Racial, gravará seu nome na história como aquele que dividiu o povo em raças e etnias.

Acaba de ser aprovado no Senado Federal, por meio de acordo entre lideranças, o Estatuto da Igualdade Racial. O projeto original do senador Paulo Paim propunha, entre outros itens, cotas raciais para “negros”” nas universidades e políticas “racialmente” definidas nos sistemas de saúde e de educação.

A nova redação, elaborada pelo esforço do senador Demóstenes Torres, exclui as cotas raciais e substitui o termo raça pela expressão etnia. Retira também parte substancial dos itens referentes à saúde e ao estímulo à criação de uma identidade negra. A aprovação do estatuto é a demonstração de que não há consenso no Brasil sobre a matéria: as ONGs, dirigidas por ativistas negros e que atuam no Congresso, reclamaram que a espinha dorsal do projeto havia sido quebrada.

O ministro-secretário da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) declarou que o “estatuto guarda-chuva”, tendo aprovado as ações afirmativas, aprovou também a política de cotas raciais e estas poderão ser implantadas sem passar pelo Congresso Nacional. Isso porque se configuram como um dos tipos de ação afirmativa -um golpe na pretensão dos senadores que não aprovaram as cotas raciais, mostrando que o governo não está de acordo com a solução proposta pelo Congresso.

Onde está o consenso necessário a esta mudança radical do nosso estatuto legal? Se o estatuto for sancionado pelo presidente Lula, será a primeira lei racial do nosso país, pois carrega no seu nome e em seus princípios “raça” ou “etnia” como critério de distribuição de justiça. Se o presidente Lula sancionar esse estatuto, gravará seu nome na história como aquele que dividiu o povo em raças e etnias.

Não serão mais brasileiros ou trabalhadores lutando por direitos iguais, serão negros e brancos, afrodescendentes e eurodescendentes lutando entre si por direitos desiguais.
É espantoso ver um Congresso fraco diante da pressão de grupos organizados
que falam em nome do povo sem mandato algum. Os senadores, estes sim eleitos pelo povo, demonstraram pela aprovação do estatuto que estão preocupados com as desigualdades, inclusive entre os mais escuros e mais claros, mas não querem dividir o povo. Se a intenção desta lei é produzir um país mais igualitário, o resultado será o oposto.

Tratar desigualmente os mais pobres para que saiam da pobreza significa
diminuir iniquidades. No entanto, criar etnias legalmente em um país que repudia divisões étnicas oficiais terá o efeito de nos levar em direção a cisões irreparáveis e perigosas. Enquanto a pátria estava de chuteiras na Copa da África do Sul, terra de
Nelson Mandela, o prêmio Nobel da Paz que tanto fez para abolir a divisão da sua pátria em etnias, o Senado brasileiro aprovava um estatuto da igualdade racial dividindo o povo em etnias. O presidente Lula não deve sancionar esta lei. Deve, sim, ouvir o coração da grande maioria dos brasileiros, que repudia a separação oficial em “raças” ou “etnias” e quer ficar unida na luta contra desigualdades, injustiças e racismo.

—————–

Meu modesto aparte:

Esta posição reacionária contra um dispositivo de lei que de algum modo tenta corrigir um problema de nossa democracia fazendo-a avançar, de modo algum pode ser aceito como uma posição séria partindo de uma Professora Doutora em Ciências Sociais como Ivonne Maggie, com amplo conhecimento das bases mais fundamentais dos processos de exclusão sócio racial do Brasil, não só por conta de sua especialidade acadêmica como também por conta de sua ampla convivência e trânsito como simpatizante – quase militante, diga-se – junto ao movimento negro, em sua trajetória como estudiosa que se especializava no tema ali pelos anos 1980.

Uma sã teoria ou uma vã conspiração?
Ai, ai…o que se diz numa hora destas?

Temos repetido aqui que, ao que tudo indica, trata-se nitidamente de uma corrente, de um grupo articulado de importantes formadores de opinião, empenhado numa espécie  de cruzada ou ‘guerra santa’, contra a adoção de qualquer tipo de ação afirmativa que vise atender aos reclamos e interesses da população negra… ok, vá lá que seja…população ‘não branca’ do Brasil.

Chamei-os lá em cima de Cavaleiros da Távola Quadrada por isto. É que, pelo menos para mim eles não passam muito de histéricos arautos do atraso.

O fato mais evidente nesta discussão toda – enfadonha a mais não poder – é que a posição ideológica desta gente é clara: estão a fim de  impedir a todo custo a ascensão social de negros por meio da chamada ‘discriminação positiva’ ou seja, combatem veementemente, a promulgação de leis que agilizem o acesso destes grupos à direitos sociais elementares, eventualmente barrados por força de mecanismos de exclusão que os afetam especifica e seletivamente (no caso do Brasil e de seus negros, o Racismo).

Em linhas gerais este pessoal é, direta e frontalmente, contra a admissão por parte do Estado brasileiro de que há exclusão sócio racial no Brasil, admissão esta que, fatalmente abriria caminho para a adoção de diversas leis que facilitariam o acesso privilegiado (discriminação positiva) de negros a diversos direitos e benefícios sociais – principalmente acesso à educação de qualidade –  atualmente a eles negados pelos referidos dispositivos de discriminação negativa vigentes.

Apesar de mutilado em suas partes mais incisivas e objetivas (por força exatamente da campanha sistemática deste grupo de  diligentes ‘cruzados’ adversários da tal Igualdade Racial) o  Estatuto está prestes a ser sancionado. Apesar de seu alcance restrito e sua aplicabilidade tornada quase nula ele,  o Estatuto, tem, contudo um mérito paradigmático: Torna enfim efetivo o reconhecimento de que oficialmente racismo no Brasil, contingência que abre novas e promissoras possibilidades de luta contra esta tão renitente aberração de nossa – por isto mesmo –  ainda frágil democracia.

Azar de quem desdiz, mas vamos combinar que o conceito Democracia no Brasil – a falta de – se refere  simplesmente  a isto: A parcela excluída, afetada pelas limitações impostas  pelas circunstancias particulares do conturbado processo de organização de nossa sociedade , passou a ter após a abolição da escravatura, um perfil biotípico ou étnico bem determinado.

(Maior azar ainda, portanto para quem calhou de cair no lado dos descendentes de escravos, certo?)

Com a aprovação pelo congresso brasileiro do Estatuto da Igualdade Racial a questão passou a estar, portanto no olho do furacão. A discussão tende a sair dos gabinetes parlamentares e das salas fechadas das reuniões de militantes prós ou contra, para as ruas (onde provavelmente pegará fogo).

Já é perceptível em algumas rodas de rua ou bares, no seio da população que se supõe branca, certa tendência a demonstrar um mal dissimulado desconforto, um mal estar ainda timidamente expresso diante da eminência desta nova situação,  da eventualidade de ter de abrir mão de certos privilégios que lhes eram exclusivos, a serem agora disputados também por um enorme contingente de novos concorrentes interessados, aqueles que cansados do lugar subalterno que ocupavam, estão prestes a poder se habilitar também – e em igualdade de condições- à ocupação de postos que estão ainda reservados apenas para brancos.

E quem são estes futuros novos cidadãos? Os negros e pardos do país.

É sim – já dá até para se sentir o cheiro –  leite azedo derramado, coisa de mais dia menos dia. É por isto mesmo que, neste momento, no âmbito destes setores ‘brancos‘, qualquer argumento, mesmo falacioso, que sirva para barrar ou, pelo menos, atrasar ou criar obstáculos a estas ações afirmativas será insistentemente plantado, alimentado, soprado como fagulha em monte de palha.

Estes argumentos, em minha opinião lançados na imprensa e na mídia em geral por este grupo organizado de  ‘Cruzados‘ do atraso, tentarão – e na verdade já tentam desde a década passada –  fomentar um sentimento de surda revolta no seio destes grupos de ‘brancos‘, visando dar consistência  e respaldo a uma eventual reação pública contra esta nova realidade.

Pode ser inserido neste mesmo contexto ideológico a grande recorrência existente hoje na adoção de discursos que tentam reciclar, requentar,  a mais que discutível tese da ‘Democracia Racial’ apoiada por um não menos suposto alto grau de miscigenação existente entre nós.

São parte também deste mesmo arrazoado teórico inúmeras teses e artigos publicados na internet e na imprensa em geral se referindo de forma, muitas vezes, enviezada e desarazoada a conceitos acadêmicos da moda tais como o ‘hibridismo cultural’ (numa releitura oportunista das teses do antropólogo argentino Nèstor Garcia Canclini) e ao totalmente fora de moda (caquético mesmo)  ‘Elogio à mestiçagem’, revivido sob o nome de ‘Anti-racialismo’ (uma ‘tese’ que é uma jóia sofismática sob qualquer ângulo que a analisemos), apoiado numa campanha de reabilitação da ambígua figura de Gilberto Freire, embolorado guru luso-tropicalista destes ‘neo-racistas’.

É bastante provável que, a exemplo do que ocorreu durante as intensas campanhas pró-abolição da escravatura, na qual o mote reacionário mais repetido era o chamado ‘Terror Negro‘ (suposto ataque de turbas de ex-escravos contra os brancos indefesos), também desta vez, muito provavelmente o método mais usado por estes ‘Cruzados’ do atraso, será – na verdade já tem sido – o terrorismo mais deslavado, calcado na histérica afirmação de que os negros assim que alçados a posições de igualdade em relação aos privilégios que eram exclusivos dos brancos, se tornarão perversos e vingativos instalando-se o ‘ódio racial no Brasil’. Nada mais falso e sem fundamento.

Afinal, se questionam tão veementemente a existência de um número significativo ou considerável de negros e pardos no país que justifique a adoção de ações afirmativas específicas, como podem, ao mesmo tempo,  considerar a possibilidade de um maciço… revanchismo negro?

Observem também – e sugiro que todos tenham diante deste aspecto a máxima atenção – que antes de estarem empenhados numa cruzada meramente racista estes cruzados podem estar sim é inseridos no âmbito de um projeto mais amplo de formação de uma espécie de nova direita no Brasil, no momento visando, diretamente ‘fazer a cabeça’ da população que se julga branca contra as ações afirmativas,  se apoiando no fato desta quase minoria estar – como já  dissemos acima – um tanto omissa e aparvalhada ainda diante da franca eminência de ter que se decidir ao final das contas, se é ou não é racista… na prática.

Assim sendo e para finalizar, se liguem, atentem bem para mais esta ressalva:

(Se não sou eu o terrorista) esta pode ser uma campanha subliminarmente urdida e dirigida para arrebanhar cabeças de brancos incautos.

O certo é que estamos aí, para o que der e vier do bom e do melhor, para todos nós, mas no caso desta perigosa gente neo-racista, vocês vão ter que me perdoar: Pouco temos nós (os que escaparam de ser brancos) a fazer senão refutar o que dizem, minando suas tolas contradições.

É como diz aquele velho ditado: Agora, aqueles que  são brancos que se entendam.

Spírito Santo
Julho 2010

—————–

Não percam, brevemente o raio X de outro não menos impoluto ‘cruzado’ : Rodrigo Constantino, acólito-mor de Ali Kamel em O’Globo.

Leia abaixo também, na seção dos comentários, os corajosos lances e jogadas dos que toparam entrar neste jogo.

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~ por Spirito Santo em 10/07/2010.

2 Respostas to “Os cavaleiros da távola quadrada também são alvos”

  1. (Acabo de receber do site Mamapress de Hamburgo este inflamado comentário publicado lá. Embora eu mesmo tenha numa matéria recente expressado apenas o ‘lado bom’ – porque para mim foi pouco percebido pela maioria – do Estatuto da Igualdade Racial, da forma como foi enfim sancionado, acho que cá entre nós – na base de se lavar a roupa suja – o comentário do Reginaldo Bispo que replico abaixo, é coisa para ser dita e repetida: Se não fossem os ‘traidores’ citados por Bispo, por certo teríamos avançado muito mais nesta questão, claro.
    Tomara que o Estatuto mutilado sirva ao menos para isto: Separar o joio do trigo. Fica, contudo a amarga lição: Fomos nós mesmos – o Movimento Negro- que legitimamos (por ação ou omissão) a ascenção deste tipo de liderança fraca, espúria e vendida, subsidiária de interesses que nunca foram os nossos.

    Fala Bispo!

    ” Escrito por Reginaldo Bispo
    Encolhidos em um canto, maravilhados com a presença de tão expressivas figuras, ídolos de seu tempo, os militantes do MNU, Hamilton Cardoso, Vanderlei José Maria, Cleber Maciel, Orlando Nascimento, Juan Pinedo, Lincoln dos Santos e Izabel Baltazar, Jonatas Conceição, até o velho Antonio Bispo, meu pai, indicam Lélia Gonzalez, como porta-voz do grupo, que entre a emoção e a raiva, vocifera “Traidores! Tentam enfiar goela abaixo de nosso povo, uma derrota como vitoria, atestado da incompetência desta negrada vendida, que tenta capitalizar polí tica e pessoalmente, enganando nosso povo. Repudiemos este estatuto eleitoreiro, sem força de lei, sem verba, que exclui os quilombolas e as cotas raciais dando um tiro no pé. A autonomia e a independência do MN e essência dà luta.”

    Por Reginaldo Bispo

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  2. É recorrente (e cretino) o argumento do antagonista, do opressor, dos de cima, de que os de baixo vão querer vingança. Estando em cima e ali querendo continuar, é o único que podem pensar, posto que avassalaram, escravizaram e hoje exploram os de baixo desde que o Brasil é esse. Quando um povo pobre se reconhece massivamente não branco e se apercebe explorado… o que tem a perder se não os grilhões?
    “Arriba os de bajo” significa “abajo os de riba”, por suposto!
    Essa gente também considerava que operário não podia fazer mais nada que trabalhar em fábrica pra eles enriquecerem se apropriando do resultado produzido deixando a esmola do salário pro sujeito reproduzir a força física pra voltar à fábrica no dia seguinte.
    Tudo isso, dirão, está fora de moda, na modernidade do estado (público) financiador do projeto (privado) neoliberal que eles idolatramm… fora da nova ordem mundial…
    Inda bem que não acompanho moda e modismos desde meus 14 anos, que era esse o meu mal.

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